Concupiscência, Tesouros de Cornélio à Lápide

O que é concupiscência

Em si mesma, a concupiscência é o apetite dos sentidos, uma inclinação natural aos bens sensíveis; esta inclinação, este apetite não são maus, a não ser que sejam contrários à razão e à Lei de Deus.

A concupiscência não é uma potência mal produzia pelo demônio; nenhuma potência pode ser má por si mesma, nem pode ser produzida pelo demônio.

A concupiscência não é tampouco o pecado original; porque o pecado original é destruído pelo Batismo, enquanto a concupiscência ainda permanece. Não é, por fim, como o quer Calvino, uma coisa corrompida pelo pecado original e semelhante a um forno sempre aceso que vomita o pecado.

A concupiscência não é o pecado. O pecado vem da vontade

A concupiscência, nascida do pecado original e propagada por ele, não é o pecado, senão uma pena do pecado. É um motivo contínuo de combate, de luta e de vitória; não é o pecado, a não ser que a vontade se una a ela.

Ainda que sejamos justos, encontramo-nos entregues à concupiscência como a um tirano; e, sem embargo, estamos propriamente entregues ao pecado, porque a concupiscência não nos obriga a pecar.

Sentir os movimentos da concupiscência, diz São Bernardo, não é pecar, senão que o pecado consiste em saboreá-los voluntária e livremente: Nec enim concupiscentia cogit nos ad peccatum, quia ejus motus sentire nin est peccatum; sed eis libere consentire peccatum est (Serm. in Psalm).

Eu vejo, diz São Paulo, outra lei em meus membros, a qual resiste à lei de meu espírito e me subjuga à lei do pecado que está nos membros de meu corpo: Video aliam legem in membris meis, repugnantem legi mentis meae, et captivantem me in lege peccati, quae est in membris meis (Rm 7, 23). Isto é, sinto uma lei que me mantém cativo, não permitindo que minha vontade obedeça, senão comovendo-me, para o meu pesar e apesar de minha resistência, por mais viva que seja. Vejo-me forçado a sentir os movimentos que excitam no fundo de meu coração; porém, não me força a que me compraza neles. Estamos, pois, sob o jugo da concupiscência, porém, não sob o jugo do pecado.

A concupiscência faz-se sentir em nós e, sem embargo, não a escutamos nem lhe obedecemos senão consentindo nela. Os movimentos da concupiscência não são pecados quando são involuntários.

Somente está condenado, diz Santo Agostinho, aquele que se deixa arrastar pela concupiscência da carne: No damnatur nisi qui concupiscentiae carnis consentit (Lib. V, Contr. Julian.).

Não está em nossa mão evitar e afastar inteiramente os movimentos desordenados da concupiscência: o que depende de nós e de nossa vontade é dar-lhe consentimento; se o fazemos, há pecado.

Sentir a concupiscência, diz São João Crisóstomo, está na natureza; porém, desejar o mal é algo do domínio da vontade: Cuncupiscere naturale est; at male concupiscere jam voluntatis est (Homil. XIX ad pop.).

Quando se apresenta um mau pensamento e solicita-se o nosso consentimento, diz São Gregório, de nenhum modo mancha-se a nossa alma. Somente mancha-se quando se sujeita, comprazendo-se no pensamento: Mentem nequaquam cogitatio imunda inquinat cum pulsat, sed cum hanc sibi per delectationem sunjugat (Moral.).

O pecado está inteiramente na vontade.

Se a concupiscência fosse pecado por si mesma, Deus haveria ouvido a São Paulo quando este rogava-Lhe que o livrasse dela; porém, Deus não atendeu a súplica, senão que lhe respondeu: Basta-te minha graça, porque o meu poder brilha e consegue seu fim por meio da fraqueza (2 Cor 12, 9).

Quando me refiro às afeições da carne, falo de uma maneira imprópria, diz São Cipriano; porque estas afeições pertencem perfeitamente a alma, que é a única que sente, move-se, vive, e a ela é a quem se imputa o pecado, porque somente a ela foi concedido o livre arbítrio, a razão, a ciência e o poder. Por meio destas faculdades, ela pode condenar o mal, negar-se a cometê-lo e escolher o bem. A alma serve-se do corpo, como o ferreiro serve-se da bigorna e do martelo para dar a seus ídolos todas as vergonhosas formas que quer, e fabricar falsos deuses a seu bel prazer. Não é a carne o que impele o homem ao pecado; não é a carne que o inspira, nem concebe más ações; não tem o pensamento à sua disposição; o corpo não é senão o arsenal onde se acham os instrumentos do espírito. O espírito é aquele que faz e consuma na carne, e por ela, tudo quanto decidiu fazer. Faz-se muito palpável e evidente que a carne é insensível quando a alma separa-se dela. Desde aquele momento, com efeito, a carne não serve para nada; não é mais que uma massa de corrupção. Tudo o que no homem compreende e sente, é, por sua natureza, estranho ao corpo (Prol. Tract. Action. Jesu Christ.).

Impropriamente diz-se, acrescenta São Cipriano, que a carne combate contra o espírito, e o espírito contra a carne, e que há oposição; porque este combate não existe mais que na alma, a qual faz a guerra a si mesma e luta contra sua vontade. A alma sabe muito bem em tal conflito o que é o mal e o que é bem; porém, embriagada pela peçonha de seu desejo, entrega seus corpo à ignomínia; abraçando- a e unindo-se a ela, submerge-se nas voluptuosidades que entorpecem e, em seu seio, adormece. Ao despertar, a confusão traz um arrependimento tardio, e a alma culpável e corrompida vê o horror de suas manchas (Prolog., ut supra).

