Didaqué: A Instrução dos Doze Apóstolos

Salve Maria!

Didaqué, em grego Διδαχń, é um documento antiquíssimo, que remonta ao primórdio da Santa Igreja, também é comumente chamado de Catecismo dos Primeiros Cristãos, justamente pelo seu formato instrutivo. É, portanto, um documento importante para nossa formação e compreendimento acerca da história do Cristianismo, além de uma excelente forma de renovação da nossa fé católica, uma vez que este documento faz parte de um dos pilares de nossa santa fé: Sagrada Tradição.

A versão utilizada aqui no apostolado Rumo à Santidade é a que a Edições Livre disponibiliza do texto, contendo um excelente prefácio do Pe. Frederick William Faber (1814-1863) sobre o Papado, o qual adicionei ao fim do documento. Além disso, tomei a liberdade de acrescentar um vídeo explicativo sobre a Didaqué para colaborar ainda mais em nossos estudos!

ÍNDICE
Prefácio. Da devoção ao Papa, do Pe. F. W. Faber
Introdução
Capítulo I. Amor a Deus e ao próximo
Capítulo II. Deveres para com a vida
Capítulo III. Contra a paixão e a idolatria
Capítulo IV. Deveres dos senhores e empregados
Capítulo V. Do caminho da morte
Capítulo VI. Aceita o jugo do Senhor
Capítulo VII. Celebração da vida
Capítulo VIII. Sobre o jejum e oração
Capítulo IX. Sobre a celebração da Eucaristia
Capítulo X. Ação de graças após a ceia
Capítulo XI. Os Apóstolos e Profetas
Capítulo XII. Hospitalidade com discernimento
Capítulo XIII. Sustentação do profeta
Capítulo XIV. A celebração dominical
Capítulo XV. A vivência comunitária
Capítulo XVI. Perseverar até o fim
Vídeo. Estudo sobre a Didaqué: Catecismo dos Primeiros Cristãos

Introdução

Didaqué significa “instrução” ou “doutrina”. Trata-se de um escrito que data de fins do séc. I de nossa era e, portanto, bem próximo dos escritos do Novo Testamento. O nome “Instrução dos Doze Apóstolos” lembra At 2,42 (“o ensinamento dos apóstolos”), mas é difícil que a obra tenha sido escrita por algum deles ou seja de um só autor. Os estudiosos hoje estão de acordo em dizer que ela é fruto da reunião de várias fontes escritas ou orais, que retratam a tradição viva das comunidades cristãs do séc. I. Os lugares mais prováveis de sua origem são a Palestina ou a Síria.

A Didaqué é um manual de religião ou, melhor dizendo, uma espécie de catecismo dos primeiros cristãos. Esse documento nos permite conhecer as origens do cristianismo, e principalmente nos dá uma ideia de como eram a iniciação cristã, as celebrações, a organização e a vida das primeiras comunidades. O autor (ou autores) pertence ao meio judaico-cristão, e dirige seu ensinamento a comunidades formadas por convertidos vindos principalmente do paganismo.

O conteúdo e o estilo da Didaqué lembram imediatamente muitos textos do Antigo e no Novo Testamento, bem como outros escritos cristãos do séc. I d.C. O tom e os temas de muitas exortações se parecem bastante com os da literatura sapiencial e diversos trechos dos evangelhos. Dessa forma, esse catecismo das comunidades da Igreja Primitiva é testemunho vivo de como os primeiros cristãos se alimentavam da Palavra de Deus contida nas Escrituras, transformando e interpretando os textos bíblicos em vista de suas necessidades e situações.

A leitura da Didaqué faz logo sentir que as comunidades cristãs daquele tempo ainda não estavam completamente estruturadas. As comunidades não têm representante oficial fixo (padre ou vigário), os bispos e diáconos são mencionados de passagem, e não sabemos bem quais funções exerciam. Fala-se diversas vezes em “apóstolos, profetas e mestres”, dando a impressão de que eram propriamente pregadores itinerantes a serviço de diversas comunidades. Por outro lado, nota-se que a liturgia é também muito simples e se resume a celebrações feitas em clima doméstico. Os sacramentos mencionados pertencem à iniciação cristã – batismo, confissão, eucaristia – e parecem ser todos administrados pela comunidade, e não por um membro do clero, ainda inexistente.

Visível, contudo, é o clima que a comunidade vive, dentro de uma sociedade estruturalmente pagã. A preocupação de não se confundir com o ambiente, de não se deixar manipular por aproveitadores oportunistas (até mesmo disfarçados de profetas), a esperança um pouco nervosa de uma escatologia próxima e o tema da perseverança heróica no caminho da fé são características das comunidades nascentes, que ainda estão descobrindo sua vocação e missão no mundo.

A Didaqué é um convite para as comunidades cristãs em formação descobrirem sua origem e jovialidade próprias. Ela nos faz lembrar que a fonte inspiradora do comportamento, da oração e das celebrações é a Bíblia. Sobretudo, mostra que o cristianismo não é devoção individualista, mas um caminho comunitário em que todos os setores da vida e do comportamento devem ser penetrados pela Palavra de Deus e pela oração. Na sua simplicidade e profundidade, estimula a viver a vida cotidiana à luz do Evangelho vivo, dentro de um discernimento que frutifica em atos novos, geradores de fraternidade e partilha. Escrita principalmente para os pagãos (nações), ela ainda salienta que o cristianismo não é uma redoma onde a comunidade se refugia, mas um fermento que se expande para transformar toda a sociedade.


Capítulo I

AMOR A DEUS E AO PRÓXIMO

Os dois caminhos: o da vida exige o amor a Deus e ao próximo

Há dois caminhos: um da vida e outro da morte [Cf. Jer 21, 8; Dt 5, 32ss; 11, 26- 28; 30, 15-20; Ecli 15, 15-17]. A diferença entre ambos é grande.

O caminho da vida é, pois, o seguinte: primeiro amarás a Deus que te fez; depois a teu próximo como a ti mesmo [Cf. Dt 6, 5; 10, 12ss; Ecli 7, 30; Lv 19, 18; Mt 22, 37]. E tudo o que não queres que seja feito a ti, não o faças a outro [Cf. Mt 7, 12; Lc 6, 31].

Eis a doutrina relativa a estes mandamentos: Bendizei aqueles que vos amaldiçoam, orai por vossos inimigos, jejuai por aqueles que vos perseguem. Com efeito, que graça vós tereis, se amais os que vos amam? Não fazem os gentios o mesmo? Vós, porém, amai os que vos odeiam e não tenhais inimizade [Cf. Mt 5, 44ss; Lc 6, 27ss; 6, 32ss].

Abstém-te dos prazeres carnais [Cf. 1Pd 2, 11]. Se alguém te bate na face direita, dá-lhe também a outra e tu serás perfeito. Se alguém te obrigar a mil (passos), anda dois mil com ele. Se alguém tomar teu manto, dá-lhe também tua túnica. Se alguém toma teus bens, não reclames, pois de todo o jeito não podes [Cf. Mt 5, 39ss; Lc 6, 29].

Dá a todo aquele que te pedir, sem exigir devolução. Pois a vontade do Pai é que se dê dos seus próprios dons. Bem-aventurado é aquele que dá conforme a lei, pois é irrepreensível. Ai daquele que toma (recebe)! Se, porém, alguém tiver necessidade de tomar (receber), é isento de culpa. Mas se não estiver em necessidade, terá que se responsabilizar pelo motivo e pelo fim por que recebeu.

Colocado na prisão, ele não sairá de lá, até ter pago o último quadrante (vintém) [Mt 5, 25ss; Lc 12, 58ss].

Mas é verdade que a este propósito também foi dito: Que tua esmola sue em tuas mãos, até que souberes a quem dar [Cf. Ecli 12, 1].


