Capítulo 20: Do primeiro fruto da quinta palavra
O Antigo Testamento explica-se a maior parte das vezes pelo Novo, porém neste mistério da sede do Senhor as palavras do Salmo 68 podem ter-se como comentário do Evangelho; pois nele não se diz claramente, se os que ofereceram vinagre ao Senhor, na Sua sede, o fizeram por obséquio, se para mais O atormentarem; isto é, se por amor, se por ódio. Nós com São Cirilo tomamos a má parte aquele oferecimento do vinagre: são, porém, tão claras as palavras do Salmo, que não carecem de explicação; e delas colheremos o fruto de aprendermos de Cristo a termos a sede que devemos ter: a sede da salvação. As palavras do profeta são as seguintes:

“Esperei por quem tomasse parte na minha tristeza; e ninguém a tomou; esperei que alguém me consolasse; e ninguém me deu consolação, na minha fome deram-me fel, e vinagre na minha sede”

Por isso os que a Cristo, Senhor Nosso, deram pouco antes de ser crucificado, vinho misturado com fel, e os que depois de crucificado, Lhe ofereceram vinagre, eram daqueles de quem Ele se queixa, dizendo: Esperei por quem tomasse parte, etc.

Mas, poderia alguém perguntar, se nem a Beatíssima Virgem, Mãe do Senhor, nem sua irmã, Maria de Cléofas, nem Maria Madalena, que com o Apóstolo São João, estavam em pé junto da Cruz, se achavam profundamente contristados, se também não tomavam parte na tristeza de Cristo aquelas mulheres, que, chorando, acompanharam o Senhor ao Calvário; se, finalmente não estavam tristes todos os Apóstolos, a quem o mesmo Cristo tinha dito antes da sua Paixão:

“O mundo se alegrará; vós, porém vos entristecereis” (Jo 16)

Estavam sem dúvida triste e bem tristes todas estas pessoas; porém não tanto, como Cristo, porque não era o mesmo o motivo da tristeza. Elas estavam tristes pela Paixão e morte do corpo de Cristo, a tristeza dEle não provinha desta causa, que só por curto espaço de tempo nEle atuou no Horto, para mostrar que era homem, pelo contrário dizia:

“Não pode ser maior o desejo que tenho de comer convosco esta Páscoa antes da minha Paixão” (Lc 22)

E em outra parte:

“Se me amásseis certamente estareis contentes, porque vou para meu Pai” (Jo 14)

Qual era então a causa da tristeza do Senhor, na qual Ele não achou quem se entristecesse como Ele? A perda das almas, pelas quais ia padecer. E qual era a causa da consolação, em que Ele não achou quem O consolasse, senão a salvação das almas, que era a sede, que O devorava? Era esta a única consolação, que Ele almejava, a única que apetecia; era esta a Sua fome, era esta a Sua sede; aquela satisfizeram-Lhe com fel, esta mitigaram-Lhe com vinagre. O amargor do fel indica os pecados, que os quais nada há mais amargoso para quem não tem o paladar estragado; o azedo do vinagre significa a obstinação do pecado e por isto com razão Cristo se entristecia, vendo que por um ladrão convertido não só ficava obstinado o outro, mas obstinados ficavam outros muitos, e que dos próprios Apóstolos quase todos se tinham escandalizado; que Pedro O negara; e que Judas tinha desesperado da sua salvação.

Se alguém, pois quiser consolar e aliviar Cristo crucificado, sofrendo fome e sede, e por isto muito triste e aflito, ofereça-se-Lhe primeiro verdadeiramente arrependido e detestando os seus pecados; e depois se entristeça muito com Ele, por ser tamanho o número das almas, que todos os dias se perdem, podendo tão facilmente salvar-se todos os homens, se quisessem aproveitar-se do preço da redenção. Era sem dúvida um dos que com Cristo se entristeciam por esta causa o Apóstolo São Paulo, dizendo na Epístola aos Romanos:

“Eu digo a verdade em Cristo, não minto, dando-me testemunho a minha consciência, no Espírito Santo, que tenho grande tristeza e contínua dor no meu coração porque eu mesmo desejara ser anátema de Cristo por amor de meus irmãos, que são do mesmo sangue que eu, segundo a carne, que são os Israelitas, dos quais é a adoção dos filhos, etc.” (Rm 9)

