Escravidão do pecado, Tesouros de Cornélio à Lápide

O pecado faz-nos escravos

Escutai aquilo que diz o mesmo Jesus Cristo: Em verdade, em verdade, Eu vos digo, todo aquele que peca, é escravo do pecado: Amen, amen dico vobis, quia omnis qui facitpeccatum, servus estpeccati (Jo 8, 34).

Ó miserável servidão!, exclama Santo Agostinho; o escravo de um homem, cansado dos duros tratamentos de seu dono, pode algumas vezes achar repouso na fuga; porém, o escravo do pecado, onde poderá ocultar-se? Em qualquer parte onde se esconda, faz-se traição a si mesmo. A má consciência não pode fugir de si mesma, não há lugar onde possa ir para ser livre; persegue-se, ou melhor, sempre está ali; porque o pecado está em seu interior[1].

Prometem-se a liberdade, diz o Apóstolo São Pedro, quando, de fato, eles mesmos tornam-se escravos da corrupção; pois quem é vencido por outro, deste mesmo vencedor toma-se escravo: Libertatem illis promittentes, cum ipsi servi sint corruptionis; a quo enim quis superatus est, hujus et servus est (2 Pd 2, 19).

Aquele que comete o pecado é também:

1.° Escravo do demônio;

2.° Escravo da tentação;

3.° Escravo da morte;

4.° Escravo do Inferno; e

5.° Destinado à condenação eterna.

Explicando aquelas palavras do Salmista: Tuus sum ego, salvum me fac – Senhor, eu vos pertenço, salvai-me, Santo Ambrósio diz: Aquele que viva segundo o mundo, não pode dizer a Deus “- Sou vosso ”, porque tem muitos senhores. Apresenta-se a luxúria, e esta diz-lhe: “- És meu, posto que desejas coisas carnais”; vem a avareza, e esta diz-lhe: “— Tu me pertences, porque o ouro e a prata que possuis, são o preço mediante o qual tu te vendestes ”; chega a gula e diz- lhe: “— Tu és propriedade minha, porque um só festim é o pagamento de tua vida”; apresenta-se a ambição, e diz-lhe: “— Tu me pertences totalmente; acaso não sabes que eu somente te dei o mando sobre os outros com a condição de que fosses meu escravo? Ignoras que não te coloquei no poder senão para submeter-te ao meu império?”; acodem todos os vícios dizendo: “- És nosso escravo”; e o pecador, que não pode dizer a Deus: “- Sou vosso”, ouve que o demônio diz-lhe: “- És meu![2].

O demônio, diz o grande Apóstolo, mantém aos pecadores escravos de sua vontade: Resipiscant a diaboli laqueis, a quo captivi tenentur ad ipsius voluntatem (2 Tm 2, 26).

Diógenes dizia que entre os escravos e os maus senhores não existe outra diferença senão o nome, resultando, contudo, que os escravos servem a tais senhores, e aqueles senhores são escravos de vil e brutal cobiça (In Anxim.).

Todos somos escravos da paixão que nos subjuga, diz São Jerônimo: Unusquisque ei subjecetpassioni a qua vincitur (Epist.).

Façamos ao homem à nossa imagem e semelhança, diz Deus no Gênesis, e tenha domínio sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais que vivem na terra e todos os répteis (Gn 1, 26). O homem é, portanto, um ser nascido para reinar. Porém, o pecador, que é escravo até de suas mais vis inclinações, como poderá reinar sobre os demais?

Quereis saber quais são as cadeias que algemam e fazem escravo ao pecador? Responderei:

1.° É a falta ou a mancha do pecado que sobra depois do próprio ato do pecado;

2.° É o inseparável castigo da má ação, castigo ao qual está condenado o pecador. Submetido como se acha à ira e à vingança de Deus; porque o prazer e a ação do pecado passam; porém, a mancha e o castigo não passam;

3.° É ser escravo de Satanás. O pecador, diz São Dionísio, pode se considerar como uma montaria do demônio; porque assim como o ginete rege ao seu cavalo como quer, assim é também o demônio, inteiramente dono do pecador.

