Confissão, Tesouros de Cornélio à Lápide

Divindade da Confissão

No dia da Ressurreição, Jesus Cristo apresentou-Se no meio de seus discípulos e disse-lhes: A paz esteja convosco! E repetiu-lhes: A paz esteja convosco! Assim como o Pai me enviou, assim Eu vos envio: Sicut missit me Pater, et ego mitto vos (Jo 20, 19-21). E, depois, que pronunciou estas palavras, soprou sobre eles, e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo; ficarão perdoados os pecados daqueles a quem vós os perdoardes; e ficarão retidos os de quem retiverdes: Haec cum dixisset, insuflavit, et dixit eis: Accipite Spiritum Sanctum; quórum remisseritis peccata, remittuntur eis; et quoum retinueritis, retenta sunt (Jo 20, 22-23).

Conta-nos São Marcos que Jesus Cristo disse a seus discípulos: Empenho- vos minha palavra que tudo o que atardes sobre a terra será atado no céu; e tudo o que desatares sobre a terra, será isso mesmo desatado nos céus: Amen dico vobis, quaecumque ligaveritis super terram, erunt ligata et in coelho, et quaecumque solveritis super terram, erunt soluta in coelo (Mc 17, 18).

Daqui infere-se que, para perdoar ou reter os pecados, para atar ou desatar as consciências, é necessário conhecer as faltas que foram cometidas. E como conhecê-las sem a Confissão?

As palavras formais de Jesus Cristo estabelecem a Confissão do modo mais claro e mais evidente possíveis. A Confissão, por conseguinte, é divina.

Por isso, São Paulo, escrevendo aos fiéis de Corinto, diz-lhes: Deus confiou-nos o ministério da reconciliação: Dedit nobis ministerium reconciliationis (2 Cor 2, 18). E foi Ele quem nos encarregou de pregar a reconciliação: Possuit in nobis verbum reconciliationis (2 Cor 2, 19).

Se a Confissão não reconhecesse uma instituição divina, ninguém se confessaria. O uso da Confissão prova a divindade de sua origem. A Confissão é um dogma católico fundado em palavras precisas de Jesus Cristo: é a fé de toda a Igreja, de todos os séculos, de todos os Padres, de todos os Concílios, de todos os Teólogos e de todos os Santos.

Até o próprio Voltaire diz: A Confissão é uma instituição divina que somente tem princípio na misericórdia infinita de seu Autor; a obrigação de arrepender-se remonta ao dia em que o homem foi culpado; mas, para manifestar arrependimento, é preciso começar por declarar seus pecados.

Antiguidade da Confissão

Adão foi o primeiro penitente; confessou-se dizendo: Eu comi o fruto daquela árvore (Gn 3, 12). A serpente enganou-me, diz: Serpens decepit me (Gn 3, 13). Caim confessou-se; porém, sua Confissão foi nula, porque a fez com desespero: Minha iniquidade, disse, é tão grande, que não posso esperar perdão: Major est iniquitate mea, quam ut veniam merear (Gn 4, 13).

Feridos pelas serpentes, os israelitas confessaram no deserto seus pecados. O Faraó em pessoa declarou seus crimes, porém sem arrependimento. Davi confessou sua falta ao profeta Natã. O pródigo humilhou-se aos pés de seu pai e disse-lhe: Pai, pequei contra o Céu e em vossa presença: Pater, peccavi in cloelum et coram te (Lc 15, 18). A samaritana e Maria Madalena confessaram-se a Jesus Cristo. Pedro igualmente: Afastai-vos de mim, Senhor, disse ele, porque sou um pecador: Exi a me, quia homo peccator sum, Domine (Lc 5, 8). O bom ladrão, ainda na cruz, faz também uma confissão pública (Lc 23, 41).

Na Sagrada Escritura, encontramos a confissão seja pública, seja particular.

Diz-se, no livro dos Atos dos Apóstolos, que muitos dos fieis vinham para confessar e declarar aquilo que haviam feito de mal: Multique credentium veniebant confitentes, et annuntiantes actus suos (At 19, 18).

Eis aqui o que, no primeiro século da Igreja, São Clemente, sucessor de São Pedro, diz a respeito da Confissão: Todo aquele que tenha cuidado de sua alma não se envergonhe de confessar seus pecados àquele que preside, para obter seu perdão.

São Paulo, acrescenta, obrigava a descobrir perante aos sacerdotes até os maus pensamentos. Enquanto estivermos na terra, convertamo-nos, porque uma vez que estejamos na eternidade, já não poderemos confessar nem fazer penitência (cf. 2 Cor).

No século II, Tertuliano diz:

Muitos evitam declarar seus pecados porque cuidam mais de sua honra do que de sua salvação. Imitam aqueles que, feridos de uma enfermidade secreta, ocultam seu mal ao médico e atraem para si a morte. Não vale mais salvar-vos confessando vossos pecados, que condenar-vos ocultando-os? (De Poenit., c. X).

No século III, escreve o célebre Orígenes:

Se nos arrependemos de nossos pecados e os confessamos não somente a Deus, senão também àqueles que podem curar as chagas que se nos abriram, estes pecados ser-nos-ão perdoados (Homil. I, in Psalm. XXXVII).

No século IV, Santo Atanásio expressa-se assim:

Da mesma maneira que o homem batizado está iluminado pelo Espírito Santo, assim também aquele que confessa seus pecados no tribunal da Penitência obtém a remissão do Sacerdote (Collect. Choisie de Pères, t. II).

No mesmo século, diz São Basílio:

É absolutamente preciso descobrir nossos pecados perante aqueles que receberam a dispensação dos mistérios de Deus (Libermann, c. IV).

No século V, Santo Ambrósio, segundo relata São Paulino, chorava de tal maneira quando um penitente se confessava com ele, que incitava este a também a derramar lágrimas.

Santo Agostinho, no mesmo século, pronunciava estas palavras… Ninguém diga:

Faço penitência em segredo aos olhos de Deus, e isso é o bastante Àquele que deve conceder-me o perdão, e conhece a penitência que faço no fundo de meu coração; se fosse assim, inutilmente teria dito Jesus Cristo: O que atares na terra será atado nos céus, o que desatares na terra será desatado nos céus; e em vão também haveria confiado as chaves à sua Igreja. Não é, pois, bastante, confessar-se com Deus, é preciso confessar-se com aqueles que Dele receberam o poder de atar e desatar (Serm. II, in Psalm., c. I).

Vivendo no século VI, São João Clímaco diz:

Nunca se ouviu dizer que os pecados cuja confissão foi feita no tribunal da Penitência tenham sido divulgados. Assim tem-no permitido Deus, a fim de que os pecadores não se apartassem da Confissão, e não se vissem privados da única esperança de salvação que lhes resta (Vit. Patr.).

Nos séculos VII, VIII, IX e X, achamos provas certas da existência da Confissão auricular.

No século XI, diz Santo Anselmo:

(Ó pecadores), é vosso dever descobrir fielmente perante os Sacerdotes, com uma humilde Confissão, todas as manchas da lepra que levais em vosso interior, e ficareis purificados (Homil. in decem lepr.).

Pouco mais tarde, São Bernardo fala assim:

De que serve declarar parte de nossos pecados e calar os outros? Deus não conhece tudo? O quê? Vós vos atreveis a ocultar algo àquele[1] que é o vigário de Deus em um tão grande Sacramento? (Opusc. in septem grad. Confess.).

Em todas as épocas, desde Jesus Cristo até aos nossos dias, a existência da Confissão auricular vem atestada de uma maneira irrecusável. A Confissão auricular e sacramental subsistiu e subsistirá sempre, porque é de criação divina; a confissão pública, que era de origem eclesiástica, já não tem lugar, porque já não existem mais as razões que a haviam feito estabelecer essa prática.

Quando Jesus veio à terra, diz o autor das Recherches, já encontrou a Confissão estabelecida, e, ao impor aos seus discípulos a obrigação de confessar-se, não deu uma lei nova, e não fez mais que confirmar e aperfeiçoar uma lei já existente: Non veni legem solvere, sed adimplere (Mt 5, 17). Assim como elevou ao rito do Matrimônio à dignidade de Sacramento, da mesma maneira eleva à semelhante dignidade o rito da Confissão. Agregou graças especiais à Confissão, fazendo-a parte essencial do Sacramento da Penitência. Isto explica como o preceito da Confissão não provocou nenhum murmúrio, nem entre os Judeus, nem entre os Gentios: estavam acostumados a ela, e nada lhes parecia mais natural: uma tradição tão constante e universal fazia-lhes sentir naturalmente sua necessidade indispensável.

Necessidade da Confissão

Os pecados serão perdoados àqueles a quem os perdoardes, diz Jesus Cristo a seus Apóstolos (Jo 20, 23). Por conseguinte, se nós queremos obter o perdão de nossos pecados, é preciso confessá-los. Jesus Cristo não promete sua graça, nem o Céu, senão com esta condição: Aquilo que desatares na terra ficará desatado nos céus (Mt 16, 18). E como não há outro meio para desatar que não seja a Confissão, posto que somente a ela Jesus Cristo vinculou a libertação da alma, resulta, por conseguinte, que a Confissão é necessária. A Confissão é necessária para humilhar-nos, para lançar para longe de nós o pecado e expiá-lo.

Deus confiou-nos o ministério da reconciliação, diz São Paulo (2 Cor 5, 18). É, pois, preciso acudir aos Sacerdotes, se queremos reconciliar-nos com Deus.

Se confessarmos nossos pecados, diz o Apóstolo São João, fiel e justo é Ele para perdoar-nos: Si confiteamur pccata mostra, fidelis est justus, ut remittat nobis peccata nostra (1 Jo 1, 9). Se confessamos nossos pecados, é, pois necessário confessar-nos. Não diz o Apóstolo: Se orais, se jejuais, Deus perdoará vossos pecados; senão: Se confessais vossos pecados… Por conseguinte, Deus vinculou a remissão dos pecados somente à Confissão.

Para apoderar-se da cidade de Betúlia, Holofernes mandou que cortassem o canal que levada água para dentro dela: Holofernes, dum circuit per gyrum, reperit quodfons qui influebat, et inciditproecipit aquaeductum illorum (Jud 7, 6). A Confissão é o único canal por onde chega ao homem a água da graça e do perdão. Por conseguinte, sem Confissão, não há graça, não há perdão, não há Céu.

