Cruz, Tesouros de Cornélio à Lápide

Poder da Cruz e graças que dela emanam

Vossa Cruz, ó meu Jesus, diz São Leão, é manancial de todas as bênçãos, causa de todas as graças; por Ela, aqueles que creem merecem achar forças em sua debilidade, glória no opróbrio, vida na morte[1].

O eloquente Doutor São João Crisóstomo enumera também os tesouros e as graças que nos vem da Cruz. Ele ensina que a Cruz é a esperança dos cristãos, a salvação dos desesperados, o báculo dos coxos, o consolo dos pobres, o freio dos ricos, a perdição dos orgulhosos, o castigo dos maus. Faz-nos triunfar, do demônio, doma o Inferno, instrui a juventude, sustenta aos débeis e aviva a esperança nos corações abatidos; é o piloto dos que sulcam as águas do mundo, o porto dos náufragos, um muro impenetrável que protege os cristãos contra as emboscadas de todos os seus inimigos. É mãe dos órfãos, defesa das viúvas, consolo dos justos, asilo dos aflitos e desamparados. É guarda das crianças, apoio da idade viril, socorro dos anciãos, para os quais alcança a graça de uma boa morte. É luz que ilumina aos que estão submersos nas trevas e sabedoria daqueles que o mundo estúpido, cego e ímpio mira como insensatos.

A Cruz é a liberdade dos escravos, filosofia dos grandes, magnificência dos reis, seu escudo mais sólido, e a condenação dos ímpios. É objeto dos louvores dos profetas, estandarte que precede aos Apóstolos, princípio da glória dos mártires, da austeridade dos religiosos e da castidade das virgens; alegria do sacerdócio, fundamento da Igreja, sentinela que vela pelo mundo. Destruiu os templos pagãos e destrói os ídolos. É escândalo dos judeus cegos e endurecidos, ruína dos incorrigíveis malvados, cura dos leprosos e paralíticos, pão dos famintos, água benfazeja que apaga as sede dos sedentos, veste dos que estão desnudos. A Cruz se levanta à entrada do caminho no qual hão de seguir os pecadores que voltam a Deus; é a árvore da vida eterna (Homil. IV de Cruce).

A Cruz, diz Cassiodoro, é a luz dos humildes, a vida dos cristãos (Homil. IV de Cruce).

A Cruz, diz São João Damasceno, é chave do paraíso; ela sustenta os débeis, cajado dos pastores, guia dos que voltam de seus extravios, perfeição dos que se adiantam no caminho da virtude, salvação da alma e do corpo, antídoto contra todos os males, e princípio de todos os bens[2].

Ó Cruz santa, exclama Rabano Mauro, sois a remissão dos pecados, o alimento da piedade, o aumento dos méritos, o remédio dos que sofrem, o refúgio dos oprimidos, o custódio da saúde, e a felicidade dos desgraçados (De Laude Crucis).

A largura de vossa Cruz, ó Senhor – afirma São Bernardo, – é a caridade; sua longitude, a longanimidade; sua altura, a esperança, sua profundidade, o temor; aquele que vos encontra, somente vos encontra na Cruz. A alma deve unir-se a esta árvore da vida para recolher os seus tão saborosos frutos (De Crucis Laudib.).

Havendo o povo murmurado contra Deus no deserto, para castigá-lo, Deus enviou umas serpentes cujas feridas eram mortais. Moisés pediu a graça para o povo culpado; e Deus respondeu-lhe: Faz uma serpente de bronze, e levanta-a em sinal de perdão; quando os feridos a virem, serão curados: Oravitque Moyses pro populo, et locutus est Dominus ad eum: Fac serpentem oeneum, et pone eum pro signo; qui percussus aspexerit eum, vivet (Nm 21, 7-8). Segundo todos os intérpretes, a serpente de bronze era símbolo da Cruz de Jesus Cristo.

A árvore da vida e a vara com que Moisés fazia tantas maravilhas eram também símbolos da Cruz.

O formoso rio que se dividia em forma de Cruz e regava o paraíso terrenal, representava a Cruz, que a todas as partes leva as vivificadoras águas da graça.

A arca da aliança ante a qual retrocedeu o Jordão e se derrubaram as muralhas de Jericó, era também uma figura da Cruz.

A Cruz, diz Santo Agostinho, é o princípio de nossa felicidade e de nossas riquezas; ela livra-nos da cegueira do erro; ela nos faz passar das trevas à luz; ela dá paz aos vencidos; uniu a Deus aqueles que Dele apartaram-se; converteu estrangeiros em cidadãos; a Cruz encerra as discórdias, assegura a paz, e distribui todos os bens com abundância. Hoje, a Cruz está plantada, e o mundo acha-se santificado; a Cruz está levantada, e os demônios fugiram; a Cruz está levantada, e a morte findou abatida; a Cruz venceu, e a morte sofreu a derrota. Hoje, o demônio está acorrentado, o homem viu quebradas as próprias cadeias; e Deus é glorificado[3].

Colocar-vos-ei como meu selo, diz o Senhor pela boca do profeta Ageu: Ponam te quase signaculum (Ag 2, 24). O selo de Jesus Cristo é sua Cruz. Este selo dispõe-nos a resistir às seduções da carne, do mundo e do demônio; faz-nos discípulos, soldados e mártires de Jesus Cristo crucificado. Neste mesmo sentido, disse o grande Apóstolo: Eu levo em meu corpo impressos os sinais do Senhor Jesus: Ego stignata Domini Jesu in corpore meu porto (Gl 6, 17). Assim é que a penitência voluntária, a mortificação, a abnegação, a austeridade, a humilhação, o desprezo, a paciência, os opróbrios, as perseguições, as cadeias, os cárceres, o martírio e a morte por Deus, são a marca do selo de Jesus Cristo.

O selo do demônio, pelo contrário, é o deleite; ali, onde vejais este vício degradante, tende todo cuidado e fugi. Obedecer a suas próprias paixões, amar a moleza, a desmedida liberdade, a ambição, estimar-se a si mesmo, buscar os elogios, as bajulações, e entregar-se à vaidade, ao orgulho etc. é levar em si o selo de Satanás; é estar assinalado com a marca da Besta[4].