A concupiscência e a tentação não são pecados, porém os geram se a vontade neles consente. Por sua essência, diz Santo Agostinho, o pecado exige de tal maneira o consentimento da vontade que, se não há consentimento, também há pecado: Peccatum enim ita in sua essentia includit voluntarium, ut si hoc desit, desinat esse peccatum (Lib. I retract. XV).

O bem e o mal são coisas estranhas ao corpo, diz São Bernardo: Quidquid ad corpus spectat, sive bonum, sive malum, foris est (Epist.).

Gerson chama à concupiscência embaixadora de Satanás na vontade, para instar-lhe a que preste seu consentimento. Porém, se a vontade resiste, a embaixadora não tem força nem poder; parece-se a um homem que teve intenção de incendiar uma selva sem fogo, diz Santo Tomás (De Peccat.) .

A concupiscência é o lugar do pecado

A concupiscência, diz Santo Efrém, chama-se semente do demônio, ferida de alma, chaga do coração, árvore do mal, víbora (T. II, Paroen.).

É a mãe do pecado, cujo pai é o abuso do livre arbítrio; a sugestão, por uma parte, e o consentimento da vontade, por outra, fazem fecunda sua união e produzem todos os crimes.

A causa real e mais poderosa da tentação e, por conseguinte, do pecado, é a concupiscência: leva a vontade, o espírito e a imaginação a consentirem no pecado. Engendra a vontade, o espírito e a imaginação a consentir no pecado. Gera a irreflexão, a ignorância, a paixão, o mau costume, a cegueira, encobre e oculta toda a malícia do pecado. Com muita razão, pois, é chamada de lugar, princípio e escola do pecado; e São Paulo dá-lhe o nome de lei dos membros, que é contrária à lei do espírito.

Como a concupiscência tenta-nos

Cada um é tentado, atraído e lisonjeado pela própria concupiscência, diz o Apóstolo São Tiago: Unusquisque vero tentatur a concupiscência sua abstractus et illectus (Tg 1, 14).

São Gregório Nazianzeno diz que a concupiscência é um fogo, cuja chama o demônio excita: Concupiscentia ignis, flama vere daemonis (In Distich.).

A concupiscência tenta-nos:

1.° como a serpente tentou Eva, e Eva a Adão;

2.° impele-nos a obrar mal, como a febre a beber água que é danosa.

Perdemos o freio da justiça original com a qual Adão comprimia e detinha de tal modo os movimentos da concupiscência que não podiam surgir sem que ele os visse e os quisesse. Porém, desde que se perdeu este freio, a concupiscência está em nós como uma ulcera aberta que dá sempre mal odor; parece-se a uma fossa que exala constantemente vapores fétidos e deletérios, a um forno ardente que lança sem cessar fogo e chamas. A concupiscência sugere, noite e dia, maus pensamentos e, sobretudo, penamentos de ignomínia, excita os movimentos das paixões que embrutecem. É um vulcão que jamais se apaga e cuja cratera sempre aberta lança ao longe lavas devoradoras.

A concupiscência debilita-se com uma compressão perseverante, porfiada, e com outros mil meios, porém não morre jamais. E se o grande Apóstolo, aquele vaso de eleição, aquele homem escolhido por Deus para levar consigo seu santo nome por todo o universo, estava perseguido por esta maldita inimiga, quanto não devemos nós temê-la, débeis pigmeus!

Tríplice concupiscência

Não tenhais amor ao mundo, diz o Apóstolo São João, nem ao que está no mundo. Se alguém ama o mundo, não tem em si o amor do Pai; porque tudo o que há no mundo é concupiscência da carne, e concupiscência dos olhos, e orgulho de vida: Nolite diligere mundum, neque ea quae in mundo sunt. Si quis diligit mundum, non est caritas Patris in eo; quoniam omne quod est in mundo, concupiscentia carnis est, et concupiscentia oculorum, et superbia vitae (1 Jo 2, 15-16).

A serpente tentou Adão e Eva com três concupiscências:

a) com a concupiscência da carne, solicitando-lhe para que comessem a fruta proibida;

b) com a concupiscência dos olhos, prometendo-lhes falsamente que seus olhos se abririam;

c) com a concupiscência do orgulho, dizendo-lhes: Sereis como deuses.

O demônio tentou a Jesus Cristo com três concupiscências:

a) com a concupiscência da carne, dizendo-Lhe: Mandai que esta pedras transformem-se em pães;

b) com a dos olhos, dizendo-Lhe: Eu vos darei todas essas coisas, se vos prostrardes diante de mim e me adorares; e

c) enfim, pela concupiscência do orgulho da vida; quando lhe instou a que Se precipitasse desde o alto do pináculo do Templo, prometendo-Lhe que os Anjos receberiam-No em suas mãos.

Essa tríplice concupiscência é contrária à Santíssima Trindade:

a) a dos olhos, que é a avareza, é contrária a Deus Pai; porque Ele é liberalíssimo e comunica sua essência e tudo o que tem ao Filho, ao Espírito Santo e, por participação, às criaturas.

b) A concupiscência da carne é contrária ao Filho, cuja geração não é carnal, mas espiritual.

c) O orgulho da vida o é ao Espírito Santo, que é Espírito de humildade e de doçura.