Capítulo II

DEVERES PARA COM A VIDA

Dos deveres para com a vida e a propriedade do próximo

O segundo mandamento da Instrução (Didaqué) é:

Não matarás, não cometerás adultério; não te entregarás à pederastia, não fornicarás, não furtarás, não exercerás magia, nem bruxaria (charlatanice). Não matarás criança por aborto, nem criança já nascida; não cobiçarás os bens do próximo.

Não serás perjuro [Cf. Mt 5, 33; Ex 20, 7], nem darás falso testemunho; não falarás mal do outro, nem lhe guardarás rancor.

Não usarás de ambigüidade nem no pensamento nem na palavra, pois a duplicidade é uma trama fatal [Cf. Pr 21, 6].

Tua palavra não seja falsa, nem vã; mas, ao contrário, seja cheia de sinceridade e seriedade (comprovada pela ação).

Não serás cobiçoso nem rapace, nem hipócrita, nem malicioso, nem soberbo. Não nutrirás má intenção contra teu próximo [Cf. Ex 20, 13-17; Dt 5, 17-21].

Não odiarás ninguém, mas repreenderás uns e rezarás por outros, e ainda amarás aos outros mais que a ti mesmo (que tua alma).

Capítulo III

CONTRA A PAIXÃO E IDOLATRIA

Advertências contra a paixão e a idolatria

Meu filho, evita tudo o que é mau e semelhante ao mal.

Não sejas odiento, pois o ódio conduz à morte; nem ciumento, nem brigalhão ou provocador, pois de tudo isso nascem os homicidas.

Meu filho, não sejas cobiçoso de mulheres, pois a cobiça conduz à fornicação. Evita a obscenidade e os maus olhares, pois de tudo isto nascem os adúlteros.

Meu filho, não sejas dado à adivinhação, pois ela conduz à idolatria. Abstém-te também da encantação (feitiçaria) e da astrologia e das purificações, nem procures ver ou ouvir (entender) estas coisas, pois tudo isto origina a idolatria.

Meu filho, não sejas mentiroso, pois a mentira conduz ao roubo; não sejas avarento ou cobiçoso de fama, pois tudo isto origina o roubo.

Meu filho, não sejas furioso, pois isto conduz à blasfêmia; não sejas insolente nem malvado, pois tudo isto origina as blasfêmias.

Sê, antes, manso, pois os mansos possuirão a terra [Cf. Mt 5, 5; Sl 31, 11].

Sê longânime, misericordioso, sem falsidade, tranqüilo e bom e guarda com toda a reverência a instrução ouvida.

Não te eleves a ti mesmo e não entregues teu coração à insolência; não vivas com os ‘grandes’, mas com os justos e humildes.

Tu aceitarás os acontecimentos da vida como sendo bons, sabendo que a Deus nada daquilo que acontece é estranho.


Capítulo IV

DEVERES DOS SENHORES E EMPREGADOS

É melhor dar que receber. Deveres do senhor e dos escravos

Meu filho, lembra-te dia e noite daquele que te anuncia a palavra de Deus e o honrarás como ao Senhor, pois onde se proclama sua soberania aí está o Senhor presente [Cf. Hb 13, 7].

Todos os dias procurarás a companhia dos santos, para encontrar apoio em suas palavras.

Não causarás cismas, mas reconciliarás os que lutam entre si. Julgarás de maneira justa, sem considerar a pessoa na correção das faltas [Cf. Dt 1, 16ss; Pr 31, 9].

Não demorarás em procurar o que te há de acontecer ou não.

Não terás as mãos sempre estendidas para receber, retirando-as quando se trata de dar.

Se possuíres algo, graças ao trabalho de tuas mãos, dá-o em reparação por teus pecados.

Não hesitarás em dar e, dando, não murmurarás, pois algum dia reconhecerás quem é o verdadeiro dispensador da recompensa.

Não repelirás o indigente, mas antes repartirás tudo com teu irmão, não considerando nada como teu, pois, se divides os bens da imortalidade, quanto mais o deves fazer com os corruptíveis [Cf. At 4, 32; Hb 13, 16].

Não retirarás a mão de teu filho ou de tua filha, mas desde sua juventude os instruirás no temor a Deus.

Não darás ordens com rancor ao teu povo ou à tua serva, que esperam no mesmo Deus que tu, para que não percam o temor de Deus que está acima de todos. Com efeito, Ele não virá chamar segundo a aparência da pessoa, mas segundo a preparação do espírito.

Vós, servos, sede submissos aos vossos senhores como se eles fossem uma imagem de Deus, com respeito e reverência [Cf. Ef 6, 1-9; Col 3, 20-25].

Detestarás toda a hipocrisia e tudo o que é desagradável ao Senhor.

Não violarás os mandamentos do Senhor e guardarás o que recebeste, sem acrescentar nem tirar algo.

Na assembléia, confessarás tuas faltas e não entrarás em oração de má consciência. – Este é o caminho da vida.


Capítulo V

DO CAMINHO DA MORTE

O caminho da morte é o seguinte: em primeiro lugar, é mau e cheio de maldições: mortes, adultérios, paixões, fornicações, roubos, idolatrias, práticas mágicas, bruxarias, rapinagens, falsos testemunhos, hipocrisias, ambigüidades (falsidades), fraude, orgulho, maldade, arrogância, cobiça, má conversa, ciúme, insolência, extravagância, jactância, vaidade e ausência do temor de Deus.

Perseguidores dos bons, inimigos da verdade, amantes da mentira, ignorantes da recompensa da justiça, não-desejosos do bem nem do justo juízo, vigilantes, não pelo bem, mas pelo mal, estranhos à doçura e à paciência, amantes da vaidade, cobiçosos de retribuição, sem compaixão com os pobres, sem cuidado para com os necessitados, ignorantes de seu Criador, assassinos de crianças, destruidores da obra de Deus, desprezadores dos indigentes, opressores dos aflitos, defensores dos ricos, juízes iníquos dos pobres, pecadores sem fé nem lei. – Filho, fica longe de tudo isso.


Capítulo VI

ACEITA O JUGO DO SENHOR

Perfeito é quem aceita o jugo do Senhor

Vigia para que ninguém te afaste deste caminho da instrução, ensinando-te o que é estranho a Deus [Cf. Mt 24, 4].

Pois, se puderes portar todo o jugo do Senhor, serás perfeito; se não puderes, faze o que puderes.

Quanto aos alimentos, toma sobre ti o que puderes suportar, mas abstém-te completamente das carnes oferecidas aos ídolos, pois este é um culto aos deuses mortos.


Capítulo VII

CELEBRAÇÃO DA VIDA

Instrução sobre o batismo

No que diz respeito ao batismo, batizai em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo em água corrente [Cf. Mt 28, 19]

Se não tens água corrente, batiza em outra água; se não puderes em água fria, faze-o em água quente.

Na falta de uma e outra, derrama três vezes água sobre a cabeça em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

Mas, antes do batismo, o que batiza e o que é batizado, e se outros puderem, observem um jejum; ao que é batizado, deverás impor um jejum de um ou dois dias.


Capítulo VIII

SOBRE O JEJUM E ORAÇÃO

Vossos jejuns não tenham lugar (não sejam ao mesmo tempo) com os hipócritas; com efeito, eles jejuam no segundo e no quinto dia da semana; vós, porém, jejuai na quarta-feira e na sexta (dia de preparação).

Também não rezeis como os hipócritas, mas como o Senhor mandou no seu Evangelho: Nosso Pai no céu, que Teu nome seja santificado, que Teu reino venha, que Tua vontade seja feita na terra, assim como no céu; dá-nos hoje o pão necessário (cotidiano), perdoa a nossa ofensa assim como nós perdoamos aos que nos têm ofendido e não nos deixeis cair em tentação, mas livra-nos do mal [Cf. Mt 6, 9-13; Lc 11, 2-4], pois Teu é o poder e a glória pelos séculos.

Assim rezai três vezes por dia.


