Tesouros de Cornélio à Lapide

Extraído dos comentários deste célebre autor sobre as Sagradas Escrituras

Tradução feita por Pe. Uyrajá Lucas Mota Diniz

Salve Maria!

Cornélio a Lápide (1567 – 1637) foi um jesuíta e exegeta flamengo, muito conhecido por ter comentando praticamente a Bíblia inteira, obra esta que, certamente, influenciou nas pregações posteriores. Também é um dos autores aos quais Santo Afonso cita em muitas de suas obras, o que despertou-me o interesse em tentar encontrar alguma obra na nossa língua e, por providência de Deus, encontrei alguns textos – que vem sendo traduzidos, penso – pelo Pe. Uyrajá, a partir da edição espanhola Tesoros de Cornelio a Lapide, um trabalho magnífico contendo diversos textos extraídos de seus comentários sobre as Sagradas Escrituras e organizados por temas.

Espero que este trabalho seja continuado e que possamos ter acesso um dia a obra completa deste grande jesuíta. Que Deus abençoe o sacerdote que tem traduzido até então todos estes textos, não deixemos de rezar por sua alma e ministério.


ÍNDICE

Breve Nota Biográfica

1. Abuso de Graças
2. Ações de Graças
3. Adulação e Elogios
4. Aflições
5. Ambição
6. Amor a Deus
7. Amor ao próximo
8. Anjos
9. Apóstolos
10. Avareza
11. Jejum e Abstinência
12. Batismo
13. Blasfêmia
14. Bondade de Deus
15. Bom exemplo
16. Boa e má consciência
17. Provocação dos maus
18. Caída e recaída
19. Calvário
20. Canto
21. Cegueira Espiritual
22. Céu
23. Ciência
24. Circuncisão
25. Cólera
26. Compaixão
27. Comunhão dos Santos
28. Concórdia
29. Concupiscência
30. Confissão
31. Confiança em Deus
32. Contrição
33. Conversão
34. Correção
35. Criação
36. Cristão
37. Cruz
38. Cruzes
39. Curiosidade
40. Deveres dos superiores
41. Deveres dos subordinados
42. Deveres dos filhos
43. Deveres dos pais
44. Demônios
45. Demora na conversão
46. Desejos bons
47. Desespero
48. Desobediência
49. Desprendimento
50. Dignidade do homem
51. Discórdia
52. Domingo
53. Doçura ou Mansidão
54. Edifício espiritual
55. Educação
56. Embriaguez
57. Emprego do tempo
58. Endurecimento
59. Inveja (Envídia)
60. Escândalo
61. Escravidão do pecado

Padre Cornélio a Lápide (1567–1637)

Quem foi Cornélio à Lápide?

Cornélio à Lápide, ou seja, Cornelis Van den Steen, era natural de Bucold, área do Estado e Diocese de Lieja. Nasceu em 1566, data memorável naquelas comarcas. O Duque de Alba acabava de tomar as rendas do governo das províncias de Flandes e de Holanda que Guilherme, o Taciturno, dispunha-se a sublevar contra o rei de Espanha, Filipe II. Bucold, pátria de Cornélio, e Louvain, que habitou até quase os cinquenta anos, estão situadas próximas das terras baixas e pantanosas onde a casa de Orange obteve a modesta cadeira de estatuder (1), que foi para ela o primeiro escalão do trono da Inglaterra. Assim, pois, o fluxo e refluxo das tropas espanholas, os esquadrões alemães, dos pseudo reformados e católicos em pé de guerra, várias vezes chegou ao dintel de sua morada.

Ademais, se recordamos estes acontecimentos, não é porque Cornélio desempenhasse neles um papel ativo, senão que influíram sobre seus pensamentos, suas determinações e sua vida, e formam o fundo, por assim dizer, no qual se destaca seu puro e pacífico retrato.

