Ciência, Tesouros de Cornélio à Lápide

Necessidade da ciência cristã

A interpretação da lei corresponde ao sacerdote, diz São Jerônimo: Legis interpretativo, sacerdotis officium est (Epist. ad Nepotian.). Tu, porém, mantém firme o que aprendeste e te foi confiado[1], considerando quem te ensinou tal doutrina.

A ciência é necessária até para dar regras ao zelo. O zelo, diz São Bernardo, não é verdadeiramente eficaz senão quando vai unido à ciência: então, será mais útil; enquanto que, muitas vezes, é danoso o zelo sem ciência. Quando mais ardente o zelo, mais ativo o espírito e mais persuasiva a caridade, e tanto mais precisa é a ação da ciência, para saber limitar o zelo, moderar o espírito e dirigir a caridade (Tract. De Inter, Dom.).

Se estiver pendente ante ti uma causa, diz o Senhor, no Deuteronômio, e achares ser difícil ou duvidoso o discernimento entre sangue e sangue, entre pleito e pleito, entre lepra e lepra (isto é, em matérias criminais, civis ou de culto), e vires que são vários os pareceres dos juízes que há em tua cidade, dirige-te e acode ao lugar que terá escolhido o Senhor teu Deus, onde recorrerás aos sacerdotes de linhagem levítica, e àquele que, como Sumo Sacerdote naquele tempo, for Juiz Supremo do povo; e os consultarás, e te manifestarão como hás de julgar segundo a verdade. E farás tudo o que te disserem aqueles que presidem o lugar escolhido pelo Senhor, e o que te ensinarem conforme sua Lei; e seguirás a declaração deles, sem desviar-te nem à direita nem à esquerda (Dt 17, 8-11).

A Escritura chama ao sacerdote Vidente. Davi diz ao sacerdote Sadoc: Ó Vidente (isto é, ó Profeta, ó Sumo Sacerdote), retorna em paz à cidade: Dixit Rex ad Sadoc sacerdotem: Ó videns, revertere in civitatem inpace (II Reg. XV, 27).

Outra das finalidades por que o Rei Salomão escreveu as Parábolas foi a de que os pequeninos adquiram sagacidade ou discrição, e os moços, saber e entendimento. O sábio, disse ele, que escutar estas palavras far-se-á mais sábio; e ao que as entender, servir-lhe-ão de timão (isto é, para saber governar-se bem) (Pr 1, 4-5).

Devemos escutar e instruir-nos, diz Sêneca, tanto tempo quanto o necessitamos, tanto quanto dure a vida: Tamdiu audiendum et dicendum, quamdiu nescias, quamdiu vivas (Epist. LXXVII).

Por mais idade que tenhamos, jamais devemos dizer que é demasiado tarde para instruir-nos; pois é mister aprender sempre aquilo que não saibamos. O rei Carlos IV da França passava um tempo considerável estudando: e dizia que seus estudos eram seu espetáculo (In ejus vita).

Ainda que eu tenha mais idade que vós, escreve Santo Agostinho a São Jerônimo, ainda que muito velho, não deixo de consultar. Para aprender o que é preciso, nenhuma idade é demasiado avançada; porque, ainda que convenha que os anciãos mais instruam que aprendam, é, sem embargo, de muito mais importância que aprendam, para que não ignorem o que hão de ensinar aos outros (Epist. XXVIII).

Instrui-vos antes de falar, diz o Eclesiástico: Antequam loquaris, disce (Eclo 18, 19). Não faleis jamais acerca daquilo que ignorais; poderia acontecer de dizerdes coisas falsas, temerárias, condenáveis e condenadas.

Os lábios do justo instruem a muitos, dizem os Provérbios; mais os que não querem receber a instrução, morrerão em sua ignorância: Qui indocti sunt, in cordis egestate morientur (Pr 10, 21).

O sábio indagará a sabedoria de todos os antigos, e fará estudo nos profetas. Recolherá em seu coração as explicações dos varões ilustres e penetrará do mesmo modo as agudezas das parábolas. Tomará o sentido oculto dos Provérbios, e se ocupará no estudo das alegorias dos enigmas. Assistirá em meios aos magnatas e se apresentará diante daquele que governa. Passará a países de nações estranhas para reconhecer aquilo que há de bom e de mal entre os homens (Eclo 39, 1-5).