A mancha do pecado designa-o para a vara dos lictores[3]. E colocando a alma sob a vara de Deus, do pecado e do demônio (e este como executor das vinganças divinas), entrega-o à morte e ao Inferno. As cadeias dos pecadores nascem com o hábito do pecado; este hábito sujeita-os tão fortemente que não tarda em converter- se em necessidade; de modo que não se podem livrar de tal jugo, a não ser com um grande milagre de força e de graça do Céu, semelhante àqueles milagres que fez o Real Profeta assim dizer: Senhor, rompestes minhas cadeias; eu vos oferecerei um sacrifício de louvor, e invocarei o Nome do Senhor: Dirupisti vincula mea; tibi sacrificabo hostiam laudis, et nomen Domini invocabo (Sl 115, 16-17).

As cadeias dos pecadores não são outra coisa que a aglomeração e a conexão dos pecados; porque um atrai o outro, de um cai-se no outro, o roubo chega ao homicídio etc. E, de todas essas quedas numerosas e diversas formam-se tantos laços, e laços tão fortes, pesados, embaraçosos, vergonhosos e degradantes, que é quase impossível rompê-los.

Os pecadores, diz o venerável Beda, estão ligados com as próprias cadeias que eles mesmos forjam, e acabam por perecer com o incessante aumento de seus desregramentos. Porque aquele que faz uma corda aumenta a força dos fios torcendo-os e unindo-os, e consegue assim fazer uma corda muito forte. Tal é também a força das más ações. Tais são os livros dos hereges, dos escritores corrompidos e corruptores; acrescentam corrupção a corrupção, erro a erro, escrevem como vivem, e vivem como escrevem (In Collect).

Uma rede envolverá aos pecadores, dizem os Provérbios: Peccantem involvet laqueus (Pr 29, 6).

Quão triste e deplorável é a escravidão no pecado

Que situação mais triste, mais infeliz, mais desgraçada e deplorável que a do filho pródigo! Reduzido à pobreza, tendo fome, abandonado de todos os seus inimigos, escravo de um patrão sem compaixão, o qual lhe envia a guardar os porcos; deseja poder nutrir-se com os vis alimentos daqueles animais imundos! Eis aqui uma débil imagem do estado de servidão a que pode levar o pecado mortal.

Um pássaro atado com um fio trata de voar; porém, preso, não pode escapar; assim também o pecador, cativo de suas más inclinações, dá alguns passos, porém, sem adquirir a liberdade, detém-no os laços de seus desgraçados hábitos.

O homem terrestre e carnal crer ser livre, porém, na realidade, é escravo. Quer ser livre, e o querer tal liberdade é o que lhe lança na escravidão. Assim é que a liberdade afoga a liberdade de tal modo que o excesso de liberdade é uma extraordinária escravidão; porque, então, não há mais freio para as concupiscências, e chegamos a ser escravos de tantos tiranos cruéis quantas são as paixões diferentes que nos subjugam.

O furor do Eterno acendeu-se contra o povo, diz o Salmista; e entregou o povo ao poder das nações, e seus inimigos chegaram a ser seus donos. Seus inimigos oprimiram-nos e fizeram-no sofrer a humilhação de seu poder (Sl 115, 39-41).

Estavam sentados nas trevas e nas sombras da morte, encadeados pelo ferro e pela fome: Sedentes in tenebris et umbra mortis, vinctos in mendicitate et ferro (Sl 106, 10). Porém, aquela não era mais que uma sombra da escravidão dos pecadores!

Ouvi, pecadores, os gemidos dos hebreus escravos e cativos; entregai-vos aos mesmos lamentos, posto que o vosso estado é o mesmo, e ainda muito pior. Próximo aos rios da Babilônia, exclamam por meio do Real Profeta, nós nos sentávamos, e derramávamos lágrimas recordando-nos de Sião. Nos salgueiros de suas margens, penduramos nossas harpas. E ali, aqueles que nos levaram para o cativeiro, pediram o canto de nossos hinos. Aqueles que nos arrastaram cativos, disseram-nos: ‘Cantai os cânticos de Sião’. Como havemos de cantar os cânticos do Senhor em uma terra estrangeira? (Sl 136, 1).

Escravos do demônio e das paixões, dai um eterno adeus à felicidade e à vossa antiga alegria; porque perdestes tudo, perdendo a liberdade dos filhos de Deus pelo pecado mortal!