Capítulo IX

SOBRE A CELEBRAÇÃO DA EUCARISTIA

Instrução sobre a celebração eucarística

No que concerne à Eucaristia, celebrai-a da seguinte maneira:

Primeiro sobre o cálice, dizendo:

Nós Te bendizemos (agradecemos), nosso Pai, pela santa vinha de Davi, Teu servo, que Tu nos revelaste por Jesus, Teu servo; a Ti, a glória pelos séculos! Amém.

Sobre o pão a ser quebrado:

Nós Te bendizemos (agradecemos), nosso Pai, pela vida e pelo conhecimento que nos revelaste por Jesus, Teu servo; a Ti, a glória pelos séculos! Amém.

Da mesma maneira como este pão quebrado primeiro fora semeado sobre as colinas e depois recolhido para tornar-se um, assim das extremidades da terra seja unida a Ti Tua igreja (assembléia) em Teu reino; pois Tua é a glória e o poder pelos séculos! Amém.

Ninguém coma nem beba de vossa Eucaristia, se não estiver batizado em nome do Senhor. Pois a respeito dela disse o Senhor:

Não deis as coisas santas aos cães!


Capítulo X

AÇÃO DE GRAÇAS APÓS A CEIA

Mas depois de saciados, bendizei (agradecei) da seguinte maneira:

Nós Te bendizemos (agradecemos), Pai Santo, por Teu santo nome, que Tu fizeste habitar em nossos corações, e pelo conhecimento, pela fé e imortalidade que Tu nos revelaste por Jesus, Teu servo; a Ti, a glória pelos séculos. Amém.

Tu, Senhor, Todo-poderoso, criaste todas as coisas para a glória de Teu nome e, para o gozo deste alimento e a bebida aos filhos dos homens, a fim de que eles Te bendigam; mas a nós deste uma comida e uma bebida espirituais para a vida eterna por Jesus, Teu servo.

Por tudo Te agradecemos, pois és poderoso; a Ti, a glória pelos séculos. Amém.

Lembra-Te, Senhor, de Tua Igreja, para livrá-la de todo o mal e aperfeiçoá-la no Teu amor; reúne esta igreja santificada dos quatro ventos no Teu reino que lhe preparaste, pois Teu é o poder e a glória pelos séculos. Amém.

Venha Tua graça e passe este mundo! Amém. Hosana à casa de Davi [Cf. Mt 21, 15]. Venha aquele que é santo! Aquele que não é (santo) faça penitência: Maranatá! [Cf. 1Cor 16, 22; Ap 22, 20] Amém.

Deixai os profetas bendizer (celebrar a Eucaristia) à vontade.


Capítulo XI

OS APÓSTOLOS E PROFETAS

Da hospitalidade para com os apóstolos e profetas

Se, portanto, alguém chegar a vós com instruções conformes com tudo aquilo que acima é dito, recebei-o.

Mas, se aquele que ensina é perverso e expõe outras doutrinas para demolir, não lhe deis atenção; se, porém, ensina para aumentar a justiça e o conhecimento do Senhor, recebei-o como o Senhor.

A respeito dos apóstolos e profetas, fazei conforme as normas (texto grego: dogma) do Evangelho.

Todo o apóstolo que vem a vós seja recebido como o Senhor.

Mas ele não deverá ficar mais que um dia, ou, se necessário, mais outro. Se ele, porém, permanecer três dias é um falso profeta.

Na sua partida, o apóstolo não leve nada, a não ser o pão necessário até a seguinte estação; se, porém, pedir dinheiro é falso profeta.

E não coloqueis à prova nem julgueis um profeta em tudo que fala sob inspiração, pois todo pecado será perdoado, mas este pecado não será perdoado [Cf. Mt 12, 31].

Nem todo aquele que fala no espírito é profeta, a não ser aquele que vive como o Senhor. Na conduta de vida conhecereis, pois, o falso profeta e o (verdadeiro) profeta.

E todo profeta que manda, sob inspiração, preparar a mesa não deve comer dela; ao contrário, é um falso profeta.

Todo profeta que ensina a verdade sem praticá-la é falso profeta.

Mas todo profeta provado (e reconhecido) como verdadeiro, representando o mistério cósmico da Igreja, não ensinando, porém, a fazer como ele faz, não seja julgado por vós, pois ele será julgado por

Deus. Assim também fizeram os antigos profetas.

O que disser, sob inspiração: dá-me dinheiro ou qualquer outra coisa, não o escuteis; se, porém, pedir para outros necessitados, então ninguém o julgue.


Capítulo XII

HOSPITALIDADE COM DISCERNIMENTO

Da hospitalidade para com os outros

Todo aquele que vem a vós, em nome do Senhor, seja acolhido. Depois de o haverdes sondado, sabereis discernir a esquerda da direita (pois tendes juízo).

Se o hóspede for transeunte, ajudai-o quanto possível. Não permaneça convosco senão dois ou, se for necessário, três dias.

Se quiser estabelecer-se convosco, tendo uma profissão, então trabalhe para o seu sustento.

Mas, se ele não tiver profissão, procedei conforme vosso juízo, de modo a não deixar nenhum cristão ocioso entre vós.

Se não quiser conformar-se com isto, é um que quer fazer negócios com o cristianismo. Acautelai-vos contra tal gente.


Capítulo XIII

SUSTENTAÇÃO DO PROFETA

Deveres para com os verdadeiros profetas

Todo verdadeiro profeta que quer estabelecer-se entre vós é digno de seu alimento.

Do mesmo modo, também o verdadeiro mestre, como o operário, é digno de seu alimento.

Por isso, tomarás as primícias de todos os produtos da vindima e da eira, dos bois e das ovelhas e darás aos profetas, pois estes são os vossos grandes sacerdotes.

Se vós, porém, não tiverdes profeta, dai-o aos pobres.

Se tu fizeres pão, toma as primícias e dá-as conforme manda a lei.

Do mesmo modo, abrindo uma bilha de vinho ou de óleo, toma as primícias e dá-as aos profetas.

E toma as primícias do dinheiro, das vestes e de todas as posses e, segundo o teu juízo, dá-as conforme a lei.


Capítulo XIV

A CELEBRAÇÃO DOMINICAL

Santificação do domingo pela eucaristia

Reuni-vos no dia do Senhor para a fração do pão e agradecei (celebrai a eucaristia), depois de haverdes confessado vossos pecados, para que vosso sacrifício seja puro.

Mas todo aquele que vive em discórdia com o outro, não se junte a vós antes de se ter reconciliado, a fim de que vosso sacrifício não seja profanado [Cf. Mt 5, 23- 25].

Com efeito, deste sacrifício disse o Senhor: Em todo o lugar e em todo o tempo se me oferece um sacrifício puro, porque sou um grande rei – diz o Senhor – e o meu nome é admirável entre todos os povos [Cf. Mal 1, 11-14].


Capítulo XV

A VIVÊNCIA COMUNITÁRIA

Eleição dos bispos e diáconos

Escolhei-vos, pois, bispos e diáconos dignos do Senhor, homens dóceis, desprendidos (altruístas), verazes e firmes, pois eles também exercerão entre vós a liturgia dos profetas e doutores (mestres).

Não os desprezeis, porque eles são da mesma dignidade entre vós como os profetas e doutores.

Repreendei-vos mutuamente uns aos outros, não com ódio, mas na paz, como tendes no Evangelho. E ninguém fale com (todo) aquele que ofendeu o outro (próximo), nem o escute até que ele se tenha arrependido.

Fazei vossas preces, esmolas e todas as vossas ações como vós tendes no Evangelho de Nosso Senhor.


Capítulo XVI

PERSEVERAR ATÉ O FIM

Da parusia do Senhor

Vigiai sobre vossa vida. Não deixeis apagar vossas lâmpadas nem solteis o cinto de vossos rins, mas estai preparados, pois não sabeis a hora na qual Nosso Senhor vem [Cf. Mt 24, 41-44; 25, 13; Lc 13, 35].

