O Apóstolo São João, por Mons. Baunard

Por Monsenhor L’abbé Louis Baunard (1828-1919)

Reitor da Universidade Católica de Lille

Discipulus ille quem diligebat Jesus – “João era o discípulo que Jesus amava” (Jo 21, 7)

Amados irmãos e irmãs em Cristo Jesus,
Salve Maria Santíssima!

Há tempos estava à procura de uma digna biografia do Evangelista São João e eis que, com a graça de Deus, encontrei esta obra de Monsenhor Louis Baunard, escrita em 1869 sobre o Discípulo Amado. Trata-se, como o próprio autor nos apresenta em seu prefácio, de um livro de doutrina e de piedade, no qual servir-nos-á para fortificar nossa fé nas verdades eternas e de contemplá-las em nossa oração mental diária.


ÍNDICE
Prefácio
Capítulo I. O começo da vida de São João
Capítulo II. Eleição e vocação de São João
Capítulo III. Educação divina do apóstolo São João
Capítulo IV. São João testemunha fiel de Jesus
Capítulo V. A pessoa divina de Jesus Cristo segundo São João
Capítulo VI. A promessa e a doutrina da Eucaristia no Evangelho de São João
Capítulo VII. São João durante a Ceia
Capítulo VIII. São João na Paixão de Jesus Cristo
Capítulo IX. São João na Ressurreição
Capítulo X. Primeiro testemunho de São João perante os Judeus. Conversão no Sanhedrim
Capítulo XI. São João em Samaria. Martírio de seu irmão Tiago. O concílio. A dispersão
Capítulo XII. São João e Maria. A assunção
Capítulo XIII. São João em Éfeso. As Igrejas da Ásia
Capítulo XIV. São João e as heresias
Capítulo XV. O Evangelho de São João
Capítulo XVI. A teologia do Evangelho de São João
Capitulo XVII. Primeira Epístola de São João. Prefacio de seu Evangelho. A lei da caridade
Capítulo XVIII. São João na porta Latina. São João em Patmos
Capítulo XIX. O Apocalipse de São João
Capítulo XX. Volta a Éfeso. Epístola a Electa. Epístola a Caio. O jovem convertido
Capítulo XXI. A escola de São João. Sua morte


APÊNDICE
I. Sobre a suposta estada de Maria em Éfeso
II. As Ruínas de Éfeso
III. Sobre o falso Prochoro e a viagem de São João
IV. Uma visita a Patmos

PREFÁCIO

Achava-me em Roma, há poucos anos, durante a Semana Santa. Na quinta-feira santa pela manhã deixara a cidade para esquivar-me à enorme multidão de peregrinos que cercam São Pedro, e dirigira meus passos para a basílica de São João de Latrão (1). Era completa a solidão nos vastos espaços semeados de plantas e ruínas, que separam Santa Maria Maior e Santa Cruz de Jerusalém. Roma desaparecia ao longe. Somente a cúpula de São Pedro dominava e resplandecia no horizonte.

Pela primeira vez visitava eu o Santuário do discípulo amado. Aqui e ali alguns fiéis oravam. Os cônegos celebravam solenemente o Ofício do dia. Ao lado do altar, exposta à veneração, estava uma mesa de madeira incrustada de ouro e rodeada de luzes. Disseram-me que era a mesa da última ceia, onde o Senhor se sentara ao lado de São João. Um diácono leu o Evangelho; era aquele em que João dizia que Jesus tendo amado os seus que estavam neste mundo, amou-os até o fim. Ao longo da nave, doze grandes estátuas de mármore branco, colocadas em duas filas, representavam os doze apóstolos que tinham comungado ao lado do discípulo. Aí estava todo o Cenáculo, magnífico e imenso, tal qual o Senhor encarregará Pedro e João de prepará-lo: Cenaculum grande, Cenaculum stratum. Por toda a parte encontrava eu o Amigo de Jesus como que vivo em seu templo; enquanto fora, no primeiro plano, abria-se a Porta Latina, onde ele sofrera por seu Mestre, sem, porém, ter tido a felicidade de morrer.

Foi nesse quadro e nesse dia que, pela primeira vez, a fisionomia celeste do apóstolo se animou para mim. Pensei vê-lo; quis ouvi-lo: tomei do seu Evangelho e por muito tempo meditei essas páginas divinas.

Aí passei a metade de um dia, do qual rogo aos céus que me conservem eterna lembrança; e, na mesma noite, escrevi a meus amigos em França que, se Deus me desse forças, sentir-me-ia feliz de encetar uma história de São João e voltar um dia àquele mesmo ponto a fim de a ofertar como homenagem.

Cumpro a primeira dessas promessas, e minha não será a culpa se não cumprir a segunda.

Pareceu-me além disso, que em nossos dias de esmorecimento e de trevas, não podia haver história mais adequada que a deste coração ardente e luminoso gênio. Ela satisfaz as questões mais vitais de nosso tempo, e também a mais religiosa necessidade das almas: a questão da verdade e o mister da caridade.

