Deveres dos filhos, Tesouros de Cornélio à Lápide

Primeiro dever dos filhos a respeito de seus pais: o amor

Honra teu pai e tua mãe, diz o Senhor em seu Quarto Mandamento, para que viva longos anos sobre a terra: Honora patrem tuum et matrem tuam, ut sis longevus super terram (Ex 20, 12).

Este quarto preceito obriga, desde cedo, a que os filhos amem a seus pais.

Todos os deveres do homem com relação a Deus estão contidos nos três primeiros Mandamentos; seus deveres com relação ao próximo acham-se incluídos nos sete restantes. E como, na terra, o pai e a mãe ocupam o primeiro posto, Deus põe o Quarto Mandamento como primeiro dos sete que nos ligam ao próximo.

São Paulo observa que é o primeiro mandamento ao qual Deus fez acompanhar uma promessa: Quod est mandatum primum in promissione (Ef 6, 2). Deus valeu-se do termo honrar melhor do que amar, porque a palavra honrar abarca tudo, diz o Catecismo do Santo Concílio de Trento.

Com efeito; pode se amar a alguém sem o temer; pode-se teme-lo sem amá- lo; porém, não se pode honrar alguém verdadeiramente sem professar-lhe sentimentos de amor e de respeito, sem temer desagradar-lhe e sem obedecer-lhe; posto que seria mera piada dizer que se honra uma pessoa cujas ordens não se observam e cujas necessidades não são socorridas.

Amar ao pai e a mãe é ter para eles um afeto real e dar-lhes prova disso em ocasiões especificas. Este amor é natural; os próprios pagãos declaram-no obrigatório; e não há nenhuma nação que não considere como um monstro aquele filho que falte a este sagrado dever. A natureza dá esta inclinação aos filhos, inspirando-lhe reconhecimento em favor de seus pais, de quem receberam a vida.

Tributai à vossa mãe o mesmo amor que ela vos tem. Dai-lhe vosso coração, posto que ela vos deu à luz, com perigo de sua vida.

Muito deveis à vossa mãe, diz Santo Ambrósio, pela ferida infligida a seu pudor, pela perda da virgindade, pelos perigos de morte a que se viu exposta levando-vos em seu seio e ao pôr-vos no mundo; os dissabores e as fadigas de uma mãe, bem como os perigos que corre são inumeráveis: Tu matri debes pudores injuriam, virginitais dispendium, partus periculum; matri longa fastidia, matri longa discrimina (In Luc., c. II).

Quantas inquietudes, quantos cuidados, quantos suores, quantas fadigas, quantas vigílias, quantos trabalhos, quantas privações sofrem os pais em favor de seus filhos. Não podem aparecer motivos mais convincentes do que estes para obrigar os filhos a amarem seus pais.

Por isso, nos últimos instantes de sua vida, Tobias não deixou de apresentar tais argumentos aos olhos de seu filho, dizendo-lhe: Honra a tua mãe todos os dias de tua vida, porque deves te lembrar do quanto sofreu e a quantos perigos ela se expôs por ti (Tob 8, 4).

Este amor não deve estar somente no coração; deve também manifestar-se exteriormente em todas as circunstâncias. Os filhos devem ter para seus pais atenções, complacências contínuas, palavras doces e respeitosas; devem buscar, com afinco, os meios de agradar-lhes, a fim de manifestar-lhes a inviolabilidade do afeto que lhes anima.

Segundo dever dos filhos: o respeito

O que se deve entender quando se diz que os filhos devem respeito a seus pais? Significa que devem lhes falar com urbanidade, com humildade e veneração, sofrer, desculpar e ocultar seus defeitos.

Ainda que nos vejamos elevados a uma grande dignidade, devemos abrigar sentimentos de respeito para com nossos pais, por mais que eles sejam pobres, carregados de aflições e de doenças repugnantes.

Ainda que estejas sentado entre os poderosos, diz o Eclesiástico, recorda-te de teu pai e de tua mãe: Memento patris et matris tuae, in médio enim magnatorum consistis (Eclo 23, 18); para que não aconteça que Deus se esqueça de ti mesmo na Sua presença, e, enfatuado com sua familiaridade, tenhas que sofrer tais opróbrios, que preferirias não ter vindo ao mundo; e não amaldiçoes o dia do teu nascimento (Eclo 23, 19).

Respeitai a vosso pai e a vossa mãe, diz o grande Apóstolo, para que sejais felizes e vivais longo tempo na terra: Honora patrem tuum, et mater tuaem, ut bene sit tibi, et sis longoevus super terram (Ef 6, 2-3).

