Autor: Gabriel (page 1 of 239)

A promessa e a doutrina da Eucaristia no Evangelho de São João

Capítulo 6: A promessa e a doutrina da Eucaristia no Evangelho de São João

I

Se a Pessoa divina, que João nos mostra em seu Evangelho, só tivesse aparecido na terra durante alguns anos, para ir depois extinguir-Se irrevogavelmente pela morte, não deixando senão a lembrança histórica de uma beleza incomparável, porém para sempre desaparecida, teria sido para os homens o objeto de uma admiração religiosa, porém inconsolável. Teríamos considerado especialmente feliz e privilegiada a geração a que fosse dado o espetáculo da visita de um Deus; mas nosso amor ciumento perguntar-se-ia a si mesmo, porque nesta universal e imortal família de Jesus Cristo, só os homens de uma pequena cidade e de uma época longínqua tiveram a honra de Seu convívio divino. Parece mesmo que não teria sido conforme os conselhos e o amor d’Aquele que, segundo a expressão de Bossuet «não se arrepende de seus dons», e que, tendo nos dado seu Filho, se obrigava a no-lo dar de maneira permanente e digna.

A presença de Jesus, pão de vida, na comunhão, ia resolver essas questões e satisfazer a essa necessidade de Deus e do homem. João no-lo ensinou, com os comentários colhidos dos lábios desse próprio Deus vivo e presente no meio de nós até o fim dos tempos. Os três outros historiadores das ações de Jesus nos contaram igualmente a instituição desse augusto Sacramento, mas somente no Evangelho de São João se lê sua promessa, natureza e maravilhosa virtude. Continue reading

A pessoa divina de Jesus Cristo segundo São João

Capítulo 5: A pessoa divina de Jesus Cristo segundo São João:

I

A principal conclusão a tirar do espetáculo dos milagres de Jesus era a divindade d’Aquele que dizia:

“Se não acreditais nas palavras que digo, acreditai nas obras que faço”

O próprio Jesus tirava essa conclusão em sublimes discursos apologéticos que fazia regularmente depois de cada prodígio, e que ocupam lugar preponderante na memória de seu fiel auditor. Evidentemente para São João, Jesus é, antes de tudo, o Verbo, isto é, a palavra substancial que ele via espalhar-se «cheia de graça e de verdade» sobre os espíritos rebeldes ou sobre a multidão entusiasmada.

Mas não bastava a Jesus proclamar-se o Filho de Deus, era preciso que todo o seu ser o afirmasse também. Ora, no Evangelho de São João, é Jesus Cristo verdadeiramente Deus? Mostra-se Ele como Deus em toda sua pessoa, em suas ações, em sua vida? Sustentou Ele esse título, simples, constante e naturalmente? E não é a sua fisionomia reproduzida do natural pelo seu discípulo predileto, «uma aparição», e não aparece ela como uma visão terrestre da divindade?

Convém determo-nos e meditarmos sobre tudo isto. É preciso contemplar em Jesus a inteligência, a coragem, o amor. É preciso considerar, como, sendo cada uma de suas faculdades absolutamente perfeita e infinita, São João teve que concluir no infinito da perfeição de Deus.

Primeiro, a inteligência de Jesus, segundo São João, tem uma soberania que excede a qualquer limite, e desafia qualquer comparação com o espírito do homem.

Nós, homens, só possuímos a inteligência contingente, e João ouvia o Mestre chamar-se a si próprio a inteligência substancial e por essência:

“Eu sou a verdade” – Ego sum veritas (Jo 14, 6)

“Eu sou a luz do mundo” – Ego sum lux mundi (Jo 8, 12)

“Eu sou o princípio” – Principium qui et loquor vobis (Jo 8, 25)

Ao passo que, em nós, o exercício da inteligência procede em grande parte da educação humana, Jesus proclama no Evangelho de São João, que sua inteligência era do céu e que a recebera de Deus:

“Eu falo nas coisas celestes porque é do céu que venho. Não falo por mim mesmo, mas segundo o que ouço… Minha doutrina não é minha, mas d’Aquele que me enviou. O Pai ama o Filho e mostra-lhe tudo o que faz. Não digo ao mundo senão o que aprendi de Deus. Não faço nada por mim mesmo, mas como meu Pai me ensinou, assim falo” (Jo 3, 12-13.31)

Enfim, enquanto em nós, toda a ciência, mesmo a que vem da Revelação divina, é uma ciência reflexa e transmitida, ela é, em Jesus, pessoal e direta. Nós temos o raio de luz, Jesus possui o foco luminoso; nós bebemos no regato, Jesus é a fonte:

“Meus juízos são verdadeiros, porque não estou só, mas sou eu e o Pai que me enviou. Eu estou no Pai, e o Pai em mim” (1)

É a ciência constante, perpétua, intuitiva:

“Aquele que me enviou habita em mim. Quem me vê, vê aquele que me enviou. Eu e meu Pai somos apenas um!” (2)

Com efeito, escutai como fala Jesus Cristo! Sua eloquência é sublime porque vem das alturas supra-terrestres. É a expansão do Verbo de Deus. Por isto não se acha na palavra de Jesus aquela excitação viva que inspirava aos profetas ímpetos ardentes e imagens audaciosas, quando o Espírito divino, tomando-os em suas asas, transportava-os ao seio das visões sobre-humanas. Em Jesus nada denota a exaltação momentânea de um instante excepcional: o Espírito de Deus o arrebata, mas habita nEle: não é possuído, subjugado por nada, mas possui-se a si próprio. O raio não o fulmina, porque Ele é a luz. Sem esforço atinge às alturas, porque é ali o lugar da sua alma, e está no próprio seio do mistério que revela.

Eis porque essa palavra é sempre tão simples quão natural e elevada.

“Os filhos de rei, diz Bossuet, nascidos no meio das grandezas, falam sem ênfase alguma em cetros e corôas”

Jesus não discute, não replica, não declama. Nem mesmo procura provar, pois, para a sua demonstração, que tem a luz de fazer senão mostrar-se? «É ou não é» eis todo o discurso, tal qual o queria Jesus. Em verdade, em verdade; é essa a única argumentação de Jesus Cristo no Evangelho de São João. A palavra é por Ele semeada como os grãos nos campos, profusamente, porque os têm em quantidade; serenamente porque é o Senhor; com simplicidade, porque pode humilhar-se sem nada perder de sua grandeza; enfim, com confiança, porque sabe o dia e a hora da colheita. Ele mesmo definira a eloquência: o escoadouro do coração: Ex abundantiâ cordis os loquitor. E não era aqui uma profunda emanação da própria alma de Deus?

Além disso, a nossa inteligência é limitada, e João mostra em Jesus Cristo a inteligência infinita.

Ele tem a ciência profunda que lê no fundo das almas:

“Sabe o que está no homem sem precisar que ninguém lh’O diga” – Opus ei non erat ut quis testimonium perhibiret de homine. Ipse enim sciebat quid esset in homino (Jo 2, 25)

E a samaritana não se cansa de admirar como o seu olhar divino penetrou-lhe os tristes segredos da vida.

Tem a ciência imensa. — Ela conhece o passado:

“Aquele que vier a mim, eu lhe revelarei o que estava oculto desde a criação do mundo” (Mt 13, 35)

Ela antecipa o futuro:

“Agora é o juízo do mundo, agora o príncipe deste mundo será lançado fora” – (Jo 12, 31)

Dizia ainda:

“Levantai os olhos e vede esses campos que já estão alvejando para a ceifa!”

Ouvia soar a hora da ressurreição geral dos povos. Via levantar-se toda a espécie de mortos para vir à luz. Via erguer-se ao longe um novo culto em espírito e em verdade. Sendo Ele mesmo profeta, via-se morrer e tombar no sepulcro como o grão na terra, mas para emergir como a espiga. Dizia que seu sangue seria seu batismo, e sua paixão sua glória, que seu cadafalso seria a alavanca que levantaria o mundo; que tudo enfim seria consumado na unidade e não haveria mais do que um só rebanho e um só pastor. Tudo o que temos visto de mais milagroso há mil e oitocentos anos, todas as luzes e direções que a humanidade há de receber do Evangelho até o fim dos tempos, Jesus o predisse, e seu discípulo podia dar-lhe este testemunho:

“Ó Mestre, sabeis tudo, e não é necessário que vos interroguem, cremos que viestes de Deus” – Nunc scimus quia scis omnia, et non est opus ut quis te interroget. In hoc credimus quia à Deo existi (Jo 16, 30)

Outra enfermidade da inteligência do homem, é hesitar e ceder; um terceiro poder da inteligência de Jesus é não conhecer a dúvida, permanecer certa e senhora de si mesma. Esta dupla protestação de Jesus, «Em verdade, vos digo» forma particular ao Evangelho de São João, é a afirmação da verdade íntegra que se possui com calma, e que diz o que vê.

