Escândalo, Tesouros de Cornélio à Lápide

O que é o escândalo

O escândalo, diz Santo Tomás, é uma palavra ou uma ação que carece de retidão e causa a ruína do próximo: Dictum vel factum minus rectum, praebens alteri ruinam (De peccat.).

O escandaloso é um homem perniciosíssimo, diz a Escritura; insinua-se com palavras pérfidas, seus olhos cintilam, faz sinais com o pé, fala com os dedos, maquina o mal em seu depravado coração, e em todo o tempo semeia discórdias (Pr 3, 13-15).

O escandaloso, diz Santo Efrem, perde a fé, cai nos vícios, despreza os Sacramentos, zomba do Inferno, e jamais se ocupa do Céu (Serm. IV).

Enormidade do escândalo

Ai do mundo por causa de seus escândalos! Ai daquele homem que causa escândalo, diz Jesus Cristo: Vae mundo a scandalis! Vae homini illi per quem scandalum venit! (Mt 18, 7). A Sagrada Escritura não fala ordinariamente assim, senão quando se trata de uma pecado grave.

Nosso Senhor Jesus Cristo considera o escândalo como um pecado enorme, posto que Ele disse que melhor seria, a quem escandalizar um destes pequeninos que creem em mim, que se prendessem ao pescoço uma dessas pedras de moinho que o asno move, e assim fosse submergido no profundo do mar: Qui scandalizaverit unum de pusillis istis, qui in me credunt, expedit ei, utsuspendatur mola assinaria solo ejus, et demergatur in profundum maris (Mt 18, 6).

Os homens maus, diz São Paulo, e os impostores irão de mal a pior, errando e fazendo aos outros errar: Mali homines, seductores, proficiente in pejus, errantes in errore mittentes (2 Tm 3, 13).

O escandaloso prostituiu-se para fazer a maldade, diz a Escritura: Venundatus ut facere malum (I Reg. XXI, 20). Vendeu-se para ser escravo do pecado, diz São Paulo: Venundatus subpeccato (Rm 7, 14).

O escandaloso é para os demais um principio de ruína; come e bebe a iniquidade, e a devora. Chega mesmo aos últimos limites do mal, diz o profeta Malaquias: Vocabuntur termini impietatis (Ml 1, 4).

O escândalo é um pecado monstruoso que ataca a Deus, ao próximo e a seu próprio executor; rouba de Deus sua glória; ao próximo, sua alma; e do próprio escandaloso, o Céu.

Crime enorme, porque, que maior crime há que matar uma alma?

Crime diabólico. O demônio foi homicida desde o princípio, diz Jesus Cristo: Ille homicida erat ab initio (Jo 8, 44). Tal é também o crime dos escandalosos.

Crime contra o Espírito Santo, porque ataca de um modo direto a caridade, e o Espírito Santo é pessoalmente a caridade mesma.

Crime essencialmente oposto à Redenção. Jesus Cristo morreu para salvar as almas, e o escandaloso vive para matá-las.

Assim é que o crime de escândalo é um pecado direto contra o mesmo Jesus Cristo. Assegura-o aquele grande Apóstolo: Pecando contra os irmãos e chagando sua consciência, pecais contra Cristo: Peccantes in fratres, etpercutientes conscientizam eorum, in Christum peccatis (1 Cor 8, 13).

Malícia do escândalo

Podem se aplicar ao escandaloso aquelas palavras de São Paulo dirigidas ao mago Elimas: Ó homem pleno de toda sorte de fraudes e embustes, filho do diabo, inimigo de toda justiça! Não deixarás nunca de subverter os caminhos do Senhor? O plene omni dolo, et omni fallacia, fili diaboli, inimice omnis justitiae, non desinis subvertere vias Domini rectas? (At 13, 10).

A respeito daqueles cuja vida é um perpétuo escândalo, devem aplicar-se as muitas passagens em que a Sagrada Escritura fala dos ímpios. Conjurando-se contra mim, resolveram entre eles o propósito de tirar-me a vida, diz o Salmista: Dum convenirent simul adversum me, accipere animam meam consiliati sunt (Sl 30, 14).

Para fazer cair aos demais, os escandalosos cansaram-se de esquadrinhar ardis, diz o Real Profeta: Scrutati sunt iniquitates; defecerunt scrutantes scrutinio (Sl 63, 7). Estenderam-me laços ocultos, neste cainho por onde eu andava: In via qua ambulabam, absconderunt laqueum mihi (Sl 141, 4).

O escandaloso é a antiga serpente que seduz com promessas enganosas; é a serpente escondida na erva; é o leão que embosca sua presa.

Os escandalosos desvelam-se para agir mal, para fazer cair no mal, diz Isaías: Vigilabant super iniquitatem, peccare faciebant homines (Is 29, 21). Sua malícia encheu a medida, acrescenta também Isaías: Completa est malitia ejus (Is 40, 2).

Alegram-se quando preparam o mal, dizem os Provérbios, e estremecem-se de alegria na iniquidade: Laetantur cum male pecerint, et exultant in rebus pessimis (Pr 2, 14).

O escandaloso está sentado em todos os caminhos, aguardando como um ladrão e um assassino aos passageiros para roubá-los e matá-los, diz Jeremias: In viis sedebas, expectans quase latro (Jr 3, 2).

Sua única ocupação é levar o próximo à perdição: Supplantabit, fraudulenter incedet (Jr 9, 4).