Não podia ele expressar melhor o seu desejo da salvação das almas do que se servindo da exageração— desejava ser anátema por Cristo. — Segundo São João Crisóstomo no seu livro da compunção do coração (1) e na Epístola aos Romanos, quer o Apóstolo dizer, que era tamanha a sua tristeza pela condenação dos Judeus, que se fosse possível, desejaria ele separar-se de Cristo por amor de Cristo; não desejando, porém separar-se do amor de Cristo, a respeito do qual pouco antes tinha dito:

“Quem nos separará do amor de Cristo?” (Rm 8)

Mas sim da Glória de Cristo, querendo antes ser privado da gloria do Céu, do que ser Cristo privado de tão grande fruto da sua Paixão, quanto era o da conversão de muitos mil Judeus, se ela se realizasse. Este com certeza se entristecia com Cristo, e Lhe consolava a sua mágoa, mas poucos são hoje os que o imitem, pois não são poucos os pastores de almas, que mais se entristecem pela diminuição ou acabamento dos rendimentos das suas Igrejas, do que pelo muito número de almas, que se perca, ou por eles abandonarem o seu rebanho ou pelo pouco cuidado com que dele tratam.

«Menos nos incomoda, diz São Bernardo falando dos Bispos (2), o prejuízo de Cristo, do que o nosso. Todos os dias tratamos de averiguar com toda a miudeza as despesas diárias, e ignoramos as contínuas perdas do rebanho do Senhor»

Não cuide o prelado, que satisfaz à sua obrigação só por viver piamente, e por fazer diligências em seguir, como particular, as virtudes de Cristo, sem tornar piedosos também os seus súditos, ou, melhor, seus filhos, e sem os guiar pelos vestígios de Cristo para a vida eterna, por isso, se quer sofrer com Ele, com Ele entristecer-se, e consolá-lO na sua mágoa, vigie assiduamente sobre o seu rebanho, não desampare as suas ovelhinhas; dirija-as com a palavra; e caminhe adiante delas como exemplo.

Dos particulares pode também Cristo queixar-se com razão, por eles se não contristarem, nem Lhe darem lenitivo à sua pena; e, se na Cruz Ele se queixava justamente na perfídia e obstinação dos Judeus, que Ele estava vendo, que desprezavam tantos trabalhos seus e tantos martírios, e que, com frenéticos, rejeitavam o tão precioso remédio do seu sangue; quanto se não poderá Ele queixar agora, vendo, não na Cruz, mas no Céu, que os seus crentes, ou que se fingem sê-lo, nenhum caso fazem da sua Paixão, calcam o seu sagrado sangue, e que nada, mais Lhe oferecem senão fel e vinagre, isto é, que, sem considerarem no julgamento de Deus, e sem temor das penas eternas, multiplicam os seus pecados? Há festa no Céu, quando um pecador se arrepende (Lc 15), mas, se pouco depois o que pela fé e batismo parecia nascido em Cristo, e que pela penitência parecia ter voltado da vida à morte, torna a morrer, pecando, não se converte a alegria em tristeza, o leite em fel, o vinho em vinagre? Sem dúvida a mulher, que no parto se vê angustiada, esquece-se logo da aflição que sofreu, se o menino veio vivo, porque nasceu um homem ao mundo (Jo 16), mas, se ele nasceu morto, ou morreu pouco depois de nascer, não será dobrada a sua dor? Assim também muitos passam o trabalho de confessarem os seus pecados, e talvez de jejuarem e darem esmolas; mas porque por uma consciência errônea ou ignorância, que não tem desculpa, não conseguiram o perdão dos seus pecados, não sofrem eles também neste parto, e não se reduz ele a um aborto, e não é duplicada a pena que assim causam a si mesmos e aos seus pastores? São estes homens semelhantes ao enfermo, que morre mais depressa, por ter tomado um medicamento amargosíssimo, com que esperava curar-se; ou ao lavrador, que depois de muito trabalhar na cultura da vinha, ou do campo, perde toda a produção, fruto da sua fadiga, porque o destruiu uma saraivada, que se não esperava. Bem lástima com razão merece isto; e quem o lastima, e se entristece esse se contrista com Cristo na Cruz: e quando para evitá-lo, faz quanto pode, esse suaviza admiravelmente os sofrimentos de Cristo crucificado, e compartilhará da sua alegria no Céu, e lá reinará com Ele.


Referências:

(1) Liv. 8, hom. 18
(2) Liv. 4 de Consid., cap. 9

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(BELARMINO, Cardeal São Roberto. As Sete Palavras de Cristo na Cruz. Antiga Livraria Chadron, Porto, 1886, p. 171-178)