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Amor a Deus

Amor a Deus, Tesouros de Cornélio à Lápide

Há dois amores

Há dois amores: o amor à concupiscência ou amor imperfeito; e o amor de pura caridade ou amor perfeito. Por meio do amor de concupiscência ou imperfeito, dedicamo-nos a agradar a Deus somente para que nos dê a recompensa da glória eterna. Este amor é bom, porém trata-se muito mais de um ato de esperança que de um ato de caridade.

O amor perfeito, pelo qual nos esforçamos a agradar a Deus e queremos nos submeter à sua vontade, consiste em amar-lhe unicamente por ser Ele quem é, e não pela recompensa que aos bons promete. Este amor é propriamente a caridade perfeita.

Necessidade de amar a Deus

Amai ao Senhor vosso Deus com todo o vosso coração, com toda a vossa alma, e com todas as vossas forças: Diliges Deum tuum ex toto corde tuo, ex tota anima tua, ex tota fortitudine tua (Dt 6, 5). Permaneçam estas palavras em vosso coração, repeti-as a vossos filhos, meditai-as sentados em vossa casa e viajando, antes de dormir e ao despertar. Fixai-as como um sinal em vossa mão, suspendei-as diante de vossa vista, escrevei-as no dintel de vossas casas e sobre as portas[1].

Jesus Cristo recorda a obrigação imposta por Ele mesmo como preceito: Amai, diz, ao Senhor vosso Deus com todo o vossos coração, com toda a vossa alma e com todo o vosso espírito. Este é o maior e o primeiro dos mandamentos: Diliges Deum tuum ex toto corde tuo, ex tota anima tua, et in totoa mente tua (Mt 22, 37). Hoc est maximum etprimum mandatum (Mt 22, 38).

Amai com todas as vossa forças Aquele que vos criou, diz o Eclesiástico [2]; e em outro lugar: Amai a Deus toda a vossa vida, e invocai-O para que vos salve: Omni vita tua dilige Deum, et invoca illum in salute tua (Ecl 30, 18).

O motivo que nos deve levar a amar a Deus é que Ele é a nossa alma e a nossa vida; porém, é justo que a alma tribute a Deus o que o corpo tributa a alma, e que tudo façamos por amor a Deus; assim como o corpo teme, sobretudo, estar separado da alma, nosso principal temor há de ser ver-nos separados de Deus. Assim o Apóstolo São Judas impõe-nos a obrigação de mantermo-nos no amor a Deus: Vosmetipsos in dilectione Deu servate (Jud 21).

O cavalo nasce para correr, este é seu fim, o pássaro para voar, o boi para sulcar a terra, o cachorro para ladrar, o fogo para esquentar, a água para apagar a sede etc. o homem nasce para amar a Deus: este é seu único fim.

Ainda quando falasse todas as línguas dos homens e até a dos anjos, diz o grande Apóstolo aos Coríntios, não tendo caridade, seria como um bronze sonoro e um címbalo retumbante. Ainda quando tivesse o dom de profecia, ainda quando penetrasse todos os mistérios e possuísse todas as ciências, e ainda quando tivesse caridade, nada seria. E ainda quando distribuísse todas as minhas riquezas para alimentar aos pobres, e entregasse meu corpo às chamas, sem caridade de nada me serviria isto[3]. O mesmo Apóstolo exclama: O amor de Jesus Cisto nos insta: Caritas Chisti urget nos (2 Cor 5, 14). Jesus Cristo morreu por todos a fim de que os que vivem não vivam para si mesmo, senão para aquele que morreu e ressuscitou por eles[4].

O amor de Deus é tão imenso, diz São Agostinho, que aquele que não o tem, em vão possui as demais coisas; e ao contrário, aquele que o tem, tudo possui[5]. O mesmo santo Doutor acrescenta, como o Apóstolo, que a fé pode existir sem a caridade, porém, então, é estéril e não pode ser útil[6].

A castidade sem a caridade, diz São Bernardo, é uma lâmpada sem azeite; tirai o azeite e a lâmpada já não ilumina; tirai o amor de Deus, e a castidade deixa de ser agradável[7].

A finalidade dos mandamentos é a caridade, diz São Paulo a Timóteo: Finis praecepti est caritas (1 Tm 1, 5).

Nos dois preceitos do amor a Deus e ao próximo está cifrada toda a lei e os profetas, diz Jesus Cristo: In his duobus mandatis universa lex pendet etprophetae (Matth. XXII, 40).

Ó minha alma, exclama Santo Agostinho, criada à imagem de Deus, resgatada com o Sangue de Jesus Cristo, esposa da fé, dotada pelo Espírito Santo, adornada com as virtudes, posta na categoria dos anjos, ama Aquele que tanto te amou; pensa Naquele que jamais te esquece; busca a Quem te busca; dá-te por inteiro a Quem inteiramente se dá a ti[8]. Este grande Deus ocupa-se somente de ti; não te ocupes mais do que Dele; em certo modo, tudo Ele deixa por ti; deixa tudo por Ele: Ele é a mesma Santidade, sê santa; Ele é a mesma pureza, sê pura[9].

O céu, a terra, acrescenta ainda Santo Agostinho, e tudo o que contém, não cessam de dizer-me que Vos ame, é meu Deus, e não cessam de dizê-lo a todos, a fim de que não tenha desculpas se não Vos amam[10] .

Motivos que obrigam a amar a Deus tirados de Deus mesmo e de suas infinitas perfeições

Devemos amar a Deus, primeiramente, porque é soberanamente amável. Deus é todo amor, diz o amadíssimo discípulo: Deus caritas est (1 Jo 1, 4, 8). Quem é Deus?, diz São Bernardo: é a vontade onipotente, a virtude por excelência, a luz eterna, a razão imutável, a suprema bem aventurança[11].

Deus é a eternidade: é a medida, o número, a ordem, a causa e o fim de todas as coisas. Ele é Bem soberano, imenso, incriado… Toda a abundância fora de meu Deus, é a própria pobreza, diz Santo Agostinho: Omnis copia, quae Deus non est, agesta est (Lib. Confess.).

Como Deus é infinito em sua essência, é-o também em todos os divinos atributos e em cada um deles. Tem uma santidade infinita, um poder infinito, uma sabedoria infinita, uma misericórdia infinita, uma ciência infinita, uma bondade infinita, e infinitos são também seus demais atributos. Deus ultrapassa o infinito, não somente de tudo o que existe e de todas as qualidades e perfeições; ultrapassa não em um grau, nem cem graus, nem um milhão de graus, para além de tudo, senão infinitamente mais que qualquer cálculo.

Contemplai, o quanto vos seja possível, a sabedoria, o poder, a bondade, a formosura, as riquezas etc., imaginai essas perfeições ampliadas ao infinito, e havereis de saber que quando tenhais chegado a este ponto, todos os vossos pensamentos, todos os vossos cálculos, e os pensamentos e os cálculos de todos os homens e o de todos os anjos, somente foi dado um passo de aproximação às infinitas perfeições de Deus; sabereis que não haveis alcançado o ser de Deus, senão que vos encontrais todavia a uma distância infinita.

Que todos os espíritos, exclama Isaías, que todas as línguas, todas as inteligências, todas as vozes dos serafins e dos querubins calem, e cubram estes o seu rosto com respeito e se encham de estupor porque todos os anjos reunidos, com todas as suas chamas de amor, não podem, ó meu Deus, compreender nem conceber o menor grau de vossa glória!

Exclamemos com o Salmista: O Senhor é grande e superior aos louvores; sua grandeza não tem limites: Magnus Dominus, et laudabilis nmis; et magnitudinis ejus non est fmis (Sl 144, 3). E com o profeta Baruc: Deus é grande, eterno, elevado, infinito: Magnus est, et non habet finem, excelsus et inmensus (Bar 3, 25).

Motivos que obrigam a amar a Deus tomados do amor que Ele tem aos homens

É preciso amar a Deus, em segundo lugar, porque nos amou soberanamente. Amemos a Deus, porque Deus nos amou primeiro, diz São João: Nos ergo diligamos Deum, quoniam ipse prior dilexit nos (1 Jo 4, 19). Amou-nos com amor eterno, por isso, misericordioso; Eu atraí-vos à minha misericórdia, diz o Senhor em Jeremias: In caritate perpetua dilexit, ideo atraxi te miserans (Jer 31, 3).

No amor infinito que Deus tem para o homem, devemos admirar:

  1. o amor que Ele nos professou desde toda a eternidade, sem ter necessidade de nós, possuindo tudo em Si mesmo;
  2. considerar que não nos ama por necessidade, senão plena, livre e liberalmente;
  3. que nos ama sem utilidade alguma para Ele;
  4. que ama ao homem antes de que este tenha uso da razão, antes que tenha algum mérito, alguma dignidade que possa fazer-lhe amável, e ainda quando se ache carregado de numerosos e grandes defeitos que somente deveriam fazer-lhe digno de ódio;
  5. que ama aqueles mesmos que haverão de chegar a ser ingratos e inimigos seus; e
  6. que este amor de Deus para com os homens não parte de ignorância ou paixão, como o amor de quase todos estes, senão que é inseparável de uma justa equidade e uma grande sabedoria.

Que sabedoria há em Deus, direis, se ama aos homens miseráveis e pecadores? Já não são, então, um objeto amável por si mesmo. A razão do amor de Deus não vem do objeto amável, como sucede entre os mortais, senão que vem do mesmo Deus.

Deus, com efeito, ama-nos por Si mesmo, porque é infinitamente bom, tem tanta bondade, que quer derramar sua liberalidade e seus benefícios sobre nós, apear de nossa indignidade. A bondade infinita de Deus é, pois, a base e a razão de seu amor aos homens, da comunicação de seus dons e de si mesmo. Há em Deus uma vontade infinita e um desejo imensurável de comunicar-se, que provém da perfeição e da plenitude infinita de sua essência. Esta essência é tal que Lhe leva a entregar- se; e por maiores que sejam suas liberalidades, Deus nada perde de sua plenitude. É como uma fonte da qual se tira água, e sempre é a mesma, sempre corre…

Deus é nas coisas espirituais o que é o Sol nas coisas sensíveis, diz São Gregório Nazianzeno. Assim como o sol lança por todas as partes seus raios benfeitores, a fim de iluminar, aquecer, vivificar, fecundar a natureza, Deus derrama sobre todas as criaturas, e especialmente sobre os anjos e os homens, os divinos raios de sua beneficência, a fim de ilustrar-nos com a luz de sua sabedoria, inflamá- los com seu amor, vivificá-los com a vida da graça e a glória.