Reuni-vos freqüentemente para procurar a salvação de vossas almas, pois todo o tempo de vossa fé não vos servirá de nada se no último momento não vos tiverdes tornado perfeitos.

Com efeito, nos últimos dias se multiplicarão os falsos profetas e os corruptores; as ovelhas se transformarão em lobos e o amor em ódio [Cf. Mt 24, 10-13; 7, 15].

Com o aumento da iniqüidade, os homens se odiarão, se perseguirão e se trairão mutuamente e então aparecerá o sedutor do mundo como se fosse o filho de Deus. Ele fará milagres e prodígios e a terra será entregue em suas mãos e ele cometerá tais crimes como jamais se viu desde o começo do mundo [Cf. Mt 24, 24; 2Ts 2, 4- 9].

Então toda a criatura humana passará pela prova de fogo e muitos se escandalizarão e perecerão. Mas aqueles que permanecerem firmes na sua fé serão salvos por aquele que os outros amaldiçoam (pelo amaldiçoado) [Cf. Mt 24, 10-13].

Aparecerão os sinais da verdade: primeiro o sinal da abertura no céu, depois o sinal do som da trombeta e, em terceiro lugar, a ressurreição dos mortos [Cf. Mt 24, 31; 1Cor 15, 52; 1Ts 4, 16].

Mas não de todos, segundo a palavra da escritura: O Senhor virá e todos os santos com Ele.

Então verá o mundo a vinda do Senhor sobre as nuvens do céu [Cf. Mt 24, 30; 26, 64].


 

DA DEVOÇÃO AO PAPA

O ano novo começa com uma festa de Jesus, e essa festa lembra a primeira efusão do seu sangue. É isso como uma espécie de tipo da vida cristã inteira. Cristo vive em nós, e nós, por nossa vez, vivemos da vida dele.

A vida do homem redimido está, por assim dizer, de tal forma entrelaçada à graça e à ação do Redentor, que não podemos concebê-la como separada dele. Ele está como que misturado a tudo o que fazemos, a tudo o que somos, a tudo o que sofremos. Não temos uma só alegria, uma só mágoa que não seja tanto dele como nossa: são dele porque são nossas.

Ele é o fim, a força e a energia de toda vida santa. Faz de toda coisa a sua coisa própria, mesmo da que menos parece pertencer aos seus interesses. A sua jurisdição estende-se ao mesmo tempo a todo o conjunto e às menores minúcias: é uma parte do seu amor o fazer dos nossos menores interesses os seus interesses maiores.

O velho ano finda com o seu Nascimento, como que para dissipar a tristeza que inspira o tempo decorrido por essa lembrança tão doce da eternidade. O novo ano começa com uma de suas dores; como que para reconduzir à razão as alegrias inconsideradas, e para temperar a impetuosidade da ação.

É definir com verdade a nossa vida, o dizer que Jesus está em toda parte e em todas as coisas. A medida que envelhecemos, ele mais nos atrai, e absorve a nossa vida com mais força e de maneira mais exclusiva. Do mesmo modo que ele foi desde toda a eternidade o pensamento principal de Deus, assim também o seu pensa-mento deve dominar em nós todos os outros.

Nós só vivemos para adorá-lo. Fomos predestinados, porque ele mesmo o foi primeiro. Ele é o primogênito de toda criatura; nós fomos feitos à sua imagem e para ele. Temos, cada um, alguma obra especial a fazer para ele, algum oficio especial a desempenhar na sua corte, alguma vocação especial que deve proporcionar-lhe uma glória particular.

Tal é o sentido da nossa vida. Nada somos sem ele; mas somos¬-lhe ao mesmo tempo caros e preciosos. Ele faz de nós grandes coisas, e é sabedoria como felicidade nossa fazermo-lo tudo em todas as coisas para nós.

Não somente é verdade que Jesus é nossa vida, mas é também verdade que a sua vida é a nossa vida, e isto é real sob uma multi-dão de aspectos, desde a augusta realidade do Santíssimo Sacramento, até às influências que cada um dos mistérios de Nosso Senhor exerce sobre as nossas orações e sobre o nosso caráter.

Em toda a criação de Deus, depois do mundo dos anjos não há nada mais maravilhoso do que uma vida humana. Tem havido milhões dessas vidas que tiveram cada uma a sua maravilha própria e particular; haverá milhões e bilhões dessas diversas criações. Mas há uma vida que é a verdadeira vida de todas essas vidas, uma vida mais maravilhosa do que o pode ser uma vida angélica: é a vida de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, Deus e homem conjuntamente.

Ele viveu trinta e três anos na terra; a sua vida foi uma cadeia ininterrupta de mistérios. Os seus méritos infinitos e as suas infinitas satisfações são os tesouros que enriquecem a pobreza do mundo. Foi a sua vida humana que supriu os nossos meios de expiação, ao mesmo tempo que, pelos seus exemplos, fornecem o modelo de toda santidade humana. Nossas vidas devem ser modeladas pela dele.

O amor de Jesus, a semelhança com Jesus, eis as coisas que formam a santidade completa. Toda a história real do mundo, tudo o que verdadeira e propriamente nos concerne, acha se reunido nos quatro Evangelhos e nas reminiscências dos trinta e três anos.

Mas é essa apenas uma parte da verdade: a vida de Nosso Se-nhor não é só um exemplo exterior, é um poder, uma graça, uma eficácia cuja energia imortal se transmite até às idades mais remo-tas, quer nas operações dos sacramentos, quer nas graças da contemplação. Por outros termos: os trinta e três anos não passaram; nunca passarão; continuar-se-ão na Igreja até o fim dos tempos.

Mas não nos devemos deter agora, como seríamos tentados de fazer, nas deliciosas verdades, nas consolações inefáveis que esse fato nos aduz; basta-nos compreender bem que toda a santidade consiste em transportar à nossa vida e aos nossos anos os anos de Jesus, em achar na vida dele o nosso modelo e a virtude secreta que nos torna capazes de conformar-nos a esse modelo.

É isso o que a Igreja nos ensina no ano eclesiástico. Não somente ela tem festas especiais para recordar cada um dos mistérios de Nosso Senhor, mas esforça-se por nos fazer vi ver em cada um dos nossos anos os trinta e três anos de Jesus.

Passamos através dos doze belos anos da sua infância nas sema-nas que separam o Natal da Quaresma. A Quaresma mantém-nos com ele no deserto, e purifica-nos para nos preparar para a visão particular da sua Paixão, que a Semana Santa coloca diante de nós de maneira tão maravilhosa e tão acabrunhadora para os nossos corações.

O tempo pascoal é a sua vida ressuscitada, e a festa da sua Ascensão seria incompleta sem a solenidade do Santíssimo Sacramento, dia triunfal da festa do Corpo sagrado de Jesus Cristo. Desde essa festa até o Advento, durante vários meses alimentamo-nos dos discursos, das parábolas e das diversas circunstâncias dos três anos do seu ministério.

E, entrementes, ao lado dessa vida anual de Jesus transcorre uma vida anual de Maria, que ainda é uma vida de Jesus. A sua Imaculada Conceição acha-se quase confundida com a expectação da sua divina Maternidade. Celebramos-lhe a Purificação pouco tempo antes de celebrarmos a tentação de Nosso Senhor no deserto. A comemoração das suas dores toca a comemoração da Paixão de Jesus Cristo. A Assunção é para as festas de Maria o que a Ascensão é para as festas de Jesus.

Nessa ordem das festas descobrimos o sentimento constante da Igreja, a saber: que a vi da de Jesus é a nossa vida, o exemplo da nossa Vida e a fonte sobrenatural da sua energia. Tudo isso resume-se nesta simples, mas imperecível verdade: que os cristãos são uns Cristos: christianus alter Christus.

