Tag: vida cristã (Page 1 of 38)

O Justo morre numa Paz Dulcíssima

Visi sunt oculis insipientium mori… illi autem sunt in pace — “Aos olhos dos insensatos parece que morreram … eles, porém, estão em paz” (Sb 3, 2.3)

Sumário. Parece aos olhos dos insensatos que os servos de Deus morrem na aflição; mas enganam-se, porque o Senhor sabe como consolar os seus filhos no derradeiro momento. Assim como os que morrem em pecado, sentem antecipadamente no leito da morte certos tormentos do inferno, os remorsos e o desespero, assim os santos, pelos atos do amor de Deus, pelo desejo e esperança de brevemente o possuírem, já antes de morrer têm um antegozo daquela paz de que plenamente gozarão no céu. Felizes de nós, se por uma vida boa soubermos merecer uma morte tão suave!

I. Parece aos olhos dos insensatos que os servos de Deus morrem na aflição e contra vontade, assim como morrem os mundanos. Mas não; Deus bem sabe consolar os seus filhos nos derradeiros momentos, e nas próprias dores da morte lhes faz sentir grandes doçuras, como um antegozo do paraíso que brevemente lhes quer dar. Assim como os que morrem em pecado, começam a sentir, ainda no leito, certos tormentos do inferno, os remorsos, os temores, o desespero; assim, ao contrário, os santos, pelos atos de amor de Deus, que então repetem com mais frequência, pelo desejo e esperança que têm de em breve o possuir, começam já antes da morte a prelibar aquela paz de que plenamente gozarão no céu.

Para os santos a morte não é castigo, mas sim recompensa:

Cum dederit dilectis suis somnum, ecce haereditas Domini (1) — “Quando der sono aos seus amados, eis aqui a herança do Senhor”

A morte do que ama a Deus, não é chamada morte, mas sono de modo que bem poderá dizer:

In pace in idipsum dormiam et requiescam (2) — “Dormirei e repousarei na paz do Senhor”

O Padre Soares morreu em tamanha paz, que disse ao expirar:

Nunquam putabam tam dulce esse mori — “Nunca pude pensar que fosse tão doce a morte”

O cardeal Barônio, a quem o médico recomendava que não pensasse tanto na morte, respondeu:

“Por que não? Talvez por ter eu medo da morte? Não a receio, amo-a”

O cardeal Fisher, bispo de Rochester, quando ia morrer pela fé, vestiu os melhores vestidos que possuía, dizendo que ia para umas bodas. Quando avistou o instrumento do suplício, atirou para o lado o cajado e exclamou:

Ite, pedes, parum a paradiso distamus — “Eia, meus pés, caminhai depressa, que não estamos longe do paraíso”

Antes de morrer entoou o Te Deum em ação de graças a Deus, que lhe concedeu a ventura de morrer mártir pela santa fé, e cheio de alegria ofereceu a cabeça ao machado do algoz.

São Francisco de Assis cantava ao morrer, e convidou os outros a cantarem com ele. “Meu pai”, disse-lhe frei Elias, “na morte se deve chorar e não cantar”. “Pois eu”, respondeu o santo, “não posso senão cantar, porque vejo que em breve vou gozar a Deus”. Uma religiosa teresiana, morrendo ainda muito nova, disse às outras irmãs que estavam chorando em derredor dela:

“Por que chorais? Vou encontrar-me com o meu Jesus; se me tendes amor, regozijai-vos comigo”.

II. Conta o Padre Granada que um caçador encontrou um dia um solitário todo coberto de lepra, o qual estava morrendo, mas cantando. Disse-lhe o caçador:

“Como é que podes cantar nesse estado?”

Ao que o solitário respondeu:

“Meu irmão, entre mim e Deus há apenas o muro do meu corpo: vejo-o cair em ruínas, vai-se demolindo a minha prisão e vou gozar da vista de Deus. Isto me consola e me faz cantar”.

Semelhante desejo de ver a Deus levou Santo Inácio, mártir, a dizer que, se as feras não viessem tirar-lhe a vida, ele mesmo as provocaria para o devorarem. Santa Catarina de Gênova não podia consentir que se considerasse a morte como desgraça, e dizia:

“Ó morte querida, quanto és mal apreciada! Por que não vens ter comigo, que te chamo dia e noite?”

Santa Teresa desejava também tanto a morte, que para ela era morrer o não morrer, e neste sentimento compôs a sua célebre poesia: Morro, porque não morro. Tal é a morte para os santos.

Ah, meu soberano Bem, meu Deus, se no passado não Vos amei, agora me converto inteiramente a Vós. Renuncio a todas as criaturas e determino-me a amar unicamente a Vós, meu amabilíssimo Senhor. Dizei o que desejais de mim, que tudo quero fazer. Bastante Vos ofendi; quero empregar todo o resto da minha vida em Vos agradar. Fortalecei-me, a fim de que o meu amor compense a ingratidão de que até agora usei para convosco. Há muitos anos que merecia arder nos fogos do inferno, mas Vós tanto tendes corrido atrás de mim, que afinal me atraístes a Vós. Fazei que agora arda no fogo do vosso amor.

