Avareza, Tesouros de Cornélio à Lápide

O que é avareza?

As riquezas, diz Santo Ambrósio, chamam-se assim porque dividem ou rasgam a alma: Dives dicta sunt, eo quod dividant, distrahantque mentem (Serm. V).

A palavra avaro significa ávido de ouro, diz Santo Isidoro: Avarus, quasi auri avidus (Lib. X, Origine).

Ser avaro, diz Santo Agostinho, não é somente amar o dinheiro, senão perseguir algo com imoderado ardor. Quem quer que deseje mais do que necessita, é avarento[1].

Loucura da avareza

Não amontoeis tesouros na terra, diz Jesus Cristo, segundo São Mateus, porque nela os devoram o mofo e a traça, e os ladrões os desenterram e roubam: Nolite thesaurizare vobis thesauros in terra ubi erugo et tinea demolitur ubi fures effodiunt et furantur (Mt 6, 19). Observai estes três gêneros de destruição: a traça chega a perder as vestes, a ferrugem consome o ferro, e os ladrões roubam o ouro e a prata. Jesus Cristo aparta ao homem do amor das riquezas por três motivos:

  1. porque passam e se corrompem.
  2. porque cegam o espírito;
  3. porque se apoderam da alma inteira e a impedem de servir a Deus.

Que loucura, exclama São João Crisóstomo, colocar vossos tesouros em um lugar que deveis abandonar, e não os enviar para onde haveis de ir! Amontoai riquezas no lugar de vossa pátria[2].

Os campos de um homem rico haviam produzido muitíssimos frutos, diz Jesus Cristo, e o rico, meditando, dizia para si: Que farei? Não sei onde encerrar minha colheita e todos os meus bens. Porém, já sei o que hei de fazer: derrubarei meus celeiros, construirei outros maiores e reunirei neles meus frutos e meus bens, dizendo à minha alma: descansa, come, bebe e alegra-te (Lc 12, 16-19). Porém, Deus disse-lhe: Insensato, nesta mesma noite, vão pedir tua alma; e as coisas que tens, de quem serão? Dixit autem illi Deus stulte hac nocte animam tuam repetunt a te quae autem parasti cuius erunt (Lc 12, 20). Tal será a morte daquele que acumula muito ouro e não é rico diante de Deus: Sic est qui sibi thesaurizat et non est in Deum dives (Lc 12, 21).

O que não podemos levar conosco não nos pertence, diz Santo Ambrósio. Somente a virtude acompanha os defuntos[3]. É sábio e rico somente porque nada deseja.

O avarento, em sua loucura, amontoa tesouros, e ignora para quem os reúne, diz o Salmista: Thesaurizat et ignorat cui congregabit ea (Sl 38, 7).

Deixará suas riquezas a estranhos e não lhe restará mais que o sepulcro: et relinquerent aliens divitias suas; es sepulcra eorum domus illorum in aeternum (Sl 48, 11-12).

Vede as necessidades que acometem os avarentos:

  1. a primeira é possuir inutilmente uma fortuna, posto que não se atrevem a valer-se dela;
  2. a segunda é amontoar, por meio de um trabalho contínuo e cuidados indizíveis, riquezas que outros hão de devorar;
  3. a terceira é ser cruéis para consigo, desprezar-se e atormentar-se, sem ousar alegrar-se e desfrutar de seus bens;
  4. a quarta é nunca fazer o bem a ninguém, senão sem o saber e contra sua vontade.
  5. a quinta é entregar-se a uma paixão insaciável;
  6. a sexta é não comer nem o pão suficiente para a vida: a mesa do avarento é triste e servida com pobreza;
  7. a sétima é não pensar em que há de morrer logo aquele que acumula riquezas, como se houvesse de viver para sempre;
  8. a oitava é privar-se de recompensa devida pela esmola, tanto que, na hora de sua morte, deixa, contudo, seus tesouros a uns herdeiros, frequentemente esquecidos e ingratos;
  9. a nona é renunciar a honrar-se por meio da liberalidade, cobrindo-se de vergonha e de opróbrio, triste patrimônio da avareza; e
  10. a décima é não fazer-se digno dos benefícios de Deus, e não tratar de ser feliz, seja nesta vida, seja na outra, por toda a eternidade. Porque Deus é bom para os homens generosos e caritativos; porém, é avarento para os avaros e os fere com um martelo.

Triste estado do avarento

Se considerais a alma do avarento, encontrá-la-eis semelhante a uma vestimenta roída pelas traças; vê-la-eis ferida cruelmente por toda as partes, gangrenada pelo pecado e coberta com a fuligem do mal. Ao contrário, a alma do homem caritativo e desinteressado brilha como o ouro, resplandece como o diamante, abre-se como a rosa. Não teme nem a traça, nem o mofo, nem os ladrões; vê-se livre da inquietude que dão os negócios da terra.

Os que querem ser ricos, diz São Paulo a Timóteo, caem na tentação e nos laços do demônio, e em muitos desejos inúteis e perniciosos que precipitam aos homens em um abismo de perdição e de condenação. Porque a avareza é a raiz de todos os males; faz perder a fé e nos lança em meio de grandes dores[4].

Raivas, diligências, desvelos, decepções pesares, temores, trabalhos, contradições, desespero, etc. Eis aqui os frutos que o avarento recolhe: Inseruerunt se doloribus multis. Servir-se do dinheiro é uma coisa muito boa, diz São Bernardo; abusar dele, é um mal; buscá-lo por avareza e amá-lo, é uma conduta vergonhosa e degradante (De considerat., c. XIV).

Fugi da avareza, diz São Próspero; se quereis riquezas, ver-vos-eis plenos de dificuldades para descobri-las, de trabalho e de penas para vo-las procurar, de cuidados para conservá-las, de amargura para delas gozar, e de dor por perdê-las (De vit. contempl. lib. II, c. XII).

O homem a quem a avareza agita e atormenta, exclama. A avareza, pelo contrário, impõe perigos, tristezas, tribulações; e consentis e sofrer todos esses males? Com que finalidade? Para ter com que encher vossos cofres e perder a tranquilidade; muito maior paz tínheis antes de nada possuir, que depois de haver começado a reunir. Olhai o que a avareza obrigou-vos a fazer: haveis preenchido de riquezas vossa casa, e temeis ser roubado; haveis adquirido ouro, e perdeis o sono. Ah… não sucede o mesmo com a posse de Deus. Basta amá-Lo para O obter e O conservar[5].

Segundo os poetas e as fábulas, Pluto, deus das riquezas, é cego de nascimento e cega aos que o honram, diz Clemente de Alexandria (Lib. IV Strom.).

Sacrificai vosso dinheiro, diz Santo Agostinho, para comprar repouso e tempo para servir a Deus: Perde nummos, ut sem tibi quietem, tempus vacando Deo (In Psalm. XII).

A avareza, diz São Bernardo, está sobre um carro sustentado por quatro rodas que são quatro vícios: a pusilanimidade, a desumanidade, o desprezo de Deus e o esquecimento da morte. Os cavalos que a arrastam são a tenacidade e a rapacidade[6]; o cocheiro que os guia, é o furor de acumular. A avareza não quer ter muitas pessoas às suas expensas; contenta-se com um criado. Porém, este criado, é prontamente infatigável executor do trabalho que se prescreve, vale-se dos fortes látegos para ferir sem compaixão e fazer galopar aos cavalos; estes látegos são a paixão de adquirir e o temor de perder[7].

Jesus Cristo chama “espinhos” às riquezas (Mt 13, 22).

Ensinai, diz São João Crisóstomo, à consciência do avaro, e vereis nela uma multidão de pecados, um temor contínuo, a agitação, a turbação, terrores de todas as classes, a suspeita e a ansiedade; o avarento teme até os espíritos, suspeita das sombras, de seus mais fieis servidores, dos estranhos que o visitam, de sua companheira que ele fez semelhante a si, porém, que digo, ele teme-se a si mesmo (Homil. ad pop.).

A avareza, diz Santo Ambrósio, tem inveja de todos os homens; vil para si mesma, pobre no seio das maiores riquezas, consome-se em um afeto desordenado pelo que possui: Omnibus invida, sibi vilis, in summis divitiis inops, affectu extenuat quod sensu abundat (Lib. I de Caino, c. V). Todos os dias do avaro, acrescenta este grande Doutor, passam-se em trevas, choros, ira, languidez e furor. Sua paixão excita-o, os cuidados atormentam-no, a inveja crucifica-o, a demora irrita-o, a esterilidade dos campos desespera-o, a abundância inquieta-o e, algumas vezes, torna-o louco. Ele cansa os elementos, ele vela o mar, faz pesquisas nas entranhas da terra, não deixa de perseguir ao céu com os votos de uma insaciável ganância; não está satisfeito nem em um dia sereno, nem um dia nublado; queixa-se constantemente das colheitas do ano. Quanto padecem todos em sua casa! Ah! Não é na abundância das riquezas onde se acha a vida do homem, senão na virtude e a fé: Non in abundantia divitiarum vita est hominis, sed in virtute et ac fide (Ut supra).

O avarento esta totalmente entregue à sua paixão

Ali onde está vosso tesouro, está também vosso coração, diz Jesus Cristo em São Mateus: Ubi est thesaurus tuus, ibi est cor tuum (Mt 6, 21). Quer dizer, o que causa vossa alegria, o que estimais, o que quereis, o que amais, o que perseguis com ardor, subjuga vosso coração inteiro. E não é somente a paixão da avareza a que assim se apodera do homem, senão todas as demais.

Não se encerre vossa alma em um vil metal, eleve-se, ao contrário, ao céu, diz São Jerônimo: Mens tua non sit aere, sed in aethere (Ad Paulin.).

Santo Antônio de Pádua refere que, depois da morte de um avarento, acharam seu coração em meio do ouro que abarrotava sua gaveta.

Avarentos, não pensais mais do que no ouro, não amais mais do que o ouro, porém, em que ouro é comparável a Deus? Buscais riquezas, porém, que riquezas valem mais que a posse de Deus?

Se vossas riquezas multiplicam-se, fazei que vosso coração não se prenda a elas, diz o Salmista: Divitiae, si affluant, nolite cor apponere (Sl 61, 11).

O avarento não pode servir a Deus[8]

Ninguém pode servir a dois senhores, diz Jesus Cristo: Não podeis servir e ao Deus e ao dinheiro: Nemo potest duobus dominis servire; non potestis Deo servire et mammonae (Mt 6, 24).

A fortuna e uma consciência em bom estado são duas coisas quase incompatíveis, diz Sêneca: Quase inter se contraria sunt, fortuna et mens bona (In Prov.).

Pobreza do avarento

O avaro vê-se mais privado mesmo do que tem, do que daquilo que não tem, porque não se serve do que possui; encerra sua fortuna em seu cofre e, por conseguinte, não é ele quem desfruta, senão seu cofre; não possui ouro, o ouro é que o possui.

Quem é rico? Diz São Beda, é aquele que nada deseja. Quem é verdadeiramente pobre? O avarento (Sentent.).

Com efeito, aquele que deseja riquezas, não tem bastante; logo, é pobre. Tudo falta ao avarento, diz São Jerônimo, tanto aquilo que tem, como aquilo que não tem (Epist. CIII. Ad Paulin.).

Quanto menos gananciosos sejais, mais donos vós sereis de vossa fortuna, diz São Bernardo. O avarento tem fome de riquezas da terra como um mendigo; o verdadeiro cristão despreza-as como um poderoso: Magis eris dominus rerum tuarum, imo totius mundi, quo minus es cupidus; avarus enim terrena esurit ut mendicus; fidelis, contemnit ut dominus (Serm. in Cant.).

É pobre aquele que experimenta necessidade daquilo que não tem, diz São Gregório, e é rico aquele que, não tendo nada, nada deseja: Ille pauper est, qui eget eo quod non habet, nam et qui non habens hubere non appetit, dives est (Lib. I Moral.). O mesmo santo Doutor, comentando aquelas palavras do avarento do Evangelho (cf. Lc 12, 17): “Que farei? Não sei onde encerrar meus frutos”, exclama: Ó pobreza nascida da saciedade! O espírito do avarento encontra-se oprimido em meio à abundância de suas colheitas: O angustia ex satietate nata de ubertate agri angustiatur animus avari (Ut supra).