Esta certeza serena jamais abandona o Mestre. Repelem sua palavra, apela para seus atos. Querem surpreender seu segredo:

“Até quando terás o nosso espírito indeciso? Se és o Cristo, dizei claramente” – Quousque animan nostram tollis? Si tu es Cristus, die nobis palàm (Jo 10, 24)

Mas a palavra íntima não faz diferença da palavra pública: Deus não pode desdizer-se de sua divindade. Discutem-na, Ele a sustenta; negam-na, Ele a confirma. Ousam objetar-lhe que Ele não conhece as letras; responde que é a Sabedoria de Deus em pessoa. Não querem ver nEle senão o filho de José, o operário cuja família conhecem em Nazaré; Ele assegura tranquilamente que o próprio Deus é seu Pai e que veio de Deus. Não se comove se seu discurso surpreende; se sua linguagem escandaliza, não a corrige; se sua palavra parece severa, não a modifica. Se os incrédulos O abandonam por causa de sua doutrina, compadece se dos dissidentes, mas deixa-os partir; a deserção dos seus não muda o que está, e a cada movimento de espanto por suas asserções, o Verbo de vida responde por uma afirmação ainda mais positiva.

Se, como o definiram, a eloquência é o som de uma grande alma, a eloquência de Jesus é o som de uma alma divina. Fénelon disse:

“Enquanto a palavra do homem significa o que ele fez, a palavra de Deus faz o que ela diz”

É a palavra criadora por quem tudo foi feito, a palavra de vida por quem somente tudo subsiste. Ela participa de todos os atributos divinos: o poder, a bondade, a fecundidade, a simplicidade, enfim, a imortalidade; e ver-se-á passar o céu e a terra, antes que passe ou pereça uma só sílaba caída dos lábios de Jesus.

II

A Coragem de Jesus, sua força indomável, sua grandeza de alma, mostram os característicos divinos com brilho ainda maior. Alguém jamais O viu recuar na defesa de sua fé e da verdade? Quando os Judeus se riem dEle e que com seu desdém fazem voltar à sua província de Galileia, este profeta do campo, João no-lo mostra do alto dos pórticos do templo, em presença da multidão, anunciando que é o Cristo (3). Tratam-no de blasfemador, João ouve-O responder:

“Glorifico a meu Pai, e não tem meu Pai glória alguma mais elevada do que esta”

Acusam-no de desprezar a lei do sábado; responde que faz o que vê fazer seu Pai, o criador incansável, do qual é enviado. Insinuam-lhe uma sentença contra uma mulher culpada; Ele escreve na areia a sentença misteriosa dos denunciadores.

Se lhe pedirem ao menos para atenuar suas censuras, para ter condescendências com as pessoas altamente colocadas, e compromissos de doutrinas para com os orgulhosos; Ele poupa os humildes, perdoa aos pecadores, porém desmascara os hipócritas, confunde os soberbos, porque Ele é a verdade e eles são a mentira. São João faz a seguinte observação: eram cegos voluntários, eram corações insensíveis, eram covardes a quem os fariseus amedrontavam, e que preferiam a glória do homem à glória de Deus (4).

Mas Jesus só se preocupa com a glória de Deus, e a protegerá contra a violência, assim como a defendeu contra a oposição.

Atentam contra sua vida, Ele não o ignora:

“Procurais matar-me, porque não compreendeis as minhas palavras” – Quaeritis me interficere quia sermo meus non capit in vobis (Jo 8, 37)

Por acaso alguém poderá matar a verdade?

Mandam servos para prendê-lo: Ele se compadece dessa pobre gente, e lhes diz que bem sabe qual o fim que os traz; mas, em vez de se retratar, anuncia que breve subirá à um lugar onde o não poderão prender (5). Ficam empolgados e de perseguidores tornam-se discípulos.

Tramam sua morte: Jesus vai a ela. Mestre, dizem João e os discípulos assustados, ainda agora queriam os Judeus apedrejar-vos, e ides outra vez para lá? (6). Ele repete que é a luz do mundo e que o esclarecerá até que venha a noite.

Essa noite não o assusta; porque a verdade terá uma alvorada ainda mais bela.

“Quando tiverdes elevado o Filho do homem acima da terra, sabereis quem sou” – Quum exaltaveritis Filium hominis, tunc cognoscetis quia ego sum (Jo 9, 28)

São João O viu viver para a verdade, é para a verdade que Ele irá morrer: Eu vim ao mundo, dizia ao Procurador romano, o divino réu, nasci a fim de dar testemunho a verdade (7).