Encontramo-nos aqui na terra em uma escravidão semelhante à de uma criança ainda no ventre de sua mãe, diz São João Crisóstomo: Sicut in úteropuellus, sic in mundo vivimus interclusi angustiis (In Caten.). Estamos aqui nesta terra de desterro e de maldição em uma situação análoga àquela em que se encontrava Jonas no ventre da baleia.

Ainda que fosse rei, o homem insensato e pecador seria sempre escravo de suas paixões e servente de seus desejos, diz São Jerônimo; não pode, nem de noite nem de dia, sacudir o domínio deles, porque estão em seu coração; e experimenta interiormente uma servidão intolerável: Stultus esto imperet, servit propriis passionibus, servit suis cupiditatibus, quorum dominatio, nec nocte, nec die, fugari potest; quia intra se dominas habet, intra servitium potitur intolerabile (Epist. Ad Simpliciam.).

Toda paixão escraviza, diz Santo Ambrósio: Servilis est omnis passio (De Jacob et Vita Beata, lib. II).

Ainda que seja um escravo, o homem virtuoso é livre, diz Santo Agostinho, porém, ainda que que o culpável seja rei, é escravo, e escravo não de um só senhor, senão que – o que é pior – é escravo de tantos senhores quantos vícios tenha: Bonus, etiamsi serviat, liver est: malus autem, si regnat, servus est, non unius hominis, sed quodgravius est, tot dominorum quot vitiorum (Lib. IV, de Civitate Dei, c. III).

O rei Lisímaco entregou seu exército ao inimigo somente para apagar sua sede física. Feito cativo, depois de ter recebido e bebido água, exclamou: Desgraçado de mim, por um momento de prazer, que bens e que reino eu perdi! Era rei, e me acho convertido em escravo: Pro deum fidem, quam exiguae voluptatis gratia, quantum bonum, quantum regnum perditi; meque ex rege servum effeci! (Anton. in Meliis.).

“Ai de mim!”… Não tem mil vezes mais motivos de falar da mesma maneira o desgraçado pecador? Ó Deus, por uma gota de água, por um vil e passageiro deleite, quantos bens perdi! Perdi minha alma, perdi a graça, perdi as delícias do Céu, e encontro-me convertido em escravo do demônio, da morte e do Inferno por toda uma eternidade!

Servirá a teu inimigo com fome, com sede, nu e em maior penúria, diz o Senhor, e porá em teu pescoço um jogo de ferro até que te esmague: Servies inimico tuo in fame, et siti, et nuditate, et omni penúria, et ponet jugum ferreum super cervicem tuam, donec te conterat (Dt 28, 48). E ele devorará o fruto de teus ganhos e todos os frutos de tua terra até que pereças; e não te deixará trigo, nem vinho, nem azeite, nem rebanho de vacas, nem rebanho de ovelhas até que, enfim, te destruas inteiramente (Idib. XXVIII, 51). E te pisoteará, e os teus muros fortes e elevados serão derrubados, e comerás o fruto de tuas entranhas e as carnes de teus filhos e de tuas filhas que o Senhor te der, na angústia e desolação com que te oprimirá teu inimigo (Sl 28, 51-53). Porém, todas estas desgraças não são nada quando comparadas com a desgraça de um pecador escravo do demônio!

Temos pecado em Vossa presença, Senhor, exclama a rainha Ester, por cujo motivo vemo-nos entregues nas mãos de nossos inimigos: Peccavimus in conspectu tuo, et idcirco tradidisti nos in manus inimicorum nostrorum (Est 14, 6).

Ao ímpio envolvem suas próprias iniquidades, dizem os Provérbios, e está acorrentado nos laços de seu pecado: Iniquitaes suae capiunt impium, et funibus peccatorum suorum constringitur (Pr 5, 22).

Além das algemas de seu crime, o pecador carrega as de suas penas e a de sua penitência; porque estas também o atam, sobrecarregando-o e torturando-o. Penas temporais e eternas!