Assim, é uma forma comum do nosso amor ao nosso divino Mestre desejarmos que, com o nosso conhecimento atual e a nossa fé atual, ter vivido com ele e tê-lo servido durante os trinta e três anos da sua existência na terra. Pensamos, com ventura, no amor que lhe teria mas testemunhado; imaginamos mil circunstâncias em que o nosso amor se teria religiosamente exalado em testemunhos de veneração e de afeto.

Os nossos pensamentos gostam de representar-nos as reparações continuas que teríamos feito em sua honra; imaginamos como lhe teríamos adivinhado os desejos melhor do que os que lhe estavam então em torno, como a nossa solicitude se teria aproximado da devoção entusiasta dos apóstolos, e como, semelhantes ao anjo consolador de Getsêmani, teríamos incessantemente aliviado pelo nosso amor os sofrimentos da sua vida. Estes desejos formam como que uma parte dos nossos instintos cristãos.

Mas, aqui estamos em presença da grande maravilha de uma vida cristã. Não é esse um puro desejo, um sonho romântico, uma fantástica ficção de amor; os trinta e três anos não passaram, Jesus ainda está conosco; agora e neste lugar, como outrora na Judéia, temos um ministério real e pessoal a cumprir junto de Jesus, e são as ações pelas quais devemos santificar-nos, ações que inflamam o nosso amor e ao mesmo tempo o satisfazem. Foi para isto que Jesus voltou a nós no Santíssimo Sacramento.

Ele permanece entre nós na misteriosa magnificência do tabernáculo; faz brilhar nossos olhos as franjas das suas alvas vestes; coloca-se a si mesmo em nossas mãos, confia à nossa guarda a sua fraqueza; repousa na nossa língua e desce aos nossos corações em toda a inefável realidade do grande Sacramento; agora ele é mais acessível para nós do que o foi durante os trinta e três anos de sua vida terrena. Concede a cada um de nós mais tempo e mais atenção; podemos possui-lo mais completamente, podemos fruir da sua presença mais à nossa vontade e mais especialmente.

Por isto o Santíssimo Sacramento é o verdadeiro centro da nossa vida: não compreenderíamos como poderíamos viver sem ele, ou afastados dessa divina vizinhança. Ó Senhor! ó nosso amor! Como ele conheceu bem a maneira como devia sensibilizar-nos para ser por nós amado, e como satisfez incrivelmente bem esse sentimento.

O fim do Santíssimo Sacramento é tornar-nos Jesus presente, e multi-plicar milagrosamente a sua presença. Como O ensina a teologia, os sacramentos são ações de Jesus Cristo; o Santíssimo Sacramento é o próprio Jesus Cristo vivo.

Assim, os trinta e três anos continuam na terra, e continuam em milhares de lugares ao mesmo tempo, de sorte que milhões de almas são arrastadas à sua esfera atual, e vivem de uma vida sobrenatural, ao calor e à luz com as circunda a vida humana de Nosso Senhor sempre continuada e sempre presente.

Podia Deus mostrar-nos de maneira mais ente que o amor da pessoa de Jesus é a essência da religião, e que a presença de Jesus é a necessidade da sua vida e do seu poder?

As vezes, grandes graças parecem-nos maravilhosas, quando as comparamos com outras mais pequenas; porém, mais vezes ainda, são as menores que nos parecem particularmente maravilhas quando as comparamos com outras maiores; noutros termos: a misericórdia de Deus é mais admirável nas pequenas coisas, mormente quando essas pequenas coisas parecem ser a repetição e como que o supérfluo de coisas maiores.

Jesus satisfez o seu imenso amor, e deu ao nosso amor o meio de ser imenso, voltando a nós na sua natureza humana pelo Sacramento da Eucaristia. Impossível imaginar continuação mais surpreendente dos seus trinta e três anos. Efetivamente, nenhuma criatura inteligente poderia ter imaginado coisa tão maravilhosa.

Mas o seu amor estende-se a todo o campo da criação, e ele sentiu que essa maneira de permanecer invisível no meio de nós não era suficiente. Todas as funções relativas ao Santíssimo Sacramento são necessariamente adorações, e o homem só pode tributar-lhe um culto intermitente. Os nossos pobres corações bem desejam estar sempre em adoração diante do Santíssimo Sacramento, mas este esforço seria excessivo.

Aliás, o culto do Santíssimo Sacramento representa antes esses grandes atos públicos de homenagem pelos quais todos os fiéis se reúnem solenemente, e que, por conseguinte, são menos numerosos e só ocorrem a certos intervalos, conforme o pedem os negócios da vida humana; ou então representa a vida interior e oculta da nossa comunhão com Deus. Vimos confia baixinho as nossas penas à porta do tabernáculo; aí trazemos as nossas alegrias para serem abençoadas, purificadas e asseguradas. Aí queixamo-nos das nossas tentações; aí, com imida ousadia, ousamos entregar-nos às familiaridades do amor, certos de que só o ouvi o indulgente do nosso dileto Salvador ouvirá as nossas palavras; aí, entramos sem pejo e discussão com ele como outrora Jó, e, mesmo quando trememos diante da sua majestade, não nos arreceamos de fatigá-lo pela importunação das nossas preces que a fé anima só pela metade.

Mas o nosso amor necessita de alguma coisa mais, as nossas almas têm outros desejos que devem ser satisfeitos. A nossa vida é por demais uma vida de matéria, de sentidos e de coisas exteriores. No Santíssimo Sacramento, Jesus está invisível. Sob este aspecto, nós somos menos infelizes que aqueles que outrora conversavam com Jesus na Judéia. Eles viam o objeto do seu amor, conheciam-no pelos olhos, liam nos amáveis traços da sua face divina os amáveis mistérios do seu Coração sagrado. A luz de seus olhos era para eles uma linguagem, o som da sua voz era- lhes uma revelação, a sua beleza exterior lhes vinha em auxilio do amor interior.

O Santíssimo Sacramento é, de muitas maneiras, superior a tudo isso, e, para nos servirmos das próprias expressões de Nosso Senhor, a sua presença invisível era mais conveniente; porém Jesus visível era, de alguma maneira, mais doce, mais caro e mais amável. Não podemos deixar de senti-lo; e, não obstante, ficaríamos surpresos com a maneira pela qual Jesus reparou essa perda para nós, se repetidas experiências do seu amor não nos houvessem acostumado a não manos surpreendermos com coisa alguma que ele faz.

Pode uma alma conhecer um meio de amar a Jesus, e achar que Jesus não providenciou para ser ama o por esse meio? Ela sabia que, quando uma vez o seu amor toma posse dos nossos corações estabelece neles o seu delicioso domínio, nós estejamos ardentemente servi-lo pela nossa vida exterior, acumular sem fim sobre ele provas, do nosso afeto, e entregar-nos a essas invenções de amor que com tanta fecundidade o coração produz quando está apaixonado.

A infinita sabedoria de Jesus é sempre serva da sua infinita compaixão. Ele olha toda a criação para achar uma representação justa da sua pessoa sagrada. Examina a terra com seu infalível amor para achar nela um monumento conveniente ao qual possa suspender, como à coluna de um troféu, as suas próprias insígnias, e, por assim dizer, fazer-se substituir por elas.

Era mister que elas lhe fossem semelhantes, que todos os homens pudessem facilmente reconhecer-lhe a semelhança; era mister que elas lhe fossem assim semelhantes, a fim de poderem mais seguramente provocar um amor entusiasta e constante. Era mister que fossem como um resumo visível dos seus trinta e três anos na terra. Belém, Nazaré, a Galiléia, o Calvário são invisíveis no Santíssimo Sacramento; era mister que, nessa nova presença visível deles, Belém e Nazaré e a Galiléia e o Calvário sem claros e visíveis, reais e evidentes.