Respeitai a vossos pais e amai-os, respeitai-os interior e exteriormente; respeitai-os antecipando-vos a seus desejos, obedecendo-os, ajudando-os.

Somente o insensato despreza sua mãe, dizem os Provérbios: Stultus homo despecit matrem suam (Pr 15, 20).

Que coisa deve ser mais querida para o filho, que coisa toca-lhe mais intimamente e está ligada com ele por meio de laços mais sagrados e estreitos que seus pais?

Por isso, o filho que lhes respeita, respeita-se; e aquele que os despreza, despreza-se a si mesmo; Ainda mais, despreza a Deus ou respeita-Lhe conforme despreze ou respeite a seu pai e sua mãe. Os pais são os representantes de Deus e como sua viva imagem.

Platão, um pagão, ensina que os filhos devem respeitar a seus pais como deuses na terra e representantes da divindade (Dial. II, de Legib.).

Deus transmitiu sua honra, seu direito e seu império aos pais, mandando a seus filhos que os respeitem como a Seus representantes.

Deus deu ao pai sua paternidade, o poder de produzir a seu semelhante; eis aqui o por quê Deus exige que os filhos respeitem a seus pais. Recebem de seu pai o ser e todos os bens, isto é, a qualidade de homens, de seres racionais, de reis do universo; seu pai é o instrumento de que Deus se serve para isto. É, pois, justo e necessário que os filhos respeitem-lhe como princípio e autor de sua existência, humanamente falando.

Quem teme ao Senhor, honra a seus pais, diz a Escritura: Qui timet Dominum, honoratparentes (Ecl 7, 8).

Honra a teu pai com todo o teu coração, e não te esqueças dos gemidos de tua mãe, diz o Senhor. Recorda-te de que sem eles não haverias nascido, e corresponde- lhes com rigor ao que fizeram por ti (Ecl 7, 29-30).

Deus, a consciência e a natureza exigem que respeitemos a nossos pais. Por mais defeito que possam ter um pai e uma mãe, os filhos não os devem notar; jamais é-lhes permitido erguerem-se como juízes de seus progenitores.

Terceiro deve: a obediência

Filhos, obedecei a vossos pais com os olhos fitos no Senhor; porque é esta uma coisa justa, diz o grande Apóstolo: Filii, obedite parentibus vestris in Domino, hoc enim justum est (Ef 6, 1).

Tobias dá ordens a seu filho; e este responde-lhe imediatamente: Farei, ó meu pai, tudo o que me haveis mandado: Omnia quaecumque praecepisti mihi, faciam, pater (Tob 5, 1).

Por três vezes seguidas, crê Samuel que Eli o chama; por três vezes, levanta- se prontamente; e, correndo até junto de Eli, diz-lhe: Já estou aqui, vós me chamastes: Ecce ego, vocastime enim me (IReg. III, 5).

Escutai, ó meu filho, as correções de teu pai, dizem os Provérbios, e não desprezes as advertências de tua mãe: Audi, fili mi, disciplinam patris tui, et me dimittas legem matris tuae (Pr 1, 8).

O filho deve escutar com respeito e atenção as ordens de seus pais, e deve se submeter a eles com humildade. E isto…

1.° … porque obedecer a seus pais é obedecer a Deus mesmo, posto que os pais ocupam o lugar de Deus e representam-No; e

2.° … porque é o melhor meio de andar no bom caminho.

Meu filho, dizem os Provérbios, observa os preceitos de teu pai; conserva- os constantemente gravados em teu coração; faz que te acompanhem em tuas viagens, que te guardem durante teu sono, e sejam objeto de teus pensamentos ao despertar: Conserva, fili mi, praeceptapatris tui…; liga ea in corde tuo jugiter…; cum ambulaveris, gradiantur tecum; cum dormieris, custodiant te, et evigilans loquere cum eis (Pr 6, 20-22).

Escuta a teu pai; ele te deu a vida; e não desprezes a tua mãe quando se ache na velhice: Audipatrem tuum, qui genuit te, et ne contemnas cum senuerit mater tua (Pr 23, 22).

Filhos, diz o Eclesiástico, escutai os preceitos de vosso pai, e agi conforme vos fale, se vos quereis salvar: Judicium patris audite, flii; et sic facite ut salvi sitis (Eclo 3, 2).

O sábio denomina sentenças às ordens e aos avisos de um pai. O filho, diz Boécio, deve ser atento, dócil e carinhoso; dócil de caráter, atento para executar as ordens de seus pais; e carinhoso para atender o que lhe dizem (Lib. II de Consolat.).

A obediência é um dever essencial dos filhos; porque seus pais são seus superiores, seus donos; eles tem, por direito divino, a faculdade de mandar sobre os filhos. Jesus Cristo obedecia à Virgem Maria, sua santíssima Mãe, e a São José, que lhe servia de pai.