A Cruz é o poderoso remédio que cura a febre do orgulho, faz cessar os arrebatamentos da ira, acalma o frenesi dos sentidos, dissipa a melancolia do preguiçoso etc. Assim, pois quando recebais uma Cruz, e tenhais que levá-la, sabei que recebeis um dom excelente que os fará muito agradáveis a Deus: Deus imprime-vos, então, Seu selo.

Por meio da Cruz, adquirimos certa semelhança com o Filho de Deus.

Sobre a Cruz resplandece a bondade de Deus

Jesus Cristo, diz Lactâncio, estendeu sobre a Cruz suas mãos, que mediram a terra, para significar que de Oriente a Ocidente viria a abrigar-se debaixo de poderosa proteção um grande povo formado de todas as nações e falando todo os idiomas[5].

Na Cruz, sobretudo, manifestou-se a bondade de Jesus Cristo. Ali é onde:

1.° Manifestou-nos seu infinito amor, a fim de atrair-nos por meio do amor de reconhecimento, pois Jesus Cristo, ao padecer e morrer, não Se achava impelido por nenhuma necessidade, por nenhuma esperança de utilidade própria; não obedecia senão ao afeto que professava por nós;

2.° Resgatou aos homens na Cruz, com a potência da divindade, senão com a justiça e a humildade de sua paixão, diz Santo Agostinho: In cruce redemit homines, non per potentiam deitatis, sed per justitiam et humilitatem passionis (Serm. in Parasc.);

3.° Na Cruz, Ele apresentou-nos um modelo de obediência, de constância, de paciência, de penitencia, de valor, de mortificação e de todas as virtudes; e

4.° Na Cruz, Ele condenou a sabedoria insensata e a vaidade do mundo; deu ao homem caído pelo orgulho e pelos prazeres o modelo da verdadeira vida; e indicou-lhe o modo de tornar a levantar-se com a humildade da Cruz.

A Cruz é a cátedra da bondade divina, do amor puríssimo e infinito de Deus. Deus amou ao homem desde toda a eternidade; porém, para manifestar-lhe este amor, teve somente que pronunciar uma palavra: Façamos; enquanto que para resgatá-lo teve que padecer trabalhos indizíveis, derramar seu Sangue e sofrer a morte! Cravado na Cruz, Jesus Cristo está suspenso entre o Céu e a terra como Medidor para reconciliar aos homens com Deus; recebe as flechas que a cólera de Deus dirige contra os homens, e impede que cheguem até eles. Ele satisfaz por todos os crimes; estende seu braço, como um arco, para o lançar até Deus, seu Pai, as flechas abrasadoras de sua oração e de seu amor; fere o Coração de seu Pai, e faz brotar dali o perdão e a graça para todos os homens.

Olhai, diz Santo Agostinho, as feridas de Jesus cravado na Cruz; reparai no Sangue Daquele que morre, e notai qual o preço Aquele que resgata pagou: Respice vulnerapendentis, sanguinem morientis, pretium morientis (Tract. de Virgin.).

Tem a cabeça inclinada, diz em outra parte este grande Santo, para beijar aos homens; o Coração aberto para amá-los; os braços estendidos para abraçá-los, e todo o Corpo exposto para resgatá-los. Apreciai toda a magnitude destas manifestações de amor; repassai-as em vosso coração, a fim de encerrar inteiramente nele Aquele que por nós foi cravado na Cruz[6].

Ó inefável e imensa bondade de Deus, exclama Santo Efrém, que, por meio da Cruz, proporcionou tantos e tão grandes bens ao gênero humano: O ineffabilem atque immensam benignissimi Dei bonitatem, qui tot et tanta bona per crucem generi huano donavit (Serm. de Cruce).

O Calvário é a grande escola onde se ensina com uma linguagem sublime o amor de Jesus Cristo aos homens.

Na Cruz, brilha a Sabedoria de Deus

Jesus Cristo, diz o grande Apóstolo, enviou-me para pregar o Evangelho, porém não com discursos estudados, para que não se faça inútil a Cruz de Jesus Cristo. Pois, a pregação da Cruz é uma loucura aos olhos dos que se perdem; mas para os que se salvam, isto é, para nós, é a virtude e poder de Deus: Misit me Christus evangelizare; non in sapientia verbi, ut non evacuetur crux Christi. Verbum crucis pereuntibus stultitia est; iis autem qui salvi fiunt, id est, nobis, Dei virtus est (1 Cor 1, 17-18).

Assim está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, e desprezarei a prudência dos sábios. Onde estão os sábios? O que aconteceu aos Doutores da Lei? Onde estão os espíritos curiosos das ciências deste mundo? Deus não mostrou como louca a sabedoria deste mundo? Com efeito, vendo Deus que o mundo, com sua sabedoria, não havia conhecido a Sabedoria Divina, quis então salvar com a loucura da pregação, aos que cressem Nele. Os judeus pedem milagres, e os gregos ou gentios querem ciência (cf. 1 Cor 1, 19-22), mas nós pregamos simplesmente a Cristo crucificado, o Qual é motivo de escândalo para os judeus, e parece uma loucura aos gentios; mas Cristo é a virtude de Deus, e a sabedoria de Deus, para aqueles que, ou judeus, ou gentios, foram chamados à fé: Nos autem praedicamus Christum crucifxum, Iudaeis quidem scandalum, gentibus autem stultitiam; ipsis autem vocatis, Iudaeis atque Graecis, Christum Dei virtutem et Dei sapientiam (1 Cor 1, 23-25).

Aquilo que parece uma loucura nos mistérios de Deus, é maior que a sabedoria de todos os homens; e o que em Deus parece debilidade é mais forte que toda a fortaleza dos homens: Quia quod stultum est Deu, sapientius est hominibus; et quod infirmum est Dei, fortius est hominibus (1 Cor 1, 25).

O que em Deus parece debilidade e loucura, isto é, o que os loucos veem como loucura e debilidade em Jesus Cristo que nasce, sofre e morre, isto é, sua Humanidade, sua pobreza, sua humildade, sua paixão e sua Cruz, foram precisamente, com sabedoria e poder, a vitória de Jesus Cristo, a salvação do mundo, a derrota do Inferno, a abertura do Céu, a calma da ira celestial, o aniquilamento da sentença de morte fulminada contra os homens, o manancial fecundo de todas as graças, de todas as bênçãos, a ressurreição e a vida do universo, e, enfim, de uma glória eterna para Deus, os Anjos e os homens, diz Santo Ambrósio (Serm. de Cruce).