Escutai a Sêneca: Muitas coisas faltam ao indigente; porém ao avarento todas: Desunt inopiae multa, avaritiae omnia (Epist. CVIII).

Aquele que não pode levar consigo aquilo que tem, não é rico, diz Santo Ambrósio; porque aquilo que temos de deixar aqui na terra, não nos pertence, é dos outros[9].

Os ricos, diz o Salmista, sofreram a indigência e a fome; os que buscam ao Senhor desfrutarão com abundância de toda a classe de bens[10].

Há um mal que vi sobre a terra, diz Salomão, no Eclesiastes (6, 1-2), e que chega a ser frequente entre os homens: falo do homem a quem Deus deu riquezas e opulência sem conceder-lhe o poder para desfrutar delas; seus bens serão a presa de um estrangeiro. Em verdade, isto é vaidade e muita miséria[11]. Tal é o estado do avarento, muito bem descrito pelo Espírito Santo.

A vontade de acumular empobrece, a inveja devora, a sede de riquezas reduz à miséria. Com efeito, possuímos unicamente aquilo de que nos servimos; mas o avarento não usa aquilo que tem, resultando que nada possui. O dinheiro que oculta na terra não é seu, pois pertence à própria terra. Aquele que pagasse um imposto igual às suas rendas, estaria na indigência; ora, a paixão da avareza impõe um pesado imposto, que afasta daquele a quem domina, não somente a renda, senão também o capital.

Homem que tem afã por enriquecer-se e inveja aos outros, dizem os Provérbios, não percebe que lhe sobrevirá, de repente, a pobreza: Qui destinat ditari, et aliis invidet, ignorat quod egesta superveniet ei (Pr 28, 22).

As riquezas, diz Santo Agostinho, não livram o homem. O avarento sofrerá tanto mais os efeitos da pobreza quando mais se torne aflito por suas riquezas e estas sejam mais numerosas [12].

Medite frequentemente o avarento estas palavras que se leem no livro de Jó (Jó 20, 15): Vomitará as riquezas que devorou; Deus lhas arrancará das entranhas: Divitias, quas devoravit, evomet; et de ventre illius extrahet eas Deus.

Buscai, antes de tudo, o reino de Deus e sua justiça, diz Jesus Cristo, e todas as demais coisas se vos darão além: Quaerite primum regnum Dei et justitiam ejus, et haec omnia adjucientur vobis (Mt 6, 33).

Os apóstolos, apesar de estarem pescando toda a noite, não recolheram nenhum peixe, porque Jesus Cristo não estava com eles; porém, no momento que Pedro lançou suas redes sob as palavras do divino Mestre, recolheu uma grande quantidade de peixes (Lc 5, 5).

Os judeus, diz Santo Agostinho, temeram se ver obrigados a sacrificar a riqueza temporal, confessando a Jesus Cristo; não pensaram na vida eterna; e assim perderam a ambas: Temporalia perdere timuerunt, et vitam aeternam non cogitaverunt; ac sic utrumque amisserunt (In passione).

Ó avarentos, exclamava São Basílio, não sabeis dizer mais que uma coisa: ‘Não tenho, não darei, porque eu também sou pobre’. Sim, pobres sois, em verdade, pois vos faltam todos os bens. Sois pobres de caridade, pobres de bondade, pobres de confiança em Deus, pobres de esperança eterna (Homil. VII, in Divites avaros).

Ó ricos, ignorais quão pobres sois!

A natureza não conhece ricos; ela gerou todos os homens na pobreza; ela os pôs no mundo desnudos, e os encerra em uma mesma mansão: o sepulcro.

Aquele que demonstra, de um modo patente, a pobreza do avarento é o fato de que ele jamais tem o bastante, jamais está saciado… o avarento transforma sua opulência em pobreza. O rico é um hidrópico, diz Santo Agostinho, pois quanto mais tem, mais deseja: Hidropicus est dives, qui, quomagis abundat, eo magis sitit (de Morib.).

Quanto mais se bebe, mais se deseja beber, diz o Poeta. Suas riquezas aumentaram, diz Ovídio, e com elas a sede insaciável da opulência; quanto mais possuem, mais querem possuir:

Creverunt et opes, et opum furiosa cupido;
Et cum possideantplurima, plura petunt.

(Lib. Fastorum)

A avareza é semelhante ao fogo, que cresce em razão do combustível que encontra. O avarento, diz o Eclesiastes, não se saciará nunca do ouro. Aquele que ama as riquezas, não desfrutará delas: Avarus non implebitur pecunia; qui amat divitias, fructum non capiet ex eis (Ecl 5, 9). O universo não é suficiente para o avarento; e, sem embargo, um dia virá em que haverá de ver-se obrigado a contentar-se com um ataúde, e nem sequer poderá possuir a si mesmo, pois os vermes lhe disputarão seu corpo e se assenhorarão dele!

São-nos concedidas riquezas para que usemos delas com sobriedade. Aquele que come mais do que necessita sente náuseas.

Nabot, diz a Escritura, possuía uma vinha próxima do palácio de Acab, rei de Samaria. Acab disse-lhe: Dá-me tua vinha (3 Rs 21, 1-2). Ó rico avarento, exclama Santo Ambrósio, comentando esta passagem, tu não sabes quão pobre sois, tu que dizes ser rico! Quando mais tens, mais cobiças, e ainda que alcances a opulência, parece-te que, todavia, não tens o bastante. O ouro alimenta a avareza, e não a apaga. A cobiça tem inumeráveis graus; quanto mais alcança, mais quer alcançar; quanto mais sobe, de mais alto vem a cair. A Escritura ensina quão faminto está o avarento; manifesta-nos de que modo mendiga vergonhosamente. Acab era rei de Israel e Nabot era um pobre. Acab possuía imensas riquezas; Nabot não tinha mais que um pequeno campo. O pobre Nabot não desejava as riquezas de Acab; e aquele rei desejava a vinha de Nabot. Dá-me tua vinha: O que motiva esta petição sem a necessidade? Dá-me, porque não tenho o que me faz falta. Que baixeza! Que penúria! Eis aqui o avarento.

Não podendo meter ouro em seu coração, o avarento o enche de desejos insaciáveis; porém estes desejos não podem preencher aquele vazio; seria necessário derramar ali o ouro que se vê forçado a deixar em seus cofres.

O avarento não pode saciar-se, porque:

  1. a avareza jamais diz ‘tenho bastante’;
  2. sua sede aumenta;
  3. o dinheiro não alimenta;
  4. a avareza não preenche o coração;
  5. todas as riquezas que ele acumula são vaidade; produzem o vazio e não o preenchem, segundo aquelas palavras do Gênesis: Terra autem erat inanis et vacua: a Terra estava informe e vazia (Gn 1, 2).

O que significam os tesouros que aumentam a fome à medida que se multiplicam, e dão aos que correm atrás delas uma sede tanto mais cruel, quando mais abundantes são? O dinheiro não fecha a garganta da avareza, nem preenche seu ventre, antes o dilata; não refresca, senão que queima. Os avarentos não se contentam com um vaso de água, porque tem sede para beber um rio.

O pobre, diz São João Crisóstomo, não deseja o necessário com tanto ardor como o rico avarento deseja o supérfluo: Pauper non tam desiderato necessaria, quam supérflua dives (Anton. in Meliss. P. I, c. CXXXI).

O avarento parece-se àquelas terras áridas e arenosas que nunca se veem satisfeitas de chuva, senão que, ao contrário, ainda que absorvam torrentes de água, voltam quase imediatamente à sua sequidão primeira, restando sempre ávidas de irrigação. Ainda que o avarento acumule imensas riquezas, sempre tem sede, e quanto mais recebe, mais deseja.

Assim como o as areias que, ainda que sejam regadas frequentemente, não produzem nenhum fruto, o avarento, ainda que esteja acumulado sem cessar, não dá esmolas. Suas riquezas perecem nele e com ele. Isto obrigou São João Crisóstomo a dizer que o avarento suspira com mais ardor pelo dinheiro e tem mais sede de ouro, que o rico epulão de água no inferno; pois este não pedia mais que uma gota, e o avarento quer um oceano (Homil. ad pop.).

O avarento, diz São Bernardo, não se sacia de ouro, como tampouco se saciam nossos pulmões do ar que aspiram: Non plus satiabuntur corda auro, quam aura corpora satientur (In Psalm.).

O fogo jamais diz: ‘Já é bastante’. Ignis vero nunquam dicit: Sufficit (Pr 30, 16). O fogo não se detém senão quando já nada tem que devorar; então, apaga-se: ainda que a avareza devorasse tudo, não se apagaria. Não se alegra com o que tem, diz São Basílio, senão que se atormenta para possuir o que não tem. Parece-se ao cachorro que, comendo um pedaço de pão que lhe arremessam, ocupa- se somente em mirar o pedaço que cai e em preparar-se para o comer. O avarento não goza do que acumulou, está atormentado pelo desejo ardente de possuir mais (Homil. XV).

O avarento, como a morte, nada respeita; como o inferno, deseja tragar tudo; e quisera achar-se sozinho na terra para ser seu único dono, diz São João Crisóstomo: Avarus in omnes, ut mors, insiliens; omnes, ut inferus, deglutiens; quippe qui nullum hominem esse vellet, ut omnia possideret (Homil. XXIX, in Matth.).

Por isso, São Lucas (Lc 16, 23), contando os tormentos do rico avarento no inferno, diz: Levantando seus olhos, quando se achava em seu suplícios, viu de longe a Abraão e a Lázaro: Elevans oculos suos cum esset in tormentis, vidit Abraham et Lazarum. Estava no meio dos tormentos, diz São João Crisóstomo, não tinha livres mais que seus olhos e os empregava em mirar as riquezas dos demais: In tormentis erta, et oculos solos líberos habebat, ut alterius divitias posset aspice (Homil. in c. XVI Luc.).

Que significa, diz Santo Agostinho, esta avidez da paixão de possuir? As bestas ferozes detém-se; somente lançam-se sobre sua presa quando estão famintas; porém, deixam-na livre quando estão saciadas. A fome de riquezas é uma coisa inexplicável; sempre devora, e jamais está saciada. O avarento não teme a Deus, não respeita ao homem, não perdoa a seu pai, não conhece a sua mãe, despreza a seu irmão e faz traição a seu amigo[13].

O dinheiro não contenta o avarento, antes o irrita, diz Sêneca: Pecunia non saciat avarum, sed irritat (Lib. II de Benefic.).

Um filósofo a quem perguntaram por que era o ouro amarelo, respondeu: é pálido porque tem medo; todos lhe fazem armadilha: Prae metu, quia omnes ei insidiantur!

Não se sacia, diz o Eclesiástico, o ouro do avarento com uma porção injusta de bens: não se saciará até que tenha consumido e tenha secado sua vida. O olho maligno do avarento está sempre fixo no mal: não se saciará de pão: encontrar-se-á, sim, famélico e melancólico à mesa (Eclo 14, 9-10).

Onde estão aqueles que entesouravam prata e ouro, nos quais põem os homens a confiança, e em cuja aquisição jamais acabam de saciar-se… exterminados foram, e desceram aos infernos: Qui argentum thesaurizant et aurum in quo confidebant homines et non est fmis adquisitionis eorum qui argentum fabricant et solliciti sunt nec est inventio operum illorum exterminati sunt et ad inferos descenderunt et alii loco eorum exsurrexerunt (Br 3, 18-19).

Avarento, exclama São Basílio, com tua insaciável cobiça, fazes muito mal. O mar tem seus limites, o avarento não os tem. És dono de muitas terras; o que adquirirás depois? Cinco pés de terra[14].

A avareza e um abismo sem fundo, diz Santo Ambrósio (In Nab., c. II).

A avareza é uma carga muito pesada

O ouro é pesado por sua natureza; a avareza faz dele uma carga insuportável que pesa, todavia, mais sobre a alma do que sobre o corpo. Vede, diz Santo Agostinho, aquele homem carregado com o peso da avareza; vede-lhe encurvado sob seu fardo, sufocado e devorado de sede; não trabalha senão para aumentar sua carga. Que esperas, ó avarento? Porque te cansas? O que anelas? Pelo que anseias? Queres satisfazer a paixão que te domina? Podes te atormentar; porém, és incapaz de saciar-te. Não sentes o peso desta carga que te abate até o ponto de fazer-te perder o conhecimento? Não te pesa esta paixão que te desperta e não te permite dormir?[15]

Aqueles que não sois ricos, vós vos achais livres de uma pesada carga, diz São Jerônimo: olhai e segui a Jesus Cristo que se achava despojado de tudo: Si non habes, grandi onere liberatus es: nudum Christum nudus sequere (Ad Rusticum).

