Domingo da Quinquagésima - Sermão sobre a Lei de Deus

Domingo da Quinquagésima

Pode ver-se na edição de Gandar, p. 92, alguns fragmentos duma nova redação do mesmo sermão, pregado em Paris, numa casa religiosa, pelo ano de 1661. – Ms. Tomo XI, p. 416 – Déforis, IV, 572 – Lachat, VIII, 463 – Gandar, p. 49

Pregado em Metz, entre os anos de 1653 e 1656.

SUMÁRIO ESCRITO POR BOSSUET

Cogitam vias meas.

Exordio. — Diversidade de ações entre os homens. Animais de maior uniformidade. Ocupações servis, ou inúteis, ou estultas, ou criminosas. Um guia para as minhas culpas, uma norma para os meus desvarios e um repouso para as minhas inconstâncias.

1.º Ponto. — Ignorância humana. Nós não sabemos o que nos convém. Concilium meum justificationes tuae — Intellectum dat parvulis — Super senes intellexi.
O acaso dirige os negócios.
Aproximemo-nos de Jesus Cristo para recebermos os Seus ensinamentos.

2.º Ponto.Ordinatione tua perseverat dies… Nisi quod lex tua… Grande coisa é ser dirigido pela sabedoria divina.

3.º Ponto. — Perturbação da vista. Esperança falaz. Repouso em Deus.

Peroração. — Carnaval.
2ª redação. — A natureza deu por limites: a fraqueza às crianças, e a razão aos homens. O mau: Robustus puer — Posse quod velis… Velle quod oportet.

«Os homens sentem maior prazer com o que alcançam do que com o que já possuem»

Cogitavi vias meas, et converti pedes meos in testimonia tua
Estudei os meus caminhos, e finalmente segui aquele que me foi indicado pelos vossos testemunhos (Sl 118, 59)

Já que a licenciosidade desenfreada impera hoje ostensivamente; que, como guerra a penitência que breve vamos iniciar, o diabo forceja por entenebrecer esses dias, auxiliado pela infâmia de tão excessivas devassidões, urge santificá-los, tanto quanto pudermos, por meio de preces públicas e da palavra divina, que são a mais santa e salutar instituição que se pode opor as arremetidas do anjo perverso (1). Mas como, durante esse tempo, os homens abismados na matéria parecem haver-se esquecido de que foram feitos a imagem de Deus, visto que nivelam a sua felicidade pela dos animais irracionais, entendi que seria muito útil para a salvação de todos vós uma enumeração dos verdadeiros deveres da vida humana que hoje vou fazer, auxiliado pelo profeta Davi.

Por isso escolhi o versículo do Salmo 118, em que o grande rei e grande profeta, depois de várias considerações sobre os seus deveres neste mundo, nos declara com a maior lisura que não encontrou melhores caminhos do que os da lei de Deus. E então diz:

«Estudei os meus caminhos»

Atendei, fiéis, a tão importante resolução. Esse excelente servo de Deus, que nos deixou as palavras que eu vos citei, teve que lutar desde a infância com poderosas animosidades.

Muitas vezes se achou implicado nos perigosos interesses dos príncipes e dos potentados; e teve de governar um Estado poderoso, onde devia declarar-se contra as cinzas da família de Saul, seu antecessor.

Finalmente, durante, um mui longo reinado, teve de arcar com dificuldades, não só por parte duma corte faciosa e da sua própria casa sempre agitada por intrigas, mas também sugeridas por guerras cruéis, tanto civis como estrangeira. Todavia, se lhe perguntardes qual a sua opinião quanto ao que ele nos propõe nesse judicioso e admirável versículo que eu escolhi para meu tema, não duvidava dizer-vos que nunca se desobrigou de missão tão importante como a que tomou sobre si. E que não temos poder algum por vontade própria, porque quanto maior é a correlação das coisas, tanto mais carecemos do auxílio divino, imploremos fervorosamente ao Pai de toda a luz e de infinita bondade a graça de nos alumiar o espírito, por meio dos rogos que dirigimos a Santíssima Virgem. Ave Maria.

Na importância, do plano do profeta Davi, eu considero-me, cristãos, como um forasteiro, chegado há pouco duma terra desconhecida e desabitada, livre há muito tempo do comércio e do convívio dos homens, considero-me como um indivíduo estranho as coisas humanas, que de repente subiu ao cume duma elevada montanha, e que de lá, devido a um efeito do poder divino, avista a terra e os mares e tudo o que se pratica no mundo.

O bem-aventurado mártir Cipriano serve-se do artificio análogo para representar as vaidades do século ao seu fiel amigo Donato (2). Depois de ter subido à dita montanha, a primeira coisa que me chama a atenção é essa multidão infinita de povos e de nações com os seus costumes diferentes e os seus temperamentos incompatíveis, uns bárbaros e selvagens, outros instruídos e civilizados.

Depois, para vos dar conta duma tal variedade de costumes e de inclinações, desço mais profundamente a particularidades da vida humana e examino os diversos misteres em que os homens se ocupam.

Que caos, Deus do céu! Que enredo! Que confusão extraordinária!

Se volvo os olhos para as cidades, não vejo um ponto único onde fixe a vista, tal é a diversidade de seres que estranhamente se confundem. Este discute acaloradamente no tribunal; aquele cuida dos negócios públicos; outros, nas suas lojas, vendem mais mentiras do que mercadorias.

Se passo a examinar as artes e ofícios com os seus diferentes trabalhos, e essa quantidade inumerável de máquinas e de instrumentos com aplicações tão variadas, confunde-se-me o espírito com tal diversidade, e até nem poderia convencer-me da tamanha riqueza do engenho humano, se a experiência não me mostrasse tantas obras más.

Por outro lado, vejo que as aldeias não se acham em menor atividade. Ninguém está em descanso, todos trabalham, todos estão em exercício.

Uns a construírem casas, outros a lavrarem, este entregue a agricultura; aquele ocupado nos jardins, este outro ornamentando os mesmos jardins para convertê-los em lugares de delícias, aquele outro trabalhando em objetos de uso doméstico… Mas para que vos hei de estar a fazer uma longa enumeração de todas as ocupações da vida rústica?

O próprio mar, que a natureza parecia ter destinado para ser unicamente o império dos ventos e a morada dos peixes, é também habitado por homens. A terra envia-lhe em cidades flutuantes como que colônias de povos vagabundos que, tendo por única muralha uma casca de madeira (3), se arrojam a lutar com o furor das tempestades por sobre o mais pérfido dos elementos. Mas que mais vejo além? Espetáculos diversos! Exercícios penosos! Cenas variadas! Tudo numeroso! Por toda a parte se confundem a audácia e o engenho do espírito humano.

Que hei de agora dizer-vos, fiéis, das diversas inclinações dos homens? Uns, de temperamento mais agitado ou mais generoso, preferem ocupações violentas: todo o seu contentamento consiste no tumulto dos exércitos; e se qualquer circunstância os obriga a ficar em repouso, entregam-se a caça, que é uma imagem da guerra.

Outros, de natural mais pacífico, gostam duma vida tranquila; e então se dedicam com mais gosto a conversações do domínio de todos, ou ao estudo das boas letras, ou a diversas espécies de curiosidades, cada qual conforme a sua índole.

Há certos que andam sempre a estudar anedotas para colherem os aplausos da alta sociedade. Este encontra no jogo todo o seu prazer; o que deveria constituir unicamente um passatempo é para ele uma faina contínua que toma sérias proporções, e em que ele gasta o melhor do seu tempo. Frequentando diariamente as casas de jogo, chega a apaixonar-se, a irritar-se e malbarata sempre um tempo precioso.

Há ainda outros que passam toda a sua vida numa intriga constante: querem conhecer todos os segredos e empregam todos os meios para o conseguir, entrando em toda a parte e tomando sempre novos conhecimentos, criando novas relações de amizade. Este ama apaixonadamente, aquele tem ódios cruéis e animosidades implacáveis, e este outro ciúmes furiosos de alguém que o excita. Um acumula, outro desperdiça.

Uns são ambiciosos e sedentos de empregos públicos; outros, mais moderados, preferem o repouso e a suave ociosidade duma vida privada. Cada qual tem o seu capricho e as suas diferentes inclinações. E como os costumes são mais dissemelhantes do que as fisionomias, cada um parvoeja a seu modo.