Ficou sem fala o meu povo, diz o Senhor por Oseias, porque se acha carente de ciência da salvação. Por haveres tu desprezado a ciência, eu te desprezarei a ti, para que não exerças meu sacerdócio; e, pois, que esquecestes a lei de teu Deus, eu também me olvidarei de teus filhos: Conticuit populus meus, eo quod non habuerit scientiam: quia tu scientiam repulisti, repellam te, ne sacerdotio fungaris mihi, et oblita es legis Dei tui, obliviscar tuorum et ego (Os 4, 6).

Nos lábios do sacerdote, diz o Senhor por Malaquias, há de estar o depósito da ciência, e de sua boa há de se aprender a lei; posto que ele é o anjo do Senhor do Exércitos: Labia sacerdotis custodient scientiam, et legem requirent ex ore ejus, quia ângelus Domini exercituum est (Ml 2, 7).

Santo Ambrósio chama a Bíblia, o qual contém a Lei de Deus, o livro sacerdotal: Librum sacerdotalem (Lib. II, Offic.).

O sacerdote, diz São Jerônimo, há de guardar a ciência, de modo que ele seja uma biblioteca saudável e sábia, onde todos possam acudir para tomar aquilo de que necessitem (In Epist.).

Santo Ambrósio compara os sacerdotes a abelhas: como celestiais abelhas, diz, os sacerdotes devem formar, com arte, seu suave mel com as flores das Divinas Escrituras, e dispor com arte todo o necessário para curar as almas: Sicut apes, de divinarum scripturarm flosculis suavia mella conficiunt, et quidquid ad medicinam pertinet animarum, oris sui arte componut (Lib. III, Offic., c. V).

Em que consiste a verdadeira ciência

O verdadeiro conhecimento, a verdadeira ciência, diz São Jerônimo, é saber a lei, entender os profetas e crer no Evangelho: Agnitio et scientia est nosse legem, intelligere Prophetas, Evangelio credere (Commen.).

Sabemos, diz o Apóstolo São João, que o Filho de Deus veio e nos deu inteligência para que conheçamos ao verdadeiro Deus e estejamos em seu Filho verdadeiro. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna: Scimus quoniam Filius Dei venit et dedit nobis sensum ut cognoscamus verum Deum et simus in vero Filio eius hic est verus Deus et vita aeterna (1 Jo 5, 20).

E a vida eterna, diz Jesus Cristo por João, consiste em conhecermos a Vós, único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem Vós enviastes: Haec est autem vita aeterna ut cognoscant te solum verum Deum et quem misisti Iesum Christum (Jo 17, 3).

Feliz o homem a quem Vós, ó Senhor, instruístes e adestrastes em vossa Lei, diz o Real Profeta: Beatus quem tu erudieris, Domine, et de lege tua loqueris eum! (Sl 93, 12).

A verdadeira ciência consiste, pois, em receber lições do Senhor, e em conhecer sua Lei. Por isso, o mesmo profeta disse: Quão amável é-me vossa Lei, ó Senhor! Durante todo o dia, ela é matéria de minha meditação. Com vosso Mandamento me fizestes superior em prudência a meus inimigos, porque o tenho perenemente ate os meus olhos. Eu compreendi mais que todos os meus mestres, porque vossos mandamentos são objeto de minha meditação contínua. Alcancei mais ciência que os anciãos, porque tenho investigado vossos preceitos: Super omnes docentes me intellexi, quia testimonia tua meditativo mea est: super senes intellexi, quia mandata tua quaesivi (Sl 118, 99-100).

São vãos, diz a Sabedoria, todos os homens em quem não está a ciência de Deus: Vani sunt omnes homnides in quibus non subest scientia Dei (Sl 13, 1).

Não há aqui na terra ciência, diz São Bernardo moribundo, não há verdadeiramente nenhum conhecimento; no céu está a plenitude da ciência: no céu está o verdadeiro conhecimento da verdade: Nulla hic scientia, nulla vere cognitio; sursum scientiae plenitudo, sursum vera notitia veritatis (In ejus vita).

São Justino ensina que a verdadeira filosofia consiste no conhecimento de Deus (Epist.).

São Lourenço Justiniano dizia que a verdadeira ciência do homem consistia em saber duas coisas: que Deus é tudo, e que ninguém é nada (Lib. de Ligno Vitae).

