Criação, Tesouros de Cornélio à Lápide

In princípio creavit Deus coelum et terram: No princípio, Deus criou o céu e a terra (Gn 1, 1).

No princípio: isto significa que Deus criou todas as coisas em seu Filho e por seu Filho, que é a ideia da Sabedoria do Pai. Isto é o que ensina o Apóstolo São Paulo em sua Epístola aos Colossenses. É por Jesus Cristo, diz o Apóstolo, que tudo foi criado no céu e na terra, tanto as coisas visíveis como as invisíveis; não somente os Tronos, senão também as Dominações, os Principados e as Potestades: tudo foi criado por Ele e para Ele: In ipso condita sunt universa in coelis, et in terra, visibilia e invisibilia, sive Trhoni, sive Dominationes, sive Pincipatus, sive Potestates: omnia per ipsum, et in ipso creata sunt (Col 1, 16). Ele existe antes de todas as coisas, e todas elas subsistem por Ele, e por ele são conservadas: Et ipse est ante omnes, et omnia in ipso constant (Col 1, 17).

In principio: No princípio, não da eternidade, mas do tempo. O tempo é a medida do movimento impresso ao Céu e aos astros. A criatura principiou-se com o tempo, e o tempo com a criatura: ambos são de Deus, diz Santo Agostinho (Sentent. CCLXXX).

No princípio, isto é, antes de todas as coisas; de modo que Deus não criou nada antes que o Céu e a terra fossem criados. Os Anjos não foram criados antes que o mundo físico, senão ao mesmo tempo. Assim pensa o Concílio de Latrão.

No princípio, isto é, no poder do Deus da eternidade.

Criar é produzir seres por meio de um ato da vontade. Não pode esta faculdade atribuir-se a Deus de uma maneira mais enérgica e mais sublime do que o fez Moisés ao registrar – Disse Deus: Faça-se a luz: Dixitque Deus: Fiat lux; e a luz foi feita: Et facta est lux (Gn 1, 3).

Assim é como aquele Patriarca representa-nos sucessivamente todas as produções de Deus; não Lhe custam mais que uma palavra, um só ato de vontade, um pensamento.

Deus falou, e tudo se fez; mandou, e tudo foi criado, diz o Real Profeta: Dixit, et facta sunt; mandavit, et creata sunt (Sl 148, 5). E Judite diz: Obedeçam-Lhe todas as criaturas, pois foram feitas com uma única palavra Sua: enviou seu Espírito, e foram criadas: nenhuma pode resistir à Sua voz (Jd 16, 17).

O Dogma da Criação dá-nos a verdadeira noção dos atributos de Deus:

1.° Deus é o ser necessário e existente por si mesmo, posto que é a Causa Primeira sem a qual nenhuma coisa haveria saído do nada;

2.° É eterno: nada existia antes Dele, e preside a todos os tempos;

3.° É onipotente. Quem pode resistir ao que Ele opera unicamente com sua vontade?;

4.° É infinito. Nada Lhe pode dar limites. Qual causa ou que espaço poderia limitar-Lhe antes da criação?; e

5.° É um espírito puro, posto que tirou do nada[1] a matéria, e age com inteligência. Para conhecer tudo o que é, tudo o que será, tudo o que poderá vir a ser, Ele não necessita mais que conhecer a extensão de seu poder; não Lhe deve custar mais reger o mundo do que Lhe custou o criá-lo.

A diferença que há entre o Criador e o artesão[2] consiste em que o Primeiro não necessita de nada além de seu próprio poder para produzir seres, e o segundo, ao contrário, tem necessidade de empregar uma matéria para fazer uma obra.

Se a matéria fosse incriada seria independente de Deus; Deus não teria nenhum poder sobre ela, nem a poderia dominar.

A eternidade é um atributo que não pertence senão a Deus. O que é eterno… é o próprio Deus; e a matéria não é Deus!

Deus criou. Este termo criar significa duas coisas na Escritura:

1.° tirar do nada; e

2.° dar forma[3] a alguma coisa.


(Veja-se também o capítulo I e II do Gênesis; Veja-se também o livro de Jó).

Referências:

[1] Ex nihil (Nota do tradutor).

[2] Ou fabricante, construtor, inventor (Idem).

[3] Dar essência, vida, alma, sentido e /ou razão de ser, além de dar os elementos materiais e contornos físicos de cada coisa (Ibidem).