O mar não tem mais vagas quando agitado pelos ventos, do que esse abismo sem fundo e impenetrável do coração humano, quando convulsionado por pensamentos diversos.

Eis na essência, irmãos, o que a minha vista alcança, ao examinar atentamente os negócios e as ações que constituem a vida humana.

A esta espantosa diversidade, fico surpreendido num como alheamento; penso, medito, e pergunto a mim mesmo que hei de fazer, para onde me hei de dirigir. Cogitavi vias meas. Depois, refletindo, vejo que os outros animais parecem conduzir-se ou ser conduzidos mais uniformemente.

Donde provem uma semelhante desigualdade e uma tal extravagância nas coisas humanas? Este é que é o divino animal de que se contam tão grandes maravilhas? Essa alma dum imortal vigor não é susceptível duma operação mais divinal e que defina melhor o laço donde proveio?

Todas as ocupações que eu vejo me parecem servis, ou inúteis, ou estultas, ou criminosas. Nelas vejo movimento ou ação para agitar a alma; mas não vejo uma norma, nem uma verdadeira orientação para a predispor. «Tudo é vaidade e dor de espírito», dizia o mais sábio dos homens (4). Não verei eu coisa que seja digna duma criatura feita imagem de Deus? Cogitavi vias meas: procuro, medito, estudo os meus caminhos; e enquanto estou nesta dúvida, descubro outro gênero de homens que Deus distribuiu por todas as partes do mundo e que se empenham em basear a sua vida na equidade da lei divina: são os justos e as pessoas honestas.

Parecem-me ter um procedimento mais uniforme, uma atitude mais grave e seus costumes melhor regulados; mas o seu número é tão reduzido que mal se distingue na terra. Além disso, não os vejo geralmente desfrutarem uma boa reputação; dir-se-ia que tem por partilhas o desprezo e a pobreza. Os que os maltratam e os oprimem aparecem no mundo de cabeça erguida, no meio dos aplausos de todas as condições e de todas as idades; e isto conduz-me ainda a novas perplexidades.

Que número deverei seguir? O maior ou o menor? Os ajuizados ou os venturosos? Os que gozam do favor público ou os que o satisfazem com o testemunho das suas consciências?

Depois de varias hesitações, consegui finalmente fazer a seguinte reflexão: Nasci numa profunda ignorância e apareci neste mundo sem saber o que havia de fazer. O que nele posso aprender acha-se eivado de erros tão multiplicados que a minha alma permaneceria numa incerteza contínua, se apenas se limitasse a sua própria luz; e apesar dessa incerteza, tenho de empreender uma longa e perigosa viagem.

Essa viagem é a viagem da vida, onde necessariamente terei de andar por mil ínvios caminhos, cercado por toda a parte de precipícios, célebres pela queda de tantas pessoas. Cego como sol, que hei de fazer se não tiver a fortuna de encontrar um guia fiel que norteie os meus passos e dirija a minha alma indecisa? Isto é o de que careço em primeiro lugar.

Mas, além de ter o espírito entenebrecido pela ignorância, sinto ainda a minha vontade extremamente desordenada, pois nela tumultuam constantemente desejos injustos e supérfluos. Sinto-me quase sempre agitado pela veemência das minhas paixões e pela violenta precipitação dos meus impulsos.

Careço, portanto, em segundo lugar, duma norma definida que regule os meus costumes de harmonia com a boa razão e reduza as minhas ações à justa mediocridade.

Finalmente, a terceira coisa de que necessito consiste no seguinte: Achando-se prejudicadas as duas partes principais que governam todas as minhas ações – entendimento e vontade – uma pela ignorância e a outra pelo desregramento, sente-se com isso excitada toda a minha alma, que cai numa inquietação e numa eterna inconstância, infortúnio que se reduz a mudar continuamente de desejos, sem encontrar um só que satisfaça.

Todos os dias, por isso, tomo novos planos, na esperança de que os últimos deem melhor resultado e, contudo, cada dia tenho uma desilusão, porque não encontro coisa alguma que me satisfaça. Daqui resulta o ter uma vida tumultuosa, sem uma orientação definida, constituindo um conjunto de aventuras, diversas e de diversas ambições, que todas iludem os meus desejos. Ludibrio-as eu, ou elas me ludibriam a mim.

Se não realizo o fim que tinha em vista, sou eu que as ludibrio; se, havendo obtido o que desejava não o encontro nelas, são elas que me ludibriam. E assim viverei doravante, sem esperança de pôr termo aos meus longos cuidados, se, finalmente, não encontrar um objeto sólido que fortifique os meus impulsos, por meio duma verdadeira, tranquilidade. As três coisas de que eu necessito são, portanto, as seguintes: um guia para as minhas culpas, uma norma para os meus desvarios e um repouso definido para as minhas inconstâncias.

Mas onde hei de encontrar estas coisas, ó Deus? Cogitavi vias meas. A prudência humana vacila constantemente (5); as normas dos homens são defeituosas; e os bens do mundo não tem estabilidade. Tenho, portanto, de elevar-o meu espírito e de procurar na lei de Deus uma orientação infalível, uma norma definida e uma paz imutável. Já estou ouvindo essas palavras que Jesus Cristo proferiu com a sua proverbial caridade:

«Eu sou o caminho, a verdade e a vida» – Ego sum via, veritas et vita (Jo 14, 6)

Sou o caminho seguro que indubitavelmente vos guia; Sou a verdade infalível, invariável, imaculada, que vos norteia; e Sou a (verdadeira) vida das vossas almas que lhes dá um constante repouso.

Para que hei de refletir por mais tempo? Não mais me importuneis, (dúvidas e inquietações)! Não mais, ó irresoluções malditas!

«Eu estudei os meus caminhos, e finalmente segui aqueles, Senhor, que me foi indicado pelos vossos testemunhos» – Cogitavi vias meas, et converti pedes, etc.

Eis o tema do meu discurso, que abrange, como vedes, todos os deveres da vida humana.

Não duvido, fiéis, dê que tenhais muitas vezes ouvido prédicas de homens mais eruditos, que saibam deduzir os assuntos muito melhor do que eu; mas o que vos posso afirmar é que nunca nos gabinetes, nem nos conselhos, nem nas tribunas, nem nos livro, se tratou jamais um assunto de tão elevada importância.

PRIMEIRO PONTO

«Que é o homem, ó Deus supremo, para vos lembrardes dele?» – Quid est homo, quod memor es, ejus? (Sl 8, 5)

A nossa vida não é mais do que um contínuo desvario, as nossas opiniões são outros tanto erros, e os nossos caminhos apenas representam ignorância da nossa parte. Mas quando me refiro a nossa ignorância, não lamento, cristãos, o fato de desconhecermos qual seja a estrutura do mundo, ou influências dos corpos celestes, ou a razão porque a terra se mantem suspensa no espaço, ou ainda o motivo porque todas as obras da natureza são para nós enigmas insolúveis.

Embora estes conhecimentos sejam muito admiráveis e muito dignos de serem estudados, não é todavia o que eu hoje lamento; a causa da minha dor relaciona-se mais intimamente conosco.

O que eu lamento é a desgraça de ignorarmos o que nos convém, de não conhecermos o bem e o mal, e de não possuirmos a verdadeira norma que deve guiar a nossa vida.

O sábio Salomão, meditando um dia profundamente sobre isto, disse:

«Para que há de o homem saber coisas superiores a sua inteligência, se ele nem sequer sabe o que lhe convém durante a peregrinação desta vida?» – Quid necesse est homini majora se quaerere; cum ignoret quid conducat sibi (in vita sua) numero dierum peregrínatíonis suae, et tempore quod velut umbra praeterit? (Ecle 7, 1)

Mortais miseráveis e audaciosos: nós medimos o curso dos astros, marcamos o lugar aos elementos, vamos buscar ao fundo dos abismos as coisas que a natureza lá escondera, penetramos num oceano imenso para descobrir novas terras que os séculos anteriores nunca conheceram (6), e a que coisas nos não levam os desejos vagos e temerários duma curiosidade infinita?