Se conheceis a Jesus Cristo, diz um autor, já basta, ainda que ignoreis tudo o mais; porém, se não conheceis a Jesus Cristo, ainda que tivésseis todos os conhecimentos do mundo, não sabereis nada.

Si Jesum noscis, sat est, si coetera nescis;
Si Jesum nescis, nil est, si coetera noscis.

Vós, disse Jesus Cristo, não vos deveis chamar de mestres, porque Cristo é vosso único Mestre (Mt 23, 10).

O Senhor dá a sabedoria, dizem os Provérbios, e de sua boca saem a discrição e a ciência: Dominus dat sapientiam, et ex ore ejus scientia (Sb 2, 6).

Deus é, para a ciência e para os que a buscam, o que a luz é para os que olham um objeto e para o próprio objeto.

O coração reto busca a ciência, dizem os Provérbios: Cor rectum inquirit scientiam (Pr 27, 21).

Quando oramos, diz Santo Agostinho, nós mesmos falamos a Deus. Porém, quando lemos, o mesmo Deus nos fala e nos instrui: Cum oramus, ipsi cum Deo loquimur, cum vero legimus, Deus nobiscum loquitur (Serm. CXII de Temp.).

Conhecer a Deus, diz São Bernardo, é a plenitude da ciência: Deum cognoscere, plenitudo est scientiae (Tract. de Inter Dom.).

O que sabiam os Apóstolos? Somente uma coisa: Jesus Cristo, e Jesus Crucificado. Eu não quero saber outra coisa entre vós senão Jesus Cristo, e Este crucificado, disse o grande Apóstolo aos Coríntios: Non enim judiavi me scire aliquid inter vos, nisi Jesum Christum, et hunc crucifixum (1 Cor 2, 2). Sem embargo, Jesus Cristo chama aos seus Apóstolos luz do mundo; e o são de fato: Vos estis lux mundi (Mt 5, 14). Jamais foi possível dizer tanto dos maiores filósofos.

Vantagens da verdadeira ciência

Nada melhor que o conhecimento de Deus, diz Santo Agostinho, porque não há nada que faça mais feliz; este conhecimento é a mesma bem-aventurança: Cognotione Dei nihil melius est, quia nihil beatius est; et ipsa vera beatitudo est (Serm. CXII, de Temp.).

O conhecimento de um Deus único é a possessão de todas as virtudes, diz São Jerônimo: Notitia unius Dei, omnium virtutum possessio est (In Epist.). Amai, prossegue, a ciência das Escrituras, e detestareis os vícios da carne: Ama scientiam Scripturarum, et vitia carnis non amabis (In Epist.).

Conhecer-vos, Senhor, diz a Sabedoria, é a justiça perfeita; e conhecer vossa justiça e vosso poder é a raiz da imortalidade: Nosse enim te consummata justitia est; et scire justitiam et virtutem tuam, radix est immortalitatis (Sb 15, 3). Conhecer a Deus não só especulativamente, senão praticamente.

As raízes das ciências são amargas, diz Aristóteles, porém os frutos são doces: Studiorum radices amarae, fructus autem suaves. O mesmo autor, questionado sobre a diferença que existe entre um sábio e um ignorante, contestou: Há tanta diferença como entre um homem vivo e outro morto: Quo viventes a mortuis. Dizia que a ciência é um adorno na prosperidade, um refúgio na adversidade; que os pais que instruem a seus filhos são muito superiores aos que somente lhes dão a vida; porque estes não fazem mais do que lançá-los no mundo; porém aqueles, não contentes com o haver-lhes dado a existência, objetivam a que sua vida seja boa, rica e feliz (Ita Laertius, in ejus vita).

Os justos livrar-se-ão com o dom da ciência, dizem os Provérbios: Justi liberabuntur scientia (Pr 11, 9).

Por esta ciência é preciso entender o conhecimento de Deus, da Escritura, das coisas divinas, da graça, das virtudes, do serviço de Deus, de seu amor, da alma, da saúde e dos Novíssimos.

O varão instruído dirige-se até o alto pela senda da vida, a fim de desviar-se do abismo do Inferno, dizem os Provérbios: Semita vitae super eruditum (Pr 15, 24). Aquele que é sábio de coração, será chamado prudente, acrescentam os Provérbios: Qui sapiens est corde, appellabitur prudens (Pr 16, 25). A ciência é um manancial de vida para aquele que a possui: Fons vitae eruditio possidentis (Pr 16, 22).

