Capítulo 7: São João durante a Ceia

I

Havia três anos que João não deixava seu Mestre. Gravara no espírito suas palavras, fixara-lhe os traços na alma. Tinha igualmente participado de seus sofrimentos. Também, em parte alguma se veem os ultrajes dos Judeus, o ódio dos fariseus, a inveja dos sacerdotes contra o Filho de Deus, em uma história mais seguida e mais comovedora, como no Evangelho de São João.

Mas, nestes últimos tempos, o apóstolo verificava que a cólera a princípio em surdina, prorrompia dia a dia em ameaças mais sinistras. Chegavam já às primeiras violências (1). Um dia os fariseus mandaram gente para prender a Jesus (2). Outra vez quiseram apedrejá-lO (3). João sabia que, em um conselho, haviam decretado que o Justo devia morrer (4). Ele o vira escapar-se de suas mãos deicidas (5). Enfim, os discípulos, conforme ele nos conta, tinham sido obrigados a seguirem o Mestre para uma espécie de exílio, na cidade de Efrem, ao lado do deserto, e ali viver escondidos para se furtarem aos males extremos a cair sobre essa cabeça sagrada (6).

A festa da Páscoa, porém, tendo o feito voltar à cidade, o entusiasmo popular rompeu à sua entrada, com tal impulso de gratidão, que os inimigos do Salvador resolveram acabar com Ele, e João previu tristes acontecimentos.

Muitas vezes Jesus dissera:

“Ainda não é chegada a minha hora” – Meum tempus nundum impletum est (Jo 8, 8)

O Discípulo ouvia-o dizer agora:

“É chegada a hora em que o Filho de Deus será glorificado. Em verdade vos digo, é necessário que o grão de trigo seja enterrado para que dê seu fruto.

O que ama a sua vida, perdê-la-á; e o que aborrece a sua vida neste mundo, guarda-a para a vida eterna” – Jesus autem despondit eis, dicens: Venit hora ut clarificetur Filius hominis. Amen, amen dico vobis: Nisi granum frumenti cadens in terram mortuum fuerit, ipsum solum manet; si autem mortuum fuerit, multum fructum affert.

Qui amat animam suam perdet eam; et qui odit animan suam in hoc mundo, in vitam aeternam inveniet eam (Jo 12, 23)

Ora, nota o discípulo, era à sua próxima morte que se referia quando assim falava (7).

Jesus repetia ao povo que breve a Luz lhes seria retirada (8); mas jamais esta luz mostrara brilho mais divino. Sua alma parecia já cheia do céu, a que já quase atingia, e João que a seguia nessa fase suprema, podia augurar a vinda próxima de revelações mais elevadas e maiores.

Era a última semana de vida do Filho de Deus. No quarto dia, tendo ido ao adro do templo, propôs ao povo dupla parábola. Tendo contado primeiro o crime dos maus vinhateiros que mataram o filho do dono da vinha, falou depois de uma grande ceia que um rei preparara para as bodas de seu filho, e para a qual convidara os pequenos e os pobres:

«Vinde, pois está tudo pronto»

Tinha igualmente representado o seu reino sob o emblema de virgens que vão com as lâmpadas, às bodas do esposo para o banquete nupcial. Assim, ao aproximar-Se sua exaltação como chamava a Sua morte, duas coisas Lhe preocupavam igualmente o coração: a Eucaristia e a cruz, o dom de Si no amor e a imolação no sacrifício.

No dia seguinte, dia 13 do mês de nisã, era quinta-feira e o primeiro dos dias em que os Judeus tinham costume de comer pão de fermento, Jesus retirara-Se da cidade; fora provavelmente para Betânia, à casa de Lázaro que quis visitar pela última vez.