E depois de tão laboriosos estudos, não sabemos quem somos; não conhecemos o caminho que devemos trilhar, e ignoramos qual é o verdadeiro fim dos nossos movimentos. E contudo, é intuitivo que a primeira coisa que deve fazer uma pessoa refletida é examinar bem os seus caminhos e ponderar com a máxima prudência a maneira como deve regular os seus costumes. É isto o que nos aconselha o Eclesiastes nas seguintes bem avisadas palavras:

«Os olhos do sábio residem na cabeça» – Sapientis oculi in capite ejus (Ecle 2, 14)

Que modo de dizer tão estranho: os olhos do sábio residem na cabeça! É que ele quis fazer-nos compreender que assim como a natureza colocou a vista, como um guia fiel, no lugar mais eminente do corpo, a fim de velar pela nossa conduta e de prever os obstáculos que poderiam interrompê-la na sua marcha segura, assim também a Providência Divina estabeleceu a razão, na parte superior da nossa alma, para guiar os nossos passos ao bom caminho e perscrutar os embaraços que dele nos desviam.

E embora todos concordem na absoluta necessidade desse preceito do sábio, desprezamo-lo contudo por completo no mais essencial da vida, apesar de o respeitarmos de certo modo nas coisas de somenos importância. Estranha cegueira do homem!

Nenhum de nós quer reconhecer a falta lamentável do raciocínio, porque todos nós blasonamos de proceder com prudência e de discretear com acerto; damos viveza e engenho as nossas diversões; estudamos artisticamente os nossos gestos e ademanes; e só não nos damos ao trabalho de seguir os ditames da razão quanto aos nossos costumes, porque os confiamos ao acaso e a ignorância. E para que não imagineis, cristãos, que esteja aqui a fazer invectivas inúteis, dignai-vos ponderar em que consiste a vida humana.

Se é certo haver em cada idade as suas faltas e os seus desvarios, que haver de mais insensato do que a mocidade ardente, temerária e irrefletida, sempre precipitada nos seus planos, e incapaz de pensar no que pratica, devido extrema violência das paixões?

O vigor da idade consome-se em mil cuidados e em mil trabalhos inúteis. E que convulsões não causam nessa idade a ambição, a vingança, os ciúmes e o desejo de garantir a reputação e o bem-estar? E com que lentidão se não dedica as ações virtuosas a velhice preguiçosa e impotente! Que frieza e languidez a envolvem, e que agitação ela imprime no presente, ao considerar num futuro que lhe é funesto!

Volvamos agora um olhar retrospectivo para os anos que já passaram, e que vemos? Quase todos os nossos planos condenados agora pela justiça do nosso espírito, bem como os cargos mais elevados que, mesmo por causa do brilho que os caracteriza, não são por isso os mais acompanhados de razão.

A maior parte das coisas que fizemos não foram maduramente pensadas; mas tão somente empreendidas por um certo ardor irrefletido, que dá impulso a todos os nossos planos.

Aquilo mesmo em que parece ter havido mais prudência não foi baseado nos verdadeiros princípios. Nunca pensamos em realizar as coisas como elas deviam ser, de harmonia com a sua índole, porque nunca nos deixamos guiar pelos sentimentos da nossa alma, nem tivemos nunca o cuidado de ponderar no modo de ser do nosso íntimo e de inquirir o motivo da nossa existência.

Os nossos amigos, as nossas pretensões, os nossos cargos, enfim, os nossos diferentes meios da vida social, sempre incompreendidos para nós, precipitaram-nos constantemente, deixando-nos apenas impulsionar por considerações estranhas.

E assim se passa a vida no meio duma infinidade de projetos inúteis e de estultos ideais, de maneira que os mais prudentes, depois do tempo acalmam esse primeiro entusiasmo que dá realce as coisas mundanas, admiram-se quase sempre de terem empreendido inutilmente tão longas tarefas.

Qual a razão disto, cristãos? Não ser um defeito de má compreensão dos verdadeiros deveres do homem e do verdadeiro fim a que devemos mirar?

É certo que não é empresa fácil nem trabalho medíocre adquirir um cárter infalível que garanta uma perfeição, ao menos relativa, nas ações que praticamos; porque todos os sábios do mundo tem aspirado ao rigor dos melhores princípios e todos tem caído em erro.

De longe me avisas, ó filosofia, que tenho de andar neste mundo por um caminho tortuoso e cheio de precipícios, o que reconheço por experiência própria. Ofereces-me a mão para me auxiliares e me servires de guia; mas desejo primeiro saber se me sabeis guiar convenientemente.

«Dois cegos, guiados um pelo outro, arriscam-se a cair no mesmo precipício»

Desta forma, como posso confiar em ti, ó pobre filosofia?

Nas tuas escolas só vejo inúteis e infindáveis controvérsias; só vejo suscitar dúvidas sem se pronunciarem decisões.

Notai, porém, cristãos, que, desde que se começou a filosofar no mundo, a principal questão a ventilar-se foi a dos deveres essenciais do homem, estudando ao mesmo tempo qual o fim da vida humana. O que uns reputaram como verdadeiro, foi havido como falso por outros.

Ora, num tal choque de opiniões, é que eu desejava ver, no meio duma assembleia de filósofos, um homem sem saber coisa alguma do que devia fazer neste mundo.

Queria ver reunidos, se possível fosse, todos os que tivessem a fama de sábios, para decidirem, em conferência, quando é que esse homem havia de compreender o que era a vida e os seus deveres essenciais.

Resultaria daí alguma conclusão definida? Mais fácil seria deixarem de se guerrear o frio e o calor do que esses filósofos confessarem unanimamente a verdade dos seus dogmas: Nobis invicem videmur insanire – «Parecemos todos um bando de insensatos», dizia outrora São Jerônimo (Epist. XXVIII, ad Asell.).

É impossível, cristãos, é impossível confiar exclusivamente na razão humana, que é tão variável e tão vacilante, e que tantas vezes cai no erro. Quem nela confiar, quem recorrer a ela para a tomar por guia, é o mesmo que procurar um perigo manifesto a que se deseje expor.

Quando às vezes penso nesse mar tão vasto e tão agitado das razões e das opiniões humanas, não consigo descobrir em tão grande amplidão nenhum lugar tão sereno, nem refugio algum tão seguro que se não tenha notabilizado pelo naufrágio de qualquer personagem célebre. E tanto que o profeta Jó, lamentando, na violência das suas dores, as diferentes calamidades que flagelam a vida humana, razão teve em se queixar da nossa ignorância, no capitulo 8, exprimindo-se pouco mais ou menos nos seguintes termos: Oh vós que navegais sobre os mares, que comerciais em terras longínquas e que delas nos trazeis mercadorias tão preciosas; dizei-nos: Nas longas e trabalhadas viagens que haveis feito, «ainda não descobristes onde reside a inteligência e em que bem-aventurados países se refugiou a sabedoria»? Unde sapientia venit, et quis est locus inteligentiae?

Naturalmente «ocultou-se da vista de todos os homens e até das aves do céu— quer dizer, os espíritos superiores não têm podido descobrir sinais dela» – Abscondita est ab oculis omnium, volucres quoque caeli latet (Jó 28, 12.20-21). A morte e a corrupção, isto é, a caducidade e a velhice decrépita, que, vergada pelos anos, parece já olhar para a sepultura, disseram-nos assim: Finalmente, após longas pesquisas e mui rudes experiências, «ouvimos um ruído confuso», mas não podemos dar-vos novas muito seguras: Perditio et mors dixerunt: Auribus (nostri) audivimus famam ejus (Idem, 22).

Portanto, ó sabedoria incompreensível, agitado por essa tempestade de opiniões diferentes, verdadeiramente ignorantes e indecisas, só vejo um refugio em vós; sereis vós o porto seguro onde findarão os meus erros. Graças a vossa misericórdia, tenho uma lei e uns preceitos que me haveis dado, e que me alumiam como um facho celeste, assim como outrora, durante as trevas da noite, essa misteriosa coluna de fogo (7) alumiava o povo de Israel, guiando-o a vastíssimas terras ermas e inóspitas. Os vossos preceitos hão de fortalecer o meu espírito vago e hão de dirigir os meus passos vacilantes:

Lucerna pedibus meis verbum tuum, et lumen semitis meis – «A vossa palavra é o facho que guia os meus passos, e a luz que brilha nos caminhos que eu piso» (Sl 118, 105)

«Eu tinha me resolvido, diz o sábio, a divorciar me por completo dos prazeres, para me dedicar verdadeiramente ao estudo da sabedoria, até conhecer à evidência o que é útil aos filhos dos homens. Mas, continua o príncipe esclarecido, reconheci que, para esse estudo, não era bastantemente longa a nossa vida» – Cogitavi in corde meo abstrahere a vino carneam meam ut animum meum transferrem ad sapientiam, devitaremque stultitiam, donec viderem quid esset utile filiis hominum: quo facto opus est sub sole numero dierum vitae suae (Ecle 2, 3)

E realmente a prudência humana é tão basta nos seus progressos, e a vida tão precipitada no seu curso, que ainda bem não temos aprendido o pouco que sabemos, e já a morte interrompe de repente a continuação dos nossos estudos, em virtude duma sentença fatal e irrevogável. Sobre a lei de Deus, porém, ficamos perfeitamente orientados logo no primeiro dia.