Como a serpente que tentou maliciosamente a Eva para seduzi-la, o escandaloso emprega, com satânica malícia, sedutoras palavras.

  • Porque não comerás desta fruta?, pergunta aquele a quem quer sacrificar.
  • Está proibido… se dela como, morrerei!
  • De nenhuma maneira morrerás; serás feliz como um deus: Nequaquam moriemini; eritis sicut dii (cf. Gn 3, 1-5).

Corrupção do escandaloso

O escandaloso, diz Santo Agostinho, envergonha-se do pudor e vangloria-se de não conhecê-lo: Pudet non esse impudentem (In Psalm.).

Os escandalosos perverteram-se, diz o Salmista, e entregaram-se a pensamentos abomináveis: Corrupti sunt, et abominaviles facti sunt in studii suis (Sl 13, 1).

Seu coração é um abismo corrompido, a reunião de todos os répteis imundos e de tudo quanto há de mais asqueroso: Illic reptilia quórum non est numerus (Sl 103, 26).

Os escandalosos são como aquelas vinhas de Sodoma e Gomorra, cujas uvas são de fel e todos os cachos amargos. Seu vinho é a espuma dos lagartos e o veneno mortal das áspides[1].

A vida dos escandalosos está plena de dissolução; seus costumes e suas ações são depravadas; não pensam, não querem e não fazem nada senão o mal; o mal para eles e para os outros. São vasos envenenados e plenos de putrefação, imundas fossas onde se reúne tudo quando há de mais imundo e infecto.

A vista, o ouvido, a língua, as mãos, os pés, o espírito, o coração, a memória, a vontade, a inteligência, tudo eles pervertem e corrompem. O escandaloso é um cadáver em dissolução que a tudo infecta, e a todas as partes leva a morte.

Estragos que o escandaloso causa

O escandaloso, diz Isaías, fez pacto com a morte e um convênio com o Inferno: Percussimus foedus cum morte, et um inferno fecimus pactum (Is 28, 15).

Os escandalosos maquinam mil iniquidades em seu interior; todo dia, eles estão planejando-me contendas, diz o Salmista; aguçam suas línguas viperinas[2]; veneno de áspides é o que tem debaixo delas: Cogitaverunt iniquitates in corde; tota die consituebant proelia. Acuerunt línguas suas sicut serpentis; venenum aspidum sub labiis eorum (Sl 139, 3-4).

Que ninguém dentre nós, dizem eles, esteja isento de nossas impurezas; deixemos em todas as partes rastros desta “alegria”: tal é nosso dote e nossa sorte. Desprezemos ao justo miserável; não respeitemos nem mesmo a viúva; não acatemos nem ao ancião de cabelos embranquecidos pelo tempo. Ponhamos laços aos inocentes, e lhe provemos por meio do ultraje (Sap. II passim.).

Os escandalosos mancham seus dardos com sangue inocente, e apagam sua sede com o sangue daqueles que eles mataram (Dt 32).

Seus pés correm para a maldade, diz Isaías, e apressam-se a derramar sangue inocente; por onde quer que passem, deixam a desolação e a aflição: Pedes eorum ad malum currunt, et festinant ur effundant danguinem inocentem; vastitas et contritio in viis eorum (Is 59, 7).

Lançam mão de setas e escudos, e são cruéis e sem piedade, diz Jeremias: Sagittam et scutum arripiet; crudelis est, et non miserebitur (Jr 6, 23).

Converteram-se em leões, diz o profeta Ezequiel, e aprenderam a arrebatar a presa e a devorar aos homens: Leo faetus est; et didicit capere praedam, hominemque comedere (Ez 19, 3).

Tão somente com sua presença, os povos ficam rígidos de terror, diz o profeta Joel: A facie ejus crucibunturpopuli (Jl 2, 6).

São João Crisóstomo chama aos escandalosos de bestas ferozes e carnívoras: Belluae immanes et carnifices (Homil. ad pop.).

São lobos, diz São Gregório, que não cessam de devorar diariamente, não os corpos, senão as almas: Lupus qui, sine cessatione, quotidie, non corpora, sed mentes dilaniat (Homil.).

Considerai, diz São João Crisóstomo, a este “novo Herodes”, dedicando-se a acrescentar estrago sobre estrago, homicídios após homicídios, precipitando-se como furioso em todos os excessos, e como possuído pelos demônios, pleno de ira, de raiva e de inveja, quebrado todo o freio, exercitando sua raiva contra inocentes[3].

Imitando o crime de Herodes, o escandaloso mata crianças; faz uma degola geral, diz São Leão: Necari omnes parvulos jubet, generalem saevitiam tendit (Serm. in Ephip. I).

Até quando, pecadores escandalosos, exclama o Real Profeta, estareis acometendo a um homem todos juntos para acabar com ele, e derrubá-lo como uma parede desnivelada e prestes a ruir? Quosque irruistis in hominem? Interficitis universi vos: tamquam parieti incliinato et naceriae depulsae (Sl 61, 4).

Os escandalosos são sepulcros que só contêm morte e putrefação.