Amo-Vos, bondade infinita! Quereis ser o único objeto do meu amor, e com justiça, porque mais do que os outros me tendes amado e só Vós mereceis ser amado. Só a Vós quero amar, e quero fazer o que puder para Vos agradar. Fazei de mim o que quiserdes. Basta que Vos ame e que me ameis. Maria, minha Mãe, assisti-me, rogai a Jesus por mim.

Referências:
(1) Sl 126, 2.3.
(2) Sl 4, 9.

Voltar para o Índice de Meditações

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Duodécima semana depois de Pentecostes até ao fim do ano Eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 438-441)

Não é mui difícil obter-se a perfeição cristã

Capítulo 7. Não é mui difícil obter-se a perfeição cristã - Bálsamo Espiritual

Se para a posse desta somente se requer a união completa com a vontade divina, e para havê-la é preciso evitar até as culpas veniais, e buscar nas coisas que não são ordenadas nem proibidas, o maior gosto de Deus; para vos convencer que não é mui difícil adquirir a perfeição cristã, união perfeita da nossa vontade com a de Deus, convém dizer que não custa muito evitar o pecado venial, e buscar em todas as coisas o maior gosto de Deus. Acerca destes vou fazer importante distinção. Continue reading

Do amor a Deus

Diliges Dominum Deum tuum ex toto corde tuo — “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração” (Mt 22, 37)

Sumário. Entre todos os amigos do mundo, onde encontraremos um mais fiel, mais amante do que Deus? Amemo-lo, pois, conforme o seu desejo, de todo o coração, e agradeçamos-lhe muitas vezes o obséquio que nos fez chamando-nos a seu amor. Estejamos certos de que Jesus Cristo não se deixará vencer em amor, e recompensará, cem por um, o que fizermos por amor dele. Cada ato intensivamente perfeito de amor para com Deus, faz-nos adquirir um novo mérito igual a todos os méritos dantes adquiridos. Continue reading

Quem ama a Deus, não deve temer a Morte

Moriatur anima mea morte iustorum, et fiant novissima mea horum similia — “Morra a minha alma de morte dos justos, e sejam os meus novíssimos semelhantes aos deles” (Nm 23, 10)

Sumário. É certo que, sem uma revelação especial, ninguém pode ter a certeza infalível acerca da sua salvação; mas pode ter dela uma certeza moral aquele que se deu deveras a Deus, detesta os pecados cometidos, persevera na vida devota, e está disposto a antes morrer do que perder a graça divina; e, sobretudo, aquele que tem um desejo ardente de amar a Jesus Cristo, deseja vê-lo amado dos outros, e sente tristeza de o ver ofendido. Longe de aborrecer a morte, deve amá-la, porque o porá em estado de ver Deus face a face, e de gozá-lo por toda a eternidade. Continue reading

Ideia exata da Santidade Cristã

Capítulo 6. Ideia exata da Santidade Cristã - Bálsamo Espiritual

I

Todos os Santos concordam que a Santidade cristã consiste na caridade, isto é na prática da vontade divina, a alma que a executa é santa, que melhor lhe obedece mais santa é. Não se pode duvidar da verdade desta doutrina, e nenhum autor espiritual dela duvidou. Alma devota, vede em que estado e condição estais, se procurais cumprir a vontade de Deus sois santa, e quanto melhor a executardes com perfeição mais santa sereis. Continue reading

Santo Afonso, modelo de Paciência e de Amor à Cruz

Santo Afonso Maria de Ligório, modelo das Virtudes Fundamentais

Santo Afonso Maria de Ligório, modelo das Virtudes Fundamentais

Devoção a Santo Afonso como modelo das Virtudes Fundamentais.
Mês de Dezembro

Melior est patiens viro forti, et qui dominatur animo suo expugnatore urbium — “O homem paciente é melhor do que o valoroso ; e o que domina o seu ânimo, melhor do que o expugnador de cidades” (Pv 16, 32)

Sumário. Foram numerosos os espinhos semeados no caminho que nosso santo percorreu, e ele, por ter a compleição biliosa, devia sentir sobremaneira as picaduras. Mas, querendo imitar a Jesus Cristo, manso e humilde, de coração, Afonso, por meio de esforços heróicos, chegou não só a sofrer com paciência, senão a desejar sempre sofrimentos maiores. Ah! Se nós também estudássemos o grande livro do Crucifixo, quão leves se nos afigurariam as cruzes que Deus nos envia! Continue reading

