Capítulo 36: Do último fruto da última palavra
Resta o último fruto, que se colhe da consideração, da obediência, manifestada nas ultimas palavras e mesmo na morte de Cristo, pois o que o Apóstolo diz:

“Humilhou-se até morte, e morte de Cruz” (Fl 2)

Cumpriu-se principalmente, quando o Senhor, proferidas aquelas palavras

“Meu Pai, nas Tuas mãos entrego o meu espírito”

Imediatamente expirou. Será, porém conveniente ir buscar mais no seu começo o que pode e deve dizer-se da obediência de Cristo, para colhermos um fruto preciosíssimo da árvore da Santa Cruz, pois Cristo, Mestre e Senhor de todas as virtudes, prestou a seu Pai uma obediência tal, que não pode mesmo imaginar-se outra maior.

Em primeiro lugar ela começou desde o momento da Sua conceição, e durou até à Sua morte sem interrupção nenhuma, de modo que a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo foi um curso de continuada obediência, porque a Sua alma desde o instante da Sua criação foi dotada do livre arbítrio, e juntamente cheia de graça e de sapiência e assim desde aquele primeiro momento, começou a praticar aquela virtude, ainda encerrado no ventre de Sua Mãe, o que exprime naquele Salmo, em que se diz relativamente à pessoa de Cristo:

“No começo do Livro está escrito a meu respeito, que cumprisse eu a tua vontade, é essa também minha, meu Deus, e tenho a tua lei escrita dentro do meu coração”

Aquele no começo do Livro nada mais quer dizer senão a suma da divina Escritura, isto é, em toda Escritura sumariamente, e principalmente a meu respeito, se diz que fui escolhido, e enviado para fazer a vontade, e eu, meu Deus, isto quis, e do melhor grado o aceitei, e coloquei no meio do meu coração a Tua lei, o Teu mandamento, o Teu preceito, para sempre nele pensar, e para cumpri-lo com maior cuidado, e com todo o desvelo. A isto se referem também aquelas palavras do mesmo Cristo:

“A minha comida é fazer eu a vontade daquele que me enviou para concluir a sua obra” (Jo 4)

Pois, assim como o alimento não se toma uma ou duas vezes em toda a vida, mas todos os dias, e com prazer, assim também Nosso Senhor todos os dias, e gostosamente, se desvelava na obediência a seu Pai, e por isto dizia:

“Desci do Céu, não para fazer a minha vontade, mas a de quem me mandou” (Jo 6)

E mais claramente em outra parte:

“Quem me enviou, está comigo, e não me deixou só, porque eu faço sempre o que é do seu agrado” (Jo 8)

E porque a obediência é o sacrifício mais excelente de todos os sacrifícios, segundo Samuel (1Rs 15), por isso, tantos foram os sacrifícios, que Cristo, ofereceu a Deus, a quem eles eram muito agradáveis, quantos foram os atos que Ele praticou na Sua peregrinação deste mundo. É, portanto, a primeira excelência da obediência de Cristo a Sua duração desde o instante em que foi concebido, até ao fim da Sua vida.

Além disto, esta obediência não se limitava a um objeto determinado, como vemos que entre os homens acontece, mas estendia-se absolutamente a tudo quanto Deus Pai Lhe determinava, daqui vem tanta variedade no modo de viver de Cristo, umas vezes vivia no deserto sem comer nem beber, e talvez sem dormir, e habitando com as feras, como declarou São Marcos (Mc 1); outras comendo e bebendo em ajuntamentos; outras metido em casa, e calado, e isto não poucos anos; outras sobressaindo em eloquência e sabedoria e fazendo muitos milagres; outras, pondo fora do templo com grande poder os que dele estavam fazendo mercado; outras finalmente ocultando-Se, e evitando encontrar-Se com a multidão, como se fosse um imbecil, o que tudo exige uma alma que não tenha vontade nenhuma Sua. Nem o Senhor teria dito:

“Quem quiser vir após de mim, abnegue-se a si mesmo” (Mt 10)

Isto é, renuncie a sua vontade, a sua inteligência, se ele mesmo assim o não tivesse já feito; nem em outra parte, quando exortava os Seus discípulos a perfeita obediência, teria acrescentado:

“Se algum vem a mim e não aborrece seu pai e mãe, e mulher e filhos, e irmãos e irmãs, e mesmo a sua vida, não pode ser meu discípulo” (Lc 14)

Se ele se não tivesse antes divorciado de tudo aquilo, a que costuma dedicar-se grande estima, e não estivesse também resolvido a desprezar a sua alma, isto é, a sua vida tão resolutamente, como se a odiasse. É esta a verdadeira raiz, de certo modo a mãe da obediência, que brilhou admiravelmente em Cristo, Senhor Nosso, e sem a qual não pode conseguir-se a palma desta virtude na sua perfeição. Pois como poderá obedecer à vontade de outrem, quem está agarrado a sua própria vontade e determinação. É sem dúvida a causa, porque os orbes celestes não resistem ao movimento que lhes imprimem os Anjos, ou ele seja para o oriente ou para o ocidente, não terem aqueles orbes inclinação própria, para parte nenhuma; e é também o motivo porque os Anjos obedecem a um aceno, que exprima a vontade de Deus. Como no salmo canta o Santo Davi (Sl 102), não terem eles vontade nenhuma sua, que repugne a vontade de Deus, porque unidos em felicidade com Ele, com Ele são um único espírito.

Demais a obediência de Cristo não só se difunde longa e largamente, mas até quanto pela paciência e humildade profundamente se deprime, tanto pela excelência dos Seus merecimentos se exalta. É por isso terceira propriedade da obediência de Cristo ter ela descido a uma paciência e humildade incrível. Começou Cristo desde menino a mostrar uma plena obediência, a seu Pai, habitando num cárcere escuro, que Ele já sabia como era antes de nEle habitar. As outras crianças não sofrem incômodo nenhum no ventre materno, porque ainda não podem raciocinar, porém Cristo, que raciocinava, não podia deixar de horrorizar-Se de ter de viver nove meses numa prisão apertada e medonha, se a obediência a seu Pai e a Sua caridade para com os homens não tivesse feito com que, para libertar o gênero humano, Ele não tivesse horror ao ventre da Virgem, como a Igreja canta. Além disto, não Lhe foi necessária pequena paciência e humildade, para, durante toda a Sua infância, Ele, que era mais sábio que Salomão, pois nEle estavam todos os tesouros da sapiência e da ciência de Deus (Col 2), Se sujeitar aos costumes e imbecilidade das crianças. Foi, porém, sobretudo admirável a Sua moderação e modéstia, e também a Sua paciência e humildade, com que por dezoito anos, desde os doze até aos trinta, de tal modo esteve encerrado na casa paterna, em obediência a seu Pai, que foi reputado como filho de um artista, e artista também (Mc 6; Mt 13), como analfabeto, e talvez como incapaz de aprender, sendo de um saber superior ao de todos os homens e Anjos. Conseguiu depois, grande glória pela Sua pregação e milagres, que fazia, mas acompanhada de extrema pobreza, e contínuos trabalhos, chegando Ele mesmo a dizer:

“As raposas têm as suas covas, e as aves dos Céus os seus ninhos, e o Filho do homem não recline a sua cabeça” (Lc 9)

E muitas vezes Se sentou sobre uma fonte, cansado de andar, quando a pé andava correndo cidades e castelos, pregando o Reino de Deus, sendo-Lhe, todavia fácil, se lh’O não vedasse a Sua obediência filial, ter abundancia de tudo por ministério dos Anjos ou dos homens. E que direi das perseguições, dos insultos, das afrontas, dos escarros, das bofetadas, dos açoites e finalmente do suplício da Cruz? Foram tão profundas as raízes da humildade, com que sofreu tudo isto, que parece que de modo nenhum pode ser imitada.

Resta, porém ainda a prova mais incontrastável da Sua obediência; a prova mais terrível com que Cristo mostrou quão profundo ela era, e esta a deu Cristo, quando com um grande brado disse:

“Meu Pai, nas tuas mãos entrego meu espírito” (Lc 23)

E dizendo isto expirou. Parece que o Filho de Deus quis dizer a seu Pai:

Tu, meu Pai, determinaste-me que fizesse eu o sacrifício da minha vida, com a condição dela me ser restituída depois; está já próxima à ocasião de cumprir este Teu último preceito, e apesar de me ser penosíssima a separação da minha alma do meu corpo, que desde o princípio da Sua união até agora se tem conservado unidos na maior paz e afeição, e apesar de que também a morte, que veio ao mundo por inveja do Diabo, seja muito inimiga da natureza, e certamente o mais terrível sofrimento que pode haver, contudo o Teu preceito, que está profundissimamente gravado no íntimo do meu coração deve prevalecer a tudo. Estou por isso tão pronto, como mais não pode ser, a engolir a morte, e a esgotar o amargosíssimo cálice que me deste, mas, porque o Teu preceito foi com aquela condição, por isso nas Tuas mãos entrego o meu espírito, para que o mais breve possível m’o restituas.