Enfim, na cruz, guando não Lhe restava mais que um sopro de vida, quis ainda, com um tranquilo e derradeiro olhar, certificar-se de que toda a verdade se havia cumprido. E tudo está consumado, disse Ele ao expirar.

Eis o que São João viu e que devia repetir. Tal força de caráter, tal magnanimidade seria unicamente humana? E, «se a vida e a morte de Sócrates são a de um homem, não serão de um Deus a vida e a morte de Jesus?».

III

Enfim, o amor, a bondade de Jesus, tem no Evangelho de São João tais profundezas que por toda a parte se revela o infinito divino.

Era o amor imenso, e, enquanto o nosso amor, limitado a seu objeto, abrange um pequeno círculo, o amor de Jesus Cristo transborda em «todo o mundo».

“Pai, dizia Ele, eu não rogo somente por estes, mas rogo também por aqueles que, dóceis à palavra, hão de crer em mim; para que todos sejam unidos, como vós, ó Pai, sois em mim, e eu em vós; a fim de que eles sejam em nós uma mesma unidade” (8)

Era o amor absoluto, entregando-se por completo, sem excetuar pessoa alguma. Enquanto em nós, o coração só quer um objeto nobre para a sua predileção, a predileção de Jesus é para os pequenos, os pobres, os descaídos, os miseráveis, deixando o rebanho para buscar a ovelha ferida que carrega nos ombros e traz para o redil. Passou na terra afastado dos príncipes e dos grandes. Chamou a si os ignorantes e os pecadores. Amou aos humildes a ponto de ajoelhar-se e lavar-lhes os pés. Havia na Samaria uma mulher que sofria sob o peso do pecado: Jesus Cristo cansou-se a fim de ir buscá-la no meio do seu povo. Havia na Judeia uma pecadora que se tornara o escárnio de todos: Jesus tendo lhe perdoado, conduziu a junto à sua cruz, onde ela tanto chorou, que os céus mesmo admiraram-lhe a dor. Enfim, confiou sua Igreja a um pescador vulgar, e, quando quis conferir-lhe esse poder, não lhe perguntou o que tinha nem o que sabia, mas certificou-se de que este homem sabia amar, e que saberia morrer.

É o amor generoso e desinteressado. Quando pensa Ele em si? Multiplica o pão para a multidão faminta, mas quanto a Ele, vive de esmolas e jejua no deserto. Nas bodas de Caná faz a água tornar-se vinho, mas pede um copo de água a uma estranha. Enquanto toda dedicação exige retribuição, o amor de Jesus Cristo não impõe condições e aquele que O traiu pode novamente vir a ser seu amigo, assim como o que O matou. Enfim, enquanto o homem ama com parcimônia e quer os melhores dons de si, são apenas meios dons, Jesus dá-se em pessoa e todo inteiro. É a sua Vida que Ele nos dá com abundância (9): não encontramos no Evangelho de São João expressão mais familiar a Jesus do que esta.

Era o amor perpétuo, perene, imortal. João assim o chamava: Como tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim, e este amor perde-se na própria eternidade, no seio da qual Jesus nos quer perto de si.

Ora, o amor é o traço mais característico da Divindade. Deus charitas est. A antiguidade o sabia. Quando gravava o nome de Deus no frontispício de seus templos, antepunha o nome da bondade antes do da grandeza: Ótimo, Máximo. Os próprios bárbaros não pensavam de outra forma, e, como dizia um Scytha a Alexandre, se ser Deus, é ser bom, quem porventura se mostrou mais Deus do que o boníssimo Jesus?

«Podereis imaginar, disse um escritor, a mais perfeita harmonia vital ao serviço de uma grande alma, do coração mais valoroso, da coragem mais vigorosa? Podereis imaginar, esta vida heroica e sagrada, sempre inspirada, sempre pronta para morrer, sempre recolhida e em paz, firme na certeza, na real serenidade, nesta alegria completa que dá a união com Deus, com todo o universo, e com todos os espíritos em Deus?… Podereis imaginar todas essas forças esplendidas, juntas, ordenadas; este resumo do universo, esta vida universal constantemente governada em Jesus pelo amor e pela bondade? Podereis imaginar Jesus diante de pobres homens abatidos pela dor, de criaturas magoadas, de corações despedaçados, e de pobres escravos, possessos, acorrentados?» (10)