Santo Afonso, modelo de Oração

Santo Afonso Maria de Ligório, modelo das Virtudes Fundamentais

Santo Afonso Maria de Ligório, modelo das Virtudes Fundamentais

Devoção a Santo Afonso como modelo das Virtudes Fundamentais.
Mês de Novembro

Multum valet deprecatio iusti assidua — “A oração perseverante do justo é muito valiosa” (Tg 5, 16)

Sumário. A chave dos tesouros celestiais é a oração, e sem a oração a perseverança na graça de Deus e a salvação são impossíveis. Eis porque Santo Afonso, em todo o correr da sua vida, nunca deixou de praticar este santo exercício, mesmo no meio da aridez e das desolações. Zeloso, como era, pela salvação do próximo, fez-se o Apóstolo da oração. Tu, meu irmão, glorias-te de ser devoto, e talvez filho, do santo Doutor; mas como é que imitas os seus exemplos ? Ao menos de hoje por diante sê mais diligente em fazer a tua oração no tempo mar-cado. Sendo diretor de almas, inculca também aos outros o uso deste grande meio da oração. Continue reading

Santo Afonso, modelo da Vida Interior e Recolhida

Santo Afonso Maria de Ligório, modelo das Virtudes Fundamentais

Santo Afonso Maria de Ligório, modelo das Virtudes Fundamentais

Devoção a Santo Afonso como modelo das Virtudes Fundamentais.
Mês de Outubro

Ego sum Deus omnipotens: ambula coram me, et esto perfectus — “Eu sou o Deus todo-poderoso: anda em minha presença e sê perfeito” (Gn 17, 1)

Sumário. Embora o nosso santo sempre tenha levado uma vida das mais ativas, pode contudo ser considerado como um modelo perfeito de vida interior e recolhida; porque sempre trabalhou com intenção reta, e não permitiu que a distração se apossasse do seu espírito. Esforcemo-nos por imitar os exemplos de tão grande pai, andando sempre na presença divina e não falando senão de coisas concernentes à glória de Deus. Habituemo-nos sobretudo a ter sempre sobre a língua alguma fervorosa oração jaculatória. Continue reading

Excelentes sentenças sobre a misericórdia de Deus para conforto dos pusilânimes

Capítulo 4. Excelentes sentenças sobre a misericórdia de Deus para conforto dos pusilânimes - Bálsamo Espiritual
Quem perdendo a esperança do perdão divino se abandona à desesperação, não acredita que Deus é Onipotente; pois pensa que há pecados que Ele não possa perdoar; mas também o supõem mentiroso, pois tendo prometido pelo Profeta que apenas o pecador chorar suas culpas o Senhor as esquecerá de todas, contra isto dizem os descendentes de Caim: A gravidade do meu pecado impossibilita o perdão. Blasfemo, o que dizes? Se Deus não pode perdoar, vencido pela grandeza do pecado, tu o privas da Onipotência; se não quer per-doar, O acusas de mentiroso, pois não cumpre o que tantas vezes prometeu por meio dos Profetas.

O Salmo 144 diz que o Senhor é piedoso, clemente e mui misericordioso; manso e suave com todos, e que Sua misericórdia excede todas as Suas obras. Há, pois, coisa mais admirável do que haver criado o Céu com tantas estrelas que o iluminam, a terra com inumerável diversidade de animais, árvores, e tudo o mais, haver criado exércitos de Espíritos Angélicos? Quem ousaria afirmá-lo, se o Profeta não dissesse claramente que a misericórdia de Deus excede todas as Suas obras? Continue reading

Escravidão do pecado

Escravidão do pecado, Tesouros de Cornélio à Lápide

O pecado faz-nos escravos

Escutai aquilo que diz o mesmo Jesus Cristo: Em verdade, em verdade, Eu vos digo, todo aquele que peca, é escravo do pecado: Amen, amen dico vobis, quia omnis qui facitpeccatum, servus estpeccati (Jo 8, 34).

Ó miserável servidão!, exclama Santo Agostinho; o escravo de um homem, cansado dos duros tratamentos de seu dono, pode algumas vezes achar repouso na fuga; porém, o escravo do pecado, onde poderá ocultar-se? Em qualquer parte onde se esconda, faz-se traição a si mesmo. A má consciência não pode fugir de si mesma, não há lugar onde possa ir para ser livre; persegue-se, ou melhor, sempre está ali; porque o pecado está em seu interior[1].

Prometem-se a liberdade, diz o Apóstolo São Pedro, quando, de fato, eles mesmos tornam-se escravos da corrupção; pois quem é vencido por outro, deste mesmo vencedor toma-se escravo: Libertatem illis promittentes, cum ipsi servi sint corruptionis; a quo enim quis superatus est, hujus et servus est (2 Pd 2, 19). Continue reading

« Older posts

© 2020 Rumo à Santidade

Theme by Anders NorenUp ↑