Há uma doutrina muito simples que «dá inteligência aos mais néscios» – Intellectum dat parvulis (Sl 118, 130). Essa doutrina consiste unicamente em sermos tementes a Deus. Por isso o profeta Davi disse:

«Na minha mocidade tive grandes discussões com poderosos inimigos, com velhos e argutos palacianos; mas mais arguto fui eu do que esses provados anciãos, porque zombei dos seus sofismas, escudando-me simplesmente na astúcia de jogar com os mandamentos de Deus: Super senes intellexi, quia mandata tua quaesivi» (Idem, 100)

Vede, com efeito, cristãos, esses poderosos e grandes gênios, que, afinal, não sabem o que fazem. Porque os vemos todos os dias abalançarem-se a empresas que caem frustradas, em virtude dos seus vastos e grandiosos planos acusarem falibilidade ?

É que as coisas são como são, e não como nós desejamos que elas sejam, e porque tudo o que acontece é duma maneira tão anormal que é preciso ser muito cego para não ver que há um poder oculto e terrível que se compraz de anular os planos dos homens, zombando desses espíritos superiores, que cuidam revolver todo o mundo e que se não lembram de que há uma razão superior que zomba deles e os utiliza, como eles se utilizam e zombam dos outros.

Efetivamente, devemos concordar que, no meio do labirinto das coisas humanas, o meio mais seguro que temos para nos orientarmos, a única e verdadeira ciência a que sempre podemos recorrer é essa razão dominante e infalível, razão soberana, capaz de nortear uma alma para o verdadeiro caminho, elevando-a também com o verdadeiro alívio.

Se não for ela, todos os nossos negócios caminharão ao acaso, mercê das ocasiões.

De que serve pensar em tomarmos a rigor as nossas precauções, e em estudarmos o meio de determinado acontecimento se realizar no momento desejado, se as coisas humanas são tão contingentes, tão irregulares e tão extravagantes? Seria uma loucura pensar em tal.

Muito previdente é quem observa o estado do tempo para lançar a semente terra e fazer as colheitas e, contudo, o Sábio, que eu não me canso de vos citar neste assunto, diz o seguinte:

«Quem muito se acautelasse do vento, nunca semearia; e quem estivesse examinando as nuvens, espera de que o tempo lhe corresse medida dos seus desejos, nunca recolheria as suas sementeiras» – Qui observat ventum non seminat, et qui considerat nubes nunquam metet (Ecle 11, 4)

Com este exemplo, quer ele dizer que é um erro imaginar que tudo se harmoniza perfeitamente com os nossos planos e que tudo concorre para a sua execução. Assim é a lei das empresas humanas, sempre falível, a ponto dos mais previdentes se verem obrigados a confiar ao acaso o mais importante dos seus negócios. Não procedais desta maneira, justos filhos de Deus!

Vós, que possuís uma sabedoria mais que humana, deveis compreender que seria indigno de pessoas sensatas confiardes os vossos planos ao acaso e mercê dos acontecimentos; e visto que a vossa razão não é bastantemente segura nem suficientemente poderosa para dirigir firmemente o bom êxito dos negócios, deixai-vos guiar por essa divina Sabedoria que tão bem rege todas as coisas.

E não me digais que ela é superior à vossa inteligência; porquanto, devido a uma extrema bondade, manifestou-se ela muito claramente e muito desataviadamente. Deriva, por assim dizer, nas Escrituras divinas, donde os pregadores a extraem para vo-la pregar; e depois essa Sabedoria profunda, que dá um alimento sólido aos bons, houve por bem converter-se em leite para sustentar as criancinhas.

E que mais podemos desejar, depois que essa Sabedoria eterna tomou carne humana para se familiarizar conosco?

Não podíamos achar o verdadeiro caminho, devido aos nossos erros: «e foi o próprio caminho que veio procurar-nos» – Ipsa via ad te venit, diz Santo Agostinho (Serm., CXLI, n. 4). E o caminho não é mais nem menos do que o Salvador, esse Preceptor eminente, prometido por Isaías no capítulo 30:

«Os teus ouvidos, diz Ele, ouvirão a voz daquele que, caminhando atrás de ti, te orientará nos teus caminhos, e então os teus olhos verão o teu Preceptor» – Erunt oculi tui videntes Praeceptorem tuum (8)

Ó inefável misericórdia! Regozijemo-nos, fiéis, por sermos ignorantes em tudo. Mas isso que importa, se temos um Mestre tão sublime? Pelo contrário, temos justificado motivo para nos facilitarmos pela nossa ignorância, que determinou o nosso Pai celestial a confiar a direção de todos nós a um Preceptor tão eminente.

Esse bom Preceptor é Deus e homem. Ó soberana autoridade! Ó suavidade incomparável!

Um mestre tem conquistado tudo, quando consegue proceder de maneira que o amem e o respeitem.

Eu respeito o meu Mestre, porque é Deus; e, para que o amor que lhe dedico fosse mais familiar e mais livre, dignou-se Ele fazer-se homem.

Ora, se a sabedoria e a autoridade que hão de fluir em mim fossem puramente humanas, eu desconfiaria da primeira e sacudiria facilmente o jugo da segunda; porque «a sabedoria e muito sujeita ao erro, e a autoridade expõe-se muito ao desprezo» – Tam illa falli facilis, quam ista contemni, diz Tertuliano (9). Mas como esses dois elementos proveem tão maravilhosamente do Salvador, inclino-me e sujeito-me as Suas palavras magistrais: naquelas que entendo, vejo eu admiráveis ensinamentos; nas que não entendo, considero-as como um princípio de autoridade infalível, digna de veneração. Se não sou merecedor de as compreender, são elas merecedoras da minha crença; e assim, na sua escola, tenho eu a vantagem de alcançar mais facilmente a inteligência por meio duma humilde submissão, do que auxiliado por um estudo laborioso.

Vinde, pois, ó sábios do mundo, vinde ouvir as palavras de vida eterna desse eminente Preceptor. Deixai o vosso Platão com a sua divina eloquência, deixai o vosso Aristóteles com essa sutileza de raciocínio, deixai o vosso Sêneca com as suas soberbas opiniões; e vinde ouvir a simplicidade de Jesus que tem mais majestade e mais vigor do que a gravidade afetada de todos esses homens. Havia um filósofo que insultava as misérias do gênero humano com altaneria e ar zombeteiro; havia outro que as deplorava em estos de mágoa e com ar compassivo, mas inutilmente; e só Jesus, o doce e humilde Jesus, lamenta as nossas misérias, mas dá alivio para elas. Aqueles a quem Ele vai instruindo, são conduzidos nos Seus braços vigorosos e invencíveis, com a maior bondade e com o maior desvelo; e é de tal abnegação que arrisca a própria vida a procurar a ovelha que anda perdida, trazendo-a depois aos ombros para ela se não cansar mais, visto que, «andando a correr dum lado para o outro, se havia extenuado de todo» – Multum enim errando laboraverat, diz Tertuliano (De Paenit., n. 8). Ora, sendo Jesus um Mestre tão eminente, devemos ainda hesitar em segui-lO?

Além disso, não é Ele desses mestres hipócritas que louvam a pobreza no meio da opulência, ou que aconselham a paciência no meio das voluptuosidades. Tanto Ele como todos os Seus discípulos cimentaram com o seu sangue as verdades que pregaram; mas os Seus santos ensinamentos não eram mais do que um quadro da Sua vida, porque as ações eram muito melhores do que as palavras, um seguro testemunho do Seu infinito poder. E, verdadeiramente bom, harmonizava os ensinamentos com a nossa fraqueza, havendo mister que vivesse neste mundo como um belo exemplar duma inimitável perfeição.