Esta largueza da parte de Deus, em prodigalizar benefícios, é imensa; a encontraremos admiravelmente se consideramos:

  1. A majestade Daquele que ama; e
  2. O estado, a condição daqueles a quem doa.

Se examinai a natureza destes, são homens, e ocupam o último posto entre as inteligências; se os considerais sob o ponto de vista das qualidades da alma, são pecadores, inimigos de Deus, orgulhosos, ingratos, carnais, muito débeis para o bem, inclinados a todos os vícios; se os considerais relativamente às qualidades do corpo, são mortais, enfermiços, vis, asquerosos e destinados à ser pasto dos vermes.

Amor infinito de Deus na Criação

Deus podia deixar-nos no nada. Ao criar-nos, podia não nos fazer superiores aos minerais, aos vegetais, aos brutos. Criou-nos racionais, feitos à sua imagem, capazes de conhecer-Lhe, servir-Lhe, amar-Lhe… Criou-nos imortais e nos destina à bem aventurança eterna.

  1. Deus comunica-se a nós, não como a servidores, a escravos, senão como a filhos seus, filhos que declarou herdeiros seus e coerdeiros com Jesus Cristo;
  2. sua bondade divina encontrou o meio de descer até o débil, curar o enfermo, acolher ao abandonado, engrandecer ao pequeno, dar com superabundância sua riquezas aos mais pobres, e socorrer a todos. Deus é a mesma Bondade e o mesmo Amor, diz São Bernardo, criando os espíritos para que se deleitem Dele; dando a vida, para fazer sentir e compreender seu amor. Atraindo para ser desejado; dilatando o homem para que dê abrigo a Deus; justificando-o para que mereça a graça e a glória; inflamando-o para dar-lhe zelo; fecundando-o para que produza frutos de vida; dirigindo-o até a equidade; formando seu coração para a beneficência; moderando-o a fim de que se saudável, fortificando-o a fim de que adquira a virtude; vivificando-o para consolá-lo; iluminando-o para embriagá-lo de felicidade; abrigando-o para que seguro permaneça (Serm. in Cant.).
  3. Deus se comunica várias vezes antes que O pensemos, antes que O desejemos, antes que o peçamos a Ele. Age desta maneira em todas as graças preventivas, para excitar-nos a solicitar as graças subsequentes que, como diz Santo Ambrósio, até são sempre mais abundantes do que temos pedido: Semper Dominus plus tribuit quam rogatur (Serm. III). Se solicitais uma graça qualquer, Deus vo-la concederá, acrescentando outras que não tenhais pedido. O rei Ezequias pedia somente saúde, e Deus lha concedeu, acrescentando quinze anos de vida, uma vitória milagrosa e a destruição de cento e oitenta e cinco mil assírios (Is 38). Salomão pedia sabedoria, e Deus lha deu acompanhada de imensas riquezas e uma brilhante glória (3 Rs 3). Daniel pedia a liberdade do povo cativo na Babilônia, e Deus acrescentou a promessa da vinda do Messias que devia resgatar o mundo inteiro do cativeiro do demônio (Dan. IX, 14). Davi pedia um filho, e este filho foi o Messias (2 Rs 7, 12).

Deus é nosso Criador, nosso Benfeitor, nossa Providência

Minhas delícias, diz o Senhor no Livro dos Provérbios, consistem em habitar com os filhos dos homens: Deliciae meae esse cum filiis hominum (Pr 8, 31).

  1. Deus tem um cuidado especial de todos e cada um de nós; para o homem criou o universo e tudo quanto encerra. Porque Deus ama aos homens como vivas imagens suas que levam o selo divino; e
  2. Ele instrui ao homem com sua sabedoria; ensina-lhe a sã doutrina, a verdadeira moral, a fim de que possa servir a Deus santamente e ser feliz.

Que provas de amor Deus Pai nos deu tanto pela Encarnação quanto pela Redenção

Amou Deus de tal maneira o mundo, que lhe enviou e deu o seu único Filho, diz o Apóstolo São João: Sic Deus dilexit mundum, ut Filium suum unigenitum daret (Jo 3, 16). Amou ao mundo de tal maneira, isto é, com um amor tão grande, com tão excesso, que deu seu único Filho. Não é um rei, não é um anjo Quem tanto nos amou, senão Deus. Amou-nos primeira e gratuitamente, sem que o houvéssemos merecido, sem que nem sequer o houvéssemos desejado. Amou ao mundo inimigo seu, ao mundo digno de eterna reprovação; e o amou tanto, que lhe deu seu Filho. Não lhe deu um estrangeiro, um filho adotivo, senão seu próprio Filho; e não escolheu este filho entre vários, é seu Filho único. Não foi dado por certo preço, senão gratuitamente; não foi dado para que recebesse triunfos e um reino, senão para que fosse cravado na cruz e entregue à morte. Agiu assim, não em vantagem sua, nem na de seu Filho, senão a fim de que a morte deste Filho único devolvesse-nos a vida; a fim de elevar-nos em razão de tantas humilhações sofridas por Jesus Cristo, em razão de seu aniquilamento; para cumular-nos de riquezas, de bens imensos, de uma glória eterna.

Não, Deus, diz Jesus Cristo, não enviou seu Filho ao mundo a fim de que julgue o mundo, senão para que o mundo seja salvo por Ele: Non misit Deus Filium suum ut judicet mundum, sed ut salvetur mundus per ipsum (Jo 30, 17). Ah! Exclama o grande Apóstolo, transportado de amor e reconhecimento; se Deus Pai não titubeou em sacrificar a seu próprio Filho, e se O entregou à morte para todos nós, o que poderá nos negar agora? Qui etiam proprio Filio suo non pepercit, sed pro nobis ominibus tradidit illum, quomodo non etiam cum illo omnia nobis donavit? (Rm 8, 32).

Sim, diz o amadíssimo Discípulo, enviando Deus ao mundo seu único Filho, a fim de que vivêssemos por Ele, manifestou seu amor por nós: In hoc apparuit caritas Dei in nobis, quoniam Filium suum unigenitum misit Deus in mundum, ut vivamos per eum (1 Jo 4, 9).

Que amor professou-nos Deus Filho tomando carne humana e morrendo por nós

Aqui é onde falamos da longitude, da largura, da altura, da profundidade do amor de Deus, aqui é onde temos de exclamar com São Paulo:

“Ó altitude! Ó mistério impenetrável do mais sublime e maior amor! Um Deus se faz homem: Verbum caro factum est” (Jo 1, 4)

Morre na Cruz; e é seu amor o que O leva a encarnar-se; é seu amor o que O conduz à morte. Ó amor!… Deus amou-nos desde toda a eternidade, porém, para isto, bastou-lhe somente um pensamento; amou-nos na Criação, porém não necessitou mais do que uma palavra. Na Redenção, amou- nos até morrer por nós. Julgai a força de seu amor em sua Encarnação, em sua vida penosa, seus sofrimentos e em sua morte!…

O Filho de Deus nos amou com o amor mais terno e eficaz, não com palavras, senão com ações. Sob o impulso deste amor, deu voluntária e livremente, não riquezas terrenas, não seus irmãos e amigos, senão que se deu a Si mesmo por nós, pecadores que éramos, inimigos seus, para pagar nossas dívidas, expiar nossos crimes, destruir a morte e dar-nos a vida. A graça de Nosso Senhor foi superabundante, diz São Paulo: Superabundavit gratia Domini nostri (1 Tm 1, 14).

Exclamemos com Zacarias: Bendito seja o Senhor Deus de Israel, porque nos visitou e operou a liberdade de seu povo. Elevou o sinal da salvação, salvou-nos de nossos inimigos e da mão dos que nos odeiam. Deus, por suas entranhas de misericórdia, desceu do Céu e nos visitou (Lc 1, 68-78). Per viscera misericordiae… visitavit nos oriens ex alto (Lc 1, 78).

Os efeitos de seu amor para conosco, amor perfeito e evidente, são sua Encarnação no seio de uma Virgem, suas pregações, suas tarefas, seus trabalhos, suas humilhações, seus milagres, sua paixão, sua morte, seus Sacramentos, a descida do Espírito Santo, o cuidado particular que toma por toda a Igreja e por cada fiel: Per viscera misericordiae visitavit nos oriens ex alto (Lc 1, 78).

Eis aqui, diz Teodoreto, o mais alto grau, o píncaro da bondade divina, da inefável ternura, da inacreditável misericórdia, da imensa clemência, da indizível caridade do autor e do consumador de todo o bem: é que o Criador, o Senhor, o Príncipe, o Deus forte, o Ser imutável, tenha libertado da morte e da escravidão do inferno ao homem, este átomo, este ser sujeito à morte, corruptível, ingrato e inútil; que lhe tenha dado tal liberdade, fazendo-lhe completamente franco, e adotando-lhe por filho Seu; e, por fim, que Se tenha feito amigo dos homens, seu Pão, seu Vinho, seu guia, sua Porta, sua Vida, sua Luz, sua Ressurreição (In Evang.).

Digamos com a esposa dos Cantares: Voz de meu querido: já o vejo que vem saltando por entre as montanhas, e atravessando as colinas: Vox dilecti mei: ecce venit, saliens in montibus, transiliens colles (Ct 2, 8). Eis aqui o meu querido que me diz: Levanta-te, apressa-te, amiga minha, pomba minha, e vem: En dilectus meus loquitur mihi: Suge, propera, amica mea, columba mea, et veni (Ct 2, 16).

Meu muito amado se alimenta em meio às açucenas, ele é meu, e eu sou sua: Dilectus meus mihi et ego illi, qui pascitur inter lilia (Ct 2, 16).

Vede nisto o amor infinito de Jesus Cristo, e pasmai-vos de admiração. O objeto, o motivo de amor, é o Bem; e se os homens amam alguém, é somente porque no objeto amado encontram formosura, sabedoria, riqueza, finura, elevação e muita bondade. Porém, Salvador meu, que coisa boa encontrastes em nós? Que formosura nossa pode fixar vosso amor? Éramos pobres, vis, mendigos, insensatos, miseráveis, corrompidos, asquerosos. Amei, diz-nos, vossa fealdade para fazê-la bela; amei a inimigos para convertê-los em amigos meus; amei a loucos para os fazer sensatos; amei a mendigos para os enriquecer, a servos vis para enobrecê-los, à miseráveis para os felizes e cobrir-lhes de glória. A grandeza do amor de Jesus Cristo mudou em mel todo o fel das misérias humanas, em delícias todos as dores e as cruzes. Tomou todas as nossas misérias, exceto o pecado, para cumular-nos de todos os seus bens. O amor de Jesus Cristo, que encontrou suas delícias em permanecer conosco, fez milagrosamente que a fome, a sede, o trabalho, a dor, a morte e todos os padecimentos fossem uma felicidade para nós.

Estudai aos Mártires, se prestais atenção, diz São Bernardo, vereis que Jesus Cristo, a própria alegria, entristece-se, turba-se; Ele, que é vossa salvação, sofre; Ele, nossa vida, morre; é débil, Ele a força suprema. E o que não é menos admirável, sua tristeza produz alegria; seu temor, a força; sua paixão, a saúde; sua morte, a vida; sua debilidade o valor. Assim Jesus Cristo recebeu um prazer em sofrer nossas misérias, a fim de que sua felicidade fosse nossas delícias (Serm in Epiphan.).