Foi nessa perfeição e beleza soberana que João vira o Homem-Deus levantando os olhos ao céu, invocando seu Pai, pondo as mãos sagradas na cabeça do doente que o chama com fé, derramando abundantes lágrimas sobre o túmulo de um amigo; e fazendo jorrar a vida de sua alma e de suas mãos; fazendo correr a graça nos corpos e nas almas desses entes queridos. Ele o tinha visto com um ligeiro movimento ordenando a natureza, fazendo compreender sua palavra por um gesto verdadeiro, pela emoção dos lábios, pelo tom da voz, pela luz da face. Havia lido nesse olhar, do qual, diz o Evangelho, um só raio bastaria para conquistar um apóstolo, para transformar um homem, para arrebatar as almas para sempre. Este espetáculo por si só era outra eloquência, outra revelação da divindade. Sentia-se estar «na companhia do Pai e do filho». Estava-se com Deus tão realmente como se estará no céu.

Tal é o retrato que João pinta de seu Mestre. Nada cito que ele não tenha dito, ele nada escreveu que não tivesse visto. Pela irremediável enfermidade humana, toda grandeza perde seu prestígio vista de muito perto. Três anos passados na familiaridade da alma de Jesus tinham feito crescer aos olhos de seu discípulo o brilho de sua beleza moral.

Qual de vós me convencerá de pecado? dizia o Justo. Há mil e oitocentos anos que o Evangelho sustenta o mesmo desafio ao mundo. Desmentiu-o o mundo? Acharam os séculos uma única ambiguidade, uma só fraqueza, uma sombra nessa justiça? Eclipsou-a alguma beleza? Pretendeu alguma igualá-la? Cumpriu suas promessas o Evangelho do Verbo encarnado?

Ora, ainda uma vez vos pergunto, a pena ou o pincel poderia criar, imaginar tal retrato, não existindo qualquer original que se aproximasse, que pudesse mesmo dar uma ideia e fornecer o modelo? Deus não se cria, não se inventa uma figura divina, porque «o inventor seria então maior que o herói». Se João pôde exprimir o ideal divino é que este ideal viveu debaixo de seus olhos, e que, como ele próprio o confessa, gozou durante três anos da visão, da palavra e do contato da divindade. Para nos dar então uma imagem verdadeiramente divina, só teve que recordar-se e descrever.

Que auditor tinha Jesus de sua palavra! Que contemplador de suas obras! Que discípulo de sua doutrina!

“Oh! Contemplador espiritual! Oh! Querubim alado, cantavam os velhos cristãos, vós vistes a face mesma de Deus!” – Speculator spiritalis, quasi cherubim sub alis. Dei videns faciem (Hymni latini medii aevi, t. II, apud F. J. Mone)


Referências:

(1) Ego ex-meipso non sum locutus, sed qui misit me Pater… Quae ego loquor, sicut dixit mihi Pater, sic loquo (Jo 12, 49)

Doctrina non est mea, sede jus qui misit me (Jo 7, 16)

Pater enim diligit Filium, et omnia demonstrat ei quae ipse facit (Jo 8, 28)

Ego quod vidi apud Patrem meum loquor (Jo 8, 38)

(2) Et si judico ego, judicium meum verum est, quia solus non sum, sed ego et qui misit me Pater… Non creditis quia ego in Patre, et Pater in me est? (Jo 8, 16)

Pater in me est, et ego in Patre (Jo 10, 38)

(3) Clamabat Jesus de templo docens, etc. (Jo 7, 28)

(4) Dilexerunt gloriam hominum magis quam gloriam Dei (Jo 12, 43). Quomodo vos protestis credere, qui gloriam ad invicem accipitis, et gloriam quae a solo Deo est non quaeritis? (Jo 12, 44)

(5) Quaeritis me, et non invenietis; et ubi sum ego, vos non potestis venire (Jo 7, 34)

Quo ego vado, vos non potestis venire (Jo 7, 21)

(6) Rabbi, nunc quaerebant te Judaei lapidare, et iterúm vadis illuc? (Jo 11, 8)

(7) Ego in hoc natus sum et ad hoc veni in mundum ut testimonium perhibeam veritati (Jo 18, 37)

(8) Non pro eis autem rogo tatúm, sed et pro eis qui credituri sunt per verbum corum in me

Ut omnes unum sint, sicut tu Pater, in me et ego in te, ut et ipsi in nobis unum sint

Ut sint unum sicut et nos unum sumus (Jo 18, 20)

(9) Ego veni ut vitam habeant, et abundantius habeant (Jo 10, 10)

(10) V. le P. Gratry, les Sophistes et in Critique, p. 362

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(BAUNARD, Monsenhor L’abbé Loui. O Apóstolo São João. Rio de Janeiro, 1974, p. 81-94)