O coração do sábio domesticará sua língua, e acrescentará graça a seus lábios. As palavras eloquentes são um favo de mel, doçura da alma e vigor dos ossos: Cor sapientes erudit os ejus, et labii ejus addet gratiam. Factus mellis, compósita verba, dulcedo animae, sanitas ossium (Pr 16, 23-24). É coisa apreciável o ouro, e a abundância de colares; mas a joia preciosa é a boca do sábio: Vas pretiosum lábia scientiae (Pr 20, 15).

A ciência do sábio, diz o Eclesiástico, transborda por todas as partes como uma torrente de água, e seus conselhos são qual fonte perene de vida: Scientia sapientes tamquam inundatio abundabit, et consilium sicut, fons vitae permanet (Eclo 21, 16).

A ciência de Deus é o manancial de todos os bens. A coisa mais preciosa e mais perfeita é o conhecimento de Deus, diz São Gregório Nazianzeno: Perfectissima omnium rerum est cognitio Dei (In Distich.).

Clemente de Alexandria afirma que aquele que conhece verdadeiramente a Deus não se pode entregar aos deleites, nem às demais agitações de alma (Lib. IV. Strom.).

O conhecimento e a recordação de Deus excluem todos os crimes, diz São Jerônimo (In Epist.).

Eu vos darei pastores segundo o meu coração, os quais vos apascentarão com a ciência e com a doutrina, diz o Senhor a Jeremias: Dabo vobis pastores justa cor meum, etpascent vos in scientia et doctrina (Jr 3, 15).

Aqueles que tenham ciência, diz Daniel, brilharão como a luz do firmamento, e aqueles que ensinam a muitos a justiça, serão como estrelas durante toda a eternidade: Qui docti fierint, fulgebunt quase splendor firmamenti, et qui as justitiam eridiunt multos, quaso stellae in perpetuas aeternitatis (Dn 12, 3).

Santo Agostinho, em seu livro acerca da vida feliz, ensina-nos prolixamente que a vida feliz não é mais que o conhecimento perfeito de Deus.

São Bernardo diz: Conhecer a Deus é a plenitude da ciência; a plenitude desta ciência é a plenitude da glória, a consumação da graça, a perpetuidade da vida (Trat. de inter domo).

Não há alimento tão suave para a alma, diz Lactâncio, como o conhecimento da verdade, e, sobretudo, da Verdade Incriada; Nullus suavitor est animo cibus, quam cognitio veritatis, paesertim Primae Increate (Lib. I, c. III).

A ignorância dos incrédulos

Os incrédulos, os filósofos ímpios, são aquela raça sem conselho e sem prudência de que nos fala a Escritura: Oxalá tivessem sabedoria e inteligência e previssem seus Novíssimos! Gens absque consilio est, ut sine prudentia: utinam saperent, et intelligerent, ac Novissimaproviderent (Dt 32, 28-29).

Não há de se obscurecer a luz do ímpio? A luz obscurece-se em sua tenda; a lâmpada que luzia em sua cabeça apagar-se-á (Jó XVIII, 5-6).

Desde o alto do Céu, o Senhor lançou um olhar sobre os filhos dos homens para ver se havia alguém que tivesse juízo ou que buscasse a Deus, diz o Salmista. Todos se extraviaram, todos, de uma só vez, fizeram-se inúteis; não há quem faça o bem, não há nenhum sequer (Sl 13, 2-3).

Não quis o ímpio instruir-se para agir bem, diz em outro lugar o Salmista: Noluit intelligere ut bene ageret (Sl 35, 4).

Aquele que não tem fé, não tem verdadeira ciência. A eternidade e a verdade estão no céu, diz Santo Agostinho; chega-se à verdade por meio da fé: Duo illa sursum sunt, aeternitas et veritas. per fidem veniendum est ad veritatem (Lib. de Civit.).

Fora de Deus não há verdadeira ciência. O incrédulo despreza a Deus, a Lei de Deus, a Religião, sua consciência, sua alma, sua salvação, e sua eternidade; jamais se ocupa disto. E, contudo, toda a sua ciência não consiste em outra coisa.