Jesus Cristo, diz São Pedro Crisólogo, veio a tomar nossas enfermidades para amar-nos com sua força; a revestir-se de humanidade para dar-nos a divindade; a aceitar as humilhações para fazer-nos dignos das honras; a sofrer as tristezas para alcançarmos a paciência: porque o médico que não se compadece das enfermidades, não sabe curar, e aquele que não sabe “adoecer ” com o doente, é impossível que saiba dar a saúde[12].

Ó doçura, ó graça, ó força do amor de Jesus Cristo, exclama São Bernardo! O maior de todos os seres quis ser o menor e o último de todos. A quem devemos estas maravilhas? Ao amor de Jesus Cristo, desprezando as dignidades, pleno de misericórdia, poderoso em afeição e eficaz em persuasão. Pode haver algo maior? O amor triunfou do mesmo Deus. Triunfa Deus, a fim de triunfar de nós e obrigar-nos a pagar seu amor com nosso amor, entregando-nos inteiramente a Jesus Cristo que nos ama, como Jesus Cristo se entregou a nós pelo amor que nos professa[13].

Porque apraz mais a Jesus Cristo viver com os homens do que com os anjos? Eis aqui três razões:

  1. tomou a natureza humana, e não a natureza angélica; e
  2. como a virtude é mais penosa e mais difícil aos homens, por causa de sua natureza degredada, fortifica-os com seus consolos e suas graças, e sustenta- os a fim de que a prática da virtude seja-lhes fácil e agradável.

Assim é que mudou em delicia a cruz de São Pedro e de Santo André; São Lourenço falou da felicidade sobre uma grelha ardente; as flechas foram saborosas para São Sebastião; toda classe de tormentos deleitosos para São Vicente; os sinais nas chagas de Jesus Cristo queridas por São Francisco etc.

Que alegria experimentou Jesus Cristo por seus mais distintos santos, como São Paulo, Santo Antônio, Santa Inês, Santa Águeda, Santa Cecília, Santa Catarina de Sena e as demais que foram virgens e mártires! O amor de Jesus Cristo para com os homens O aliena. Não está embriagado de amor quando desce do céu ao seio de uma Virgem; quando do seio de Maria se colocar em um cocho, e do cocho sobe à cruz? Não é um amor levado até a embriaguez aquele que o faz recorrer aldeias e vilas, as cidades e campos, a fim de pregar o reino de Deus, sofrendo a fome, a sede, o frio, o calor, os ultrajes, as maldições, os sarcasmos e as blasfêmias para a salvação dos homens? Não está ébrio de amor na Cruz, muito mais que de dor? Consente em passar por infame, deixa-se insultar, despojar, cobrir de chagas e de Sangue, deixa-se atar no cadafalso dos ladrões como um ladrão; morre por fim com a morte dos criminosos. Que coisa maior podemos falar? O amor triunfa de todo um Deus: Quid violentius? Triunphat de Deo amor.

Deus é nosso Pai, a humanidade de Jesus Cristo é nossa mãe, e assim como uma mãe leva seus filho em seu seio, proporciona-lhe elementos de desenvolvimento, dá-o à luz, alimenta-o, levanta-o e o faz dormir, lava-o, diverte-o, instrui-o, não sem contínuos e grandes trabalhos, até chegar a fazer dele um homem maduro, assim também Jesus Cristo, “mãe nossa”, entregou-se a penosos e contínuos trabalhos durante trinta e três anos, sofreu grandes dores, sobretudo, na cruz, e, da mesma maneira, os concebeu, nutriu e educou. Daí vem que Jesus Cristo, ao fazer-se homem, quis não dever seu corpo mais do que a uma mãe, a fim de que nele tudo fosse entranhas maternas. Que coisa mais profunda podemos falar? O amor triunfa de um Deus? Quid violentius? Triunphat de Deo amor.

Como Jesus Cristo, diz São João no Evangelho, tendo amado aos seus, amou-os até o fim: Cum dilexisset suos, in finem dilexit eos (Jo 13, 1). Lava-lhes os pés, institui o sacramento Eucarístico e Se dá por alimento a seus discípulos antes de morrer por eles e pelo universo.

Contemplai, sobretudo, o amor de Jesus Cristo à Cruz. A Cruz é a cátedra donde sai o ensinamento da bondade e do amor de Jesus Cristo. Amaste-me, Salvador meu, amaste-me infinitamente; e ainda que eu vos desse mil almas, mil vidas, que significariam em comparação de vossa vida, que é a vida de um Deus? Aprendei de Jesus Cristo a amar a Jesus Cristo, diz São Bernardino de Sena: Disce a Chisto, quomodo diligas Christum (Surius, in ejus vitae). Ele tudo vos tem dado, e nada reservou para Si, diz São João Crisóstomo: Totum tibi dedit, nihil sibi reliquit (Homil. ad pop.).

Dai-vos inteiramente a Ele, diz São Bernardo, porque Ele também, para salvar-vos, entregou-Se totalmente: Integrum da illi, quia ille, ut te salvaret, integrum se tradidit (Serm, in Cant.). Não conserveis nada para vós, diz São Francisco de Assis, a fim de que Jesus Cristo, que nada guardou para Si, receba-vos íntegros (S. Bonav., in ejus vita). Fazei que eu morra em mim mesmo, diz Santo Agostinho, a fim de que somente Vós vivais em mim: Moriar mihi, ut tu solus in me vivas (Soliloq.).

E deixou de amar-nos esse Deus de amor? Pobres órfãos, diz Ele, eu não vos deixarei, irei buscar-vos: Non relinquam vos orphanos: veniam ad vos (Jo 16, 18). Não O abandonemos, pois, jamais. Exclamemos, com o grande Apóstolo:

“Quem nos separará do amor de Jesus Cristo? Será a aflição, ou as angústias, a fome, a nudez, os perigos, as perseguições, ou a espada? Estou seguro que nem a morte, nem a vida, nem os Anjos, nem os Principados, nem as Virtudes, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem a força, nem tudo o que mais alto e mais profundo existe, nem criatura alguma poderá jamais separar-nos do amor Deus que se funda em Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 8, 35.38-39).

Excelências do amor de Deus

O amor de Deus, diz Santo Agostinho, dá a conhecer aos filhos de Deus e os separa dos filhos do inferno; somente com este sinal os distingue. Os que tem a caridade nasceram de Deus; os que não amam a Deus, não tem esta divina origem: Dilectio sola discernit inter filios Dei et flios diaboli; non discernuntur filii Deus a filii diaboli, nisi in caritate. Qui habent caritatem, nati sunt ex Deo; qui non, non sunt nati ex Deo (Tract. V).

O amor de Deus, acrescenta Santo Agostinho, é a mais verdadeira, a mais plena e a mais perfeita justiça: Caritas est veríssima, plenissima, perfectissimaque justitia (De Natura et Gratia, c. XLII).

Tertuliano chama a caridade o segredo supremo da fé, o tesouro do nome cristão (De Pacientia). São Basílio chama-a raiz dos Mandamentos: Radicem Mandatorum (Orat. III). É o ponto capital da doutrina cristã, diz São Gregório Nazianzeno (Epist. XX). São Jerônimo a chama de Mãe; Santo Efrém, coluna; Santo Agostinho, cidadela de todas as virtudes: Cunctarum virtutum matrem (S. Hier., Epist. as Teoph.), Ominium virtutum columnam (S. Ephr., de Himil.), Ominium virtutum arcem (S. August., Serm. LIII, de Tempore). São Próspero diz que a caridade é a mais poderosa de todas as inspirações, que é invencível em tudo, que é a regra suprema das boas ações, a salvação dos costumes, o fim de todos os divinos preceitos, a morte de todos os vícios e a vida de todas as virtudes (Lib. III, de Vita Contemplat., c. XIII). São Gregório diz que a caridade é mãe e guardadora de todos os bens: Matrem et custodem omnium bonorum (Lib. IV, Epist. LX). A caridade, diz São Bernardo, é a mãe dos anjos e dos homens, que pacifica não somente o que existe na terra, senão também o que está no céu: Hominum matrem et angelorum, nom solum quae in terris, sed etiam quae in caelo sunt pacificantem (Epist. II).

Escutai a São João Crisóstomo: Aquele que arda em amor por Jesus Cristo, é como se estivesse sozinho na terra. Não lhe importa nem a glória nem a ignomínia. Despreza as tentações, as flagelações, os encarceramentos, como se sofresse em um corpo alheio, ou como se seu corpo tivesse a dureza do diamante. Ri-se dos prazeres do mundo e não os sente, assim como um morto não sente a outro. A mesma maneira que as moscas se apartam do fogo, os efeitos da carne e da concupiscência afastam-se do homem que tem caridade (Homil. LII, in Act.).

No amor de Deus estão todos os tesouros: fora deste amor, não existe nada. Ele é o que faz a felicidade do homem aqui na terra; é o único caminho do céu; faz e fará eternamente a soberana felicidade dos eleitos.

Tendo caridade, diz Santo Agostinho, possui-se a Deus; e possuindo a Deus, tem-se todas as verdadeiras riquezas: Si caritatem haes, Deum habes; ille vere dives esse videtur, in quo Deus habitare dignatur (Serm. LIV). Se quereis ser Rei no céu, diz Santo Anselmo, amai a Deus, e merecereis ser tudo o que desejais (Epist.). O amor de Deus, diz Santo Agostinho, é o ápice da felicidade, o supremo grau de glória e da alegria; é equivalente a todos os bens (Civit. Dei). A caridade é a maior de todas as virtudes. Assim como o ouro sobrepuja em valor aos demais metais, o sol sobrepuja às estrelas, e os serafins aos anjos, assim também a caridade é superior a todas as demais virtudes. Não há virtudes sem caridade; onde se ache esta, todas as demais virtudes formam forma sua corte. Ela é o ouro precioso e puro com o qual se compra o céu. É um fogo celestial que abrasa dos corações; é um sol que tudo ilumina, fecunda-o e vivifica-o. É uma virtude angélica que transforma os homens em serafins.

Desejais mais? Escutai: vede o que a caridade opera em São Paulo.

