Endurecimento, Tesouros de Cornélio à Lápide

O que é endurecimento

O que é um coração endurecido? – pergunta São Bernardo – É aquele que não tem horror de si mesmo, porque já não sente; é aquele que não se abre à compunção, não se abranda pela piedade, nem se comove pelas orações, nem se intimida pelas ameaças; é aquele que se endurece sob os golpes quer da graça, quer das vinganças de Deus.

Não mostra reconhecimento pelos benefícios, é infiel aos bons conselhos, desapiedado para condenar aos outros, sem vergonha ao tratar das coisas mais desonestas, intrépido nos iminentes perigos de salvação, inumano no que diz respeito ao seus semelhantes, temerário frente a Deus, esquecendo o passado, perdendo o presente, e carecendo de previsão para o porvir. Do passado, recorda-se somente das injúrias recebidas; mata o presente, fecha os olhos ao tratar do futuro, e não os abre mais senão para vingar-se. Para expressar, em uma palavra, todos os horrores de um coração endurecido, basta dizer que é um coração que não teme a Deus, nem respeita aos homens[1].

O endurecimento é:

1.° A malícia daquele que quer pecar e não quer agir bem;

2.° Uma obstinação e uma adesão firme ao que está proibido, até ao ponto de não querer desprender-se dele:

  • nem por avisos;
  • nem por conselhos;
  • nem por ameaças;
  • nem pelas promessas;
  • nem pelas recompensas;
  • nem pelos castigos;
  • nem pelas inspirações; e
  • nem pela graça.

Um coração endurecido:

1.° Não quer compreender, para não se ver obrigado a obrar bem, diz o Salmista: Noluit intelligere, ut bene ageret (Sl 35, 4). Medita a iniquidade em sua cama; permanece na entrada de todos os maus caminhos, e não afasta nenhum mal: Iniquitatem meditatus est in cubili suo; astit omni viae non bonae; malitiam non odivi (Sl 35, 5);

2.° Alegra-se em agir mal e estremece-se de alegria nos maiores crimes, dizem os Provérbios: Laetatnur cum malefacerint, exultant in rebus pessimis (Pr 2, 14). Quando nos alegramos pelas coisas mais vergonhosas, quando nos deleitamos nelas, é a maior das desgraças, porque mudamos, então, os vícios em apegos, em costumes, e já não cabe remédio;

3.° O coração endurecido desce até ao fundo do mal; zomba de Deus e da virtude;

4.° Seu pecado é como que indestrutível, e sua ferida incurável;

5.° Não se envergonha de seus crimes, nem sequer dos mais degradantes;

6.° É incorrigível;

7.° Deus abandona-o, rejeita-o, despreza-o e amaldiçoa-o;

8.° Ferido de Deus, não sente nada, e já não tem mais remorsos, pois afogou- os em seus excessos;

9.° Com seu costume forte e inveterado de agir mal, é-lhe quase impossível fazer o bem e evitar a prática do mal;

10.° São Paulo diz que semelhante coração amontoa em si o furor de Deus, e que está entregue a seu sentido reprovado; este grande Apóstolo considera a semelhante ser como filho da perdição e vaso destinado a ser quebrado, vaso pleno de crimes e de furores, do qual se derramam os mais negros crimes;

11.° Este coração acrescenta iniquidade sobre iniquidade, agrava mais e mais seu deplorável e lastimoso estado, manchando-se com novas imundícies, submergindo-se profundamente a cada hora e a cada momento na imensa fossa das paixões mais asquerosas e infamantes.

Nós nos endurecemos gradualmente

O hábito é o primeiro grau que leva ao endurecimento, impelindo-nos ao fundo do abismo;

O segundo grau é a cegueira do espírito, que nasce do hábito de pecar;

O terceiro grau que conduz ao endurecimento é a imprudência, a obstinação na vontade de pecar, e a impenitência;

O quarto grau é o desprezo de Deus; e

O quinto é o desespero; e, com o desespero, tudo está perdido pelo Céu, não resta mais que um Inferno eterno.

Os justos sobem ao Céu por graus opostos aos citados, pelos graus das virtudes. Porque de uma virtude vão à outra, e a virtude converte-se em santo costume. Daí, procedem grandes luzes sobrenaturais. Iluminados, já não tem vontade; a de Deus é dona de sua alma. Não amam mais que a Deus, e não esperam mais que Nele; perseveram neste precioso estado; crescem Nele, e sua união com Deus aumenta cada dia. Ainda que esteja, contudo, na terra, sua alma está no Céu e O tem seguro, segundo aquelas palavras do Rei Profeta: Irão de virtude em virtude até que vejam ao Deus dos deuses em Sião: Ibunt de vitute in virtutem; videbitur Deus deorum in Sion (Sl 83, 8).

O coração endurecido é cego

Vejamos detalhadamente o que é um coração endurecido. O homem endurecido está em um abismo escuro, e nada vê; a pedra de seu endurecimento fecha a entrada do abismo, em cujo fundo jaz: Erat spelunca, et lapis superpositus erat ei (Jo 11, 38).

Ó insensatos gálatas, ó povo cego, quem vos fascinou o espírito para que já não obedeçais à verdade? O insensati galatae, quis vos fascinavit non obedire veritati? (Gl 2, 1).

Falar de Deus, de religião, de virtude a um coração endurecido, é fazer-lhe ouvir uma língua bárbara, estranha, um bronze sonoro, um címbalo que produz um ruído ininteligível.

O coração endurecido não vê mais a Lei de Deus, nem seus deveres, nem os golpes da justiça de Deus.

O coração deste povo está cego, disse Isaías; seus ouvidos não ouvem, seus olhos estão fechados: temeu ver a luz, ouvir a verdade, ter a inteligência do coração, converter-se e ver-se curado de seus males (Is 6, 10).

