Deveres dos superiores, Tesouros de Cornélio à Lápide

Porque há homens superiores e homens subordinados

Sem o pecado dos homens, eles teriam sido iguais e independentes uns dos outros. O pecado, diz Santo Agostinho, é a única causa da diversidade de condições (De Lib. Arbit.) .

Depois de haver o homem se sujeitado voluntariamente ao demônio, mereceu perder a independência na qual se achava em relação a seus semelhantes. A igualdade que devia existir entre todos os homens, desapareceu para sempre, e é o cúmulo da loucura e da absurdidade tentar restabelecê-la.

Seria preciso, antes, dotar novamente o homem dos privilégios da inocência primitiva; seria preciso reintegrar à natureza humana todos os seus antigos direitos, e abolir as penas que lhe impôs o Criador depois do pecado.

Seria preciso fazer com que todos os homens, desde o seu nascimento, fossem igualmente fortes, robustos e vigorosos, igualmente dotados de todas as vantagens corporais e espirituais.

Seria preciso, em uma palavra, fazer desaparecer todas as necessidades e todas as misérias que sujeitam necessariamente certo número de indivíduos àqueles outros, de quem se veem obrigados a reclamar socorro, assistência e proteção.

Enquanto não se tenha verificado essas mudanças maravilhosas na natureza, deixemos de saracotear ao gênero humano com a esperança do quimérico reino da igualdade.

Reconheçamos, em boa hora, que é contrário à ordem primitiva o fato de que os homens se achem sujeito a outros homens; esta verdade recordará aos superiores e aos patrões que:

1.° O direito natural não lhes dá nenhum poder sobre seus subordinados e seus empregados, os quais têm a mesma natureza que eles, e saíram do mesmo tronco; e

2.° Que, pelo contrário, somente por consequência da subversão deste direito, causada pelos horríveis estragos do pecado, os superiores exercem domínio sobre outros homens, iguais a si, e que somente de Deus deveriam depender.

Porém, se esta reflexão é muito útil para propósito rebaixar o néscio orgulho de muitos superiores que se comportam em relação a seus subordinados como se não houvessem saído do mesmo barro que eles, jamais deduziremos que estes, por seu turno, tenham direito de levantar-se contra seus superiores e de desobedecer- lhes.

Ante Deus, todos os homens são iguais; somente o mérito pessoal pode estabelecer alguma diferença.

DEVERES DOS SUPERIORES

1.° Ter humanidade

O primeiro dever dos superiores é a humanidade, a bondade. Vós, senhores, diz São Paulo, manifestai a vossos criados a mesma humanidade, sem tratar-lhes com rudeza nem ameaças, considerando que uns e outros tendes o mesmo Senhor lá nos céus, e que não há Nele acepção de pessoas: Et vos, domini, eadem facite illis, remitentes minas, scientes quia et illorum et vester Dominus est in coelis, et personarum acceptio non est apud illum (Ef 6, 9).

Todos temos a Deus por Pai, todos somos irmãos e membros de Jesus Cristo, todos estamos destinados à mesma herança celestial; porém, somente participam dela aqueles que, por sua fidelidade à graça, tenham conservado a nobreza de uma origem tão santa. Ainda que fossem príncipes e reis, todos os prevaricadores da lei haverão de se tornar absolutamente excluídos.

Senhores, diz em outra parte aquele grande Apóstolo, tratai aos vossos servos segundoo que ditam a justiça e a equidade, sabendo que vós, o mesmo que eles, tendes também um Senhor no Céu: Domini, quod justum est et aequum, servis proestate, scientes quod et vos Dominum habetis in coelo (Col 4, 1).

Se tendes um servo fiel, diz o Eclesiástico, estimai-o como a vossa própria alma: Si est tibi servus fidelis, sit tibi quase anima tua (Ecl 33, 31). Tratai, pois, humanamente a vossos servidores, donos da terra; esta é a consequência deduzida pelo grande Apóstolo do fato de que os deveres dos servos para com os seus senhores nascem dos deveres dos filhos para com seus pais e suas mães.

Reciprocamente, os deveres dos senhores para com seus servos, são análogos aos do pai e da mãe para com seus filhos. Devem ter por eles ternura e cuidados.

Uns e outros responderão a Deus, seja pelo mal que tenham feito, seja pelo bem que tenham deixado de fazer.

2.° Ter cuidados

A caridade dos pais de família não deve limitar-se a seus filhos. Se a Escritura obriga-lhes a ter cuidado até dos animais que estão a sua disposição, não haveriam de estar mais obrigados, pela justiça e pela caridade, a estender seus cuidados aos subordinados que lhes servem?

Se alguém, diz São Paulo, não cuida dos seus, principalmente se são os da família, este tal homem negou a fé e é pior que um infiel: Si quis suorum, et máxime domesticorum, curam non habet, fide negavit, et est infideli deterior (1 Tm 5, 8).

