Capítulo 27: Do terceiro fruto da sexta palavra
Além daqueles frutos, há um terceiro que podemos colher da sexta palavra; aprendermos a oferecer nós mesmos, como sacerdotes espirituais, espirituais sacrifícios, como diz São Pedro (1Pd 2); ou como o Apóstolo São Paulo nos ensina (Rm 12) a oferecermos os nossos corpos como uma hóstia viva, santa, agradável a Deus; que é o culto racional que Lhe devemos. Pois se aquelas expressões: Tudo está consumado, significa que se concluiu na cruz o sacrifício do Sumo Sacerdote; justo é que os discípulos do Crucificado, desejando imitar o seu Mestre, ofereçam também a Deus sacrifício do modo porque podem, isto é, segundo o seu pouco e a sua pobreza. Ensina-nos o Apóstolo São Pedro que todos os cristãos são sacerdotes, não propriamente ditos, como os que são ordenados pelos bispos na Igreja Católica, para oferecerem o sacrifício do Corpo de Cristo; mas sacerdotes espirituais, isto é, como ele mesmo declara, para oferecerem sacrifícios espirituais, não vítimas propriamente ditas, como eram no Antigo Testamento, ovelhas, bois, rolas e pombas, e no Novo o Corpo de Cristo na Eucaristia; porém vítimas místicas que todos podem oferecer, como orações, louvores e boas obras, jejuns e esmolas, das quais diz o Apóstolo São Paulo:

“Ofereçamos, pois por ele a Deus, sem cessar, sacrifícios de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” (Hb 13)

O mesmo Apóstolo na Epístola aos romanos (Rm 12) muito desveladamente nos ensina a oferecermos a Deus o sacrifício místico dos nossos corpos à semelhança dos antigos sacrifícios da antiga lei. Eram quatro os requisitos dos sacrifícios: o primeiro haver vítima, isto é, coisa consagrada a Deus, à qual era vedado converter em uso profano; segundo ser coisa viva como ovelha, cabra, novilho; terceiro ser santa, isto é, pura, porque entre os hebreus havia animais puros e impuros, eram puros ovelhas, bois, cabras, rolas, pardais e pombas; quarto ser a vítima queimada e exalar cheiro de suavidade. Todos estes requisitos enumera o Apóstolo, quando diz:

“Rogo-vos ofereçais os vossos corpos como hóstia viva, santa, agradável a Deus, e acrescenta: que é o culto racional que lhe deveis”

Para disto entendermos que ele  não nos exorta ao sacrifício propriamente dito, como querendo que os nossos corpos sejam como os das ovelhas sacrificados, mortos e queimados, mas sim ao sacrifício místico e racional, assemelhado e não tal, sacrifício do espírito e não do corpo. Exorta-nos, pois o Apóstolo a que, assim como Cristo na cruz ofereceu para nosso bem o sacrifício do Seu corpo por meio da morte, também nós ofereçamos em Sua honra os nossos corpos como vítima, e esta viva, santa e perfeita e por isto bem do agrado de Deus, a qual de certo modo seja espiritualmente sacrificada e queimada.

Expliquemos por sua ordem cada uma destas condições:

Em primeiro lugar devem os nossos corpos ser hóstias, isto é, coisas consagradas a Deus, das quais devemos servir-nos para honrar a Deus, não como de coisas que são nossas, mas que são dEle, pois Lhe fomos consagrados pelo batismo, e Ele nos comprou por grande preço, como diz o mesmo Apóstolo aos Coríntios (1Cor 6); e nem só devemos ser hóstia viva de Deus, mas sim hóstia, que viva a vida da graça e do Espírito Santo, pois os que estão mortos pelo pecado, não são hóstias de Deus, mas do Diabo, que mortifica as almas, e nisto se deleita admiravelmente. O nosso bom Deus, que sempre vive, e é a fonte da vida, não quer sacrifícios de cadáveres fétidos e que para mais nada prestam senão para ser lançado às feras. É por isso necessário haver o maior cuidado, em conservarmos a vida da alma, para assim oferecermos a Deus o culto racional que lhe devemos.

Não é também só bastante, que a hóstia seja viva é preciso que, além disto, seja santa: Hóstia viva e santa diz o Apóstolo. Santa se diz ela, quando é de animais puros. Eram puros dentre os quadrúpedes, como dissemos acima, ovelhas, cabras e bois, das aves, rolas, pardais e pombas: os primeiros significam a vida ativa, os segundos a contemplativa; por isso os que entre os fiéis passam vida ativa, se querem oferecer-se a Deus em hóstia santa, devem imitar a inocência e mansidão da ovelha, que não sabe o que é prejudicar o próximo; devem imitar também o trabalho e a constância do boi, que não passa a vida ociosa, andando duma para outra parte, mas, trazendo o seu jugo, move o arado, servindo à agricultura; devem finalmente imitar a velocidade da cabra em subir aos montes, e a agudeza da sua vista em descobrir os objetos distantes, pois os que na Igreja de Deus passam vida ativa, não se devem contentar só com a mansidão e boas obras, mas deve também por freqüentes orações subir ao alto, e ver mentalmente o que está acima. Como os modelarão as suas obras pela glória de Deus, e farão subir ao alto o incenso do sacrifício, se nunca, ou raras vezes, pensarem em Deus; se se não abrasarem no Seu amor por meio da contemplação? Pois não deve a vida ativa dos cristãos ser absolutamente separada da contemplativa, nem esta daquela, como depois dirá. Assim os que não imitam as ovelhas, os bois e as cabras, que a seu dono servem contínua e utilmente, mas procuram o que é seu, isto é, andam procurando só as comodidades temporais, esses não oferecem a Deus uma hóstia santa, porém é semelhante às feras arrebatadoras e carnívoras, aos lobos, aos cães, aos ursos, aos milhafres, aos abutres, aos corvos, que só tratam de satisfazer à barriga, o seguem o leão, que rugindo, anda sempre procurando preza que possa devorar (1Pd 5).

