Meditação para a Sexta-feira da 3ª Semana do Advento. Sua vida mortificada no seio de sua Mãe

Meditação para a Sexta-feira
da 3ª Semana do Advento

Sumário

Meditaremos a vida mortificada que teve o Verbo Encarnado, no seio de Sua Mãe; e admiraremos como neste estado mortificou:

1.° Os seus sentidos;

2.° A sua vontade;

3.° A sua liberdade.

– Tomaremos depois a resolução:

1.° De mortificar os nossos sentidos, principalmente os olhos e a língua, até mesmo nas coisas permitidas, a fim de nos acostumarmos a mortificá-los nas coisas proibidas;

2.° De viver com regra e na obediência, sem jamais ceder ao capricho.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Apóstolo:

Jesus Cristo nunca buscou a sua própria satisfação – Christus non sibi placuit (Rm 15, 3)

Meditação para o Dia

Adoremos o Verbo Encarnado no seio de Maria, sujeitando-Se nele, durante nove meses, a uma mortificação universal, e começando a vida de mártir to e de sacrifício, que deve continuar durante todo o tempo do seu trânsito na terra. Tudo nEle é mortificado, os sentidos, a vontade, a liberdade. Abençoemos este grande exemplo, que Ele nos dá, e supliquemos-Lhe a graça de nos aproveitarmos dele.

PRIMEIRO PONTO

O Verbo Encarnado no seio de Maria mortifica os Seus sentidos

Com efeito, nem os Seus olhos gozam da luz nem a Sua língua do uso da palavra, nem os Seus membros da faculdade de se mover. Passa nove meses na mais profunda obscuridade, molestado em todo o Seu corpo. As outras crianças, então privadas de razão, não sentem o incômodo desta posição; mas com uma razão perfeitamente desenvolvida, ver-se na clausura, no cativeiro e nas trevas, que cruel mortificação! Que privação universal! A estes sofrimentos dos sentidos exteriores acresciam os dos sentidos interiores, do espírito e da imaginação, que conservavam incessantemente presentes ao Seu pensamento a Sua morte tão ignominiosa como dolorosa, a perdição eterna de tantas almas que recusariam aceitar a salvação que vinha trazer-lhes, as dores futuras de Sua Mãe, os tormentos dos mártires, e as lágrimas e perseguições de todos os santos. Todas estas dores carregavam a Sua alma dum peso imenso, que Ele suportava com resignação.

Que grande coração nesse pequeno corpo! Que excesso de caridade em um Deus para com a Sua criatura! Mas também que exemplo para nós! Jesus não está um instante sem padecer por nosso amor, e nós nada queremos padecer pelo Seu serviço. Mortifica a Sua vista, e nós queremos conceder tudo à nossa; crucifica os Seus sentidos, e nós queremos lisonjeá-los; sofre extremas amarguras interiores, e nós indignamo-nos contra as nossas. Envergonhemo-nos da nossa covardia, que nada quer padecer por um Deus que tanto padeceu por nós.

SEGUNDO PONTO

O Verbo Encarnado no seio de Maria mortifica a Sua vontade

Jesus reside nove meses no seio de Maria por obediência a Seu Pai; não mede o tempo segundo os Seus desejos, mas conforma os Seus desejos com os mandatos de Seu Pai, com escrupulosa exatidão. Sabedoria encarnada, Ele tinha direito de dirigir e regular por Si mesmo as Suas ações; mas renuncia ao uso deste direito, e deixa a Sua vontade à disposição da obediência. Obedece não só aos mandatos de Seu Pai, mas aos de Maria, que O leva onde quer; aos do imperador romano, de São José, de todos aqueles a que Maria estava sujeita. E o que faz no princípio de Sua vida, o fará até ao fim (1); e depois de ter tido uma vida toda de obediência, morrerá por obediência (2).

Aprendamos daqui a nunca tomar a nossa vontade por norma do nosso procedimento e de nossas determinações; mas a não querer, como Jesus Cristo, senão o que Deus quer (3), e a querê-lo fortemente e do fundo do coração, inteiramente e sem reserva. Aprendamos daqui a regular o emprego do nosso tempo, segundo o beneplácito de Deus, a fazer cada coisa oportunamente, não dando aos negócios o tempo da oração, às diversões o tempo do trabalho, à conversação o tempo de nos calarmos.

Ó Senhor, Vós que sois Deus, renunciais a Vossa vontade, e eu, bicho da terra, quero fazer a minha: o Vosso prazer é obedecer, e eu desejo mandar. Que cegueira é a minha!

TERCEIRO PONTO

O Verbo Encarnado no seio de Maria mortifica a Sua liberdade

O Verbo Encarnado não só renuncia a Sua própria vontade, mas também privando-Se até do poder, toma todas as fraquezas da infância e sofre por escolha todas as enfermidades que as crianças sofrem por necessidade. Ele que com uma só palavra criou tudo o que existe, torna-Se mudo sem poder pronunciar uma palavra para nos ensinar a calar-nos, a não murmurar nem queixar nos nos incômodos; a não altercar com os outros, como se quiséssemos sempre prevalecer a ceder modestamente, como se nada tivéssemos que replicar; a refrear a nossa língua, quando a paixão está excitada como se dela tivéssemos perdido o uso. Ele que move tudo, não pode fazer outro movimento senão o das crianças no seio de sua mãe, para nos ensinar a conservar-nos na inação, quando as enfermidades corporais a ela nos reduzem, a reprimir os movimentos da natureza corrompida, para não obrar senão segundo os impulsos da obediência e da graça. Finalmente, Ele que, no seio de Seu Pai, é soberanamente independente, depende de Maria, pelo que respeita à sua vida, ao seu alimento, à sua conservação; não tem o ser e a vida humana senão por dependência de Maria; não tem outro alimento senão o sangue de seu coração, até que chupe o leite de seus peitos; e a sua conservação depende unicamente dela; ele não pôde defender por si mesmo o seu corpinho tão fraco, tão delicado; a menor imprudência de sua Mãe pode matá-lO.

Ó Deus, tão sujeito, tão falto de forças, tão dependente, ensinai-me a reprimir este espírito de independência, filho de minha soberba, esse mau uso da língua, que não sabe calar-se quando convêm, e esse desejo de fazer o que me apraz!

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Quae placita sunt ei, facio semper (Jo 8, 29)

(2) Factus obediens usque ad mortem (Fl 2, 8)

(3) Non mea volutnas, sed tua fiat (Lc 21, 24)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo I, p. 89-93)