Diz-se que Judas Macabeu levantou-se, auxiliado por seus irmãos, e combateu com alegria pela defesa de Israel. Judas deu novo lustre à glória de seu povo, e revestiu-se de uma couraça qual gigante; cingiu-se com suas armas para combater, e protegia com sua espada todo o seu acampamento. Parecia um leão com suas ações, e assemelhava-se a um cão quando ruge sobre a presa. E perseguiu aos ímpios, buscando-os por todas as partes; e abrasou entre as chama aqueles que perturbavam o repouso de seu povo. E o temor que infundia o seu nome afugentou aos inimigos, e todos os malvados cobriram-se de confusão, e a saúde do povo foi obra de seu braço. Suas ações eram a alegria de Jacó, e sua memória será para sempre bendita. Percorreu as cidades de Judá exterminando delas os ímpios, e afastou a cólera celestial para longe de Israel. E a fama de seu nome chegou até as extremidades da terra (1 Mc 3).

Aquilo que Judas Macabeu fez para o bem, o escandaloso o faz para o mal. O escandaloso levanta-se; combate com uma força que poderia ser melhor denominada de furor mesclado de alegria satânica para devastar o campo do Senhor.

O homem escandaloso estende sua ignomínia sobre seus semelhantes; veste a couraça do crime como um gigante; está carregado de armas produzidas pelo Inferno, armas temperadas no sangue de seus irmãos.

É semelhante a um leão em suas obras de morte e ruge buscando almas para fazê-las suas presas. Persegue aos bons e os maltrata. As almas piedosas assustam- se e fogem!

O homem de maus exemplos tem a morte em suas mãos. Derrama a tristeza e o desconsolo. O ruído de seus escândalos propaga-se para longe, e seu nome acaba por pesar como uma maldição sobre a região em que ele habita.

Passai e feri, homens de escândalo, exclama o profeta Ezequiel; nada respeite vossa vista e não tenhais compaixão. Feri ao ancião, ao jovem, à virgem, à criança e às mulheres; deves impor ferida até findar na morte mesma. Ai! Ai! Ai! Perdereis a todas as almas![4]

Diz-se que o cruel Antíoco fez uma carnificina espantosa: queimou a cidade; substituiu o povo de Deus por homens perversos; fez muitos escravos; manchou o Templo; despojou o Santo dos Santos; suplantou a Lei de Deus por uma lei abominável, e pôs um ídolo no lugar que ocupava o verdadeiro Deus (I Machab. I, passim.). Esta é a imagem daquilo que o escandaloso faz.

Caim matou Abel, e o Senhor disse a Caim: Onde está teu irmão? Que fizestes? A voz do sangue de teu irmão está clamando a mim desde a terra: Ait Dominus ad Cain: Ubi esta frater tuus? Quid fecisti? Voz sanguinis fratris tui clamat ad me de terra (Gn 4, 9-10). Não é o escandaloso outro Caim? Desgraçado! Onde está teu irmão, o inocente Abel? Ubi est Abel, frater tuus? O sangue dele que derramaste, aquele alma que assassinaste, clama vingança: Vox sanguinis fratris tui clamat…

O imperador Constante, depois de haver matado a seu irmão Teodósio, via-o constantemente em sua exaltação imaginação durante os sonhos; via-o sempre apresentando-lhe uma taça de sangue ao mesmo tempo em que dizia: “Bebe, bebe o sangue de teu irmão!” (Hist. Ecles.). Ó escandaloso, observa o sangue inocente que derramastes! A taça está cheia: bebe, bebe o sangue deste irmão que assassinastes com teus infames maus exemplos!

O verdugo, ao ser-lhe dado o lúgubre sinal, parte, chega à praça pública coberta de uma multidão apinhada e comovida; apodera-se de sua vítima, sujeita-a, amarra-a ao instrumento de suplício; logo levanta o braço; e então, sucede um silêncio horrível, e não se ouve nada além do ranger dos ossos oprimidos pela argola, e os uivos da vítima. Concluiu sua tarefa, seu coração palpita, porém, de alegria, e aplaude-se dizendo para si mesmo: Ninguém executa melhor que eu. Este quadro que um sábio escritor[5] faz o verdugo dos corpos, não poderia igualmente aplicar-se ao escandaloso, verdadeiro verdugo das almas?

O Inferno dá um sinal lúgubre aos escandalosos; seu coração corrompido e cruel compreende este sinal, e parte para seduzir e assassinar. Encontra a um inocente, e o converte em criminoso, encontra a um filho submisso, e o converte em parricida. Tal como o verdugo, colhe sua vítima e a amarra ao cadafalso de seu escândalo; levanta o braço para matá-la, e não se ouvem nada além de gritos e uivos de desespero da vítima e de sua família desonrada. E acabou de matar aquela alma, arrebatando-lhe a inocência, sua salvação, o Céu, sua coroa, sua glória e a de Deus; seu coração palpita, porém não é de remorsos nem de pena, é de alegria, daquela maligna alegria dos demônios; aplaude-se a si mesmo e diz para si e publicamente também: Ninguém executa melhor do que eu, ninguém assassina melhor as almas, ninguém mata tantas como eu. A todas as partes, levo a morte: Stans replevit omnia morte (Sb 18, 16).

Falando da Besta do Apocalipse, diz-se que de sua boca saia uma espada de dois gumes: De ore ejus gladius utraque parte acutus exibat (Ap 1, 16). O escandaloso é aquela fera que tem uma espada de dois gumes para matar aos outros e matar-se a si mesmo.

Vem e verás, dizem a São João no Apocalipse. E eis aqui que viu um cavalo pálido e macilento, cujo ginete tinha por nome “Morte”, e o Inferno lhe ia seguindo; e foi-lhe dado poder de matar aos homens pela espada, pela fome, com mortandade, e por meio das feras da terra[6].