Que receais, pois, homens covardes, se esse Mestre eminente tudo determinou pelas Suas palavras e pelos Seus exemplos, e se, quanto aos nossos costumes, nada deixou indeciso?

Eu vejo-vos desorientados e numa estranha alucinação, a beira do caminho da piedade cristã, sem vos atreverdes a percorrê-lo, porque à primeira vista só se vos deparam embaraços e dificuldades; não sabeis se nesse rio haverá um vau, por meio do qual vos possais salvar, em caso de necessidade. Mas lembrai-vos de que o Salvador foi o primeiro a atravessá-lo sem perigo nenhum, e então já no vosso espírito não deve haver dúvidas.

Vede-o triunfante na outra margem, chamando por vós, estendendo-vos os braços, garantindo-vos que nada há a recear. E vede também o sitio que Ele honrou com a Sua passagem, deixando um rasto de luz para o santificar e engrandecer.

Não será uma vergonha para os cristãos terem repugnância de passarem por onde Jesus Cristo passou? É inegável, irmãos, que seríamos verdadeiramente insensatos se, com uma orientação tão segura, ainda nos deixássemos dominar pelos erros e pelas vaidades da razão humana.

Eu estudei os meus caminhos; e nas diferentes ilusões da vida, cogitei atentamente onde poderia encontrar a realidade, e afinal, Senhor Jesus, achei que era manifesta loucura procurá-la noutra parte que não fosse nos Vossos testemunhos irrepreensíveis.

E assim, auxiliado por Vós, resolvi seguir o caminho que me foi indicado pelos Vossos testemunhos: Cogitavi vias meas, porque não só vejo neles a luz que alumia a minha ignorância, como também a norma infalível que pode regular os meus desvarios. Eis o que constitui a segunda parte deste discurso.

SEGUNDO PONTO

Não se podia evitar que a ignorância profunda, que prevalece nas coisas humanas, precipitasse os nossos sentimentos afetivos numa desordem extraordinária; porque, assim como o piloto, desorientado no meio das trevas e das tempestades, abandona o leme e deixa vogar o navio ao sabor dos ventos e das ondas, assim também os homens, havendo perdido, por sua culpa, os verdadeiros princípios por que se deviam guiar, perderam também o tino e o bom-senso, deixando-se dominar pelos seus caprichos. Cada um se deixou vencer pelo que melhor o iludiu, e, portanto, as normas dos costumes ficaram completamente pervertidas. Quantas pessoas vemos nós que desejariam que todos vivessem cada qual a seu talante, e que todos se vissem libertos de tantas leis incômodas!

A este plano é que essas pessoas chamam as santas instituições da lei divina; mas se não temos a audácia de criticar livremente este assunto, não vivamos, pelo menos, de modo que sê pense que estamos imbuídos dessa crença.

O nosso programa, seja qual for o nosso raciocínio, é acender as nossas paixões; ou, se algumas vezes as reprimirmos, seja a despeito de outras mais violentas, e por isso mesmo mais repugnantes à razão. Não chamemos a prudência para fazer a escolha de boas e virtuosas inclinações, porque não é essa a índole dos homens, nem é esse o nosso costume.

Despertadas em nós ás primeiras inclinações e as mais dominantes, certamente devido a movimentos deliberados e a uma espécie de instinto cego, é que começamos a fazer a escolha dos meios mais convenientes para as dirigir ao seu fim, e que julgamos ter tomado completamente as nossas precauções.

Chamamos a isto um procedimento metódico, tão corrupto se acha já entre nós o verdadeiro uso das coisas. Ou então, para mais argutamente nos encaminharmos ao ponto de mira, e demonstrarmos uma verdadeira posse da ciência do mundo e um conhecimento positivo do que é a vida, guardamos os nossos prazeres para melhores ocasiões, e deixamos ao tempo e as atuais circunstâncias a sorte dos nossos cegos e temerários desejos, visto haver muitos que se contrariam numa tal diversidade. Mas no que ninguém pensa é em buscar aos tempos remotos a origem do mal e cortar duma vez pela raiz as más inclinações.

Quem nos arraigou no espírito, ó Deus, crenças tão errôneas, a nós, que não passamos duns pobres mortais iludidos?

E depois, reconhecendo «que somos oriundo duma raça divina», como diz o apostolo São Paulo (10), porque não havemos de ir buscar as regiões mais elevadas a norma reguladora das nossas ações? Se é certo o que os nossos pais disseram contra os sectários de Epicuro e contra a escola dos libertinos, isto é, que assim como este universo é regido por uma Providência eterna, assim as ações humanas, por mais extravagantes, são norteadas por uma sabedoria infinita, não será absolutamente indispensável que elas tenham uma norma definida em que se baseiem? E se não bastam estas grandes e importantes razões para nos convencerem, não devia a experiência, pelo menos, ensinar-nos que a verdadeira sabedoria não é a que consiste em saber contestar muitos desejos que nos prejudicam senão a que nos aconselha a moderação desses desejos? Que viria a ser das coisas humanas, se cada um fizesse o que lhe pede a vontade? Porque é que os Neros, os Calígulas e esses outros monstros do gênero humano praticaram ações tão brutas como violentas?

Naturalmente, porque se deixaram impulsionar pela licenciosidade desenfreada, caraterística desses tempos, e se julgaram, portanto, no direito de fazer tudo o que quiseram.

Isto provamos, cristãos, que não há animal mais feroz nem mais indomável do que o homem, quando se deixa vencer pelas suas paixões.

Ora, neste caso é necessário limitar os nossos desejos por meio de normas fixas e invariáveis; e visto todos sermos dotados da mesma razão e duma natureza semelhante, é inteiramente impossível que o nosso destino não seja perfeitamente igual, e que se não deva admitir como comuns a todos os homens as normas que vamos estabelecer, e que, por um raciocínio indestrutível, vamos provar não poderem ser outras senão a lei de Deus.

Onde o nosso desiquilíbrio moral mais se manifesta, aí também é mais constante a nossa alucinação; porque as ocupações, os exercícios, as conversações e os divertimentos ligam-nos as coisas externas, prejudicando-nos altamente o nosso íntimo.

Já no começo deste discurso eu aludi de passagem a este assunto, e agora de novo me refiro a ele para tirar outras conclusões de que necessito; mas não me obrigueis, cristãos, a penetrar mais uma vez na essência das nossas ações para vos demonstrar uma verdade tão evidente por si mesmo.

Se cada um entrar no fundo da sua consciência reconhecerá claramente que tudo o que pratica é devido a causas puramente estranhas; e no entanto, a primeira influência que a lei deve exercer em nossas almas é ordenar, é normalizar o nosso íntimo com todo o rigor.

Se me disserdes que, depois de haverdes praticado uma ação muito ilustre, descobristes o meio de acumular muitas riquezas, e que caístes no agrado duma personagem eminente que vos pode prestar relevantes serviços, e que até mesmo, se quiserdes, ficastes sendo senhor de todo o mundo, nem por isso a vossa alma ficou mais bem disposta, nem os vossos costumes se adoçaram mais ou se regularam melhor.

O erudito Tertuliano, no famoso livro de Pallio diz o seguinte:

«Eu não tenho o hábito de tecer intrigas nem pessoa alguma me vê ilaquear os grandes, ou devassar-lhes as portas das suas casas ou esperá-los na rua; não me esfalfo a bradar no foro, nem ando pelos mercados ou pelas praças públicas. E porquê? Porque tenho de trabalhar por conservar o estado de pureza da minha consciência, trabalho íntimo e heroico que exige o emprego de todas as minhas forças e que é a minha única tarefa» – In me unicum negotium mihi est (11)

Por aqui vedes, irmãos, que Tertuliano pensava seriamente em ordenar a sua consciência; e por isso, o primeiro efeito dessa resolução é, como a pouco disse, a normalidade rigorosa do nosso senso íntimo.