Conseguida então de seu Pai a permissão de Se retirar, e abaixando a cabeça, em sinal de obediência, exalou o último suspiro. Deste modo a obediência venceu e triunfou; e não só conseguia em Cristo o maior prêmio que podia conseguir, pois, quem a todos se tinha abatido, e tinha obedecido a todos em obséquio a seu Pai, não só foi exaltado sobre todos e de todos feito dominador, mas até conseguiu, que todos os que imitarem a Sua obediência e humildade, subam sobre todos os Céus, sejam constituídos sobre todos os bens de seu Senhor, e participem para sempre do Seu trono e do Seu reino. Alcançou finalmente dos espíritos rebeldes, desobedientes, e soberbíssimos tão assinalados triunfos, que todos eles avista da Cruz fogem, tremendo de medo.

Neste exemplar devem por os olhos, e fazer pelo imitar todos os que aspiram à verdadeira glória, e desejam conseguir a paz e a tranquilidade da sua alma, e não só os Regulares, que fizeram voto de obediência a seus superiores que os governam em nome de Deus, mas todos os que desejam serem discípulos e irmãos de Cristo, devem diligenciar por conseguir a palma desta preclaríssima vitória, se não quiserem gemer eternamente com os soberbos demônios debaixo dos pés dos Santos, pois é absolutamente necessária a todos a obediência, que se deve aos preceitos divinos, que Deus mesmo manda que se preste aos que governam na Terra, dizendo:

“Tomai sobre vós o meu jugo” (Mt 11)

E com todos fala o Apóstolo, quando diz:

“Obedecei a vossos superiores e sede-lhes sujeitos” (Hb 13)

E a todos os Reis também determinou Samuel a obediência a Deus, dizendo-lhes:

“Porventura quer o Senhor holocaustos e vítimas antes do que obediência aos seus preceitos? Melhor a obediência do que a vítima” (1Rs 15)

E acrescenta, para mostrar a gravidade do pecado da desobediência, porque, é quase ser idolatra não querer obedecer, aos preceitos de Deus sem dúvida, e aos dos que governam em nome de Deus.

Em obséquio dos que espontaneamente se sujeitarem todos à obediência dos seus superiores, acrescentarei algumas coisas a respeito da felicíssima condição em que esta virtude os coloca, e não segundo o meu entender, mas segundo que diz o Profeta Jeremias, inspirado pelo Espírito Santo:

“Bem vai ao homem, quando ele tem levado o seu jugo desde a adolescência, sentar-se-á solitário e nada dirá, porque se elevou acima de si mesmo” (Lm 3)

Admirável felicidade e sem dúvida a que significa a expressão: Bem vai ao homem, pois como claramente se corrige das palavras que se lhe seguem, o bem neste lugar se entende pelo que é útil, honroso, agradável, pelo que produz completa felicidade, porque se alguém se habituar desde mocidade ao jugo da obediência, ver-se-á livre durante toda a vida dos apetites carnais. Santo Agostinho nas suas Confissões, livro oitavo, testifica a dificuldade que tem em sacudir o jugo da concupiscência, quem por alguns anos dela se deixou vencer; e que pelo contrário a alma, que se não deixa prender no laço dos vícios, não sente dificuldade, mas sim agrado em se sujeitar ao jugo do Senhor. Além disto, quanto se não lucra em ter em todas as nossas obras merecimento para com Deus? Pois quem nada faz por sua própria vontade, mas em obediência ao seu Prelado, em tudo quanto faz, faz a Deus um continuado sacrifício, e muito do Seu agrado, como diz Samuel:

“Melhor e a obediência do que a vítima”

E a razão no-la dá São Gregório (1):

“Porque por meio das vítimas sacrifica-se carne que não é a nossa, e por meio da obediência sacrifica-se a nossa própria vontade”