Não existe jugo tão pesado como a avareza, diz São Próspero, nem tampouco outro mais difícil de romper? Porque buscais vossa felicidade em outra parte, e não no Criador, que é todo bem? O que poderia bastar àquele a quem Deus não basta? O Real Profeta possuía este Bem infinito e estava possuído Dele, quando dizia: Deus é meu dote e a parte de minha herança (De vita contempla, c. XIII).

A cegueira da avareza

Aquele a quem algemam enquanto dorme não percebe suas cadeias senão quando, ao despertar, quer se levantar; da mesma maneira aqueles que tem riquezas, experimentam por elas uma secreta afeição que lhes liga e não sentem quando chegam a perdê-las ou a renunciar a elas.

O avarento não possui o ouro, é o ouro que possui a ele; é seu servidor e escravo.

O romano Curio recusou o ouro dos Samnitas, dizendo: Prefiro manejar o dinheiro e aos que o tem, do que deixar-me governar por ele (Ita Maxim.).

Os avarentos, diz Sêneca, tem as riquezas da mesma maneira que nós dizemos que temos quentura, enquanto que realmente é ela quem é dona de nós. Deveríamos retificar nossa linguagem e dizer: a quentura o tem, as riquezas o tem, ou melhor, atormentam-no[16].

O fisco apodera-se daquilo que Jesus Cristo não toma, diz Santo Agostinho; o avarento quer colher e é colhido. Enquanto quer, apoderar-se do ouro como de uma presa, e este apodera-se dele: Quae nun capit Christus, rapit fiscus; avarus dum colligit, colligitur, dum vult esse praedo, fitpraeda (In Psalm. CXXIII).

É que o escravo das riquezas, diz São Jerônimo, vela sobre elas como um servidor; ao contrário, aquele que sacode o seu jugo, as distribui como um dono[17].

Se sabeis usar vosso dinheiro para fazer o bem, diz Sêneca, vosso dinheiro é vosso servidor; se não o sabeis usar, é vosso dono: Pecunia, si uti scias, ancilla est; si nescias, domina (In Prov.).

As riquezas servem ao sábio e pertencem-lhe; e ao contrário, comandam ao insensato e são seu dono, Os avarentos estão atados por amor às riquezas; elas encadeiam-no, e seus laços são mais pesados e mais fortes que cadeias de ferro.

Isto faz São João Crisóstomo dizer: Como é possível que o homem que é arrastado pela avareza, vença seus inimigos? As riquezas são uma cadeia pesada para aqueles que não sabem gastá-las; são um tirano cruel é inumano que impõem a suas vítimas tudo o que pode contribuir à sua ruína. Porém, se quisessem, poderiam romper seu jugo e sacudir sua tirania. Como? Fazendo abundantes esmolas. Desde que alguém se ache frente a frente com Pluto[18], como com um ladrão, em um lugar afastado e solitário, não pode senão receber muito mal e ver-se vencido por ele; porém, quando se lhe põe em presença da multidão, o dinheiro é o que perde as suas forças, é vencido e tem que sofrer as cadeias que lhe impõem os pobres, auxiliando- se uns aos outros. (Homil. XIII in I Epist. ad Cor.).

É preciso mandar nas riquezas e não servi-las, diz Sêneca: Pecunia imperare oportet, non servire (Lib. de Remed.).

O avarento, diz admiravelmente São João Crisóstomo, é o depositário e não o dono de suas riquezas; é seu escravo, e não seu possuidor. Com efeito, daria antes um de seus membros que uma moeda de ouro de sua gaveta; abstém-se de gastar seus bens, como se pertencessem a outro. E, com efeito, não lhe pertencem. Como haveria de olhar como seu, um tesouro do qual não permitiria extrair nem um óbolo para dá-lo, nem para servir-se dele em uma necessidade oprimente e por mais terrível que fosse a penúria a que se visse reduzido[19].

O avarento não tira nenhuma vantagem de suas riquezas, acrescenta aquele grande Doutor; aparenta não possuir nada. Se trabalha, é para seus herdeiros e com perda e grande perigo para sua alma. Seus suores e suas vigílias não tem utilidade para ele; sua própria morte, causada pelas privações familiares, não é de nenhuma utilidade aos avarentos (Homil. II ad pop.).

Não é vergonhoso que aquele que tem tantas riquezas não seja o dono de si mesmo? diz Diógenes[20].

Santo Agostinho manifesta que a avareza exige coisas muito mais penosas que as que Deus manda. A avareza, diz o Senhor, impõe obrigações difíceis, e Eu deveres fáceis. Seu jugo é pesado, e o meu é agradável; seu peso é insuportável, o meu é leve. Não vos deixeis dominar pela avareza. A avareza manda-vos atravessar os mares, e lhe obedeceis; ela vos manda expor-vos às tempestades e aos naufrágios, e o fazeis; quanto a Mim, somente exijo que deis aos pobres, que vão chamar à vossa porta, aquilo que podeis lhes dar. E sendo bastante intrépidos para vos aventurar no oceano, não tendes valor para fazer uma boa ação que está à vossa mão? A avareza manda, e vos pondes sob suas ordens (In Psalm. CXXVIII). Obedeceis à avareza, que, longe de vos dar algum bem, enche-vos de males; e recusais obedecer a Deus, que vos cumularia de bens e vos preservaria de todo o mal!

O avarento deixa-se prender pelo ouro, como o pássaro pelas redes, diz São Gregório Nazianzeno[21]. Quando o ouro deixa ouvir sua voz, diz o mesmo Doutor, toda a súplica parece fria (Ut supra).

Santo Agostinho diz, com muita precisão: antes de ganhar algo, o avarento perde-se a si mesmo; antes de ter algo, converte-se em escravo[22]. Aquele que sabe valer-se de seu ouro, diz em outra passagem, é dono; porém, aquele que não sabe se servir dele, tem por déspota o ouro. Sede donos do ouro e não seus escravos; porque Deus, que fez o ouro, criou-vos superiores a esse metal: fez o ouro para uso vosso, e fez-vos à sua imagem e somente para Ele. Ambicionai o que está sobre vós, e pisai o que vos está debaixo (In Psalm. CXXII).

O ouro é um tirano oculto, diz São Gregório Nazianzeno[23].

Pereceram todos aqueles que estavam nadando na opulência, diz o profeta Sofonias: Disperierunt omnes involuti argento (Sf 1, 11).

O avarento, diz Santo Ambrósio, está sempre entre redes, sempre entre cadeias, jamais está livre, porque está sempre em pecado (De Cain.).

É indispensável, diz Santo Agostinho, que aquele que não suspira mais que pelas coisas da terra, distancie-se do céu. A avareza une-nos à terra, à lama, pois o ouro não é outra coisa, e nem sequer nos deixa dormir em paz[24].

Cegueira da avareza

Não vos inquieteis pelo que haveis de comer, pelo concernente à vossa vida, nem como deveis vestir, pelo concernente a vosso corpo, diz Jesus Cristo em São Mateus. Não vale mais a vida que o alimento e o corpo mais que a veste? Ne solliciti sitis animae vestrae quid manducetis neque corpori vestro quid induamini nonne animaplus est quam oesca et corpus plus est quam vestimentum? (Mt 6, 25). Mas o avarento esquece-se inteiramente de sua vida e de sua alma, e não se ocupa mais que de seu tesouro. Que cegueira! Insensatos, que não vos dedicais mais que a acumular riquezas, esta mesma noite morrereis!

O avarento está às trevas. Era noite, diz o Evangelho, quando Judas saiu para ir a vender seu Mestre por avareza: Erat autem nox (Jo 18, 30).

Homens cegos, que passais vossa vida em ir atrás das riquezas; até ignorais, muitas vezes, por quem trabalhas, por quem vos cansais! Quae autemparasti, cujus erunt? (Lc 12, 20). Vós trabalhais pelos outros e nunca para vós; o que digo, trabalhais contra vós mesmos!

Buscais vossa felicidade na opulência, diz São Bernardo, porém, Deus não nos expulsou do paraíso terreno para dar-nos outro aqui (Serm. in Cant.). É muita cegueira querer falar de felicidade onde ela jamais se encontrou e onde é impossível achá-la.

O ouro que buscamos no fundo das entranhas da terra, diz Santo Agostinho, conservamo-lo por causa das trevas no coração. Ir atrás dele é próprio dos condenados; amá-lo produz um Judas; e sem embargo, o avarento o prefere a Jesus Cristo[25].

Pluto, deus das riquezas, é cego de nascimento e faz cegos aos que o servem, como já temos dito.

Que preferis?, diz Santo Agostinho: amar as coisas temporais e passar com o tempo, ou não as amar e viver eternamente com Deus. O Senhor dá-vos mais que ouro, quer se vos entregar a Si mesmo. Porém, se vos fixais aos bens da terra, ainda que sejam criaturas suas, e O desprezais, não será adúltero vosso amor? Os bens que Deus vos prodigaliza são um convite para que O ameis. Se a Ele preferis a seus presentes, vós pareceis a esposa que prefere a aliança de ouro que lhe presenteou seu esposo a seu mesmo esposo, afeto que certamente é adúltero (Serm. XXIX de verb. Domini).

Por amor às riquezas transitórias, diz São Cirilo, o avarento sacrifica as riquezas celestiais e imperecedouras. Tem olhos e não vê; abandona os bens verdadeiros pelos falsos, o que dura pelo que passa, o céu pela terra; troca tesouros infinitos pela pobreza, a glória pela miséria, o certo pelo duvidoso, o bem pelo mal, a alegria real pela aflição. Recolhe por fora ninharias e empobrece-se interiormente; aflige-se por bagatelas que desaparecem, possui a terra e é escravo do inferno. Devora, e seu estômago que não pode degustar o alimento que toma, ama o que mata, adquire para perder, conserva preciosamente o que lhe causará um arrependimento perdurável, carrega sobre os ombros o que lhe fará cair com mais rapidez no abismo eterno. (Homil. VII).

Há, todavia, outra dolorosíssima miséria que vi debaixo do sol: as riquezas entesouradas para a ruína de seu dono, diz o Eclesiastes. Pois ele as vê desaparecer com terrível aflição de sua parte. Profunda miséria! Assim como veio o avarento, assim ir-se-á. E que lucro terá com tanto trabalho feito? Todos os dias de sua vida, comeu às escuras em meio de muitos cuidados, com mesquinhez e melancolia: Cunctis diebus vitae suae comedit in tenebris et in curis multis et in aerumna atque tristitia (Ecl 5, 16). Essas trevas indicam as inquietudes do avarento, a vida fastidiosa, triste e amarga.

O avarento vive nas trevas, isto é, na ignorância, nos cuidados, levando consigo a mancha e a pena do pecado que não cessa de cometer. Sempre é noite para ele. A grande prova de sua cegueira é que ele quer viver na pobreza, a fim de morrer na abundância.

Qualquer um que acredite poder conhecer a verdade vivendo criminalmente engana-se, diz Santo Agostinho. Porém, viver criminalmente é amar o mundo e o que contém; é amar o que passa, olhá-lo como algo de grande valor, desejá-lo, trabalhar para adquiri-lo, estar pleno de alegria quando se chega a ser rico, temer as perdas, e afligir-se quando os bens que se possuem desaparecem (Lib. de Morib.).

Que loucura é esta, que cegueira a das almas, exclama ainda Santo Agostinho,: abandonar a vida, desejar a morte, adquirir ouro e perder o céu! Quae est ista, rogo, animarum insânia, amittere vitam, appetere mortem; adquirere aurum, perdere coelum (Lib de Morib.).

Vendo Demóstenes que levavam para sepultar um avarento, exclamou:

“Não soube viver” (Maxim.)