  1. A caridade é a guia, a dona e a rainha das virtudes;
  2. é a mãe que as amamenta, restabelece-as, fortifica-as, as sustém, diz São Lourenço Justiniano (Lib. Arboris Vit.).
  3. a caridade faz de nós amigos filhos de Deus, seus herdeiros, coerdeiros de Jesus Cristo e templos do Espírito Santo;
  4. distingue entre os eleitos e os reprovados;
  5. é a alma das virtudes, as quais dela tomam seus méritos: daí vem que Santo Agostinho afirma que unicamente a caridade conduz a Deus (In Psalm.);
  6. é o laço que nos une estreitamente a Jesus Cristo. Nossa conformidade com o Verbo na caridade, diz São Bernardo, une com Ele nossa alma como a esposa está unida a seu esposo: Conformitas cum Verbo in caritate, maritat animam Verbo (Serm. in Cant.);
  7. a caridade é um fogo inextinguível que doma ao ferro, e faz derreter os corações mais duros; porque o amor tudo sobrepuja, posto que até triunfa de Deus. A caridade domina o ódio, a cólera, o temor, a cobiça, o impulso dos sentidos etc. e tudo dirige até Deus; e
  8. assim como a águia contempla ao sol, diz Santo Agostinho, aquele que tem caridade, contempla a Deus, e com duas asas de fogo, o amor de Deus e do próximo, voa até o Senhor (De Morib.).

Vede o que a caridade opera em São Paulo. Da mesma maneira que o ferro posto no fogo, diz São João Crisóstomo, converte-se todo em fogo, assim São Paulo, abrasado de amor tornou-se todo amor. Seja com suas cartas, seja com suas orações, ora com suas ameaças, aqui por si mesmo, lá por meio de seus discípulos, empregava todos os meios para animar aos fiéis, firmar os fortes, levantar os débeis e aos que haviam caído no pecado, curar aos feridos, reanimar aos tíbios e rejeitar os inimigos da fé: excelente Capitão, intrépido soldado, hábil médico, para tudo bastava. Ó, se nossos corações amassem a Deus como Paulo O amava, quantas maravilhas (Serm in Laud. Santi Pauli).

O amor e o temor de Deus, diz Santo Agostinho, levam a todas as boas obras, como o amor e o temor do mundo levam a todos os pecados: Ad omne opus bonum amor ducit et timor Dei; ad omne peccatum amor ducit et timor mundi (Sentent. CCLVIII).

A caridade é tão preciosa que é superior a todas as demais coisas; para obtê- la, é necessário empregar nisso todas as nossas forças, nossos suores e até nossa vida.

Uma grande ação feita sem amor a Deus tem pouquíssimo peso; porém, com a caridade uma ação, por pequena que seja, ainda que não fosse mais que um copo de água fria dada a um pobre, tem um grande valor aos olhos de Deus. Deus pesa os espíritos, dizem os Provérbios: Spirituu ponderator est Dominus (Pr 16, 2). Mas o peso da alma e do coração, é o amor de Deus. Assim é que quanto mais ama a Deus, tanto mais pesa na balança eterna: o amor dá-lhe peso e valor. De que não é capaz o amor de Deus? O que não merece a caridade, que é origem e o princípio de todo mérito? Como haveria de abandonar o Senhor aquele que Lhe ama? Como poderia deixar de amar-lhe Ele também?…

A alma fiel e santa é, em suas relações com o amor de Deus, o que é um bom soldado na batalha, um doutor em meio de uma biblioteca, um médico que tem à mão uma farmácia, um legista armado com a lei, um lavrador em meio aos trabalhos do campo, um joalheiro dono de enormes quantidades de ouro. Este amor é sua espada, seu livro, seu remédio, sua lei, seu campo, sua riqueza, sua arte, seu trabalho. Pelo amor submergimo-nos em Deus, que é um oceano sem limites; estamos Nele como os peixes em seu elemento, como os pássaros no ar. Recebamos a Deus com um coração abrasado de amor; que Deus o penetre como os raios do Sol penetram o ar; que se reflita nele, como os rasgos da fisionomia em um espelho brilhante de suavidade.

Não é o valor da oferenda o que agrada a Deus, senão o amor com que a fazemos, diz São Salviano (Lib. II ad Cler.). O verdadeiro amor, diz São Bernardo, não busca recompensa, merece-a. E esta recompensa é Deus, em Quem se fixa: Verus amor praemium non quaerit, sed meretur, habet praemium, sed id quod amatur (Serm. LXXVI). Senhor, diz Santo Inácio de Loyola, dai-me vosso amor, e serei bastante rico (In ejus vita).

O amor nos une com Deus

Por meio do amor unimo-nos tão intimamente com Deus, que não constituímos, em certa maneira, mais que um só ser com Ele. O amor deifica-nos. Como o ferro, na frágua, se transforma em fogo ao mesmo tempo que conserva sua natureza, como o ar ferido pelos raios do sol torna-se luminoso, assim também aquele que ama a Deus acha-se transformado em Deus. Pelo amor de Deus tem cumprimento as palavras de Jesus Cristo quando dizia a seu Pai:

“Pai santo, conservai em vosso nome aqueles que me destes, a fim de que sejam consumados na unidade” (Jo 17, 11-23).

Eis aí o fim, diz São Bernardo, é a consumação, a perfeição, a paz e a alegria no Espírito Santo, é o silêncio no céu (Serm. in Verb. Evang.).

O amor converte aquele que ama naquele a quem ama; a alma habita melhor naquele a quem ama do que no coro que ela anima. Deus se comunica pela graça, dá-se Ele mesmo ao justo; e por esta comunicação eleva ao justo até Ele, une-se com Ele e diviniza-lhe. Fazemo-nos participantes da natureza de Deus, diz o Apóstolo São Pedro: Divinae consortes naturae (2 Pd 1, 4). O amor divino transforma aquele a quem enche, obriga-lhe a aderir-se a Deus a fim de não ser mais que um com Ele. Para que viva, sinta e se regozije com a vida, com os sentimentos e com a alegria de Deus. Isto é o que experimentava São Paulo quando dizia: Vivo, autem jam non ego, vivit vero in me Christus (Gal 2, 20). Aquele que ama a Deus separa-se inteiramente de si mesmo, passa a Deus, une-se com Ele, não pensando em outra coisa, não compreendendo, não sentindo mais que Deus, porque não vive mais do que Deus: Mihi vivere Christus est (Fl 1, 21). A razão consiste em que o bem é comunicativo por sua natureza e é propenso a estender-se; mas Deus, que é o supremo Bem, comunica-se e estende-se no mais alto grau. A Esposa dos Cânticos experimentava a felicidade de semelhante união: Meu amado, dizia, é todo para mim e eu lhe pertenço inteiramente: Dilectus meus mihi, et ego illi (Ct 2, 16). Eu, que sou o amor puro e perfeito, diz Deus a Santa Gertrudes, escolhi-te e tanto quando o homem deseja viver e respirar, eu desejo que tu me ames por meio de uma união indissolúvel; Eu recebi-te com o seio de minha bondade paterna, a fim de que tu alcançasse se mim tudo o que pode ser objeto de teus desejos.

Imita-se a Deus por meio do amor

Escrevendo São Paulo aos Efésios, dizia-lhes: Sede os imitadores de Deus, como filhos caríssimos: Estote imitatores Dei, sicut filii carissimi (Ef 5, 1). Porém, ó grande Apóstolo, como pode uma débil criatura como o homem, imitar a Deus? Dizei-nos o que temos de fazer? Este é o meio: Et ambulate in dilectione. Andai pelo caminho do amor de Deus (Ef 5, 2). Deus é todo nosso amor; assim, pois, aquele que ama com todo o seu coração, imita a Deus. Deus é todo amor para nós. Sejamos todo amor para Ele, e seremos seus imitadores.

Por meio do amor vive-se de Jesus Cristo e para Jesus Cristo

Mihi vivere Christus est: Jesus Cristo é minha vida, diz São Paulo (Fl 1, 21). Minha vida é Jesus Cristo, e isto por três motivos:

  1. Jesus Cristo e a causa eficiente de minha vida espiritual, e ma conserva;
  2. é o princípio de minha vida por meio de seus exemplos; e
  3. é seu objeto final.

Jesus Cristo, diz Teofilacto, é meu espírito, minha luz e minha vida, tanto natural como sobrenatural e bem aventurada (Anton. in Meliss.) Sou, diz Jesus Cristo, o caminho, a verdade e a vida (Jo 16, 6). Por conseguinte, aquele que ama a Jesus Cristo, possui o segredo do caminho, da verdade e da vida.

Eu estou crucificado com Jesus Cristo, diz São Paulo aos Gálatas. E eu vivo, ou melhor, não sou eu que vivo, senão que Cristo vive em mim (Gal 2, 19-20).

Cada um de nós existe conforme ao amor que tem, diz Santo Agostinho. Os que amam a terra convertem-se em terra; os que amam a Deus serão deuses: Talis quisque nostrum est qualis est ejus dilectio: teram diligis, terra eris; Deum diligis, Deus eris (Tract. II, in Epist. I Joann., 3).

Amar a Deus é amar-se a si mesmo

A cidade de Deus, diz Santo Agostinho, começa, constrói-se e conclui-se pelo amor de Deus: engrandece-se pelo ódio a nós mesmos; porém, a cidade do diabo começa pelo amor próprio, e cresce até chegar ao ódio de Deus. Amar-se é aborrecer-se: Amor sui est odium sui (De Civit. VI, 28). Não me posso explicar como alguém pode se amar, em vez de amar a Deus; porque aquele que não pode viver por suas próprias forças, morre amando-se: Qui enim nom potest vivere de se, moritur utique amando se (Ut supra). Ao contrário, quando amamos Aquele que unicamente dá a vida e aborrecemo-nos, amamo-nos realmente. Devemos amar a Deus, a fim de que, ajudados por seu amor, esqueçamo-nos a nós mesmos. Amar a Deus é amar-se: Amare Deum est diligere seipsum (Ut supra). Aquele que se prefere a Deus, não ama a Deus, nem se ama tampouco a si mesmo: Quisquis seipsum prae Deo amat, ec Deum, nem seipsum amat (Ut supra). Não se ama a Deus senão por Deus: Non amatur Deus nisi de Deo (Ut supra).

O amor de Deus une aos homens entre si

Há tantas almas e corações como homens, diz Santo Agostinho; porém, desde que se unam a Deus pelo amor, não formam mais que uma alma e um coração. Tal é o sublime exemplo que nos deixaram os cristãos: Multorum hominum multae sunt animae, et muta sunt corda, sed ubi per dilectionem adherent Deo, uma anima, et unum cor fiunt (Sentent. CCCXLVIII).

Como nada podemos fazer para aumentar a felicidade de Deus, trabalhemos por meio da caridade no bem de nosso próximo, que é sua imagem; derramemos entre nossos irmãos a sabedoria, a graça, o bom exemplo e todos os dons que temos recebido de Deus. A esmola espiritual é mais preciosa que a esmola material; e quanto mais a dermos a nossos semelhantes, mais nos enriquecerá Deus. Os mananciais que produzem muita água, recebem, todavia, mais; se detivessem suas ondas, a águas que lhes vem, se deteria, e se a água primeira ocupasse já toda a fonte, não restaria lugar para a que vem. Assim sucede com os pregadores e os que dão esmola etc. Quanto mais ajudam a seu próximo, de mais larguezas cumula-lhes Deus.