«O Senhor, diz Bossuet, saía todas as tardes de Jerusalém e se escondia em Betânia, de onde voltava todas as manhãs para fazer o seu trabalho. Em deixando a cidade todas as noites, escapava a seus inimigos que, com medo do povo, não ousavam apoderar-se dEle em pleno dia» (9)

Foi aí que os discípulos Lhe vieram dizer:

“Senhor, onde quereis que preparemos o necessário para juntos comermos o cordeiro pascal?” – Accesserunt discipuli ad Jesum, dicentes: Ubi vis paremus tibi comedere pascha? (Mt 26, 17)

Mas esta Páscoa não devia ser uma páscoa comum. Jesus querendo dar-Lhe uma solenidade mais particular, escolheu dois dos discípulos, os maiores, para aprontá-la. Um era São João.

“Chamou Pedro e João, diz o Evangelho, e mandou-os, dizendo: Ide preparar-nos a Páscoa para a comermos” – Et misit Petrum et Joannem, dicens: Euntes parate nobis pascha, ut manducemus (Lc 22, 8)

João começava assim a desempenhar no cenáculo, o belo papel que não mais abandonara: convinha que aquele que fora há tempos iniciado mais intimamente nas profundezas do mistério, fosse o primeiro ministro, uma vez chegada a hora de sua consumação.

Tendo, pois, chamado em particular os dois discípulos, Jesus deu-lhes certas instruções mais precisas.

“Logo que entrardes na cidade, disse Ele, sair-vos-á ao encontro um homem levando um cântaro de água. Dir-lhe-eis: O Mestre te manda dizer: Onde é o aposento em que hei de comer a Páscoa com os meus discípulos! E ele vos mostrará uma grande sala ornada, e fazei aí os preparativos necessários” – Et ipse ostendet vobis caenaculum magnum stratum, et ibi parate (Lc 22, 12)

O interesse particular que Jesus Cristo mostrava à solenidade, esses pormenores domésticos tornando-se de repente dignos da preocupação de um Deus, e o requinte de esplendor nAquele que se dignara nascer num presépio, viver numa choupana, e que ia amanhã morrer numa cruz, eram para os apóstolos o prenúncio de grandes coisas que Jesus preparava, e João entendia que estavam a atingir às manifestações supremas do amor.

Obedeceu ao Mestre. Os intérpretes pretendem que foi um dos discípulos, João Marcos que teve a honra de emprestar a casa para a Ceia. Pedro e João ali prepararam, segundo as instruções formais de Jesus, uma sala grande e bela, mostrando na magnificência e solenidade deste primeiro santuário cristão, o caráter próprio do culto futuro (10).

II

Estando tudo pronto, e chegando à noite, Jesus entrou no cenáculo com os doze apóstolos para a ceia legal, a ceia dos ázimos.

O êxodo prescrevera aos Israelitas que, cada um comesse a Páscoa em família; tomavam essa refeição de pé, cingidos os rins e o bordão na mão, como viajantes, em lembrança da saída milagrosa do Egito.

Mas o Senhor pensava numa viagem mais longa; e as palavras de despedida juntavam-se palavras de amor:

“Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta Páscoa antes que padeça, porque, vos digo que não a tornarei mais a comer até que tudo se cumpra no reino de Deus” (Lc 22, 15-16)

A antiga Páscoa, que Jesus recordava, tinha sido a passagem da idolatria egípcia à unidade de Deus proclamada no deserto:

«Eu sou o que sou»

A nova Páscoa, cuja vinda Ele preparava, era a passagem da fé no Deus vivo dos Judeus, à fé no Deus presente no meio dos homens até o fim dos séculos:

«Eis que estou convosco!»

Comeu-se então o Cordeiro que os discípulos repartiram entre si, no meio de colóquios cheios de esperança e de temor. As despedidas do Mestre, a o anúncio de seus sofrimentos diante desta carne imolada, podiam desde já esclarecer no espírito de João o sentido profético deste nome de vítima, o primeiro que ouvira dar ao Redentor:

«Eis aqui o Cordeiro de Deus!»

É por ele mesmo que vamos agora saber os trechos que revelam a cada passo a sua presença e a impressão profunda guardada por seu coração.