Ao homem endurecido podem se aplicar aquelas palavras de Jeremias: Minha alma caiu na fossa, e colocaram uma pedra sobre mim: Lapsa est in lacum vita mea, etpossuerunt lapidem super me (Lm 3, 53).

O coração endurecido é rebelde

Em vez de olhar ao Oriente, que é Deus, o endurecido volta-se para o Ocidente, diz Santo Agostinho; isto é, para o mundo, o demônio, a morte, e ao Inferno: Vocat te Oriens, et tu attendis Occidentem (Homil.).

O rei Assuero convoca a rainha Vasti; porém, ela recusa e despreza a ordem do rei: Quae renuit, et ad regis imperium venire contempsit (Est 1, 12). Tal é a conduta da alma endurecida. O Rei dos reis chama-a com sua graça, sua Palavra, suas inspirações e seus benefícios, e ela tudo despreza: Quae renuit, et ad regis imperium venite contempsit.

Eu vos chamei, diz o Senhor nos Provérbios, e vós vos afastastes; Eu vos estendi a mão, e vós não me atendestes; não fizestes caso de meus conselhos, e desprezastes minhas ameaças: Vocavi, et renuistis; extendi manum meam, et non fuit qui aspiceret. Despexistis omne consilium meum, et increpationes meas neglexistis (Pr 1, 21.25).

Endureceram o coração como uma pedra, e não quiseram voltar a mim, diz o Senhor por boca de Jeremias: Induaverunt facies suas supra petram, et noluerunt reverti (Jr 5, 3). Romperam meu jugo, e desprenderam-se de meus laços de amor: Confregerunt jugum, ruperunt vincula (Jr 5, 5). A quem falarei? A quem pedirei que me escute? Incircuncisos são seus ouvidos, e não me podem ouvir; a palavra do Senhor chegou a ser para eles opróbrio, e não a receberão: Cui loquar? Et quem contestabor ut audiat? Ecce incircuncisae aures eorum, et audire non possunt; ecce verbum Domini factum est eis in opprobrium; et non suscipient illud (Jr 6, 10). Corações endurecidos, Eu vos chamei, e não Me respondestes, diz o Senhor: Vocavi vos, et non respondistis (Jr 7, 13).

Eis aqui o que lhes ordenei, diz o Senhor: Escutai minha voz, e eu serei vosso Deus, e vós sereis o meu povo; e segui constantemente o caminho que vos tenho indicado, a fim de que sejais felizes. Pelo contrário, eles não me escutaram, não deram ouvidos à minha voz; porém, submergiram-se nos desejos depravados de seu coração; voltaram atrás e não se adiantaram[2]. Profeta Jeremias, dizei-lhes estas coisas, mas não te escutarão; chamai-os, e não te responderão (Jr 7, 23-24.27).

Eu enviei de antemão todos os meus servos, os profetas, para dizer-vos: Retrocedei em vosso mal caminho, e dedicai-vos agora ao bem; porém, não quisestes dar-lhes ouvido, nem obedecer-me: Missique ad vos omnes servos meos, profetas, consurgens diluculo, mittensque et dicens; convertimini uniusquisque a via sua pessima, et bona facite studia vestra; et non inclinastis aurem vestram, neque audisti me (Jr 35, 15).

Profeta Ezequiel, a casa de Israel não quer te escutar, porque nem a Mim mesmo quer ouvir-Me; porque toda a casa de Israel tem rosto descarado e coração endurecido: Domus Israel nolunt audire te, quia nolunt audire me, omnis quippe domus Israel atrita fronte est, et duro corde (Ez 3, 7).

Eis aqui o que diz o Senhor dos Exércitos: Convertei-vos de vossos maus passos, e de vossos desígnios malvados. Eles, porém, não me escutaram, diz o Senhor: Haec dixit Dominus exercituum: Convertemini de viis vestris malis, et de cogitationibus vestris pessimis; et non audierunt me, dicit Dominus (Zc 1, 4).

Coração endurecido, disseste: Não obedecerei – Et dixisti: Non serviam (cf. Jr 2, 20). Eu, vosso Deus, vosso Criador, vosso Redentor e vosso Rei, quero reinar sobre vós, quero vos cumular de bens, quero vos salvar; e me haveis respondido: Não queremos que reineis sobre nós; não queremos outro rei além de nossa própria vontade, o demônio, o mundo e as paixões: Nolumus hunc regnare super nos (Lc 19, 14). Non habemus regem nisi Caesarem (Jo 19, 15).

Tal é a rebelião do coração endurecido!

Nada comove ao coração endurecido

O coração do homem endurecido está murcho e morto; chegou a ser uma rocha, diz a Sagrada Escritura. Nada pode comovê-lo, nem as carícias divinas, nem as ameaças, nem promessas, nem favores, nem o raio, nem os castigos de Deus: Emortuum est cor ejus intrinsecus, et factus est quase lapsi (IReg. XXV, 37).

O coração endurecido, diz Jó, é duro como a rocha, como a bigorna sob os golpes do martelo do ferreiro: Cor ejus indurabitur tamquam lápis, et stringetur quase malleatoris incus (Jó 41, 15).

Submersos em um profundo sono, os endurecidos não se despertam ao ouvirem o estampido do trovão das ameaças de Deus, diz São Bernardo; nem tremem tampouco em meio ao mais espantoso perigo: Alto demersi oblivionis somno, ad nullum dominicae comminationis tonitrum expergiscuntur, ut suum periculum expavescant (In Declamat.).

Divino Jesus, vossa sarada boca disse que os mortos que jazem nas tumbas ouviriam a voz do Filho do Homem e sairiam das sombras da morte (cf. Jo 5, 25-28).

Ó vós, corações endurecidos, mais estranhos à vida do que os mesmos mortos, mortos desde mais de quatro dias, cujas entranhas, já corrompidas por hábitos inveterados, dão horror, ossos secos e privados de toda seiva vital, nada vos poderá reanimar!

