Capítulo 25: Do primeiro fruto da sexta palavra
Bastantes são os frutos que da sexta palavra pode colher quem atentamente considerar a sua fecundidade; e em primeiro lugar do: Tudo está consumado, que dissemos que se deve entender do cumprimento dos vaticínios, deduz Santo Agostinho (1) uma utilíssima prova. Pois, assim como temos a certeza, pelo que sabemos, que se realizou, que foi verdade o que os profetas predisseram tanto tempo antes, também, não devemos duvidar de que há de realizar-se o que os mesmos profetas predisseram que há de acontecer, posto que isso ainda não aconteceu; pois; que os profetas não o disseram por si mesmos mas inspirados pelo Espírito Santo (2 Pd 1); e, porque o Espírito Santo é Deus, e Deus de modo nenhum se pode enganar nem faltar à verdade, devemos com toda a certeza acreditar que sem falta nenhuma se há de cumprir que está profetizado, e que ainda se não realizou.

«Assim como até hoje tudo, se verificou, diz Santo Agostinho, também se há de verificar o que resta: temamos o dia do juízo: há de vir o Senhor; o que veio humilde virá exaltado»

Pois nós temos argumentos de mais força do que os antigos tiveram para não vacilarmos em acreditar no que há de acontecer: os que existiram antes da vinda de Cristo, eram obrigados a acreditar muitas coisas sem terem visto a realização de nenhuma; nós, pelo que já sabemos que se realizou, sem violência nenhuma podemos crer que há de verificar-se o que resta das profecias. Os que no tempo de Noé ouviam dizer que, estava para vir um dilúvio universal, anunciando-o Noé profeta do Senhor, não só por palavra, mas também pelo grande trabalho com que desveladamente construía a Arca, não se inclinavam a acreditá-lo, porque não tinham ainda presenciado um dilúvio como aquele foi; e por isso a ira do Senhor caiu repentinamente sobre eles. Nós, porém, que sabemos que houve aquele dilúvio, porque havemos de duvidar que tenha de haver um de fogo que há de consumir tudo aquilo que presentemente tanto estimamos? E, apesar disto, poucos são aqueles que tal creia, de modo que deixem de apetecer os gozos transitórios e se desvelem pelo conseguimento dos verdadeiros e sempiternos júbilos.

Isto, porém foi predito mesmo pelo Senhor, para não terem desculpa os que, depois do cumprimento do que já se realizou, ainda tem dúvida em acreditar que há de realizar-se o que as profecias dizem que há de acontecer:

“Assim como foi nos dias de Noé, assim será também a vinda do Filho do Homem; porque, assim como nos dias antes do dilúvio estavam comendo e bebendo, casando-se, e dando-se em casamento até o dia em que Noé entrou na Arca, e não o entenderam enquanto não veio o dilúvio e os levou a todos; assim será também a vinda do Filho do Homem. Velai, pois, porque não sabeis a que hora há de vir o Filho do Homem, diz o Senhor” (Mt 24)

E o Apóstolo São Pedro:

“Virá, pois, como ladrão, o dia do Senhor, no qual passarão os Céus com grande ímpeto, e os elementos com o calor se dissolverão e a terra se abrasará com todas as obras que há nela” (2Pd 3)

Isso está longe, dizem alguns. Seja assim, esteja longe se longe está, mas não está longe a tua morte e é incerta a sua hora; e não há dúvida de que no juízo particular, que não está longe, se há de dar conta das palavras ociosas (Mt 12): e se destas tem de se dar conta, qual não será ela das prejudiciais, das blasfêmias, que muitos proferem tão vastas? E se das palavras se há de tirar conta, que conta não será a das ações? Dos furtos, dos adultérios, das fraudes no comprar e no vender, dos homicídios, dos incêndios e de outros pecados mais graves ainda? Por isso as predições tornar-nos-ão indesculpáveis, se não acreditarmos com toda a certeza que há de sem dúvida nenhuma realizar-se o que ainda resta para se cumprir; e não é bastante o acreditar, se não tivermos uma fé que nos dê a eficácia precisa para praticarmos ou evitarmos o que ela nos ensina que se deve fazer ou omitir. Se a um arquiteto, que, avisar os moradores de uma casa de que ela está ameaçando ruína, eles disserem que acreditam o que ele lhes disse, mas não saírem abandonando a casa, e se deixarem esmagar no seu desabamento; que se julgará do crédito que eles diziam que davam ao arquiteto? O mesmo que o Apóstolo diz de outros assim:

“Confessam que conhecem Deus, mas negam-no com as obras” (Tt 1)

E que diremos do doente que, entendendo que o médico lhe proibiu com razão o vinho por entender que ele lhe é nocivo, o exige e se encoleriza, por lh’o não darem? Diremos sem dúvida que o doente ou está delirado ou não tem fé no médico. Oxalá que não houvesse muitos cristãos, que dizem que acreditam no julgamento de Deus e noutros pontos de crença; e que pelo modo por que procedem, mostram o contrário.


Referências:

(1) In Psalm 76

Voltar para o Índice de As Sete Palavras de Cristo na Cruz, de São Roberto Belarmino

(BELARMINO, Cardeal São Roberto. As Sete Palavras de Cristo na Cruz. Antiga Livraria Chadron, Porto, 1886, p. 220-225)