Isaac, Jacó, José e os outros Patriarcas tinham para com seus pais uma submissão que deve servir de modelo aos filhos dos cristãos.

E não é somente durante a infância quando devem obedecer a seus pais, senão durante toda a sua vida; e até depois de sua morte, executando com pontualidade suas últimas vontades. Estes princípios estão gravados pela natureza no coração dos homens.

Os filhos devem fazer, com prontidão e alegria, aquilo que seus pais ordenam-lhe. Esta obediência pronta e alegre é tão necessária aos filhos, que vem a ser seu caráter essencial, de maneira que, assim como um raio separado do sol não reluz mais, assim como um riacho separado de seu manancial deixa de correr e seca, e um ramo separado da árvore torna-se ressequido; da mesma maneira, diz São Pedro Crisólogo, um filho que deixa de ser obediente, deixa, pela mesma razão, de ser filho. Torna-se um monstro na natureza, e é indigno de viver nela.

Eis aqui por que São Paulo recomendou tão vivamente a obediência aos filhos, dizendo-lhes: Filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque isto é agradável ao Senhor: Filii, obedite parentibus per omnia, hoc enim placitum est in Domino (Col 3, 20, Serm. IV).

Os filhos devem obedecer em tudo a seus pais, quando suas ordens não são contrárias à Lei de Deus.

Quarto dever: a assistência

Havendo o filho de Tobias tardado um dia a mais em voltar de sua viagem para junto de seus pais, entristeceram-se estes e começaram ambos a chorar. Sobretudo sua mãe, inconsolável, chorava amargamente, e dizia: Ai de mim! Ai, meu filho, porque te enviamos tão longe, a ti, luz de nossos olhos, báculo de nossa velhice, consolo de nossa vida, esperança de nossa posteridade? Tendo em ti depositado todas as coisas, não devíamos ter-te afastado de nós (Tb 10, 3-5). A mãe de Tobias indica aqui o dever que recaem sobre os filhos de assistir a seu pai e a sua mãe.

Os filhos, diz Aristóteles, jamais poderão dar a Deus e a seus pais suficientes graças por tudo quanto lhes devem (Lib. IX Etich.).

Depois de Deus, tudo recebemos de nossos pais. É, pois, um dever indispensável assistir-lhes em suas necessidades. Havendo recebido tudo de seus pais, o filho não se pertence, pertence inteiramente a seus pais.

Muito bem, diz Santo Ambrósio, Alimentai ao vosso pai, alimentai a vossa mãe! Ainda que tenhais alimentado a vossa mãe, não lhes podereis pagar, entretanto, as dores, as angústias que por vós sofreram; jamais lhe havereis dado alimentos que compensem aqueles que, por terno afeto, eles vo-los ofereceram quando vos criava; não satisfizestes as necessidades que sofreram por vós, privando-se de comer aquilo que poderia vos causar prejuízo, e de beber aquilo que pudesse alterar seu leite. Jejuaram por vós; por vós tomaram sustento! Eles privaram-se de alimentos que, talvez, gostavam; e por vós, aceitaram manjares que lhes repugnavam; vigiaram e choraram por vós. Poderíeis, então, abandoná-la na necessidade? Ó filhos, que terrível juízo prepara-se para vós, se não cuidais de vossa mãe! Deveis a ela o que tendes, porque lhe deveis o que sois[1].

Meu filho, diz o Eclesiástico, alivia a velhice de teu pai; e, mesmo se sua inteligência faltar, perdoa-lhe: Fili, suscipe senectam patris tui, et si defecerit sensu, veniam da (Eclo 3, 14-15).

Recorda-te de teu pai e de tua mãe, a fim de que Deus não te esqueça: Memento patris et matris tuae, ne forte obliviscatur te Deus (Ibid. XXIII, 18-19).

Os filhos estão obrigados a cumprir os deveres da assistência a seus pais durante sua vida, na hora de sua morte, e ainda depois de sua morte.

Deve socorrê-los em sua pobreza e proporcionar-lhes, em proporção de sua fortuna filial, tudo o que é necessário para sua vida.

Quando estão enfermos e em perigo de morte, os filhos devem aumentar seus cuidados, seja quanto ao seu corpo, seja principalmente em relação à sua alma. Depois de sua morte, devem rogar e fazer rogar por eles, e executar suas últimas vontades. Cada um reverencie a seu pai e a sua mãe: Uniquisque patrem suum et matrem suam timeat (Lv 19, 3).