Concupiscência da carne

A concupiscência da carne é o amor aos prazeres dos sentidos; tais prazeres viciam este corpo mortal do qual dizia São Paulo: Desgraçado de mim, quem me libertará deste corpo de morte? Infelix ego homo! Quis me liberabit de corpore mortis hujus? (Rm 7, 24).

Os prazeres dos fazem escravos; vendem-nos para sermos escravos do pecado; infere-se do mesmo Apóstolo: Venundatus sub peccato (Rm 7, 14). É o mais pesado dos jugos.

Esta concupiscência da carne já atraiu todos os males, todas as enfermidades, o dilúvio, a morte, causou a destruição de Sodoma etc.

Estarmos aficionados aos prazeres dos sentidos é-nos algo funestíssimo; leva-nos ao mal, à gula, à luxúria, a excessos espantosos. A concupiscência da carne é uma planta envenenada que estende seus ramos em todas as direções e rodeia o corpo. Há em nossa carne uma disposição secreta, um levantamento universal contra o espírito. Por isto, São Paulo a chama corpo do pecado: Corpus peccati (Rm 6, 6).

O homem se rebela contra Deus, o corpo, então, deixa de estar sujeito a este rebelado, e o homem já não é mais dono de seus movimentos. A insurreição de seus sentidos dá-lhe a conhecer sua queda, porque Deus lhe havia feito reto, isento das misérias da concupiscência, e dono de si mesmo. Porém, não querendo se sujeitar a Deus, a carne tampouco quis se sujeitar ao espírito. Desde a queda do homem, as paixões da carne, por um justo castigo de Deus, tornaram-se tirânicas, muitas vezes e vitoriosas. E o homem que, por sua imortalidade e pela perfeita submissão do corpo ao espírito, devia ser espiritual até na carne, diz Santo Agostinho, tornou-se carnal até no espírito: Qui futurus erat etiam carne spiritalis, factus est mente carnalis (Confess.).

Concupiscência dos olhos

Há no mundo, outra concupiscência, a concupiscência dos olhos, outro manancial de corrupção, que consiste, diz Bossuet, em duas coisas principalmente:

  1. uma é o desejo de ver, de experimentar, de conhecer, em uma palavra, a curiosidade; e
  2. a outra o prazer da vista, quando se agrada em olhar objetos de certo brilho capaz de deslumbrar e seduzir.

O desejo de experimentar e conhecer chama-se concupiscência dos olhos; porque de todos os órgãos dos sentidos, os olhos são os que mais ampliam nossos conhecimentos. Nos olhos estão, de certo modo, compreendidos todos os outros sentidos; e, no uso da linguagem humana, sentir e ver são frequentemente a mesma coisa. Não somente dizemos: Vede que formoso é isto, senão também: Vede quão bem cheia esta flor…, que suave é isto…, que agradável esta música… Por isso, toda curiosidade relaciona-se com a concupiscência dos olhos (Traité de la Concupiscence).

Pela concupiscência dos olhos queremos ver; queremos ser vistos; queremos ser ricos. Esta concupiscência dos olhos engendra a avareza, a vaidade, o luxo, os gastos desmedidos etc. Tudo é engano da vista. Não ameis, pois, o mundo nem o que está no mundo: Nolite diligere mundum, neque e aquae in mundo sunt (1 Jo 2, 15).

Terceira concupiscência: orgulho da vida

O orgulho é uma depravação profunda. Por ele, o homem, entregue a si mesmo, olha-se como um Deus: tão grande é o excesso de seu amor próprio. O orgulho é o vício que penetrou até o fundo de nossas entranhas com a palavra da serpente, quando nos disse por meio da pessoa de Eva: Eritis sicut dii. Sereis como deuses (Gn 3, 5). O que queremos, sobretudo, diz Orígenes, o que mais admiramos, converte-se em nosso deus: Unusquisque, quod prae coeteris colit, quodsuper omnia miratur et diligit, hoc ei Deus est (In Gen.).

Cada qual faz um deus cruel para si a partir da paixão a que se entrega, diz Virgílio: Sua cuique Deus, fit dira cupido; e outro poeta: O mundo tem três deuses: a honra, as riquezas e os prazeres.

Do orgulho da vida nasce o amor próprio, o amor de alguém por si mesmo. Somente ocupamo-nos de nós mesmo, de nossa própria vontade e de nosso prazer; e não estamos e já não queremos estar sujeitos à vontade de Deus. Não amando mais do que a nós mesmos, tornamo-nos intratáveis com o próximo. Em vez de levar o amor de Deus até o desprezo de nós mesmos, levamos o amor próprio até o desprezo de Deus. Então, adoramos o nada.

Degradamos a Deus? Não, somente degradamos a nós mesmos. A Deus não se Lhe tira nada; porém, nós nos privamos de Seu apoio, de Sua luz, de Sua força, e do manancial de todo bem; tornamo-nos cegos, ignorantes, débeis, injustos, maus, escravos do prazer e inimigos da verdade. Rebelamo-nos, queremos ser livres, e fazemo-nos livres como os animais, que não tem outras leis além de seus desejos.