Aquilo em que mais brilha a sabedoria e força de Deus reside em haver triunfado de tudo por meio de uma coisa que parece tão insensata e débil como a Cruz. O Cordeiro venceu a lobos e leões.

Pode se ver o mesmo desígnio da Providência na eleição dos Apóstolos. Para converter e salvar do mundo, obra superior a todas as forças humanas, Jesus Cristo, escolhe doze homens sem estudos, sem letras, sem força, sem riquezas sem apoio e sem nenhum crédito no mundo. Porém Deus, diz São Paulo, escolheu aos néscios segundo o mundo para confundir os sábios; elegeu aos fracos deste mundo para confundir os fortes, e às coisas vis e desprezíveis do mundo, àquelas que nada eram, para destruir aquelas que são aparentemente maiores, a fim de que nenhum mortal se jactasse diante Dele: Sed quae stulta sunt mundi, elegit Deus ut confundat sapientes; et infirma mundi elegit Deus, ut confundat fortia; et ignobilia mundi, et contemptibilia elegit Deus, et e aquae non sunt, ut e aquae sunt destrueret: ut non glorietur caro in conscpectu ejus (1 Cor 1, 27-29).

Na debilidade da humanidade de Jesus Cristo, em sua Paixão e em sua Morte, ficaram ocultas sua majestade, sua divindade e sua força infinita. Por essa razão, ao morrer na Cruz, comove espantosamente toda a terra, abre os penhascos, ressuscita aos mortos, obscurece o astro do dia.

Ciência que a Cruz ensina

A Cruz é, antes de tudo, o preço de nossa redenção; logo, é o livro da sabedoria e da ciência divinas. O homem mais ignorante pode ler este livro divino escrito com Sangue e Cravos; e verá nele:

1.° O amor infinito de Jesus;

2.° A enormidade do pecado mortal;

3.° O rigor das penas do Inferno; pois se Deus sofreu tanto para expiar pecados que não eram seus, se o Pai tratou deste modo a seu Filho único, a própria inocência, porque encarregou-Se de nossas faltas, quais serão, portanto, os suplícios que estão reservados aos réprobos pelos pecados que cometeram pessoalmente, por sua vez, tão vis e desprezíveis?

4.° A Cruz ensina todas as virtudes e perfeições;

5.° Dá a conhecer quanto vale a alma do homem, a ponto de custar todo o Sangue de um Deus;

6.° Indica quão grande será a ventura dos eleitos, posto que para proporcioná- la, Jesus Cristo ofereceu-se em holocausto. Assim é que todos os Santos tomaram a Cruz, quase como o único livro que mantiveram aberto, estudando-o e meditando-o noite e dia.

São Paulo diz: Não me apetece saber outra cosia entre vós senão a Jesus Cristo e este crucificado: Non enim judicavi me scire aliquid inter vos, nisi Jesum Chirtum, et hunc crucifxum (1 Cor 2, 2). E tinha uma ciência tão vasta e profunda, que confundia aos filósofos de Atenas e ao mundo inteiro. Este grande apóstolo diz que a ciência da Cruz é a ciência por excelência, a mais sublime das ciências.

Santo Tomás de Aquino, príncipe dos teólogos, afirma que aprendeu ao pé da Cruz muitíssimo mais do que em todos os livros.

São Boaventura, que fala do mesmo modo, acrescenta falando da Cruz: Este é o livro que me ensina tudo quanto digo e escrevo: Iste est liber qui mihi suggerit omnia quase doceo et scribo (In Speculo). Com efeito, aos pés de meu Crucifixo, minha alma tira do Céu maiores luzes que de todas as leituras, estudos e discussões: Ad pedes enim hujus Crucifixi, anima mea majora haurit lumina, quam ex omni lectione, disputatione, studio (In Speculo).

O lenho sobre o qual estavam cravados os membros de Jesus Cristo moribundo – diz Santo Agostinho -, é o púlpito desde o qual o divino Mestre ensina ao mundo: Lignum illud ubi fixa erant membra morientis, cathedra fuit magistri doccentis (Serm. in Parasc.).

E admiremo-nos se os mártires confundem e fazem empalidecer seus juízes e verdugos com suas celestiais respostas e sua força divina.

Refleti, ordena Santo Ambrósio, e compreendereis que a Cruz de Jesus Cristo tem sido um tribunal; do alto da Cruz, Jesus Cristo absolveu o ladrão pleno de fé e de arrependimento, e condenou ao ladrão incrédulo e impenitente.

Em conformidade com o livro da Cruz serão julgados todos os homens no último dia.

Glória e felicidade cujo princípio é a Cruz

Deus me livre, diz o grande Apóstolo, de gloriar-me senão na Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, por Quem o mundo está morto e crucificado para mim, como eu o estou para o mundo: Mihi autem absit gloriari, nisi in cruce Domini nostri Jesu Cristi; per quem mihi mundus crucifxus est, et ego mundo (Gl 6, 14).

Ouvi a Santo Agostinho: o Apóstolo podia se gloriar na sabedoria, na majestade, no poder de Jesus Cristo; e se gloria na Cruz: In cruce. O que faria corar ao filósofo segundo o mundo, vem a ser um tesouro para o Apóstolo. Ali onde resplandece a humildade, ali está a majestade; ali onde resplandece a debilidade, ali está o poder; ali onde se encontra a morte, ali está a vida. Se quereis ser discípulos da Cruz, não vos envergonheis por isto: a este fim recebestes no fronte, local do pudor, aquele sinal sagrado[7].