A respeito das palavras do Salmo 99, 4: Introite portas ejus in confessione, diz Santo Agostinho: o profeta indica que ninguém pode chegar à porta da misericórdia de Deus senão pela Confissão de seus pecados: Ostendens adportas misericordia non nisi per confessionem peccati aliquem posse pertingere (In Psalm.).

Deus, diz o mesmo Doutor, criou o justo, e o homem produziu o pecador. Pecadores, destruí o que fizestes, a fim de que Deus salve o que Ele fez. É necessário que abandoneis em vós a vossa obra, para que ameis em vós a obra de Deus. Quando começardes por detestar o que haveis feito, o bem nascerá em vós com a Confissão de vossos pecados; o princípio das boas obras é a declaração dos males (Tract. XII. in Johann.).

Depois do batismo, diz São Bernardo, não tem o homem outro remédio de que valer-se que não seja a Confissão: Post baptismum, nullum aliud est remedium quam confessionais refugium (Epist.).

Confessai vossos pecados uns aos outros, diz o Apóstolo São Tiago (Tg 5, 16). Jesus Cristo disse a seus Apóstolos: Ide e instruí a todas as nações no caminho da salvação, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo: ensinando-as a observar todas as coisas que Eu vos ordenei. E estai certos de que Eu mesmo estarei continuamente convosco até a consumação dos séculos: Euntes docete omnes gentes, bapitzantes eos in nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti: docentes eos servare omnia quaecumque mandavi vobis. Et ecce ego vobiscum sum omnibus diebus usque ad consummationem saeculi (Mt 18, 19-20).

Também disse aos setenta e dois discípulos, segundo refere-nos São Lucas: Aquele que vos escuta a mim escuta; e aquele que vos despreza a mim despreza; e quem me despreza rejeita Aquele que me enviou: Qui vos audit, me audit; et qui vos spernit, me spernit: qui autem me spernit, spernit eum, qui missit me (Lc 10, 16).

Tende por pagão e publicano a todo aquele que não escuta a Igreja: Si autem Ecclesiam non audierit, sit tibi sicut ethnicus etpublicanus (Mt 18, 17).

A Igreja, sagrada Esposa de Jesus Cristo, recebeu de seu divino Esposo todos os poderes que Ele mesmo tinha, e, por conseguinte, o de fazer leis. Mas, eis aqui uma daquelas que fez e mandou observar, sob pena de pecado mortal:

“Confessarás todos os teus pecados, ao menos uma vez por ano”.

Diz o Concílio de Trento:

É tão necessário o sacramento da Penitência para a salvação dos que caíram depois do Batismo, como o é o Batismo para os que ainda não o receberam: Est autem hoc sacramentum Poenitentiae lapsis pos baptismum ad salutem necessarium, ut nondum regeneratis ipse batismus (Sess. XVII de Poenit., c. II).

Se alguém nega, diz o mesmo Concílio, que a Confissão Sacramental seja necessária, por direito divino, para a salvação, seja excomungado: Si quis negaverit confessionem sacramentalem ad salutem necessariam esse jure divino, anathema sit (Sess. XIV. de Poenit., c. VI). A Confissão é, portanto, necessária, e aquele que não obedece a este preceito despreza a Igreja; é anátema!

Sempre existiu a Confissão, diz o abade Gaume; e, ademais, sempre compreendeu-se a Confissão como o único meio[2] de obter a remissão dos pecados. É mesmo impossível que haja outro! Com efeito, se houvesse na Religião outro meio distinto da Confissão para voltar à graça com Deus, se bastasse, por exemplo, humilhar-se em sua presença, jejuar, orar, dar esmola, confessar-Lhe a falta no segredo do coração, o que sucederia? Que ninguém se confessaria! E quem será bastante simplista de ir a solicitar, com tom suplicante, aos pés de outro homem, uma graça que tão facilmente poderia ser obtida sem a ajuda deste, e apesar deste mesmo homem? De dois meios, os homens escolheriam sempre aquele que mais facilmente conciliaria de modo admirável os interesses da salvação e os do amor próprio. Se assim o fosse, a que ficaria reduzida a Confissão estabelecida pelo próprio Jesus Cristo? Ela cairia em desuso e ficaria sem honra nem efeito no mundo. O que seria do magnífico poder que Ele deu a seus ministros de perdoar ou reter os pecados? Não é evidente que este poder tão admirável e tão divino tornar- se-ia ridículo e completamente ilusório, posto que ele jamais poderia ser exercido?

Assim é que ou há obrigação para todos os pecadores de confessarem seus pecados aos Sacerdotes, ou, talvez, Jesus Cristo enganou seus Sacerdotes dizendo- lhes: Os pecados serão perdoados àqueles a quem vós perdoeis e serão retidos àqueles a quem vós retenhais… Jesus também teria enganado a São Pedro quando lhe disse: Eu te darei as chaves do Reino dos Céus. De que serviria ter as chaves do Céu, se se poderia entrar nele sem estar aberto por seu ministério?

Já vedes que, se a Confissão não fosse o único meio, o meio indispensável de obter o perdão dos pecados, as palavras do Filho de Deus seriam insignificantes, falsas e mentirosas. Blasfêmia horrível que equivaleria a negar a mesma Divindade de Jesus Cristo (Catech. de Persev., art. Confess.).

Para prescindir da lei da Confissão, acrescenta Gaume, é mister desafiar não somente a autoridade de Jesus Cristo e a da Igreja, senão também a autoridade do senso comum; é preciso afogar a voz da natureza que grita a todos os culpados: não há perdão sem arrependimento, e não há arrependimento sem a Confissão da falta (Ut supra).

O Sacramento da Penitência é necessário, por necessidade de meio e de direito divino, a todos aqueles que perderam a inocência de seu Batismo, fazendo-se culpáveis de algum pecado mortal; e ele é o único meio que Deus deixou à sua Igreja para reconciliar-nos.

Facilidade da Confissão

Meu jugo é suave, e leve minha carga, diz-nos o Salvador; e é na Confissão, sobretudo, onde tem aplicação estas palavras. Podia Nosso Senhor Jesus Cristo manifestar-se mais indulgente? Depois de um pecado mortal merecemos o Inferno, isto é, suplícios inauditos, eternos, sem alívio. Ele podia colocar para nosso perdão qualquer condição que houvesse querido; e certamente, tratando-se de evitar o Inferno, nenhuma condição nos seria dura. Assim, pois, não seríamos injustos se achássemos que, obrigando-nos a confessar nossos pecados a seu ministro, Deus pôs muito caro seu perdão? Ser-nos á fácil julgar a questão com a seguinte suposição:

Um homem do povo foi admitido à corte de um príncipe poderoso. Nada faltava à sua felicidade: honras, riquezas, prazeres, tudo lho concedia a munificência daquele monarca. Tantos benefícios acabaram por inspirar um afeto sem limites e um amor inviolável do plebeu pelo rei. Entretanto, não aconteceu assim. Arrastado por uma paixão abjeta qualquer, o ingrato cometeu contra seu benfeitor um crime enorme, que, na verdade, não chegou a divulgar-se em público; porém, sim, chegou ao conhecimento do príncipe com todas as provas mais cabais da evidência. Então, o rei, usando do direito que tinha de castigar, pronunciou a sentença de culpável. Pálido, aterrorizado e com os olhos baixos, o desgraçado foi conduzido ao lugar do suplício. Já o verdugo tinha a espada levantada sobre sua cabeça… tudo ia concluir-se. O ingrato já ia morrer, sofrendo o justo castigo de seu crime, quando, porém, de repente, uma voz sonora, deixa ouvir um grito penetrante: “- Graça! Graça, da parte do rei!” Vede como aquele homem renasce à vida! Apenas atreve-se a crer no que escuta, e logo seu coração dilata-se de alegria! O enviado do rei se aproxima do culpado e diz-lhe: “— Meu bondoso senhor rei, sim, concede-vos o perdão, porém quer que declareis vosso crime a um de seus ministros, sem omitir a menor circunstância. É a única condição que vos impõe sua generosidade monárquica: elegei entre o suplício e este meio de salvação. Ouvi o culpado como transportado de uma nova alegria, que exclama pressuroso: “- Ah, …dizei-me onde está este ministro, estou disposto a confessar tudo”. E ainda está a falar, pois, quando chega o segundo enviado gritando: “- Graça! Graça, da parte do rei!” Aproxima-se do culpado e diz-lhe: “— Meu amo é bom, e em prova de sua régia clemência, ele vos permite eleger entre todos os seus ministros aquele que mais confiança vos inspire a vós ”. Lágrimas de enternecimento correm abundantemente dos olhos do culpado, e ainda não consegue responder quando chega um terceiro enviado gritando: “- Graça! Graça, da parte do rei!” E aproximando-se do culpado, diz-lhe: “— Meu senhor rei é bom. Não somente vos permite eleger entre todos os seus ministros aquele que mais confiança vos inspire, senão que obriga o ministro, ao qual elegeres, a que guarde o mais absoluto silêncio sobre tudo quanto tu lhe confiares, sob pena de ele mesmo vir ocupar vosso lugar neste cadafalso. Se aceitais tal condição, o rei, meu amo, esquecerá para sempre vossa falta, devolver-vos-á suas boas graças, vossas honras e dignidades, e ele vos destinará uma moradia em seu palácio, e um lugar próximo dos degraus de seu trono. Julgai, portanto, quais seriam os novos transportes do réu, e as bênçãos que multidão dirigiria ao generosíssimo monarca. Esta é toda a história da Confissão! Quem se atreverá a dizer que é um jugo penoso? (Goume, Cathec. de Persev., art. Confess.).

Jamais, diz o mesmo autor, pode se encontrar nada tão terno, tão paternal, tão sublime, tão próprio para reformar os costumes, tão misericordioso, como a maneira com que se verifica a reconciliação do homem com Deus no tribunal da Penitência.

Aqui, é verdadeiramente onde todos, segundo a palavra do Profeta, encontram a misericórdia e a verdade, as quais se abraçam, como duas irmãs separadas desde muito tempo, à justiça e à paz: Misericordia et veritas obviaverunt sibi, justitia etpax osculate sunt (Sl 84, 11).