Jesus Cristo e os Santos são modelos de filhos

Entretanto, o menino Jesus ia crescendo e fortalecendo-se pleno de sabedoria; a graça de Deus esta com Ele, diz São Lucas: Puer autem crescebat, et confortabatur plenos sapientia, et gratia Dei erat in illo (Lc 2, 40).

Jesus Cristo estava sempre com Maria e José; e quando os deixou, foi para ir ao Templo: Et invenierunt illum in templo (Lc 2, 46). E era-lhes submisso: Et erat subditus illis (Lc 2, 51). Samuel fez-se grande diante do Senhor; fortificava-se e crescia amado de Deus e dos homens: Magnificatus est Samuel apud Dominus, proficiebat atque rescebat, et placebat tam Domino quam hominibus (cf. I Reg. II, 21-26).

Todos os santos, em geral, durante sua infância, e enquanto viveram com seus pais, deram exemplo de amor, de respeito, da obediência e da assistência que devemos aos autores de nossos dias.

Que vantagens podem esperar os filhos que cumprem os deveres relativos a seus pais

Observam, e com razão, que Deus, no capítulo III do Livro do Eclesiástico, promete grandes bens aos filhos que cumprem com seus deveres quanto ao seu pai e à sua mãe.

1.° O primeiro consiste em riquezas temporais e espirituais. Aquele que honra a sua mãe, acumula tesouros: Sicut qui thesaurizat, ita et qui honorificat matrem suam (Eclo 3, 5);

2.° Outro bem é que semelhante filho será também feliz em seus filhos: Aquele que honra a seu pai terá consolo em seus filhos: Qui honorat patrem suum, jucundabitur in filiis (Eclo 3, 6);

3.° Ademais, será ouvido quando em sua oração: In die orationis suae exaudietur (Eclo 3, 6);

4.° Em acréscimo, aquele que honra a seu pai viverá longa vida, e aquele que lhe obedece dará consolo à sua mãe: Qui honorat patrem suum, vita vivet longiore, et qui obeditpatri, refrigerabit matrem (Eclo 3, 7);

5.° estejamos certos de que a benção do pai robustece a casa dos filhos: Benedictio patris firmat domos fliorum (Eclo 3, 11).

6.° O sexto bem é assim prometido: Ficará coberto de glória, tanto porque o pai, a quem se tributam honras, glorifica a seus filhos, como porque, honrando a seu pai, um filho cobre-se de glória aos olhos de todos: Gloria homini ex honore patris sui (Eclo 3, 13).

7.° Deus, no tempo das provações do filho, virá em sua ajuda e lhe salvará: In die tribulationis commemorabitur tui (Eclo 3, 17);

8.° Ademais, tal filho obterá facilmente o perdão de seus pecados. Seus pecados, diz a Escritura, desaparecerão como o gelo ao sopro da primavera: Et sicut in sereno glacies, solventurpeccata tua (Eclo 3, 17); e

9.° Por fim, Deus o abençoa em tudo: Deus prospector est ejus qui reddit gratiam (Eclo 3, 34).

Cumprir nossos deveres junto aos pais é amontoar imensos tesouros, pondo-­os sob a custódia de Deus. Aquele que honra a seus pais, expia seus pecados; e obtém, seja a graça de não voltar a cair neles, seja tudo o mais que peça a Deus!

Porque Deus olha como tributado a Si mesmo a honra que se tributa aos pais; honra aos que os honram, ouve aos que os escutam, obedece aos que lhes obedecem, ama aos que lhes amam, assiste aos que lhes assistem. Deus é liberal e indulgente para com aqueles que são generosos e indulgentes para com os seus pais. Porque Deus considera a obediência devida aos padres como um sacrifício que apaga os pecados dos filhos e alcança-lhes o perdão.

Se, segundo o Levítico (cap. IV), o sacrifício durante o qual se fazia correr o sangue de animais expiava os pecados, quanto mais não os há de expiar a obediência tributada pelos filhos; sacrifício no qual sua vontade está como que sacrificada os pés de seus pais e aos pés de Deus? Esta reflexão é de São Gregório: Si sacrificium quo mactabatur caro animalis expiabat peccatum, multo magis expiabat illud obedientia filiorum, quae voluntas eorum parentibus Deoque substernitur, et quase mactatur (Moral.).

Os filhos que honram a seus pais, adquirem títulos para suas orações e para sua benção. Aquele que honra a seus pais será honrado pelos próprios filhos. Deste modo recompensou Deus a Isaac, a Jacó e a José.

Honrai a vosso pai e a vossa mãe, a fim de que vivais muito tempo na terra (Ex 20, 12). Ainda quando vossa morte fosse prematura, tereis vivido longo tempo, porque tereis vivido bem, isto é, na justiça, com reputação, louvores e glória. Vivereis longo tempo, porque assegurareis vossa salvação para a Terra dos Vivos[2].

