Meditação para a Quinta-feira da 3ª Semana do Advento. Sua vida humilde e pobre no seio de sua Mãe

Meditação para a Quinta-feira
da 3ª Semana do Advento

Sumário

Continuaremos a meditar a vida de Jesus em Maria; e veremos que é:

1.° A vida mais humilde;

2.° A vida mais pobre.

– Tonaremos depois a resolução:

1.° De não buscar distinguir-nos e fazer-nos conhecer, e de nunca dizer nada em nosso proveito;

2.° De amar a pobreza e de empregar o nosso supérfluo em boas obras.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra da Imitação:

“É uma grande glória servir-Vos, ó meu Deus, e desprezar todas as coisas por amor de Vós” – Magna gloria tibi servire et omnia propter te contemnere (III Imitação de Cristo, 10, 50)

Meditação para o Dia

Adoremos o Verbo Encarnado reduzido no seio de Maria ao estado mais humilde e mais pobre. Agradeçamos-Lhe ter-se assim abatido para expiar a nossa soberba, assim empobrecido para corrigir o nosso amor das riquezas; e de nos ter por isto ensinado à Sua custa a humildade e a pobreza, duas virtudes tão gratas ao Seu coração, tão penosas ao nosso.

PRIMEIRO PONTO

O Verbo Encarnado no seio de Maria tem a vida mais humilde

Ele que tem o Seu trono no mais alto dos céus, abaixa-Se e restringe-Se a mais extrema pequenez do corpo duma criança no seio de sua mãe. Ao menos, no presépio, estará patente aos olhos humanos, os anjos cantarão a Sua glória, os pastores O adorarão, e os magos se prostrarão diante dEle; mas aqui tudo é oculto: é o aniquilamento (1). Daí este grito de espanto, que solta a Santa Igreja: Vós não tivestes horror ao seio da Virgem (2). Dignas primícias de Sua vida inteira, que não será senão uma série de humilhações, de desprezos e de opróbrios, e não deixará ver na Sua pessoa, ainda que Rei dos reis, senão o último e o mais humilde dos homens. Que lição para o nosso amor-próprio! Nós somos tão sensíveis quando nos desprezam, quando não pensam em nós e quando parecem abandonar-nos! A obscuridade e a vida oculta indignam tanto a nossa soberba! A estimação e o louvor deliciam tanto o nosso coração! Façam-nos, finalmente, as humilhações do Verbo Encarnado envergonhar de tais sentimentos. Quando Aquele, que é tão grande, se faz tão pequeno, fica mal a quem é tão humílimo querer fazer-se grande. Quando a luz se obscurece, quadra mal às trevas querer converter-se em luz.

SEGUNDO PONTO

O Verbo Encarnado no seio de Maria tem a vida mais pobre

Aquele que tão magnificas riquezas confiou ao céu e á terra, podia muito bem possuí-las, mas não as quis. Privou-Se de tudo encarnando, e fez-Se pobre por amor de nós (3). Ganhou afeição à pobreza, e não a achando no seio de seu Pai, velo buscá-la no seio de Sua Mãe. Ali Ele está inteiramente nu, sem até mesmo esses pobres panos em que O envolveram no presépio. Ali exulta com o pensamento de que nascerá pobre, viverá pobre, morrerá pobre, e que, ao sair do seio de Sua Mãe, não poderá, sem o auxílio de Sua criatura, nem alimentar-se, nem vestir-se, nem prover a nenhuma das necessidades da vida. Comparemos este estado do Verbo Encarnado com as nossas disposições. Jesus ama tanto a pobreza, e nos tememo-la ; buscá-la, e nós fugimos dela. Tudo falta a Jesus, e nós nada queremos que nos falte; delicados e sensíveis às menores privações, diligenciamos evitá-las, e afligimo-nos ao menor incômodo, que nos sobrevêm. O mesmo necessário não nos basta; é-nos preciso, além disto, o precioso, o luxo e a vaidade.

Ó Jesus, que consagrastes a pobreza (4), que a honrastes com à Vossa escolha, e a divinizastes na Vossa pessoa, ensinai-me a pôr em Vós só toda a minha riqueza. Fazei-me compreender que um homem é rico quando Vos possui; que, para adquirir tão grande bem, deve renunciar a tudo e a si próprio; que, ao contrário, ele é pobríssimo, quando não Vos possui, ainda que tivesse todos os bens do universo (5).

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Seme ipsum exinanivit, formam servi accipiens (Fl 2, 7)

(2) Tu… non horruisti virginis uterum (Hino Te Deum)

(3) Propter vos egenus factus est, cum esset dives, ut fillius inopia divites essetis (2 Cor 8, 9)

(4) Beati pauperes (Mt 5, 3)

(5) Pauperrimus est qui vivit sine Jesu, et ditissimus qui bene est cum Jesu (II Imitação de Cristo, 8, 2)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo I, p. 87-89)