Tudo isso é obra do demônio…

Esta é a loucura do homem, este é seu erro. Deus lhe havia feito feliz e santo; este bem, por sua natureza era imutável; o homem não tinha que fazer nada além de não mudar, e teria permanecido em um estado imutável: transformou-se voluntariamente, e daí seguiu-se a tríplice concupiscência; tornou-se soberbo, tornou-se curioso, tornou-se sensual. Para curar-nos destes males, Deus nos enviou um Salvador humilde, um Salvador que não tem outra curiosidade que a salvação dos homens, um Salvador abnegado em pena, e que é o varão das dores, como diz Isaías: Virum dolorum (Is 3, Bossuet, Traité de la Concupiscence).

Quão penosa e humilhante é a concupiscência

Estamos vendidos à concupiscência, diz São Paulo (Rm 7, 14). Este grande Apóstolo exclama, como esmagado pelo peso da concupiscência: Desgraçado de mim, quem me libertará deste corpo de morte? Infelix ego homo! Quis me liberabit de corpore mortis hujus? (Rm 7, 24).

Escuta, ó minha alma, diz Hugo de São Vitor, escuta o que és: estás carregada de pecados, as redes do vício detém-te, rodeiam-te, seduzida pelas carícias dos sentidos, estás aficionada, acorrentada aos membros de teu corpo, rasgada de cuidados, arrastada em sentido contrário pelos negócios, arremessada pelo temor, sobrecarregada de dores, entregue ao erro, atormentada pelas suspeitas, fatigada pelas solicitudes, estrangeira em uma terra inimiga, manchada com tuas relações com mortos, poder-se-ia acreditar que habitas no Inferno[1].

A carne levanta-se contra o espírito, e o espírito contra a carne; por cujo motivo não fazeis vós tudo aquilo que quereis, diz São Paulo aos Gálatas (Gl 5, 17).

A concupiscência parece-se à sanguessuga, porque:

1.° a sanguessuga acha-se em uma água lamacenta e deseja sangue com ardor: a concupiscência vai ao lodo das paixões, submerge-se na carne e no sangue, e não deseja mais do que aquilo que mancha;

2.° a sanguessuga e a concupiscência são igualmente insaciáveis; não permitem que se retarde a saciedade de seu apetite, senão que querem se satisfazer imediatamente;

3.° ambas são macias e débeis;

4.° a sanguessuga é amante do sangue corrompido, deleita-se com ele: a concupiscência somente se deleita com pensamentos impuros, maus desejos, ações vergonhosas. Necessitamos exemplos? O homem colérico não pensa mais que no modo como satisfazer seu ódio e sua vingança; o guloso não se ocupa mais que de sua boca; o luxurioso, somente de seus prazeres grosseiros etc.;

5.° chupando o sangue de um homem, as sanguessugas acabam por debilitar suas forças e, por fim, matá-lo: a concupiscência esgota as forças do corpo e da alma; é a causa da morte temporal e eterna;

6.° a sanguessuga agarra-se com tenacidade: a concupiscência faz o mesmo;

7.° a sanguessuga tem veneno: a concupiscência perverte a alma, envenena-a e mata-a;

8.° a sanguessuga tem como uma pequena lança que fere a pele: a concupiscência tem um aguilhão com que atravessa e fere a consciência;

9.° a sanguessuga tem uma boca triangular que faz uma ferida de três lados: a concupiscência faz também três feridas: fere o corpo, a inteligência e o coração.

Terríveis desgraças que a concupiscência causa

Bem manifestas, diz São Paulo aos Gálatas, são as obras da carne, que são: adultério, fornicação, desonestidade, luxuria, idolatria, feitiçaria, inimizades, disputas, ciúmes, fúria, rixas, dissensões, heresias, inveja, homicídios, glutonerias e coisas semelhantes, a respeito das quais vos previno, como já tenho dito, que os tais coisas fazem não alcançarão o Reino dos Céus[2]. Estas são as obras do homem velho ou da concupiscência, se a vontade presta-se a elas.

Quando a concupiscência concebeu, diz o Apóstolo São Tiago, dá à luz o pecado, e o pecado consumado engendra a morte: Concupiscentia cum conceperit, parit peccatum; peccatum vero, cum consummatum fuerit, generat mortem (Tg 1, 15).

Quando o fogo da concupiscência cai sobre alguém, diz São Gregório, este já não pode ver o sol da inteligência: Cum in aliquem supercecidit ignis concupiscentia, videri ab eo nequit sol intelligentiae (Lib. Moral., c. XXXI).

De onde vem as guerras e os litígios entre vós? Pergunta o apóstolo São Tiago. Não são vossas concupiscências que combatem em vossos membros: Unde bela et lites in vobis? Nonne hinc: ex concupiscentia vestris, quae militant in membris vestris? (Tg 4, 1). Estais plenos de desejos, e não tendes o que desejais: concupiscitis, et non habetis (Tg 4, 2).

Para cada pessoa, sua paixão é uma tempestade, diz Santo Agostinho. Amas o oceano do mundo: ele te tragará, porque sabe devorar aos seus, e não os levará: Uniquique sua cupiditas tempestas est. Amaas saeculum, absorbebit; amatores suos vorare novit, nonportare (Serm. XIII de Verbis Dom. in Matth.).

O corpo que se corrompe é uma carga para a alma, diz a Sabedoria: Corpu quod corrumpitur, aggravat animam (Sb 9, 15).

Se a concupiscência não fosse fogo, não devoraria a casa, diz São João Crisóstomo (Homil. ad pop.).

