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Do quarto fruto da quinta palavra

Capítulo 23: Do quarto fruto da quinta palavra
Resta ainda um fruto, e docíssimo, para colher da palavra: Tenho sede. Santo Agostinho, explanando o Salmo 68, diz, relativamente a esta palavra, que ela mostrara não só o desejo de bebida corporal, mas também o ardente desejo de Cristo pela conversão e salvação dos Seus inimigos, nós, porém, pela ocasião que nos oferece a explanação de Santo Agostinho, podemos subir mais alto e dizer que a sede de Cristo era a sede da glória de Deus e da salvação dos homens; e que a nossa deve ser da glória de Deus, da honra de Cristo, da nossa salvação e da salvação do nosso próximo. Que Cristo teve sede da glória de seu Pai e da salvação das almas, não pode duvidar-se, pois isto o diz, clamando, todas as Suas obras, todas as Suas pregações, todos os martírios que sofreu, todos os Seus milagres. Devemos pensar de preferência a tudo, para não sermos ingratos a tamanho benefício, sobre o modo porque possamos de tal sorte inflamar-nos, que tenhamos verdadeira sede da honra de Deus, que amou os homens até sacrificar por eles o seu Unigênito (Jo 3); e termo-lO, juntamente e do mesmo modo da glória de Cristo, que nos amou e Se entregou a Si, mesmo por nós, oferenda e hóstia a Deus em perfume de suavidade (Ef 5), e para também nos compadecermos dos nossos irmãos de sorte que tenhamos ardentíssima sede da sua salvação. Continue reading

Do segundo fruto da quinta palavra

Capítulo 21: Do segundo fruto da quinta palavra
Ocorre-me outra consideração, e não de pequena utilidade, quando medito na sede de Cristo crucificado. Parece-me, pois que o Senhor disse: Tenho sede, no mesmo sentido em que disse à samaritana: Dá-me de beber; porque pouco depois, explicando o mistério do que lhe dissera, acrescentou:

“Se conhecesses o dom de Deus, e quem é que te pede, que lhe dês de beber, talvez tu lhe pedisses, que te desse água viva”

Como poderá, porém ter sede, quem é fonte de água viva? Não falava Cristo de si, quando no Evangelho: Se alguém tem sede, venha a mim e beba? (Jo 7) e não é Ele mesmo aquela pedra, de que fala o Apóstolo aos Coríntios (1Cor 10): Bebiam da pedra, que os seguia, e a pedra era Cristo? Não é Ele aquele mesmo que diz aos Judeus por Jeremias (Jer 2): Abandonaram-me, sendo eu a fonte d’água viva; e para si cavarem cisternas, cisternas rotas, que não podem conter a água. Parece-me, pois que estou vendo Cristo na Cruz, como numa elevada atalaia, vendo todo o mundo cheio de gente sequiosa, e desfalecida pela sede, e que o mesmo Senhor, compadecido, quando sofria a Sua sede corporal, daquela sede geral do gênero humano, gritara: Tenho sede, isto é, estou sem dúvida sequioso, porque se esgotou já o humor do meu corpo: esta sede, porém breve terminará, mas a minha maior sede é de que os homens conheçam pela fé que eu sou a verdadeira fonte de água viva, e de que venham a mim e bebam, e não tornem a ter mais sede. Continue reading

Do primeiro fruto da quinta palavra

Capítulo 20: Do primeiro fruto da quinta palavra
O Antigo Testamento explica-se a maior parte das vezes pelo Novo, porém neste mistério da sede do Senhor as palavras do Salmo 68 podem ter-se como comentário do Evangelho; pois nele não se diz claramente, se os que ofereceram vinagre ao Senhor, na Sua sede, o fizeram por obséquio, se para mais O atormentarem; isto é, se por amor, se por ódio. Nós com São Cirilo tomamos a má parte aquele oferecimento do vinagre: são, porém, tão claras as palavras do Salmo, que não carecem de explicação; e delas colheremos o fruto de aprendermos de Cristo a termos a sede que devemos ter: a sede da salvação. As palavras do profeta são as seguintes:

“Esperei por quem tomasse parte na minha tristeza; e ninguém a tomou; esperei que alguém me consolasse; e ninguém me deu consolação, na minha fome deram-me fel, e vinagre na minha sede”

Por isso os que a Cristo, Senhor Nosso, deram pouco antes de ser crucificado, vinho misturado com fel, e os que depois de crucificado, Lhe ofereceram vinagre, eram daqueles de quem Ele se queixa, dizendo: Esperei por quem tomasse parte, etc. Continue reading

“Tenho sede”

Capítulo 19: "Tenho sede"

Explica-se literalmente a quinta palavra

Segue-se a quinta palavra mencionada por São João, e para inteligência da qual é preciso acrescentar as outras, pelas quais se exprime o Evangelista, assim os antecedentes como as consequentes. Diz São João:

“Depois sabendo Jesus, que tudo estava comprido, disse, para se cumprir uma palavra, que ainda restava da Escritura — Tenho sede — Tinha-se ali posto um vaso, cheio vinagre, e eles, molhando nele uma esponja, que depois pulverizaram com hissopo, chegaram-lhe à boca” (Jo 19)

Estas palavras querem dizer o seguinte: Nosso Senhor quis cumprir tudo o que da Sua vida e morte tinham antecipadamente sabido e predito os profetas inspirados pelo Espírito Santo; e porque estando cumprido tudo o mais só restava, estando sequioso, beber o vinagre, segundo o versículo do Salmo 68: Tendo eu sede, deram-me a beber vinagre, disse claramente, Tenho sede; e os que ali estavam, chegaram-Lhe à boca uma esponja ensopada em vinagre, e posta numa cana. Nosso Senhor disse: Tenho sede, para se cumprir a Escritura. Continue reading

Da sede de Jesus sobre a Cruz

"Tenho sede" - Paixão de Cristo

Capítulo XXXIV

Sitio – “Tenho sede” (Jo 19, 29)

Avizinhava-se o nosso divino Salvador do seu ultimo momento; breve estava a cumprir a obra da nossa redenção, morrendo por nós na cruz, quando sentindo-se interiormente abrasado dos ardores de uma sede violenta causados pelas dores extremas que sofria há vinte horas, exclamou:

“Tenho sede”

Pois como! Senhor, então a sede causa-vos mais dores que a cruz? Uma arranca-vos suspiros, da outra nem sequer falais. Que sede pois é essa que tanto vos atormenta! Ah! Bem vos entendo; é o ardente desejo que tendes da minha salvação, do meu adiantamento espiritual. Dizeis-me com todo o afeto:

“Meu filho, tenho sede do teu amor; vem, vem aliviar-me”

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