São tão cegos os avarentos que não notam quanto culpáveis são; olham para a avareza como uma virtude e a chamam ordem. Esta é a razão porque nunca se convertem. As vezes, resiste alguém a outras inclinações; domam-se as demais paixões; porém, jamais se triunfa da avareza; antes, pelo contrário, sempre cresce à medida que nos aproximamos da morte, a qual, em um minuto, nos despoja de tudo quanto havíamos acumulado.

A vida do avarento principia nas trevas, corre em meio das trevas e passa das trevas temporais às eternas trevas do inferno.

O nada de suas riquezas

Se me mostrais vossas mansões, diz São João Crisóstomo, ainda que sejam palácios resplandecestes de ouro e pedras preciosas, não estabelecerei nenhuma diferença entres elas e um ninho de andorinha; tudo é barro, quando chega o inverno, tudo cai (Homil.).

Eia, pois, ó ricos, chorai, levantai o grito em vista das desditas que vos sobrevirão: Agite nunc, divites, plorate ululantes in miseriis vestris, quae adveniente vobis (Tg 5, 1). Podres estão vossos bens, e vossas roupas foram roídas pela traça: Divitiae vestrae putrefacta sunt, et vestimenta vestra átineis comestra sunt (Tg 5, 2). O vosso ouro e a vossa prata mofaram; e a ferrugem destes metais dá testemunho contra vós e devorará vossas carnes como um fogo. Vós entesourastes ira para os últimos dias. Aurum, et argentum vestrum aeruginavit; et aerugo eorum testemonium vobis erit, et manducabit carnes vestras sicut ignis Thesaurizatis vobis iram in novissimis diebus (Tg 5, 3).

Em verdade, como uma sombra passa o homem, disse o Rei Profeta, e, por isso, afana-se e agita-se em vão, e não sabe para quem legará tudo aquilo: In imagine pertransit home, sed et frustra conturbatur: thesaurizat et ignorat cui congregabit ea (Sl 38, 7).

Aquele que confia em sua opulência, cairá, diz-se no livro dos Provérbios: Qui confidit in divitiis suis, corruet (Prov. XI, 28). As riquezas são para o avarento um ídolo, a felicidade, a força, todo o seu bem, toda a sua esperança e toda a sua alegria; porém, até isso é fútil, enganoso e vão. Desgraçado, exclama o profeta Habacuc, desgraçado daquele que multiplica seus bens, que não são seus! Até quando amontoará contra si mesmo elementos de barro? Vae ei qui multiplicat non sua! Usquequo et aggravat contra sedensum lutum? (Hab. II, 6).

As riquezas chamam-se montão de barro:

  1. porque são vis;
  2. porque mancham a alma, cegam e arrastam ao abismo.

As riquezas são um barro negro que mancha a alma e a transforma em um atoleiro de iniquidade.

O avaro leva as riquezas em suas mãos e em suas vestimentas; seu coração, porém, está vazio…

A morte respeita a opulência? Abstém-se de ferir aquele que possui ouro?

As riquezas são ciladas para a alma, são o anzol da morte, um alimento de pecado.

Quão vil e desprezível é o avarento

Aquele que é o maior do mundo, diz São Cipriano, nada deseja, nada pede aqui na terra: Nihil appetere jam, nihil desiderare saeculo potest, qui saeculo major est (Serm. in Orat. Dominic.). O que são as riquezas? Nada mais são que um pouco de terra.

Jamais se mostra mais efeminado um coração que quando deseja vencer pela avareza, diz São João Crisóstomo: Nihil mulierosius quam vinci aba avaritia (Homil. XXV in Matth.). O avarento é uma toupeira e vive como uma toupeira.

Não há odor de chaga tão nauseabunda e que Deus deteste em tão elevado grau como aquele odor que exala das feridas causadas pela avareza, diz São Pedro Damião: o avarento, acumulando os produtos de um dinheiro sórdido, transforma seus cofres em uma esterqueira onde amontoa a corrupção[26].

O avarento sacrifica sua reputação e deixa perecer sua glória, diz São Pedro Crisólogo: Sepelitur famae, perit gloriae (Serm. III).

Engordou-se esse povo tão amado de Deus, diz o Deuteronômio, e vendo-se opulento, rebelou-se contra Ele. Já engrossado, engordado e abundante em tudo, abandonou a Deus, seu Criador, e se distanciou de Deus, seu salvador: Incrassatus est dilectus et recalcitravit incrassatus inpinguatus dilatatus dereliquit Deum factorem suum et recessit a Deo salutari suo (Dt 32, 15)[27].

Quando um homem chega a perder a Deus, já perdeu sua consciência, a reputação, a honra, o apreço das pessoas de bem, a caridade e seu próprio coração… Não seria o mais vil dos seres? Tal é a sorte do avarento.

O avarento é desconfiado

Lança ao seio do Senhor tuas ansiedades e Ele te sustentará, diz o Salmista. Jacta super Dominum curam tuam; et ipse te enutriet (Sl 54, 23). O Senhor é meu Pastor, nada me faltará; Ele mesmo me colocou em meio de seus pastos: Dominus regit me, er nihil mihi deerit; in loco pascuae ibi me collocavit (Sl 22, 1-2). Mas o avarento sempre desconfia de Deus, da Providência dos homens, e daqueles que o rodeiam.

O avarento é invejoso

O avarento tem inveja de tudo: tem inveja dos homens, da terra, etc. A inveja levou à perdição os anjos maus; perdeu a Adão e a Eva… Olhai a que excessos conduziu Caim… aos irmãos de José, etc…

A inveja, diz São Bernardo, é verme roedor da alma; cansa os sentidos, queima as entranhas, afeta o espírito, rói o coração. O invejoso quer o que não lhe pertence e não recolhe mais do que pecados (Lib. de Consid.).

A prosperidade dos demais atormenta o avarento…

O avarento é ingrato

Todo o universo dá graças a Deus, menos o avarento. Esquece-se de todos os benefícios de Deus e dos favores dos homens… Murmura da Providência, jamais esta contente; porém, a ingratidão, diz São Bernardo, é a inimiga da alma, destrói os méritos, afugenta as virtudes, murcha os benefícios (Lib. de Consid.).

O avarento é traidor

Qual a causa da perdição de Judas? A avareza… este traidor estava embriagado de avareza, diz São Jerônimo: Ebrius fuit proditor avaritia (Comment.). Possuía-a de tal maneira, que tremia temendo que Jesus escapasse dos que haviam vindo a prender-Lhe; assim sentia para não perder os trinta dinheiros que, todavia, não havia ainda recebido. Aquele a quem eu beijar, havia lhes dado por senha, é Ele. Segurai-o e atai-o fortemente: Ipse est, tenete eum (Mt 26, 48).

O ouro é um criado que nos faz traição.

O avarento venderia a Deus. Olhai a Judas. Que quereis dar-me… e eu vo-lO entregarei? Disse aos príncipes dos sacerdotes: Quid vultis mihi dare et ego vobis eum tradam? (Mt 26, 15).

O avarento faz traição a sua consciência, aos homens, a seus amigos, a sua família, nada é sagrado para ele.

A queda de Judas manifesta-nos que grande mal é a avareza, e a que excessos pode nos levar. Foi causa da traição deste Apóstolo, de sua hipocrisia, de seu desespero, de seu suicídio, de sua eterna condenação, e da morte de Jesus Cristo…

Erros do avarento e perigos da avareza

O avarento se engana:

  1. prometendo-se viver muitos anos;
  2. não se ocupando mais que das coisas da terra;
  3. levando uma vida animal.

Daí vem que São Basílio, dirigindo-se ao avarento, diz-lhe: Se tivesses uma alma de animal imundo, obrarias de outra maneira? (Homil. in Evang.).

O dinheiro, diz São Francisco de Assis, é o instrumento do demônio, é uma víbora cujo veneno mata (S. Bonav., in ejus vitae).

Injustiças do avarento

O avarento mancha o dinheiro e o perde, porque o oculta e o deixa mofar. O pão que encerrais sob chaves, diz São Basílio, pertence àquele que tem fome; estas vestes que guardais é daquele que está nu; este calçado que deixais a traça roer é o calçado do pobre; o dinheiro que escondes é o bem dos indigentes[28].

Buscais celeiros, avarentos? Já os tendes preparados: são os estômagos dos pobres, diz em outra parte o São Basílio: Habes horea, scilicet, ventres pauperum (Super haec verba Evang.: Quid faciam?).

É um erro, diz São João Crisóstomo, crer que as coisas da terra são nossas e pertencem-nos em propriedade. Nada nos pertence, tudo é de Deus, que é Quem no-­los dá[29].

O rico morreu, diz o Evangelho, e foi sepultado no inferno: Mortuus est autem dives et sepultus est in inferno (Lc 16, 22). Foi sepultado no inferno por causa de sua avareza, de sua dureza, de seu desprezo a Lázaro, de sua culpável injustiça para com aquele pobre carente.

Com efeito, diz-nos São João Crisóstomo, é um roubo não dar quando se tem: Siquidem rapina est non impertiri de tuis facultatibus (In Evang.). Não é porque fosse rico, acrescenta São João Crisóstomo, que está atormentado, senão porque não teve compaixão de Lázaro (Ut supra). Não fazendo esmola, acrescenta, todavia, São João Crisóstomo, como há de pertencer-vos vossas riquezas? Não digais, portanto, eu não gasto mais do que o que é meu; vossos bens não são vossos; pertencem aos pobres[30].

O avarento, diz o mesmo Padre, é o depositário e não o dono de suas riquezas; é seu escravo e não seu possuidor; priva-se delas como de uma coisa que não lhe pertence. De fato, aquelas riquezas não são suas (Homil. XVI, in Matth,).

Diz o livro dos Reis (21, 4) que Acab, vítima da cólera e da tristeza, absteve-se de comer porque Nabot resistiu à sua cobiça. Não comeu seu pão, diz Santo Ambrósio, porque buscava o pão de outro; pois, os ricos avarentos comem antes o pão dos outros que o seu; vivem do roubo e das rapinas[31].

O ouro e a prata me pertencem, diz o Senhor dos Exércitos: Meum est argentum et meum est aurum, dicit Dominus exercituum (Ag 2, 9). Santo Agostinho parte deste ponto para increpar aos avarentos. Se o ouro e a prata são de Deus, diz, quando Deus os mandar aos pobres, manda dar o que é seu; e quando fazeis esmola, a fazeis com fundos que Ele vos prescreve distribuir, e não com o que vos pertence[32]. Deus, acrescenta o mesmo santo Doutor, dá ouro aos homens caritativos para que exerçam a caridade e obedeçam à voz da humanidade. E o dá aos avarentos para castigar sua cobiça. Se quereis vos enriquecer, perdereis inevitavelmente a justiça; se, ao contrário, quereis ser justos, sacrificai a riqueza[33].

Eis aqui de que modo São Basílio faz falar o avaro, e como responde-lhe: A quem injurio, retendo e conservando o que me pertence? O que é, dizei-me, que vos pertence? Não saístes nu do seio de vossa mãe? E não voltareis nu ao seio da terra? Quem vos deu vossos bens? Se dizeis que foi a casualidade, sois um ímpio que desconhece Aquele que vos criou, e não dais graças Àquele que vos cumulou de presentes. Se confessais que Deus vo-los deu, por qual razão, dizei-me, vós os recebestes? O que é ser avarento, eu vos pergunto, senão conservar tão somente para si o que pertence a todos? Ó riquezas imensas encerradas nessas palavras:

“Vinde, benditos de meu Pai, vinde possuir o reino que vos foi preparado desde o princípio do mundo! Tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber, etc… Ao contrario, que horrível pobreza e calamidade a que indica aquela outra sentença: “Retirai-vos de mim, malditos, ide para o fogo eterno!… Tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me oferecestes um copo de água, etc…”. Porém, dirá o avarento: Mas eu fiz uso dos meus bens! Deus faz uso dos seus… “Retirai-vos de mim, maldito!” Desgraçados, que respondereis a vosso Juiz? (Serm. in his verbis Evang.: Destruam horrea).

O avarento não tem entranhas

O avarento chama de necessário ao supérfluo: não tem caridade em seu coração.

Como é possível que um homem que tem bens deste mundo, diz o Apóstolo São João, e que, vendo seu irmão passar necessidade, fecha-lhe o coração e suas entranhas; como é possível que tenha amor a Deus? Qui habuerit substantiam mundi et viderit fratrem suum necesse habere et clauserit viscera sua ab eo quomodo caritas Dei manet in eo (1 Jo 3, 17).