O fim dos mandamentos, diz o Apóstolo, é a caridade, que nasce de um coração puro, de uma boa consciência, e de fé não fingida. Do que, desviando-se alguns, vieram por desembocar no charlatanismo, querendo fazer-se de doutores da Lei, sem entender o que falam, nem o que asseguram: Volentes esse legis Doctores, non inteligentes neque quae loquuntur, neque de quibus affirmant (1 Tm 1, 7).

Hás de saber isto, diz o mesmo Apóstolo a Timóteo: que, nos últimos dias, sobrevirão tempos perigosos: levantando-se homens presunçosos, cobiçosos, altaneiros, soberbos, blasfemos, desobedientes a seus pais, ingratos, facínoras, desnaturados, implacáveis, caluniadores, dissolutos, ferozes, inumanos, traidores, perversos, orgulhosos e mais amantes dos deleites que de Deus. Mostrando, sim, aparência de piedade, porém renunciando a seu espírito. Aparta-te desses tais, porque como estes são os que se metem pelas casas e cativam as mulheres néscias carregadas de pecados, arrastadas por várias paixões, as quais andam sempre aprendendo, e jamais ascendem ao conhecimento da verdade. Enfim, assim como Janes e Mambres resistiram a Moisés, do mesmo modo, estes resistem à verdade, homens de coração corrompido, réprobos na fé, que quiseram perverter aos demais, mas não lograram seus intentos, porque sua insensatez se fará patente a todos, como aconteceu antes àqueles Magos. Quer dizer com isto o Apóstolo que os tais impostores se valem da natural curiosidade e irreflexão de tais mulheres, ansiosas sempre de falar uma doutrina que se acomode a todos os seus caprichos: Semper discentes, et nunquam ad scientiam veritatis pervenientes (2 Tm 30, 1ss).

Perigos e desgraças que ocasionam uma falsa ciência

Por isso, dizia o mesmo Apóstolo aos Coríntios: a ciência por si só incha, a caridade é a que edifica (1 Cor 8, 1). É coisa da virtude dos humildes, diz Santo

Agostinho, o não gloriar-se da ciência: Humilium virtus est de scientia non gloriari (De Morib.).

Um alimento indigesto, diz São Bernardo, gera maus humores; não nutre o corpo, antes o deteriora. O mesmo sucede com a ciência lançada no estômago da alma, que é a memória: se a caridade de Jesus Cristo não lhe presta calor, e se esta ciência não faz a vontade agir, é um mal, uma calamidade (Serm. XXXVI, in Cant.).

Vai em busca de males o coração do iníquo, porém, o bom coração inquire a ciência, dizem os Provérbios: Cor iniqui inquirit mala, cor autem rectum inquirit scientiam (Pr 28, 21).

Meu povo foi levado cativo, disse o Senhor por meio de Isaías, porque não teve a verdadeira ciência: por isso o Inferno ampliou seu seio[2]: Captivus ductus est populus meus, quia non habuit scientiam: propterea dilatavit infernos animam suam (Is 5, 13-14).

Ninguém deve se vangloriar de sua ciência, posto que:

1.° é transitória;

2.° imperfeita;

3.° frequentemente danosa; e

4.° trabalhosa.

Tempo virá, disse o Apóstolo, em que não poderão suportar a sã doutrina, senão que tendo comichão extremada de ouvir doutrinas que lisonjeiam suas paixões, recorrerão a uma horda de doutores próprios para satisfazer seus desejos desordenados, e fecharão seus ouvidos à verdade, e os aplicarão, enfim, às fábulas.

Não se deve buscar a ciência do homem e do coração humano nos livros maus, em novelas obscenas, em folhetos irreligiosos. Esta é a ciência das paixões, a prostituição na ciência, a ciência do Inferno; tal ciência faz demônios, e conduz à morada destes seres desgraçados.

Evita as questões néscias, disse o Apóstolo a seu discípulo Tito, e as genealogias, as contendas e as discussões sobre a Lei; posto que são inúteis e vãs: Stultas quaestiones, et genealogias, et contentiones, et pugnas legis devita; sunt enim inutiles et vanae (Tt 3, 9).

Como se deve estudar ou meios para instruir-se vantajosamente

O modo de instruir-se, disse São Bernardo, é estudar com ordem, com assiduidade, e com um fim louvável: Modus est ut scias quo ordine, quo studio, quo fine (Serm. XXXIV in Cant.).

Qual ordem teremos de seguir nos estudos? Temos de começar por instruir- nos naquilo pertencente à salvação; aprender o que devemos a Deus e ao próximo, o que nos devemos a nós mesmos.