Cumprindo vosso dever relativo a vossos pais, fareis sua alegria e a vossa, a da sociedade e a de Deus; passareis dias felizes, e alcançareis a morte dos justos, bem como a coroa eterna.

Há muitos filhos que não cumprem com seu dever. Crimes de que se fazem culpáveis

Muitos filhos andam alienados desde seu nascimento; desencaminham-se desde o seio de sua mãe; não falam mais que falsidades, diz o Salmista: Alienati suntpeccatores a vulva, erraverunt ab útero, locuti sunt falsa (Sl 58, 3).

O pecado dos filhos de Eli era enorme aos olhos do Senhor, diz a Escritura: Erat peccatum puerorum grande nimis coram Domino (1 Sm 2, 17). Quantos filhos há que merecem a mesma qualificação?

Aquele que furta seu pai e sua mãe, dizem os Provérbios, e pretende não haver pecado, é semelhante, no tamanho do crime, ao homicida: Qui subtrahit alquid a patre, suo et a matre, et dicit hoc non esse peccatum, particeps homicidae est (Pr 28, 24).

Aquele que descuida de seus pais e os abandona, deve ser colocado entre os homicidas; ainda mais, entre os parricidas. Aquele que falta a seus pais e os despreza, é o mais ingrato dos seres, o mais perverso, o mais culpável que possa existir. A prova é palpável.

Seus pais são os autores de sua vida, recebeu deles o ser e tudo o que tem; são, na vida dos filhos, os representantes do Criador. Tudo o que são os filhos, e tudo o que tem, advém muito mais de seus pais do que deles mesmos. Aqueles, portanto, que abandonam a seus pais na necessidade e tratam-nos com desprezo, são parricidas que insultam a natureza e a Deus mesmo. Muitas vezes, semelhantes filhos manifestam-se cruéis para os estranhos; tornam-se ladrões, assassinos e acabam por sofrer uma morte ignominiosa. Já não são homens, são demônios.

Oh, quão infame é aquele que a seu pai desampara! Quam malae famae est qui derelinquitpatrem! (Eclo 3, 18). O ódio e o desprezo professados a um pai ou a uma mãe são um pecado mortal.

Pecam contra a honra devida a seu pai e à sua mãe:

1.° Aqueles que os desprezam em seu coração, ainda que não o manifestem exteriormente; aqueles que lhes falam com desdém ou acrimônia, injuriam- nos e ultrajam-nos;

2.° Aqueles que zombam de seu pai ou de sua mãe e põe-nos em ridículo;

3.° Aqueles que falam mal deles em sua ausência, ou revelam suas faltas; seus defeitos e debilidades;

4.° Aqueles que repreendem a seus pais, com orgulho ou com palavras ofensivas e plenas de recriminação;

5.° Aqueles que os entristecem e os agridem, contradizem ou provocam-lhes a ira com palavras atrevidas ou olhares de reprovação. Quando os pais ou as mães sustentam coisas não razoáveis e irritam-se sem motivo, os filhos devem sofrê-las com a mesma bondade que seus pais manifestam quando em seus extravios infantis; os filhos devem evitar toda polêmica; e, sem embargo, não é o que mais ocorre… Não acontece, porventura, que os pais e as mães se irritam, ordinariamente, pelas respostas demasiado atrevidas e pelas resistências obstinadas de seus filhos?

6.° Também faltam os filhos a seus deveres quando ameaçam a seus pais, levantam a mão sobre eles ou os ferem, ainda que seja ligeiramente. Este é um crime execrável, é uma espécie de impiedade e de sacrilégio; porque os pais devem ser sagrados para seus filhos. Tal conduta é uma monstruosa violação das leis da natureza e da graça.

7.° Faltam os filhos que desdenham no trato de seu pai ou de sua mãe e se envergonham de reconhecê-los porque são pobres ou de pouca ou má educação, e também pecam aqueles que se negam a saudá-los, a dirigir a palavra a eles etc.;

8.° Aqueles que não consultam a seus pais em seus negócios importantes e fogem do domínio da autoridade paterna, como por exemplo, a eleição do estado[3], um projeto de casamento etc.; e

9.° Aqueles que, em vez de seguir o parecer e os conselhos de seus pais, não fazem nenhum caso deles; e, sem motivo razoável, fazem todo o contrário daquilo que se lhes é aconselhado; tais filhos faltam igualmente, de modo grave, aos deveres da piedade filial.

A maior parte dos filhos pecam contra o amor e o respeito que devem a seus pais por adiar a execução de suas ordens; murmuram contra eles, discutem e lançam-lhes olhares cheios de ira.