Quereis saber quanta felicidade e doçura encontra-se neste beijo de reconciliação que o Criador se digna dar à sua criatura? Comparai os tribunais humanos com o Tribunal de Deus. Quando um homem é acusado de um crime, a justiça humana põe seus agentes em sua perseguição; já não terá dia sereno, já não terá noite tranquila aquele desgraçado. Vê-se obrigado a ocultar-se sempre, aterrorizado ao menor ruído, até que lhe detenham. Então, o sobrecarregam de cadeias. Arrastado ignominiosamente de cárcere em cárcere, chega ao lugar onde deve se pronunciar o juízo. Sobre o tribunal, a cujos pés vai bem prontamente comparecer, estão escritas estas duas terríveis palavras: Justiça, castigo… Chega o dia do juízo, e se apresenta um aparato formidável. Diante do culpável estão os juízes, que bem podem castigá-lo, porém, não lhe podem perdoar; a seu lado, estão as testemunhas e os acusadores, e encima de sua cabeça, por si, se lhe reconhecendo culpável, está já uma espada ensanguentada. Ainda que não lhe condenem à morte, vislumbra já em perspectiva penas infamatórias, cadeias que durarão talvez tanto como sua vida, a desonra, e sua separação perpétua ou temporal de tudo o que mais quer neste mundo. E com tudo isto, tornar-se-á ele um homem melhor? Ai de mim, não sucederá isso! Tal é a justiça humana!

Muito diferente é a Justiça Divina! Mesmo que castigue na terra, Deus não se despoja nunca de sua qualidade de Pai. Por isso, se um homem, quer dizer, se algum de seus filhos ofendeu-O, Ele envia-lhe o remorso. Este mensageiro de Deus entra no coração do culpável, fixa-se nele, e insiste-lhe sem descanso com seu aguilhão. Pouco a pouco, o culpável, cansado, detém-se, e entra em reflexão consigo mesmo. Então, deixa-se ouvir uma voz mais doce que a do arrependimento. Misturando-lhe ternas recordações mescladas com o triste pensamento de seu estado presente. A vergonha e o temor apoderam-se de sua alma, e preparam a chegada da esperança. De repente, palavras doces como as de uma terna mãe, de uma mãe gemente, ressoam em seu coração: Vem a mim, vem tu que sofres, tu que estás carregado com um peso que se subjuga; vem, e eu te aliviarei: Venite ad me omnes, qui laboratis, et onerati estis, et ego reficiam vos (Mt 15, 28). E estas palavras saem dos lábios do mesmo Juiz. O ofensor já não teme, já se dirige guiado pelos remorsos, pelo arrependimento e pela esperança, até a casa de Deus. Diante de tal homem, está um tribunal sobre o qual a fé lê está consoladora inscrição:

À Misericórdia!

Ali não há penas infamatórias, não há cadeias, não há galeras, não há cadafalso. Neste Tribunal está sentado um juiz que é mais que um homem; porém, não é um Anjo… ele também necessita da misericórdia. É o vigário da caridade de Jesus Cristo, revestido com Suas entranhas de compaixão. Não tem nos lábios mais que bênçãos, palavras de estímulo e orações. De seus olhos correrão imediatamente lágrimas sobre o culpável arrependido. Ali, não haverá testemunhas intrusas, nem acusadores apaixonados; o culpável será a testemunha e o acusador de si mesmo; será bastante o seu testemunho (Catech. de Perserv., art. Confess.).

Lei doce! Deus não pede mais que a Confissão. Lei sublime! Ele não admite violência, não admite tormentos. O penitente é o acusador, a testemunha, o juiz, o executor de si mesmo. Lei misericordiosa! Deus, pelo contrário, não necessita mais que uma declaração para absolver. Pensamento admirável! Se houvesse ofendido a um simples mortal, não alcançaria assim o perdão. O meu Deus, a Quem tanto ultrajei, abre-me o Céu e me faz entrar nele: todas estas graças incomparáveis obtém-se com uma simples Declaração!

Nos tribunais dos homens, diz São João Crisóstomo, a confusão e o castigo são a consequência de uma declaração; porém, no Tribunal da Penitência, que é o tribunal de Deus, depois da declaração vem a justiça, o perdão e a recompensa: In externis judiciis, post confessionem, confusio et poena, in divino, justitia, merces et absolutio (Homil. ad pop.).

Para ganhar um pleito, quantos passos, quantas viagens, quantos suores, quantas penas e cuidados! E, muitas vezes, perde-se. Para obter o perdão de nossos pecados, para nos colocarmos em ordem com Deus, para pagar-Lhe as imensas dívidas contraídas, não se necessita mais que uma Declaração!

Se um credor se contentasse com que lhe declarassem a dívida que contraíram com ele, qual é o devedor que se atreveria a queixar-se? Tal é conduta inefável de Deus no que diz respeito aos pecadores. E há quem se queixe de que Deus é demasiado severo! Se aquele que naufraga considerasse demasiado penoso colocar-se sobre a única tábua que o pode salvar, não o tomariam por louco? A Confissão é a tábua depois do naufrágio.

“A Confissão é demasiado penosa!…”, dizeis. Porém, temos que tratar com um amigo, com um padre… Abençoai-me, meu padre, porque pequei!…

“A Confissão é demasiado penosa!…”, porém, confessamo-nos a um pobre pecador que também necessita de indulgência; como poderia recusar? Confessamos nossas faltas a um só homem, e estamos seguros do segredo! Como? Descarregar nossa consciência, reconciliar-nos com Deus, recobrar a vida da alma, fechar o Inferno, afugentar o demônio, fazer-nos livres, reparar nossas perdas, pagar nossas dívidas, achar a paz, subir ao Céu, obter tantas riquezas, tanta felicidade com uma simples declaração; e, logo, teríamos a ousadia para dizer que esta declaração é demasiado penosa?! Ah, não há nisto trabalho algum. O trabalho está na perda da graça da alma, na perda de Deus e da eternidade. Porém, basta confessar que perdemos tudo isso por causas de nossos pecados para voltarmos a recobrar tão inestimáveis tesouros.

EXCELÊNCIAS E VANTAGENS DA CONFISSÃO

1.° Manifestações dos ímpios

Não há nenhuma instituição mais sábia que a Confissão, diz Voltaire. A maior parte dos homens caiu em grandes crimes; logo, têm remorsos. A Confissão é uma coisa excelente, um freio contra os crimes inveterados. Na mais remota antiguidade, eles confessavam-se durante a celebração de todos os antigos mistérios. É muito boa para obrigar os corações ulcerados pelo ódio a que perdoem, para fazer que os ladrões devolvam o que podem ter removido de seu próximo. Os inimigos da Igreja Romana, que reclamaram contra uma instituição tão saudável, parecem que desejam tirar aos homens o freio mais eficaz que se poderia colocar a seus crimes.

Escutai a outro escritor, também inimigo declarado de toda Religião, o autor da História Filosófica e Política do Comércio das Índias. Eis aqui o que diz a favor da Confissão: Os jesuítas estabeleceram no Paraguai o governo teocrático, porém, com uma vantagem para a Religião que constitui sua base: falo da prática da Confissão. Ela, sozinha, cura a falta de leis penais, e vela pela pureza dos costumes. No Paraguai, a Religião, mais poderosa que a força das armas, conduz o culpável aos pés do magistrado. Ali é onde, longe de atenuar seus crimes, o arrependimento os agrava; em vez de evitar o castigo, vai solicitá-lo de joelhos; quando mais severo e público, mais devolve a calma à consciência do criminoso. Assim, o castigo que, em todas as demais partes, assusta aos culpáveis, é aqui um consolo, afogando os remorsos com a expiação. Os povos do Paraguai não têm leis civis, nem leis criminais; todas as suas leis são preceitos de Religião. O melhor de todos os governos seria uma teocracia na qual se estabelecesse o Tribunal da Confissão.

2.° Sentimento dos Protestantes por haverem abolido a Confissão

Mais de uma vez, os protestantes se arrependeram de ter abolido o uso da Confissão. Os de Nuremberg enviaram uma embaixada a Carlos V para suplicar que tomasse a estabelecê-la entre eles, como meio único de prevenir a total ruína da República.

Os de Strasburgo quiseram voltar a pô-la em uso; e tinham razão1 Seria necessário muitos volumes se quiséssemos contar todas as desordens prevenidas e reparadas pela Confissão, as más paixões que lentamente minam a sociedade afogadas em seu gérmen, os ódios apagados, as restituições verificadas etc.

Atualmente, que um grande número de cristãos se subtraem ao cumprimento deste dever social, e o que vemos? Crimes que dão espanto, crimes que, a cada dia, repetem-se e, cada dia, publicam-se e leem-se com um horrível sangue frio… como notícias correntes; a desordem em todas as partes, os suicídios, as falências etc. A boa e frequente Confissão conteria todos esses e todos os demais crimes!

3.° Os indiferentes prestam homenagem à Confissão

Já sabemos, hoje, diz o abade Gaume, o que devemos pensar das virtudes e da honradez dessa gente sem religião, isto é, sem Confissão. Esta honrada gente fez a sociedade atual.

Julgai a árvore pelos seus frutos. Sem embargo, é uma coisa muito notável que todos, indiferentes e negligentes, não tenham mais que uma voz para prestar homenagem à Confissão. Aos olhos destes indiferentes que não a praticam, é eminentemente social. Vede quão satisfeitos estão de que se confessem suas mulheres, seus filhos, seus criados, seus colonos.

O distanciamento da Confissão em que eles mesmos vivem, é uma homenagem tributada à excelência da própria Confissão. Dizei-me, em que época, eles deixaram de praticá-la? Será que foi quando se tornaram mais virtuosos, mais probos, mais puros em seus costumes? Ah! Porventura não sabemos que a Confissão é abandonada senão quando querem se entregar a suas inclinações e viver na libertinagem? (Catéch. De Persév., art. Confess.).