O avarento vive de egoísmo, não tem compaixão, nem caridade, nem entranhas. É uma espécie de tigre doméstico.

O avarento é cruel

A avareza faz cruéis e atrozes a todos os que a servem, diz São João Crisóstomo: Avaritia amnes qui ipsi serviunt, crudeles efficit atque atroces (Homil. ad pop.).

Aquele que não tem compaixão, recusa até seus parentes, dizem os Provérbios: Qui crudelis est, etiam propínquos abjicit (Pr 11, 17). O avarento é cruel para sua alma, para seu corpo, para seus pais, para o próximo e para Deus. O avarento se parece com a aranha, esgota suas entranhas para produzir ouro, tece uma tela inútil e que não serve para nada mais, senão apanhar bagatelas.

A avareza é uma enfermidade grave que nos faz cegos, surdos, e piores que as bestas ferozes, diz São João Crisóstomo: Gravis morbus est avaritia; oculos caecat, et auris obstruit, et gravis bellua saeviores redut (Homil. ad pop.).

A avareza é um crime

Não há coisa mais detestável que um avarento, diz o Eclesiástico; não há coisa mais iníqua que aquele que cobiça o dinheiro, porque vende até sua alma: Avaro nihil est scelestius,nihil est iniquius quam amare pecuniam, hic enim et animam suam venalem habet (Eclo 10, 9-10).

Escutai a Silviano: Ninguém é mais culpável que o avarento, diz a Escritura, e isto é verdade. Que coisa há pior que fazer dos bens presentes o princípio dos males futuros, e empregar em comprar a morte e a eterna reprovação as riquezas que Deus nos deu para procurarmos uma felicidade eterna?

Ninguém é mais culpável que o avarento, porque:

  1. a avareza é uma injúria grave feita a Deus, a Quem o avarento antepõe o ouro;
  2. É um prejuízo feito ao Estado, que aquele vício enche de usuras, de roubos, de fraudes, de processos, de sedições, de mortes, de ódios, etc…
  3. Condena ao próprio avarento, manchando-o, corrompendo-o e inspirando-lhe tal amor ao ouro que o conduz ao inferno;
  4. É um crime feito aos pobres;
  5. Violenta até o mesmo ouro, porque seu destino e, se assim posso me expressar, sua felicidade, consiste em satisfazer as necessidades comuns dos homens… para isso Deus criou esse metal. O avarento se opõe a que o ouro chegue a seu fim; o encerra e o aniquila. Porém, aquilo que nega aos homens, o concede ao inferno, que lhe compra a sua alma;
  6. A avareza insulta todos os elementos, os céus e a terra…
  7. Insulta todas as leis, todas as virtudes, despreza-as e pisoteia-as.

Nada mais iníquo que amar o dinheiro, acrescenta o Eclesiástico: Nihil est iniquius quam amare pecuniam (Eclo 10, 10).

O avarento é um déspota

Não são os ricos (devorados de avareza) quem vos oprimem com seu poder, diz o Apóstolo São Tiago, e quem vos arrastam ante os tribunais? Nonne divites per potentiam opprimunt vos et ipsi trahunt vos ad iudicia (Tg 2, 6). As riquezas, com efeito, extraviam o espírito do avarento que se tornou opulento, até ao ponto de fazer-lhe crer que tudo lhe está permitido, que deve mandar, que é preciso que os pobre lhe obedeçam, e que sejam seus servidores e escravos, podendo valer-se impunemente deles para acrescentar seu fausto e suas riquezas. O rico avarento devora ao pobre como os peixes grandes devoram aos pequenos; e se algum se atreve a resistir-lhe, enfurece-se e não lhe perdoa. Tudo atribui a si, e nada aos demais. Crê-se superior aos que o rodeiam e imagina que ninguém há de resistir-lhe. O asno montês é vitima do leão no deserto; assim também os pobres são vítimas dos ricos (avarentos), diz o Eclesiástico: Venatio leonis onager in eremo; sic etpascua divitum suntpauperes (Eclo 13, 23).

A avareza corrompe o coração

Havendo Alexandre Magno enviado cem talentos a Fócio que era sumamente pobre, perguntou este:

“— Porque me envia o rei esta quantidade?”

“— Porque Alexandre não conhece outra pessoa honrada e boa como vós, entre os atenienses”.

“— Então, respondeu Fócio, que ele me deixe como sou”.

E recusou os cem talentos (Elian. Lib XI).

Com efeito, o pobre ou o homem de mediana fortuna que é honrado corrompe-se frequentemente quando tem a desgraça de enriquecer-se. A avareza estraga a alma, o corpo, o indivíduo, a família, a sociedade…

O avarento é idólatra

Eis que eu me fiz rico, estava dizendo Efraim, minha fortuna é meu ídolo: Dives factus sum, inveni idolum mihi (Os 12, 8).

Sabei, diz São Paulo aos Efésios, que nenhum avarento, cujo vício vem a ser uma idolatria, será herdeiro do reino de Jesus Cristo e de Deus. Hoc scitote intellegentes quod omnis… avarus quod est idolorum servitus, non habet hereditatem in regno Christi et Dei (Ef 5, 5). Os judeus adoraram o bezerro de ouro os avarentos os imitam.

Por que é idólatra em maior grau o avarento do que os escravos dos outros vícios?

Eis aqui as razões:

  1. os avarentos fixam toda a esperança de sua vida nas riquezas; olham para elas, por conseguinte, como a seu deus;
  2. os idólatras adoram estátuas de ouro e de prata; faz o avarento outra coisa?;
  3. a avareza é insaciável; e
  4. ocupa inteiramente o homem, e isto sempre;

O idólatra adora um vão simulacro, enquanto o avarento se prostra ante seu ouro. O idólatra serve a um ídolo, enquanto o avarento cuida de seu tesouro. O idólatra rodela de respeito o objeto de seu culto, já o avarento vela ao lado de seu cofre com uma vigilância extraordinária. O idólatra põe sua esperança em seu ídolo, e o avarento, na cifra de seu dinheiro. Aquele não quereria mutilar a seu ídolo, enquanto este teme ver diminuir seu tesouro.

Os avarentos amam e adoram as riquezas, porque pensam e não agem senão para procurar outras, conservá-las e aumentá-las; consagram-lhes seu corpo, seu coração, sua alma, seus cuidados, seus suores, seus trabalhos, seu sono, suas vigílias e sua vida. Obedecem em tudo à sua paixão; põem nela sua felicidade e seu último fim. Por ela, desprezam o culto de Deus, violam seus preceitos e negam sua providência.

O rei Nabucodonosor, diz Daniel, fez uma estátua de ouro. O povo achava-se diante dela, enquanto os arautos gritavam: Prostrai-vos, adorai a estátua de ouro; e o povo se prostrou, e adorou-a, etc. (Dn 3, 1). Assim obra o avarento. O bezerro de ouro é o Deus deste mundo.

De sua prata e de seu ouro forjaram-se ídolos para sua perdição, diz o Senhor, por meio do profeta Oseias: Argentum suum et aurum suum fecerunt sibi idola ut interirent (Os 8, 4).

O avarento é inimigo mortal de si mesmo

O avarento não é bom para ninguém; é péssimo para si mesmo, diz Sêneca: In nullum avarus bonus est, in sepessimus (Lib de Remed.).

Ninguém, diz São Cirilo, perde tanto como aquele que se perde. Que possuis, quando a avareza reina sobre vós? Petrifica o vosso coração (Homil. VI).

  1. O avarento se proíbe a si mesmo de gastar suas riquezas, pelo que é perseguidor e verdugo de si mesmo: condena-se à fome, à sede, ao frio, ao calor, aos suor, à nudez, a todas as privações e à morte. Jamais nenhum anacoreta se impôs para ir ao céu maiores mortificações que as que o avaro se impõe para ir ao inferno. Se fizesse por Deus os sacrifícios que faz pelo demônio, estaria pleno de méritos e maduro para o céu. Sem embargo, não somente não adquire nenhum título às recompensas divinas, senão que se cobre de pecados e de maldições;
  2. o avarento se propõe reunir um caudal para si, e não obstante, acumula para os demais, para pessoas a quem recusaria uma esmola;
  3. é devorado pelo temor de perder sua riquezas e de vê-las passar a mãos estranhas. Não deixa de sentir o pungente de alguma espinha: dir-se-ia que se vale das ervas daninhas arrancadas de seus campos para construir para si assentos e cama.

O avarento atormenta-se com contínuas provações; sofre até de ver desaparecer o pão enegrecido que seus criados comem.

Guardando seu ouro, o avarento perde a si mesmo; e, mesmo que esteja rodeado de riquezas que lhe pertençam, vê reinar a extrema pobreza em seu interior. Aflige-se quando se vê forçado a dar, e não dá mais do que contra seu coração, perdendo assim seus dons e o mérito da boa graça.

O cofre do avarento está cheio, e sua consciência vazia, diz Santo Agostinho: Avarus plenam habet arcam, sed inanem conscieniam (Serm. XLIV).

O avarento mata seu corpo, sua alma, sua reputação, perde o tempo e a eternidade…

O avarento é detestado, desprezado e maldito

Quem esconde os grãos será maldito dos povos, dizem os Provérbios; mas a benção descerá sobre a cabeça daqueles que os colocam no mercado (Pr 11, 26). O avarento introduz a perturbação em sua casa, acrescentam os Provérbios: Conturbat domum suam qui sectatur avaritiam (Pr 15, 27).

Introduz a perturbação em sua casa:

  1. obrigando a seus bois, a seus criados, a seus filhos, a sua esposa, a trabalharem mais do que permitem suas forças, e, algumas vezes, até em domingos e dias santos; paga-lhes, privando-lhes do alimento e das vestimentas de que necessitam; irrita-os tratando-lhes duramente, falando- lhes em tom azedo, com cólera, desumanidade e insolência. Obriga-lhes, deste modo, a murmurar contra ele, a detestá-lo, a desprezá-lo, a aborrecê-lo, a maldizê-lo, a disputar entre eles, a tratar de descarregar uns sobre os outros o peso terrível que ele lhes impõe; e
  2. o avarento costuma enriquecer-se pela fraude, a usura e a injustiça; o que faz com que seja execrado e condenado.

Aquele que se apressa a enriquecer-se, não conservará a inocência, diz a Escritura: Qui festinat ditari, non erit innocens (Pr 28, 20), senão que será tratado por todos como um culpável e um ladrão. Deus, os homens e até os mesmos demônios amaldiçoam o avarento, homem sem piedade e sem entranhas. Deus o despreza, aborrecem-no os homens, e que farão os demônios deste ser inútil?

O avarento é o comum inimigo do gênero humano, diz São João Crisóstomo: Avarus, communis generis humanis hostis (Homil. LXXXI in Matth.).

Para quem pode ser bom aquele que para si mesmo é mesquinho? diz o Eclesiástico: Qui sibi nequam est, cui alii bonus erit? (Eclo 16, 5). Ninguém é pior do que aquele que tem inveja de si mesmo, acrescenta este livro: Qui sibi invidet, nihil est illo nequius (Eclo 16, 6): tal é o castigo do avarento.

Depois de haver vencido a Craso, os Partas encontraram o corpo daquele general avarento no campo de batalha, e por decisão despejaram ouro derretido na boca, dizendo: tu estava sedento de ouro, aplaca agora a tua sede: Aurum sitiisti, aurum bibe (Ita Sabel. Ennead. IX, lib. IX).

O pássaro associa-se com os pássaros, as reses, com o rebanho; os peixes, com os peixes; somente o avarento se priva de toda sociedade e permanece solitário.