O grande Apóstolo, diz São Bernardo, não vê nada tão glorioso como carregar o opróbrio de Jesus Cristo. A ignomínia da Cruz é agradável para aquele que não é ingrato para com o Crucificado. A Cruz é preciosa; podemos lhe ter amor; tem suas delícias. No madeiro da Cruz, dilata-se a vida e forma-se o fruto da ventura. Dali, emana o óleo da alegria; dali o bálsamo salta gota após gota. A Cruz não é uma árvore silvestre, é a árvore da vida para aqueles que a abraçam; dá frutos, dá salvação. Se não fosse assim, como o Senhor ocuparia toda a terra?[8]

Estou cravado na Cruz juntamente com Cristo, diz São Paulo: e vivo, ou melhor, não sou eu quem vive, senão Jesus Cristo é quem vive em mim: Christo confixus sum cruci; vivo autem, jam non ego, vivit vero in me Christus (Gl 2, 19­-20).

Tudo o que o mundo considera como uma Cruz, diz São Bernardo, eu o considero como delícias; e o que o mundo considera como delícias, eu o creio como sendo uma Cruz: Quaecumque mundus reputat crucem, ego delicias reputo; et quae mundus delicias, ego reputo crucem (Serm. XXV in Cant.).

Considerai, escreveu São Paulo aos Hebreus, considerai a Jesus, autor e consumador da fé, O qual, em vista do gozo que Lhe estava preparado na glória, sofreu a Cruz sem fazer caso da ignomínia: Aspicientes in auctorem fidei, et consummatorem Jesum, qui, proposito sibi gaudio, sustinuit crucem, confusione contempta (Hb 12, 2).

Este incomparável apóstolo, imitando a seu divino Mestre, disse aos Colossenses: Alegro-me pelo que padeço por vós, e estou cumprindo em minha carne o que resta a padecer a Cristo em seus membros, sofrendo trabalhos em prol de seu Corpo Místico, que é a Igreja: Gaudeo in passionibus, et adimpleo e aquae desunt passionum Christi in carne mea, pro corpore ejus quod est Ecclesia (Col 1, 24).

A Cruz é tão doce para aquele que ama a Deus, que deixa de ser uma Cruz e converte-se em caminho da vida e da felicidade. A doçura, a felicidade, os consolos verdadeiros estão na Cruz. Levai-a com resignação, abraçai-a, e experimentareis seus felizes afetos. Da Cruz, passa-se ao Céu.

O mundo pagão apartou-se dos deleites para unir-se à Cruz, e eis que encontrou nela mais doçura que nas voluptuosidades. Milhares de virgens abandonam, cada dia, a seus pais, renunciam a um grande provir no mundo, a um casamento brilhante, sobrepõem-se aos afagos com que acariciam sua juventude, trocam as riquezas, as honras e os prazeres pela Cruz; e, assim, é que a Cruz parece- lhes mais gloriosa e atrativa que o mundo com suas alegrias, bens e promessas.

Cegos, os mundanos não veem na Cruz mais que o peso, as asperezas, cravos e sangue; não conhecem as doçuras, os consolos, a paz, os méritos e a glória que também oferece. Não vem que Deus ajuda a levar a Cruz, e converte em mel o fel que nela encontram. Uma gota dos prazeres do mundo converte-se em um mar de amargura; a amargura da Cruz, que não é mais que uma gota, converte-se, já nesta vida e, sobretudo, durante a eternidade, em um oceano de delícias.

Assim tem cabal cumprimento aquela promessa de Jesus Cristo: quem tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pais, ou esposa, ou filhos, ou campos, por causa de meu nome, receberá cem vezes mais e possuirá a vida eterna (Mt 19, 29).

Assim também se realizam aquelas outras palavras de Jesus Cristo: Vinde a mim, todos os que andais sobrecarregados com trabalhos e cargas, que eu vos aliviarei. Tomai meu jugo sobre vós; e aprendei de mim, que sou manso e humilde de Coração, e achareis o repouso de vossas almas; porque suave é meu jugo, e leve o meu peso (Mt 11, 29-30).

Durante a paixão do Salvador, Simão, o Cirineu, ajudou-Lhe a levar Sua Cruz; hoje, o Salvador, é quem ajuda ao cristão a levar a sua.

Tenho sede, disse o Senhor desde o alto da Cruz: Sitio (Jo 19, 28). Este grande Deus tinha sede de ver como nos aproveitávamos de seus sofrimentos e de sua morte. Tenhamos nós também esta sede de nossa salvação, e amaremos a Cruz; e Jesus Cristo derramará em abundância a água da graça, até que nos inunde de glória. Crucifiquemos o homem velho com todas as suas concupiscências.

Depois de tornarmo-nos semelhantes a Jesus Cristo crucificado, nós nos pareceremos a Jesus glorificado.

Triunfo da Cruz

Naquele dia, diz Isaías, o renovo da raiz de Jessé, que está posto como sinal ou estandarte de salvação para os povos, será invocado pelas nações: In die illa, radix Jesse, qui stat in signum populorum, ipsum gentes deprecabuntur (Is 11, 10).

Este estandarte é a Cruz. O Senhor o erguerá entre as nações: Et levabit signum in nationes (Is 11, 12). Estenderei minha mão sobre as nações, disse o Senhor, e erguerei meu estandarte entre os povos: Ecce levabo ad gentes manum meam, et adpopulos exaltabo signum meum (Is 49, 22). E o Senhor terá um nome e um sinal eterno que jamais desaparecerá: Et erit Dominus nominatus in signum aeternum, quod non auferetur (Is 55, 13).

Deus saiu, diz o profeta Habacuc, sua glória cobriu os Céus. E a terra está plena de seus louvores. Ele resplandecerá como a luz. Em suas mãos, haverá um poder infinito; raios há em suas mãos, e ali está escondida sua fortaleza: Splendor ejus ut lux erit, cornua in manibus ejus, ibi abscondita est fortitudo ejus (Hab 3, 3-4).

Este poder é a Cruz, a força da Cruz, com a qual Jesus Cristo triunfa da morte, porque a faz andar adiante, como vencida. Com a Cruz, destrói e pisoteia o demônio: Egreditur diabolôs ante pedes ejus. Por ela, avassala a todos os seus inimigos, a morte, Satanás, o Inferno. Os dois braços da Cruz tem sido os dois raios, instrumentos do poder de Jesus Cristo, com os quais exterminou aos seus inimigos e aos nossos.

Quando Eu estiver elevado no alto da terra, atrairei tudo até mim, diz Jesus Cristo: Ego, si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad meipsum (Jo 12, 32).