4.° Vantagens da Confissão relativamente à sociedade e aos bons costumes

Donde pensais que procedem todos os crimes que inundam a terra, turbam as famílias e destroem os impérios? Não é do coração do homem? Não é ali onde se concebem, preparam-se e amadurecem todas as malfeitorias de que todos os dias somos testemunhas ou vítimas? Para salvar a sociedade, para fazer reinar nela a boa fé, a justiça, o desinteresse[3], a pureza dos costumes, é necessário começar por fazer reinar todas estas virtudes no coração do homem. Porém, quem se apoderará dele? Quem penetrará até suas profundidades e dobras para purificá-lo e fazê-lo bom? As leis humanas podem opor muito bem algum dique à torrente; porém, não lhes é dado esgotar o manancial. As leis agem sobre as ações; porém, se lhes escapam os desejos e os pensamentos, princípios das ações. Somente à Religião está reservado este saudável poder. Porém, como ela o exercerá? Por qual caminho ela penetrará até o fundo do coração humano?

Sem dúvida alguma, a pregação é um meio para a Religião chegar ao coração do homem; porém, dirigindo-se o discurso a todos genericamente, não se o dirige a ninguém em particular. Cada um toma ou deixa daquele tesouro somente aquilo que lhe interessa, e segundo suas disposições ou também segundo seu grau de conhecimento.

Por outro lado, o amor próprio, tão hábil em enganar-nos, impede-nos, muitas vezes, de conhecer aquilo que é dito para nós; e, ainda mais, com frequência acontece que nos falta o valor para fazer-nos uma generosa aplicação do que ouvimos. Daí vem a inutilidade desgraçadamente tão genérica hoje em dia, do discurso público[4] para a reforma de nossos costumes.

Que meio resta, então, à Religião para levar o remédio até o fundo de nossas chagas? Ah! Vós o nomeastes, vós o nomeastes talvez aterrorizado: tanta eficácia tem! Este remédio é a Confissão. Ali, no segredo do Tribunal Sagrado, o coração humano se descobre sem receio. Ali, o sacerdote, homem de Deus, defensor incorruptível dos direitos divinos; o sacerdote, amigo firme e sincero do culpável; o sacerdote, médico, une a todos os meios de conhecer o enfermo toda a autoridade para aplicar o remédio às suas chagas. Queima, corta e separa, sem respeitos humanos e sem dó tudo o que está gangrenado; e, assim, como não respeita nada, tampouco respeita a fibra delicada, a paixão favorita que, a fim de escapar-se da destruição, oculta-se nas últimas dobras da consciência.

Conhecido e confessado o mal, o Confessor pensa, então, na cura; e, eis-lhe aqui dedicado a destruir os pensamentos falsos, as afecções desregradas do homem velho, consequentemente antissociais, substituindo-os pelos pensamentos verdadeiros, pelas afecções santas do homem novo.

Em uma palavra, ele comunica ao espírito e ao coração uma vida nova, virtuosa, e, portanto, social. Chegam, logo, os avisos perfeitamente apropriados ao atual estado do penitente, porque o Confessor o conhece e trará de resguardar seu coração, ainda tão débil, de novas recaídas. Assim é como a Confissão aplica e apropria a Religião às necessidades de cada homem; assim é como planta-a no coração do indivíduo, e, por conseguinte, no coração mesmo da sociedade. Assim é como, no Tribunal da Penitência, o sacerdote é o homem da sociedade, o defensor mais útil de seus interesses, o grande reparador de seus males.

Encontrai-me um só interesse público ou privado, moral ou material, que a Confissão não proteja, e não proteja mil vezes com maior eficácia que os magistrados armados com toda a autoridade das leis humanas.

1.° Ela protege a santa autoridade dos pais e dos reis contra a insubordinação dos filhos e dos povos; protege a vida moral e até física dos filhos contra a negligencia e o mal querer dos pais;

2.° protege a inocência, a reputação, a propriedade, a vida, a tranquilidade de todos contra as paixões culpáveis que lhes ameaçam, paixões cujo germe acha-se no coração de todos os filhos de Adão.

Sim, homens cegos que tendes a desgraça de não mais vos confessardes; pais, mães, amos, negociantes, ricos e pobres, jamais sabereis tudo o que deveis à Confissão.

Desde faz certo tempo que talvez a desonra teria manchado o objeto para vós mais querido, a calúnia teria feito murchar vosso nome, a injustiça teria arrebatado vossa fortuna, e uma taça de amarguras teria azedado vossa vida, sem a Confissão.

Que digo? Sem a Confissão, quiçá alguns daqueles que zombam dela e a desprezam, jamais teriam visto a luz do dia. Quem quer que sejais, podeis dizer que não sois deste número?

Não existe sociedade sem crenças e sem costumes; não há crenças nem costumes sem a religião; não há religião verdadeiramente eficaz sem sua aplicação à sociedade; não há aplicação real e verdadeiramente eficaz da Religião à sociedade sem Confissão. A prova é que o primeiro dever que se despreza quando querem se livrar da Religião, é a Confissão. Sabem que ela é a que põe o Cristianismo em contato real e eficaz com nosso coração. É, portanto, em nosso coração é onde se acha o manancial da felicidade ou da desgraça da sociedade. A Confissão, que é tão poderosa e, atrevemo-nos a dizê-lo, que é a única que pode curar o coração, é, pois, eminentemente social (Catech. de Persév., art. Confess.).

5.° A Confissão cura o orgulho

O orgulho é o primeiro de nossos vícios, o manancial de todos os demais pecados, o princípio de nossas desgraças. O orgulho somente pode se curar por meio da humildade, e a humildade não se pode produzir senão por meio da humilhação.

O ato mais humilhante para o homem degradado é o relato franco e completo de sua vida e de seus pensamentos, de seus desejos, de suas palavras, de seus olhares, de suas ações e omissões. A Confissão é este relato. Assim, pois, de todos os meios existentes para destruir nosso orgulho, o mais eficaz é a Confissão. Jesus Cristo nos amava demasiadamente, queria demasiado sinceramente nossa regeneração para esquecer de entregar-nos este tão saudável remédio. Por isso, estabeleceu a Confissão.

6.° A Confissão instrui ao homem

No Confessionário compreende o homem sua grandeza e sua pequenez, e instrui-se nos deveres de seu estado. No segredo do Tribunal Sagrado é onde o confessor, amigo prudente, firme, incorruptível, experimentado, faz penetrar seu olhar profundo e iluminado pela fé, até o fundo do coração da infância, da adolescência, da idade madura e da velhice; porque há lições de sabedoria para todas as idades… e remédios para todos os males.

Ele vê, indaga, descobre os artifícios das paixões, assinala ao penitente uma multidão de víboras nascentes que o amor próprio, a inexperiência, a irreflexão ou a preocupação impedem-lhe de distinguir, e que, não obstante, cresceriam rapidamente e rasgaria suas entranhas.

Ele põe o pecador em estado de alerta, qualquer que seja sua idade ou sua posição, contra uma multidão de ilusões e máximas perigosas. Com mão firme, traça para cada estado a linha de seus deveres, e assegura seus passos na senda da virtude, que nesta vida também é a senda da felicidade.

Que coisa, dizei-me, que coisa pode substituir a essas saudáveis lições? Nem um pai, nem uma mãe, nem o amigo costumeiro conhecem o mais íntimo do coração de seu filho ou de seu amigo. Há segredos que o homem não pode nem quer revelar a ninguém mais senão a Deus.

Por isso, Marmontel, pleno de admiração antes os felizes efeitos da Confissão, exclamava no último século: Que maior defesa para a moralidade da adolescência que o uso e a obrigação de ir todos os meses à confessar!

Quanto não é, pois, o poder da Confissão entre os Católicos!, exclamava Tissot, protestante e célebre doutor em medicina (Catech. de Persev., art. Confess.).

O Senhor ilumina aos cegos, diz o Salmista: Dominus illuminat coecos (Sl 145, 8). No Tribunal Sagrado é, sobretudo, onde tem cumprimento estas palavras do Profeta.

Apressem-se a submergir-se no banho saudável da penitência os que queiram iluminar-se, diz São Gregório: Festinent ad lavacrum qui lumen inquirunt (Moral.). Ali, com efeito, é onde se vê o mal que temos feito, e o bem que temos omitido; ali é onde se acha o remédio para todos os males.

7.° A Confissão reabilita ao homem

Não somente a Confissão instrui ao homem na arte de combater a seus inimigos, e de conhecer seus deveres, senão que o reabilita a seus próprios olhos quando foi culpado, e doa-lhe o valor da virtude.

Vede o que passa na criança ou no jovem, sobretudo no momento em que comete o primeiro pecado. Que amarga é, ó grande Deus, a fruta que ele acaba de provar! Já estou murcho, diz, faltei a todas as minhas promessas; a veste de meu batismo está manchada; a aliança de minha primeira comunhão está quebrada. Jesus Cristo não está mais em meu coração, já não sou seu filho, e desonrei-me a mim mesmo aos olhos dos Anjos.

O desgraçado desonrou-se aos seus próprios olhos. E não pode mais descer ao fundo de si mesmo sem envergonhar-se. E vede, ai, que se põe triste, pesaroso, insuportável a si mesmo e aos demais; aproxima-se a noite, e tem medo de morrer; aparece o dia e encontra-se envenenado de remorsos. Oh, que digno de lástima! Que será dele? O espírito tentador, que lhe havia prometido felicidade para comprometer-lhe a ser culpável, de repente, muda o ritmo de suas baterias.

Para fixar o homem no mal, o tentador amplia aos olhos do pecador a enormidade de sua falta, aumenta a vergonha, exagera-lhe as dificuldades do perdão, e, sobretudo, manifesta-lhe a impossibilidade absoluta em que se acha de tornar a conquista a virtude inteira. E, então, um grande pesar apodera-se de seu coração, e desanima-se; sucedem novas quedas, perde a esperança de poder romper suas cadeias e, cansado de lutar, abandona-se a toda a fogosidade de suas paixões. E eis aqui como vêm as lágrimas em uma família, escândalos na sociedade, enfermidades vergonhosas, uma velhice prematura, e, prontamente, talvez, mais outro suicídio. Percorrei as cidades e campos, aprofundai no segredo da vida, e dizei-me se não é esta a história contemporânea, a história de cada dia!