E coisa inteiramente, admirável, se o Prelado pecar no que manda, o súdito não peca; antes tem merecimento na sua obediência, não sendo conhecidamente pecado o que se lhe determinou. Acrescenta Jeremias:

“Sentar-se-á solitário, e nada dirá”

Que é sentar-se, senão estar em sossego, porque achou o descanso da sua alma? Pois quem renunciou à sua própria vontade, e se dedicou todo ao cumprimento da vontade de Deus, não tem outra ambição, mais nada pretende, em mais nada cogita, mais nada deseja: mas, livre dos inquietadores cuidados, está com Maria sentada aos pés do Senhor, ouvindo a Sua palavra (Lc 10), e na verdade sentar-se-á solitário, não só porque habita com aqueles que são um só coração e uma só alma, mas também porque a ninguém ama especial e particularmente, porém a todos em Cristo e por amor de Cristo. Por isso mesmo nada diz, porque como ninguém tem questões, nem desavenças, nem dependências de interesse próprio, e a causa deste completo descanso é ter se elevado acima de si mesmo, pois passou da hierarquia dos homens para a hierarquia dos Anjos.

Muitos são os que se abatem abaixo de si mesmos, e que passam para a classe das bestas; e são estes os que gostam só do que é terreno e que nada mais estimam senão os deleites da carne, ou que lisonjeia os sentidos; os avarentos, os luxuriosos, os que se dão a comezainas e à embriaguez. Há outros que vivem como homens, e de certo modo em si se conservam, são estes os filósofos ou físicos ou morais. Outros finalmente elevam-se sobre si mesmos grandemente auxiliados por Deus, e vivem não como homens, mas como anjos, são estes os que abandonando tudo quanto no mundo possuíam, e abnegando-se à vontade própria, podem dizer como o Apóstolo:

“A nossa conservação está nos Céus” (Fl 3)

E tornando-se émulos dos anjos em pureza e contemplação passa uma vida mais angélica do que humana, pois os anjos nunca se mancham com as impurezas pecado, e estão sempre contemplando a face do Pai, que está nos Céus, e sem de nada mais se importarem, dedicam-se todos ao cumprimento da vontade de Deus, segundo aquilo do Salmo:

“Bendizei ao Senhor, todos os seus anjos, cumprindo a Sua vontade, e atentos a ouvir as Suas determinações” (Sl 102)

É esta a felicidade da vida dos Regulares, a qual se seriamente imitar a pureza e obediência dos anjos, sem dúvida nenhuma conseguirá no Céu uma glória como a deles, principalmente se seguir as direções e lições de Cristo, que se humilhou, obedecendo até a morte, e morte de Cruz (Fl 2), e que sendo Filho de Deus, aprendeu a obediência pelas coisas que padeceu (Hb 4), isto é, por experiência própria aprendeu que a verdadeira obediência se prova pela paciência, e por isto ensinou com Seu exemplo não só na prática daquela virtude, mas também, que as bases as mais sólidas da verdadeira e perfeita obediência são a paciência e a humildade. Quem obedece ao seu superior, quando os seus preceitos são honoríficos e lisonjeiros, não dá bem a conhecer se cumpre por obediência, ou por outro algum motivo, mas, quem pronta e alegremente obedece em coisas vis e trabalhosas, esse pode estar seguro de que como verdadeiro discípulo de Cristo, sabe o que é a verdadeira e perfeita obediência.

Muito bem explica São Gregório (2) a diferença que há entre a verdadeira e fingida obediência. Diz assim:

“Porque algumas vezes se nos ordenam coisas em conformidade com o século, e outras vezes coisas, que lhe são opostas, não deve esquecer que a obediência quando tem o motivo em si mesma, é nula, e que outras, ainda que nenhum motivo tenha em si, é mínima, pois quando se determina alguma coisa mundana, quando se ordena alguma coisa, que exalte a pessoa mandada, a obediência lança fora de si a virtude, se por próprio desejo a ela fazer o que assim lhe foi determinado, porque não se dirige pelas leis da obediência, quem, para aceitar favores deste mundo, obedece aos estímulos da ambição. Quando se ordena o desprezo do Mundo, quando se mandam sofrer opróbrios e injúrias, diminui o merecimento da obediência, quem aqueles preceitos cumpram, sem que a sua alma por eles tenha um espontâneo desejo, porque constrangido e sem vontade, faz o que nesta vida é desprezível, pois não se dá perfeita obediência, quando da parte da alma não há desejo nenhum de praticar ações que o século tem na conta de opróbrios. Deve, pois a obediência não só concorrer com alguma coisa de seu no que é repugnante às nossas paixões, mas também abster-se absolutamente de assim concorrer no que possa lisonjeá-las, até o ponto de se tornar tanto mais gloriosa nas adversidades, quanto mais se conforme com o preceito divino por desejo da nossa parte, e tanto mais digna de assim se poder chamar nas prosperidades, quanto mais do íntimo da alma se desligar da lembrança da glória presente que recebe de Deus. Melhor, porém damos a conhecer o merecimento desta virtude, mencionando procedimento de indivíduos da Pátria celeste. Moisés, quando no deserto pastoreava ovelhas, foi encarregado de libertar os israelitas, falando-lhe o Senhor por meio de um Anjo (Ex 3): porém pela sua humildade receou poder desempenhar tão gloriosa missão, e respondeu:

‘Peço-vos que me atendas, Senhor, não é de ontem nem de anteontem que sou tardo da fala, e desde que falaste ao teu servo, a minha língua tornou-se mais demorada na expressão’ (Ex 4)

E recusando-se, declina a comissão por outro, dizendo:

‘Manda quem tens de mandar’

Falando com quem deu ao homem a palavra, e para não aceitar tão considerável encargo, desculpa-se por não ser expedito em falar.

Paulo tinha também sido divinamente avisado, para subir a Jerusalém, como ele diz aos Gálatas (Gl 3), e, tendo-se encontrado no caminho com o profeta Agabo, soube dele os infortúnios, que naquela cidade o esperavam, pois está escrito que o mesmo Profeta, atando os seus pés com o cinto de Paulo, disse:

‘Assim atará em Jerusalém o dono deste cinto’ (At 21)

Ao que Paulo respondeu imediatamente:

‘Estou pronto não só para ser atado, mas até para morrer em Jerusalém pelo nome de Jesus’

Dirigindo-se a Jerusalém em virtude do aviso que lhe foi avelado, já sabia das adversidades, que lá tinha de sofrer, e, com tudo, para elas caminha da melhor vontade. Ouve coisas temerosas, mas com maior desejo as busca. Por isso Moisés em nada concorre da sua parte para a prosperidade, pois se recusa ao preceito, para não ser preferido à plebe de Israel. Paulo caminha para a adversidade mesmo por seu desejo, porque conhece claramente os males iminentes, mas por sua própria dedicação ainda maiores os apetece. Aquele quis declinar de si à glória do poder, que Deus queria que ele exercesse este lhe determinando Deus trabalhos ásperos e duros, preparou-se para sofrer outros, que ainda mais o fossem. Guiados, pois, pela inabalável virtude de ambos estes chefes, somos ensinados a militarmos só em virtude de preceito nas prosperidades deste mundo, e mesmo por devoção nas suas adversidades, se deveras nos empenharmos em conseguirmos a palma da obediência.

Assim diz São Gregório e é esta a doutrina que Cristo Senhor Nosso, evidentíssimamente comprovou com o Seu exemplo, pois, sabendo que haviam de vir às turbas para O levarem, e aclamarem Rei, fugiu sem companhia nenhuma para o monte (Jo 6), sabendo que haviam de vir os Judeus com soldados e Judas, para O prenderem, e supliciarem, foi espontaneamente, em virtude da determinação, de seu Pai, encontrar-se com eles, e deixou-Se prender e manietar (Mt 26; Jo 18).

Deste modo Cristo, bom Mestre, não mostrou só por palavras, uma qualquer obediência fundada na paciência e na humildade. É este o exemplo da mais acrisolada virtude, a qual deve ter sempre diante dos olhos, quem aspira por vocação divina á palma da abnegação de si mesmo, e da imitação de Cristo.


Referências:

(1) Lib. Mor. 35. Cap. 10
(2) Lib. 35. Moral. cap. 10

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(BELARMINO, Cardeal São Roberto. As Sete Palavras de Cristo na Cruz. Antiga Livraria Chadron, Porto, 1886, p. 279-297)