Ó admirável poder da Cruz! exclama São Leão. Ó glória inefável da Paixão! Sobre o Calvário, vemos o tribunal do Senhor, o juízo do mundo e o poder de Jesus Crucificado. Sim, Senhor, tudo o atraireis até Vós; no mesmo momento em que estendíeis as mãos até um povo incrédulo que Vos ultrajava, o mundo inteiro voltava-se até vossa Cruz para bendizer-Vos.

Tudo atraireis até Vós. Precisamente no instante em que, execrando o crime dos judeus, todos os elementos revoltaram-se plenos de terror: o sol escurece, a terra treme, os rochedos partem-se, a morte devolve suas vítimas.

Tudo atraireis para Vós. O véu do Templo rasga-se, o Santo dos Santos foge do poder dos Sumos Pontífices, a fim de que a figura se converta em realidade, que as profecias cumpram-se, e que a Lei antiga ceda seu posto ao Evangelho.

Tudo atraireis para Vós. O Universo inteiro verá o que estava revelado com ocultos mistérios no único templo da Judeia; o universo inteiro divisará a verdade na luz (Serm. VIII, de Pass.).

Quando eu for levantado da terra, tudo atrairei a mim (Jo 12, 32). Vemos esta profecia cumprida pelo lugar que ocupa a Cruz, pelas honras que se lhe rendem, pela glória que a rodeia, e pelos milagres que realiza. A Cruz atraiu até si o mundo inteiro.

Pela virtude da Cruz, afugentam-se os demônios, curam-se os enfermos, os cegos veem, os surdos ouvem, falam os mudos, sanam os coxos, as tormentas acalmam-se, os incêndios apagam-se, e ressuscitam os mortos.

Pela virtude da Cruz, levantou-se no mundo uma luz celestial, construíram-se templos a Jesus Cristo crucificado, bilha em todas as partes, e sucederá o que é apropriado até o fim do mundo: Et ego, si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad meipsum (Jo 12, 32).

A Cruz é o carro desde o qual Jesus Cristo triunfa de Satanás, do pecado, do mundo, da morte, do Inferno, do homem e de Deus mesmo. É o que diz São Paulo: Jesus Cristo desarmou aos Principados e às Potestades, expô-los à ignomínia, triunfando deles com seu poder: Expolians principatus et potestates, traduxit confidentes, palam triumphans illos in semetipso (Col 2, 15).

Cancelou a cédula do decreto firmado contra nós, que nos era contrário; quitou-a a partir de Si, cravando-a na Cruz: Delens, quod adversus nos erat, chirographum decreti, quod erat contrarium nobis, et ipsum tutlit de médio, affligens illud cruci (Col 2, 14).

A Cruz, diz São Cipriano, é a pedra com que Davi feriu a fronte de Golias, e matou-o: Crux est lápis quae David frontem Goliae percussit et occidit (Lib. II. Testim, c. XVII).

Quando o catecúmeno, diz Santo Agostinho, recebe em sua fronte o sinal da Cruz, o demônio, aquele Golias espiritual, é ferido e afugentado: Quando catechumenus in fronte signatur, spiritalis Goliah percutitur, et diabolôs effugatur (Serm. CXCVII).

Aquilo que, pelo madeiro, pereceu em Adão, diz Tertuliano, ressuscita pelo madeiro de Jesus Cristo: Quod perieratolim per lignum in Adam, id restitueretur per lignum Christi (Lib de Resurrect.).

Havendo saído das mãos de Deus e caído por orgulho, estávamos perdidos, diz Santo Agostinho. Então, a Cruz conseguiu que encontrássemos outra vez lugar nos braços do Senhor, e pudéssemos tornar a levantar-nos (Serm. in Parasc.).

Cantemos, com a Igreja, os triunfos que Deus obteve pela Cruz. Por Ela, Deus reinou: Regnavit a ligno Deus (Hymn, Pass.). Deus reina por sua Cruz; a Cruz é seu cetro real. Na Cruz, Jesus foi declarado Rei. Ali, acima de sua cabeça, diz o Evangelho de São Lucas, havia um letreiro escrito em grego, em latim e em hebraico, no qual se liam as seguintes palavras: Este é o Rei dos judeus: Erat autem et superscriptio scipta super eum litteris graecis, et latinis, et hebraicis: Hic Rex Judaeorum (Lc 23, 38).

Mas, os Pontífices dos Judeus diziam a Pilatos: Não ponhais Rei dos Judeus, senão o que Ele disse: Eu sou o Rei dos Judeus. Pilatos respondeu: O escrito, escrito está: Dicebant ergo Pilato Pontifex Judaeorum. Noli scribere: Rex Judaeorum; sed quia ipse dixit: Rex sum Judaeorum. Responsit Pilatus: Quod scripsi, scripsi (Jo 19, 21-22).

Que todas as línguas confessem ao Senhor Jesus Cristo, diz o grande Apóstolo (Fl 2, 11). Foi declarado Rei na Cruz; está escrito, e é para sempre. Foi declarado Rei do universo; Deus reina pela Cruz: Regnavit a ligno Deus.

Vendo a Cruz, os pagãos e os idólatras assustam-se e querem derrubá-la. Executaram seu projeto? Não, lançam-se a seus pés e a abraçam: Regnavit a ligno Deus. Os reis da terra levantam-se contra o rival que se lhes apresenta: querem destruir a arma que desconhecem.

O Real Profeta, inspirado pelo Espírito Santo, havia previsto esta rebelião e este combate. Por qual motivo, diz, embravecem-se tanto as nações, e os povos maquinam vãos projetos? Os reis da terra coligaram-se, e confederaram-se os príncipes contra o Senhor e contra seu Cristo (Sl 2, 1-2). Findaram porventura vitoriosos? Não. Aquele que reside nos Céus, zombará deles. O Senhor rir-Se-á deles: Qui habitat in coelis, irridebit eos, et Dominus subsannabit eos (Sl 2, 4).

Os doutos, os sábios da terra, os filósofos combatem a Cruz. Derrubaram-na? Não. Caíram a seus pés! Regnavit a ligno Deus.

Inimigas declaradas da Cruz, as paixões, o orgulho, a avareza, o deleite, perseguem-na. Quem vencerá? A Cruz. Regnavit a ligno Deus.