Detestado e condenado durante sua vida, o avarento o é também na hora da morte. O fim de sua existência alegra aos vivos. Não se vê correr uma lágrima sobre sua tumba, não se ouve nem um suspiro… primeiro falam dele com desprezo, e, logo, fazem cair sua memória em um esquecimento eterno. Até seu sepulcro resta sem honras, porque não se ocupou dele por avareza, nem enquanto teve saúde, nem na ora de sua morte, nem de viva voz, nem por meio de testamento; e seus herdeiros, que não pensam mais do que em suas riquezas, descuidam-no. Este é o justo castigo que Deus reserva ao avarento. Por haver sepultado seu dinheiro, vê-se privado de um sepulcro honroso. Todos o detestam, e negam-lhe uma tumba: querem ignorar até o local que deve ocupar, a fim de que não pensem mais nele. Sobre a tumba do homem caritativo veem-se escritas as seguintes palavras: Beatus qui intelligit super egenum et pauperem; in die mala liberabit eum Dominus: Feliz o homem que cuida dos pobres; Deus o salvará no mal dia (Sl 41, 4). Sobre a do avarento poder-se-ia gravar a inscrição ditada por São Pedro: Sus lota in volutabro luti (2 Pd 2, 22b)[34].

Desgraças do avarento

O ouro que o avarento deseja, e que quer guardar cuidadosamente, diz Santo Agostinho, é objeto de grandes trabalhos, é o perigo daqueles que o possuem, o diminuição das virtudes, um mal dono, um servidor pérfido (Homil. XI).

Escutai, avarentos, diz São João Crisóstomo, ouvi atentamente o que Judas sofreu: perdeu seu dinheiro, fez-se culpável de um crime horrível e condenou sua alma. A avareza costuma tratar assim a seus criados. Perdeu seu dinheiro, nada gozou nesta vida, nem gozará tampouco na futura. Perdeu tudo de uma só vez, e desprezado por aqueles mesmos a quem vendeu Jesus Cristo, enforcou-se de desespero (In Psalm.). A avareza, diz São Paulo, é a raiz de todos os males, pela qual arrastados, alguns se desviaram da fé, e se sujeitaram eles mesmos a muitas penas e aflições (1 Tm 6, 10). Os avarentos não retrocedem antes os remorsos, a amargura das perdas temporais, as inquietudes, a usura, a fraude, a maldição de Deus e dos homens, e finalmente precipitam-se no inferno.

Não ameis, pois, as riquezas, diz São Bernardo; amá-las, mancha; possui-las, inquieta; perdê-las é um suplício (Conv. Ad Cler., c. XII).

O amor às riquezas, diz São João Crisóstomo, é um veneno, uma enfermidade incurável, um fogo inextinguível, um tirano. As riquezas sã ingratas, perecedouras, homicidas, cruéis, implacáveis; são bestas ferozes; é um precipício aberto, um estreito perigoso e pleno de tempestades, um mar agitado por mil ventos desencadeados; produzem inimizades irreconciliáveis. É um inimigo terrível: fere aos que o amam, despoja aos que se lhe entregam, aprisiona a inteligência, destrói a fé, faz traição ao afeto, fere a caridade, turba o repouso; mata a inocência, ensina o roubo, ordena a mentira, e organiza as depravações (Homil. LXIV in Johann).

O papa Inocêncio IV disse, um dia, a Santo Tomás de Aquino, diante do qual estava contando dinheiro:

“- Já o vês, Tomás, a Igreja não se vê hoje obrigada a dizer, como em seu nascimento: ‘Não tenho ouro nem prata’ (cf. At.).

Santo Tomás respondeu, com modéstia:

“- É verdade, Santo Padre, porém, tampouco pode dizer hoje a Igreja aos cochos, como em outro tempo: ‘Levanta-te e anda’ (Surge et ambula) ” (Hist. Eccl.).

Vede isso: sendo pecadores, diz o Salmista, abundam de bens no século e amontoam riquezas. O certo é que tu, ó Senhor, lhes destes uma prosperidade enganosa: derrubaste-os quando mais eles estavam se elevando. E como foram reduzidos à total desolação! De repente, feneceram! Pereceram deste modo pela sua maldade. Como o sonho de alguém ao despertar, assim, ó Senhor, reduzirás a nada, em tua cidade, a imagem deles[35].

Salva-me agora, diz também o Salmista, – e livra-me das garras destes estrangeiros, de cuja boca não sai senão vaidade e mentira, e cujas mãos estão plenas de iniquidade: os filhos dos quais são como novos rebentos na flor de sua idade; – suas filhas compostas e engalanadas por todos os lados, como ídolos de um templo: lotadas estão suas despensas, e transbordando de toda a sorte de frutos: – fecundas suas ovelhas, saem a apascentar em numerosos rebanhos: tem gordas e exuberantes suas vacas: – não se veem brechas nem ruínas em suas muralhas e cercados: nem se ouvem gritos de pranto em suas praças. Feliz chamarão ao povo que goza destas coisas. Mas eu digo: Feliz aquele povo que tem o Senhor por seu Deus[36] (Sl 143, 11-15).

Ai de vós, exclama o profeta Isaías, que juntais casa com casa, agregais propriedades a propriedades, até que não haja mais terra! Vae qui coniungitis domum ad domum et agrum agro copulatis usque ad terminum loci (Is 5, 8).

Desgraçados dos ricos! exclama Jesus Cristo: Vae vobis divitibus! (Lc 6, 24).

Por mais doce que seja a água dos rios, torna-se amarga ao entrar no oceano: tal é a imagem das riquezas deste mundo. Os que as possuem, alegram-se com elas durante o curso da vida; porém, quando chegam ao golfo da morte, onde todos vão parar, não encontram senão amarguras e decepções…

A avareza é um manancial de todos os pecados e de todos os males

As riquezas, diz Santo Ambrósio, são uma terrível ocasião de pecado; incham, ensoberbecem e fazem esquecer o Criador (Lib de Cain et Abel).

“A raiz de todos os males é a avareza, diz São Paulo (1 Tm 6, 10). Fugi, pois, ó homem de Deus, fugi da avareza” (1 Tm 11, 11).

Os que querem ser ricos, acrescenta aquele grande Apóstolo, caem na tentação e no laço do demônio, e em vários desejos inúteis e perniciosos que mergulham aos homens no abismo da morte e da perdição: Nam qui volunt divites fieri incidunt in temptationem et laqueum et desideria multa inutilia et nociva quae mergunt homines in interitum etperditionem (1 Tm 6, 9).

A avareza, diz Santo Ambrósio, não retrocede diante de nenhum pecado: ela gera a todos; porque, para saciar seus desejos, o que é impossível, recorre aos malefícios, faz-se culpável de homicídio, de impurezas e de todos os crimes (Lib. de Caim et Abel).

Os costumes dos Romanos corromperam-se pela avareza, diz Juvenal. Desde que a pobreza desapareceu de Roma, abundam nela todos os crimes e todas as corrupções[37].

A avareza zomba de todos os direitos. As riquezas são uma ocasião de vaidade, de gula, de luxúria, de deboche, de preguiça e de todos os excessos.

Diz-se que Naamã, general dos exércitos do rei da Síria, era um homem rico, porém leproso: Naaman, princeps militiae regis Syriae, erat vir dives, sed leprosus (IV Reg. V, 1). A lepra do pecado é inseparável da avareza; ou melhor, a avareza é uma lepra que cobre todo o corpo do homem.

A avareza gera a incredulidade: não teme a Deus, nem seu terrível juízo, nem o inferno. Os avarentos desprezam a religião, violam os sagrados preceitos de Deus e da Igreja; e, como um crime atrai outro, sucede que o rico avarento, crescendo em orgulho, em ambição, em injustiça e em toda a classe de desordens, cai, por fim, na heresia, no ateísmo e na idolatria, como sucedeu a Salomão.

O desejo das riquezas, diz São João Crisóstomo, inspira o perjúrio, o roubo, as rapinas, a inveja, o assassinato, o ódio entre irmãos, as guerras, a hipocrisia e as adulações[38].

O que são as riquezas da terra, diz São Cirilo, senão uma excitação das paixões, a fogueira aonde de acende a cobiça e a presa da morte? Engenhosamente

cruel, a avareza atormenta as que a servem por meio de todos os vícios; corrompe- os, turba-lhes o juízo, mancha seu corpo, destrói as virtudes, e nada escapa da destruição que produz (Homil. X).

Em seu discurso contra Verres, diz muito bem Cícero: Nada há tão santo que não possa ser violado, nada tão bem defendido que não possa ser conquistado com o dinheiro[39].

Laércio dizia que a avareza é a metrópole de todos os vícios. Os vícios, dizia, que a avareza produz são: a traição, a fraude, as decepções, o perjúrio, a inquietude, a violência, a desumanidade, a dureza de coração, etc.

Os que se acham agitados pelo desejo das riquezas veem-se consumidos pelo sopro das inspirações de Satanás, diz Santo Isidoro[40].

Não há salvação para o avarento

O Filho do Homem, diz São Jerônimo, não tinha onde reclinar sua cabeça, e vós nadais em abundância! Aspirais à herança do século: não podeis ser coerdeiros de Jesus Cristo: porque o discípulo do Homem-Deus não tem mais do que a seu Mestre como toda riqueza (Comment in Matth.).

Não podeis servir a Deus e ao dinheiro, diz Jesus Cristo: Non potesti Deo servire et mammonae (Mt 6, 24). Mas, aquele que não serve a Deus, não se pode salvar…

Jesus Cristo despreza as riquezas

Jesus Cristo, diz Santo Agostinho, desprezou todos os bens deste mundo, a fim de manifestar que, com efeito, eram desprezíveis. Sofreu toda classe de provas durante sua vida mortal, a fim de que não se buscasse felicidade nas riquezas, nem se temessem às provas nem às cruzes. Aquele que tudo possui, fez-se pobre; Aquele que alimenta a todos, teve fome; Aquele que é a fonte da vida, teve sede (De vera Relig., c. XV).

Jesus Cristo, disse Salviano, foi pobre, e vós acumulais riquezas! Jesus Cristo sofreu fome, e vós vos submergis nas delícias! Jesus Cristo não teve água para beber, e vós vos entregais aos excessos da embriaguez (Lib. IV. Ad Eccle.).

De todos os bens deste mundo, Jesus Cristo não quis mais que um presépio e uma cruz. Não condena esta sua conduta a estima que damos às riquezas, e, sobretudo, a avareza?

A avareza é um sinal de reprovação

São Gregório ensina que os eleitos buscam o céu e os réprobos as riquezas da terra (Lib. Moral.). Jamais se viu que um verdadeiro santo se esforçara em chegar à opulência, nem tampouco a estimara.

O avarento não busca mais que os bens da terra; pouco importam-lhe os eternos…

Porém, diz São Paulo, o homem somente pode colher o que semeou: Quae seminaverit homo, haec et metet (Gl 6, 8).

Condenação da avareza

Jesus Cristo prova a culpabilidade do avarento com sete razões:

  1. porque a alma é mais que o corpo…;
  2. apresentando-nos o exemplo dos pássaros a quem Deus alimenta;
  3. porque toda nossa solicitude é inútil sem Deus;
  4. recordando-nos que os lírios e as ervas do campos não fiam e, sem embargo, Deus as veste e as adorna;
  5. porque buscar os bens da terra é imitar aos pagãos;
  6. porque Deus conhece nossas necessidades;
  7. porque a cada dia bastam seus trabalhos.

Assim condena Deus uma grande parte dos homens que trabalham muito e sem Deus: é trabalho perdido.

Pereça teu dinheiro contigo, diz São Pedro ao avarento Simão: Pecunia tua tecum sit in perditionem (At 8, 20).

Castigos que a avareza atrai

Sigberto e Barônio contam um terrível castigo da cólera de Deus contra a avareza. No ano de 605 d.C., toda a provisão de alimentos de um navio que pertencia a um avarento, foram trocadas em pedras, por haver o piloto respondido a um pobre, que lhe pedia esmola, que o navio não continha mais que pedras. O pobre, desesperado, expressou o desejo de que assim fosse de fato.

Ateneo (Deipnosoph., lib. III), cita três castigos impostos providencialmente à avareza.

Eis aqui o primeiro:

A Grécia não produz feijão; mas durante dois anos, e sem que o tivessem semeado, apareceram em grande número nas plantações do Epiro. Deram muitíssimos grãos e serviram de alimento aos muitos pobres do país. Porém, Alexandre, filho de Pirro, proibiu que se tocasse na colheita: as plantações secaram e os feijões desapareceram para sempre.

Segundo exemplo, tirado também da história de Epiro:

Falava-se que naquele país, havia um córrego cuja água aliviava maravilhosamente aos enfermos. Porém, os oficiais de Antígono impuseram, por avareza, uma contribuição aos que dela bebessem, a água perdeu sua virtude, e acabou por desaparecer totalmente.