Ainda que Adão e sua raça tivessem sido feridos em sua inteligência, em sua memória, em sua vontade e em seu apetite irascível, não o foi, contudo, muito mais profundamente no apetite concupiscível. Assim como uma fera selvagem e faminta se lança sobre sua presa para devorá-la, da mesma maneira a concupiscência se lança sobre o homem para capturá-lo, arrastá-lo aos deleites selvagens e crueis, e entregá-lo aos atrativos do pecado. Se satisfazes os caprichos de tua alma, ela fará de ti a irrisão e fábula de teus inimigos, diz o Eclesiástico: Se praestes animae tuae concupiscentias ejus, faciet te in gaudium inimicis tuis (Eclo 18, 31).

Ao homem que se deixa arrastar e dominar pela concupiscência podem se aplicar aquelas palavras do Salmista: Não há parte sadia em todo o meu corpo por causa de Tua indignação; estremecem-me os ossos quando considero meus pecados, porque minhas iniquidades sobrepujam por cima de minha cabeça, e como uma carga pesada elas tem-me sobrecarregado. Minhas chagas apodreceram-se e corromperam-se por causa de minha insensatez. Estou coberto de miséria, e encurvado até o solo: ando todo o dia coberto de tristeza. Porque minhas entranhas estão plenas de ardor, e não há em meu corpo parte sã. Afligido estou e abatido em extremo; a força dos gemidos de meu coração me faz prorromper em alaridos. Meu coração está conturbado, perdi minhas forças e até a própria luz dos meus olhos já me faltam: Non est sanitas carne mea, a facie irae tuae: non estpax ossibus meis, a facie peccatorum meorum. Quoniam iniquitates meae supergressae sunt caput meum, sicut onus grave gravatae sunt super me. Putruerunt et corruptae sunt cicatrices meae, a facie insipientiae meae. Miser factus sum, et curvatus sum usque ad finem: tota die contristatus ingrediebar. Quoniam lumbi mei impleti sunt inlusionibus, et non est sanitas in carne mea. Aflictus sum et humiliatus sum nimis; rugiebam a gemitu cordis mei […] cor meum conturbatum est, dereliquit me virtus mea et lumen oculorum meorum, et ipsum non est meum (Sl 37, 4-11).

A concupiscência deixa a alma vazia. Desgraça é obedecer-lhe

O mundo e sua concupiscência passam, diz o Apóstolo São João: Mundus transit, et concupiscentia ejus (1 Jo 2, 17). Cobiçais e não alcançais, diz São Tiago, isto é, quereis satisfazer vossas concupiscências, e não podeis, nada achais nelas que vos possa comprazer: Concupiscitis, et non habetis (1 Jo 4, 2).

A concupiscência reduz sua desgraçada vítima ao horrível estado do filho pródigo do Evangelho. Leva-o a uma terra longínqua e o faz dissipar sua herança, todos os bens da graça, obrigando-a a viver na dissipação: Profectus est in regionem linginquam, et tibi dissipavit substantiam suam, vivendo luxioriose (Lc 15, 13). E, depois que o fez gastar tudo, uma fome extraordinária sobrevêm naquela alma aprisionada, e a indigência chega a ela a passos agigantados: Et postquam omnia consummasset, facta est fames valida, et ipse coepit egere (Lc 15, 14). Então, o tirano a quem entregou-se, envia-lhe a guardar porcos. Ali, bem quisera a alma saciar-se com o que comem aqueles animais imundos, porém nem isto lhe está permitido: Missit illum ut pasceret porcos. Et cupiebat implere ventrem suum de siliquis quas porci manducabat, et nemo illi dabat (Lc 15, 15-16).

A concupiscência é um mal que atormenta a alma dando-lhe uma sede e um desejo contínuo das coisas da terra que não podem preenchê-la, nem saciá-la. Chega a ver-se plena de caprichos, de pesares, de decepções, temores e mil dores.

Desejais, e não tendes o que desejais: Concupiscitis, et non habetis:

1.° desejais, porque não tendes, e este desejo prova que sois pobres e desgraçados;

2.° desejais e não tendes porque a concupiscência é insaciável;

3.° desejais e não tendes porque o que tendes já não vos basta; é insípido para vós;

4.° desejais e não tendes porque, no mesmo momento em que uma coisa que buscais com ardor proporciona-vos um prazer efêmero, este prazer desaparece rapidamente;

5.° desejais e não tendes porque não possuis tanto o que desejais quanto ele vos possui a vós mesmos; tem-vos, e vós não o tendes;

6.° muitas vezes, vós não podeis gozar o que desejais;

7.° muitas vezes, não vos atreveis a servir-vos dele depois de tê-lo cobiçado por muito tempo.

Assim é o avarento, amontoando riquezas, vive com uma surpreendente parcimônia, sofre privações, e quase se mata de fome; enquanto não tem, espera; quando tem, priva-se. Eis aqui como a concupiscência ainda zomba de suas vítimas e as faz infinitamente desgraçadas.

Castigos impostos ao consentimento da concupiscência

A concupiscência não é mais que um sonho que atormenta. Aquele que obedece à concupiscência é castigado pela mesma concupiscência, porque, como se lê no Livro da Sabedoria, per quae peccat quis, per haec et torquetur (Sb 11, 17). O avarento cobiça as riquezas; elas serão seu tormento; o impudico busca o prazer; seus prazeres serão seu suplício. Essas poucas gotas de mel selvagem amargarão a taça em que ele as bebe. Envergonhar-se-á de si mesmo.