Primeiramente, João não é só a testemunha mais importante como a mais bem informada da verdade do cristianismo. Os inimigos de Jesus Cristo, até os mais contrários à Sua divindade, não contestam: o Evangelho de São João é decisivo com relação ao dogma do Verbo feito carne; e por isso, é ele, desde Juliano o Apóstata, a arena onde os sofistas juraram vencer ou morrer.

Toda a controvérsia, portanto, tem por objeto sua autoridade, a qual não me compete demonstrar aqui; a história não é própria para essas discussões; pode porém esclarecê-las, e é isso que esperamos desta narrativa sincera. Compreender-se-á melhor o livro sacro, conhecendo-se o autor. A verdadeira fisionomia do Discípulo, como que encoberta pela auréola, retomando por este esboço, o caráter inteiramente histórico de seus traços, iluminará os fatos cuja história ele escreveu; e a vida e o escrito, apoiando-se um sobre o outro, reciprocamente se confirmarão.

Assim quando, tendo primeiro acompanhado o Discípulo à escola de João Batista, o vimos trazer à escola de Jesus Cristo aquela virgindade, aquela magnanimidade, aquela corajosa ternura e fidelidade que fizeram com que o chamassem o discípulo preferido, quem diligebat, compreenderemos então que sob a ação desses dois mestres, outra não deveria ter sido a formação sobre-humana do evangelista da caridade.

Quando, depois, o vimos, seguindo Jesus, confidente o mais íntimo das palavras da vida, suspenso dos lábios do divino Mestre, o mais próximo de Sua glória no Tabor, de Seu coração na Ceia, de Sua Cruz no Calvário, compreenderemos o direito que tem o Evangelista de denominar-se por excelência a testemunha da Verdade.

Quando enfim, acompanhando São João às plagas Iônias, o encontrarmos no meio dos gnósticos do Oriente, à sombra das escolas da sábia Éfeso, mesclado às seitas místicas e às teosofias da Ásia e do Egito, vendo correr sua velhice neste antagonismo contra erros brilhantes, escrevendo num século tão curioso de ciência como de maravilhas, compreenderemos que tal devia ser a linguagem do Evangelista do Verbo, e do teólogo de sua divindade.

Essas condições diversas de idade, de país, de tempo serão uma explicação tão natural quão simples das particularidades notadas no Evangelho. Será a testemunha autenticando e comprovando seu depoimento pela identidade de seus traços. E o discípulo de João Batista, o apóstolo querido de Jesus, o íntimo de sua pregação, de sua paixão e de sua glória, o filho adotivo de Maria, o evangelista do Verbo, o profeta de Patmos, o pastor de Éfeso, o missionário de Iônia, fundindo-se numa personalidade única e harmoniosa, somos obrigados a reconhecer que, mesmo se não houvesse assinado seu Evangelho, foi João quem escreveu, estas coisas, e seu testemunho é verdadeiro.

Mas, não foi unicamente com o fim de reconquistar para a história esta existência completa que empreendi este trabalho. Quiz também apresentar na figura de João, ao lado da testemunha e do doutor da verdade, o modelo da caridade; daquela que se entrega por amor, que transborda de dedicação, que se extingue no sacrifício.

Disse sacrifício, pois seria com efeito um engano ver em São João somente o tipo duma ternura especulativa e mística, como certas pinturas e lendas o fazem crer. Dessa maneira o desfiguram. Convém lembrar que ele se intitulou o Discípulo predileto; mas não se deve também esquecer que Jesus o chamava filho do Trovão. Vê-se nele piedosamente o evangelista do Cordeiro; esquece-se que este Cordeiro foi vítima sangrenta e que o amar é segui-lO até a imolação.

João pedira um lugar de honra à direita de seu Rei, mas convém não esquecer que ele se comprometia a beber o cálice de amargura, e que cumpriu a palavra. Vemo-lo na Ceia, inclinado sobre o coração de Jesus; não o consideramos bastante no Calvário, ao pé da Cruz. Não nos enganamos, portanto, o amor que João apresenta, são as energias sobrenaturais da paixão de que ele mesmo dizia:

“A caridade nada teme, a caridade perfeita não está no temor; e temer não é amar com perfeição” (1Jo 4, 18)

Para ele a perfeição não consistia em contemplar, mas em trabalhar e sofrer. A gloriosa montanha da Transfiguração, onde seguiu a Jesus, não foi senão o degrau do crucificamento. Se descansa em êxtase no seio de seu Mestre, não adormece. Levantai-vos e caminhemos. É para caminhar para o Calvário, para marchar ao combate, que o Senhor o chama; e mais tarde, nenhum apóstolo sustentou nem comandou tão brilhante combate como ele. Refutou a gnose, detestou o nicolaísmo, anatematizou Cerintho e seus erros; padeceu pela justiça e odiou a iniquidade; amaldiçoou Roma, inebriada de volúpia e de sangue; sobre a cabeça das nações mostrou suspensa a taça dos flagelos divinos, repreendeu as Igrejas da Ásia por sua tibieza, e, até em seus anjos denunciou as máculas. Escrevendo à mocidade cristã que formará, São João antes de tudo a felicita por ser forte. Fala somente de lutas, de triunfos e de vitórias. Atravessou o fogo, suportou o exílio, desejou a morte: Vinde, Senhor Jesus, vinde! porque para mostrar que ama, é pouco sofrer, se não conseguir morrer.