São João testemunha fiel de Jesus

Capítulo 4: São João testemunha fiel de Jesus
I

Os três primeiros Evangelistas sobejamente nos mostraram nos acontecimentos que acabamos de expor, o lugar de São João e a prerrogativa com que foi honrado. É ele próprio que vamos agora ouvir. Falará de visu. Seu livro é um testemunho: tal é o nome que lhe confere com insistência, terminando-o (19, 36; 20, 25); além disso, sendo o discípulo amado do mestre, fala como testemunha íntima. Se recorda este título a cada instante, é porque esse privilégio lhe permitiu ver melhor, de mais perto e mais a fundo, até o recôndito da alma amante e amada! Se, pois, Justino o mártir pode dar aos quatro evangelhos a denominação comum de Memórias ou lembranças, quanto mais especialmente tal nome não se aplica ao Evangelho de São João!

Esta qualidade também se justifica pela própria leitura. É a demonstração interna de autenticidade e de veracidade da narrativa, convém notar. Mil particularidades de lugar, de tempo, de estilo, revelam a presença pessoal do narrador, ao passo que reflexões ardentes ou profundas atraem o coração do amigo particular do Mestre. O que vimos, o que ouvimos, o que tocamos do Verbo de vida, nós vo-lo anunciamos, deveria ele escrever um dia. A nós também seu livro faz ver, ouvir e tocar com ele esse Verbo verdadeiramente vivo em sua narrativa. Em toda a parte o discípulo aparece sob a égide do Evangelista; seguimo-lo, por assim dizer, graças à irradiação de sua alma e ao sulco de seus passos. Continue reading

Educação divina do apóstolo São João

Capítulo 3: Educação divina do apóstolo São João
I

Jesus, tendo escolhido João e Tiago, tomou-os definitivamente para a sua companhia. Salomé não quis separar-se de seus filhos. Vemo-la, juntamente com algumas mulheres dedicadas da Galileia, seguir os passos de Jesus, ocupando-se da subsistência do Mestre e recebendo suas lições com os dois apóstolos seus filhos (1).

O apostolado para o qual tinha sido convidado o filho de Salomé, devia ser o instrumento de salvação do universo. Mas era preciso que antes esses rudes pescadores sofressem uma transformação completa, e é esse trabalho que vamos estudar e admirar em São João.

Com efeito, fundar a Igreja, constituir-lhe um espírito que é a caridade, um ensino infalível, que é a verdade, uma hierarquia, que é a autoridade; e depois, uma vez formada esta sociedade à imagem divina, dar-lhes as nações por herança, e deixá-la funcionar sob invisível assistência até o fim dos séculos: eis a ideia de Jesus, tal qual se vê no Evangelho.

O seu fim não era, está claro, realizar diretamente por si mesmo a obra sobrenatural da conversão do mundo. Durante a vida, o Pastor só teve como rebanho algumas raras ovelhas do redil de Israel; e trinta anos de existência, três de pregação, de exemplos e de milagres, tendo como fim reunir ao redor de semelhante Mestre somente doze apóstolos e setenta e dois discípulos, provam bem que Ele não foi, e que não quis ser durante sua estada neste mundo, o conquistador das almas. Como Ele mesmo o explica, Ele não colhe, semeia. Semeia, e em seguida, certo de Si e do futuro, pela sua maneira divina, deixa ao tempo o cuidado de fazer brotar os gérmens. Nesta segunda criação, assim como na primitiva, contenta-se em criar os primeiros modelos das coisas e diz:

“Crescei e multiplicai-vos”

Somente depois da Ascensão, no dia de Pentecostes, começará a pregação geral, universal. Será esse o trabalho dos apóstolos: o de Jesus Cristo é o de escolher, educar e formar os princípios de seu povo e os futuros ministros do reino de Deus. Continue reading

Eleição e vocação de São João

Capítulo 2: Eleição e vocação de São João

I

Havia um ano que João Batista pregava, anunciando a magnificência mais que humana d’Aquele «que estava entre os homens, mas que os homens ainda não conheciam». Quanto a Ele, reconhecera-O antes à margem do Jordão, e dava disso testemunho dizendo:

“Eu vi o Espírito Santo descer do céu em forma de pomba, e pairar sobre Ele. Eu o vi, e dei testemunho de que este é o Filho de Deus” (Jo 1, 32-34)

O filho de Zebedeu ainda não O tinha visto, mas tudo o que ouvia dizer desse Mestre sobre-humano incitava cada vez mais o desejo de conhecê-lO e despertava-lhe os primeiros ardores daquela caridade que ia tornar-se inseparável de seu nome.