Faltam-nos detalhes sobre a infância de Cornélio à Lapide; sabemos somente que, desde sua adolescência, entregou-se à Companhia de Jesus, que cumpria gloriosamente a missão recebida de Deus e contava, em suas filas, o mais escolhido da cristandade (2).

O jovem noviço era muito baixo de estatura e de tão débil compleição, que seu estômago chegou a não poder digerir os alimentos que tomavam seus companheiros; alimentos que, por austeridade, jamais quis modificar. Sentia-se vivamente inclinado ao retiro e ao silêncio; e sua regra de conduta era a seguinte máxima da sabedoria antiga: Oculta sua vida. A Ordem da qual fazia parte parecia- lhe certo asilo onde poderia viver na obscuridade, e era amigo de repetir as palavras de Jó: In nidulo meo moriar. Outros, sem embargo, eram os desígnios do Altíssimo. É verdade que Cornélio morreu na Companhia de Jesus; porém, a maior parte de sua vida ficou longe de ser a do pássaro oculto em seu ninho, em meio do profundo silêncio ou dos misteriosos murmúrios das dilatadas selvas. Cornélio era um daqueles homens que Deus escolhe em tempos de tempestade e de luta para converter-lhes em principais atletas do exército santo. Tinha um coração puro, a alma plena de caridade e de humildade, e os padecimentos que cada dia sofria foram, sem dúvida, o melhor título ante um Chefe coroado de espinhos. Tais padecimentos mantinham em seu coração o desinteresse das coisas mundanas, obrigavam-lhe a ser resignado e paciente, e lhe fizeram cada dia mais merecedor das inspirações do Espírito Santo. Não vemos outra explicação senão a de que a incompreensível Providência se deleita em eleger frequentemente instrumentos débeis para que mais ressalte que somente Ela é capaz de empregá-los. O Céu chamava a Cornélio, o homem quase inano, o enfermiço, não somente para que tomasse parte nas tarefas apostólicas da Ordem religiosa que ocupava o posto mais arriscado da luta, senão para prestar ademais serviços especiais à Igreja, serviços independentes da vida monástica: os que escritor e doutor.

Esta vocação manifestou-se precocemente.

O Protestantismo agarrava-se ao texto da Sagrada Escritura, o desnaturalizava e eliminava livros inteiros, arruinando deste modo a Tradição Católica em sua origem. Cornélio à Lápide sentiu-se pleno de entusiasmo para o estudo do Hebraico, dos Escolásticos e dos Comentadores, de tal modo que aos vinte e oito anos já era catedrático de Língua Hebraica e de Sagrada Escritura no Colégio de Louvain, e dezenove anos mais tarde publicava, por obediência, admiráveis Comentários sobre as Epístolas de São Paulo, quando seu nome já ocupava um lugar distinto entre os exegetas católicos. Ao morrer, deixou escritos dez enormes volumes em fólio sobre o Antigo e o Novo Testamento.

Para apreciar o alcance e o valor de uma obra tão considerável, é preciso conhecer de que maneira Cornélio olhou para a Escritura. Ele mesmo no-lo indica nos Prolegômenos com que prefaciou seus comentários sobre o Pentateuco. Seja- nos permitido resumir algumas de suas páginas.

O universo é um livro que expõe quem é Deus; com regras, foi formado como “tipo” da esfera incriada, e se lhe chamou espelho das coisas divinas. Sem embargo, em sua imperfeição, o universo não nos oferece uma ideia clara e exata da Divindade, senão unicamente vestígios por meio dos quais é fácil reconhecê-La.

Acrescenta-se que o livro da natureza não nos ensina as verdades de ordem sobrenatural, nem o que conduz ao Céu da Santíssima Trindade e à felicidade eterna, objeto dos desejos do homem durante sua vida e na hora da morte.