Tal qual acabo de esboçar, poderão esta alma e esta existência ser dignamente representadas neste livro? Seria loucura esperá-lo.

“Ah! – Dizia Agostinho aos católicos de Hipona, explicando o Evangelho de São João, – eu que vos falo, poderei esquecer quem sou, e o assunto de que trato? Trato das coisas divinas, e sou apenas um homem. Trato das coisas de espírito, e não sou senão um mortal. Longe de mim, meus queridos, a vã presunção de sondar esses mistérios” – Et ego qui suscepi vobis loqui, cogitandus sum qui susceperim a vobis, et quid susceperim. Suscepi enim tractanda divina homo, spiritualia carnalis, a eterna mortalis. Etiam a me longe sit vana praesumptio, etc. (S. Aug. in Joan Tract XVIII, cap. V, col. 1536)

“Mas, acrescentava aquele grande homem, as lições que vos apresento, tomo-as primeiro para mim. É talvez temerário querer escrutar assim as palavras de Deus; mas, se não podemos penetrar até à fonte, bebamos juntos à torrente” – Sed pro modulo meo capio quod vobis appono; ubi aperitur, pascor vobiscum; ubi élauditur, pulso vobiscum. Et si nondum penetramus ad fontem,de rivulo bibamus. (Id, ibid., et Tract, XXI, XII, col. 1571).

— E por sua vez dizia São Crisóstomo ao povo de Antioquia:

“Vinde, vinde, pois não é um artista, um atleta ou um retórico que vou fazer-vos ouvir. É um homem, cuja voz ressoa como a do trovão no céu. O universo tornou-se cativo daquela voz inspirada pela graça; porque além de encher o mundo, é repleta de uma harmonia indescritível. Este filho do trovão, que Jesus amou, que é uma das colunas da Igreja da terra, que bebeu do cálice de Jesus, que viu abrir-se o céu e que descansou sobre o seio de seu Mestre, vem hoje até vós. Um grande espetáculo vai começar; o céu inteiro é a cena, a terra o teatro, todos os anjos são espectadores; e com eles, os homens que são ou desejam ser semelhantes aos anjos. No entanto, João é um homem sem ciência e sem letras, um pescador de Betsaida, o filho de Zebedeu! Que nos poderá dizer este homem da Galileia que só conhece a sua pesca? Não irá nos falar de redes e de peixes? Não, falar-nos-á unicamente de coisas celestes ignoradas antes dele. Esse filósofo hauriu toda a sua sabedoria nos tesouros do Espírito Santo, e ela vai fazer empalidecer todos os pensamentos sublimes de Pitágoras e de Platão” (Chrysost. in Joan. Homil. I.)

O grande bispo concluiu seu discurso pedindo que prestassem ao estudo do santo Evangelista a integridade de intenção e a pureza de coração. Sem ter os mesmos títulos, peço no entanto as mesmas disposições para a leitura deste livro de doutrina e de piedade.

É um livro de doutrina, e eu o recomendo a todos que desejarem instruir-se da verdade. Ela não tem escola superior a do Evangelho, e em parte alguma se mostra mais profunda e mais linda que no Evangelho de São João.

É um livro de piedade, e eu o recomendo aos cristãos,

— aos sacerdotes: o sacerdócio não tem mais alta personificação que a de São João;

— às virgens: João era virgem;

— às mães: ele mereceu ser dado por filho à mãe de Deus;

— aos jovens: ele era o mais moço dos apóstolos;

— aos velhos: é o nome que ele dá a si próprio em suas epístolas.

— ofereço-o às almas que sofrem: ele estava ao pé da cruz;

— às almas contemplativas: ele esteve no Tabor;

— a todas as almas que querem dedicar-se a seus irmãos e amá-los em Deus: a caridade não pode ter ideal mais puro que o amigo de Jesus.

Quisera que semelhante livro não fosse inútil na biblioteca do homem que duvida e procura. Mas, o que estimaria principalmente, é que ele ocupasse lugar no oratório entre o crucifixo e a imagem da Virgem.

Os fiéis que o lerem, acharão no Discípulo que Jesus amava, a tríplice predileção da santa Igreja especialmente neste momento: o culto da Eucaristia, o do Sagrado Coração e o de Maria.

Eis o que há de atual neste volume. Eis também, espero, o que aí se poderá encontrar de útil aos homens e de agradável a Deus.

Orléans, quinta-feira santa
25 de Março de 1869.

Referências:
(1) Esta Basílica, a rainha das Igrejas, é dedicada aos dois Santos João Batista e João Evangelista, como se vê na inscrição de sua fachada: Salvatori in Honor. SS. Johan. Bapt. et Evangel.