Escutai a um mártir, mártir da caridade, antes de o ser pela espada, São Paulo, quando escrevia aos Coríntios: Não há dia, irmãos, em que eu não morra, por assegurar a glória vossa e também minha, que está em Jesus Cristo, nosso Senhor: Quotidie morior per vestram gloriam, fratres, quam haeo in Christo Jesu Domino nostro (1 Cor 15, 31).

Aquele que é infiel a Deus, não pode ser fiel ao homem, diz Santo Ambrósio; e a piedade é a que guarda a amizade: Nonpotest homini amicus esse, qui Deo fuerit infidus; pietas custos amicitiae est (Serm. VIII). O amor de Deus e o amor do próximo jamais vão separados; não formam mais que um mandamento…

O amor de Deus faz insensível

O grande Apóstolo esboça a força do amor de Deus. Quem nos separará do amor de Jesus Cristo? diz Seria a tribulação ou a angústia? Ou a fome? Ou a nudez? Ou o risco? Ou a perseguição? Ou a espada? Estou seguro, certus sum, que nem a morte, nem a vida, nem os Anjos, nem os Principados, nem as Virtudes, nem o presente, nem o vindouro, nem a força nem tudo o que já de mais alto, nem de mais profundo, nem outra criatura alguma poderá jamais separar-nos de amor de Deus que se funda em Jesus Cristo, nosso Senhor (Rm 8, 35-39).

Prestai ouvidos à Santa Águeda, virgem e mártir: Estou de tal modo segura e firme no amor de meu Senhor Jesus, diz, estou de tal modo firmemente resolvida a guardar o voto de virgindade que Lhe fiz, que espero, mediante sua graça, antes de ver que a luz falta ao sol, o calor ao fogo, a brancura à neve, que vacilar em minha vontade e minhas resoluções. (Surius, in ejus vita).

Não há nada, por mais duro que seja, que não ceda ao fogo do amor de Deus, diz Santo Agostinho: Nihil tam durum et ferreum, quod non igne amoris vincatur (Lib. de Moribus Eccles. c. XXII).

O amor de Deus é forte como a morte, dizem os Cânticos; as inundações não o poderão apagar, nem os rios poderão sufocar-lhe: Fortis est ut mors dilectio. Aquae multae non potuerunt extinguere caritatem, nem flumina obruent illam (Ct 8, 6-7).

O amor é forte como a morte. Com efeito:

  1. Assim como a morte domina tudo, é dona de tudo, e nenhum vivente pôde escapar de seu império, o amor a Jesus Cristo triunfou dos golpes, dos cravos, dos espinhos, das dores, da cruz, das afrontas, da fome, da sede, da nudez, e em uma palavra, de todas as adversidades e de todos os obstáculos. Aquele que ama a Jesus Cristo está pronto para sofrer tudo isso por Ele;
  2. o amor a Jesus Cristo é forte como a morte; porque o amor triunfou dela, a fez morrer, segundo a palavra do profeta Oseias: Ó morte eu sou tua morte. Ero mors tua, ó mors (Os 13, 14); e
  3. o amor é forte como a morte, porque o amor experimenta os males do objeto amado. Se este morre, o outro morre também de pesar.

O amor é forte como a morte. É impossível, diz Santo Agostinho, expressar de uma maneira mais rica, mas bela e mais significativa o poder do amor de Deus; porque quem resiste à morte? Resiste-se ao fogo, à água, ao poder, aos reis; a morte vem, pouco importa sob que forma, e quem é que lhe pode resistir ao seu império? Venit uma mors, qui ei resisit? (Eod. Loco). Eis aqui porque o poder do amor é comparado ao da morte. O amor de Deus destrói, com efeito, e mata em nós o que somos, para transformar-nos naquilo que não éramos. Em uma morte, a morte do pecado, porém, é ao mesmo tempo a ressurreição e a vida (Ut supra).

Assim como a morte mata, diz São Gregório, o amor à vida eterna nos faz morrer para as coisas da terra Sicut mors interimit, sic ab amore rerum corporalium aeterna vitae caritas occidit (In haec verba Cant. supra). O amor de Deus produz o mesmo efeito sobre as cobiças da alma, que a ação que ocasiona a morte do corpo, continua o santo Doutor; é preciso desprezar todos os afetos terrenais. A defuntos desta classe é a quem o Apóstolo dizia: Estais mortos, e vossa vida esta escondida com Cristo em Deus: Mortui estis, et vita vestra est abscôndita cum Christo in Deo (Col 3, 3).

A caridade é forte como a morte, diz Santo Agostinho, porque a caridade mata e faz desaparecer todos os pecados. Morre-se para os vícios, quando se ama ao Senhor (In Psalm. CXVIII, Serm. XV).

Já que a morte jamais cansa, jamais se detém, corta a vida de todos os homens, justo é que nosso amor persevere também até que tenha destruído em nós todas as paixões e todos os vícios.

O amor é forte como a morte. Dá morte ao demônio, ao mundo, mata-nos a nós mesmos para fazer-nos viver somente em Jesus Cristo, faz desejar o último dia da existência, faz sacrificar nossa vida. Aquele que ama verdadeiramente, não chora nem por suas riquezas, nem por seus filhos, nem por seu bem estar.

O amor de Deus faz que a alma viva durante o tempo e eternidade; o amor ao mundo mata a alma durante tempo e pela eternidade.

A alma, diz São João Crisóstomo, vê-se tão elevada por este celeste amor, que olha como sua maior glória levar as cadeias por Jesus Cristo e ver-se perseguida por Ele. Escapa-se de todas as afeições da terra, assim como o ouro no crisol livra- se das manchas. Se o amor a Deus é grande, opera maravilhas de valor. Não sentimos estas verdades, não nos deleita porque somos tíbios e estamos gelados: Haec omnia operatur amor hominis ad Deum, si ingens fuerit. Ista non sentimus et gustamos, quia frigidi (Homil. LII).

Santo Agostinho, ao falar da castidade de São José, emite, segundo Santo Ambrósio, este precioso ensinamento: Aquele que ama a Deus não pode ser vencido pelo amor de uma mulher; os deleites e as seduções da juventude não comovem a alma casta; nem esta cede tampouco à influência de um amor apaixonado. José é grande, porque, escravo, não quis obedecer; amado, porque não quis amar; supliciado, porque resistiu; detido, porque fugiu (De Civit. Dei, c. XXIII).

O amor de Deus abrasa-me, devora-me, diz São Francisco de Assis. Eu respondi ao amor com amor; o amor divino triunfa em meu coração do amor que naturalmente o homem experimenta por si mesmo. Nem as tempestades, nem as chamas, nem a espada jamais me haverão de removê-lo[14]. Senhor, diz o mesmo Santo, morra eu de amor por Vós, já que Vós morrestes de amor por mim!

Buscai ao Senhor pelo amor e sede firmes, diz o Salmista: Quaerite Dominum et confirmamini (Sl 104, 4)

O amor de Deus afugenta aos demônios

O amor de Deus afugenta aos demônios. Da mesma maneira que as moscas fogem da água fervente e se deixam cair nas águas tíbias, nas quais depositam vermes; assim os demônios fogem de uma alma abrasada com o fogo do amor divino e esquivam-se das almas tíbias, perseguem-nas e as transformam em porões de corrupção.

Ver o amor e Deus em um coração é mais insuportável para um demônio do que os mesmos tormentos do inferno. Este amor é uma arma com a qual o cristão resiste a todas as terríveis emboscadas da antiga serpente; com esta arma, esmaga- lhe a cabeça. Com este amor se triunfa do inferno e de todas as paixões.

O amor de Deus destrói o pecado

O amor de Deus é a morte dos crimes e a vida das virtudes, diz Santo Agostinho: Caritas est mors criminum, vita virtutum (De laudibus Caritatis).

Muitos pecados se lhe perdoam, porque muito amou, disse Jesus Cristo, falando da penitente Magdalena: Remittuntur ei peccata multa, quoniam dilexit multum (Lc 7, 47). Todo o mofo do pecado fica destruído pelo fogo do amor de Deus, e quanto maior é o amor em um coração, mais aniquilado encontra-se nela o pecado.

Vosso Deus é um fogo que consome, diz o Deuteronômio: Dominus Deus tuus ignis consumens est (Dt 4, 24).

Deus, diz São Gregório, é um fogo que consome de todo pecado a alma que enche com seu amor: Deus ignis consumens est, quia mentem quam repleverit, a peccatorum rubigine puram reddit (In haec verba Deuter).

Nada mal resta no coração que arde com o fogo da caridade, diz São Cesário de Arles: Nihil in eo mali manebit, in quo ignis asserit caritatis (Homil. V).

O amor a Deus faz-nos impecáveis. Ama e faze o que quiseres, diz São Agostinho: Dilige, et fac quod vis (In I. Joannis IV. Tract. VII). Com efeito, aquele que ama a Deus não pode resolver-se a ofender-Lhe, a ultrajar-Lhe, a violar sua Lei etc.

O amor de Deus faz desprezar todas as demais coisas

Tudo me parece vil, diz o grande Apóstolo aos Filipenses, comparado com a grande ciência de Jesus Cristo meu Senhor, por cujo amor perdi todas as coisas, e as considero como lixo para ganhar a Cristo[15].

Até a saúde do corpo, diz São Gregório, tem pouco preço para a alma que está ferida com as flechas do amor divino: Vilis ei fit ipsa salus sui corporis, quia transfixa est vulnere amoris (Lib. IV. Moral).

Pode amar ao mundo corrompido aquele que ama a Deus incorruptível? Aquele que se encontra neste estado, exclame com São Francisco: Ó, que vil me parece a terra quando contemplo o céu: Ó quam sordet terra cum coelum auspicio (S. Bonav., In ejus vita).

O amor de Deus dissipa a tibieza

A preguiça espiritual e a languidez não existem na alma empurrada pelo desejo de amar a Deus, a adiantar mais e mais no caminho da perfeição, diz São Boaventura: Neque enim languor, vel desídia locum habet, ubi amoris stimulus semper ad maiorem perurget (In Speculo).

O coração que tem a caridade é como um pedaço de cera que, em se derretendo, recebe a marca das pegadas de Deus; enquanto que o coração que não a tem é como o barro que endurece-se ao sol. E sem embargo, é o mesmo calor do sol que abranda a cera e endurece o barro!

O amor de Deus ilumina

Que o Cristo habite pela fé em vossos corações, diz São Paulo aos Efésios, estando arraigados e fundados na caridade, a fim de que possais compreender com todos os santos qual é a comprimento, a largura, a altura e a profundidade desse mistério que a bondade de Deus para com os homens, e conhecer também o amor de Jesus Cristo por nós, amor que é superior a todo conhecimento, para que sejais plenamente cumulados de todos os dons de Deus[16].