3.° Ter vigilância

A terceira obrigação dos superiores perante seus subordinados é a vigilância, que consiste em eleger bem a seus servidores, a fim de não ter em sua casa senão gente prudente e temerosa a Deus, servidores que nãos sejam violentos, nem blasfemos, nem dados à embriaguez, nem insolentes, nem libertinos, nem de mau exemplo. Esta é a maior consequência para os superiores, e, sobretudo, para os filhos, que, inclinados sempre a imitar tudo o que veem, aprendem dos servos imprudentes e imorais o que jamais deveriam saber.

Acrescentemos ainda que basta um criado de maus costumes para desmoralizar a todos os seus companheiros. Quando não se encontram em um servo as qualidades que são se esperar e que lhe convenham, nem as virtudes próprias para edificar, é preciso trabalhar para corrigi-lo, vigiá-lo especialmente; e, se não se torna melhor, despedi-o tão logo quando possível, antes que tenha corrompido a seus companheiros.

Os superiores devem vigiar constantemente aos subordinados, e não permitir- lhes frequentar tabernas, nem ausentar-se durante a noite, nem ter encontros com pessoas de diferente sexo. Não devem tampouco deixar seus próprios filhos dormirem na cama de seus subordinados, a não ser que estejam perfeitamente seguros de sua moralidade.

Porém, dirão os superiores, se temos de estar tão alerta sobre a conduta de nossos subordinados, e temos de impor-lhes uma vida severamente regrada, não poderemos ter nenhum, nem sequer o poderemos encontrar.

Confesso que, muitas vezes, é dificílimo achar criados e criadas virtuosos; contudo, eles existem. Por outro lado, impondo-lhes as condições de que acabo de falar, serão muito mais reservados, corrigir-se-ão; e, se são verdadeiros cristãos, perseverarão. Assim, realizareis a sua felicidade e a vossa.

É indicio de um estado social deplorável, o fato de que um serviçal que não possais ter, por causa de sua má conduta, seja contratado por outros senhores. As portas de todas as casas deveriam estar fechadas para qualquer subordinado indigno de confiança.

Queixam-se alguns muitas vezes dos criados; Ah, porém, se vivem na desordem, quem os corrompe? Algumas vezes são seus próprios senhores, por sua debilidade, sua pouca vigilância, sua impiedade, sua imoralidade, seu funesto exemplo. Sois mal servidos, dizeis; e vós, senhores, como servis a Deus? Como vigiais vossos criados? Vossos criados vos desobedecem? Porém, obedeceis vós a Deus?

Bons senhores, bons criados! Maus senhores, criados maus! Se não vigiais a vossos serventes, não vos queixeis? Sua perversidade é obra vossa! Vigiai, e achareis mais satisfação.

Segundo as leis do Evangelho, não está permitido aos senhores ter a seu serviço gente inútil que venha a permanecer ociosa. A ociosidade é um manancial de desordens. Estes subordinados preguiçosos corrompem-se prontamente, e corrompem aqueles que lhes rodeiam. É, pois, preciso cuidar de que não percam tempo; porém, também é preciso não esmagá-los sob o peso do trabalho; não vos esqueçais jamais de que são vossos semelhantes, e não animais de carga.

Deveis exigir que vossos subordinados santifiquem o Domingo e cumpram com o Dever Pascal. Todo criado que não vá à Santa Missa ou não cumpra com os deveres paroquiais, deve ser indigno de vossa confiança. Deveis despedi-lo.

Porém, despedirá a seus subordinados por semelhantes faltas aquele senhor ímpio que tampouco vai à Santa Missa, que despreza a Deus e à Igreja, viola as sagradas Leis da Religião, e zomba dos Sacramentos? Não, sem dúvida! É apostata, e os que estão ao seu serviço são-lhe semelhantes.

Ó senhores covardes, cegos e ímpios. Quão culpáveis sois! Renegastes a vossa fé, sois piores que o infiel: Fidem negavit, es est indifeli deterior.

4.° A instrução

O quarto dever dos senhores é instruir a seus subordinados ou fazer com que o sejam, nos mistérios da Religião, se os ignoram; nas obrigações do cristão; e, particularmente, nos deveres de seu estado de vida. Devem lhes preparar para a Primeira Comunhão, e se o fizeram, devem ter o cuidado de que assistam às práticas da Paróquia, e também às instruções da Doutrina Cristã. Devem lhes ensinar a orar, e, enquanto seja possível, devem rezar em família com eles, pela manhã e pela noite.

5.° A correção

Os senhores não devem permitir disputas entre seus subordinados, nem tampouco nenhuma amizade particular, sobretudo quando tenham serventes de sexos diferentes.