Ó escolha divina, e característica d’aquele que escolheu to¬das as coisas desde a eternidade! O Criador escolheu então os pobres quando ele teve de vir à terra, escolheu a preza para seu quinhão, para a própria condição de sua vida privada. Agora, que ele velou a sua face nas nuvens do céu, escolhe os pobres, para representá-lo e para fornecer-nos todas aquelas ocasiões de culto e de santificação que se achavam nos seus trinta e três anos.

É por isto que a Igreja sempre se apegou aos pobres, como, no frio, na escuridão e na humildade da gruta. Maria se apegava ao caro Menino de Belém. É por isso que os desvelos generosos pelos pobres são as medidas infalíveis do nosso amor interior a Jesus, e é por isso, também, que a piedade está ao abrigo de toda ilusão quando pode sempre assegurar-se da sua realidade pela abundância das suas es molas.

Que revelação de Jesus nessa escolha do pobre! Nós sentimos que o conhecemos muito melhor depois que fizemos nele esta nova descoberta. Ele revela o seu caráter pela própria especialidade da sua escolha; deixando-nos esse seu “alter ego” visível, ele nos declara de maneira ainda mais evidente que os seus trinta e três anos não cessaram de existir, e que o ministério cumprido para com a sua pessoa é a forma particular da nossa santificação.

Doce nos seria determo-nos neste assunto, mas devemos passar adiante.

Em verdade, Nosso Senhor multiplicou os meios de satisfazer o nosso apetite de amor. Há pessoas entre nós que não podem servi-lo nas obras corporais de misericórdia; o maior número, mesmo das obras espirituais de misericórdia para com os pobres dependem da esmola. Cumpre, pois, que os pobres tenham um outro representante de Jesus, a quem possam cercar das solicitudes do seu amor cheio de fé.

Aliás, há no coração humano sentimentos e amores que importa elevar à dignidade sobrenatural do amor de Jesus, e que não podem ser satisfeitos pela devoção aos pobres. Por isto Jesus escolheu ainda outro “alter ego” visível, a fim de poder encher todo o campo ocupado pelo coração humano: escolheu as crianças; tomou esses pequeninos que enchem as nossas moradas, que brincam nas nossas ruas, que guarnecem os bancos das nossas escolas. Antes de tudo, inspirou-nos por eles um temor respeitoso, falando-nos da vingança dos anjos incumbidos da guarda das almas das crianças, e do poder que eles têm de nos punir, porque gozam continuamente da augusta visão de Deus; depois, ensinou-nos que todos os atos de religiosa bondade exercidos para com a mais pequena dessas fracas crianças eram atos de bondade exercidos para com ele mesmo.

É dessa escolha que vem a solicitude da Igreja pelos interesses das crianças. Para lhes salvar as almas, ela combate com os governos do mundo, expõe-se aos seus ataques, põe em perigo a sua própria tranquilidade, perde o patrocínio dos grandes da terra, recusa sancionar por sua condescendência leis iníquas, contenta-se com olhar como fanáticos ininteligentes ou como homens de má fé aqueles que o querem crer na sinceridade e na pureza desse zelo sobrenatural.

Sem dúvida alguma, foi o amor amável Salvador a nós que o impeliu as crianças como os representantes visíveis de sua pessoa. Entretanto, ouso às vezes pensar que essa escolha foi feita tanto para satisfazer o seu próprio amor como para satisfazer o nosso.

De alguma sorte, Belém convém mais a Nosso Senhor que o Calvário. Havia mais Belém no Calvário do que Calvário em Belém. O Santíssimo Sacramento é o memorial sua Paixão; quem não reconheceria, entretanto, que vem maior plenitude de luz de Belém do que de sombras do Calvário?

Havia no Coração sagrado de Jesus algo que enunciava uma eterna infância, e o seu caráter humano distinguia-se por um amor especial às crianças. Havia mais liberdade na escolha das crianças para representá-lo, do que na escolha dos pobres; havia aí uma necessidade menos intensa de um outro seu “alter ego” visível; essa segunda escolha foi mais gratuita, e, por isto, penso ter sido mais particularmente para si que ele a fez.

De resto, é o mesmo grande princípio que se manifesta aqui, isto é, a continuação dos trinta e três anos, e a garantia dos ministérios de que sua pessoa é objeto. A escolha que ele fez dos pobres e das crianças para serem outra sua pessoa, é uma emanação da mesma sabedoria e da mesma benignidade cujos abismos produziram o estupendo mistério da Eucaristia.

Ó gloriosa capacidade do coração humano para amor! Tudo isso ainda não era o bastante.

Quando servimos o nosso amável Salvador na pessoa dos pobres e das crianças, somos, de alguma sorte, seus superiores. Ajudamo-lo com o nosso supérfluo. Ele se apresenta a nós num estado que inspira compaixão, e ficamos cheios de piedade, e corremos em seu auxilio, e aliviamo-lo na sua miséria. Doce tarefa aliás, maravilhoso alívio para o nosso amor que cresce e aumenta a ponto de se tornar um fardo para si mesmo!

Todavia, há outras espécies de amores que atingimos quando crescemos em graça, graus mais elevados que anunciam graças mais altas, mais enérgicas, por serem mais próprias para a plenitude da nossa humanidade em Cristo. Precisamos obedecer, precisamos receber ordens ouvir lições, praticar a submissão. Temos vontades que nos são próprias, e que precisamos sacrificar por amor d’Aquele a quem amamos. Somos apegados às nossas próprias opiniões, e temos em alta estima os nossos próprios juízos; mas desejamos renunciar-lhes por amor de Jesus.

Precisamos abandonar a procura interesseira dos nossos próprios pensamentos, a fim de que nossos corações possam alargar-se e tornar-se capazes de amar com mais energia e de maneira mais exclusiva.

Precisamos imolar-nos a nós mesmos pelo serviço de Jesus, mais do que no-lo permite fazer o cuidado dos pobres e das crianças. Além disto, temos necessidade de Jesus de todas as maneiras. Temos necessidade dele como de nosso Mestre: era esse o nome que seus discípulos gostavam de lhe dar na terra; parece que eles ha-viam imaginado dar a esse nome um significado mais afetuoso do que poderia ter qualquer outro nome a respeito de Jesus. Escutavam-lhe os discursos na montanha e na planície; ficavam como que suspensos às palavras que, quais pérolas preciosas lhe caíam dos amáveis lábios; num delicioso silêncio, nutriam suas almas com o ensino dele, que era para eles o próprio pão da vida eterna. As parábolas de Jesus gravavam-se-lhes profundamente nos corações, e aí desabrochavam em sublimes revelações dos mistérios de Deus; estas são as coisas de que não podemos prescindir.

Cumpre que Jesus seja também nosso mestre, não num livro morto, não por ouvir dizer; cumpre que ele seja nosso mestre real e vivo, cumpre que possamos depositar aos seus pés a nossa indocilidade, que possamos ser transportados de amor ao som da sua voz, renunciando aos nossos próprios juízos e pensamentos.

Jesus deixou Maria, tanto quanto deixou Pedro, à Igreja nascente. Não foi talvez para satisfazer aquele desejo de fervor primitivo, desejo que tão recentemente se saciara da sua amável presença na carne? A excelência da santidade apostólica não podia suportar que Jesus e Maria se retirassem ao mesmo tempo. E agora é pela mesma razão que Jesus nos deixou o Papa.

O Sumo Pontífice é a terceira presença visível de Jesus entre nós, presença de ordem mais elevada, de sentido mais profundo, de importância mais imediata, de natureza mais exata do que a sua presença nos pobres e nas crianças.

O Papa é o Vigário de Jesus Cristo na terra; e goza, entre os monarcas da terra, de todos os direitos e de toda a preeminência soberana da santa Humanidade de Jesus. Nenhuma coroa pode estar acima da sua: por direito divino, não pode ele ser súdito de ninguém. Toda tentativa para sujeitá-lo é uma violência e uma perseguição. Ele é rei em virtude do seu próprio ministério, pois de todos os reis é ele o mais próximo do Rei dos reis. Ele é a sombra visível que parte do Chefe invisível da Igreja no Santíssimo Sacramento. O seu ministério é uma instituição que emana das mesmas profundezas do Coração sagrado de onde já vimos sair o Santíssimo Sacramento e a elevação dos pobres e das crianças. É uma manifestação do mesmo amor, um desenvolvimento do mesmo princípio.