O demônio e o Inferno querem reduzi-la a cinzas; lograrão seu objetivo? Não, a Cruz sepultá-los-á em chamas inextinguíveis: Regnavit a ligno Deus.

Tudo se desencadeia contra Jesus Crucificado; todos os braços inimigos estão em movimento: e Jesus Cristo, cravado na Cruz. tem imóveis os braços; e este braços põem o universo a seus pés; e restam vencidos os milhões de revoltosos que O ameaçam; prostrar-se-ão e abraçarão a Cruz para obter graça: Regnavit a ligno Deus.

Jesus Cristo triunfa por meio de sua Cruz; os Apóstolos triunfarão também pela Cruz de Jesus Cristo. Aí temos, diz, com muita eloquência São João Crisóstomo, aí temos a Pedro, que, sozinho, armado com uma Cruz de madeira, caminha para uma cidade habitada por um povo envelhecido pela corrupção. Perguntemos-lhe:

– Pedro, aonde vais?

– Vou a Roma.

– Para que?

– Para subjugar aos donos do mundo, a destruir seus ídolos e seus altares, derrubar o Capitólio, e, apesar de seu orgulho, fazer-lhes genuflectir os joelhos ante a Cruz.

– Que empreendimento! E para levá-lo a cabo, onde estão teus recursos, teus soldados e tuas armas?

– Não tenho, nem tampouco poderia vencer com todas estas forças. Somente com minha Cruz de madeira, vencerei!

– Estás em teu juízo? Pode conceber-se empreendimento mais temerário e louco?

– Vós podeis me chamar temerário e louco, e tudo o mais que vos agrade chamar; porém, sabei que ao Céu corresponde o êxito.

Com efeito, assim que se aproxima, tremem os deuses do Capitólio, e o paganismo pressente sua ruína mais próxima. E apenas chega à grande cidade, fala e escutam-no. Manda e obedecem-no; troveja, e a Cruz, gloriosíssimo estandarte, flutua à distância sobre os despojos do paganismo que se afunda.

Invejosos, os Césares tramaram a ruína da Cruz; e, considerai-a, entretanto, como já brilha no Capitólio, em seu trono e à sua frente. Com muito mais razão pode se dizer de Pedro armado com sua Cruz, o que se disse do primeiro dos Césares: Veio, viu e venceu.

Prontamente, a voz de Pedro estende-se ao longe, a regiões desconhecidas. Faz-se ouvir e penetra ali onde jamais penetraram as legiões romanas. Depois de um intervalo de seiscentos anos e muitas guerras e combates, Roma conseguiu somente ser a capital de um império. E somente por obra de um homem que não entende de arte da guerra e não conhece mais que uma Cruz de madeira, chega a ser em pouco tempo a capital do mundo. Já no tempo dos Apóstolos, São Paulo escrevia aos Romanos, dizendo-lhes: Vossa fé tem eco em todo o universo: Fides vestra annuntiatur in universo mundo (Rm 1, 8).

A Cruz abraça o universo: estende-se de Oriente a Ocidente; seus braços alcançam do setentrião ao meio dia. Desde toda a eternidade, estava predestinada a salvar o mundo; sua força e sua virtude aplicam-se a todos os homens e a todos os tempos; livra as almas do Purgatório, e as toma e as conduz ao Céu.

Jesus Cristo comunicou à sua Cruz seu poder, sua majestade, sua sabedoria e sua eternidade. Comunicou-lhe sua eternidade, a fim de que, colocada no Céu, como o ensinam os Santos Padres, sirva ali de troféu imperecível. Quando chegue ao fim do mundo, o fogo consumirá até os elementos; porém, o lenho da Cruz de Jesus Cristo será preservado, e entrará triunfalmente no Céu. Jesus Cristo no-lo deu a entender quando disse: Então, aparecerá no Céu o sinal do Filho do Homem: Et tuncparebit signum filii Hominis in coelo (Mt 24, 30).

Tal é a crença de São João Crisóstomo, de São Cirilo, de Santo Efraim, de Suarez. A Cruz será colocada e brilhará no Céu como o eterno estandarte das vitórias de Jesus Cristo. Isto também o indica Isaías quando diz: Et erit Dominus moninatus in signum aeternum, quod non auferetur (Is 55, 13).

São Jerônimo pensa que as cinco chagas de Cristo ficarão eternamente impressas em seu Corpo, a fim de que serem um eterno monumento de sua bondade e de nossa redenção (Liber super Mathh.)

São Gregório chama a Cruz de laço do Universo: Universitatis vinculum (Homil. in Evang.). São Paulo expressa a mesma verdade quando diz: Todas as coisas foram reconciliadas por Ele, e Nele, restabelecendo a paz entre o Céu e a terra por meio do Sangue que derramou na Cruz: Per eum reconciliare omnia in ipsum, pacificans per sanguinem crucis ejus, sive quae in terris, sive quae in coelis sunt (Col 1, 20).

A Cruz brilha no cume dos templos cristãos, para anunciar a Casa de Deus; domina em praças públicas, para que os homens aprendam a respeitá-la em todas as partes; levanta-se nas encruzilhadas dos caminhos, para que o viajante pense em recomendar-se a Deus; pende do pescoço da mulher para recordar-lhe que deve observar a modéstia; acha-se em nossas casas, em meio aos nossos campos, a fim de preservá-los de todo acidente; está colocada sobre a tumba dos mortos, como um sinal de ressurreição. Com a Cruz o homem triunfa de tudo, triunfa do demônio, do mundo de si mesmo e de Deus.

Apareceu um estandarte em forma de Cruz a Constantino, na véspera de uma batalha decisiva. E sobre aquele estandarte liam-se estas palavras: In hoc signum vinces – Vencerás com este sinal. Ganhou, com efeito, uma brilhante vitória sobre o inimigo. Assim como Constantino, triunfaremos, com a Cruz, daqueles contra os quais temos que lutar:

Frutos que se podem recolher na Cruz

Os principais frutos que se podem recolher na Cruz, são sete:

1.° Compaixão;

2.° Compunção;

3.° Ação de graças;

4.° Imitação;

5.° Esperança;

6.° Admiração;

7.° Amor ou caridade.