O coração empedernido despreza tudo

O homem submerso no endurecimento zomba de tudo e despreza tudo: a lei, a graça, os Sacramentos, a Palavra de Deus, a Religião, a consciência, a vida a morte, o juízo, o Céu, o Inferno, o tempo, a eternidade, e o mesmo Deus. E ninguém se despreza tanto a si mesmo como o empedernido. Não escutar a ninguém, não é desprezar tudo?

Os corações endurecidos, diz São Cipriano, desprezam os preceitos de Deus, que seriam o mais eficaz remédio de suas feridas; não querem fazer penitência; imprudentes antes de cometer o pecado, obstinam-se em permanecer nele depois de o cometer. Quando deviam estar de pé, caíram; e quando deviam se prosternar e humilhar, preferem permanecer de pé: Dei praecepta contemnunt; medelam vulneris negligunt; agere poenitentiam nolunt; ante admissium facinus improvid; post facinus obstinati; quando debuerant stare, jacuerunt; quando jacere et prosternare se Deu debent, stare se opinantur (Ex. Lib. de Lapsis).

Quando se leva a audácia e a imprudência, diz São Bernardo, até ao ponto de não temer nem titubear, é já cometer o mal sem estremecer-se; este é um estado desesperado: Impudencia et frontuositas, cum obduruerit ut non paveat, non haereat, non contremiscat, e ajam demum desperatio est (In Declamat.).

Quando o ímpio já caiu no abismo dos pecados, de nada faz caso, dizem os Provérbios: Impius, cum inprofundum venerit peccatorum, contemnit (Pr 18, 3).

No meio de sua impiedade, os corações empedernidos não somente não buscam o Salvador, senão que fogem Dele logo que Ele se aproxima. Estão infinitamente longe de Deus, e desprezam-No quando Se aproxima deles. A enfermidade do coração endurecido é uma aversão ao remédio, porque perderam inteiramente o gosto pelos bens eternos.

Se tratamos de apresentar-lhes os bens eternos, estes inspiram-lhes horror; se lhes ensinais acerca da terra prometida, voltam-se para o Egito; o maná celestial apenas excitam-lhes o desgosto. A ovelha extraviada já não mais reconhece a voz do Pastor que lhe chama e estende-lhe os braços; quer permanecer entre os dentes do lobo que a devora.

O coração endurecido torna-se pior até na presença dos meios que lhe poderiam conduzir de volta

O endurecido abusa da oração, da graça, do tempo, etc. sua ingratidão, sua desobediência e sua obstinação fazem-no pior.

O Faraó, ao ver que a chuva, o granizo, e os raios haviam cessado, agravou seu pecado endurecendo-se mais e mais: Videns Pharao quod cessasset pluvial, et grando, et tonitrua, auxitpecatum (Ex 9, 34).

Andam sempre aprendendo, e jamais ascendem ao conhecimento da verdade, diz São Paulo: São homens de um coração corrompido, réprobos na fé (2 Tm 3, 7-8). Não suportam sofrer o que se diz a seu respeito: Non portabant quod dicebatur (Hb 12, 20).

A cera derrete-se ao sol ou ao fogo, e o barro se endurece de igual maneira, apesar de o calor produzido ser da mesma natureza. O mesmo sucede na ordem espiritual: os justos, que podem comparar-se à cera ante o Senhor. derretem-se e convertem-se no fogo do amor de Deus; e, pelo contrário, os corações empedernidos, que não são mais que barro, tal como o coração do Faraó, ressecam- se e endurecem-se mais à medida que Deus trata de abrasá-los no fogo de seu amor.

O coração do empedernido endurece-se ainda mais quando se lhe admoesta com caridade ou se lhe ameaça com a ira de Deus.

Senhor, diz Jeremias, açoitastes a estes perversos, e não lhes doeu; endureceram-se suas frontes mais que um penhasco, e não quiseram se converter a Vós: Domine, percussisti eos, et non doluerunt; induravernt facies suas super petam; et noluerunt reverti (Jr 5, 3). Quanto mais experimentam a ação da graça, da paciência, da bondade e da justiça de Deus, mais se empedernecem.

São mais ímpios e malvados à medida que Deus oferece-lhes maiores e mais preciosos meios de salvação. Vede se não é assim que procedem aqueles que não querem cumprir com o dever pascal, aqueles que resistem a uma graça extraordinária de santos exercícios, de missão ou de jubileu; ainda são piores depois, e chegam até a zombar daqueles que aproveitam-se da abundância de graças. Seu furor é semelhante ao da serpente, diz o Salmista, como o da áspide, que faz-se surdo, que tapa aos próprios ouvidos para não ouvir: Furor illis secundum similitudinem serpentis, sicut aspidis surdae, et obturantis aures suas (Sl 57, 5).

O coração endurecido imita ao Anjo Mau

Bem poderiam aplicar-se ao coração endurecido aquelas palavras do Apocalipse: Sei onde habitas, habitas com Satanás, estás em sua escola, ele te instrui e lhe imitas – Scio ubi habitas, ubi sedes est Satanae (Ap 2, 13). O coração endurecido vive como os demônios e os condenados.

Muitos doutores creem que Satanás é tão orgulhoso e está tão empedernido no mal, que se Deus lhe dissesse: ‘Humilha-te, pede-me perdão, e Eu te livrarei das eternas penas’, ele preferiria ser eternamente desgraçado antes que humilhar-se e implorar misericórdia, antes que se confessar culpável e arrepender-se. Assim também os corações endurecidos preferem a inimizade de Deus e a condenação, antes de voltar em si mesmos, arrepender-se, humilhar-se e mudar de vida. Fizeram pacto com a morte, diz Isaías, e um convênio com o Inferno: Percussimus foedus cum morte, et cum inferno fecimus pactum (Is 28, 15).