Ninguém mais que aquele que ama a Deus está próximo de Deus; e quanto mais O amamos, mais próximo estamos. Porém, Deus é a luz das luzes, a luz verdadeira que ilumina a todos os homens que vem a este mundo, diz São João: Erat lux vera, quae illuminat omnem hominem venientem in hunc mundum (Jo 3, 9).

Aqueles que amam a Deus, Senhor, brilhem como o sol em seu oriente: Qui diligunt te, sicut sol in ortu suo splendet, ita rutilent (Jud 5, 31).

Tudo se converte em bens para aquele que ama a Deus

Sabemos, diz São Paulo aos Romanos, que tudo contribui ao bem dos que amam a Deus: Scimus autem quoniam diligentibus Deum omnia cooperantur in bonum (Rm 8, 28). O amor de Deus torna tudo fácil… a tudo dá preço, aos sofrimentos, à pobreza, etc.

Doçura e felicidade que se encontra em amar a Deus

Congratulai-vos com Jerusalém, exclama o profeta Isaías, e regozijai-vos com ela, vós todos que a amais; transbordai com ela de gozo todos quantos por ela estais chorando, a fim de que sugueis de seus peitos o leite de suas consolações até ficardes saciados, e obtenhais abundante fartura de delícias de sua consumada glória; porque isto diz o Senhor: Eis que eu derramarei sobre ela como um rio de paz, e como uma torrente que tudo inunda, a glória das nações: vós sugareis seu leite, a seus peitos sereis levados, e acariciados sobre seu regaço: como uma mãe acaricia a seu filho, assim eu vos consolarei, e achareis vossa paz e consolação em Jerusalém[17].

Prodigalizando Jesus Cristo o delicioso vinho de seu amor às almas fiéis, embriaga-as e as enlouquece de amor; porque o amor perfeito, diz São Dionísio, produz o êxtase e uma loucura santa (De Coelest. Hier.).

Ninguém cativa como Deus; nada tão belo, nada tão doce como Ele. Eu os atrairei a mim, diz o Senhor por Oséias, com vínculos próprios de homens, com os vínculos da caridade: In funiculis Adam traham eos, in vinculis caritatis (Os 11, 4). Atraí-los-ei por meio do amor que lhes manifeste, por meio de assinalados favores, por meio da doçura e da graça. Isto experimentou Santo Agostinho depois de sua conversão Ó, exclamava, que doce foi para mim ver-me privado, de repente, das enganosas alegrias e das vãs delícias! E o que, primeiro, eu temia perder, cumulava-me de alegria vê-lo perdido. Vós distanciastes de mim aquelas mentirosas doçuras, ó meu Deus; Vós, que éreis a verdadeira alegria e suprema suavidade, Vós as derramastes e entrastes no lugar que ocupavam, mas doces que todos os prazeres do mundo (Confess.). Crede que o amor de Deus é um dardo violento com o qual Deus atravessa o coração.

Escutai a São Paulo quando exclama incendiado de amor: Eu tudo possuo, nado na abundância, nada me falta: Habeo autem omnia, et abundo, repletus sum (Fl 4, 18). Escutai a Orígenes explicando maravilhosamente as seguintes palavras do Cântico: Estou ferida de amor, Vulnerata caritate ego sum. Que formoso é, diz, e quão honroso receber a ferida do amor divino! Outros estão feridos dos dardos do amor carnal; outros também dos dados do amor da avareza. Enquanto vós, exponde-vos ao dardo seleto, ao dardo encantador do amor divino; porque Deus é um arqueiro, e ditoso é aquele a quem fere![18] Santo Efrém o experimentava ao exclamar: Contei, Senhor, contei as ondas de vossa doçura, porque eu já não posso suportá-las: Contine, Domine, undas dulcedinis tuae, quia sustinere non valeo (Serm. VI). E São Francisco Xavier: Já é bastante, Senhor, já é bastante: Satis est, Domine, satis est (In ejus vita). O grande Apóstolo as experimentava até em meio de numerosas tribulações que lhe afligiram: Estou transbordando de alegria, exclamava ele em meio de todos os seus trabalhos: Superabundo gaudio in omni tribulatione nostra (2 Cor 7, 4).

Todas os bens do homem, todos os seus deveres, sua felicidade, seu fim e perfeição, consistem no amor de Deus. O amor transforma o homem em Deus. É justo, Senhor, diz Santo Agostinho, que aquele que busca sua felicidade em outra parte, Vos perda. Peço-vos que tudo seja para mim amarguras, a fim de que tão somente Vós pareçais doce à minha alma, Vós que sois a inestimável doçura, e que fazeis agradável tudo quanto amargo é[19]. Bem aventurados os que vos amam, Senhor, diz o justo Tobias: Beati omnes qui diligunt te (Tob 13, 18).

Não há entre as coisas humanas, diz São Bernardo, nada que possa satisfazer a uma criatura feita a imagem de Deus senão é Deus, que é o amor, única coisa superior a ela[20]. Se agrada-me alguma coisa porque é boa, diz Santo Anselmo, quando mais não hei de amar aquela que é infinitamente boa? Porque, pois, ó mortal, buscas, em outra parte, bens para tua alma e para teu corpo? Ama ao único Bem que é todo bem, e isso basta: Ama unum bonum quod omne bonum est, et satis est (De Similitud.). Fora de Deus, encontramos somente riachos; somente em Deus está o Oceano de todos os bens (Eod. Loco). A consumação e a perfeição da sabedoria, da felicidade e da virtude, tanto do homem quanto dos anjos, é Deus; trata-se de dirigir a Ele todos os nossos pensamentos, nossas intenções, nossas ações, é amar-Lhe em todas as criaturas, e todas as criaturas nele: Eunque in omnibus creaturis, et omnes in eo amemus (Eod. Loco).

A alma ferida pelos esplendores de seu Criador, e inflamada de seu amor; a alma que se une a Deus em abraços infinitamente doces, tudo dirige até Ele, tudo vê nele, não vê mais do que a Ele em todas as coisas. Suspira e não respira mais do que por Ele, dizendo: cada vez que suspiro e respiro, a Vós, ó Deus meu, dirijo-me suspiros e aspirações: Quoties suspiro er respiro, ad te, o Deus meus, suspiro et aspiro (Eod. Loco). Eis aqui porque em qualquer lugar em que se encontre e por mais que faça, olha Aquele que ama, e obra por Aquele que o ama: vive, descansa e morrer Nele por meio do amor e a contemplação.

O profeta Jeremias experimentava essa paz, essa alegria, este repouso e esta felicidade, quando dizia: Acendeu-se em meu interior uma espécie de fogo ardente encerrado em meus ossos, e desfaleci, não podendo sofrer[21].

Deus, diz Santo Agostinho, inspiro ao homem um desejo do infinito que nada limitado pode satisfazer. Fizestes-nos para Vós, Senhor, e nosso coração estará sempre inquieto até que descanse em Vós[22].

Quereis riquezas?, prossegue o mesmo Padre: Deus tem-nas todas. Quereis um manancial de água viva? Que água mais pura que a de sua graça? É verdade que Deus prova na terra a seus eleitos de vez em quando; porque a felicidade constante somente existe no céu. A mesma Esposa dos Cânticos se queixa disso: Levantei-me a fim de abrir a meu Querido: abri, porém, havia se ocultado, havia passado; busquei-o e não o encontrei; chamei-o e não me respondeu[23]. Deus prova-nos; sujeitemo-nos. Estas provas são uma manifestação de amor, e esforçando-nos a obedecer a sua santa vontade, amar-Lhe-emos sempre. Nada é mais doce, mais abrasador, mais casto que o amor de Deus; abrasa os corações e todo o corpo; embriaga a alma até fazer que se esqueça de si mesma.

Nada custa e tudo é fácil para aquele que ama

Desta doçura, desta felicidade do amor a Deus, nasce naturalmente a facilidade de amar-Lhe. Todo mandamento de Deus, diz Santo Agostinho, é leve para aquele que ama: Omne praeceptum Dei leve est amanti (In Sentent. CCXXII).

O trabalho nada custa ao coração amante, diz o mesmo Padre: Ubi amatur, non laboratur (Eod. Loco). Onde há amor, diz São Bernardo, não há trabalho, senão suavidade: Ubi amor est, labor non est sed sapor (Serm. LXXXV in Cant.). Nada é difícil, nada é impossível para aquele que ama, diz Santo Agostinho: Amanti nihil est dificile, nihil impossibile (Serm. X de Verbis Domini in Matth.). A alma que ama, eleva-se com frequência até a celestial Jerusalém; percorre seus sítios, visita aos Patriarcas e aos Profetas; saúda aos Apóstolos, admira ao exército dos Mártires e Confessores; contempla os coros das Virgens e de todos os Santos.

Ó homens, exclamava Santo Agostinho, que vos cansais servindo à avareza, vosso amor vos crucifica. Ama-se a Deus, sem trabalho: Sene labor amatur Deus (Tract. IX in Joann). A avareza impõe trabalhos, perigos, tristezas, tribulações; e sem embargo lhe obedeceis. Com que fim? Para encher vossos cofres e perder a paz. Estáveis mais seguros e mais tranquilos antes de haver adquirido que depois de haver logrado ser ricos. Enchestes vossos celeiros e temeis aos ladrões; amontoastes ouro e perdestes o sono. Adquire-se a Deus sem trabalho, quando se Lhe ama, e se Lhe possui sem inquietude: Deus sine labore, cum amatur, acquiritur, et tenetur (Eod. Loco).

Atrai-me, tu mesmo, após ti, diz a Esposa dos Cantares, e correremos todos ao odor de teus aromas (Ct 1, 3). Amai, diz Santo Agostinho, e sereis atraídos: Ama, et traheris (Liber Confess.). Não creiais que a violência que faz Deus à alma seja dura e penosa, é doce, suave, é a mesma suavidade que vos atrai: Ne arbitreris istam asperam, moletamque violentiam; dulcis est, suavis est; ipsa sauvitas te trahit. Não se atrai à ovelha faminta indicando-lhe ervas? Não se a obriga, excitam- se seus desejos. Vós, pois, vinde a Jesus Cristo, não vos assuste o longo do caminho; é amando e não navegando, como se chega a Ele: Amando venitur, non navigando (Liber Confess.).

O amor, acrescenta Santo Agostinho, é uma alavanca tão forte que levanta os pesos mais enormes; porque o amor é o contrapeso de todos os pesos. Meu amor é o peso que me arrasta; em todas as partes por onde vou, sinto a necessidade de dirigir- me a Ele: Amor meus pondus meum; eo feror quocumque feror (Lib. II De Civit. c. XXVIII).

A alavanca da alma, diz São Gregório, é a força do amor; levanta a alma sobre todas as coisas do mundo e a transporta ao céu (Homil. in Evang.). Meu trabalho, diz São Bernardo, dura apenas uma hora; porém ainda que durasse mais tempo, não o sentiria, porque amo: Labor meus vix est unius horae, et si majoris morae, non sentioprae amore (Serm. in Cant.).