Mas, para aduzir mais uma prova, temos o orgulho que, quando excessivo, nos obsidia constantemente. Vede como o orgulhoso se mira de todos os lados com o maior escrúpulo e com extremo cuidado, corrigindo o que está defeituoso, ordenando o que se acha irregular. Que é que lhe desperta tanto desvelo?

É o orgulho que o faz refletir a dentro da personalidade. E não foi o orgulho, cristãos, que fez com que tantos filósofos se divorciassem do seio do comum dos homens? «Nós queremos preocupar-nos só conosco», diziam eles. E diziam bem. Com eles próprios é que eles se queriam preocupar para admirarem as suas formosas alegorias, para se enlevarem nos seus belos e agradáveis raciocínios e para formarem caprichosamente no espírito uma imagem da virtude que idolatravam. Não faziam uma ideia do que era esse grande Deus, de quem derivava toda a ciência que possuíam. Soberbos e arrogantes como eram, primavam também em ser autólatras nas suas argutas invenções.

Ora foi daqui que nasceu todo o desequilíbrio moral, a verdadeira origem do desregramento.

Quem há de, portanto, reabilitar seguramente a nossa consciência, afastando-nos de tantas coisas inúteis em que a nossa alma por tanto tempo se corrompeu? Há de ser indubitavelmente a lei de Deus, por meio da humildade cristã.

A humildade cristã é que verdadeiramente nos chama ao estudo íntimo, porque é ela que nos convida ao exame do nosso nada, e nos faz compreender que tudo o que possuímos deriva da misericórdia divina; e assim, vergando-nos à lei de Deus, submete-nos à Sua vontade, que é a norma soberana da nossa vida.

«Deus fez o homem reto», diz o Eclesiastes (Ecle 7, 30) e o sábio Santo Agostinho reconhece essa retidão da seguinte forma: A retidão, a ordem e a lei justa são coisas inseparáveis. Ora uma coisa está de harmonia com os princípios da boa ordem quando obedece as causas superiores que devem influir nela por uma natural condição dessas causas. A ordem consiste em cada um se inclinar à vontade daqueles a quem deve obedecer. Por isso Deus, diz Santo Agostinho, deu ao homem o preceito de «dirigir os seus inferiores como ele próprio tem de ser dirigido pelo supremo poder» – Regi a superiore, regere inferiorem (In Psal. CXLV, n. 5). Assim como a lei dos movimentos inferiores reside na justa e verdadeira razão, assim a lei da razão reside no próprio Deus. E quando a razão humana se harmoniza perfeitamente com a vontade de Deus, o efeito é essa ordem admirável, esse justo equilíbrio, essa conveniente mediocridade que constitui toda a beleza da nossa alma.

Para penetrar na essência dessa tão bela doutrina de Santo Agostinho, ponderemos maduramente e notemos que a vontade de Deus é a norma suprema pela qual devem ser necessariamente moldadas todas as outras normas; e estas só poderiam vibrar de justiça e de verdade, achando-se harmonizáveis com essa norma primeira e original, que se não funda em bases estranhas porque se funda em si mesma, como lei que é.

Por isso o profeta Davi disse no Salmo 18 que «os juízes de Deus são verdadeiros e justificam-se por si mesmo». Era como se dissesse: Os juízos dos homens podem, às vezes, ser verdadeiros, mas não podem justificar-se por si mesmo.

Todas as verdades criadas devem necessariamente harmonizar-se com a verdade divina, donde lhes provem toda a certeza que as firma. Mas diz o santo profeta que a verdade dos juízos de Deus «resulta duma verdade imanente e essencial, e por este motivo é que eles se justificam por si mesmos» – Vera, justificata in semetipsa (Sl 18, 10). De maneira que a vontade divina preside a este universo; e, constituindo ela uma norma de si mesmo, é, portanto, a norma infalível de tudo o que existe, e a lei imutável por que tudo se rege.

A este respeito, faço uma observação ao profeta Davi, que talvez edifique as almas piedosas. Esse homem, sempre dominado por uma santa admiração pela Providência divina, depois de ter celebrado a prudência dos seus conselhos nas suas obras grandiosas e magnificas, passa insensivelmente à consideração das suas leis. E assim, no Salmo 18, diz a ilustre personagem:

«Os céus atestam a glória de Deus»Caeli enarrant gloriam Dei (Sl 28, 2)»

E depois de consagrar metade do Salmo a glorificação de Deus, feita nas suas obras, dedica a outra metade a exaltar a equidade dos seus preceitos, dizendo: «A lei de Deus é imaculada, e fiéis os seus testemunhos»; completando em seguida o admirável cântico com meditações análogas. No Salmo 118 diz:

«A vossa palavra, Senhor, permanece no Céu para sempre. Fundastes a terra e assim está; e por vossa ordem continua o dia, porque tudo vos obedecei» – In aeternum, Domine, verbum tuum permanet in coelo… Fundasti terram, et permanet. Ordinatione tua perseverat dies: quoniam omnia serviunt tibi (Sl 118, 89)

E logo depois acrescenta:

«Por muito que a vossa lei ocupasse todo o meu pensamento, cem vezes teria desanimado no meio de tão multiplicados sofrimentos que tem atormentado a minha vida» – Nisi quod lex tua meditatio mea est, tunc forte periissem in humilitate mea (Sl 118, 92)

Que quer ele dizer, fiéis? Que relação acha esse cantor celeste entre as obras de Deus e a sua lei? Será por casualidade que essa ordem se manifesta em várias passagens dos seus Salmos? Ou não será antes ele a dizer-nos a todos estas palavras, que entram no fundo da nossa consciência: Erguei os olhos, ó filhos de Adão homens feitos a imagem de Deus; contemplai essa bela estrutura do mundo, vede essa ordem e essa harmonia. Haverá coisa mais bela e melhor executada do que esse grande e soberbo edifício? É que nele foi fielmente observada a vontade divina, respeitando-se todos os seus planos, obedecendo tudo aos seus irrevogáveis decretos e constituindo essa vontade a sua própria lei, sempre justa, sempre regular, sempre uniforme, deriva numa boa e perfeita ordem tudo o que se moldar por ela.

Daí resulta essa harmonia e esse ritmo tão justo e tão proporcionado.

Pois se os próprios seres corpóreos tem extraordinário realce porque obedecem aos decretos de Deus que beleza não hão de ter as naturezas inteligentes quando forem norteadas pelos seus preceitos! Vede, que se todos os seres da criação pudessem falar, diriam em alta voz que o seu maior prazer é observarem as leis dessa Providência incompreensível, visto que é dela que lhes provem toda a sua perfeição e todo o seu esplendor; mas como não tem linguagem para se exprimir, nem por isso deixam de no-lo atestar por meio dessa constante uniformidade que em todos existe.

Porque sois tão ingratos, ó homens, filhos de Deus, a quem vosso pai celestial iluminou com um raio da sua inteligência infinita; porque sois tão ingratos, vós, que sendo mais estúpidos e mais insensíveis do que os seres inanimados, não quereis respeitar as leis que Deus vos deu desde o princípio do mundo, por intermédio dos seus santos profetas, e finalmente na plenitude dos tempos, pela boca de seu amado Filho! Creio ser assim que se exprime o profeta Davi.

E agora, cristãos, imaginai qual há de ser a nossa confusão, quando tivermos de aparecer nesse temível tribunal, e quando nos verberarem, na presença dos santos anjos, o nosso desprezo por uma alma imortal que nos foi dada por Deus, com o fim de empregarmos todo o nosso desvelo em harmonizar os seus atos e os seus movimentos com a sua verdadeira natureza! Imaginai a humilhação que nos deve deprimir, quando ouvirmos dizer que antes quisermos preocupar-nos com assuntos supérfluos e a maioria das vezes criminosos, do que trabalhar a bem dessa alma, engrandecida com a imagem de Deus, e considerada como um dom magnífico e incomparável.

De maneira que a coisa mais preciosa do mundo, que recebemos da munificência divina, foi a mais desprezada, no meio de tantas coisas a que nos dedicamos inutilmente! Ó loucura! Ó indignidade! Ó justa e inevitável acusação que eu forcejo por evitar! Não caias tu nunca sobre a minha alma que por tanto tempo andou perdida no jogo, nas reuniões, na avareza e na devassidão, coisas estranhas a ela e que muito a perverteram; não a fulmines com o rigor da sua justiça, porque eu farei exame de consciência, ao menos durante a quaresma que se aproxima.