O coração empedernido estuda o mal para cometê-lo e vangloriar-se dele

O coração endurecido discorre e calcula para fazer o mal, gastando-se neste infernal trabalho, diz o Rei Profeta: Scrutati sunt iniquitates, defecerunt scrutantes scrutinio (Sl 63, 7).

Aquele que é poderoso em malignidade, vangloria-se de sua malícia, diz o Salmista: Gloriaris in malitia, quipotens est in iniquitate (Sl 51, 3).

O coração corrompido e endurecido regozija-se quando age mal, e galanteia- se de sua maldade, dizem os Provérbios: Laetantur cum malefecerint, et exultant in rebus pessimis (Pr 2, 14).

O hábito de seu endurecimento é como um leito onde descansa com alegria, onde dorme sem remorsos; e, tal como acontece aos demônios, não sente alegria senão ao agir mal; não tendo gosto para o bem, deleita-se somente na maldade e a esta se vê arrastado como por um movimento natural; o mal é-lhe familiar, compraz-se nele como o animal imundo compraz-se em revolver-se na lama: Laetantur cum malefacerint, et exultant in rebus pessimis (Pr 2, 14).

Não somente aquele pecador que não quer converter-se pretende desculpar e justificar seus pecados, senão que faz alarde deles, não os encobre, diz Isaías: Peccatum suum quase Sodoma preadicaverunt (Is 3, 9).

Não acharia bastante prazer em sua intemperança, diz Bossuet, se não se gabasse dela publicamente, se não a fizesse gozar, diz Tertuliano, de toda a luz do dia e de todo o testemunho do Céu: At enim delicta vestra, et luce omni, et nocte omni, et tota coeli conscientia fruuntur (Ad Nation., lib. I, número 16).

Vedes aqueles orgulhosos empedernidos que se deleitam em fazerem-se grandes com sua licenciosidade, que se imaginam elevar-se muito acima das coisas humanas pelo desprezo de todas as leis, e creem que o pudor procede somente da timidez, e consideram-lhe como coisa pueril e indigna? Estes homens não somente desprezam, senão que insultam publicamente a toda a Igreja, a todo o Evangelho e à consciência de todos os homens.

Chegado ao fundo do abismo do mal, o pecador endurecido despreza tudo; porém, diz a Escritura, longe de vangloriar-se, deveriam perceber que a ignomínia e o opróbrio seguem-no: Impius, cum in profundum venerit peccatirum, contemnit; sed sequitur eum ignominia et opprobrium (Pr 18, 3).

Zomba dos conselhos e de quem os dá; zomba de todos os pecados e de toda a vergonha; zomba do pudor e da modéstia, de todos os perigos, de todas as perdas, de todos os direitos divinos e humanos, do sagrado como do profano, do Céu, dos anjos, do mesmo Deus, cuja Providência o ímpio acaba por negar, bem como a existência da mesma adorável Providência. Ele se ri de sua própria consciência, ri­-se dos suplícios, ri-se da virtude, de toda correção, do perdão e do remédio. É um frenético desesperado. Ri-se vaidosamente de todas essas coisas. Está coberto de infâmia e de desonra, e gloria-se e alegra-se disso. Estes são os últimos limites da iniquidade, diz o profeta Malaquias: Vocabuntur termini impietatis (Ml 1, 4).

O pecador empedernido, diz Jeremias, apresenta o semblante de uma mulher prostituta e atrevida, cuja fronte é incapaz de ruborizar-se; a mesma “elevação” de espírito e de coração tem ele: Frons milieris meretricis facta est tibi; noluisti erubescere (Jr 3, 3).

O coração empedernido é o receptáculo de todos os vícios

Tudo está contaminado no homem empedernido, sua alma e sua consciência, diz São Paulo: Inquinatae sunt eorum et mens et conscientia (Tt 1, 15). O homem empedernido precipita-se na maldade, dizem os Provérbios: Qui mentis est durae, corruet in malum (Pr 28, 14).

Da cabeça aos pés todo seu ser moral é uma chaga, diz Isaías; suas feridas lívidas inflamam-se mais a cada dia. Onde está o instrumental para fechá-las, o remédio para acalmá-las, e o bálsamo para dulcificá-las? (Is 1, 6). E não quer sair deste horrível e deplorável estado, o que representa certamente o último estágio do mal.

Perseverança no endurecimento

Os pecadores endurecidos quereriam, se pudessem, viver sempre, a fim de poder pecar sempre, diz São Gregório; porque provam evidentemente que desejam viver sempre para pecar sempre, posto que não deixam de obrar mal enquanto vivem.

A grande justiça de Deus determina, por conseguinte, que aqueles que nunca quiseram deixar de pecar durante sua vida, sejam castigados com um suplício sem fim: Voluissent, si potuissent, sine fine vivere, ut potuissent sine fine peccare.. ostendunt enim quia in pecato semper vivere cupiunt, qui numquam desinunt peccare dum vivunt. Ad magnam ergo justitiam judicantis pertinet, ut nunquam careant supplicio, qui in hac vitam numquam voluerunt carere peccato (De poenit., Can. LX).

Querem pecar com audácia e decidem pecar sempre; se sempre pecam, e amando sempre o pecado, fazem como um pacto eterno com o pecado, com a morte, o demônio e o inferno.

Violadores de minha Lei, como diz o Senhor pela boca de Isaías, Eu já vos via no seio de vossa mãe, e já sabia que haveríeis de ser prevaricadores obstinados: Ex tunc aperta est auris tua, scio enim quia praevaricans praevaricaberis, et transgressorem ex utero vocavi te (Is 48, 8).