Terceiro exemplo:

Aconteceu que em Trôade permitiu-se a todos recolher, em Tragusa, o sal de que necessitavam; essa substância jamais faltou. Porém, tendo-a Lisímaco sujeitado a um imposto, ela desapareceu. Então, Lisímaco, surpreso, eliminou o imposto, e logo voltou a aparecer o sal.

Assim, a avareza põe impedimento aos dons de Deus e seca o manancial de suas maravilhosas liberalidades; porque Deus, que derrama com abundância seus benefícios sobre os homens, não permite que avarentos os entesourem e os restrinja.

Tendo um avarento qualificado aos pobres de “ratões”, em 970, foi devorado por uma multidão desses animais. Testemunhas dignas de crédito afirmaram esse rasgo da vingança divina.

Por causa da miséria dos indigentes e do gemido dos pobres, me levantarei, diz o Senhor, para defendê-los: Propter miseriam inopum, et gemitum pauperum nunc exurgam, dicit Dominus (Sl 11, 6).

Deus castiga o avarento impedindo-lhe de gastar seus bens, removendo-os, etc.

Giezi ficou coberto de lepra por causa de sua avareza (IV Reg. V).

Os avarentos afastam os bons sentimentos de seu coração, são insensatos, cegos e surdos; mais direi: morreram para a vida espiritual. Eis alguns dos castigos terríveis impostos à sua paixão!

Pela malvada avareza de meu povo, diz o Senhor pela boca de Isaías, eu me irritei e o chicoteei; afastei-lhe o rosto e me indignei, e ele se foi vagando atrás das ânsias de seu coração: Propter iniquitatem avaritiae ejus iratus sum, et percussi eum; abscondi a te faciem meam, et indignatus sum, et abiit vagus in via cordis sui (LVII, 17).

Os avarentos são exterminados, e outros homens se apoderam de seus tesouros, diz o profeta Baruc (Br 3, 19).

Queixais-vos da aridez e da miséria, diz São Cipriano, como se a aridez ocasionasse uma miséria mais cruel que a avareza. Queixais-vos de que o céu afastou as nuvens, vós que fechais vossos celeiros aos pobres. Vossa avareza é que produz todos esse males. Vossas colheitas lançam-se a perder no seio da terra, em castigo daquelas que retendes injustamente e deixais perder nos vossos celeiros. Não se pode duvidar de que a avareza é frequentemente a causa das desgraças públicas e privadas: Ita sane, et hodie saepe immisericordia est causa miseriarum privatarum etpublicarum (Epist.).

Recorde-se o avarento daquelas palavras de Jó (Jó 20, 15): O avarento vomitará as riquezas que devorou; Deus arrancá-las-á de suas entranhas.

Diz-se proverbialmente: Bens mal adquiridos a ninguém enriqueceram. Judas quer ganhar dinheiro, e sem sabê-lo, prepara a corda com que há de se enforcar, antecipa sua morte e ganha o inferno.

Os judeus temem, por avareza, comprometer a sua nação; renegam Jesus Cristo e fazem-no condenar; perdem não somente a graça da salvação, senão também a sua nação, e ainda perdem-se a si mesmos.

Condenação do avarento

No dia do Juízo, Jesus Cristo dirá aos avarentos que estarão à sua esquerda: Afastai-vos de mim, malditos, ide para o fogo eterno preparado para o demônio e seus anjos; porque tive como e não me destes de comer, etc. (Mt 25, 41-42). E estes irão para o suplício eterno: Ibunt hi in supplicium aeternum (Mt 25, 46).

Os avarentos são condenados ao fogo preparado para o demônio, porque imitaram ao demônio, que é cruel e não tem compaixão. Se aquele que deu uma esmola é castigado severamente, diz São Gregório, que castigo não se imporá ao que retém os bens alheios. Si tanta poena multabitur aqui non dedisse convincitur quanta poena feriendus est, qui redarguetur abstulise aliena! (Pastor).

Morreu o rico avarento e foi sepultado no inferno, diz o Evangelho: Mortus est dives, et sepultus est in inferno (Lc 16, 22). Vemos aí o que produzem o ouro e as riquezas, diz São João Crisóstomo (Serm. in Lazar.).

Com vossa avareza, tendes-vos entesourado ira para os últimos dias, diz o Apóstolo São Tiago: Thesaurizastis vobis iram in novissimis diebus (Tg 5, 3).

São Gregório de Tours diz que no inferno não acha o avarento, para apagar sua sede, mais que ouro derretido mesclado com enxofre (De avarit.).

No inferno, os avarentos estarão atormentados por uma fome cruel, uma sede devoradora, um pobreza incomparável e uma nudez completa.

Lançada será pela rua a prata deles, diz o profeta Ezequiel, e entre o lixo, estará o seu ouro. Pois nem sua prata, nem seu ouro, poderá salvá-los naquele dia de furor do Senhor, nem saciar sua alma, nem encher seus ventres: pois que lhes serviu de tropeço em sua maldade: Argentum eorum foras projicietur, et aurum eorum in sterquilinium eri: argentum eorum, et aurum eorum non valebit liberare eos in die furoris Domini (Ez 7, 19).

Não o esqueçam os avarentos: nem suas riquezas, nem seus filhos, nem sua esposa, nem seus netos, nem seus pais, a quem eles quiseram enriquecer apesar de sua consciência e ao preço de sua alma, não os poderão livrar da cólera de Deus, da morte eterna e do Inferno.

Não, não, não achareis misericórdia, avarentos cruéis, diz são Basílio. Não abristes vossa casa aos desgraçados: sereis excluídos do reino dos Céus. Vós vos negastes a dar pão: não recebereis a vida eterna. Non aperuisti domum tuam, a regno Dei excluderis. Non dedistipanem, non vitam recipies aeternam (Homil.).

O que os pagãos pensaram da avareza

O tebano Crates lançou todas as suas riquezas ao mar, a fim de poder dedicar-se melhor à Filosofia. Prefiro perder-vos, disse, a que vós me percais: Malo te perdere, quam tu me perdas (Anton. in Meliss.).

Segundo o juízo de Demócrito, a avareza é mais miserável que a extrema pobreza (Maxim., serm. XII). Com efeito, quanto maior seja o desejo de possuir, mais sentimos nossa indigência.

Diógenes comparava os avarentos aos hidrópicos. Não é vergonhoso, dizia, que o avarento traga tantos bens e não saiba possuir a si mesmo? Na non pudet eum tam multa habere, cum non habeat seipsum? (In Anaximen.).

Sócrates dizia que tanto valia solicitar um benefício a um avarento, como pedir uma conversação a um morto: Nec a mortuo petedum colloquium, nee ab avaro beneficium (De Avarit.).

Escutai que palavras dirige Platão ao avarento: Desgraçados, não estudeis o modo de aumentar vossa fortuna, senão o de diminuir a sede de ouro que vos consome: O improbe, ne possessioni augendae studeas, sed minuendae cupiditati (De Legib.).

Aristóteles diz que os avarentos obram como se jamais devessem morrer, porque nada dão, e tudo o conservam (Ethic).

Licurgo afastou de Esparta as riquezas e a avareza. Daí que Esparta obteve o primeiro posto na Grécia durante seiscentos anos, ora pela equidade de suas leis, ora por sua glória[41]. Mais tarde, o oráculo predisse ao rei Teopompo que o amor ao dinheiro haveria de perder aos Lacedemonios, e assim sucedeu (Plutarco).

Apostrofando a Roma, Yugurta exclamava: Ó cidade venal, prontamente desaparecerias, se encontrásseis comprador! O urbem venalem et mox perituram si emptorem invenerit!

O rei Afonso qualificava a seus ministros avarentos de harpias[42] de sua corte (Em sua biografia).

A fortuna e uma alma sã nunca vão juntas, disse Sêneca: Quase inter se contraria sunt fortuna et mens bona (Prov.).

Por que se nos dão as riquezas

Bons são o ouro e a prata, diz Santo Agostinho; não porque nos fazem bons, senão porque nos servem para fazer o bem: Aurum et argentum bona; non quod te faciant bonum, sed unde facias bonum (Sentent.).

Empreguemos nossas riquezas, diz São Pedro Damião, em ganhar almas e em adquirir virtudes: Nostrae divitiae sint lucra animarum, et talenta virtutum (Epist.).

Boas são as riquezas, diz Santo Ambrósio, se abris vossos celeiros, a fim de que sejais o pão dos pobres, a vida dos indigentes, a vista dos cegos, o pai dos órfãos: Bona sunt, si aperias horre, ut sis panis pauperum, vita egentium, oculus coecorum, orbatorum infantiumpater (Lib. de Nab.).

É preciso imitar ao soldado

Esse preceito recomendo-te, Timóteo, diz São Paulo, e é segundo as pregações feitas antes sobre ti, assim cumpras ou realizes teu dever, militando como bom soldado de Cristo, mantendo a fé e a boa consciência: Hoc praeceptum comendo tibi, ut milites bonam militiam etc. (1 Tm 1, 18).

Escutai a São Basílio, onde está Jesus Cristo, nosso Rei? No céu. É ali, ó soldado de Cristo, para aonde deveis vos dirigir: esquecei tudo o que existe nesta terra. O soldado não constrói casas; não compra campos; não se entrega ao comércio; nem trabalha por lucro; o soldado tem vestes de seu rei; levanta sua tenta em praças públicas; somente a necessidade o obriga a comer; a água é sua bebida; não dorme senão quando a natureza o exige. Está de marcha quase sempre; passa em vigília muitas noites; está acostumado a sofrer o calor e o frio; tem paciência; entra em terríveis e perigosos combates contra seus inimigos; às vezes, morre, porém sua morte é gloriosa, digna de elogio e de honra. Tal deve ser vossa vida, soldado de Jesus Cristo. Sustente-se o vosso valor com o pensamento dos bens eternos. Imponde-vos a lei de ser como se não possuísseis nem morada nem bens na terra. Rompei os laços da avareza, e desprendei-vos com todo cuidado. Que a afeição devida a vossa esposa não vos aprisione, nem tampouco a solicitude que vos inspiram vossos filhos; imitai o Esposo celestial; afugentai aos inimigos que frequentemente vos atacam, afastai-os de vosso coração; não lhes deixeis nenhum domínio sobre vós; destruí as emboscadas que se tramam contra a fé de Jesus Cristo, emboscadas que tem por fim fazer-vos prevaricador e traidor (Praef. in Ascet., Serm. I).

E certamente é um grande tesouro a piedade, mas somente para aquele que se contenta com o que basta para viver, diz São Paulo: Est autem quaestus magnus, pietas cum sufficientia (1 Tm 6, 6). Porque nada trouxemos a este mundo; e é certo que tampouco nada poderemos levar: nihil enim intulimus in hunc mundo, haud dubium quod nec auferre quid possumus (Ibid. 6, 7). Tendo, pois, o que comer e com que nos cobrir, contentemo-nos com isto: Habentes autem alimenta, et quibus tegamur, his contenti simus (Ibid. 6, 8).

É preciso fugir da avareza

Fazei que a avareza nem mesmo seja nomeada entre vós, como corresponde a quem Deus fez santos, diz o grande Apóstolo aos Efésios: Ominis avaritia, nec nominetur in vobis, sicut decet sanctos (Ef 5, 3).

Fazei que vossa vida esteja isenta de avareza, diz aos Hebreus, contentai-vos com o que tendes, posto que o mesmo Deus disse: Não vos perderei de vista, nem vos abandonarei: Sint mores sine avaritia contenti praesentibus; Deus enim dixit: Non te deseram, neque derelinquam (Hb 13, 5).

Senhor, diz Salomão nos Provérbios, não me deis pobreza nem riqueza, concedei-me somente o necessário para viver: Mendicitatem et divitias ne dederis mihi; tribue tantum victui neo necessária (Pr 30, 8). Não seja que tendo de sobra, veja-me tentado a renegar a Vós, e diga pleno de arrogância: Quem é o Senhor? Ou melhor, que premido pela necessidade, ponha-me a roubar e a perjurar o nome de meu Deus (Pr 30, 9).