São João viu também uns cavalos cujas cabeças eram como de leões, e de sua boa saía fogo, fumaça e enxofre. E a terceira parte dos homens foi morta por estas três chagas, pelo fogo, pela fumaça e o enxofre que saíam da boda dos cavalos (Ap 9, 17-18). Tal é também a imagem daquele que escandaliza.

O escandaloso vibra sua espada; retesado, tende seu arco e golpeia; e nele pôs dardos mortais; e tem dispostas suas setas abrasadoras. Pariu a injustiça, concebeu a dor, pariu o pecado. Abriu um buraco, afundou-o, e cai nesse mesmo abismo que preparou, diz o Salmista[7].

Estes obreiros da iniquidade devoram a meu povo como um bocado de pão, diz o Senhor pelo Salmista: Operantur iniquitatem, qui devorantplebem meam sicut escam panis (Sl 13, 4).

Os promotores de escândalo são semelhantes àqueles monstros de que nos fala as Escrituras nos seguintes termos: Eis aqui uns monstros de uma espécie desconhecida, repletos de um furor até agora inaudito, que respiram chamas, exalam fumaça negra e lançam pelos olhos horríveis centelhas. Exterminam, com suas mandíbulas, e seu mero seu sopro já faz morrer de espanto[8].

Desgraçados de vós, exclama o profeta Isaías, desgraçados sois vós que acendeis o fogo das paixões e da desordem; rodeados de chamas, andareis à luz do mesmo fogo e no meio das chamas que vós mesmos acendestes: Ecce vos accendentes ignem, accincti flammis, ambulate in lumine ignis vestri; et in flammis quas accendintis (Is 51, 11).

Contemplai o incêndio que tudo devora: vós sois seus autores! Em todas as partes semeais centelhas que caem sobre a palha, formando um vasto incêndio, um imenso braseiro para vós e para aqueles a quem levastes à perdição; e este braseiro será eterno.

O mau exemplo é a guerra mais funesta que se possa apresentar aos homens; é a peste mais temível. Esta peste ataca a virtude, a graça, a salvação e a glória.

É a fome mais espantosa, tudo arrebata e já não deixa nada àqueles que despoja.

O escandaloso é aquele odor mortífero que, segundo São Paulo, causa a morte: Odor mortis in mortem (2 Cor 2, 16).

O escandaloso, diz o mesmo Plutarco, não se contenta em colocar veneno em uma só taça, senão que envenena a fonte pública, para onde acorre todo o mundo: Hi non in unum calicem venenum mittunt, sed in fontem quo videntur omnes uti (In Morib.). Eles apagam sua sede nesta fonte, e fazem também beber aos outros.

Aquilo que os hereges fazem com seu ensino adúltero, diz São Bernardo, fazem os escandalosos com seus maus exemplos, e o mal que fazem é superior aos estragos dos hereges, assim como as ações são superiores às palavras: Quod haeretici faciebant per prava dogmata, hoc faciunt plures hodie per mala exempla; et tanto gaviores sunt haereticis, quanto praevalent opera verbis (Lib. Consid.).

Os escandalosos, diz São João Crisóstomo, dão pé a que os pagãos digam: Qual será o Deus destes homens que assim vivem? Sofreria tantas maldades, se condenasse seus atos? Qualis est eorum Deus qui tolia agunt? Numquid sustineret eos tália facientes, nisi consentiret operibus eorum (Homil. ad pop.).

Que crime maior pode haver que o de perder uma alma feita à imagem de Deus, criada para a ditosa imortalidade, e resgatada com o sangue de Jesus Cristo? Eis aqui, sem embargo, a obra, ou melhor, parte da obra do escandaloso!

Havendo dado Jesus Cristo seu próprio Sangue como preço da redenção das almas, diz São Bernardo, não vos parece evidente que sofre muito mais aqui do que da parte dos judeus que derramaram seu Sangue, quando aquele que, por uma sugestão maligna, por um exemplo danoso, pelo escândalo que dá, extravia as almas redimidas? É um sacrilégio horrível, que parece muito mais iníquo que o crime daqueles que puseram suas sacrílegas mãos sobre o Senhor de Majestade (Serm. de Convers. S. Pauli.)

E não responda o escandaloso como Caim: Sou, por acaso guarda de meu irmão? Num custos fratris mei sum ego? (Gn 4, 9). Não responda assim, porque todos nós somos custódios de nossos irmãos; devemos lhes dar bons exemplos! Deus no-lo impôs como um dever sagrado.

Diz o Quinto Mandamento: Não matarás: Non occides (Ex 20, 13). E, se é um crime digno de morte o matar o corpo, que não passa de um ente mortal, qual não será a enormidade do crime daquele que mata a alma, que é imortal, e quão terrível não haverá de ser o castigo?

Não queiras, pelo preço de um manjar, destruir a obra de Deus, diz São Paulo: Todos os alimentos são limpos; porém, faz mal o homem comer delas com escândalo dos outros. É bom não comer carne nem beber vinho nem nada daquilo que pode ser para vosso irmão causa de queda, de escândalo ou de debilidade (Rm 16, 20-21).