Estudarei os meus caminhos e pensarei na norma que devo seguir; e não podendo haver outra senão os vossos santos e justos mandamentos, o caminho que eu devo seguir é o que me for indicado pelos vossos testemunhos.

Eis a minha última e irrevogável resolução, que Vós vos dignareis de confirmar, Senhor, com a Vossa graça onipotente. Só ela me dará o repouso onde eu acabo de ver a boa ordem e onde a pouco reconhecia a verdade a certeza. E para vos convencerdes deste princípio, fiéis vou já concluir o meu discurso pela sua demonstração!

TERCEIRO PONTO

Depois das belas máximas suficientemente estabelecidas com o auxílio das divinas Escrituras, creio não ser preciso, cristãos; recomeçar uma longa série de raciocínios para vos provar que o nosso repouso reside: na observância rigorosa da lei de Deus.

Basta que agora apliquemos, por um método fácil e inteligível, a doutrina que hoje vos explicamos, auxiliados pela divina misericórdia. Será uma verdade que se manifestará em toda a sua evidência.

Todas as coisas começam a desfrutar o seu repouso, desde o momento em que se achem natural e verdadeiramente constituídas. Suponhamos que fostes atormentado por uma longa e perigosa doença, mas que pouco a pouco vos ides restabelecendo e que depois readquiris o vosso estado normal. A saúde que recuperais já vos promete um próximo repouso.

Ora como não há de a vossa alma gozar uma perfeita tranquilidade depois da lei de Deus ter curado todas as suas doenças? A lei de Deus estabelece a certeza infalível no espírito; de maneira que é forçoso que o entendimento reconheça essa certeza, depois dos erros e das dúvidas terem sido dissipados, não pela evidência da razão, mas por uma autoridade soberana, mais inabalável e mais firme do que os nossos mais sólidos raciocínios.

E até a vontade, com a sua norma imutável, que suprime o que há de mais nos seus impulsos, até essa deve experimentar uma tranquila estabilidade e uma paz santa e divina. Por isso o salmista dizia:

«As justiças de Deus são retas e alegram o coração» – Justitiae Domini rectae, laetificantes corda (Sl 18, 9) (12)

Alegram o coração, porque são retas, porque regulam as más afeições, porque lhe escolhem o estado conveniente, colocando-o no grau em que consiste a sua perfeição.

As coisas humanas derivam tão caoticamente que a gente não sabe quando faz bem nem quando faz mal. Faz-se bem quando se quer granjear meios de fortuna; faz-se mal quando, por exemplo, se come o suficiente para conservar o regular funcionamento do organismo, e portanto, para conservar a saúde, o que, porém, muito descontenta os amigos que nos fazem companhia e que instam conosco para comermos mais. E assim nas outras coisas. Na obediência a lei de Deus não há destas alternativas; aí faz-se o bem absoluto, o bem ilimitado, porque quando se faz esse bem, tudo o mais pouco vale: enfim, faz-se bem, porque se pratica o soberano bem. Ora como é que se não há de estar tranquilo, fiéis, praticando o soberano bem? Que prazer e que paz serena para uma alma! A Vós vos pertence, ó Deus Supremo, na qualidade de soberano bem, fazer a divisão dos bens pelas Vossas criaturas; mas felizes mil e mil vezes as criaturas de quem Vós sois a única herança! Esse será o quinhão dos Vossos filhos que, pela Vossa inefável bondade, Vós chamais, no céu, para junto de Vós.

Nós, porém, miseráveis proscritos, embora longe da nossa pátria celestial, não ficamos de todo privados da Vossa graça, porque vos temos na Vossa santa lei e na Vossa divina palavra. Lei muito para desejar! Palavra muito para adoçar as almas!

«Palavra mais doce do que o mel quando se come, dizia o profeta Davi; lei mais para desejar do que todos os tesouros do mundo (13)»

Vede realmente, cristãos, que essa lei admirável é um esplendor da verdade divina e uma efusão dessa soberana beleza; e não duvideis dessa fonte ter conservado qualquer coisa das qualidades da sua origem.

«O vosso servo, meu Deus, respeita os vossos mandamentos – Etenim servus tuus custodit ea, canta amorosamente o Salmista; pois grande prêmio terá aquele que os respeitar» – In custodiendis illis retributio multa (Sl 18, 12).

«E a razão porque os respeitam, diz Santo Agostinho (14), é que além de ser grande a recompensa, é também incomparável a suavidade desses mandamentos»

Atendei agora, irmãos, ao que vos vou dizer: Imaginemos um homem de bem, vivendo neste mundo com a maior simplicidade, não sabendo como se governa um Estado, como se norteiam os negócios públicos, nem o que são os cargos eminentes da terra, que só os grandes e os políticos conhecem.

Direis uma criatura, passando a vida sem fazer nada. Ele ignora os segredos da natureza, e não fala do movimento dos astros, porque talvez a sua inteligência não atinja esses altos e sublimes raciocínios.

A vida desse homem parece-nos, portanto, vulgar; e, contudo, se atendermos ao que dissemos atrás, esse homem é dirigido por uma razão eterna, é norteado por princípios divinos, e a sua vida, apoiada na palavra de Deus, é mais firme do que o céu e a terra. Antes todo o mundo seja subvertido, do que ele confundido nas suas esperanças. Enquanto nós, para resolvermos qualquer dificuldade nas coisas mundanas, vamos pedir vários conselhos que muitas vezes nos suscitam novos embaraços, esse homem apenas diz com o salmista: «O meu conselho são os vossos testemunhos» – Consilium meum justificationes tuae; ou então, como diz São Jerônimo:

Amici mei jastificatimes tuae – «Os vossos testemunhos são os meus amigos»

Nós consideramos como nossos melhores amigos aqueles que muitas vezes nos enganam por infidelidade ou por ignorância; o homem de bem, quando tem dúvidas, consulta os seus amigos fiéis, que são os testemunhos de Deus, e esses amigos sinceros e verdadeiros ensinam-lhe como ele deve proceder e aconselham-no para a vida eterna.

Imensamente feliz se deve, portanto, considerar esse homem, por ter encontrado tão bons amigos; e razão terá em zombar da perfídia que reina nas coisas humanas, porque, nem por isso eu deixarei de lhe chamar bem-aventurado.

Permiti agora que vos interrogue conscienciosamente sobre uma coisa: Possuis por acaso tudo o que desejais? Não pretendeis coisa alguma neste mundo? Não há talvez aqui uma única pessoa que possa responder negativamente. «O lavrador espera o fruto da terra», diz o apóstolo São Tiago, Ecce agricola exspectat pretiosum fructum terrae, patienter ferens donec accipiat temporaneum et serotinum (Ep. cathol., V, 7)

A sua vida é uma esperança contínua; lavra na esperança de colher; colhe na esperança de vender, e assim vai sempre passando a vida. O mesmo se dá em todas as outras profissões. Efetivamente, são tantas as coisas de que nós carecemos que nos veríamos em constantes dificuldades, se Deus não nos tivesse dado a esperança, como que para suavizar os nossos males e adoçar um pouco a amargura desta vida.

É da esperança, e só dela, que vive a nossa vida, essa vida que se nos vai escoando muito gradualmente mas sem interrupção. O futuro, que talvez seja uma parte notável da nossa idade, só poderá conseguir-se por meio da esperança; e até ao momento derradeiro, é sempre a esperança que nos acompanha e nos alimenta a vida.

Ora, visto andarmos esperando sempre, é porque evidentemente não estamos no lugar onde possamos obter tudo o que desejamos; e por isso, neste mundo onde nada nos satisfaz e onde só vivemos de esperança, o mais feliz dos mortais será aquele que acalentar a esperança mais bela e mais firme. Bem-aventurados, pois, mil e mil vezes os justos e os homens de bem! Graças a misericórdia divina, tem havido quem lhes discuta o gozo da vida presente, mas ainda ninguém lhes contestou a virtude e o consolo da esperança.