Longe de ter algum mérito, a obediência outorgada em semelhantes condições é um verdadeiro pecado. A obediência forçosa parece-se à obediência dos demônios, os quais executam, com revoltado pesar, as ordens de Deus.

Para ser agradável a Deus, a obediência deve ser voluntária, pronta, sem murmuração, sem dilação, completa, quer seja no tocante às coisas terrenas, quer às espirituais. O dever da obediência em tudo o que legitimamente se manda é tal que não se pode escusar de pecado mortal aquele filho que, em matéria grave, atua contra as ordens ou as proibições expressas de seus pais.

Quão culpáveis são os filhos indóceis que não querem fazer nada além de seu próprio capricho, que manifestam soberbamente dar pouca importância àquilo que seus pais lhes dizem, que se creem capazes de atuar por si mesmos; que, contrariando aos seus pais, mantem amizades perigosas, frequentam lugares de libertinagem e más companhias, e vivem sem regra nem disciplina, não escutando mais que seus caprichos e paixões!

Quando desobedecem, desculpam-se com mentiras, ou irritam-se, com tanto orgulho e audácia, como se a autoridade residisse neles, e se lhes estivessem fazendo a maior injustiça.

Quão culpáveis sois também vós, filhos, que não assistis a vossos pais necessitados! E não venhais dizendo que, longe de ser-vos de alguma utilidade, estes pais vos são dispendiosos por sua muita idade, sua caducidade e suas enfermidades. Não vos contestarei dizendo que nem sempre foram assim; nem direi que, sem seus cuidados e trabalhos paternos, não teríeis o que agora possuis ou nem seríeis aquilo que sois; mas vos confundirei com as palavras de Santo Ambrósio, pondo-vos diante dos olhos, por exemplo, aos animais: os cisnes, por exemplo, quando veem velhos aqueles de quem receberam a existência, constroem um retiro para alojá-los e preservá-los das inclemências do ar; vão a aquecê-los, abrigando-os com suas asas, e providenciam com abundância seu alimento!

Não digais, tampouco, que nada do que possuis deveis a vossos pais. Que seja tudo fruto de vossos trabalhos e de vossa habilidade, reconhece-se! Porém, não lhes deveis, porventura, a vida, a força, e a saúde de que desfrutais? Eles não vos alimentaram, vestiram, e cuidaram no tempo em que não podíeis vos procurar o necessário? Não é justo que lhes devolvais agora o que fizeram por vós? E a debilidade que lhes oprime, as enfermidades que contraíram, não são, talvez, consequências das inquietudes, dos cuidados e trabalhos que passaram para vos criar? Podeis, pois, cometer a mais negra ingratidão e a mais atroz injustiça, recusando-lhes os socorros que necessitam? Aquilo que lhes dareis, vós já o recebestes centuplicado!

Aí, então, argumentais que não tendes senão o pouco necessário para vós; porém, quantas vezes vossos pais privaram-se também por vós do necessário? E se os vedes agora na miséria, não poderia ser isto um castigo da dureza que lhes tendes manifestado, não somente recusando-lhes o necessário, senão, talvez, arrebatando- lhes até mesmo o necessário com bárbara crueldade?

Se os filhos estão obrigados a socorrer a seus pais de quem receberam riquezas, como qualificar a conduta daqueles filhos desnaturados que deixam sem auxílios a uns pais e umas mães que tiveram a debilidade de despojar-se de tudo durante sua existência para lhes procurar um honroso bem-estar? Monstros!

Não percebem que, de fato, nada mais devem esperar daqueles a quem já devem a felicidade e a vida; e, agora, tais filhos os abandonam e desprezam; e ainda disputam-lhes uma módica pensão; consideram aos pais como uma carga que querem sacudir uns sobre os outros; e, às vezes, julgam, com um secreto desgosto, que já viveram tempo demais!

Tais filhos, indignos de viver, são como monstros na natureza, e o Espírito Santo os qualifica de infames (Eclo 3, 18).

Quando os pais estão enfermos é, sobretudo, quando os filhos devem aumentar os cuidados para aliviá-los.

Ai, se algum dos animais que nos pertencem por estimação estão atacados de algum mal, nada nos custa caro para curá-lo; e, algumas vezes, por fala de auxílios ou por mero descuido de chamar o médico, deixamos morrer algum dentre nossos parentes mais próximos: um pai, uma mãe, um esposo, uma esposa, um irmão, uma irmã. É com dificuldade que se pode acreditar em tamanha dureza, avareza e ingratidão, se não víssemos, com frequência, tão espantosos exemplos!