Por esta razão, a bondade divina acreditou ser conveniente dar-nos outro Livro além daquele do universo. Um livro no qual o homem encontrará não uma imagem muda da Divindade, sem características que falassem à sua vista, sons que ressoavam em seus ouvidos, ensinando que alcançavam sua alma e deram origem a ideias claras e viventes das coisas divinas; um Livro, por fim, no qual aprendesse a conhecer a Deus, a conhecer a si mesmo, assim como aos espíritos celestiais, a criação, as regras de conduta que deve observar, e os meios pelos quais há de chegar à felicidade.

Este Livro é a Sagrada Escritura.

Abraça, seja de um modo expresso, seja em princípio, todas as ciências, todas as regras, todas as noções.

Tudo quanto existe, pertence, com efeito, ou à ordem natural ou à ordem sobrenatural, que pode também chamar-se a ordem da graça, ou melhor, a ordem divina, que compreende a essência e os atributos de Deus.

As ciências físicas e a filosofia natural nos dão a conhecer o primeiro. Aqui na terra, a doutrina revelada, isto é, a fé e a Teologia, e no Céu, a visão de Deus, que é felicidade dos Anjos e dos Santos, nos dão a conhecer o segundo e o terceiro.

Ninguém pode duvidar que a Sagrada Escritura não somente nos ensina verdade da ordem natural, senão que é necessária para no-las dar a conhecer perfeitamente, porque, como diz Santo Tomás, a Filosofia não demonstra as verdade desta ordem senão a pequeno número de pessoas, à força de tempo e deixando infiltrar muitos erros.

Que luz tão resplandecente projetam os Santos Livros sobre Deus e seus atributos, sobre a imortalidade da alma, a liberdade do homem, os castigos e as recompensas futuras, e, por fim, sobre a criação! Ao desenvolver todas estas questões, procedem com uma certeza e uma solidez tais que temos de negar às ciências naturais e quando estas se extraviam, aquelas as levam a bom caminho.

Onde acharemos noções tão seguras sobre a criação e a origem do mundo, como as que não o Eclesiastes, Jó e o Gênesis? Não contém os livros históricos da Bíblia uma história primitiva de todos os povos e a única cronologia que não é um tecido de datas falsas? Que lógica e que política possuem a lógica e a política reveladas! Que tratado de moral pode comparar-se às curtas e profundas máximas recolhidas no Livro da Sabedoria, no dos Provérbios e no do Eclesiástico? Que metafísica poderá jamais igualar-se com a que desenvolve o Livro de Jó e os Salmos que, com uma poesia admirável, celebram o poder, a sabedoria e a imensidade de Deus, dos Anjos e todas as obras de suas mãos?

No tocante à ordem da graça e à ordem divina, é um mundo desconhecido da Filosofia, ao qual somente a Revelação franqueia a entrada.

Em que escola, senão na Escritura, pode o homem aprender o concernente à criação e à queda do homem; e à vida, a doutrina e a morte de Jesus Cristo; ao fim do homem e às condições da bem-aventurança? Que doutrina tão maravilhosa a que abraça todas essas verdades e se acha resumida nos Evangelhos e nas Epístolas dos Apóstolos!

A ciência da Escritura é verdadeiramente uma enciclopédia divina: expõe quanto nos interessa conhecer, e não fossem as verdades que encerra, os homens não haveriam pronunciado nem uma palavra que mereça ser repetida. Assim é que as obras dos Padres da Igreja, nos quais se acha mil vezes mais gênio, profundidade e encanto que nas mais belas obras do mundo grego e romano, não são mais que admiráveis comentários de um texto, todavia, mais admirável.

Santo Atanásio, São Basílio, São João Crisóstomo, Santo Ambrósio, São Jerônimo, Santo Agostinho, todos os mais sábios Doutores, não tem nem um pensamento que não se ache em gérmen, quando menos, na Escritura. São Gregório Magno ia mais longe: dizia que existem nos Livros Santos tais mistérios, que ainda não foram revelados aos homens e somente são conhecidos dos Anjos.