Mas, qual a causa o homem é devedor para ver-se, enfim, reduzido a este triste estado? Aos poucos esforços que ele faz para reconquistar a virtude, ao desespero por não poder corrigir-se e converter-se. Porém, oferecei-lhe um meio seguro e fácil de reabilitação, e devolver-lhe-eis seu valor, e salvar-lhe-eis: este meio é a Confissão.

Desde o momento em que o emprega, as paixões ficam destruídas, mudam-se os seus costumes, e seu coração está satisfeito: já é outro homem! Quantos grandes milagres da graça veem-se na Confissão (Catech. de Persev., art. Confess.).

8.° A Confissão é uma estaca que esmaga a cabeça da serpente

A Confissão enerva todas as forças do demônio, descobre todas as suas fraudes, põe às claras todas as suas astúcias e sua malícia, discute e resolve todas as dúvidas que ele sugere.

O que é a Confissão, pergunta São Gregório, senão a abertura das feridas? Arrastado para o meio da claridade do dia pela virtude da Confissão, posto a descoberto e pleno de vergonha, o demônio empreende a fuga: Quid est peccatorum confessio, nisi vulnerum ruptio? Diabolus virtute confessionais pertractus ad lucem, et traductus, ac dehonestatus, discedit (Moral).

Podem muito bem aplicar-se ao poder da Confissão aquelas palavras do Gênesis concernentes à Virgem Maria: Ela esmagará a cabeça da serpente: Ipsa conteret caput tuum (Gn 3, 15).

9.° A Confissão livra da escravidão e devolve a verdadeira liberdade

Aquele que faz uma boa Confissão pode dizer a Deus com o Salmista: Senhor, rompestes minhas cadeias: Ditupisti vincula mea (Sl 115, 16). Nossa alma conseguiu a liberdade como o pássaro livre da armadilha do caçador; a armadilha rompeu-se, e escapamos: Anima nostra sicutpasser erepta est de laqueo venatium; laqueus contritus est, et nos liberati sumus (Sl 123, 7).

Desatai a Lázaro, disse Jesus Cristo, e deixai-o caminhar: Solvite eum, et sinite abrire (Jo 11, 44). Este é o milagre que se verificará na Confissão. O que desatares na terra será desatado nos Céus, disse Jesus Cristo a seus Apóstolos, instituindo o sacramento da Penitência. Neste Sacramento, pois, rompem-se todas as correntes, fica aberto o cárcere, destruída a escravidão e concedida a verdadeira liberdade.

Assim o ensinava São Paulo: Ali é onde deixando o opressor peso do pecado, tomamos alento para correr ao combate, ganhar a vitória e subir ao Céu: Deponentes omne pondus, et circunstans nos peccatum, perpatientiam curramus ad propositum nobis certamen (Hb 12, 1). Ali é onde o Senhor rompe as cadeias dos cativos, diz o Salmista: Dominus colvit compeditos (Sl 145, 7).

10.° Pela Confissão obtemos o perdão de todos os nossos pecados

Por meio da Confissão, diz São Cipriano, desempenhando o pecador as funções de juiz e de executor da justiça ao perseguir-se e castigar-se a si mesmo, obtém o perdão de Deus. Porque Deus não julga duas vezes a mesma coisa: Confitendo, cum judicis et tortoris vices peccator assumit, semetipsum persequens, Dei veniam impetrat. Nque enim bis in isipsum judicat Deus (De Sacram.).

Se confessarmos nossos pecados, diz o Apóstolo São João, Deus é fiel e justo, e no-los perdoará: Si confiteamur peccata nostra, fidelis est et justus, ut remittat nobis peccata nostra (1 Jo 1, 9).

Com a Confissão, diz o venerável Beda, Deus perdoa os pecados cometidos; ajuda ao penitente a não voltar a cair neles, e conduz-lhe à vida em que será impossível pecar: Tollit dimittendo quae facta sunt, et adjuvando ne fiant, et perducendo ad vitam, ubi omnino fieri non possunt (In Evang.). Senhor, diz o Rei Profeta, haveis perdoado os crimes de vosso povo; cobristes com um véu suas iniquidades; apaziguastes vossa indignação, e tendes acalmado o ardor de vossa cólera[5]. A Confissão cura, a Confissão justifica, diz Santo Isidoro; realiza a remissão de todos os pecados. Não há pecado, por grave que seja, que não fique perdoado com a Confissão.

Davi declara ao profeta Natã: Pequei contra o Senhor; e, no mesmo instante, Natã diz da parte do Senhor: O Senhor vos perdoa, não morrereis (II Reg. XII, 13).

Hugo de São Vitor chega até a dizer: Se o demônio se confessasse, obteria o perdão (Lib. de Claustro Animae). Porém, o que não está permitido ao demônio, é possível ao pecador, o qual deve estar seguro de obter graça.

11.° A Confissão purifica

A Confissão purifica de toda mancha a alma e coração: Purgationem peccatorum faciens (Hb 1, 3). O Sangue de Jesus Cristo purifica-nos de todo pecado, diz o Apóstolo São João: Sanguis Jesu Christi emundat nos ab omni peccato (1 Jo 1, 7). Aproximemo-nos, diz São Paulo aos Hebreus, aproximemo-nos a Jesus Cristo com um coração sincero, e uma fé perfeita, o coração purificado das manchas da má consciência, com uma aspersão interior; e o corpo lavado na água pura (Hb 10, 22). Esta aspersão, esta água pura é a Confissão[6].

Diz-se, no Apocalipse, que o Senhor conduzirá os eleitos à fonte das águas da vida: Deducet eos ad vitae fontes aquarum (Ap 7, 17). Esta fonte das águas da vida é a Confissão. Bem-aventurados aqueles que lavam suas vestes no Sangue do Cordeiro, acrescenta o Apocalipse: Beati qui lavant stolas suas in sanguinie Agni (Ap 22, 14). Mas, no Banho Sagrado da Penitência é onde nos lavamos com o Sangue do Cordeiro.

Segundo os intérpretes, a fonte do Batismo chama-se, nas Sagradas Escrituras fonte selada: Fons signatus (Ct 4, 22). Uma vez, lavai-vos nelas e, logo, fecha-se, é selada, e não há meio de retornar ali novamente. Porém, temos na Igreja outra fonte, a respeito da qual está escrito no profeta Zacarias: Neste dia, no dia do Salvador, no dia em que a bondade aparecerá no mundo, haverá uma fonte aberta à casa de Davi e aos habitantes de Jerusalém para a purificação do pecador: In die illa, erit fons patens domini David, et habitantibus Jerusalem, in ablutionem peccatoris (Zc 13, 1).

Esta é a Confissão. Não é uma fonte selada que exclui para sempre àqueles a quem já recebeu uma vez; é uma fonte não somente pública, senão sempre aberta, e aberta para todos os que se apresentem; os pecadores podem achegar-se a ela todas as horas, a cada instante, podem os leprosos lavar-se em suas águas; ela é sempre muito saudável.

Havia, em Jerusalém, uma piscina ao redor da qual se agrupavam inumeráveis enfermos, cegos, coxos, paralíticos, aguardando o movimento da água. Porque um Anjo do Senhor descia, num indeterminado momento, à piscina e movimentava a água, e o primeiro que podia descer a ela quando estava agitada ficava curado de qualquer enfermidade que tivesse (Jo 5, 2-4). Esta piscina é a Confissão, com a notável diferença de que a piscina de Jerusalém não curava mais que uma vez ao ano, a um só enfermo, e ao corpo unicamente; enquanto que a piscina da Confissão cura sempre, e cura a todos os enfermos, e a todas as chagas da alma, que são infinitamente mais terríveis e mais perigosas que as do corpo.

Ide, disse Jesus Cristo aos dez leprosos: ide e apresentai-vos aos sacerdotes; e, enquanto iam, ficaram purificados e sãos: Ite, ostendite vos sacerdotibus, et dum irent, mundati sunt (Lc 18, 14). Tais são os efeitos da Confissão.

12.° A Confissão dá formosura

O pecado mortal dá morte à alma; a Confissão perdoa-o, apaga-o, e devolve a vida da alma. De sorte que, a quem se confesse, pode-se aplicar aquela passagem do Apocalipse: Eu estava morto, ressuscitei e tenho em meu poder as chaves do inferno e da morte: Fui mortuus, et ecce sum vivens, et habeo claves mortis et inferni (Ap 1, 18).

Lázaro, vem para fora, disse Jesus Cristo, e, de repente, o morto levantou-se (Jo 11, 43-44). Com a absolvição, o sacerdote repete o mesmo milagre.

14.° A Confissão fecha o Inferno

Aquele que se confessa tem em suas mãos as chaves do inferno, e o fecha.

A Confissão apaga as chamas do Inferno, diz Tertuliano: Geenam exomologesis extinguit (Lib. de Paenit., c. IX). Ela destrói o pecado, que é o único responsável por ter feito o Inferno e por lançar ali os homens. A Confissão livra-nos da pena eterna que nossa prevaricação havia merecido. Aquele que não se confessa desce ao Inferno; porém, aquele que se confessa sai do Inferno para não voltar mais, caso persevere no caminho do bem.

A Confissão é o compêndio de todos os castigos, diz Santo Ambrósio: Confessio poenarum compendium est (Lib. II de Abel, c. IX).

15.º A Confissão dá a paz

Vós perguntais qual é o poder da Confissão? Seus efeitos estão perante vossa vista. Dando ao homem a consoladora certeza de que se lhe devolve a amizade com Deus, acalma subitamente sua alma agitada pelos remorsos; e a vida, que parecia não ser mais que um prolongado suplício, transforma-se em doce e tranquila, e a morte perde seu aspecto aterrorizante. Ó quão doce é poder confiar a um amigo fiel, incorruptível, afetuoso, os penosos segredos da consciência, nossas dívidas, nossas perplexidades, nossos temores, nossos pesares, e todas aquelas penas do coração que o mundo não saberia compreender nem aliviar! Vergonha para os católicos que abandonam a Confissão! Abandonam a paz e a ventura (Catech. de Persév., art. Confess.).

A paz verdadeira está na reconciliação com Deus; a Confissão procura esta inestimável felicidade.

A paz de consciência, os consolos interiores e celestiais que se experimentam em consequência de uma boa Confissão, provam que esta é uma instituição divina, animam para a prática da virtude.

