Capítulo 16: Do terceiro fruto da quarta palavra
Quando o Senhor na Cruz disse bradando: Meu Pai, porque me abandonaste, não o disse por ignorar a razão por que seu Pai o abandonou. Como poderia, pois ignorá-lo Àquele, que tudo sabe? E nesta conformidade respondeu o Apóstolo Pedro ao Senhor, quando este lhe perguntou se ele O amava:

“Senhor, tu bem sabes, bem conheces que te amo” (Jo 21)

E o Apóstolo Paulo falando de Cristo, diz (Col 2): “Em que se acham todos os tesouros da sabedoria e da ciência”, por isso não fez aquela pergunta, para saber; mas a fim de nos exortar a perguntarmos, para das respostas ficarmos sabendo muitas coisas que nos são úteis, e mesmo necessárias. Mas porque abandonou Deus seu Filho na Sua tribulação e no sofrimento das dores atrocíssimas? Ocorrem-me cinco motivos que vou expor, para dar, aos sábios ocasião de fazerem melhores e mais úteis indagações.

O primeiro me parece ser a grandeza e número das ofensas do gênero humano contra Deus, às quais seu Filho se encarregou de expiar à custa do seu sofrimento. O qual foi o mesmo que levou os nossos pecados em Seu corpo sobre o madeiro, para que mortos para os pecados vivam para a justiça, por cujas chagas fostes vós curados, diz São Pedro (1Pd 2). A grandeza da ofensa, que Cristo tomou ao Se aniquilar na Cruz, é na verdade de algum modo infinita, em razão da pessoa infinita, da infinita dignidade, da infinita excelência, que foi ofendida; mas também a pessoa do satisfaciente, que o Filho de Deus, é de infinita dignidade e excelência; e por isso qualquer pena a que Ele espontaneamente se sujeitasse, ainda que fosse só o derramamento de uma gota de sangue, seria bastante para expiação. Isto não admite dúvida, mas para que a redenção fosse copiosa, e porque não era só uma ofensa, mas eram quase inumeráveis, e porque o Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo, não se incumbiu só de expiar o primeiro pecado de Adão, mas o pecado de todos os homens foi da vontade de Deus que seu Filho sofresse penas inumeráveis e atrocíssimas e é isto o que quer dizer aquele abandono, a respeito do qual o filho diz a seu Pai:

“Porque me abandonaste?”

O segundo motivo foi a multidão e grandeza das penas do inferno, às quais o Filho de Deus, para que nós pudéssemos conhecê-las, quis apagar com tão forte aguaceiro dos Seus tormentos. A intensidade do fogo do inferno mostra-a o profeta Isaías, dizendo que é absolutamente intolerável, pois se expressa assim:

“Quem de vós poderá habitar com o fogo devorador? Quem habitará com as sempiternas chamas?” (Is 33)

Graças por isso demos de todo o coração a Deus, que quis abandonar o seu Unigênito nos mais cruéis martírios, para nos livrar dos ardores sempiternos. Graças demos também, e do íntimo dos nossos corações, ao Cordeiro de Deus, que antes quis ser de Deus abandonado, debaixo do cutelo degolador, do que abandonar-nos Ele aos dentes da besta infernal, que sempre rói e nunca se farta de roer.

O terceiro motivo é a grandeza do preço da graça divina, que é aquela pedra preciosa (Mt 13), que Cristo, negociante sapientíssimo, vendendo tudo quanto tinha, comprou para no-la dar. A graça de Deus, que nos tinha sido dada em Adão, e que pelo pecado de Adão nós perdemos, era uma pedra preciosa de tanto valor, que nos adereçava de um modo admirável, tornando-nos agradabilíssimos a Deus, e sendo o penhor da eterna felicidade. Esta pedra preciosa que era toda a nossa riqueza, e que a astúcia da serpente nos roubou, ninguém a podia reaver senão o Filho de Deus, que com a Sua sabedoria venceu a malícia do Diabo, mas com gravíssimo incômodo seu, expondo-Se a muitos trabalhos e a muitos sofrimentos; venceu-a a piedade do Filho, que Se sujeitou a uma jornada custosíssima e a uma enfadonhíssima peregrinação, para nos recuperar aquela pedra preciosa.

O quarto motivo foi à grandeza eminentíssima do reino dos Céus, cujas portas nos abriram à custa de imensos trabalhos e sofrimentos por que passou o Filho de Deus, de quem a Igreja canta com o maior reconhecimento:

“Tu, desarmando a morte, abriste aos crentes o reino dos Céus”

E para vencer o império da morte, foi-lhe preciso lutar com ela em renhidíssimo combate, no qual seu Pai não O socorreu, para que o Seu triunfo fosse mais glorioso.

O quinto motivo foi o grande amor que o Filho tinha a seu Pai, pois desejava que a redenção do mundo, e aniquilação do pecado, ficasse copiosíssima e superabundantíssimamente satisfeita à honra do Pai Eterno; e isto não podia realizar-se não abandonando o Pai seu Filho, isto é, sem consentir que Ele sofresse todos os tormentos que o Diabo pode excogitar e de que o homem pode ser vítima.

Se alguém perguntar por que abandonou Deus seu Filho, quando cravado na Cruz, estava sofrendo os tormentos mais atrozes, poderá responder-se-lhe que assim fez para se patentear a grandeza do pecado, a das penas do inferno, a da graça divina, a da vida eterna, e a do amor do Filho de Deus a seu Pai. Daqui se resolve também outra questão (1); porque quis Deus misturar no cálice dos sofrimentos de muitos mártires grande quantidade de consolações espirituais de modo que eles antes queriam aquele cálice com aquela mistura de consolações do que prescindir do cálice sem elas; e permitiu que seu queridíssimo Filho, sem consolação alguma esgotasse o Seu amargosíssimo cálice até às fezes por assim dizer: pois a razão disto é que nos Santos Mártires não se dava nenhum daqueles motivos que enumeramos na paixão de Cristo.


Referências:

(1) Vide Rufinum, Hist. Ecles. Cap. 36

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(BELARMINO, Cardeal São Roberto. As Sete Palavras de Cristo na Cruz. Antiga Livraria Chadron, Porto, 1886, p. 147-152)