Se aquilo que tomo como alimento, diz em outra parte o grande Apóstolo, escandaliza a meu irmão, não comerei em minha vida carne alguma, somente para não escandalizar a meu irmão: Se esca scandalizat fratrem meum, non manducabo carnem in aeternum, ne frarem meum scandalizem (1 Cor 8, 13). Se São Paulo tomava tantas precauções pra não escandalizar, vejamos em que devemos imitar aquele grande Apóstolo; todos nós temos a mesma obrigação!

Os escandalosos são auxiliares do demônio

Conheço vossas obras, diz o Senhor, no Apocalipse. Bem sei que habitais em um lugar onde Satanás tem seu assento: Scio ubi habitas, ubi sedes es Satanae (Ap 2, 13).

A besta que vi, diz São João no Apocalipse, era semelhante a um leopardo, e sua boca era como a de um leão; e o dragão deu-lhe sua força e seu grande poder (Ap 13, 2). Não é o escandaloso aquela besta espantosa que é igual ao dragão, e que recebe do mesmo demônio o poder para fazer mal e de matar as almas?

De que se ocupam os demônios? Fazem a guerra a Deus, assolam e destroem o reino de Jesus Cristo, que é sua Igreja; seduzem as almas, levam-nas à perdição, e giram ao seu redor como leão que ruge em busca da presa para devorá-la, diz o apóstolo São Pedro: Adversarius vestr diabolus, tamquam leo rigiens, circuit quaerens quem devoret (1 Pd 5, 8).

Não são estas as ocupações de certos homens notoriamente dedicados ao crime e à irreligião? Não são eles inimigos mortais de Deus, da Igreja, das almas, da salvação e da virtude?

O homem que provoca escândalos é, pois, um demônio na terra, e tem os atos dos demônios. Com razão, podem se aplicar a eles aquelas palavras que Jesus Cristo dirigia aos criminosos fariseus: Vós sois filhos do diabo, e assim quereis satisfazer os desejos de vosso pai: Vox ex patre diabolo estis, et desideria patris vestri vultis facere (Jo 8, 44).

Os escandalosos são responsáveis por todos os crimes que fazem os outros cometerem, e de todas as almas que levam à perdição

O escandaloso responderá não somente diante de Deus e diante dos homens pelo crime particular que comete escandalizando, senão geralmente por todos os crimes que cometem e cometeram aqueles a quem escandaliza. Assim, pois, quem abrirá este profundo abismo? Que juízo, ó grande Deus, para os escandalosos!

Porém, dirão alguns, os pecados são pessoais. É verdade, menos o pecado de escândalo!

Porém acrescentarão, todavia: e quando nem sequer se tenha conhecimento destes pecados, teremos de responder por eles? Conhecidos ou não, responde São Jerônimo, posto que vosso pecado foi sua origem, os pecados dos demais vem a ser pecados próprios. Não os conhecestes, é verdade, porém, deveríeis conhecê-los, deveríeis temê-los e preveni-los; e isto foi o que tu descuidastes (Epist.). Não se necessita mais do que isso para fazer-vos sofrer toda a pena que merecem.

Pode-se escandalizar sem intenção, e, contudo, ser realmente culpável. Porque não é necessário, para produzir escândalo nas almas, propor-se, mediante desígnio formal, a condenação delas. Somente o demônio seria, talvez, capaz de semelhante malícia. É suficiente que observeis uma mera conduta que tenda, por si mesma, a fazer perecer a um irmão vosso.

“Porém, eu não quereria que perecesse!”, me direis. É verdade, não o quererias; porém, querer que não pereça, querendo ao mesmo tempo aquilo que dá a morte, são duas vontades contraditórias: a primeira não é mais que uma veleidade, e a segunda é uma vontade absoluta e eficaz.

Assim é que uma mulher mundana e vaidosa, que segue modas indecentes, não se propõe perder as almas; e, contudo, leva-as à perdição, dando aos homens ocasião próxima de sedução etc.

O escândalo dos grandes é mais criminoso e mais perigoso

Todo o mundo segue o exemplo do rei, diz Cláudio: Regis ad exemplar totus componitur orbis (Anton. de Melis.)

Os ricos, os grandes, os que ocupam postos eminentes e escandalizam por meio dos maus exemplos fazem um dano infinito.

O reinado dos ímpios é a ruína dos homens, dizem os Provérbios: Regnantibus impiis, ruinae hominum (Pr 28, 12).

Os maus exemplos dos grandes, daqueles que foram constituídos em autoridade, excitam e inflamam para o mal: fazem que os demais acreditem ter certo direito a faltar também.

Desgraçadas as pessoas que, elevadas ao governo dos outros, dão escândalo! Os magistrados, os juízos, os pastores, os pais e as mães, os patrões e patroas, os preceptores e preceptoras, devem dar especialmente bom exemplo, sob a pena de responder pelas almas que lhes estão submetidas.

Os superiores escandalosos responderão por todos os seus pecados e pelos pecados cometidos por seus subordinados.

Grande é o número dos escandalosos

Muitos escandalosos espalharam-se pelo mundo, diz o Apóstolo São João: Multi seductores exierunt in mundum (2 Jo 1, 7).

A heresia e os cismas são grandes escândalos. As perseguições contra a Religião são grandes escândalos. As blasfêmias, os profanadores do Domingo, os pais negligentes, os homens de ódio, os impudicos, os maledicentes, os caluniadores, os orgulhosos, os avarentos, os homens irascíveis e vingativos, os bêbados, os preguiçosos espirituais etc. todos em geral são escandalosos. Em grande número são, portanto, os escandalosos.