Eu vos chamei, e não me respondestes; falei, e não fizestes caso: Vocavi, et non respondistis, loquutus suum, et non audistis (Is 65, 12). Escutai minha voz, diz-lhes, e eu serei vosso Deus, e vós sereis meu povo. Porém, eles não me escutaram, e submergiram nos desejos e na depravação de seu coração desde o dia em que seus pais saíram da terra do Egito até ao dia de hoje. Eu enviei-lhes todos os meus servos, os profetas, mas os filhos de meu povo não me escutaram, senão que se fizeram surdos e endureceram seu cerviz e se portaram pior que seus pais (Jr 7, 26.36).

Até quando será impossível serem curados de sua idolatria? pergunta o profeta Oseias: Usquequo nonpoterunt emundari? (Os 8, 5). Quanto tempo, diz São Jerônimo, durará esta vontade obstinada? Onde achar uma loucura tão grande como o recusar a cura que o Senhor oferece-nos? (Lib. super Matth.).

Vede, diz São Gregório, o endurecimento dos judeus que não reconhecem, todavia, a Jesus Cristo por Messias, apesar das profecias que leem cada dia e dos milagres que tiveram lugar. Os elementos insensíveis reconheceram a seu Autor; e o coração dos judeus, mais duro que as penas, não O quis reconhecer, e não quiseram fazer penitência (Lib. Moral.).

Apesar da bondade de Jesus Cristo, diz São João Crisóstomo, Judas perseverou em seu criminoso endurecimento, vendeu o seu Mestre, e enforcou-se tomado de desespero: Ille vero in malo suo proposito mansit. Pecadores endurecidos, não sigais o exemplo de Judas (Homil. I, in Prod. Judae).

É quase impossível sair do endurecimento

É moralmente impossível, diz o grande Apóstolo, que aqueles que foram uma vez iluminados, tendo degustado o dom celestial da Eucaristia e que foram feitos partícipes dos dons do Espírito Santo; que aqueles que se alimentaram da Palavra santa de Deus e da esperança das maravilhas do século vindouro; e apesar disto caíram, é facilmente impossível, digo, que possam ser reabilitados pela penitência. Porque a terra que embebe a chuva que cai frequentemente sobre ela e produz a erva que é proveitosa aos que a cultivam, recebe a benção de Deus; mas aquela na qual brotam espinhos e abrolhos, é abandonada por seu dono. E fica exposta à maldição, e, enfim, para ser queimada (Hb 6, 4-8). Se pecamos voluntariamente depois de haver recebido o conhecimento da verdade, já não há desde aquele momento holocaustos pelo pecado (Hb 10, 2-6).

O homem pervertido corrige-se mui dificilmente, diz o Eclesiastes: Perversi difficile corriguntur (Eclo 1, 15).

Estava atado, diz Santo Agostinho, não com cadeias estranhas, senão por minha vontade endurecida. Meu inimigo tinha minha vontade, me havia forjado cadeias, e me tinha amarrado: Ligatus eram, non ferro alieno, catenam fecerat, et constrinxerat me (Confess.).

O coração empedernido não se converte quase nunca, porque não quer; prefere continuar ofendendo a Deus, e rejeita todos os meios próprios para sua salvação. Então, Deus retira-se e o amaldiçoa; e, sem Deus, é-lhe impossível voltar de seus extravios.

É preciso, sem embargo, não desesperar; tudo é possível a Deus; Ele é onipotente e pleno de misericórdia; Ele perdoou a outros grandes pecadores; porém, não temos de perseverar no mal.

Causas do endurecimento

A primeira causa do empedernimento, diz Santo Agostinho, é a força do desgraçado hábito do mal, que sobrecarrega a alma e não lhe permite ressuscitar nem respirar (Lib. Confess.);

Outra causa do endurecimento é o não escutar a Palavra de Deus e não aproveitá-la;

A terceira causa é cegueira de espírito e o apego ao pecado, que nos faz rejeitar e desprezar o temor de Deus;

A causa quarta é o orgulho. O coração orgulhoso é duro, inflexível e incorrigível;

cinco sinais ou cinco efeitos do endurecimento:

1.° A cegueira espiritual, da qual fala Jó: No meio do dia, tatearão como nas trevas, e vacilarão como se estivessem ébrios: Palpabunt quase in tenebris, et non in luce, et errare eos faciet quase ebrios (Jó 12, 25).

2.° A surdez voluntária. Disseram a Deus: Retirai-vos de nós, não queremos conhecer o caminho que nos indicais: Qui dixerunt Deo: Recede a nobis, et scientiam viarum tuarum nolumus (Jó 21, 14);

3.° O desprezo de Deus e dos homens. Quando o ímpio desceu ao fundo do abismo, tudo despreza: Impius, cum in profundum venerit peccatorum, contemnit (Pr 18, 3);

4.° A obstinação em não querer corrigir-se; e

5.° O entorpecimento e o sono espiritual.

Desgraças que o endurecimento causa

Quando as virgens loucas apresentaram-se à porta do esposo, diz o Evangelho, chamavam dizendo: “- Senhor, abri-nos!” Porém, ele lhes respondeu: “- Em verdade eu vos digo que não vos conheço” – Amen dico vobis nescio vos (Mt 25, 11-12).

Se há um ser a quem Deus conheça é o coração endurecido. E aquele a quem Deus conhece, não é conhecido do Céu, nem dos Anjos, nem tampouco dos Bem- aventurados; não é conhecido mais que do demônio, da morte e do Inferno. Considerai a desgraça do homem empedernido!

Desgraçados, exclama Santo Agostinho, aqueles corações de quem Deus se retira e foge: Vae illis a quorum lapideus cordibus Deus fugit! (Lib. Confess.).

Não há paz para o ímpio, diz Isaías: Non estpax impiis (Is 48, 22). O coração empedernido é como um mar tempestuoso: Impii quase mare fervens (Is 47, 20).