É preciso estudar com assiduidade e com zelo; porém, com o zelo do amor de Deus; não deixar que o coração se seque, enquanto se adorna e alimenta o entendimento.

Com que finalidade devemos estudar e instruir-nos? Não deve ser nem por vanglória, nem por curiosidade ou outro motivo semelhante, senão por Deus, por nossa própria utilidade e para a serventia do próximo. Há alguns que somente querem saber para se dar a conhecer, acrescenta São Bernardo; e isto não passa de uma vergonhosa vaidade: Sunt manque quis cite volunt ut sciantur et ipsi, et turpis vanitas est (Serm. XXXVI, in Cant.).

Muitos buscam os meios de formar seu entendimento com a ciência, e mui poucos procuram os meios necessários para formar sua consciência. Se pusessem, acima de tudo empenho em ilustrar sua consciência, empregando o mesmo ardor e o mesmo zelo que se emprega em ir atrás da ciência profana e vã, teriam prontamente uma consciência reta, uma guia mais segura do que toda ciência humana.

Havendo alguém perguntado a Santo Tomás de Aquino qual era o meio para adquirir ciência, respondeu: Prescrever-vos-ei que faleis pouco, que guardeis pureza de vossa consciência, que vos dediqueis frequentemente à oração, e que sejais amáveis para com todos; que não vos ocupeis das ações alheias: compreendei o que façais e ouçais, e consultai, na dúvida.

Filho meu, diz o Senhor nos Provérbios: se recebeis minhas palavras; se acolheis meus preceitos; se prestais ouvido atento à sabedoria; se inclinais vosso coração à prudência; se implorais sabedoria, então aprendereis o temor do Senhor e achareis a ciência de Deus (Pr 2, 1-5).

Se quereis ser sábios, não leiais mais que um só livro, disse Santo Tomás de Aquino: Si vis evadere doctus, unum dumtaxat lege librum (S. Th. III Pars, q.7, a. 9). O livro por excelência é a Sagrada Escritura.

O sábio, disse o Eclesiástico, indagará a sabedoria de todos os antigos, e fará estudo nos Profetas. Conservará na memória as explicações dos homens célebres: Sapientiam omnium antiquorum requiret sapiens, et in Prophetis vacabit. Narrationem virorum nominatorum conservabit (Eclo 39, 1-2).

Para adquirir a verdadeira ciência, disse São Bernardo, a compunção vale mais que as profundas pesquisas; os suspiros instruem muito mais que os argumentos; as lágrimas, mais que as sentenças; a oração, mais que a leitura; a contemplação das coisas celestes, mais que exploração das coisas da terra.

A primeira das ciências, disse em outra parte São Bernardo, a verdadeira ciência, consiste em uma consciência pura e santa ante Deus: Vera scientia consistit inpura et sancta coram Deo conscientia (Lib. de Conscientia).

Somente os discípulos de Jesus Cristo, acrescenta aquele Doutor, isto é, os que desprezam o mundo, chegam à verdadeira ciência; porque não é a leitura a que dá essa ciência certa, senão as obras; não é a letra, senão o espírito; não é a erudição, senão o exercício nos mandamentos de Deus. Semeai para a justiça, colhei a esperança da vida futura, e fazei brotar em vós a luz da ciência do Espírito Santo e da Cruz.

Não se chega à luz da ciência quando o gérmen da justiça não está, antes, na alma: deste gérmen, forma-se o grão da vida eterna, e não a palha da vanglória (Lib. de Conscientia).

Empreguemos a ciência, disse Santo Agostinho, como um meio de construir o edifício da caridade: Sic adhibeatur scientia tamquam machina quaedam, per quam structura caritatis assurgat (Epist. CXIX, c. XXI).


Referência:

[1] Tu vero permane in iis quae didicisti, et credita sunt tibi, sciens a quo didiceris (II Tim. III, 14).

[2] É deveras intrigante saber que o Inferno dilata-se progressivamente em concavidades ainda inéditas, recheadas de maiores e intensíssimos sofrimentos, correspondentes à intensificação e a maior gravidade dos pecados cometidos pelos homens enquanto viviam neste mundo. É obra da justiça divina. Aquelas concavidades novas de castigos incomensuráveis são necessariamente inauguradas pelos condenados pioneiros nos males de cada época histórica (Nota do tradutor).