O homem que cede ao impulso da concupiscência, acha na mesma satisfação de seus desejos, a perda da razão e da memória, da vontade, da liberdade, da saúde, da formosura, da reputação, da vida; ele acha as trevas, a demência, a escravidão, as enfermidades, as dores, o remorso, o desespero, uma morte prematura e cruel, a maldição de Deus e dos homens, e, por fim, o inferno, que jamais há de apagar-se.

Essas são as consequências do reinado da concupiscência.

No inferno, diz São Cipriano, ferverão as concupiscências fritas com sua própria gordura; e, entre frigideiras ardentes, os corpos miseráveis serão queimados: In inferno, in próprio adipe frixae libidines bullient; et inter sartagines flammeas, miserabilia corpora cremabuntur (Serm. de Ascens. Dom.).

No deserto, desejaram com ânsias os manjares do Egito; e tentaram a Deus na secura. Outorgou-lhes o que pediram, e os fartou a alma: Concupierunt concupiscentiarum in deserto etc. (Exod. CV, 14-15).

Ordenaste-o, Senhor, e assim sucede: todo espírito desregrado é o castigo de si próprio, diz Santo Agostinho: Jussisti, Domini, et sic est, ut poena sibi sit omnis inordinatus animus (Confess.).

Do princípio do pecado, deriva o castigo, diz São João Crisóstomo: unde est fons peccati, illinc est plaga supplicii (Homil. ad pop.).

A concupiscência proporciona grandes méritos aos que lhe sabem resistir

Não aprovo o que faço – comenta São Paulo a respeito da concupiscência involuntária que experimentava – porque não faço o bem que quero, senão, antes, faço o mal que detesto. E neste lance, nem tanto sou eu que quem obra aquilo quanto o pecado, ou a concupiscência, que habita em mim: Quod enim operor, non intellego; non enim, quod volo, hoc ago, sed quod odi malum, illud facio. Nunc autem, iam non ego operor illud, sed quod habitat in me peccatum (Rm 7, 15­17).

A fim de que a grandeza das revelações não me ensoberbecesse, diz aquele grande Apóstolo, foi-me dado um estímulo ou aguilhão de minha carne, que é como um anjo de Satanás para que me esbofeteie. A respeito do qual, por três vezes, pedi ao Senhor que o apartasse de mim; e respondeu-me: Basta-te minha graça, porque o meu poder brilha e consegue sua finalidade por meio da fraqueza, isto é: brilha mais sustentando ao homem em meio às mais violentas tentações. Assim, é com gosto que me gloriarei de minhas fraquezas ou enfermidades; para que faça morada em mim o poder de Cristo[3].

O melhor guarda da virtude, diz São Gregório, é o sentimento da debilidade ante a desgraça e as tentações; e somente a sofremos com certa medida, a fim de que a alma fiel, que se eleva interiormente às virtudes mais sublimes, mas exteriormente está tentada, não tenha ocasião nem de desesperar-se, nem de envaidecer-se. Pelo trecho que caminhamos na via da perfeição, descobrimos o que recebemos de Deus; com nossas culpas, aprendemos de nós mesmos aquilo que somos[4].

Deus, diz São Bernardo, permite que a concupiscência viva, todavia, em nós. Aflige-nos profundamente para humilhar-nos e para que, conhecendo o que a graça nos proporciona, encontremo-nos inclinados a pedi-la sem sessar. Assim, opera Deus a nosso respeito, tratando-se de faltas ligeiras; jamais nos vemos inteiramente livre delas, para aprender que, se não podemos evitar todos os pecados veniais, não é seguramente com nossas próprias forças que evitaremos os graves; e a fim de que, sempre com vigilância e temor, ponhamos todos os nosso cuidados, toda a nossa solicitude, no poder da graça, cuja indispensável necessidade tanto conhecemos por uma contínua necessidade (Serm. in Coena Domini).

Por cuja causa, continua o Apóstolo, eu sinto satisfação e alegria em minhas enfermidades, nos ultrajes, nas necessidades, nas perseguições, nas angustias em que me vejo por amor de Cristo. Pois, quando estou débil, então com a graça sou mais forte: Propter quodplaceo mihi in infirmitatibus meis etc…; cum enim infirmo, tuncpotens sum (2 Cor 12, 10).

Vedes, diz São Bernardo, como a debilidade da carne aumenta a força do espírito e lhe dá animo e vigor? A força da carne, ao contrário, debilita o espírito. E o que haveria de admirável em que sejais mais vigorosos quando se encontra debilitado vosso inimigo mortal? Nada, a não ser que tenhais loucamente por amiga esta carne, a qual não deixa de conspirar e de rebelar-se contra o espírito[5].

Experimenta-se muita felicidade combatendo valorosamente a concupiscência

Tertuliano prova que é muito vantajoso, até para a carne, que a alma resista às suas concupiscências, a fim de que a carne também fique purificada de seus vícios. A carne, diz ele, não é inimiga nossa: quando não cedemos a seus desejos, amamo-la; porque, então, a curamos: Caro nim est inimica mostra; et quando ejus vitiis resistitur, ipsa amatur, quia ipsa curatur (Lib. de Resurrect.).