Os escritos imorais, os teatros licenciosos, certas maneiras de celebrar as festas públicas, as reuniões em que se fala mal do próximo, e a intimidade entre pessoas de diferentes sexos, são também escândalos, e muitas vezes escândalos muito perigosos.

Há duas classes de escândalo

escândalo dado e escândalo recebido. Aquele que recebe um escândalo, caso venha a aderir a ele e coopera aprovando-o, é muito culpável. É como o encobridor; sem cúmplices não haveria ladrões.

De quantos modos dá-se escândalo

O escândalo pode ser produzido com palavras, com olhares ou escritos, por ação e por omissão.

1.° Escândalo com palavras. Assim como um vaso imundo esparge odor infecto, assim a alma corrompida manifesta, com seus discursos, a corrupção que contêm; mancha aos que ouvem seus propósitos; e os faz culpáveis e maus. Sua garganta, diz o Salmista, é um sepulcro aberto: Sepulcrum patens est guttur eorum (Sl 5, 11). Sua língua é viperina; veneno de áspides é o que tem debaixo delas: Venenum aspidum sub labiis eorum (Sl 139, 4). Sua língua é como uma flecha penetrante, diz Jeremias: Sagitta vulnerans lingua eorum (Sl 9, 8);

2.° Escândalo dos olhos. Todas as paixões pintam-se em seus olhos, e se comunicam por este meio. Milhões de almas há no inferno por causa de seus olhares pecaminosos, que foram para os demais um motivo de queda;

3.° Escândalo com os escritos. Os livros imorais, seja contra a Religião, seja contra os costumes; as canções indecentes, os folhetos imorais, os escritos irreligiosos, mentirosos e blasfemos, as pinturas obscenas, as estátuas indecentes etc., são deploráveis escândalos;

4.° Escândalo de ações. Reduz-se ao mal exemplo dado com atos de impureza, de embriaguez, de ira, de vingança etc.; e

5.° Escândalo de omissão. As orações descuidadas, os santos ofícios e os Sacramentos abandonados etc. são verdadeiros escândalos de omissão. Escândalos de indiferença, de preguiça

Jamais escandalizar

Não deis a ninguém motivo algum de escândalo, diz o grande Apóstolo: Nemini dantes nullam offensionem (2 Cor 6, 3). Que não saia de vossa boca nenhum discurso pernicioso, senão apenas aquilo que seja bom para aumenta a fé e a ação de graças ou inspirem piedade aos ouvintes, diz o Apóstolo: Omnis sermo malus ex ore vestro non procedat; sed, si quis bonus, ad aedificationem fidei, ut det gratiam audientibus (Ef 4, 29).

Temos de agir sem cessar de modo que toda a nossa conduta seja para os outros um exemplo contínuo.

Temos de evitar o escândalo e o escandaloso

Um pouco de levedura faz fermentar toda a massa, diz São Paulo: Modicum fermentum totam massam corrumpit (1 Cor 5, 6).

O ar empesteado ataca à multidão; uma enfermidade contagiosa comunica-se sem que o percebamos; o escândalo é um odor mortífero, cujas emanações chegam muito longe…

Se vossa mão ou vosso pé vos escandaliza, diz Jesus Cristo, cortai-o e lançai- o para longe de vós; porque vale mais que entreis na vida cochos ou mutilados, que ser lançados ao fogo eterno com ambas as mãos e os dois pés. E se vosso olhos vos escandalizam, arrancai-os e lançai para longe de vós; porque mais vale entrar na vida com um olho só, que ser lançados no suplícios do fogo com ambos[9].

Isto é, afastai-vos de um amigo, ou vizinho ou de qualquer outro que vos escandalize, e ainda quando essas pessoas vos fossem tão necessárias como o olho, ou pé, ou mão, cortai, arrancai, separai, rompei toda comunicação e todo laço.

Porém, direis, segundo Jesus Cristo, é forçoso que haja escândalos: Necesse est ut veniant scandala (Mt 18, 7). Como evitaremos, pois, o escândalo, e como poderemos não o dar nem o receber alguma vez?

Os escândalos de que fala Jesus Cristo são as perseguições, as zombarias e as calúnias contra os justos. O escândalo não é absolutamente necessário em si, senão por suposição, porque, em vista da multidão dos seres corrompidos etc., é impossível que não haja maus exemplos.

É preciso repreender aos escandalosos com o bom exemplo, fugindo deles com a reprovação, expressa ao menos em nosso semblante; é preciso repreendê-los, quando se possa; e, sobretudo, é preciso nunca tratar com eles, logo que os conheçamos.

Feliz o homem, diz o Salmista, que não se deixa levar pelos conselhos dos perversos, nem se detém no caminho dos pecadores: Beatus vir qui non abiit in consilio impiorum, et in viapeccatorum non stetit (Sl 1, 1).

Temos de deplorar todo escândalo e orar pelos que o dão

Diz o II Livro dos Reis que, havendo visto o profeta Eliseu a Hazael, servidor de Benadad, rei da Síria, turbou-se, e sua emoção manifestou-se em seu rosto, e aquele homem de Deus verteu lágrimas. Hazael disse-lhe: Porque choras, meu senhor? E Eliseu respondeu-lhe: Por que, quantos males haveis de causar aos filhos de Israel: queimareis suas cidades fortificadas, ferireis com o corte da espada a seus jovens, e esmagareis a seus filhos, fareis também perecer às crianças no seio de suas mães (II Reg. VIII, 10-12). Hazael foi, de fato, um cruel rei da Síria.