É um estado de morte, já nesta vida, o estado de um coração empedernido. Ele está entregue a seus reprovados sentidos, e não é mais do que um navio sem casco e a afundar no abismo, incapaz de conter a graça.

Desgraçado durante sua vida pela privação de todo gozo verdadeiro, o coração endurecido é, todavia, mais desgraçado na hora da sua morte. O coração endurecido será muito desgraçado no último de seus dias, diz o Eclesiástico: Cor durum habebit male in novissimo (Eclo 3, 27).

Ninguém se atreve a advertir a um pecador endurecido acerca do risco de morte em que se acha, porque todos temem não poder convertê-lo; e, muitas vezes, Deus permite que morra tal como viveu. Neste momento supremo, seu coração murcha-se mais e mais, a confiança foge para longe dele. Suas próprias esperanças causarão a abominação e o tormento à sua alma, diz Jó (Jó 11, 20).

Na hora da morte, diz o Salmista, o pecador endurecido verá, e se irritará; rangerá os dentes; consumir-se-á; e desvanecer-se-ão os seus desejos: Peccator videbit, et irascetur, dentibus suis fremet et tabescet, desiderium peccatorum peribit (Sl 111, 10).

Castigos que há de sofrer o coração empedernido

Corações empedernidos, diz São Paulo, desprezais as riquezas da bondade de Deus, de sua paciência e de seu prolongado sofrimento? Não reparais que a bondade de Deus vos está chamando à penitência? E, sem embargo, com vossa dureza e vosso coração impenitente acumulais um tesouro de ira para o dia da vingança e da manifestação do justo juízo de Deus: An divitias bonitatis ejus, et patientiae, et longanimitatis contemnis? Ignoras quoniam benignitas Dei ad poenitentiam te adducit? Secundum duritiam tuam et impoenitens cor, thezaurizas tibi iram in die irae et revelationis justi judicii Dei (Rm 2, 4-5).

Senhor, diz o Salmista, precipitareis aos ímpios no abismo: Decuces eos in puteum interitus (Sl 54, 24). Já não mais verão a luz: In aeternum non videbunt lumen (Sl 48, 20).

Os empedernidos murmuram e blasfemam contra Deus; Deus os vê, e o fogo de Sua cólera acende-se, e inflama-se a Sua ira: Male locuti sunt de Deo; ideo audivi Dominus, et distulit, et ignis accensus est, et ira, ascendit (Psalm. LXXVII, 19.21).

O coração empedernido, acrescenta o Salmista, amou a maldição, e esta maldição virá sobre ele; não quis a bênção, e esta afastar-se-á dele; cobriu-se com a maldição como se fosse uma capa, e esta maldição entrou como água em suas entranhas, e como o azeite em seus ossos. Seja ela para sempre uma veste com que ele se cubra, e o cinturão com que se cinge[3].

Pecadores endurecidos, vós fugis de Deus; não escapareis, porém, de Suas vinganças. A recompensa de uma vontade teimosa e endurecida será a obstinada e perpétua pena do Inferno.

Ainda que cometido no tempo, diz São Bernardo, o pecado de um coração inflexível e obstinado no endurecimento é castigado durante a eternidade; porque este crime, que tão prontamente passa no tempo e na ação, dura muitíssimo pela vontade pertinaz no mal; de tal maneira que, se o pecador endurecido não morresse nunca, nunca quereria deixar de ofender a Deus; antes, pelo contrário, quereria viver sempre, para poder sempre agir mal: Ob hoc inflexibilis et obstinatae mentis malum punitur aeternaliter, licet temporaliter perpetratum; quia quod breve fuit tempore, vel opere, longum esse constat in pertinaci voluntate; ita, ut, si numquam moreretur, numquam vele peccare desineret, imo semper vivere vellet, ut semper peccate posset (Epist. CCLIII).

Se não me escutais, diz o Senhor no Levítico, e se não cumprir todos os meus Mandamentos, se desprezardes minhas leis, e não fizeres caso de meus juízos, deixando de fazer o que ordenei, e violando minha Aliança, vede aqui a maneira com que eu também me portarei convosco: castigar-vos-ei, de repente, com a pobreza e com ardor que vos abrasará os olhos e consumirá vossas vidas; Eu vos dirigirei um olhar com rosto irado, e caireis aos pés de vossos inimigos; atrairei sobre vós males sete vezes maiores para castigar-vos, por causa de vossos endurecimento. Quebrantarei o orgulho de vossa rebeldia, e farei que para vós o Céu seja de ferro, e de bronze a terra. Inútil será todo vosso trabalho; vossa terra não produzirá sua safra, nem as árvores darão fruto; enviarei contra vós as feras do campo para que vos devorem a vós e a vossos rebanhos. E se, todavia, não vos quereis arrepender e marchais contra Mim, Eu também marcharei contra vós e vos ferirei constantemente; lançarei contra vós a espada vingadora; e, se vos refugiardes nas cidades amuralhadas, Eu vos enviarei a peste, e caireis nas mãos de vossos inimigos. Perecereis entre as nações, e a terra inimiga vos consumirá (Lv 26).

O empedernido Faraó é castigado com dez pragas, e acaba por perecer no mar Vermelho. O braço da justiça de Deus não é agora menos temível, e aqueles que imitam ao Faraó serão também agora severamente castigados.

O endurecimento do coração é o caminho que leva sem curvas ao abandono de Deus, à impenitência final e à reprovação eterna.

A cegueira do espírito pertence propriamente à inteligência, e o endurecimento à vontade; uma e outro são apegos ao pecado, são a causa do pecado, são a pena do pecado.

Ouvi a Jeremias: Eis aqui o que diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel: Eu vou trazer sobre esta cidade e sobre todas as cidades que dependam dela, todos os males com que Eu a tenho ameaçado; já que endureceram sua cerviz para não atender às minhas palavras: Haec dicit Dominus exercituum, Deus Israel: Ecce ego inducam super civitatem hanc, et super omnes urbes ejus, universa mala quae locutus sum adversum eam; quoniam induravernt cervicem suam, ut non audirent sermones meos (Jr 19, 15).