Como temos de levar a nossa Cruz

Alegro-me do que padeço por vós, diz São Paulo, e estou cumprindo em minha carne o que resta de padecimentos a Cristo em seus membro, sofrendo trabalhos em prol de seu Corpo Místico, que é a Igreja: Gaudeo in passionibus, et adimpleo e aquae desunt passionum Christi, in carne mea, pro corpore ejus, quod est Ecclesia (Col 1, 24).

A paixão de Jesus Cristo é cabal e perfeita em si mesma. Sendo de um mérito infinito, ela é mais que suficiente para resgatar-nos. Contudo, falta-lhe algo que deve proceder de vós; falamos da parte que devemos tomar nos sofrimentos e méritos de Jesus Cristo, em uma palavra, de nossa cooperação. Não somente Jesus Cristo devia sofrer em Si mesmo; deve também sofrer em seus membros; e, por esta comunidade de sofrimentos, seu Corpo, que é a Igreja, engrandece-se e aperfeiçoa- se.

Aceitando as penas e as dores da vida, os fiéis participam dos méritos da Paixão, tornam-se semelhantes a Jesus Cristo crucificado. Isto é o que quer dizer São Paulo com aquelas palavras: Estou cumprindo em minha carne o que resta de padecimentos a Cristo em seus membros, sofrendo trabalhos em prol de seu Corpo Místico, que é a Igreja.

Com a aceitação das Cruzes, os fiéis fazem-se participantes da natureza divina, como disse o Apóstolo São Pedro: Divinae consortes naturae (2 Pd 1, 4). Fazem-se também partícipes da glória de Jesus Cristo pela eternidade, diz São Paulo: Si tamen compatimur, ut et conglorificemur (Rm 8, 17).

Aqui devemos observar com Santo Ambrósio, São João Crisóstomo e outros Doutores:

I – Que, como a Igreja é um corpo místico, animado de uma só e mesma alma, tendo uma mesma vida com Jesus Cristo deve sofrer uma só e mesma paixão com Ele; da mesma maneira que, no corpo do homem, o sofrimento é comum à cabeça e aos membros. São Paulo é quem faz esta admirável comparação: Se um membro padece, todos os demais se compadecem; e, se um membro é horado, todo os membros alegram-se com ele. Vós, pois, sois o Corpo Místico de Cristo e membros unidos a outros membros: Se quid patitur unum membrum, compatiuntur omnia membra; sive gloriatur unum membrum, congaudent omnia membra. Vos estis corpus Christi, em membra de membro (1 Cor 12, 26-27). Isso explica por que que Jesus Cristo não dizia a Saulo que perseguia a sua Igreja: Porque persegues a minha Igreja?, senão: Porque me persegues? Quid me persequeris (At 26, 14). Assim, como Jesus Cristo comunica sua graça e sua paciência, comunica também seus sofrimentos, e compadece-se dos que sofrem.

II – Cumpro em minha carne o que resta de padecimentos a Jesus Cristo, isto é, convém que anuncie o Evangelho e dê a conhecer Jesus Cristo às nações, a fim de que a Igreja cresça, aperfeiçoe-se e participe plenamente da paixão e redenção do Salvador.

III – Cumpro em minha carne o que resta de padecimentos a Jesus Cristo. Isto significa também que o fiel, com suas boas obras, aplica-se a participar da expiação operada por Jesus Cristo, e satisfaz, sofrendo a pena temporal devida ao pecado.

Retesou seu arco, e converteu-me em alvo de suas flechas, diz Jeremias: Tetendit arcum suum, et possuir me quasi signum (soopum) as sagittam (Lm 3, 12).

1.° O fiel deve saber que toda a vida do cristão é de sofrimento interior ou exterior, enviado ou buscado voluntariamente. Deve aguardá-lo todos os dias e até deseja-lo. Porque, todos os dias, lançam-lhe flechas ou Deus, ou o demônio, o mundo, a carne, os amigos, os inimigos, ou as más línguas. Retesou seu arco, e fez de mim alvo de suas flechas: Tetendit arcum suum, et possuir me quasi signum (soopum) as sagittam (Lm 3, 12). As enfermidades, os contratempos, as provas são flechas de Deus.

2.° O cristão também deve saber que estas flechas, de qualquer parte donde venham, são flechas de amor, e não de ódio.

Deus nos fere com flechas:

1.° Para abater nossa desobediência e nosso orgulho;

2.° Para castigar nossos pecados e fazer-nos expiar… Assim castigou os judeus;

3.° Para destruir e, sobretudo, debilitar em nós a concupiscência da carne. Ele lança contra os luxuriosos flechas, que são enfermidades, contradições, decepções e remorsos; obriga-lhes, deste modo, a combater e vencer sua inclinação;

Para guiar ao homem pelo caminho da paciência, da santidade e da perfeição; assim feriu Deus a Jó e a Tobias; e

Para aproximar o homem a Jesus Cristo, e fazer-lhe semelhante a Ele.

Deus resolveu manifestar com a admirável paciência dos Santos, a virtude de sua Cruz. Ele mesmo, ao vir ao mundo, não escolheu outros bens senão os sofrimentos e o Calvário.

Quereis encontrar a Deus? Buscai a Cruz, nela Ele está cravado; ali, tão somente ali, achá-Lo-eis.

Se vos encontrais sobrecarregado de pesares, alegrai-vos; encontrastes a Jesus Cristo, e estais com Ele.

Bem-aventurados, diz-nos, aqueles que padecem perseguições por causa da justiça, pois deles é o Reino dos Céus: Beati qui persecutionem patiuntur propter justitiam, quoniam ipsorum est regnum coelorum (Mt 5, 10). Ditosos sereis quando os homens, por minha causa, vos amaldiçoarem, e vos perseguirem, e disserem com mentira toda sorte de males contra vós. Alegrai-vos, então, e regozijai-vos, porque é muito grande a recompensa que vos aguarda nos Céus (Mt 5, 11-12).

Quando sofreis, Deus está convosco. O próprio Deus o diz pela boca do Real Profeta: Estarei com ele em suas tribulações, salvar-lhe-ei e o cumularei de glória. Eu o saciarei com uma vida muito longa, e lhe farei ver o Salvador que enviarei: Cum ipso sum in tribulatione, eripiam eum et glorificabo eum. Longitudine dierum replebo eum, et ostendam illi salutare meum (Sl 90, 15-16).