Temos de imitar a Eliseu, derramar lágrimas e chorar; porque Hazael tem muitos imitadores. Temos de chorar amargamente a desgraça dos escandalosos, o mal que fazem a si mesmos, e os males que obrigam os outros a cometer, e rezar para que cessem e sejam reparados seus escândalos.

Castigos reservados aos escandalosos

Ai dos lábios malvados, diz o Eclesiástico, e das mãos que obram o mal: Vae labiis scelestis et manibus malefacientibus (Eclo 2, 14).

Desgraçado do mundo por causa dos escândalos, diz Jesus Cristo; desgraçado do homem por cujo meio se propaga o escândalo: Vae mundo a scandalis; vae hominiper quem scandalum venit (Mt 18, 7).

Primeiro castigo do escandaloso: Ter remorsos. A consciência do escandaloso levanta a voz e grita-lhe como o Senhor a Caim: “Onde está teu irmão, Abel?” Onde está aquela alma que levastes à perdição com teus escândalos? Que fizestes? A voz do sangue desta alma está clamando a mim desde a terra. Assim, pois, desde agora, Eu te amaldiçoo! (cf. Gn 4, 9-11).

Não é a voz de Abel que acusa Caim, adverte admiravelmente Santo Ambrósio, não é sua alma, senão que é a voz do sangue que derramou, é o próprio crime aquilo que acusa Caim. Se Abel o perdoa, a terra não o perdoa; se seu irmão cala-se, a terra o condena (Lib. III de Offic.). “- Bebe, bebe o sangue de teu irmão, a quem assassinastes com teus escândalos”, diz-lhe a voz do remorso.

Ó escandalosos, o que vos diz vossa consciência diante dos males horríveis e irreparáveis que cometestes tantas vezes? Vossa própria consciência é vossa testemunha, vosso acusador, vosso juiz, vosso executor e vosso verdugo.

Segundo castigo do escandaloso: Ele não tem paz. Não conhecem a senda da paz, diz Isaías, e aqueles que caminham por eles, tampouco sabem que coisa é a paz: Viam pacis nescierunt: omnis qui calcat in eis, ignorat pacem (Is 59, 8). Não há paz para o ímpio, acrescenta Isaías: Non estpax impiis (Is 57, 21).

Terceiro castigo do escandaloso: Sua vida é estéril. Ele já não tem bons pensamentos, pois todos aqueles que lhe atormentam, são pensamentos maus; já não tem bons desejos, pois todos são corrompidos e pecaminosos; já não realiza ações santas, pois as suas ações são perversas; já não tem virtude, visto que não vive senão de pecados; e já não possui méritos!

Quarto castigo do escandaloso: O escandaloso não tem verdadeira satisfação na terra. Aquele que semeia maldades, semeará desgraças, dizem os Provérbios, e será destroçado com a mesma vara de seu furor: Qui seminat iniquitatem, metet mala, et virga irae suae consummabitur (Pr 22, 8).

Quinto castigo do escandaloso: Ele é acometido pela cegueira. O homem pleno de toda sorte de fraudes e embustes não cessará nunca de escandalizar, diz São Paulo a Elimás. Presta atenção, desde agora a mão do Senhor descarrega-se sobre ti, e ficarás cego. E repentinamente caíram sobre os olhos de Elimás densas trevas: Et nunca ecce manus Domini super te, et eris coecus. Et confestin cecidit in eum caligo, et tenebrae (At 13, 10-11). Elimás não perdeu nada além dos olhos do corpo, e somente por algum tempo; porém, o escandaloso perde os olhos da alma; e, muitas vezes, para sempre.

Sexto castigo do escandaloso: Ele cai em um abismo. Isto é, no barro e no lodo. Abriram diante de mim um precipício, diz o Real Profeta, mas são eles que nele caem: Foderunt ante faciem meam foveam, et inciderunt in eam (Sl 56, 7). Aquele que abre um precipício para que o próximo nele caia, nele cairá, diz o Eclesiastes: Qui fodit foveam, incidet in eam (Eclo 10, 8). Pratica-o para os outros, mas serve principalmente a si.

Sétimo castigo do escandaloso[10].

Oitavo castigo do escandaloso: Ele se perde. Aquele que apanha uma cobra, é mordido; aquele que tem fogo na mão queima-se antes de queimar aos outros. Assim é o escandaloso, que se faz muito dano, comete suicídio antes de condenar e assassinar aos outros; é a abelha que se mata ao inserir, nos outros, o seu ferrão.

Os ímpios, diz o Salmista, retiram sua espada, e tendem seu arco para derrubar ao pobre e ao débil, para degolar aos que tem o coração reto. Então, que entre sua espada em seu próprio coração, e rompa-se seu arco[11].

Os escandalosos que não perdoam a ninguém, diz São Bernardo, ferem-se a si mesmos, matam-se e matam: Non parcunt suis, non parcunt sibi; perimentes pariter et pereuntes (Serm. in Psalm.). Os escandalosos, acrescenta ainda São Bernardo, recebem tantas mortes terríveis e perniciosos exemplos oferecem: Tot mortibus digni sunt, quot exempla transmittunt (In Psalm.).