É necessário que sejamos escravos e que soframos todas as consequências e desgraças quando a carne comanda o espírito, ela que deveria ser escrava deste. Quando esta carne rebelde é bajulada e honrada, ela quer mandar, em vez de estar subordinada à razão. Que coisas mais desiguais em valor que a razão e a concupiscência, a alma e o corpo! A concupiscência e a carne são terrestres, semelhantes ao selvagem; porém, a razão e a alma são espirituais, grandes, nobres e semelhantes aos anjos pela inteligência e pela espiritualidade. A concupiscência e a carne são a mesma pobreza, a baixeza; porém, a razão e a alma tem um preço imenso! São, pois, absurdos abomináveis:

  1. Que a alma sirva ao corpo, pois a ela deve estar este submetido; e
  2. Que a razão seja escrava da concupiscência.

Edificastes ao meu redor, diz Jeremias, rodeaste-me de fel e trabalho: Aedificavit in gyro meo, et circundedit me felle et labore (Lm 3, 5). Edificastes ao meu redor para que eu não saia, e aumentastes o peso de minhas cadeias: Circunaedificavit adversum me ut non ingrediar; aggravavit compendem meum (Lm 3, 7).

Semeastes meu caminho de pedras cortantes, e destruístes minhas veredas: Conclusit vias meas lapidibus quadris, semitas meas subvertit (Lm 3, 9). E a paz foi extirpada de meu coração, esqueci a alegria, e disse: Minha força está perdida (Lm 3, 17-18).

Ó profeta Jeremias, ainda não é bastante hábil o teu pincel para pintar-nos as desgraças reais da escravidão do pecador!…

O justo é livre

Somente o justo é livre. A verdadeira liberdade consiste em obedecer a Deus!

Santo Efraim não conseguia compreender que fosse possível encontrar um homem que preferisse servir à criatura em vez de servir ao Criador (Serm.).

Ainda que o justo seja um escravo, é livre, diz Santo Agostinho (De Civit. Dei, lib. IV, c. III). O justo é livre; não sofre o jugo do pecado, da concupiscência, do demônio, do mundo, nem do próprio corpo, é dono de tudo isso. Está em possessão da virtude, da graça, da felicidade, do Céu, e do mesmo Deus.

Somente Jesus Cristo rompe a escravidão

A verdade vos libertará, disse Jesus Cristo: Veritas liberavit vos (Jo 8, 32). Porém, a verdade é Jesus Cristo: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14, 6).

Jesus Cristo destruiu quadro servidões, e deu-nos quatro liberdades:

1.° Rompeu o jugo da antiga Lei, e nos deu a liberdade do Evangelho;

2.° Destruiu o jugo do pecado, trazendo a liberdade da justificação;

3.° Destruiu o império da concupiscência, e nos deu a liberdade do espírito e o domínio da caridade e da graça; e

4.° Ele destruiu a morte, e deu-nos a vida.

Sejamos servos de Jesus Cristo, e teremos a liberdade de filhos de Deus, teremos o Espírito de Deus, porque, onde está o Espírito de Deus, aí está também a verdadeira liberdade, diz São Paulo: Ubi Spiritus Domini ibi libertas (2 Cor 3, 17). Fazei aquilo que vos digo, libertai-vos a vós mesmos, diz o Senhor nos Provérbios: Fac quoddico, te metipsum libera (Pr 6, 3).


Referências:

[1]  O miserabilis servitus! Servus hominis aliquando sui domini, duris imperiis fatigatus, fugiendo quiescit, servus peccati, quo fugit? Secum se trahit quocumque fugerit. Non fugit seipsum mala conscientia, non est quo eat; sequitur se imo non recedit a se; peccatum enim quodfacit, intus est (Tract. XLI).

[2]  Non potest dicere secularis: Tuus suum, Domine; plures enim dominus habet. Venit libido, et dicit: Meus es, quia et quae sunt corporis, consupiscis. Venit avaritia, et dicit: Meus es; quia argentum et aurum quod habes, servitutis tuae pretium est. Venit gula, et dicit: Meus es; quia unius diei convivium pretium tuae vitae est. Venit ambitio, et dicit: Plane meus es: nescis quod ideo imperare aliis te feci, ut mihi ipse servires? Nescis quod ideo potestatem in te contuli, ut meae te subjicerem potestatis? Veniunt omnia vitia, et dicant: Meus es. Peccator, qui nequit dicere Deo: Tuus sum ego, audit a diabolo: Meus es tu (In Psalm. CXVIII, Serm. XII).

[3] Os lictores, na Roma Antiga, eram escravos encarregados de ir a frente de um magistrado com feixes de varas denominados fasces, abrindo espaço para que esse pudesse passar. O seu número variava de acordo com o grau de importância do magistrado (cf. https://pt.wikipedia.org/wiki/lictor).