Não deixemos o ouro falar, diz São Gregório Nazianzeno; porque, se ele levanta a voz, nenhuma súplica tem força: Auro loquente, iners est omnis ratio (In Distich). Não é escutada a voz do pobre nem sua súplica quando o ouro fala.

Não esqueçamos jamais as seguintes palavras de Jó: Nu sai do ventre de minha mãe, e nu voltarei para lá: Nudus egressus sum de útero matris meae, et nudus revertae illuc (Jó 1, 21). Orígenes, em seus Comentários sobre o I Livro de Jó, desenvolve admiravelmente a passagem que acabamos de citar. O demônio, diz, não poderá se rir de mim. Nu sai do ventre de minha mãe, nu voltarei a terra. Nada eu tinha quando vim, nada peço para ir-me. Nada trouxe ao nascer, nada quero levar comigo ao morrer. Ir-me-ei nu, sem dinheiro, porém, também sem pecados; sem riquezas, porém, também sem iniquidades; sem fortuna, porém também sem injustiças, porque a injustiça acompanha, muitas vezes, a fortuna. Partirei sem ser seguido pela malignidade, nem pela cólera, nem pelo orgulho, nem pela avareza; ver-me-ei livre de todas essas coisas. Não sou do número daqueles de quem se diz: porque não tinham vestes, foram cobertos com as chamas do inferno. Ir-me-ei livre de todo pecado, porém dono de todo bem, revestido de justiça, rodeado de santidade, adornado de caridade, coroado de misericórdia e de boas obras. São felizes, serão felizes, ó glorioso Jó, aqueles que vos tenham imitado. Todos aqueles que, a vosso exemplo, possam dizer: Nu sai do seio de minha mãe, e nu ir-me-ei ao seio da terra. Porém, desgraçados daqueles que, tendo vindo nus a este mundo, ir- se-ão carregados de iniquidades e inumeráveis injustiças! Serão entregues ao castigo e à cólera, ao justo juízo de Deus, do qual ninguém pode apelar.

Fugi do ouro, diz São Cirilo (Apologet., lib. III), desprezai as riquezas, apagai as chamas da avareza, porque as riquezas não enriquecem a alma; antes, empobrecem-na, fazem-na cativa do vício. Amai e buscai tão somente a virtude, este bem sólido e verdadeiro. Então, todos os vossos desejos ficarão satisfeitos.

Avareza espiritual

A avareza espiritual consiste em não se entregar bastante ao ensino, à instrução, à oração, a socorrer ao próximo. Aquele que tem tibieza e é covarde no serviço de Deus, é avarento dos dons celestiais que recebeu. Emprega-os pouco e com dificuldade, e acrimônia comunica-os aos demais. Deus irrita-se contra semelhante avarento, frequentemente retira-lhe os dons de que antes lhe havia cumulado: permite que se perca e se abandone a todos os desejos desregrados.


Referências

[1] Avaritia non in solo argento, des in omnibus rebus, quae immoderate cumpiuntur, intelligenda est, ubicumque omnino plus vult quisque, quam sal est (In Psalm.).

[2]  Quae stultitia illie relinquere unde exiturus es, et non illue praemittere quo iturus es! Thesaurisa ubi patriam habes (Homil. XLVni).

[3] Non mostra sunt, que non possumus auferre nobiscum. Sola virtus eomes est defunctorum (Lib. de Nab.).

[4] Qui voluntas divites fieri, incidant in tentationem et in laqueum diaboli, et desideria multa inutiliza, et nociva, quae mergunt homines in interitum et perdictionem. Radiz enim ominum malorum est cupiditas, quam quidam appetentes, erraverunt a fide, et inseruerunt se doloribus multis (I Tim. VI, 9-10).

[5] O homo qui laboras amando aaritiam, cum labore amantur quod amas; sine labore amatur Deus. avaritia jussura est labores, pericula, tristitias, tribulationes; et obtemperatus es. Quo fine? Ut habeas quo impleas arcam, et perdas securitatem. Securior eras antequam haberes, quam eum habere caepisti: ecce quid tibi jussit avaritia. Impleati domu, timentur latrones; acquisivisti aurum, perdidisti somnum. Deus sine labere, cum amatur, acquiritur et tenetur (Tract. IX in Johann.).

[6] Característica de quem tem propensão a ou costume de roubar, rapinagem (Nota do tradutor).

[7] Avaritia rotis et ipsa vehitur quatuor vitiorum, quae sunt pusilanimitas, inhumanitas, contemptos Dei, mortis oblívio. Porro jumenta trahentia, tenacitas et rapacitas; et his unus suruga ambobus praesidet, habendi ardor. Sola siquidem avaritia, quoniam conducere plures non patitur, uno contenta servitore. Ipse vero injuncti operis promptus admodum atque infatigabilis executor, urgentia sane, jumentis trahentibus flagris utitur acerrimis, libidine acquirendi et metu amittendi (In Psalm.)

[8] Outra tradução: O avarento não consegue servir a Deus.

[9] Nemo est dives, quod habet, secum suferre non potest; quod enim hic relinquitur, non mostram est, sed alienum. (Serm. IV)

[10]        Divites eguerunt et esurierunt; inquirentes autem Dominum, non minuentur omni bono (Psalm. XXXIII, 11).

[11]        Est malum, quod vidi sub sole et quidem frequens apud homines: vir cui dedit Deus divitias et substantiam et honorem et nihil deest animae eius ex omnibus quae desiderat nec tribuit ei potestatem Deus ut comedat ex eo sed homo extraneus vorabit illud hoc vanitas et magna miseria est (Ecl. VI, 1-2).

[12] Divitiae non auferant egestaem; tanto enim quisque ardebit egestate, quanto magis eas diligens, majores habuerit (Sermo XV, de Divers., c. XV).

[13]  Quae est ista aviditas concupiscentiae, cum ipse bellum habebant modum? Tunc enim rapiunt, quando esuriunt; parcunt vero praedae, cum senserint satietatem. Inexplicabilis est sola divitiam avaritia. Semper rapit, et nunquam satiatur; nec timet Deum, nem hominem reveretur, non parcit patri, non matrem agnoscit, non fratri obtemperat, nec amico fidem servat (Serm. XXV de verbis Domini).

[14]            Mare términos habe, avarus non. Habes terrae, quis ergo post haec? Telluris três tantum cubiti exspectant (Homil.).

[15]  Videte hominem oneratum sarcina avaritiae: videte illum sub hac sarcina sedentem, anhelantem, sitientem, et laboriando sarcinam addentem. Quid exspectas, o avare, emplecten ônus tuum et sarcinam sub humeris tuis? Quid exspectas? Quid laboras? Quid imbias? Quid concupiscis? Nempe satiare avaritiam. Illa te potest premere, tu illam non potes satiare. An forte non est gravis? Usque adeo sub hac sarcina sensu metiam perdidisti. Non est gravia avaritia? Quere ergo te de somno ecitat? Quare te etiam dormire non sinit? (Homil. XXII).

[16] Sic divitias habent quomodo habere dicimur fehrim, eum illa habeat. E contrario dicere debemos: Febris illum tenet; eodem modo quo dicendum est: divitiae illum tenente, imo et torquent (Epist. CXIX).

[17] Qui divitiarum servus est, divitias custodit ut servus; qui autem servitutis discussit jugum distribuit eas ut dominus (Lib. I super Matth.)

[18]        Pluto: deus mitológico das riquezas.

[19]  Avarus custos es, non dominus pecuniarum; servus, non possessor; facilus enim alicui de propriis carnibus, quam ex defosso auro communicaret: a suis tamquam ab alienis abstinet; quippe sunt aliens. Quae enim aliis erogarenumquam pateretur, neque in necessariis impendere, etiam infinitas sustineret poenas, quomodo haec esse própria putaret? (Homil. II ad pop.).

[20]            An padet eum tam multa habere, qui seipsum non habet? (In Anaximen.).

[21] Ut aves laqueo, sic homines auro capiuntur (In Distich.).

[22]  Avarus antequem pecuniam lucretur, seipsum perdit; priusquam aliquid capiat, capitur (In Psalm. XXXVIII).

[23]            Aurum est ocucultus tyrannus (In Distich.).

[24] Necessarium est qui terrenis rebus inhiat, a caelestibus dedcidat. Nos luto et terrae affligens neque enim aliud aurum est, in noctu quidem vel minimum respirare non sinist (In Psalm.)

[25] Aurum quod per tenebras quaeritur, per tenebras custoditur. Aurum cujus inquisitivo damnatus habet, cujus amor Judam facit; aurum apud avarum praefertur Christo (Serm. XXVII de verbis Apost.)

[26]  Nulla sane putredo vulneris in Dei naribus intolerabilius foetet, quam stercus avaritiae. Et cupidus quisque dum sordentia pecuniae, quaestus accumulat, vertens exedram in latrinam, quase molem stercoris concervat (Epist. II, lib. II).

[27] Tradução da Bíblia de Jerusalém: “Jacó comeu e saciou-se, Jesurun engordou e deu coices, (ficaste gordo, robusto, corpulento) rejeitou o Deus que o fizera, desprezou sua Rocha salvadora ”.

[28] Esurientes est panis illa quem tu apud te detinex nudi, illa quam in cella tibi servas; discalccati, calceus ille qui domui tuae putredine corrumpitur; egeni, argentum quod humi defossum habes (Homil. in ditescentes Avarus).

[29] Erronea opinio est possideri a nobis ut dominis res hujus vitae, et ut bona propria . nil enim est nostrum, sed omnia sunt datoris Dei (In Evang.)

[30] Anima tua non est tua; quomodo pecunium erunt tuae? Noli ergo dicere: rem meum consumo; non tua est, sed aliena (In Moral., Homil. X).

[31] Non manducavit panem suum, quoniam quaerebat alienum. Etenim divites magis alienum panem quam suum manducant, qui rapta vivunt, et rapinis sumptum exercent suum (c. VI).

[32]  Si Dei est argentum et aurum, ergo um jubert ut ea aliis communices, de re sua jubet; et cum facis eleemosynam, facis de re ejus qui jubet ut facias, non de re tus (Ut supra).

[33] Si miseris manum ad divitias, necesse est ut amittas justitiam, si misaeris manum ad justitiam perante divitiae (Ut supra).

A porca lavada tornou a revolver-se na lama ” – Nota do tradutor.

[35] Ecce ipsi peccatores et abundantes in saeculo obtinuerunt divitias (Psalm. LXXII, 12). Verumtamen propter dolos posuisti eis dejecisti eos dum adlevarentur. Quomodo facti sunt in desolationem, subito defecerunt: perierunt propter iniquitatem suam. Velut somnium surgentium, Domine, in civitate tua imaginem ipsorum ad nihilum rediges (Psalm. LXXII, 18-20).

[36] Eis o texto ao qual o autor faz referência: “Da espada cruel, salva-me! Livra-me da mão dos estrangeiros: sua boca fala mentiras e sua direita é direita de perjúrio. Sejam nossos filhos como plantas, crescidos desde a adolescência; nossas filhas sejam colunas talhadas, imagem de um palácio; nossos celeiros cheios, transbordantes de frutos de toda espécie; nossos rebanhos se multipliquem aos milhares e miríades, em nossos campos; nossos bois estejam carregados; não haja brecha ou fuga, nem grito de alarme em nossas praças. Feliz o povo em que assim acontece, feliz o povo cujo Deus é Senhor! [Sl 144(143), 10b-15] (Nota do tradutor).

[37] Romanorum mores corrupti sunt per avaritiam.

Nullum crimen abest, faciousque libidinis, ex quo

Paupertas Romana perit.

[38] Desiderium divitiarum est perjurium , rapina, invidia, caedes, odium fratrum, bellum, simulatio, adulatio (Homil. ad pop.)

[39] Nihil est tam sanctum quod non violari; nihil tam munitum quod non expugnari pecunis possit (Cont. Verr.).

[40] Qui Desiderio cupiditatis aestuant, flatu diabolicae inspirationis uruntur (Lib II, epist. CCXXIII).

[41]        Este juízo é de um pagão. Não poderia ser de um cristão? (Nota do tradutor para a língua espanhola).

[42] “Na mitologia grega, monstro com cabeça de mulher, corpo de pássaro e garras muito afiadas”, pronto a tudo devorar. (Dicionário Houaiss). (Nota do tradutor).