Quando Santo Antônio, depois dos terríveis combates que tinha de sustentar contra os demônios, dizia a Jesus Cristo:

– Onde estavas, ó bom Jesus? Ubi eras, bone Jesu?

– Antônio, estava presente, respondia-lhe Jesus; porém, queria te ver combater (Vit. Patr.).

6.° Deus fere ao homem a flechadas para matar nele os desejos e os pensamentos mundanos, e fazer entrar em sua alma os pensamentos e desejos do Céu. Assim é como o Senhor prepara o homem para entrar na cidade dos eleitos, segundo aquelas Palavras da Escritura: É preciso passar por muitas tribulações para entrar no Reino de Deus: Peer multas tribulationes oportet nos intrate in regnum Dei (At 14, 12); e aquelas outras palavras de Jesus Cristo: o Reino dos Céus alcança-se à viva força, e somente aqueles que fazem violência a si mesmos são os que se apoderam dele: Regnum coelorum vim patibur, et violenti rapiunt illud (Mt 11, 12).

Saiba bem o cristão que deve sofrer todos os dias de sua vida, e estar constantemente estendido sobre a Cruz, como alvo das flechas de Deus. Ainda mais: não deve cessar de pedir a Deus alguma aflição, como fazia São Francisco Xavier, que, em seus contínuos e penosos trabalhos, em suas provas e perseguições sem número, rogava a Deus que não lhe privasse das Cruzes que tinha; e que lhas desse, ademais, em maior número (In ejus vita).

Para levar com resignação as Cruzes e triunfar das provas, pensemos que nós nos encontramos colocados na terra como um alvo para as flechas de Deus, e achemo-nos dispostos a receber com paciência e valor todas as tribulações; vem-nos do Céu e tendem à glória de Deus e à nossa salvação.

Tenhamos nossa alma unida a Deus pela fé, a esperança e o amor. Aquele que habita com o pensamento, e sobretudo, com o desejos entre os bem- aventurados, e fala com eles, olha os bens e os males deste mundo como pouca coisa. Elevemos, pois, nossa alma sobre as coisas da terra, façamo-la sair, de certo modo, de nosso corpo para colocá-la entre os Anjos: Nostra conversatio in coelis est (Fl 3, 20).

Quando assim acontecer, e nossa alma seja mais forte que as Cruzes com a resignação e a paciência, já não as sentirá, e realmente ver-se-á livre delas. Então, exclamava São Paulo, Estou inundado de consolo; transbordo de gozo em meio de todas as minhas tribulações: repletus sum consolatione; superabundo gaudio in omni tribulatione nostra (2 Cor 8, 4).

Sigamos Jesus Cristo ao Calvário. Verifiquemos quantos milhares de cristãos, crianças, mulheres, anciãos e de todas as condições, de geração em geração, desde dezoito séculos[9], dirigem-se até aquela montanha de salvação etema e sobem a seu cume, levando a Cruz sobre os ombros.

Sigamos a eles: vão ao Céu.


Referências:

[1]  Crux tua, omnium fons benedictonum, omnium est causa gratiarum; per quam credentibus datur virtus in infirmitate, gloria de opprobio, vita de morte (Serm. VIII de Pass.)

[2]  Crux Christi, clavis est paradisi; haec infirmorum baculus, pastorum virga, se convertentium manuductio, proficientium perfectio, salus animae et corporis, omnium malorum aversio, bonorum omium datrix (Lib. IV de fide, c. XII).

[3]  Crux nobis titius causa beatitudinis est: haec nos a coecitate liberavit erroris; haec a tenebris reddit luci; haec debellatus reddidit quieti; haec alienos Deo conjunxit; haec peregrinantes cives ostendit; Haec discordiae amputatio est; haec pacis firmamentum; haec donorumomnium abunda largitio. Hodie crux fixa est, et saeculum santificatumest. Hoje crux fixa est et daemones dispesit sunt. Hodie crux fixa est et mors subversa est. Hodie crux vincit, et mors vincta est. Hodie diabolos vinctus est, homo solutus est, et Deus glorificatus est (Serm. de Pass. ).

[4] Possível alusão aos textos de Ap 13, 16-18; 14, 9-11. Possivelmente, remete-nos ainda ao antigo texto de Lv 19, 28 e os respectivos temas da idolatria e do tribalismo revolucionário que lhe são afins (Nota do tradutor).

[5] Extendit in passione manus suas, orbenque dimensas, ut jam tunc ostenderet ab ortu suis usque ad occasum Magnum populum, ex omnibus linguis et tribubus sub alas suas esse venturum (Lib. IV, c. XXVI).

[6]  Caput habet inclinatum ad osculandum, cor apertum ad diligendum extensa ad amplexandum; totum corpus expositum ad redimendum. Haec quanta sint, cogitate; haec in satatera vestri cordis appendite; ut tutus vobisfigatur in corde, qui totuspro nobisfixusfuit in cruce (Serm. in Parasc.).

[7]  Poterat Apostolus gloriari in sapientia Christi, in majestate, in potestate; sed dixit: In cruce. Ubi mundi philosophus erubuit , ibi Apostolus thesaurum repetit. Ubi humilitas, ibi majestas; ubi infirmitas, ibi potestas; ubi mors, ibi vita. Si vis ad illam venire, noli erubescere; ideo in fronte, tamquam in sede pudores, signum crucis accepisti (Serm. XX, de Verb. Apost.).

[8]  Nihil sibi gloriosum putat, quam Christi portare opprobium. Grata ignominia crucis ei qui crucifixo ingratus non est. Crux pretiosa est, et Cruz amari potest, et crux habet exultatione. Sempre lignum crucis vitam germinat, fructicat jucunditate, oleum laetitiae stillat, balsamum sudat. Non est silvestres arbor, lignum vita est apprehendentibus, arbor fructutifera, arbor salutífera est; alioquin; quodmodo dominicam occuparet terram? (Serm. XXV in Cant.).

[9] Em nossos dias, dir-se-ia “vinte séculos” (Nota do tradutor).