A escola de João Batista era para seu discípulo uma escola de doutrina superior e toda celestial, e ao mesmo tempo o noviciado de uma vida santamente contrita. Seguindo o exemplo do Mestre, dedicou-se ao nazaritismo, instituto de perfeição em que os Judeus se consagravam mais particularmente a Deus, fazendo voto de abster-se de qualquer licor fermentado e de deixar crescer intacta a cabeleira (Nm 6, 1-21). É de crer que recebera também o batismo do Precursor. Porém este rito exterior era apenas o sinal da pureza espiritual, e da renovação moral que o grande Profeta exigia, como preparação ao batismo d’AqueIe que devia batizar com o fogo e o Espírito. O discípulo bem o compreendera; preparara nele os caminhos do Senhor, e tornara retas suas veredas: o Senhor podia vir.

Jesus Cristo, Filho de Deus, veio à Judeia nas margens do Jordão no 15° ano do reinado de Tibério, o 30° da era vulgar, e, segundo o cálculo de sábios cronologistas, no começo da primavera. Continue reading

O começo da vida de São João

Capítulo 1: O começo da vida de São João

I

A algumas léguas distante da aldeia de Nazaré, sobre um montículo que domina o lago de Tiberíades, o viajante avista grandes massas e ruínas paralelas à costa. Vários blocos de lava e pedra bruta denotam por sua disposição o recinto de uma antiga cidade. Dois destroços mais notáveis surgem desses escombros. Um, é o de um edifício de pequenas dimensões, situado perto da praia, e que apresenta esculturas, colunas e pilastras mais antigas que os muros. O outro, é um monumento de grande extensão, do qual só restam duas muralhas prestes a cair, porém ornada de belos fragmentos, de capitéis coríntios, de frisas mutiladas estendidas confusamente na relva que as oculta.

O local dessas belas ruínas é desolado e morto. O lago banha tristemente as pedras amontoadas ou esparsas sobre a margem. Somente duas magníficas colunas de sienito (1) perfeitamente conservadas e unidas, erguem-se para o céu, como para marcar, por um emblema majestoso, o berço dos dois irmãos que foram indivisivelmente unidos na fé e no apostolado de Nosso Senhor Jesus Cristo. Continue reading

A Virtude da Paciência, a Abnegação e o Amor da Cruz

Mês de Dezembro: A Virtude da Paciência, a Abnegação e o Amor da Cruz

Mês de Dezembro

Breve introdução sobre a Paciência e o Apóstolo Patrono

Estamos na terra para fazermos penitência e merecermos; não é ela, portanto, lugar de repouso, mas de trabalhos e sofrimentos. As dores, adversidades e outras tribulações hão de ser as mais belas jóias da nossa corôa no paraíso. Pratiquemos a paciência:

1. Quando a morte nos arrebata os parentes ou amigos;

2. Na pobreza;

3. Nos desprezos e perseguições;

4. Nas desolações espirituais;

5. Nas tentações;

6. Nas doenças.

A resignação na morte, para fazer a vontade de Deus, é bastante para assegurar a nossa salvação eterna.

Pondera que nesta vida, quer queiras, quer não, terás necessariamente de padecer. Procura por isso padecer de maneira meritória, isto é, pacientemente; violenta-te e evita romper em queixas e lamentos. Se te venceres, Deus te fará experimentar durante a tribulação uma doçura desconhecida dos mundanos, mas muito conhecida daqueles que amam a Deus.

Se Deus te visitar com doenças, pobreza, perseguições e outras adversidades, humilha-te diante dEle, e dize com o bom ladrão:

“Recebemos o que mereciam nossas ações” (Lc 23, 41).

E mesmo que não tenhas perdido a inocência batismal, certamente já terás merecido um longo purgatório. Por isso alegra-te se fores castigado neste mundo e não no outro.

Consola-te também nos sofrimentos internos com a esperança do céu. Recorda-te das palavras de São Paulo:

“Os padecimentos deste mundo não tem comparação com a glória futura que será manifestada em nós” (Rom 8, 18)

“O que aqui é para nós uma tribulação momentânea e ligeira produz em nós, de um modo maravilhoso no mais alto grau, um peso eterno de glória” (2 Cor 4, 17)

Se tua vida te parecer insuportável, olha para teu divino Salvador, que te precede, carregando a cruz. Ouve o que Ele diz:

“Quem quiser vir após mim, renuncie a si mesmo e tome todos os dias a cruz sobre si” (Lc 9, 23)

Teu Salvador vai sempre adiante, e só pára ao chegar ao monte Calvário, para ai morrer por ti.