A continência e a mortificação dos sentidos, acrescenta este sério autor, é infinitamente mais doce que todas as pretendidas doçuras da concupiscência; esta mortificação refreia e cura a concupiscência que se opõe à caridade e à sabedoria. Põe ao homem no feliz estado de não viver segundo o homem terreno, e de poder dizer com o grande Apóstolo: Eu vivo, ou melhor, não sou eu quem vive, senão que Cristo vive em mim. Porque, desde que não sou eu quem vive, sou mais feliz, e quando se levanta em mim algum movimento conforme ao homem velho, e o ataco, sujeito-o em espírito à lei de Deus, e posso dizer com o mesmo Apóstolo: Estes movimentos não são meus, não me pertencem, não sou seu autor: Ubi enim non ego, jam felicius ego; et quando secundo hominem, reprobus ullus motus exurgit, cui non consentit, qui mente legi Dei servit, dicat etiam illud: Jam non ego operor illud (Ut supra).

Que felicidade encontram o espírito, o coração, a consciência e a carne em combater e em vencer a concupiscência. Então a carne está sujeita ao espírito, o espírito a Deus, e Deus abençoa o corpo e o espírito. Do corpo, Jesus Cristo faz seus membros, e o Espírito Santo seu templo; este Espírito de amor estabelece sua morada na alma, diviniza-a.

É necessário empregar energia para vencer a concupiscência

Escutai a Tertuliano: A trombeta apostólica, diz ele, anima ao combate os soldados de Cristo, fazendo ressoar em seus ouvidos as seguintes palavras: Não reine o pecado em vosso corpo mortal de modo que obedeçais a suas concupiscências: Non regnet peccatum in vestro mortali corpore, ut obediat concupiscentiis ejus (Rm 6, 12). Combatamos com valor, a fim de vencer e derrubar a nossos inimigos; e com o cuidado também de que não sejamos nós os vencidos e humilhados. Em semelhante combate, não ficar ferido significa uma vitória completa[6].

A profissão cristã, diz São Lourenço Justiniano, não consiste em fazer milagres, em anunciar o porvir, em falar com eloquência e conhecer a fundo as Sagradas Escrituras; consiste em combater e reprimir as concupiscências[7].

Os meios de vencer a concupiscência são:

1.° o temor de Deus. Senhor, transpassai minhas carnes com vosso temor, diz o Salmista: Confige timore tuo carnes meas (Sl 118, 120). Este temor saudável é uma flecha poderosa que mata os desejos da concupiscência da carne.

2.° São Paulo indica o segundo meio de alcança este fim: Marchai segundo o espírito, escreve aos Gálatas: Spiritu ambulate (Gl 5, 16). Vós vos encontrais comprometidos em uma guerra não somente contra as sugestões do demônio, diz Santo Agostinho, senão sobretudo contra vós mesmos. – Como contra nós mesmos?, dir-me-eis? – Sim, contra vossas antigas concupiscências, contra os maus hábitos que vos arrastam e vos impedem de abraçar uma vida nova. Está sendo oferecida a vós uma vida nova, e quereis ser velhos no mal. Suspensos entre a alegria que acompanha a vida do espírito e os atrativos da vida sensual, tereis que lutar em vosso interior contra vós mesmos. Porém, desde o momento em que vos desgosteis, ficareis unidos a Deus, e unidos a Deus, encontrar-vos-ei em estado de vos vencer, porque Aquele que a tudo vence está convosco.

Escutai o que diz o grande Apóstolo: Estou submetido à lei de Deus pelo espírito, e à lei do pecado pela carne. Como servis pelo espírito? Detestando vossa má vida. Como é que servis pela carne? Porque as sugestões e más paixões abundam em vós; porém unindo-vos a Deus, vencereis as rebeliões da concupiscência. Voltai-vos para Aquele que vos educa. Porém, porque, então, Ele permite este largo combate em que tendes que lutar contra vós mesmos? A fim de que compreendais que de vós vem este trabalho. Sois os autores da flagelação que sofreis; Vós vos combateis a vós mesmos. Deus se vinga daquele que se rebelou contra Ele, permitindo que o tal rebelde, não tendo querido ter paz com Deus, converta-se em uma guerra contra si mesmo: Sic vindicatur in rebelem adversus Deus, ut ipse sit sibi bellum qui pacem noluit habere cum Deo.

Que estejam vossos membros em guarda contra vossas más paixões. Levanta-se a ira? Comprimi-a, unindo-vos em espírito a Deus; se ela veio a surgir, porém, pelo menos, não encontrará armas; ela quererá lançar-se com impetuosidade, porém, não terá com que ferir, posto que a deixareis desarmada. Então, sucederá que este movimento, sem força e sem resultado, será como se não o houvesses sentido (In Psalm. LXXV). O mesmo sucederá com as demais paixões. Obedecendo ao espírito, fareis impotentes as concupiscências.

Procedei segundo o espírito de Deus, diz São Paulo, e não satisfareis os apetites da carne. Porque a carne levanta-se contra o espírito, e o espírito contra a carne, por cujo motivo não fazeis o que quereis: Caro enim concupiscit adveersus spiritum, spiritus autem adversus carnem, ut non quaecumque vultis, illa faciatis (Gl 5, 17).

As paixões, diz Santo Agostinho, não nos permitem cumprir o que quereis: não lhes permitais tampouco cumprir o que elas querem; e assim, nem vós nem elas fareis o que quereis: Concupiscentiae non permittunt cos implere quod vultis: nolite et vos eis permittere implere quod ipsae volunt; et ita nec vos nec illa facietis quod vultis.

