“Eis aí a tua mãe, eis aí o teu filho”

Capítulo VIII. "Eis aí a tua mãe, eis aí o teu filho"
Explica-se literalmente a terceira palavra de Cristo na Cruz

A última sentença das três, que particularmente dizem respeito à caridade do próximo, foi aquela:

“Eis aí a tua mãe, eis aí o teu filho”

Antes, porém de tratarmos dela, temos de explicar as palavras do Evangelista, que as precedem. Diz São João (Jo 19):

“Estava junto da cruz de Jesus sua Mãe, Maria mulher de Cléofas, e Maria Madalena: e vendo Jesus sua mãe, que estava em pé, e o seu discípulo predileto, diz para sua Mãe: Eis aí o teu filho, e depois diz para o discípulo: Eis aí tua Mãe; — e desde aquela hora o discípulo a tomou naquela conta”

Das três mulheres, que em grupo estavam junto da cruz do Senhor, duas são conhecidíssimas, Maria, sua Mãe, e Maria Madalena. A respeito de quem fosse Maria, mulher de Cléofas, não há certeza: geralmente, porém se diz que era irmã germana da Bem-aventurada Virgem, Mãe de Deus, filha de Ana, sua Mãe, que, dizem, também tivera uma terceira filha, chamada Maria Salomé, porém esta opinião não se pode admitir de modo nenhum, porque nem é crível, que três irmãs tivessem o mesmo nome, e tem fundamento o juízo de eruditos e pios, que dizem, que Santa Ana nenhuma filha mais tivera além da Virgem Maria, nem nos Evangelhos se faz menção de alguma Maria Salomé. Continue reading

Do terceiro fruto da segunda palavra

Capítulo VII. Do terceiro fruto da segunda palavra
Um terceiro fruto se poderá colher da mesma palavra do Senhor, advertindo-se, que três foram os Crucificados, no mesmo lugar e na mesma hora; um inocente, Cristo, outro penitente, o bom ladrão; o terceiro obstinado, o mau ladrão: ou, se antes quiserem assim, que foram três os crucificados ao mesmo tempo; Cristo, sempre e excelentemente santo; um ladrão, sempre e excessivamente mau; outro ladrão mau numa época da sua vida, e santo na outra. Disto podemos entender, que não há neste Mundo ninguém, que possa viver sem cruz; e que baldados são os esforços dos que confiam, que podem absolutamente escapar-se a ela; e, que sensatos são os que aceitam a sua cruz da mão do Senhor, e, que até o fim da vida a levam não só com paciência, mas até com gosto. Continue reading

Do segundo fruto da segunda palavra

Capítulo VI. Do segundo fruto da segunda palavra
É outro fruto da mesma segunda palavra a o conhecimento do poder da graça de Deus, e da fraqueza da vontade humana, do qual poderemos aprender que nada há tão proveitoso como ter muita confiança no auxílio de Deus e desconfiar muito das próprias forças.

Deseja saber qual é o poder da Sua divina graça? Põe os olhos no bom ladrão. Tinha ele sido um notável pecador, e neste malíssimo estado tinha permanecido até o suplício da Cruz, isto é, pouco menos do que até a morte; e, no perigo iminente de condenação eterna, não havia ao menos uma pessoa que o aconselhasse, ou o socorresse; pois, apesar de estar tão próximo do Salvador, contudo estava ouvindo os Pontífices e os Fariseus que afirmavam que Ele era um revolucionário, e um ambicioso, que pretendia assenhorear-se de um reino, que não era Seu; estava ouvindo ao outro ladrão, seu companheiro, os mesmos impropérios que ele dirigia a Cristo, não havia ninguém, que a favor de Cristo dissesse nenhuma palavra, e nem Ele mesmo refutava aquelas blasfêmias e injúrias, e, não obstante isto, quando aquele ladrão parecia de todo abandonado para a sua salvação, muito próximo das penas eternas, e o mais distante, que era possível, da eterna bem-aventurança, instantaneamente iluminado e convertido pela divina graça, confessa que Cristo é inocente, é Rei da vida futura, e, como pregador repreende o seu companheiro, exorta-o a penitência, e diante de todos se encomenda devota e humildemente a Cristo. Continue reading

Do primeiro fruto da segunda palavra

Capítulo V. Do primeiro fruto da segunda palavra
Da segunda palavra proferida na Cruz, podemos colher alguns frutos, e frutos excelentes. O primeiro é a consideração da imensa misericórdia, e liberalidade de Cristo; e quão agradável e proveitoso seja servi-lO. Cristo, macerado pelas dores, poderia não atender a súplica do ladrão, porém a Sua caridade antes quis esquecer-Se dos acerbíssimos tormentos, que estava sofrendo, do que deixar de prestar atenção àquele miserável pecador, que nEle confiava. O mesmo Senhor, nem uma só palavra proferiu aos insultos e injúrias dos sacerdotes e soldados, mas ao clamor daquele pobre penitente, que o confessava a sua caridade não pode ficar silenciosa. Às injúrias emudeceu ela, porque é sofredora; à confissão não, porque é benigna.