16.° A Confissão abre o Céu

A Confissão é a chave do paraíso. Quando Jesus Cristo dizia a São Pedro: Eu te darei as chaves do Reino dos Céus, falava inclusive da Confissão. A Confissão conduz à porta do Céu e, abrindo-a, faz o pecador entrar.

17.° A Confissão faz-nos vigiar

A Confissão põe ao homem na feliz necessidade de velar por seus costumes; e esta vigilância previne o mal.

Com efeito, desde o momento em que nos propomos ir a confessar, já velamos sobre nossa conduta, e corrigimo-nos. Quando já nos tenhamos confessamos, perseveramos, ao menos durante algum tempo, no caminho do bem. Se nos confessássemos com maior frequência, nunca ou quase nunca, cairíamos em faltas graves; ou, caso nos acontece tal desgraça, prontamente nós voltaríamos a nos levantar.

18.° A Confissão adquire-nos todos os bens

Enfim, a Confissão adquire os maiores e mais preciosos bens. A Confissão acalma a ira de Deus; dá-nos a graça santificante; é o remédio de todas as tentações e de todos os pecados.

A Confissão dá a luz, o fervor, a força, a vida e a alegria.

A Confissão, diz São Bernardo, lava e purifica, faz nascer as boas obras, adorna a alma, santifica-a mais e mais; é a vida do pecador e a glória do justo (Epist.).

A penitência, diz Tertuliano, nasce da Confissão, e com a nossa penitência, Deus fica desarmado. A Confissão é a disciplina que humilha e derruba o homem orgulhoso; então, a misericórdia ocupa o posto outrora pertencente à maldição (De Poenit., c. IX).

Todas as faltas ficam lavadas pela Confissão, diz São Bernardo; purifica-se a consciência, desaparece a tristeza, o pecado é afugentado, a tranquilidade retorna. Renasce a esperança, e regozija-se o espírito: Omnia in confessione lavantur, conscientia mundatur, amaritudo tollitur, peccatum fugatur, tranquillitas reddit, spes reviviscit, animus hilarescit (Medit., c. XXXVII).

A primeira das desordens que o pecado produz, e que é a origem de todos as demais, é que separa o homem de seu Criador, e rompe a feliz união que deveria existir entre eles.

Vossos pecados, diz Deus por boca do profeta Isaías, vossos pecados são os que puseram a divisão entre vós e Eu.

Daqui nasce uma segunda desgraça: a alma, separada de Deus, perde prontamente todas as forças; acha-se abatida por uma languidez moral. Porém, o pecado não é tão somente uma enfermidade, é a profanação da alma. A união da alma com Deus santificava-a por uma espécie de consagração; rompendo esta união, o pecado profana-a e mancha-a. É uma lepra espiritual que não somente destrói as forças do homem, senão que o põe na categoria das coisas imundas.

Assim, pois, a Confissão repara estes três grandes males, fruto do pecado:

1.° reconcilia-nos com Deus e une-nos a Ele;

2.° cura-nos; e

3.° santifica-nos e consagra-nos.

Com uma boa Confissão ficam quebradas as cadeias do pecado, afugenta-se o demônio e fecha-se o Inferno; o céu se abre, o nome do penitente fica inscrito de novo com letras de ouro no Livro da Vida, e se lhe devolve sua veste de inocência; a Augusta Trindade olha-lhe com complacência, e os anjos estremecem-se de alegria. E vede aí como a alma encontra-se bela, pura e adornada, como no dia de seu Batismo; tem direito a esperar tudo! Com seus olhos umedecidos de lágrimas, o penitente vê a alguns passos o Banquete Eucarístico, e, mais longe, o festim eterno das Bodas do Cordeiro, ao qual está chamado, e no qual tem direito de sentar-se.

QUALIDADES QUE DEVE TER A CONFISSÃO

1.° Deve ser humilde

A Confissão deve ser humilde. Com efeito, o que é a Confissão? Não é nem um relato, nem uma história indiferente: é uma declaração de nossa culpabilidade. E de que somos culpados? De tudo aquilo que pode dar maior desassossego. O penitente deve ser humilde em seu exterior; deve se apresentar ao Tribunal Divino de modo decente e modesto, ajoelhado e em postura de um réu e de um suplicante; deve ser humilde no modo de declarar seus pecados, não responsabilizando aos outros, senão atribuindo-os unicamente a sua malícia pessoal, e aniquilando-se ante Deus no conhecimento de sua miséria e da necessidade que tem da infinita misericórdia.

Vendo a enormidade, o número de seus pecados, sua ingratidão para com Deus etc., o penitente deve ser humilde, não somente em sua atitude exterior, senão, sobretudo, interiormente.

O publicano e a Madalena deram-nos um formoso exemplo de Confissão humilde. Por isso, ambos obtiveram um imediato perdão de seus pecados.

Vede a Davi: confessa sua falta, pede perdão; prosternado por terra, reconhece e chora a sua desgraça; jejua, ora e, com uma profunda humildade, transmite a todas as gerações a manifestação de seus erros.

São Paulo confessa humildemente ao universo suas iniquidades. Com uma humildade profunda, Santo Agostinho, em seu admirável livro Confessiones, declara os seus pecados na presença do Céu e da terra.

A Confissão humilde exclui toda desculpa e pretexto, diz Santo Agostinho. Deus vos acusa; e, se vos acusais, Deus vos escusa: Si te excusas, Deus te accusat; et si te accusas, Deus te excusat (Confess.).

2.º A Confissão deve ser sincera

A segunda qualidade da Confissão é a sinceridade. É preciso confessar a falta tal como ela é, sem aumentá-la, sem diminuí-la, nem dissimular nada.

Pater, peccavi. Meu Pai, pequei, diz o filho pródigo. Eis aqui, diz Santo Ambrósio, a verdadeira Confissão feita a Deus, autor da natureza, modelo de misericórdia, e juiz da falta.

Quem quer que manifeste os pecados, sob cujo peso anda sobrecarregado, descarrega-se deles e previne toda acusação exterior, por mais justa que seja, posto que, desta forma, antecipa-se a qualquer acusador futuro. É vão vos propordes enganar Aquele que tudo vê; sem perigo, portanto, podeis declarar o que já sabeis que Ele conhece profundamente (De Poenit.).

Para operar o milagre da ressurreição de Lázaro, Jesus Cristo disse: Lázaro, vem para fora: Lazaro, veni foras. Enquanto o pecador oculta suas faltas, diz São Gregório, não sai da tumba; porém, dando-os a conhecer, ressuscita para a vida. Porque havereis de ocultar vossos pecados? Lançai fora este veneno que vos rói, essa víbora que vos devora; denunciai esta iniquidade que vos mata; e, então, o sacerdote confessor vos livrará e vos devolverá a liberdade (Lib. VII Moral.).

Aquele que foi mordido secretamente pela serpente, diz São Jerônimo, e acha-se infectado com sua peçonha, deve manifestar sua ferida; do contrário, está perdido. Para curar-se, o enfermo deve declarar ao médico sua enfermidade. Nada paralisa tanto os esforços de Satanás quanto o divulgar suas maquinações infernais; e nada alegra-o tanto como o que o ocultem e o disfarcem (In Eccl. c. X).

É tão asqueroso o demônio e tão horrível, que não quer mais que trevas; a claridade do dia o faz fugir. O mesmo sucede com o pecado, filho do demônio e tão feio quanto o próprio pai, trata de ocultar-se; e, desde o momento que lhe descobrem, desaparece.

Aquele que oculta seus pecados, dizem os Provérbios, não poderá ser dirigido; porém, aquele que os confesse e dos quais se arrependa, obterá misericórdia (Pr 28, 13).

As feridas fechadas, diz São Gregório, são mais cruéis e mais dolorosas do que aquelas que deixam escapar o pus por alguma abertura (Lib. VII de Moral).

Divulgarei minha iniquidade, diz o Salmista: Iniquitatem meam annunciabo (Sl 37, 19). Senhor, dei-vos a conhecer meu pecado: Delictum meum cognitum tibi feci (Sl 31, 5). Explicando estas palavras do profeta, Santo Agostinho, diz: Não ocultei meu pecado, senão que o descortinei, para que Vós o façais desaparecer; não o ocultei, para que Vós mesmo o oculteis; porque quando o homem o descobre, Deus o cobre; quando o oculta, Deus o manifesta; e quando o confessa, Deus o esquece: Nam, quando homo detegit, Deus tegit; cum homo celat, Deus nudat; cum homo agnoscit, Deus ignoscit (Serm. XXXVI).

Aquele que oculta seu pecado, diz Orígenes, conserva-o, e seu pecado o atormenta e afoga-lhe; porém, aquele que o acusa, expele-o, e consegue a sua cura (Homil. II, in Psalm. XXXVII).

Deus espera que confesseis sinceramente vossas faltas, diz Santo Ambrósio, não para vos castigar, mas para perdoar-vos; Ele não quer que o demônio vos insulte e lance-vos no rosto o haverdes ocultado vossos pecados. Adiantai-vos a este acusador, pois, acusando-vos vós mesmos, não se atreverá ele a se apresentar.

Se confessardes vossos pecados com sinceridade, ainda que houvésseis morrido, recobraríeis a vida. Acusar-se é tirar do demônio todo motivo de acusação; é quebrar os dentes deste leão furioso que sempre está pronto a lançar-se sobre sua presa (Lib. II de Poenit., c. VIII).

Por mais que o pecador seja aquele que se acusa, acrescenta Santo Ambrósio, começa a ser justo, posto que ele mesmo declara-se culpável. O pecado oculto converte-se em uma chama que devora; o pecado que confessamos, é um fogo que se apaga: Peccatorum morbus dum tegitur, inardescit, si confessionibus proditur, evaporat (In Psalm. XXXVII).

Aquele que confesse sinceramente seus pecados, dizem os Provérbios, e cuide de não voltar a cair neles, obterá misericórdia: Qui confessus fuerit, et reliquerit ea (peccata), misericordiam consequetur (Pr 28, 13).

A Confissão sincera faz o ofício de Deus, diz Tertuliano: arrependendo-se de seu pecado e confessando-o, o pecador julga-se a si mesmo e castiga-se; condenando-se e castigando-se, previne a cólera de Deus, e não Lhe deixa nada o que castigar[7].