Jesus Cristo, pela força de seu amor, suportou todo o peso de sua paixão e de sua cruz. O amor faz fácil e leve até o mais pesado e doloroso.

O amor de Deus encerra todos os bens

Deus, habitando numa alma fiel por meio de seu amor, opera nela as seguintes maravilhas:

  1. purifica-a dos desejos terrenos, para que somente anele e saboreie as coisas do céu;
  2. este amor encaminha até Deus todos os sentimentos da alma, todos os afetos, seu poder e seus atos, a fim de eu não pense mais que em Deus, não veja nem busque mais que a Ele. E o que poderia buscar fora, achando-se Deus nela? Submerge-se Nele, manancial de todos os bens;
  3. o amor faz a alma desejar as ações heroicas para Deus; faz-lhe desejar sofrer por Ele e assemelhar-se a Jesus Cristo crucificado;
  4. a faz crescer cada dia mais e mais na graça;
  5. obriga-a a comunicar aos demais, ainda que seja ao mundo inteiro, o fogo de que se acha abrasada; o amor, diz São Bernardo, não é mais que uma vontade forte para fazer o bem: Nihil aliud est amor, quam vehemens in bono voluntas (De natura divini amoris, II). Assim, pois, aquele que não tem zelo, não ama, acrescenta aquele grande Doutor: Qui ergo non zelat, non amat (Ut supra);
  6. a alma até domina a Deus por meio do amor; obtém dele tudo o que pede, e adquire certa onipotência;
  7. Deus se une a ela, assimila-se a ela e a faz participante de suas divinas virtudes; comunica-lhe seus segredos; revela-lhe o estado dos corações; dá- lhe a conhecer o os passados distantes e até o futuro, como aos Profetas e Apóstolos; e
  8. Tranquiliza a alma, dá-lhe serenidade, ilumina-a, a fim de que, imperturbável, alegre, satisfeita nas adversidades e na prosperidade, regozije- se sempre em Deus, louve-O e dê-Lhe graças, cantando com o Salmista: Bendirei ao Senhor em todos os tempos: Benedicam Dominum in omni tempore: semper laus ejus in ore meo (Sl 33, 1). E com Jó também dirá: O Senhor deu, o Senhor tirou; sua vontade se cumpriu; bendito seja o seu nome: Dominus dedit, Dominus, Dominus abstulit: sicut Domino placuit, ita factum est; sit nomem Domini benedictum (Jó 1, 21). Enfim, aquele que ama a Deus, morre sobrecarregado pelo peso do amor divino, como a bem aventurada Virgem Maria.

A arte mais excelente é a arte de amar a Deus, diz São Bernardo: Ars artium ars amoris (De Natura ac Dignitate Divini Amoris). Faz com que todos os pensamentos do espírito tendam ao amor; dirige todos os movimentos do coração até o desejo da eternidade. O homem que ama a Deus, compraz-se em seu amor, e ditoso, nele permanece, saboreando seu deleite; pronto, sufocado por seus sentimentos, eleva-se sobre si mesmo, chega ao êxtase intelectual, sobe até ao pensamento de Deus a fim de aprender a não ocupar-se mais do que dele, a não descansar senão nele. O amor de Jesus Cristo absorve todos os seus afetos; descuidando-se e esquecendo-se de si mesmo, não sente mais que a Jesus Cristo e às coisas que são de Jesus Cristo. Então (é o mesmo São Bernardo quem fala) seu amor é perfeito. E neste estado, a pobreza não é um peso para ele, já não sente as injúrias, ri-se dos opróbrios, despreza as perdas, e considera a morte como um ganho; ainda mais, não crer morrer, porque sabe que da morte passara à vida eterna (Ibid.).

Aquele que ama as coisas terrenais, vis e vergonhosas, toma-se semelhante a elas. Porém, ao contrário, a alma que ama a Deus e somente com Ele se liga, torna­-se semelhante aos espíritos, aos anjos, ao mesmo Deus. Então, diz Santo Ambrósio, o Verbo de Deus a rodeia, ilumina-a, inflama-a, bendize-a, não constitui mais que um só ser com ela (Serm. II).

O amor de Deus acende, abrasa, faz derreter o coração, e muda inteiramente. Vede a São Paulo… o amor de Deus ilumina, refresca e enche a alma de consolos, de desejos de possuir a Deus, sacia e dá a paz, dá paciência nas tribulações, e assegura a salvação; remove todo temor e inspira confiança. Este é, Senhor, o paraíso no qual podemos entrar sem abandonar a terra. Aquele que sobe até Deus por meio do amor, tem asas, diz Santo Agostinho: Ad Deum ascendit volando, qui ascendit amando (Praef. In Psalm. CXXI).

Para amar a Deus é necessário amar sua Lei

Se me amais, guardai meus mandamentos, disse Jesus Cristo: Si diligistis me, mandata mea servate (Jo 16, 15). As obras são uma prova de amor, diz São Gregório: Probatio dilectionis exhibitio est operis (Pastoral).

Aquele que me ama, diz Jesus Cristo, observará minha doutrina, e meu Pai o amara; e viremos a ele, e faremos mansões dentro dele: Si quis diligit me sermonem meum servabit et Pater meus diliget eum et ad eum veniemus et mansiones apud eum faciemus (Jo 14, 23). Quem recebeu meus mandamentos e os observa, esse é aquele que me ama (Jo 14, 23).

O Pai e o Filho, diz Santo Agostinho, ao vir a habitar uma alma, dão seu amor, e ao fim, conceder-lhe-ão o céu. Eles vem até nós quando nós nos dirigimos a Eles; vem socorrendo, iluminando e cumulando de bens; nós vamos a Eles obedecendo, intuindo e recebendo: Veniunt ad nos, cum venimus ad eos: veniunt subveniendo, iluminando, implendo; venimus obediendo, intuendo, copiendo (Tract. LXXVI in Johann.).

Aquele que não me ama, não guarda as minhas palavras, acrescenta Jesus Cristo: Qui non diligit me sermones meos non servat (Jo 14, 24). Se alguém guarda a Palavra de Deus, diz São João em sua Epístola primeira, o amor de Deus é verdadeiramente perfeito nele: Qui autem servat verbum eius vere in hoc caritas Dei perfecta est (1 Jo 2, 5). A caridade, acrescenta, consiste em proceder segundo os Mandamentos de Deus: Haec est caritas ut ambulemus secundum mandata eius (2 Jo 6).

O primeiro dever da caridade é obedecer às ordens de Deus, sujeitar-se a elas, e ter confiança nas promessas divinas. Lê-se no Eclesiástico que aqueles que amam a Deus enchem-se de sua Lei, isto é, haverão de estudá-la, conhecê-la e praticá-la: Qui diligunt eum, replebuntur lege ipsius (Ecl 2, 19).

Vários graus do amor de Deus

O Pe. Álvares, falando da contemplação, indica quinze graus do amor de Deus:

  1. a intuição da verdade;
  2. o recolhimento;
  3. o silêncio espiritual;
  4. o repouso;
  5. a união;
  6. a audição da linguagem de Deus;
  7. a domínio do espírito;
  8. o êxtase;
  9. o arroubamento;
  10. a aparição corporal de Jesus Cristo;
  11. a aparição espiritual de Jesus Cristo e dos Santos;
  12. a visão intelectual de Deus;
  13. a visão de Deus através das nuvens;
  14. a manifestação positiva de Deus; e
  15. a visão clara e intuitiva de Deus que teve São Paulo, segundo Santo Agostinho e vários outros Doutores, quando foi arrebatado ao terceiro céu.

Qualidades do amor a Deus

O amor de Deus deve ser:

  1. inseparável;
  2. insaciável;
  3. invencível;
  4. suave;
  5. pleno de desejos;
  6. tendo sede de Deus, esforçando-se para chegar a Ele, contemplando-lhe em suas criaturas, e ardendo de desejos de possuí-Lo;
  7. animado do desejo de morrer, não por desgosto da vida, senão para estar com Jesus Cristo e desfrutar dele;
  8. deve ser liberal; e
  9. inteiro.

Sentimento por não haver amado a Deus

Tarde demais te amei, formosura sempre antiga e sempre nova. Tarde demais te amei, dizia Santo Agostinho com a alma plena de amargura: Sero te amavi, pulchritudo tam antiqua tam nova, sero te amavi. Conheci-vos demasiadamente tarde, Deus meu, amei-vos demasiadamente tarde. Sero te cognovit, sero te amavi. Desgraçado tempo aquele no qual não Vos amava: Vae mihi tempori illi quando non amavi te! Desgraçado mil vezes seria eu se não desejasse Vos amar; preferiria não existir antes que viver sem Vós: Vae mihi et iterum vae, si quando non amaverim te; utinam potius non essem, quam essem aliquando absque te! (Lib. X Confess.). Penetremo-nos dos sentimentos de Santo Agostinho.

Desgraça de não amar a Deus

Anematizado seja aquele que não ama a Jesus Cisto, nosso Senhor, diz São Paulo: Si quis non amat Dominum nostrum Jesus Christum, sit anathema (1 Cor 16, 22). Aquele que não ama a Deus, permanece nas morte, diz o Apostolo São João: Qui non diligit, non novit Deum, quoniam Deus caritas est (1 Jo 4, 8).

Todos os que me rejeitam a mim, amam a morte, diz o Senhor, nos Provérbios: Omnes qui me oderunt, diligunt mortem (Pr 8, 36).

Apartai vosso coração do amor à criatura, diz Santo Agostinho, para consagrá-lo ao Criador; porque se abandonais Aquele que vos criou e vos unis ao que é criado, sereis adúlteros: Evelle cor tuum ab amorem creaturae, ut inhaereas Creatori: si autem deseris eum qui te fecit, et amas illa quae fecit, adulter es (De Moribus). Que tremam aqueles que não amam a Deus, diz São Gregório: Paveant illi qui non amant (Homil. in Evang.).

A linguagem daquele que não ama a Deus é uma linguagem bárbara e estranha, diz São Bernardo: Lingua ei qui non amat, barbara est, et peregrina (Serm. in Cant.). Aquele que não ama a Deus, deixa de viver, diz Santo Agostinho: Perdit quod vivit, qui Deum non diligit (De Civit.).

O amor de Deus pelos homens é tão grande, que não somente se apresenta aos que o buscam, senão que vai atrás dos que não lhe buscam. Até dos que fogem Dele, dos que lhe odeiam e lhe perseguem. Atrai-os, convida-os e lhes faz certa violência. Quão desgraçados, ingratos e perversos são, pois, aqueles que mostram indiferença em amar a Deus que tanto lhes ama! Que desgraça mais terrível para eles desprezar-Lhe e combater-Lhe! Ai, que grande é o número dos que não amam a Deus quem pode dizer com São Pedro: Senhor, Vós que tudo conheceis, não sabeis que Vos amo? Domine, tu omnia nosti, tu scis quia amo te (Jo 21, 17). Quem pode dizer com o Rei Profeta: Minha alma está unida convosco, Senhor: Adhaesit anima mea post te? (Sl 72, 8). Choremos a desgraça dos que não amam a Deus.