Com que cuidado, com que respeito, com que fidelidade não devemos, pois, corresponder a essa graça tão magnífica, a esse amor tão maravilhoso que o nosso amável Salvador nos mostra na es¬colha e na instituição do seu Vigário na terra! Pedro vive sempre, porque os trinta e três anos continuam sempre: estas duas verdades ligam-se à uma outra. O Papa é para nós, em toda a nossa conduta, o que o Santíssimo Sacramento é para nós em todas as nossas adorações. O mistério do seu Vicariato assemelha-se ao mistério do Santíssimo Sacramento: os dois mistérios entrelaçam-se, por assim dizer, um no outro.

A conclusão a tirar de tudo isto é da mais alta importância, e é que a devoção ao Papa forma uma parte essencial da piedade cristã. Não é este um assunto estranho à vida espiritual, como se o Papado só tivesse com o governo da Igreja, e não passasse instituição meramente relativa à vida da Igreja, de um ministério divina-mente e apropriado ao governo eclesiástico. Ele é o mesmo tempo uma doutrina e uma devoção, é uma parte integrante do plano de Nosso Senhor.

Jesus acha-se no Papa e maneira ainda mais alta do que nos pobres e nas crianças. O que é feito ao Papa é feito próprio Jesus. Tudo o que há de régio, tudo que há de sacerdotal em Nosso Se-nhor. Acha-se reunido na pessoa do seu Vigário, para receber as nossas homenagens e a nossa veneração. Poder-se-ia tão bem tentar ser bom cristão sem a devoção à Santíssima Virgem como sem a devoção ao Papa, e pela mesma razão em ambos os casos. A Mãe de Jesus Cristo e o seu Vigário fazem parte igualmente do seu Evangelho.

Rogo-vos terdes a peito esta verdade, sobretudo nos tempos atuais. Sem dúvida alguma, grandes consequências resultariam, para o bem da religião, da clara visão desta verdade, a saber: que a devoção ao Papa é uma parte essencial da piedade cristã. Isso dissiparia muitos erros, reformaria muitos preconceitos e preveniria muitas desgraças.

Sempre pensei que o único meio de resolver todas as dificuldades é olhar as coisas colocando-se simples e exclusivamente do ponto de vista de Nosso Senhor Jesus Cristo. Vejamos as coisas tais quais elas são nele e por ele. Há nos nossos dias muitas complicações, muitos embaraços na Igreja e no mundo; mas, se nos conservássemos firmes sobre este princípio, se nos apegássemos a Jesus com uma confiança de criança, teríamos um fio condutor para nos dirigir infalivelmente através de todos os labirintos, e quer pela nossa covardia, quer pela nossa prudência toda carnal, quer pela falta de discernimento espiritual, jamais teríamos a desdita de achar-nos do lado onde não está Jesus.

Se o Papa é a presença visível de Jesus, unindo em si a jurisdição espiritual e temporal que pertence à Humanidade santa do Salvador, e se a devoção ao Papa é um elemento indispensável de toda santidade cristã, de tal sorte que sem ela não pode haver piedade sólida, muito nos importa ver quais são as nossas disposições para com o Vigário de Jesus Cristo, e examinar se os nossos sentimentos habituais são tais como os pede Nosso Senhor. Desejo falar deste assunto apenas sob o ponto de vista da piedade, porque considero importantíssimo este ponto de vista. A minha posição e o meu ministério, tanto quanto os meus gostos e os meus sentimentos, impõem-me esta maneira de encarar a questão.

Quando a Igreja está em paz, concebe-se que os católicos não compreendam tanto como deveriam de que necessidade é a devoção ao Papa, e o quanto é ela essencial à piedade cristã. Podem eles pensar que o que lhes compete é ir à igreja, frequentar os sacramentos e cumprir exatamente os seus exercícios espirituais particulares; pode parecer-lhes que eles nada têm a ver com aquilo que consideram como da alçada exclusiva do governo eclesiástico. É este, sem dúvida, um erro lamentável em todos os tempos, e em todos os tempos deve a alma sofrer com ele, pois ele a priva de graças, mais elevadas e a impede de progredir na perfeição.

É um caráter invariável dos santos, em todas as épocas, o terem uma viva e, sensível devoção para com a Santa Sé. Mas, quando vivemos em tempos de perturbações e de aflições para o Sumo Pontífice, logo devemos compreender com que rapidez declina a piedade prática, por uma consequência necessária de vistas falsas a respeito do Papado ou de um procedimento covarde para com o Papa.

Fica-se então admirado de descobrir quão intimamente são unidos uma nobre fidelidade ao Papa e a nossa generosidade para com Deus, tanto como as liberalidades de Deus a nosso respeito. Cumpre compartilhemos, cumpre consideremos como um dever da nossa piedade particular o compartilharmos ardorosamente das simpatias da Igreja pelo seu Chefe visível, do contrário Deus já não nos demonstrará simpatia.

A cada época, como a cada vocação, a graça só é dada sob certas condições. Durante as épocas em que Deus permite que a sua Igreja seja atacada na pessoa do seu Chefe visível, a obra da Santa Sé deve ser encarada como uma condição implícita de todo progresso na graça.

Em que motivos deve, pois, fundar-se a nossa devoção ao Papa? Primeiramente e antes de tudo, no fato de ser ele o Vigário de Jesus Cristo. O seu ministério tem por fim o próprio cumprimento dos desígnios que trouxeram à terra a presença visível de Nosso Senhor. A sua jurisdição estende-se sobre nós como a próprio Salvador.

A grandeza terrível do múnus pontifical é outro motivo da nossa devoção ao Papa. Quem pode encarar sem tremer uma tão terrível responsabilidade? Milhões de consciências dependem dele, milhares de causas aguardam a sua decisão. Os interesses que ele deve regular são de uma importância superior a todos os outros, visto serem os interesses eternos das almas. Um só dia do governo da Igreja encerra mais consequências graves do que um ano do governo dos impérios mais poderosos da terra. E como o Sumo Pontífice tem necessidade de apoiar-se em Deus durante esses longos dias! Com que ansiedade deve aguardar as continuas inspirações do Espírito Santo para distinguir a verdade no meio do ruído de tantas contradições, ou na escuridão de tais distâncias! A pomba que murmurava baixinho ao ouvido de São Gregório não é o símbolo do Papado?

Entre esses gigantescos trabalhos, de todos os trabalhos da terra quiçá os mais ingratos e os menos apreciados, quão tocante é a fraqueza do Sumo Pontífice, como o próprio estado de fraqueza do seu bem-amado Mestre! O seu poder está na paciência, a sua majestade está na longanimidade. Ele é vítima de todas as insolências, de todas as perversidades que vêm do alto. Podem os homens cobri-lo de injúrias, da mesma sorte que escarraram no rosto de seu Mestre; podem humilhá-lo e ultrajá-lo com seus sol-dados, como o fez Herodes a respeito do Salvador; podem sacrificar os direitos dele às exigências momentâneas da sua própria covardia, do mesmo modo que Pilatos sacrificou outrora Nosso Senhor.

Pode haver nos governos covardias cuja profundeza nenhuma outra covardia humana poderia atingir, e é especialmente a sofrer dessas baixezas que está destinado o Vigário de Jesus Cristo. Homens que têm na cabeça coroas de ouro invejam essa cabeça coroada de espinhos; murmuram contra essa soberania dolorosa, pela qual ele está pronto a dar sua vida, porque ela lhe foi confiada por seu Mestre e não é propriedade sua. A cada geração que se sucede, na pessoa de seu Vigário Jesus torna a encontrar-se diante de novos Herodes. O Vaticano é menos um palácio do que um Calvário. Quem poderia considerar esta como¬vente grandeza da fraqueza, e compreendê-la como cristão, sem ficar comovido até às lágrimas?