Devem adverti-los com caridade quanto aos seus defeitos, porém, ao mesmo tempo, com energia, quando os defeitos sejam graves. Se as advertências não lhes corrigem, demiti-os. A boa conduta e a salvação daqueles que compõem vossa casa, devem preferir-se a todos os interesses e a todas as considerações humanas. Nestas coisas devemos ser enérgicos e inflexíveis, e não ter ante a vista mais que a Deus e o interesse espiritual do próximo.

O rei Davi declara-nos que não permitia em sua casa serventes de má conduta; e quanto àqueles que procediam irrepreensivelmente, aqueles eram seus ministros: oculi meu ad fideles terrae ut redeant mecum; ambulas in via immaculata, hic mihi ministrabat (Sl 100, 16).

6.° O bom exemplo

O sexto dever dos senhores, e o mais sagrado, é dar bom exemplo. Estão obrigados a isso, por consciência. Desgraçado é o superior que inclina seus criados ao mal ou escandaliza-os! Não é raro encontrar senhores que tratem de corromper e perder aos pobres servos e às servas! Senhores infames, cruéis e bárbaros, que são, em certo modo, demônios encarnados! Seu crime é o crime dos crimes, a injustiça das injustiças! Podemos chamá-los, segundo a Escritura, o cúmulo da impiedade: Vocabuntur termini impietatis (Ml 1, 4).

7.° A assistência

Os superiores hão de cuidar de seus subordinados em suas enfermidades. Seria crueldade, por parte dos senhores, abandonar aqueles desafortunados que caem enfermos achando-se a seu serviço, e obrigá-los a abandonar a casa, sobretudo, se não tem asilo nem parentes que os possam socorrer. A caridade faz desta conduta um dever, e até poderíamos dizer que é um dever de justiça.

Deve ser chamado o médico; e devem se empregar os remédios que ele prescreve. Enfim, os senhores também pecam quando, por descuido, não proporcionam a seus subordinados enfermos os socorros espirituais.

8.º O salário

Os senhores devem pagar fiel e exatamente aos seus subordinados o salário que lhes devem. Seria uma grave injustiça negar-lhes alguma quantidade.

Os senhores pecam:

1.° Quando se negam a dar um justo salário aos que se oferecem para prestar- lhe serviço;

2.° Ou quando abusam da desgraçada situação de um servo sem patrão, ou de um trabalhador desempregado, não lhe pagando senão quantias insignificantes;

3.° Ou ainda obrigando-lhes a optar entre morrer de fome ou aceitar as condições desfavoráveis de trabalho.

A Sagrada Escritura recomenda energicamente que se pague com pontualidade o salário aos subordinados. O salário do trabalhador que vos dá o seu trabalho, diz o Levítico, não há de ficar em vosso poder até a manhã seguinte. No mesmo dia em que o trabalhador vos deixe, antes de que se ponha o sol, entregar- lhe-eis o preço de seus trabalhos, porque é pobre e não tem mais do que aquilo para viver; não aconteça que ele clame contra vós ao Senhor, e vossa conduta seja considerada pecaminosa (Lv 19, 13).

Tobias recordava a seu filho esta obrigação: A quem houver trabalhado para ti paga-lhe logo a jornada; e, por nenhum pretexto, retenhas em teu poder o salário de teu trabalhador (Tob 4, 15).

O Eclesiástico compara o crime de homicídio com a injustiça daqueles que defraudam o salário do servente ou do trabalhador: Qui effundit sanguinem, et qui fraudem facit mercenario, fratres sunt (Eclo 34, 27).

Os senhores estão obrigados a dar a seus serventes e a seus trabalhadores um alimento suficiente e saudável.

Cometem uma injustiça quando sujeitam seus criados a trabalhos excessivos, capazes de destruir ou debilitar notavelmente sua saúde. Assaz comum é este abuso entre os ricos avarentos. Obrigam aos adolescentes a fazerem coisas superiores à suas forças; exigem-lhes um trabalho ininterrupto, ocupam-lhes dia e noite.

Muitas vezes, estes desventurados não se atrevem a reclamar; e, depois de alguns anos de tão duro serviço, contraem enfermidades. E como a saúde e a força do corpo são a única riqueza dos servidores, e encontram-se na situação em que lhe foi tirado todo recurso, vem-se condenados ou a ter que sucumbir à morte precoce, ou a ter que passar sua velhice entre sofrimentos e dores.

Estes desapiedados avarentos cuidam muito, entretanto, de não onerar com trabalho excessivo a seus bois e a seus cavalos, temerosos de perdê-los; porém, não tem a mesma atenção para com seus subordinados, nem tampouco, algumas vezes, consigo mesmo, dado o tanto que lhe aguilhoa a sede de ouro.