Nono castigo do escandaloso: Consiste no opróbrio aos olhos de Deus e dos homens. Sim, pecadores, em vez de glória, sereis cobertos de afronta: Repletus est ignominia pro gloria (Hab 2, 16). Beberás também tu, e ficarás envergonhado: Bibe tu quoque, et consopire (Hab 2, 16). Todas as vossas infâmias e vossas torpezas ser-vos-ão lançadas ao rosto, e um soberano e universal desprezo cairá sobre vós.

Farei de vós um padrão de opróbrio sempiterno e de ignomínia perdurável, cuja memória jamais se apagará, diz o Senhor pela boca de Jeremias: Dabo vos in opprobrium sempiternum, et ignominiam aeternam, quae numquam oblivione delebitur (Jr 23, 40).

Décimo castigo do escandaloso: O escandaloso terá uma morte horrível. Aquele que seduz aos justos, guiando-os pelo mau caminho, cairá no mesmo precipício, dizem os Provérbios: Qui decipit justos in via mala, in interitu suo corruet (Pr 28, 10).

Por haveres despojado aos demais de suas virtudes com os teus escândalos, todos te despojarão, diz o profeta Habacuc: Qui tu spoliasti, spoliabunt te omnes (Hab. II, 8).

Por fim, os escandalosos, como tantos exemplos na história o confirmam, morrem ordinariamente no desespero.

Décimo primeiro castigo do escandaloso: O temível Juízo. Aquele que vos escandalize, sofrerá o devido castigo, quem quer que seja, diz São Paulo aos Gálatas; será severamente julgado: Qui conturbat vos, portabit judicium (Gl 5, 10).

Aquele que é injusto continue a praticar injustiças; e aquele que é impuro prossiga a prática de impurezas. Eis que venho logo, diz o soberano Juiz no Apocalipse, e trago Comigo meu galardão para recompensar a cada um segundo suas obras: Qui nocet, noceat adhuc; et qui in sordibus est, sordescat adhuc […] Ecce venio cito; et merces mea mecum est. reddere unicuique secundum opera sua (Ap 22, 11-12).

Décimo segundo e espantoso castigo do escandaloso: O Inferno; e um Inferno especial aguarda-o. Prepararam-me laços, diz o Real Profeta, estenderam suas redes, e abriram um precipício no caminho que eu percorro. Carvões incandescentes cairão sobre eles; serão lançados às chamas, aos abismos sem fundo, dos quais jamais poderão sair[12].


Referências:

[1] De vinca Sodomorum vinea eorum, et de suburbanis Gomorrhae uva eorum, uva fellis, et hotri amarissimi. Fel draconum vinum eorum, et vinum aspidum insanabile (Deuter. XXXII, 32-33).

[2] Diz-se da pessoa maldizente ou que costuma falar mal de tudo e de todos (Nota do tradutor).

[3] Consideraistum prioribus malis adere posterior certantem, et homicidia homicidiis jungentem, perque omnia furibundum in praecipia labentem: quase enim ab aliquo daemonum ira, iracundia, invidiaque vexatus, nullaprorsus ratione fraenatur, iram in parvulos inocentes vertit (Homil. in Matth.).

[4]Transite et percutite; non parcat oculus vester, neque misereamini. Senem, adolescentem, et virginem, parvulos et mulieres interficite usque ad internectionem. Heu! Heu! Heu! Ergone disperdes omnes? (Ezech. IX 5-8).

[5] Las Veladas de S. Petersburgo ou Diálogos sobre o governo temporal da Providência, de autoria de Joseph de Maistre (Nota do Tradutor).

[6]  Veni e vide. Et ecce equus pallidus, et sedebat super eum, nomem illi Mors; et Infernus sequebatur eum; et data est illipotestas interficere gladio, fame, et morte, et bestiis terrae (Apoc.VI, 7-8).

[7]  Gladium suum vibrabit, arcum suum tetendit, et paravit illum. Et in eo paravit vasa mortis, sagittas suas ardentibus effect. Ecce parturiit injustitiam, concepit dolorem, et peperit iniquitatem. Lacum aperuit, et effodit eum, it incidir in foveam quam fecit (Psalm. VIII, 13-16).

[8]  Novi generis, ira plenas, ignotas bestias, aut vaporem ignium aspirantes, aut fumi odorem proferentes, aut horrendas ab oculiscintillas emitentes; quórum, non solum laesura poterat illos exterminare, sed et aspectos per timorem occidere (Sap. XI, 19-20)

[9]  Si autem manus tua vel pes tuus scandalizat te, abscide eum et proice abs te: bonum tibi est ad vitam ingredi debilem vel claudum, quam duas manus vel duos pedes habentem mitti in ignem aeternum. Et si oculus tuus scandalizat te, erue eum et proice abs te: bonum tibi est unoculum in vitam intrare, quam duos oculos habentem mitti in gehennam ignis (Matth. XVIII, 8-9).

[10] Texto inexistente na obra em espanhol (Nota do tradutor). Após futura pesquisa, será publicado.

[11]   Gladium evaginaverunt peccatores, intenderunt arcum suum, eu dejiciant pauperum et inopem, ut trucident rectos corde. Gladius eorum intret in corda ipsorum, et arcus eorum confringatur (Psalm. XXXVI, 14-15).

[12]  Absconderunt laqueum mihi, et funes extenderunt in laqueum; juxta iter scandalum possuerunt mihi. Cadent super eos carbones; in ignem dejicies eos; in miseriis non subsistent (cf. Psalm. CXXXIX, 6-11).