Disto se segue que, quase infinita em seu objeto, a ciência da Sagrada Escritura é dificílima por causa de sua específica profundidade.

Sucessivamente, foi maltratado mais ou menos por Moreri, Richard Simon, Dom Cardon, Ellies Dupin, etc. Porém, isto a ninguém causa admiração. A França que tão enérgica e gloriosamente combateu os erros da pseudo-Reforma, sofreu em parte, sobretudo no concernente à vida da alma, a influência do espírito protestante. Em vez de um racionalismo dogmático, viu nascer e estender-se uma espécie de racionalismo moral: a maior parte de nossos padres compreenderam mal as relações do homem com Deus e a ação de Deus sobre o homem. Um vento glacial passou sobre o coração e murchou demais aquela maravilhosa flor, plena de atrativos e de perfumes, que se chamava piedade católica.

O céu pareceu de bronze; o sobrenatural quase desapareceu, ou pouco menos, da vida dos homens e da história moderna; o que se chamava excesso de confiança em Deus, foi severamente vituperado, e o culto à bendita Virgem Maria reduziu-se a estreitos limites. Como era possível que achassem favor os comentários de Cornélio à Lapide, impregnados de piedade e do espírito de outras idades?

Dom Cardon, autor suspeito de heresia, os trata audazmente de “compilações informes, plenas de contos, de lendas e bagatelas”.

Em nossos tempos, a Biografia Universal de Michaud foi mais justa. Qualifica Cornélio de “orador eloquente, tão profundo em Filosofia e Teologia como versado em História”.

Que contraste entre este juízo e o que lhe precede!

Abstivemo-nos de pôr em relevo as vicissitudes que experimentou entre nós (na França) a obra de Cornélio à Lápide, se nosso século não fosse, segundo a expressão de um jovem e sábio eclesiástico, o século das reparações, e se Cornélio não tivesse direito a que assinalássemos aqui a que lhe é devida, ao menos na França.

As principais edições da obra completa do jesuíta de Bucold, uma das glórias da Companhia de Jesus, tão fecunda em sábios escritores, são as de Anvers, de dez volumes em fólio (1618-1642), a de Veneza (1711), e a de Lyon (1732), ambas de dezesseis volumes em fólio.

Nestes últimos anos, a casa de Pelagaud de Lyon publicou também uma edição de Cornélio à Lápide que consta de vinte volumes.


Referências:

(1) Estatuder foi um cargo político das antigas províncias do norte dos Países Baixos que envolvia funções executivas. Ao serem unificadas na União de Utrecht, foi criado um cargo supremo: o de Stadhouder e Capitão Geral das Províncias Unidas dos Países Baixos, controlado continuamente pelos Estados Gerais.

(2) É hoje em dia geralmente desconhecido o entusiasmo com que a juventude católica reuniu-se sob a bandeira de Santo Inácio de Loyola, a fim de fazer frente ao Protestantismo. A dedicatória das obras póstumas de Cornélio à Lápide dá-nos dele uma ligeira ideia. Nucio de Anvers, impressor de Cornélio, diz que tinha na Companhia de Jesus a um filho seu e a seus sobrinhos, filhos de suas três irmãs – tal era o contingente de uma só família.

(3) Um dos biógrafos de Cornélio à Lápide conta sobre o particular o seguinte episódio:

“Tendo, um dia, o honroso encargo de dirigir a palavra ao Papa, Cornélio começou de joelhos seu discurso, porém o Santo  Padre convidou-lhe a levantar-se. Apesar de haver obedecido no momento, sua pequena estatura fez  presumir ao Soberano Pontífice que continuava na mesma posição pelo que lhe convidou novamente a se levantar. Então Conrélio, compreendendo a razão para esta nova ordem, exclamou modestamente: Beatissime Pater, ipse, fecit nos, et non ipsi nos” [Santo Padre, (Deus) mesmo nos fez, e não nós mesmos] (LEGUY, Biografia Universal)