Não me escutastes, diz o Senhor; por isso, vós caminhais para estar à mercê da espada, da peste e da fome, e Eu vos espalharei por todos os reinos da terra (Jr 34, 15-17).

E o Senhor disse a Oseias: Impõe a esta criatura o seguinte nome ‘Não mais misericórdia’, porque eu não usarei mais doravante de misericórdia alguma com os filhos de Israel: Voca nomem ejus ‘ABSQUE MISERICÓRDIA’, quia non addam ultra misereri domui Israel, sed oblivione obliviscar eorum (Os 1, 6).

O mais terrível castigo para o pecador é o ser esquecido de Deus; é a prova da impenitência e da obstinação por parte do pecador, e do abandono e da reprovação por parte de Deus.

Esquecido de Deus, nada tem que esperar o homem endurecido, nada de sua graça, nada de sua sabedoria, nenhum bem! A causa deste esquecimento, deste abandono da parte de Deus, procede de que aquele coração empedernido é o primeiro a abandonar a Deus; e aquele que esquece e abandona a Deus, bem merece a pena do Talião, isto é, que Deus, por sua vez, esqueça-o e o abandone-o.

Vede o castigo dos judeus deicidas[4].

O endurecimento é obra do pecador, e não de Deus

O homem é quem própria, direta e ativamente cega-se, endurece-se e abandona-se às suas reprovadas inclinações.

Dizem que Deus endurece o homem pecador; porém, se o faz, é indiretamente. Porque o endurecimento é um apego culpável e direto pelo qual o homem rejeita a graça e põe obstáculos voluntários para impedir-Lhe de agir misericordiosamente; e, sendo este impedimento voluntário e exclusivo do homem obstinado, é um pecado grave que obriga a Deus a retirar-Se. Ao retirar-Se Deus, o pecador não poderá mais voltar a se levantar; e, daí, vem o endurecimento.

Deus indiretamente cega e endurece o homem:

1.° Permitindo que se seque e endureça;

2.° Tirando-lhe pouco a pouco, porque o merece, não a graça suficiente, senão a graça eficaz, a abundância das graças;

3.° Permitindo ao demônio mais poder sobre o homem;

4.° Apresentando ao homem ocasiões de queda, ocasiões que são circunstâncias boas ou indiferentes em si mesmas, como por exemplo, a vista de certas pessoas, as riquezas, as honras e as aflições. Deus prevê que, com estas ocasiões, cairá o homem no pecado, porém livremente, por sua própria vontade; e, ao final, se endurecerá nesse estado.

Quando Deus apresenta-lhe estas ocasiões, não é, contudo, para fazer-lhe cair, porque Deus não tenta a ninguém, nem quer diretamente a perdição de ninguém, havendo enfrentado a morte pela salvação de todos; porém, apresenta estas ocasiões para fazer um bem, para experimentar e para obrigar o homem a merecer (a conversão). Assim endureceu Deus ao Faraó, enviando as pragas do Egito, com o objetivo de que ao vê-las, o Rei se humilhasse e obedecesse; porém, irritado o Faraó pelos castigos que padecia, tornou-se mais obstinado, mais endurecido, e resistiu mais ainda a Deus. Assim, o endurecimento do Faraó proveio diretamente de sua própria falta, de sua própria vontade.Deus endurece ao pecador não tendo compaixão dele, e abandonando-o ao seu endurecimento e aos seus pecados.

Quando um pai adotivo quer cumular de bens e riquezas ao filho que adota, se esta criança zomba de seu benfeitor, despreza-o e foge dele, seria culpável o pobre pai se abandonasse e afastasse para longe de si aquele filho ingrato? Quem é culpável? Qual dos dois deve ser condenado?

Em Deus, endurecer é não ter compaixão, é deixar a alguém pelo que merece. Deus jamais é o primeiro que abandona; e se Ele afasta-Se do homem, é o homem que Lhe força a retirar-Se. Isaías, assim como o Rei Profeta, ensina, de uma maneira clara e muito evidente, que os pecadores endurecem-se a si mesmos própria e diretamente com sua malícia.

Quando estenderdes os braços até Mim, diz o Senhor pela boca de Isaías, apartarei a minha vista; rogareis, e Eu não vos escutarei; porque vossas mãos estão ensanguentadas. Lavai-vos, purificai-vos, fazei desaparecer de minha vista a malícia de vossos pensamentos, cessai de praticar a injustiça, aprendei a fazer o bem, amai a justiça, ajudai ao oprimido, protegei ao órfão, defendei a viúva. E vinde, e acusai- vos diante de mim, diz o Senhor; se vossos pecados, tão encarnados como o escarlate e o carmesim, ficarão tão brancos como a neve ou mais puros que a lã[5].

Escutai agora ao Real Profeta: Se ouvirdes hoje a voz do Senhor, diz, não endureçais vossos corações: Hodie, si vocem ejus audieritis, nolite obdurare corda vestra (Sl 94, 8). Não é, portanto, Deus, aquele que endurece diretamente os corações dos pecadores; obrigam-Lhe a que Se retire.