Quando estamos doentes, um mau pensamento insinua-se às vezes no nosso coração, e nós pensamos que Nosso Senhor não santificou essa cruz da doença, carregando-a ele próprio. Mas porventura ele não suportou e não abençoou todas as penas corporais nos inúmeros sofrimentos e nas misteriosas crueldades da sua Paixão? Entretanto, ele não sofreu os incômodos da velhice, o peso dos anos nunca lhe enrugou o seu belo rosto, a luz dos seus olhos nunca se escureceu, a firme virilidade da sua voz nunca se enfraqueceu; não convinha que a honrosa decadência da idade se aproximasse dele.

Mas ele se digna de ser velho nos Pontífices que o representam; a maioria dos seus Vigários são curvados pelos anos.

Vejo aí um novo exemplo do seu amor, uma outra maneira de prover à diversidade do nosso amor a Ele. Na Judéia, ninguém pôde honrá-lo com esse amor particular que faz a glória do homem de bem que chegou à velhice. A homenagem presta aos velhos é uma das mais belas generosidades da juventude; mas a juventude da Judéia não pôde fruir da dita de testemunhar esta espécie de respeito a Jesus, servindo-o. Agora, ao contrário, na pessoa de seu Vigário, cuja solicitude é tornada mil vezes mais tocante e cuja fraqueza é tornada mais enternecedora por causa da idade, podemos aproximar-nos de Jesus com novos ministérios de amor. Uma nova maneira de amá-lo é oferecida ao ardor e à ternura da nossa afeição. Neste fato, nesse conflito de um ancião desarmado com as grandezas, com os privilégios, com a falsa sabedoria das jovens e orgulhosas gerações que se elevam, há certamente uma nova fonte da nossa devoção ao Papa.

Nada pode ser mais venerado aos olhos da fé do que a maneira como o Papa representa Deus. É como se o céu estivesse sempre aberto por cima da sua cabeça, e a luz descesse de lá sobre ele, e, qual Estêvão, ele visse Jesus sentado à destra do Pai, enquanto o mundo range os dentes contra ele com um ódio, com uma sanha sobre-humana, que muitas vezes deve causar admiração a ele próprio.
Mas, aos olhos do incrédulo, o Papado, como todas as coisas divinas, não passa de um espetáculo lastimável e vergonhoso, que só cólera e desprezo pode provar. Esse próprio desprezo deve tornar-se objeto da nossa devoção, porque nos devemos aplicar a fazer uma constante reparação dele. Devemos honrar o Vigário de Jesus Cristo com uma fé cheia de amor e um respeito cheio de confiança e de simplicidade. Não devemos permitir-nos nenhum pensa¬mento irreverente, nenhuma suspeita covarde, nenhuma incerteza pusilânime sobre o que diz respeito à sua soberania, quer espiritual, quer temporal, pois a sua própria realeza temporal é uma parte da nossa religião.

Não nos devemos permitir a desrespeitosa deslealdade de distinguir, nele e no seu ministério, entre o que podemos considerar como humano e o que podemos reconhecer como divino. Devemos defendê-lo com toda a constância, com toda a energia, com toda a dedicação, com toda a extensão de ação que o amor sabe empregar para defender as coisas que para ele são sagra¬das. Devemos ajudá-lo com orações desinteressadas; devemos servi-lo com submissão inteira, cordial, alegre, e, sobretudo nestes abomináveis dias de acusações e de blasfêmias, com a mais evidente, com a mais cavalheiresca, com a mais intrépida fidelidade. Trata-se dos interesses de Jesus Cristo, e não devemos nem perder tempo nem enganar-nos de bandeiras.

Nas provações da Igreja houve épocas em que a barca de Pedro pareceu soçobrar nas sombrias profundezas do mar. Há páginas da história que nos tolhem a respiração quando as lemos, e que sustam os batimentos do nosso coração, embora bem saibamos que a página seguinte nos contará algum novo triunfo após essas humilhações. Estamos numa dessas tristes épocas: é um tempo penoso de suportar; mas, nem a indignação cumpre as obras da justiça de Deus, nem o azedume nos dá acesso junto a ele.

Ao contrário, há uma força poderosa na aflição do fiel; é uma força que o mundo temeria se sequer pudesse discerni-la ou compreendê-la. O silêncio da Igreja atrai os olhares mesmo dos anjos que a contemplam na expectativa dos acontecimentos futuros. Devemos também esperar, na paciente tranquilidade da oração. Podem blasfêmias da incredulidade despertar a nossa fé, podem as hesitações dos filhos da Igreja atormentar os nossos corações; mas que a nossa dor não misture azedume à sua santidade. Fitemos os nossos olhares em Jesus, e cumpramos o duplo dever que o seu amor nos impõe hoje.

Digo o duplo dever, porque há dias em que Deus espera a profissão aberta da nossa fé e a intrépida declaração da nossa fidelidade; há dias, também em que o sentimento da nossa fraqueza exterior nos impele a apoiar-nos mais do que nunca na oração interior, e é este o nosso segundo dever. De pouco valor seria a profissão aberta da nossa fé sem a oração interior, mas penso que a oração interior seria quase igualmente inútil sem essa profissão aberta da nossa parte. Muitas virtudes crescem em segredo; a fidelidade, esta só pode prosperar aos raios do sol e sobre as colinas.

Como devemos, pois, inaugurar este novo ano? Graças à inefável permissão da misericórdia de Jesus, vamos elevar sobre o seu trono sacramental o Chefe invisível da Igreja, a fim de podermos socorrer o nosso Chefe visível, o seu Vigário bem-amado e sagrado, o nosso dileto e venerável Pai. Não preciso dizer-vos o que tendes de pedir, nem como deveis pedir; mas tenho um pensamento que muitas vezes me tem preocupado e que quero comunicar-vos em terminando:

Tenho a confiança invencível de que serão bem acolhidos no céu aqueles que houverem particularmente amado na terra o Papa que definiu o dogma da Imaculada Conceição.

1° de janeiro de 1860, Pe. Frederick William Faber

(Didaqué: A Instrução dos Doze Apóstolos. Edições Livre, CEDET, 2016)


[Vídeo] Estudo sobre a Didaqué: Catecismo dos Primeiros Cristãos

Neste programa, Pe. Guido e o apresentador Diácono Eric Modolo, abordam contextos históricos sobre a origem do documento Didaqué, além de diversos comentários sobre a estrutura e os capítulos. Abaixo os temas com seus respectivos momentos de fala:

[00:00] 1. Introdução do estudo sobre Didaqué
[03:05] 2. Quanto tempo demorou para o Antigo e Novo Testamento serem escritos e outras curiosidades?
[06:36] 3. A Didaqué é tão antigo quanto os Evangelhos?
[08:14] 4. Onde foi escrito a Didaqué e qual era sua finalidade?
[09:40] 5. Quem escreveu a Didaqué?
[10:37] 6. A divisão e estrutura da Didaqué
[15:06] 7. No Didaqué já falava sobre o Purgatório?
[22:10] 8. A Didaqué e a defesa da vida
[25:01] 9. A Didaqué e os Sacramentos
[27:56] 10. A Didaqué sobre os falsos profetas
[29:44] 11. Zelo dos primeiros cristãos para com os Sacramentos
[32:08] 12. A Didaqué é um exemplo claro da Sagrada Tradição
[36:38] 13. Ainda vale estudar a Didaqué?
[38:08] 14. Comentário sobre o capítulo 16
[40:21] 15. Um pouco mais sobre os falsos profetas e as realidades de hoje
[44:21] 16. Por onde começar a estudar sobre a fé?