Mas que diremos da liberalidade de Cristo? Os que servem os senhores deste Mundo, muitas vezes, não obstante, os muitos serviços que lhe prestam, pouco proveito tiram, pois não são poucos os que, todos os dias estamos vendo, voltarem para suas casas velhos e quase a pedir, depois de terem passado toda a sua vida nos palácios dos Príncipes. Cristo, Príncipe, verdadeiramente generoso e magnífico, nenhuns serviços recebeu deste ladrão senão algumas boas palavras e bons desejos de O servir, e eis aí como o remunerou. Continue reading

“Amém. Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso”

Capítulo IV. "Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso"

Explica-se literalmente a segunda palavra de Cristo na Cruz

A segunda palavra ou sentença proferida por Cristo na Cruz, segundo, testifica São Lucas foi à magnifica promessa a um dos dois ladrões também com Ele crucificados:

“Amém. Hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 39)

Foi a origem desta segunda palavra haverem sido dois ladrões condenados ao mesmo suplício da Cruz, e estar cada um pendente na sua, um à direita, outro à esquerda de Cristo, e agravar um deles os seus passados crimes, injuriando o Redentor, dizendo-Lhe, arguindo-o de nada poder:

“Se és Cristo livra-te dos tormentos, e a nós também”

Ora São Marcos e São Mateus dizem (Mt 27; Mc 15), que os ladrões, crucificados com Cristo lhe exprobravam o seu pouco poder, porém o que se deve entender, é, que aqueles Evangelistas empregaram o número plural por singular; o que é freqüente na Sagrada Escritura, como observou Santo Agostinho nos Livros da uniformidade dos Evangelistas (1): pois o Apóstolo escrevendo aos hebreus a respeito dos profetas, diz (Hb 11, 33-37): Açaimaram as bocas dos leões; foram apedrejados, foram serrados, e apesar disto, quem açaimou as bocas dos leões, foi só Daniel; só Jeremias foi apedrejado; e serrado só Isaías. A isto se deve acrescentar, que São Mateus e São Marcos não dizem tão claramente que ambos os ladrões insultaram Cristo, como São Lucas explicitamente escreve (Lc 23, 39): Um dos ladrões que com ele foram crucificados, lhe dirigia impropérios; acrescendo mais, que não há motivo nenhum para o mesmo ladrão ora O insultasse, ora O louvasse. Continue reading

Do segundo fruto da mesma palavra proferida por Cristo na Cruz

Capítulo III. Do segundo fruto da mesma palavra proferida por Cristo na Cruz
O segundo fruto, e na verdade muito salutífero para quantos dele provarem, será aprendermos a perdoar facilmente as injúrias, e a fazermos assim de inimigos amigos. Para disto nos convencermos, deveria ser razão bastante o exemplo de Cristo e de Deus: pois se Cristo perdoou aos que O crucificaram, e pediu por eles, por que não há de fazê-lo o cristão? Se Deus, Criador, que podia, como Senhor e Juiz, castigar imediatamente os pecadores, espera que eles se arrependam, e os convida para a reconciliação, pronto a perdoar a quem Lhe ofendeu Sua Majestade; porque não há de perdoar a criatura? A isto se há de acrescentar que o perdão de uma injúria nunca fica sem grande prêmio. Na história da vida e morte de Santo Engelberto, Arcebispo de Colônia, se lê, que, tendo-o os seus inimigos assassinado numa jornada, e ele em seu coração dissesse: Meu Pai, perdoa-lhes, dele se revelara, que só por aquela sua rogativa, de que Deus sumamente se agradou, não só a sua alma foi imediatamente levada ao Céu pelos Anjos, mas até colocada entre os coros dos Mártires, recebeu a palma e coroa do martírio, e foi assinalada por muitos milagres (1). Continue reading

Do primeiro fruto da primeira palavra proferida na Cruz

Capítulo II. Do primeiro fruto da primeira palavra proferida na Cruz
Explicamos, qual seja a inteligência da primeira palavra, que Cristo proferiu na Cruz. Agora, meditando, faremos por colher daquela palavra alguns frutos, e estes preciosos, e de muita utilidade para nós e para todos. Primeiro que tudo desta primeira parte do sermão, que Cristo pregou na cadeira da Cruz, aprendemos que a Sua caridade é muito mais ardente, do que nós podemos conhecer, ou imaginar, e é por isto, que o Apóstolo escrevendo aos Efésios, lhe diz:

“E conhecer também a caridade de Cristo, que excede todo o entendimento” (Ef 3, 19)