Comparemos agora com isto as loucas esperanças, mundanas. Dizei-me, cristãos, nunca encontrastes coisa alguma que satisfizesse plenamente o vosso espírito? Nós todos os dias tomamos novos planos, esperando achar melhor resultado nos últimos que se retomam; mas a nossa esperança sai sempre frustrada. Daí resulta o termos uma vida desuniforme, instável, sujeita ao erro, que, não podendo adquirir uma orientação definida, se converte, portanto, num conjunto de aventuras diversas e de diversas ambições, que todas nos iludem. Ludibriamo-las nós, ou elas nos ludibriam. Se não realizamos o fim que tínhamos em vista, somos nós que as ludibriamos; se, havendo obtido o que desejávamos, não o encontramos todavia nelas, são elas que nos ludibriam. De maneira que os mais sensatos, depois do tempo acalmar esse primeiro entusiasmo que dá realce as coisas mundanas, admiram-se quase sempre de terem empreendido inutilmente tão longas tarefas.

Em face disto, cristãos, que melhor expediente podemos tomar do que procurar repouso unicamente em Deus, desejar somente o que Ele ordena, e aguardar o que Ele prepara? Porque não havemos de buscar esse firme repouso? Porque somos cegos até ao ponto de pensarmos em escolher noutra parte a nossa beatitude? Aqui é que está o nosso erro, irmãos (e agora vos peço que me atendais mais um momento).

Desde que formamos uma falsa ideia do que é a felicidade, deixamos radicar no nosso espírito esse erro grosseiro, e já imaginamos que o bem-estar que gozamos no mundo é uma sombra dessa felicidade suprema que só se pode gozar no céu.

Os bens terrenos satisfazem-nos, não porque constituam verdadeiros bens, mas porque os consideramos como tais; e nisto semelhamo-nos a esses pobres hipocondríacos que se prazem de afagar no cérebro escandecido o simulacro e o sonho dum vão e quimérico prazer. Dir-me-eis agora talvez:

«Não me dissipeis esse erro agradável, que apesar de me iludir, me alegra e me consola. Que importa que seja uma ilusão, se nela achei aprazimento?»

Não há dúvida que de boa vontade vos deixaria viver nessa ilusão, se não visse a condição deplorável em que, por esse meio, vos encontrais embora imagineis desfrutar uma felicidade, muito risonha.

Como ainda a pouco dissemos, a felicidade bem compreendida só pode existir desde o momento em que tudo se ache naturalmente constituído e dentro dos limites duma verdadeira perfeição. Ora é impossível alcançar essa felicidade, por meio de erro e da ignorância, que tudo destroem e nada conquistam e só nos precipitam na desgraça. Por isso o admirável Santo Agostinho disse «que o primeiro grau da miséria é amar as coisas nocivas, e o cúmulo do infortúnio é havê-las conquistado» – Amando enim res noxias miseri, habendo sunt miseriores (S. Agost., In Psalm., XXVI, 7).

Vede esse pobre enfermo, agitado por uma febre ardente e devoradora, tragando vinho sequiosamente como se imaginasse tomar um refresco consolador, quando afinal não bebe mais do que a peste e do que a morte. Não vos parece que esse enfermo é tanto mais digno de lastima quanto maiores são as delicia que ele experimenta em beber esse vinho?

Oh! Eu sei que hei de ver durante três dias muitos homens, feitos de barro e lama, levarem, no meio de toda a gente, uma vida mais brutal do que os próprios brutos; e ainda quereis que eu diga que são verdadeiramente felizes, só porque me ostentam uma mesa larga, só porque se gabam de comer manjares suculentos, e porque alvoroçam toda a vizinhança com os seus gritos confusos e a sua alegria dissoluta? Oh! Que indignidade fazer triunfar tão ostensivamente a intemperança, quando tão próximos estamos dos dias de recolhimento! A Igreja, que é a nossa boa mãe, vendo que durante um ano inteiro nos entregamos a tantos prazeres mundanos, procura o meio de tirar seis semanas aos nossos desregramentos, para nos dar algum verdadeiro prazer, por meio da penitência.

Durante a Quaresma ministra-nos ela esse sacrifício, como um remédio salutar e útil, na esperança de que ele nos faça digerir a amargura que nos causa, e de que nós continuemos a usar dele muitas vezes.

Mas, ó vida humana incapaz de bons conselhos! Ó caridade maternal indignamente compreendida por filhos tão pérfidos! Nós, servimo-nos dos seus salutares preceitos como um pretexto para novos desregramentos! Honramos a intemperança, fazendo-a seguir publicamente do jejum; e como se tentássemos aliar Cristo com Belial, colocamos as bacanais à frente da sagrada Quaresma.

Ó dias verdadeiramente infames, e que deviam ser riscados da lista dos outros dias! Dias que nunca serão bastantemente expiados por uma penitência perpétua, e muito menos por quarenta dias de jejuns mal observados! Dir-se-ia, irmãos, que a licença e a voluptuosidade combinaram vedar-nos os caminhos da penitência, e que esses dias marcam a entrada desses caminhos para fazerem com que a devassidão seja um caminho aberto a piedade; e então já não me admiro de nesses dias haver apenas luxo e alguns rostos sem graça. Eu admito que seja fácil o cair-se da penitência na libertinagem; mas que se ascenda da libertinagem a penitência, mas que logo depois da satisfação o dos falsos prazeres daquela, se goze a purificadora amargura desta, é que não cabe de forma alguma na corrupção da nossa natureza.

Vós, pois, almas cristãs, a quem Jesus concedeu um certo amor a conta da Sua santa doutrina, sede sempre tementes a Ele. Que nem um só dia consiga diminuir uma parcela sequer da vossa modéstia e da vossa honestidade.

Estudai os vossos caminhos como o profeta, e segui aquele que vos for indicado pelos testemunhos de Deus; porque certamente haveis de encontrar nele a certeza, a norma e o firme repouso que há de ter principio na terra, mas que se há de consumar gloriosamente no céu. Amém.

Referências:

(1) A Igreja, conforme diz Bossuet, instituiu para os dias de Carnaval as chamadas Preces das Quarenta horas.

(2) Espist. I ad Donat, p. 3 (ediç. Dos Bened., 1726)

(3) Uma casca de madeira. Elipse lógica, de uso deplorável (Gandar)

(4) Vidi cuncta quae fiunt sub sole, et ecce universa vanitas et affitctio spiritus (Ecle 1, 14). O mais sábio dos homens é Salomão, que Bossuet considera como autor do Eclesiastes.

(5) «A sabedoria humana em tudo é sempre medíocre» (Boss., Hist. Uni.)

(6) Havia apenas 160 anos que se tinha feito a descoberta da América, e a colonização do Canadá, pelos franceses, era muito recente.

(7) É a nuvem luminosa, columna ignis (durante o dia, columna nubis), de que fala o livro do Êxodo 18, 21.

(8) (Is 30, 20.21) Bossuet inverteu a ordem dos pensamentos. O texto completo é este: Et erunt oculi tui videntes Praeceptorem tuum. Et aures tuae audient verbum post tergum monentis: Haec est via, ambulate in ea.

(9) Apolog., n. 45 – No ms. Lê-se: labi; mas os Beneditinos verificaram e corrigiram, de harmonia com o seu excelente costume.

(10) In ipso vivimus, et movemur, et sumus; sicut et quidam vestrorum poetarum dixerunt: ipsius enum et genus sumus. Genus ergo, quum simus Deis, etc. (Disc. de S. Paulo aos Athen., A, VII, 28).

(11) De Pallio, n. 5. Eis o próprio texto de Tertuliano: Ego nihil foro, nihil campo, nihil curiae debeo: nulli officio advigilo, nulla rostra praeoccupo, nulla praetoria observo: canales non odoro, cancellos non adoro, subsellia non conmilito, secessi de populo, in me unicum negotium mihi est. – A tradução de Bossuet está longe de ser literal.

(12) Assim se justifica o tão audacioso plural de justiça.

(13) Quam dulcia faucibus meis eloquia tua, super mel ori meo (Sl 18, 103). Desiderabilia super aurum et lapidem pretiosum multum: et dulciora super mel et favum (Sl 18, 2).

(14) Non aliquo extra posito commodo, sed in eo ipso quo judicia Dei custodiuntur, multa retributio: multa est quia gaudetur in eis (Enarr. I in Psal., XVIII, 12)

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(BOSSUET, Jacques-Bénigne. Sermões de Bossuet, Volume II. Tradução de Manuel de Mello. Casa Editora de Antonio Figueirinhas 1909 – Porto, 1909, Tomo II, p. 165-204)