Enfim, os filhos devem prover as necessidades espirituais de seus pais durante a vida, em seus últimos momentos, e ainda depois de sua morte.

Porém, ai de mim! Quantos há que são infiéis em cumprir esses deveres essenciais! Quantos há que não cuidam de rezar por seus pais, ou de executar suas últimas vontades. Ávidos, pressurosos para apoderar-se dos bens que o pai deixou, não pensam em nada mais além de apoderar-se do despojo dos mortos e aproveitar- se de sua herança, sem cuidar do triste estado em que seu pai ou sua mãe se podem achar[4], talvez por causa da demasiada ternura com que lhes amava. Assemelham-se nisto aos cruéis irmãos de José, que se divertem no mesmo lugar que serviu de teatro para sua desumanidade.

Filhos desnaturados, que faltais ao dever do amor, do respeito, da obediência ou da assistência, chorai e convertei-vos, pois sois muitíssimo culpáveis. Se não cairdes em vós mesmos, esperam-vos grandes e terríveis desgraças nesta vida, e, sobretudo, na eternidade.

Desgraças e castigos reservados aos filhos desnaturados

É infame e desnaturado aquele que dá desgosto a seu pai e afasta de seu lugar a mãe, dizem os Provérbios: Qui affligitpatrem et figat matrem, ignominiosus est et infelix (Pr 19, 26).

Não há nada tão degradante como afligir e injuriar aqueles a quem devemos a existência e tudo quanto possuímos. Deus, autor da natureza, castiga severamente este crime. Os filhos que disto se fazem réus, são sempre e por toda parte desgraçados: Deus permite que seus inimigos lhes esmaguem, por sua vez, com pesares, injúrias, vergonhas e maldições. É a Pena do Talião.

Aquele que maldiz a seu pai ou sua mãe, dizem os Provérbios, terá apagada sua lâmpada no meio das trevas: Qui maledicit patri suo, et matri, extinguetur lucerna ejus in mediis tenebris (Pr 20, 20).

1.° A luz é o símbolo da reputação e da honra; quem despreza, insulta e amaldiçoa seus pais, perde-se e avilta-se ante os homens.

2.° A luz é o símbolo da razão e da inteligência: o filho perverso não tarda em sentir como se alteram em sua vida estes precioso bens.

3.° A luz, uma tocha, são o símbolo da posteridade: a posteridade do filho culpável morrerá, ou melhor, será execrável. Nisto, sim, a pena do Talião será inexoravelmente imposta.

4.° A luz é símbolo da vida; quem falta a seus pais, vê-se, muitas vezes, privado da vida corporal, e será privado para sempre da vida da graça e da glória.

5.° A luz, uma tocha, são o símbolo da piedade, da santidade, da Religião, do culto divino: por isso, acendem-se luzes durante a Missa e os Ofícios. Quem desobedece a seus pais, aquele que não os assiste ou os despreza, perde a piedade, abandona a Religião, e é abandonado por Deus.

6.° A luz é o símbolo da autoridade, das riquezas e do poder; porque o fogo é o rei dos elementos, como a vista é a rainha dos sentidos. Assim, quem falta a seus deveres junto a seus pais, perde todos esses bens!

7.° Enfim, a luz é símbolo da alegria, da prosperidade, da felicidade; alegra a vista e a alma. O filho desnaturado não prospera, vê-se privado da alegria e da felicidade; cai na cegueira e perde sua alma. Um pai é para seu filho como que um sol; a mãe é a luz que rodeia com seus suaves raios. Maltratando-os, o desgraçado subtrai-se às claridades que sobre ele derramavam. Então, acha- se, e com justiça, submerso nas trevas: Qui maledicit patri suo, et matri, extinguetur lucerna ejus in mediis tenebris (Pr 20, 20).

Quem zomba do próprio pai, acrescentam os Provérbios, e despreza as dores que sua mãe, ao parir, padeceu, tenha seus olhos arrancados pelos corvos que vivem junto às torrentes, e os comam os filhotes das águias: Oculum qui subsannat, et qui despicit partum matris suae, effodiant eum corvi de torrentibus, et comedant eum filii aquilae (Pr 30, 17).

Que os corvos e os filhotes de águia arranquem e devorem os olhos de quem zomba de seus pais, isto é, que este filho seja aprisionado, já na terra, no poste da ignomínia; que os demônios lancem-se sobre ele e o precipitem no Inferno; e, semelhantes a vorazes e cruéis aves de rapina, arranquem-lhe os olhos e alimentem- se com sua substância!

Quem exaspera sua mãe é maldito de Deus, diz o Eclesiástico: Est maledictus a Deus qui exasperat matrem (Eclo 3, 18).