Ainda que haja em vós concupiscências, não serão elas, portanto, vitoriosas, porque não quereis fazer o que sugerem. Porém, as boas obras do espírito com que cumprireis, não poderão ser levadas a termo senão sofrendo, combatendo e resistindo à concupiscência: é impossível acabar com elas no meio da alegria (In concupiscentia).

Levanta-se em vós a concupiscência?, questiona Santo Agostinho: Negai-lhe a obediência; não a sigais, porque é culpável, é impudica, é vergonhosa, afastar-vos-ia de Deus: Surrexit concupiscentia? Negate illi; noli eam segui: illicita est, lasciva est, turpis est, alienat te a Deo (Serm. XLV. de Temp.).

Não devemos desejar mais que uma coisa: não ter maus desejos.

3.° é preciso fugir. Fugindo, diz o Apóstolo São Pedro, da corrupção da concupiscência que há no mundo: Fugientes ejus, quae in mundo est, concupiscentiae, corruptionem (2 Pd 1, 4). Não queirais amar ao mundo, nem as coisas mundanas. Se alguém ama ao mundo, não habita nele a caridade do Pai (1 Jo 2, 15).

4.° é preciso dirigir-se a Jesus. Para vencer as paixões, quando agitam vosso coração, é preciso, diz Santo Agostinho, invocar o divino poder de Jesus: Cum fluctuat cupiditate cor tuum, ut vincas tuam cupiditatem, invoca Christi divinitate (Serm. XLV, de Temp.).

5.° é preciso esperar em Deus. Esperando no Senhor, diz o Real Profeta, não vacilarei: In Domino sperans non infirmabor (Sl 25, 1).

6.° não te deixes arrastar por tuas paixões, e refreia teus apetites, diz o Eclesiástico: Post concupiscentias tuas non eas etc. (Eclo 18, 30). A concupiscência é como uma sereia que, fazendo ouvir uma espécie de canto melodioso, efeminado e sedutor, esforça-se em atrair aos homens para devorá-los.

Rebela-se a concupiscência?, diz Santo Agostinho; rebelai-vos contra ela! Ela vos ataca? Atacai-a vós a ela! Ela volta a investir? Rechaçai-a novamente! Não vos ocupeis mais que de uma só coisa, e é a seguinte: que não seja ela vitoriosa. Rebellant? Rebella; Pugnant? Pugna; Expugnant? Expugna; Hoc solum vide ne vicant (Lib. de Contin.).

7.° quando a concupiscência vos tentar com solicitações importunas, tomai consciência de que não é vossa amiga, embora o finja ser; ela não é senão a vossa inimiga capital. E fazei aquilo que os bons soldados fazem quando o inimigo avança e eles se veem atacados.


Referências:

[1] Audi, ó anima, qualis sis: onerata es peccatis, irretita vitiis, capta illecebris, afixa membris, confixa curis, distinta negotiis, contracta timoribus, aflicta doloribus, erroribus vaga, suspicationis inquieta, sollicitudinibus anxia, advena in terra inimicorum, coinquinata cum mortuis, deputata cum iis qui in inferno sunt (Lib. de Spiritu et Anima).

[2] Manifesta sunt opera carnis: quae sunt fornicatio, inmunditia, luxuria, idolorum servitus, veneficia, inimicitiae, contentiones, aemulationes, irae, rixae, dissensiones, sectae, invidiae, homicidia, ebrietates, comesationes, et his similia, quae praedico vobis, sicut praedixi, quoniam qui talia agunt regnum Dei non consequentur (Gal. V, 19-20).

[3]  Et ne magnitudo revelationum extollat me, datus est mihi stimulus carnis meae angelus Satanae ut me colaphizet. Propter quod ter Dominum rogavi ut discederet a me; et dixit mihi: Sufficit tibi gratia mea: nam virtus in infirmitate perficitur. Libenter igitur gloriabor in infirmitatibus meis, ut inhabitet in me virtus Christi (II Cor XII, 7-9).

[4]  Optima virtutis custos est infirmitas, vel pressurarum, vel tentationum: et fit certo moderamine, ut dum quisque santorum jam quidem interius as summa rapitur, sed adhuc tentatur exterius, nec desperationis lapsum, nec elationis incurrat: sisque cognoscimus in profectu quod accepimus, in defectu quod sumus (Lib. IX, Moral., c. VI).

[5]   Vides qui carnis infirmitas robur spiritu augeat, et subministret vires? Ita, contrario est, noveris carnis fortitudinem debilitatem spiritus operari. Et quid mirum, si, hoste debilitato. Tu fortior efficeris? Nisi forte illam tibi insanissime ducas amicam, quae non cessat concupiscere adversus spiritum (Serm. in Coena Dom.).

[6] Milites christianos apostólica tuba isto sonitu accendit in praelium: Non regnet peccatum in vestro mortali corpore, ut obediatis concupiscentiis ejus. A criter dimicemus, ut hostes nostros morficicemur. In tali autem pugna, sanitas erit tota victoria (AdMari.).

[7]  Omnis disciplina christianae professionis, non in miraculis faciendis, non is futura praedicando, non in eloqui composito Scripturarumque explanation; sed in resecandis concupiscentiis commendatur (De Inter. Confl., c. VIII).