Acrescenta-se que a Confissão sincera é a retratação do pecado, e, por conseguinte, a melhor disposição para obter o perdão. O pecador, fazendo a declaração sincera de seu pecado, revoga-o, condena-o, destrói-o e chega mesmo a aboli-lo em tudo o que dele dependa, porque, quando se arrepende, expulsa-o e detesta-o. Por esta razão, merece que Deus o perdoe e o apague com sua graça. Se o ocultas e o disfarças, sucede tudo em contrário.

Humilde e sincera, a Confissão apaga o pecado e restabelece a virtude; enquanto que a dissimulação deixa o pecado viver e, ao mesmo tempo, destrói toda virtude.

A Confissão de um homem que se arrepende é muito poderosa junto da misericórdia de Deus, diz Santo Agostinho: por ela, o pecador faz-se propício a Deus; caso negasse seu pecado, nem por isso impediria que Deus o conhecesse[8].

A Confissão sincera tem lugar, diz o mesmo Padre, quando a boca expressa os sentimentos do coração: Vera confessio est, cum idem est sonus oris et cordis (Sentent. CCXLI).

Enquanto ocultamos nossas faltas, somos escravos de Satanás. A Confissão sincera do pecado faz experimentar uma ligeira amargura; porém, mais vale sofrê-la temporariamente que conservar um tormento eterno no fundo do coração.

A Confissão sincera afugenta ao demônio, diz Hugo de São Vítor: Daemonis expulsio estpeccati confessio (Lib. de Anim.).

Se ocultamos nossos pecados, diz São Bonifácio, bispo de Maguncia, Deus os manifestará publicamente, para aumento de nosso pesar. Mais vale confessá-lo a um homem que está obrigado a guardar segredo, que nos expor a ficar cobertos de confusão ante todos os habitantes do Céu, da terra e do inferno.

3.° A Confissão deve ser prudente

A Confissão deve ser prudente, seja na escolha das expressões que são empregadas no relato, seja com relação à honra do próximo. É preciso não acusar nada além das faltas próprias e declará-las de modo que não se deem a conhecer os cúmplices.

Não somente é uma imprudência, senão um pecado contra a caridade e uma maledicência, manifestar sem necessidade os pecados dos outros.

4.° A Confissão deve ser inteira

Tratando da integridade da Confissão e de sua necessidade, o Santo Concílio de Trento expressa-se de seguinte modo: Se alguém diz que no Sacramento da Penitência não é necessário para a remissão dos pecados, e necessário por direito divino, confessar todos e cada um dos pecados mortais de que nos recordemos depois de um maduro exame, e até dos pecados ocultos, assim como das circunstâncias que alterem a espécie de pecado, seja anátema (Sess. XVI de Poenit., cân. VII). Isto é matéria de fé! Ocultar um pecado mortal na Confissão é cometer um horrível sacrilégio, é transformar em veneno um remédio.

Ainda que os pecados veniais não sejam matéria necessária para a acusação, são, contudo, matéria suficiente para a absolvição; é útil e mais seguro declará-los, seja porque podemos assim obter mais facilmente seu perdão, seja porque poderíamos nos expor a tomar por venial aquilo que seja mortal.

Sobre a Confissão frequente

A Confissão frequente preserva admiravelmente do pecado. Como jamais nos achamos livres das feridas do pecado, diz Santo Agostinho, não devemos descuidar o remédio da Confissão frequente: Ut nobis peccatorum vulnera numquam desse possunt, sic et confessionais medicamenta desse non debent (In Sl 66).

Ide – disse o profeta Eliseu a Naamã, que era leproso e havia se apresentado ao Profeta para obter sua cura – Ide, lavai-vos sete vezes no Jordão, e vossa carne ficará curada e purificada.

Naamã afastava-se irritado, quando seus criados se lhe acercaram e disseram- lhe: Senhor, mesmo que o Profeta vos tivesse ordenado alguma coisa difícil, deveríeis fazê-lo; assim, pois, com muitíssima mais razão deveis obedecer-lhe, já que ele somente vos disse que vos deveis lavar para ficardes purificado. Naamã desceu, então, lavou-se sete vezes no Jordão, e ficou perfeitamente curado (II Reg. V, 10-14). Se nos confessássemos de tempos em tempos e com boas disposições, obteríamos para nossa alma o que Naamã obteve para seu corpo. Sim, Naamã não se tivesse lavado sete vezes, não haveria desaparecido sua lepra; aquele que só se confessa raras vezes, expõe-se a não conseguir sua cura. A Confissão frequente é efetivamente o manancial de uma infinidade de favores celestiais.

Porque, diz Tertuliano, não empregais frequentemente o remédio da Confissão, posto que é seguro e estais tantas vezes enfermo? Vós fugis da Confissão, estabelecida por Jesus Cristo para vos curar! (De Poenit.).

Vai, muitas vezes, a confessar, diz São Luiz, rei de França, a seu filho Filipe; escolhe a um Confessor sábio e prudente que te possa ensinar, com segurança, o que deves fazer ou evitar, e tenha energia para repreender-te e manifestar-te teus defeitos (In ejus vita).

Aproximando-se Pedro de Jesus Cristo, perguntou-lhe: Senhor, quantas vezes pecará meu irmão contra mim para que eu o perdoe? Chegará a sete? Jesus respondeu-lhe: Não te digo até sete, senão setenta vezes sete (Mt 18, 21-22). Se vosso irmão peca contra vós sete vezes ao dia, diz em outra parte Jesus Cristo, e, sete vezes ao dia, volta-se para vós dizendo-vos: ‘Arrependo-me’, vós deveis perdoá-lo (Lc 17, 4). Esta multidão de perdões indica a infinidade da misericórdia de Deus, porém, prova também a necessidade que temos de recorrer muitas vezes à Confissão; prova que Jesus Cristo quer que nos confessemos frequentemente.

A experiência ensina-nos as vantagens da Confissão frequente, e as desgraças que atraem para si aqueles que se afastam demasiado tempo do Santo Tribunal.

Sobre o Exame de Consciência

O remédio do pecado, diz São Cesário de Arles, é aplicar-se a conhecê-lo, a fim de destruí-lo com uma acusação exata: se examinarmos atentamente nosso pecado e estudarmos a mordedura da serpente, curaremos esta mordedura terrível e venenosa (Homil. V).

Escutai a Sêneca, que diz: Condenai-vos tanto quando possais; esquadrinhai vossa consciência; preenchei primeiro as funções de acusador; e, logo depois, as de juiz: Quanto potes, teipsum argue, inquire in te; aecussatoris primum partibus fungere, deinde judicis (Epist. XXVIII).

Com o exame de nossos pecados, diz Santo Agostinho, começamos a ver a má vida que temos levado, os maus costumes que temos contraído; desgostamo-nos, então, de nós mesmos, e tomamos a resolução de mudar de vida (Confess.).

1.° O exame de consciência que precede à Confissão, deve ser exato; Pensamentos, palavras, olhares, ações, omissões, mandamentos de Deus e da Igreja, deveres de estado, nada se deve omitir;

2.° este exame deve ser imparcial; e

3.° é preciso fazê-lo como Deus o fará na hora de nosso juízo.

Como haveremos de preparar-nos para este exame

Devemos:

1.° preparar-nos com a oração;

2.° fazê-lo com fé;

3.° com recolhimento; e

4.° com arrependimento de haver ofendido a Deus

Vários pretextos que alguns alegam para não se confessarem

Aqueles que tem a desgraça de afastar-se da Confissão, pretendem ter razões que justifiquem sua conduta, ou ao menos a desculpem. Porém, estão muito mal fundadas tais razões. Eis aqui, com efeito, tudo o que costumam dizer:

1.° Não creio na Confissão – Se falais assim por ignorância, deve-se ter lástima de vós e convém-nos instruir-vos; somente, então, crereis! Se falais assim por impiedade, vossa linguagem prova que Deus vos abandonou e amaldiçoou-vos, e que vós sois soberanamente desgraçados e desprezíveis;

2.° A Confissão é uma invenção dos homens – Já temos feito justiça contestando a essa reivindicação e provando a origem divina da Confissão;

3.° Os sacerdotes são homens como os demais – Um rei, um ministro, um juiz são também homens como os demais; porém, perguntemo-nos: quando eles mandam ou decidem alguma coisa, consideram-se suas decisões ou suas ordens da mesma maneira que se olhariam as decisões ou as ordens de homens que não estivessem revestidos de nenhum caráter, nem de nenhuma autoridade?

Não é a todos os homens, senão a seus legítimos discípulos, a quem Jesus Cristo disse: O que atardes na terra, será atado nos Céus; o que desatardes na terra, será desatado nos Céus. Este poder faz que, em matéria de administração dos Sacramentos, os Sacerdotes não sejam considerados homens como os demais fieis.

4.° Somente Deus pode perdoar os pecados – Isto é verdade. Porém esta é a prova de que os Sacerdotes que os perdoam receberam todos estes poderes de Deus, de que O representam e absolvem em seu Nome.

5.° Eu confesso-me a Deus – É uma coisa muito boa, porém não basta. Deus quer que vos confesseis a um Sacerdote, e sem isto, não há perdão.

6.° É demasiado penoso confessar-se – Já temos destruído esta objeção, demonstrando que a Confissão é fácil, e manifestando suas vantagens.

7.° Somente os ignorantes confessam-se – Direis melhor se afirmardes que somente deixam de confessar-se aqueles que ignoram seus mais importantes deveres, ou seja, os ímpios.

E, por certo, a ignorância e a impiedade não são argumentos muito sólidos. Os Santos Padres confessavam-se, e estes homens sabiam, bem mais que nós, alguma coisa. Os Papas, os bispos, os teólogos também souberam e sabem algo etc. e, sem embargo, estes homens, lumiares da Igreja, confessavam-se e seguem confessando-se, todavia.

8. ° Que dirá meu Confessor, que pensará de minha vida semeada de debilidades e crimes? – Vosso Confessor ficará edificado por vossa humildade e sinceridade. Que dirá de minhas quedas?