Cam ultrajou seu pai, Noé, e foi amaldiçoado, bem como toda a sua posteridade. Os filhos de Eli desobedeceram a seu pai, e Deus feriu-os de morte.

Achando-se em viagem o profeta Eliseu, saíram da cidade vizinha numerosas crianças que zombaram dele dizendo: “Sobe, careca! Sobe careca!” Voltou-se Eliseu, lançou-lhes um olhar e amaldiçoou-os no Nome do Senhor; e, de repente, saíram duas ursas do bosque, e despedaçaram a quarenta e dois daqueles meninos (2 Rs 2, 23-24).

Castigado seja de morte quem maldiz a seu pai e a sua mãe, ordena o Senhor no Levítico: Qui maledixeritpatri suo, aut matri, morte moriatur (Lv 20, 9).

No Deuteronômio, Deus assinala as mais rigorosas penas. Se alguém tem um filho rebelde e insolente que não atende àquilo que lhe mandam o pai e a mãe, e que, castigado, ainda resiste, com desprezo, a obedecer-lhes, prendam-no e levem- no ante os anciãos da cidade, e à porta onde está o julgado, dir-lhe-ão: Este filho nosso é obstinado e rebelde; faz zombaria de nossas repreensões e as despreza. Então morrerá apedrejado pelo povo, para que arranqueis o escândalo do meio de vós; a fim de que todo Israel, vendo isso, obtenha o temor (Dt 21, 18-21).

Ainda que a pena imposta por esta lei não esteja mais em vigor, nem por isso subsiste menor o dever da obediência; e Deus encontra nos tesouros de sua justiça meios de castigar quem despreza tal dever. Se não apedreja mais ao culpável, este sofre outras penas não menos severas e mais temíveis.

Os filhos que negligenciam a seus pais atraem-se a maldição de Deus nesta vida e na outra; e nada é tão atroz e tão temível como a maldição divina; nada é, tampouco, tão fatal! Assim como Deus promete uma recompensa e sua benção neste mundo e no outro para aquele que honra seu pai e sua mãe, da mesma maneira estende já nesta vida e, sobretudo, na outra, as suas vinganças e maldições sobre os filhos culpáveis.

Que se examine, enfim, a maior parte dos filhos perversos, e ver-se-á que ordinariamente morrem de um modo trágico e miserável. Perguntai à maior parte daqueles a quem a justiça condena ao cárcere, aos presídios, ou à morte, qual foi o princípio de suas desordens e de seus crimes; e, então, confessará que foi o desprezo com que tratou a seus pais.

Se as consequências da culpabilidade dos filhos não são sempre as mesmas, ao menos aos olhos dos homens, Deus permite que, mais tarde, seus filhos façam- lhe sofrer tantos ou maiores pesares quanto os que causaram a seus pais. A história nos apresenta infinitos fatos sobre este particular.

Filhos, jovens, afastai de vossas cabeças tamanhas desgraças. Instrui-vos agora de vossos deveres para com os autores de vossos dias, e sede fieis em cumpri- los.

Amai a vossos pais, honrai-os, e não lhes faleis senão com humildade, respeito e deferência; não lhes desprezeis; não lhes injurieis nunca; pedi-lhes perdão de vossas faltas passadas; estai plenos de delicadezas por eles; não façais nada sem os consultar; obedecei-lhes como ao próprio Deus; rogai por eles; privai-vos do necessário antes de permitir que lhes falte alguma coisa.

Fazei-lhes, por fim, todos os serviços de que sejais capazes. E Deus vos abençoará, Ele vos recompensará nesta vida, e, sobretudo, na outra, com a possessão da felicidade eterna.


Referências:

[1] Pasce patrem tuum, pasce matrem tuam; et si paveris matrem, adhue non reddidisti Dolores, non deddidisti cruciatus quos pro te passa est; non dedisti alimenta quae tribuit tenero pietatis affectu, immulgens labiis tuis ubera; non reddidisti famnem quam pro te illa toleravit, ne quid, quod tibi noxium esset, aderet; ne quid, quod lacti noceret hauriet. Illa tibi jejunavit; tibi manducavit; tibi illum, quem voluit, cibum non accepit, tibi, quem noluit, cibum sumpsit; tibi vigilavit; tibi flevit; et tu illam egere poteris? O fili, quantum tibi sumis judicium, si non pascasparentem! Illi debes quod habes, cui debes quod es (In Luc., c. XVIII).

[2] O Reino dos Céus (Nota do tradutor).

[3] Entenda-se “estado de vida”: solteiro, casado, consagrado… (Nota do tradutor).

[4] No Purgatório (Nota do tradutor).