Com esta passagem da sua epístola dá ao Apóstolo a conhecer, que nós pelo mistério da Cruz podemos saber que a grandeza da caridade de Cristo é tamanha, que excede todo o saber humano, por ser maior do que a força da nossa inteligência pode compreender, pois nós, quando sofremos alguma grande dor, ou dos olhos, ou dos dentes, ou da cabeça, ou de outra alguma parte, tanto dela nos deixamos dominar, que a mais nada damos atenção; e por isso nem recebemos amigos, que venham visitar-nos, nem outros indivíduos, que por diversos motivos nos queiram falar. Continue reading

“Meu Pai, perdoa-lhes; pois não sabem o que fazem”

Capítulo I. "Meu Pai, perdoa-lhes; pois não sabem o que fazem". Explica-se literalmente a primeira palavra

Explica-se literalmente a primeira palavra de Cristo na Cruz

“Meu Pai perdoa-lhes; não sabem o que fazem” (Lc 23, 34)

Cristo, Jesus, Verbo do Pai Eterno, e de quem seu mesmo Pai disse claramente: Ouvi-o (Mt 17), e, que de Si mesmo disse também claramente: Um só é o vosso Mestre, o Cristo (Mt 23), para desempenhar cabalmente a Sua missão, não só nunca deixou de ensinar, enquanto viveu; porém, mesmo da cadeira da Cruz fez uma pregação curta, mas ardente, proveitosíssima, de muita eficácia e inteiramente digníssima de ser recolhida pelos cristãos no íntimo do coração, de lá ser guardada, meditada e posta em prática. A primeira sentença é esta: Jesus então dizia: Meu Pai perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem (Lc 23, 34), a qual quis o Espírito Santo, que como nova e insólita fosse profetizada por Isaías naquelas palavras:

“E rogou pelos transgressores” (Is 53, 12)

Com quanta verdade o Apóstolo São Paulo, disse (1Cor 13, 5): A caridade não busca os seus próprios interesses, pode facilmente conhecer-se da ordem daquelas sentenças; pois delas, três dizem respeito ao bem dos outros, três ao bem próprio, e uma é comum, o Senhor, porém, teve primeiramente cuidado dos outros, e em último lugar de Si. Continue reading

A escola de São João. Sua morte

Capítulo 21: A escola de São João. Sua morte

I

São João tornara-se a luz da Ásia.

«Convinha, escreve um grande doutor, que a Igreja, em seu começo, tivesse em algum lugar um facho resplandecente que ficasse aceso a fim de esclarecer as dúvidas dos fiéis. Primeiramente, Maria fora esse facho; ela morta, ficou São João para ser a luz da Igreja, até que esta tomasse sua forma definitiva e sua consistência» (1)

Graças à estadia prolongada e luminosa no centro da Igreja do primeiro século, foi que João pôde reunir um certo número de discípulos que receberam suas lições, apossaram-se de seu espírito e transmitiram-no em seguida às longínquas cidades do Oriente e do Ocidente.

Formam eles o que se chamou a escola de São João. Era, sem dúvida, numerosa; e entre os que a frequentaram, muitos são desconhecidos. Outros fizeram-se conhecer pelo brilho de suas virtudes ou de suas obras; e a história desses discípulos lança uma última luz sobre a do mestre.

Inácio e Policarpo ocupam um lugar proeminente nesta escola. Continue reading

Volta a Éfeso. Epístola a Electa. Epístola a Caio. O jovem convertido

Capítulo 20: Volta a Éfeso. Epístola a Electa. Epístola a Caio. O jovem convertido

I

Foi no ano de 97 que o apóstolo pôde tornar a ver a Igreja de Éfeso, onde todos esperavam a felicidade e o benefício de sua volta.

Com efeito, esta cristandade acabava de passar por um grande desgosto. Segundo o Martirológio e o Menológio, foi nesse mesmo ano que morreu gloriosamente o bispo Timóteo, o discípulo de São Paulo e companheiro de São João. João, que deixara «este bom soldado de Cristo» no mais encarniçado combate contra a heresia e a idolatria, não ignorava o perigo que ele corria. De sua ilha solitária, via e denunciava, no Apocalipse, as abominações que eram o pior dos contágios para o rebanho, o da volúpia. Mas, elogiando as grandes obras, o trabalho e a paciência do anjo de Éfeso, João falava dos males que ele havia de suportar pelo nome de Jesus Cristo, e previa que contra ele fariam represálias mortais.

Não se enganava. Logo depois dos terremotos que a sacudiram até os alicerces, viu-se a louca Éfeso entreter-se, sobre os túmulos e as ruínas, com as pompas orgíacas de sua deusa e de seus deuses. A mais célebre dessas festas era uma assembleia anual, chamada Catagogia, espécie de bacanal, que lembrava os mais monstruosos excessos de Biblos e de Coríntia. Ali se via uma multidão, ébria de vinho e de deboche, armada de maças, levando as imagens de seus deuses, enlambuzada ou mascarada, percorrer os principais quarteirões da cidade, cantando versos obscenos, atacando impudentemente os homens e as mulheres, sem poupar violências, muitas vezes mortais, que o culto da divindade justificava. Continue reading

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