Acostuma-te a submeter-te já antecedentemente na oração a todos os sofrimentos que talvez te sobrevirão; assim procederam os santos e por isso estavam sempre prontos a abraçar todas as cruzes, mesmo as que lhes sobrevinham inesperadamente.

Suplica, finalmente, ao Senhor instantemente que te conceda a graça da paciência, pois, sem a oração, nunca obterás essa grande graça. Justamente na oração encontraram os santos mártires a coragem para suportar os mais atrozes tormentos e a morte mais ignominiosa. Se recorreres ao Senhor com confiança, Ele te livrará dos teus padecimentos ou então te concederá a graça de suportá- los com paciência. Ele mesmo disse:

“Vinde a mim todos que andais em trabalhos e vos achais carregados e eu vos aliviarei” (Mt 11, 28)

Sumário
I. A sua natureza
II. Da Paciência em Geral
III. Da Paciência nas Enfermidades
IV. Da Paciência nas Injúrias e Perseguições
V. Da Paciência na Desolações Espiritual
VI. Alguns avisos a respeito do Exercício da Paciência
VII. A Abnegação e o Amor da Cruz no Redentor
VIII. A Prática da Paciência
IX. Orações para alcançar a Virtude do Mês

Mês de Dezembro: A Virtude da Paciência, a Abnegação e o Amor da Cruz. Apóstolo Patrono: São Mateus

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Caracteres da Sabedoria Cristã

Meditação para o Vigésimo Quinta Sábado depois de Pentecostes. Caracteres da Sabedoria Cristã

Meditação para a Vigésima Quarta Sexta-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Depois de termos visto a natureza e excelência da sabedoria cristã, meditaremos sobre os seus sinais ou caracteres, e veremos:

1.° O que ela é em si;

2.° O que ela é em suas relações com o próximo.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De pedirmos muitas vezes a Deus a sabedoria cristã, e de nos examinarmos a nós mesmos com frequência durante o dia, para ver se as nossas obras, palavras e sentimentos, tem os seus, caracteres;

2.° De nos conservarmos nesse espírito habitual de recolhimento, fora do qual não reside a verdadeira sabedoria.

O nosso ramalhete espiritual será a invocação a Santíssima Virgem como assento ou trono da verdadeira sabedoria:

“Virgem, prudentíssima, trono da sabedoria, rogai por nós” – Virgo prudentissima, sedes sapientiae, ora pro nobis

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Sabedoria Cristã

Meditação para a Vigésima Quinta Sexta-feira depois de Pentecostes. Sabedoria Cristã

Meditação para a Vigésima Quarta Sexta-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Depois de termos visto a falsidade da sabedoria do mundo, meditaremos sobre a sabedoria cristã, e veremos:

1.° Em que consiste;

2.° Qual é a sua excelência.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De olharmos em todas as coisas a nossa salvação como o supremo fim a que devemos referir tudo;

2.° De evitarmos com cuidado o que poderia expô-la a perigo.

O nosso ramalhete espiritual será a súplica de Salomão:

“Dai-me, Senhor, aquela sabedoria, que está ao pé de vós no vosso trono, para que esteja comigo e comigo trabalhe” – Da mihi (Domine) sedium tuarum assistricem sapientiam… ut mecum sit et mecum aboret (Sb 9, 10)

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Sabedoria do Mundo

Meditação para a Vigésima Quarta Quinta-feira depois de Pentecostes. Sabedoria do Mundo

Meditação para a Vigésima Quarta Quinta-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre a falsa sabedoria do mondo, e veremos:

1.º Quanto ela é digna de reprovação;

2.° Quanto efetivamente Deus a reprova.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De deixarmos o mundo obrar, dizer e pensar o que quiser, e de seguirmos a Jesus Cristo como a única verdadeira sabedoria;

2.° De consultarmos muitas vezes este adorável Salvador, rogando-Lhe que nos esclareça a respeito de tudo o que devemos pensar, dizer ou obrar.

O nosso ramalhete espiritual será o anátema que Deus proferiu contra a falsa sabedoria do mundo:

“Destruirei a sabedoria dos sábios e reprovarei a prudência dos prudentes” – Perdam sapientiam sapientium, et prudentiam prudentium reprobabo (1Cor 1, 19)

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