E falando, todavia, do Faraó, desgraçado modelo dos endurecidos, é evidente que, por sua própria malícia e vontade, chegou a endurecer-se. Está claramente provado que:

1.° Deus lhe enviou Moisés dez vezes para que permitisse aos Hebreus colocarem-se em marcha; Deus não queria senão a saída, a marcha de seu povo; Ele não quisera endurecer aquele Rei do Egito; e, se enviava pragas, não era senão para obrigar-lhe a deixar aos israelitas em liberdade;

2.° Deus castigou severamente ao Faraó que se obstinava; Deus não é, pois, o autor das faltas que exigem vingança, diz São Fulgêncio: Deus reluctantem Pharaonem gravissime punivit; atque Deus num est autor earum cujus est ultor (Epist. IV); e

3.° A Escritura atribui ao Faraó mesmo a sua falta e o seu empedernimento. Diz-se no Êxodo: Vendo-se Faraó livre do mal, acabrunhou seu coração: Videns Pharao quod data esset requies, ingravavit cor suum (Ex 8, 15). Diz-se também que, vendo Faraó que a chuva, a pedra e os trovões haviam cessado, agravou seu pecado e obstinou seu coração: Videns Pharao quod cessaret pluvial, et grando, et tonitrua, auxit peccatum; et ingavatum est cor ejus (Ex 9, 34-35).

Diz São Paulo que Deus usa de misericórdia com quem quer, e endurece ou abandona em seu pecado aquele que lhe apetece: Cujus vult, museretur; et quem vult, indurant (Rm 9, 18). Eis aqui o verdadeiro sentido dessas palavras: Os judeus incrédulos e seus imitadores foram rejeitados da justiça; porém, os cristãos que professam a fé foram justificados. Assim são explicadas as palavras de São Paulo, pois este é o seu verdadeiro sentido, e resolvem-se todas as dificuldades. Esta era a finalidade e a intenção do Apóstolo. Os cristãos foram eleitos para a justificação, enquanto os judeus foram excluídos, porque os cristãos abraçaram a fé em Jesus Cristo, e os judeus a rejeitaram.

Os judeus são aqueles que positiva e diretamente endureceram-se a si mesmos; eis aqui porque chegaram a ser vasos de ira e de reprovação. Deus não os fez assim, senão que Ele lhes suportou, isto é, que em Sua paciência permitiu que pecassem, diferindo por longo tempo o castigo; e, neste sentido, é como se disséssemos que Deus lhes empederniu. Não é Deus quem fez deles vasos de cólera; muito pelo contrário, eles mesmos são aqueles que, por sua falta e sua voluntária impenitência, converteram-se diretamente em vasos de cólera e de reprovação. Deus está sempre pronto a ter misericórdia daquele que a pede.

O bem e a predestinação vem de Deus; porém, o mal e reprovação vem de nós mesmos. Somente o homem pode pecar… e peca; porém, somente Deus o arranca do pecado, quando o homem não se opõe, nem quer se opor à ação da graça de Deus.

Meios de sair do endurecimento

1.° Escutar a voz da graça de Deus: Audite me, duro corde, qui longe est a justitia (Is 46, 12). Filho do homem, pensas que estes ossos secos podem ressuscitar? Tu lhes dirás: Ó mortos, escutai a Palavra de Deus: Fili hominis, putasne vivente ossa ista? Et dices eis: Ossa árida, audite verbum Domini (Ez 38, 3-4);

2.° Orar e obedecer a Deus. Jonas fugiu de Deus, e uma baleia engoliu-o; Jonas no ventre daquele peixe monstruoso dirigiu a sua oração a Deus, e Deus salvou-o (Jn 1, 2);

3.° Aplicar-se a amar a Deus. Não há coração de bronze tão endurecido que não possa se abrandar com o fogo do amor a Deus, diz Santo Agostinho: Nihil tam durum et ferreum, quod non igne amoris vincatur (Lib. de Morib. Eccles., c. XXII);

4.° Estar firmemente resolvido a sair do pecado;

5.° Ter uma grande devoção à Santa Virgem Maria. Esta devoção opera milagres!


Referências:

[1] Quid est cor durum? Solum est cor durum, quod semetipsum non exhorret, quia nec sentit […] Ipsum est quod nec compunctione scinditur, nec pietate mollitur, nec movetur precibus: minis non cedit, flagellis duratur. Ingratum ad beneficia est, ad consilia infidum, ad judicia saevum [al. surdum], inverecundum ad turpia, impavidum ad pericula, inhumanum ad humana, temerarium in [al. ad] divina, praeteritorum obliviscens, praesentia negligens, futura non providens. Ipsum est cui praeteritorum, praeter solas injurias, nihil omnino non praeterit; praesentium nihil non perit; futurorum nulla, nisi forte ad ulciscendum, prospectio seu praeparatio est. Et ut brevi cuncta horribilis mali mala complectar, ipsum est quod nec Deum timet, nec hominem reveretur (Lib. I de Consid.).

[2] Outra tradução dessa passagem “… deram as costas em vez da face” (Bíblia de Jerusalém)

[3] Dilexit maledictionem, et veniet ei, et noluit benedictionem, et elongabitur ab eo. Et induit maledictionem sicut vestimentum quo operitur, et sicut zona qua semper praecingitur (Psalm. CVIII, 18-19).

[4]  A Teologia atual costuma sustentar que a responsabilidade pela morte de Jesus Cristo recai sobre cada homem pecador, e não apenas sobre povo judeu, etnicamente considerado; e lembra que os castigos recebidos por aquele povo quando da destruição de Jerusalém, passados alguns anos depois de Cristo, foram um símbolo eloquente das penas que o pecador receberá por seu endurecimento nos pecados: destruição violenta, ruína completa, opróbrio inesgotável etc. (Nota do tradutor).

[5]   Cum extenderitis manus vestras, avertam oculos meos a vobis; et cum multiplicaveritis orationem non audiam manus vestrae sanguine plenae sunt. Lavamini, mundi estote, auferte malum cogitationum vestrarum ab oculis meis; quiescite agere perverse. Discite benefacere, quaerite iudicium, subvenite oppresso, iudicate pupilo, defendite viduam. Et venite, et arguite me, dicit Dominus; si fuerintpeccata vestra ut coccinum, quasi nix dealbabuntur; et si fuerint rubra quasi vermiculus, velut lana erunt (Isai. I, 15-18).