  • Dirá que é natural e frequente cair… que todos estamos inclinados ao mal, rodeados de inimigos etc.
  • Dirá e pensará que, se Deus não vos houvesse socorrido, teríeis ido muito mais longe pelo caminho do mal;
  • Dirá que, sem Sua graça, não vos veria fazer a seus pés a Confissão de vossos pecados, e deixar vossa pesada
  • Bendirá a Deus, e vos animará a lançar-vos nos braços de Sua Misericórdia.

O Confessor também é um pobre pecador que terá compaixão de vós. Que dirá o confessor?

  • Ficará convencido de que sois uma alma que despreza os respeitos humanos, e que vosso valor, quando tratais de levantar-vos, é muito maior que vossa pesada debilidade, quando ias de queda em queda.

9.° Não me atrevo a confessar-me, tenho vergonha – Cair é, com efeito, vergonhoso; ocultar o pecado, e guardá-lo no coração, é muito mais vergonhoso; porém, levantar-se com a Confissão e com o arrependimento, é um ato honroso diante de Deus e dos homens.

Davi, São Paulo, Maria Madalena, Santo Agostinho etc. desonraram- se, por acaso, fazendo uma Confissão pública? E a vossa faz-se no mais profundo segredo.

10.° Porém, e se meu confessor violar o segredo da Confissão? – A lei do segredo de Confissão é tão estrita, tem tanta extensão que um confessor pode dizer com Santo Agostinho: Quae per confessionem scio, minus scio quam quae nescio: Aquilo que sei pela Confissão, é-me menos conhecido do que aquilo que me é inteiramente conhecido (Manual).

São João Clímaco observa que Deus vela muito especialmente por sua Igreja no relativo a este particular. Jamais se ouviu, diz o Santo, que os pecados declarados no Tribunal da Penitência tenham sido divulgados. Deus permite-o assim, a fim de que os pecadores não se apartem da Confissão, e não se vejam privados da única esperança da salvação que ainda lhes resta.

Com efeito, se o segredo do tribunal da Penitência não tivesse permanecido inviolado, a prática da Confissão não mais subsistiria (Vit. Patr.).

O segredo da Confissão é de direito natural. Houve sacerdotes que apostataram, que perderam o juízo etc., porém, jamais estes mesmos ministros, ainda que indignos ou desgraçados, violaram o segredo da Confissão.

11.° Porém, eu volto a cair sempre – A Confissão nunca nos faz inteiramente impecáveis. Ademais, se não vos confessásseis, serieis vítimas de mais frequentes e terríveis quedas. Confessai-vos, e confessai-vos com muita frequência; vossa negligência sobre este particular é a principal causa de vossas recaídas.

12.° Os que se confessam, não valem mais que os outros; não tem os costumes mais puros; seu caráter e sua linguagem são tão pouco dignos de estima, como o caráter e a linguagem dos que não se confessam – Isto é falso. Todos os que caem em desordens, começam por abandonar a Confissão, e voltam a recorrer a ela quando querem mudar de vida.

O motivo que obrigou, aos Protestantes a desejarem, mais de uma vez, que se voltasse a estabelecer a Confissão entre eles é o espantoso desregramento de costumes que tem ocorrido depois da abolição desta santa prática. Vários de seus mais célebres escritores estão convencidos disso, e declararam que sua “reforma” teria que ser reformada.

Quando um jovem ou uma jovem afastam-se da Confissão, o que há de ser deles? Sem embargo, é muito verdadeiro que, algumas vezes, tal ou qual pessoa que se confessa não vale mais que outra que não se confessa; porém, não hão de tomar-se os abusos da Confissão pela Confissão mesma. Não culpeis a Confissão de defeito que somente deve recair sobre o penitente que abusa desta graça preciosa.

O que nos diz a experiência? Diz-nos que, se há pais virtuosos e edificantes, se há filhos submissos e respeitosos etc., são do número dos que se confessam, e dos que se confessam frequentemente.

Exigindo que vossas esposas, vossos filhos e vossos criados confessem-se, prestais, sem o querer, homenagem à Confissão, e reconheceis que é boa. E, se é boa e vantajosa para eles, porque não o há de ser para vós mesmos? Vós também a considerastes excelente na época de vossa Primeira Comunhão! Quem foi que mudou, quem se tornou mal: a Confissão ou vós próprios? Ah, bem sabeis a resposta! A Confissão é tão perfeita hoje que a desprezais, como o era então; e, se não a quereis, é porque vos transformastes em gente má, e quereis seguir praticando o mal.

Quando, na hora da morte, um pecador que desprezou a Confissão durante a maior parte de sua vida, quer confessar-se, não confessa que se enganou, e que mais vale confessar-se que morrer sem Confissão?

13.° Eu me confessaria, e até já me confessei; porém, meu confessor é demasiado severo; não me dá a absolvição quando a desejo – Quereis fazer uma boa Confissão? Não queirais erigir-vos como juiz de vosso pai espiritual.

O remédio aplicado demasiado rápido aos que caíram – disse à Corte de Roma para São Cipriano que o havia consultado sobre casos de absolvição – não lhes pode ser útil. Uma compaixão mal entendida envenenaria a chaga que a recebeu, e ser-lhes-ia muito funesta, privando-lhe das vantagens que lhes oferece uma verdadeira penitência.

Como é possível que a graça medicinal do perdão surta seu efeito, se aquele que há de dispensá-la presta-se a aumentar o perigo, abreviando o tempo das provas próprias para afastá-lo. Se se contenta com remediar o mal, em vez de guardar o tempo favorável para a aplicação do remédio, e de empregar um prudente lenitivo para fechar com mais segurança a chaga, isto se chama, falando com propriedade, matar ao enfermo, e não curá-lo.

Tanto melhor se os penitentes chamam à porta da Igreja; porém, não devem empregar violência para fazê-la abrir-se. Que advoguem por sua causa as lágrimas e os suspiros que vem do fundo de seu coração, e que expressem a dor e a confusão que experimentam por seu pecado.

Devemos considerar a misericórdia de Deus, porém também temos de recordar sua justiça. Se há um Paraíso, também há um Inferno (Hist. Eccles.). O mesmo São Cipriano levantava sua voz contra os que pedem uma reconciliação demasiado precipitada (Epist. ad Martyr.).

É preciso abrir a chaga, cortar e extirpar, sem consideração aos gritos do enfermo. Mais tarde, ouvir-se-á ele dar graças àquele que, em princípio, havia lhe tratado com aparente crueldade.

Uma absolvição dada com ligeireza é perigosa para aquele que a dá; inútil e, muitas vezes, danosa para aquele que a recebe.

Meu confessor é demasiado severo. Ah, diríeis melhor que é o demônio, que são vossas paixões, vossos costumes aqueles que vos são demasiadamente severos; somente eles tem a culpa de que vos seja recusada a absolvição. Meu confessor é demasiado severo; porém, o mal é profundo, inveterado, e não poderíeis sanar com um medicamento demasiado fraco.

Meu confessor é demasiado severo. Tendes as disposições para serdes absolvido imediatamente? Tendes realmente contrição e bom propósito? Há em vós mudança de vida? Haveis feito ao menos generosos esforços para ter melhor conduta? Sede humildes, obedientes, e já não achareis vosso confessor demasiado severo.

Quem são aqueles a quem se deve recusar a absolvição

Os Confessores estão obrigados a recusar, ou melhor, a adiar a absolvição:

1.° aos que ignoram os principais mistérios da fé ou os Mandamentos de Deus ou os da Igreja;

2.° aos pais e mães, patrões e patroas, que não instruem ou não fazem instruir a seus filhos e empregados nos princípios da fé e das coisas necessárias para a salvação, ou que não vigiam sua conduta;

3.° aos que exercem profissões más por natureza e que não a podem exercer sem pecar, como as de mágico, cômico ou de escritor ímpio e imoral;

4.° aos que guardam rancores, que se negam a perdoar ou a reconciliar-se;

5.° aos que causaram algum prejuízo ao próximo, seja em seus bens, seja em sua honra, e não o querem reparar segundo suas possibilidades, nem querem prometer fazê-lo quando o possam;

6.° Os pecadores públicos não podem ser admitidos aos Sacramentos até que tenham reparado o escândalo que deram, com uma satisfação conveniente; e não basta uma promessa, é necessário uma verdadeira reparação;

7.° deve se recusar a absolvição aos que vivem expostos voluntariamente ao pecado mortal, se não se afastam da ocasião; deve também recusar-se às pessoas que não querem deixar de ser uma ocasião próxima de pecado; e

8.° aos que tem o hábito de pecar mortalmente, se não fazem sinceros esforços para desprender-se do vício.

Quais são as causas da repugnância que se experimenta em relação à Confissão

As principais causas da repugnância que se experimenta no tocante à Confissão são:

1.° A ignorância;

2.° A perda da fé;

3.° As paixões;

4.° Os maus hábitos;

5.° E a vontade de não renunciar a eles.


Referências:

[1] Referência ao ministro assinalado com o Sacramento da Ordem em 2° ou 3° grau (Nota do tradutor).

[2] Único meio ordinário (Nota do tradutor).

[3]Tal “desinteresse” não se refere à “inexistência de curiosidade, ou de gosto por algo, indiferença, imparcialidade”, mas é aqui empregado para designar a “ausência de interesse com relação a bens materiais; abnegação, desprendimento, generosidade”,  conf. Dicionário Houaiss, verberte “DESINTERESSE” (Nota do tradutor).

[4] Ou seja, da pregação religiosa, do sermão (Nota do tradutor).

[5] Remissisti iniquitatem plebis tuae; operuisti omnia peccata eorum; mitigati omnem iram tuam avertisti ab ira indignationis tuae (Psalm. LXXXIV, 3-4).

[6]  Sanat confessio, justificat confessio, veniam donat. Nulla tam gravis est culpa, quae per confessionem non habeat veniam (Lib. I, c. XII).

[7]  Confesio vice Dei fungitur; facitenim ut peccatum suum ipse poenitensconfitendo, judicet et vindicet; atque seipsum damnans et catigans, iram Dei praevenit, nihilqueilli castigandum, aut peragendum reliquit (De Poenit.).

[8]  Apud misericordiam Dei plurimum valet confessio poenitentis, qua facit peccator confitendo propitium quem negando non facit nescium (Sentent. CCXL).