De que modo devemos amar a Deus

Jesus Cristo ensina-nos como temos de amar a Deus: Amareis ao Senhor vosso Deus com todo o vosso coração, toda a vossa alma e todas as vossas forças (Mt 12, 37).

  1. Com todo o vosso coração, isto é, consagrareis vossa memória a recordar seus dons, etc.;
  2. com toda a vossa alma; aplicareis vossa inteligência a compreender quão amável é por si mesmo, quanto Vos tem amado; e
  3. Com todas as vossas forças, isto é, com toda a vossa vontade.

Escutai a Santo Agostinho:

“Quando Deus diz: Amareis com todo o vosso coração, com toda vossa alma e todo o vosso espírito, não nos permite esquecer-Lhe um só instante de nossa vida, nem querer gozar outra coisa distinta” (Homil. ad pop.).

Amar a Deus é:

  1. dar-Lhe nosso coração por inteiro e não deixar nada para o demônio e para o pecado;
  2. ter a Deus para fim de todas as nossas ações, e preferir-Lhe a tudo como a nosso soberano bem e único fim; e
  3. amar a Deus é obedecer-Lhe em tudo e sempre…

Todos quantos deram a Deus seu coração por meio do amor, alegrem-se nas penas, nas tribulações, nas angústias, na fome, na sede, na nudez e no desprezo, em meio de ridicularizações, de calúnias, das maldições, dos sofrimentos e até da morte ocasionada pelas perseguições, diz São Bernardo (Serm. In Psalm.).

Meios de amar a Deus

Santo Tomás indica três meios de unir-se a Deus por meio do amor. É necessário:

  1. o valor do espírito, ou a energia;
  2. uma grande severidade contra as concupiscências; e
  3. a bondade para com o próximo[24].

Se nós não morrermos para o mundo, diz São Gregório, não somos aptos a viver do amor a Deus: este é um quarto meio: Nisi saeculo moriamur, Deo per amorem vivere non valemus (Pastoral).

As leituras piedosas, diz São Bernardo, são o leite do amor de Deus: a meditação alimenta-o, a oração fortifica-o e ilumina-o: Amorem Dei lactat lectio, meditativoparit, oratio confortat et illuminat (Serm. in Psalm.).

Estes são excelentes meios para adquiri-lo e conservá-lo. Quereis outros? Escutai a voz de Deus. O nosso coração diziam entre os discípulos de iam a Emaús, não estava abrasado quando Ele nos falava durante o caminho e nos descobria o sentido das Sagradas Escrituras? Nonne cor nostrum ardens erat in nobis dum loqueretur in via et aperiret nobis Scripturas (Lc 24, 32).

Meu coração se inflama de amor, e certo fogo o devora quando medito, diz o Real Profeta: Concaluit cor meum intra me, et in meditatione mea exardescet ignis (Sl 38, 4).

A pureza de coração é um meio perfeito de amar a Deus: Meu amado se alimenta entre as açucenas: Dilectus meus pascitur inter lilia (Ct 2, 16).

Conjuro-vos, filhas de Jerusalém, exclama a Esposa dos Cânticos, se encontrardes a meu muito Amado, dizei-lhe que desfaleço de amor: Adjuro vos, filie Jerusalem, si inveneritis Dilectum meum, ut nuntietis ei, quia amore langueo (Ct 5, 8). Ó, quem me dera, exclama de novo, encontrar-Vos e abraçar-Vos? Então meus inimigos me respeitarão (Ct 8, 1). O desejo é, pois, um meio muito eficaz para atrair até nós o amor de Deus e conservá-lo.

A fé nos faz amar a Deus. Agora, diz Santo Agostinho, amamos crendo o que temos de ver; quando estivermos no céu, amaremos vendo o que havíamos crido: Nunc diligimus credendo quod videbimus; tunc diligemus videndo quod credimus (De Spiritu Sancto).

O temor do Senhor é um meio seguro de amar a Deus. O temor excita, diz Santo Agostinho; porém, o amor cura as chagas feitas pelo temor: Timor stimulat; sed caritas sanat quod vulnerat timor (Homil. ad pop.). é absolutamente necessário, diz São Basílio, que o temor opere e seja como o introdutor da piedade; a caridade chega depois: Necessitas velut introductorius adpietatem timor assumitur; dilectio vero deinceps (Epist.).

A alma encontra a Deus por meio da fé e da esperança; possui-O por meio da caridade; se está ausente, encontra-O pelo desejo; se presente, detém-No pela alegria; descobre-O e o conserva-O pela paciência, e O possui pelo consolo.

É necessário perseverar em buscar a Deus e desejar amar-Lhe, pois é um meio certo para chegar a Ele. Buscai ao Senhor, e sereis fortes; buscai-O sempre, diz o Rei Profeta: Quaerite Dominum, et confirmamini; quaerite faciem ejus semper (Sl 104, 4).

Deus é o Deus do amor; porque como diz São Paulo aos Romanos, a caridade foi derramada em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado: Caritas Dei diffusa est in cordibus nostris per Spiritum Sanctum qui datus est nobis (Rm 5, 5).


Referências:

[1]  Eruntque verba haec quae ego praecipio tibi hodie in corde tuo et narrabis ea filiis tuis et meditaberis sedens in domo tua et ambulans in itinere dormiens atque consurgens et ligabis ea quasi signum in manu tua eruntque et movebuntur inter oculos tuos scribesque ea in limine et ostiis domus tuae (Deuter. VI, 9)

[2] In omni virtute tua dilige eum qui te fecit (Eccli. VII, 3a)

[3]  Si linguis hominum loquar et angelorum caritatem autem non habeam factus sum velut aes sonans aut cymbalum tinniens et si habuero prophetiam et noverim mysteria omnia et omnem scientiam et habuero omnem fidem ita ut montes transferam caritatem autem non habuero nihil sum et si distribuero in cibos pauperum omnes facultates meas et si tradidero corpus meum ut ardeam caritatem autem non habuero nihil mihi prodest (I Cor. XIII, 1-3).

[4] Pro omnibus mortuus est ut et qui vivunt iam non sibi vivant sed ei qui pro ipsis mortuus est et resurrexit (II Cor, 5, 15).

[5] Tanta est caritas, qui si desit, frustra habentur caetera; si adsit, habentur ominia (Sentent. CCCXXVI).

[6] Fides sine caritate esse potest, prodesse non potest (Lib XV de Trinitate, c. XVIII).

[7]  Castitas sine caritate lampas est sine óleo; subtrahe oleum, lampas non lucet; tolle caritatem, castitas non placet (Epist. XLII, ad Euricum)

[8]  O anima mea, insignita Dei imagine, redempta Christi sanguine, despousata fide, dotata sipiritu, ornata virtutibus, deputata eum angelia: dilige illum a quo tantum dilecta est; intende illi, qui ostendit tibi; quaere quaerentem te, ama amatorem tuum (Soliloq.)

[9] Esto sollicita cum sollicito, cum vacante vacana, cum mundo munda, cum sancto sancta (Soliloq.).

[10] Celum et terra, et ominia quae eis sunt, ecce und: qui mihi dicunt ut amem te; nec cessant dicere ominibus, ut sint inexcusabiles (Soliloq.)

[11]  Quid est Deus? Voluntas omnipotens, benevolentíssima virtus, lumen aeternum, inmutabilis ratio, summa beatitudo (Lib. V de Considerat., c. XI)

[12] Cristus venit suscipere infirmitates nostras, et suas nobis confere virtutes; humana quaerere, prestare divina; accipere injurias, reddere dignitates; ferre taedia, referre suavitates; quia mediens qui non feri infirmitates, curare nescit, et qui non fuerit cum infirmo infirmatus, infirmo non potest confere sanitatem. (Serm. II).

[13] O suavitatem, o gratiam, o amoris vim! Summus omnium factus esta omnium infimus. Quis hoc fecit? Amor dignitatis nesciens, dignatione dives, affectu potens, suas effcax. Quid violentine? Triunphat de Deo amor ut et de nobis triunphet, cogatque nos par pari reddere, ut nos totós demas amari Christi, sicut ipse se totum dedit amori mostri (Serm. XLVI in Cant.).

[14] Urit amor, me torquet amor, sum factus amori
Alter amor; nostri est victor amoris amor.
Hunc mihi nin undae, flamma, nec saferent ensis. (In Opuscul, 1, 3).

[15] Omnia arbitror ut stercora ut Christum lucri faciam (Philip. III, 8).

[16] In caritate radicati et fundati ut possitis conprehendere cum omnibus sanctis quae sit latitudo et longitudo et sublimitas et profundum scire etiam supereminentem scientiae caritatem Christi ut impleamini in omnem plenitudinem Dei (Ephes. III, 17-19).

[17] Ut sugatis et repleamini ab ubere consolationis eius ut mulgeatis et deliciis affluatis ab omnimoda gloria eius quia haec dicit Dominus ecce ego declinabo super eam quasi fluvium pacis et quasi torrentem inundantem gloriam gentium quam sugetis ad ubera portabimini et super genua blandientur vobis quomodo si cui mater blandiatur ita ego consolabor vos et in Hierusalem consolabimini (Isai. LXVI, 11-13).

[18] Quam pulchram et quam decorum a caritate vulnus accipere! Alius jaculum carnei amoris accipit: alius terrena cupidine vulneratus est. Tu, praebe te jaculo electo, jaculo formoso; si quidem Deus sagitarius est! Quam beatum est hoc jaculo vulnerari (Homil. in Cant.).

[19] Justum est ut amitat te quicumque in aliquo alio magis consolari elegit, quam in te. Peto ut omnia mihi amarescant, ut tu solus dulcis appareas animae meae, qui es dulcedo inaestimabiis, per quam cuncta amara dulcorantur (Lib. Confess.)

[20] Nihil est in rebus humanis quod possit replare creaturam factam ad imaginem Dei nisi caritas Deus, qui solus major est illa.

[21] Factus est in corde meo quase ignis exaestuans, claususque in ossibus meis: et defeci, ferre non sustinens (Ier. XX, 9).

[22] Fecisti nos, Domine, ad te, et inquietum cor nostrum, donec requiescat in te (Lib. I, Confess., I).

[23] Surrexi ut aperirem dilecto meo manus meae stillaverunt murra digiti mei pleni murra probatissima pessulum ostii aperui dilecto meo at ille declinaverat atque transierat anima mea liquefacta est ut locutus est quaesivi et non inveni illum vocavi et non respondit mihi (Cant. V, 5-6).

[24]    S. Th. 4a Pars, q. art. 13.