Além disto os cristãos, que escolheram a vida contemplativa e desejam oferecer-se a Deus, como hóstia viva e santa, devem imitar a solidão da rola, a pureza da pomba, e a prudência do pardal. A solidão da rola pertence mais aos monges e eremitas, que se dedicam todos à contemplação e louvores de Deus, sem nada se importarem com as coisas do século. À pureza da pomba, unida com a sua fecundidade é necessária aos bispos e clérigos, que convivem com os homens e devem gerar e criar filhos espirituais segundo a sua própria obrigação, se, porém não voarem repetidas vezes, e contemplativamente à pátria celeste a não descerem pela caridade a valer às necessidades do próximo, mal poderá reunir a pureza com a fecundidade, porque, dados só à contemplação, hão de ser estéreis; só à citação de filhos hão de manchar-se com o pó da terra, e querendo ganhar os outros, talvez eles mesmos (o que Deus não permita) se perderão. A uns e outros, pois, assim aos que se dão à vida ativa, como aos que à contemplativa se dedicam, pode sem dúvida aproveitar muito a prudência do pardal. Há pardais do monte e pardais domésticos. Os do monte escapam-se com incrível sagacidade dos laços e redes dos caçadores; os domésticos habitam nas cidades, fazem os seus ninhos nos telhados das casas, porém convivem com o homem de maneira que não se familiarizam com ele, nem facilmente se deixam apanhar. Por isso aí todos os cristãos, mas especialmente aos clérigos e monges, é necessária a prudência dos pardais, para se acautelarem aos laços do demônio, para viverem com os homens em proveito destes, evitando, porém a sua convivência, especialmente a das mulheres, fugindo de conversações, não tomando parte em comezanas, e não aparecendo em divertimentos nem em espetáculos, senão quiserem ser apanhados nos laços com que os demônios caçam as almas.

Resta à última condição dos sacrifícios, que a vitima seja não só viva e santa, mas, além disto, bem agradável, isto é, que ao alto envie cheiro suavíssimo, o que a Escritura quer significar na passagem:

“Sentiu o Senhor o cheiro de suavidade” (Gn 8)

E quando a respeito mesmo do Senhor diz:

“Entregou-se a si mesmo como oferenda e hóstia a Deus em cheiro de suavidade” (Ef 5)

Para que, porém, a vítima exale cheiro agradabilíssimo a Deus, é necessário que seja sacrificada e queimada, Isto se faz no sacrifício místico e racional, do qual dizemos com o Apóstolo, quando a concupiscência carnal é verdadeiramente mortificada, e queimada no fogo da caridade, pois não há nada, que mais eficaz, breve e completamente, reprima a concupiscência da carne, do que o sincero amor de Deus, porque é ele o Rei e Senhor de todos os afetos do coração; todos por ele são regidos, dele depende todo o temor, a esperança, o desejo, o ódio, a ira, ou qualquer outra paixão violenta da alma. Ora o amor não cede senão a outro amor mais forte; e por isso, quando o amor divino se assenhoria com toda a sua força do coração humano, e o incendeia, a concupiscência da carne cede, e, reprimida, perde toda a sua ação; depois se erguem a Deus desejos ardentes, e preces puríssimas, como aromas, em perfume de suavidade. É este o sacrifício que Deus nos exige, e a cujo prontíssimo cumprimento o Apóstolo nos exorta, mas, porque esta oblação é árdua, pesada e dificultosíssima, como mais não pode ser por isso o Apóstolo São Paulo emprega, para vo-la persuadir, um eficacíssimo argumento daquelas palavras:

“Rogo-vos pela misericórdia de Deus, que ofereçais os vossos corpos, etc.” (Rm 12)

No Códice grego lê-se no plural: Rogo-vos pelas misericórdias de Deus; e quais e quantas são as misericórdias de Deus, pelas quais o Apóstolo nos pede?

A primeira é a criação, pela qual fez que nós fossemos alguma coisa, quando nada éramos.

A segunda é ter-nos feito Seus servos, não precisando de nós para coisa nenhuma, mas, para ter, a quem fizesse benefícios.

A terceira é ter-nos feito à Sua imagem, e por isso dotados da capacidade de o podermos conhecer e amar.

A quarta é ter-nos feito por Cristo seus filhos adotivos, e co-herdeiros do Unigênito.

A quinta é ter-nos feito membros da sua Esposa e do seu corpo, do qual Ele é cabeça.

A sexta, finalmente, é ter-Se oferecido na Cruz em oblação e hóstia a Deus em perfume de suavidade, para nos remir da escravidão e lavar das máculas, e tornar gloriosa a sua Igreja sem mancha nem ruga.

São estas as misericórdias do Senhor, pelas quais o Apóstolo nos pede e roga como se dissesse:

«Tantos benefícios vos fez o Senhor, sem vós os merecerdes, e sem lh’os pedirdes, porque vos deverá então parecer custoso oferecerdes-lhe uma hóstia viva, santa, e bem do seu agrado?»

Sem dúvida, se alguém sobre isto quiser meditar atentamente, não só lhe não parecerá pesado, mas até leve, fácil, agradável, e suave, servir a tão bom Senhor de todo o coração, e por toda a vida, e, imitando o Seu exemplo, ofereceres-Lhe todo em hóstia e oblação, e por isso holocausto em cheiro de suavidade.


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(BELARMINO, Cardeal São Roberto. As Sete Palavras de Cristo na Cruz. Antiga Livraria Chadron, Porto, 1886, p. 228-237)