A Páscoa legal terminada, Jesus levantou-Se da mesa, conta o Discípulo, para cumprir um mistério ainda maior do que a ação figurada que acabava de terminar. Como, dentro de poucos instantes, ia fazer suceder outro sacrifício, e um novo altar ao antigo sacrifício e a antiga Páscoa, sentiu-Se tomado de um respeito divino para com esses pescadores, humildes, pobres e pequenos, chamados por Ele à honra de serem sacerdotes. Levantou-Se então diante deles como se fossem príncipes; cingiu-Se para os servir, deitou água numa bacia, tomando a forma e o mister de um escravo; e Ele, o Deus Criador, foi visto de joelhos, lavando os pés desses homens, e enxugando-os em seguida com uma humildade que os enchia de pasmo (11).

Não era raro naquele tempo e nesse país lavar os pés dos hóspedes antes da refeição. Mas o que significava esse rito, uma vez a ceia terminada? Que outra ceia maior do que a manducação do Cordeiro Pascal ia então realizar-se? Os apóstolos se admiravam, diz ainda São João; Pedro reclamava. Não compreendiam porque semelhante honra era conferida a homens. Mas não era o homem que o Senhor humilhado venerava neles, era Deus, de quem iam tornar-se os ministros e o templo. Porque dentro de pouco tempo Jesus lhes ia dizer: «Fazei esta consagração em memória de mim» neste momento, porém, dizia-lhes:

“Lavando os vossos pés, dei-vos o exemplo, para que como eu vos fiz, assim façais vós também” – Exemplum enim dedi vobis, ut quemadmodúm ego feci vobis, itá et vos faciatis (Jo 13, 15)

Grandeza e humildade, dignidade e caridade do ministério divino; Jesus Cristo ensinava aos apóstolos que estas duas coisas deveriam ser doravante inseparáveis, e que, se a missão deles, eminente, sobre-humana, era de consagrar a hóstia e penetrar nos céus, havia outra que os prosternava à terra. É a que os dedica a servir, perdoar, purificar, absolver; a lavar todos os pés que a terra tiver manchado, curar todos os pés que os espinhos tiverem ferido; e a enxugá-los com uma caridade paciente que nada irrita:

“Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque o sou. Se eu, pois, sendo vosso Senhor e Mestre, vos lavei os pés, deveis, também vós, lavar-vos os pés uns aos outros” – Vos vocatis me magister et Domine, et benè dicitis. Si ergò ego lavi pedes vestros, Dominus et magister, et vos debetis alter alterius lavare pedes (Jo 13, 13)

Estando dada a lição de pureza e de caridade, Jesus pôs-Se de novo à mesa. Recomeçou a refeição. É o que os intérpretes chamam a segunda ceia. Nos Evangelistas algo de mais solene anuncia aqui a hora sagrada e a aproximação do mistério. Para esta ceia augusta, vemos os discípulos, segundo o costume do Oriente, meio deitados sobre uma espécie de leitos. Os convidados de ordinário tomavam lugar três a três, e estes leitos de festa chamavam-se: triclinia, por causa do uso e da disposição (12). É o que indica São João, quando diz que tinha o rosto voltado ao peito e à face do Mestre. Pedro estava do outro lado do triclinium como veremos mais longe; Jesus entre os dois. O lugar do jovem discípulo era o que se chamava «o seio do pai de família» a que o Evangelho faz alusão. Além disso havia aqui uma significação mística; Orígenes compara o repouso sagrado de João no seio do Verbo, ao repouso do próprio Verbo no seio de seu Pai (13).

Ali, no silêncio de uma hora recolhida, Jesus consumou o mais estupendo milagre que jamais inventara o amor. Depois da primeira palavra de São João: O Verbo se fez carne, a mais surpreendente foi a que João ouviu Jesus pronunciar nesta solenidade: Comei, isto é o meu corpo; bebei, isto é o meu sangue.

Lembrou-se então de todo o discurso feito aos Cafarnaitas. O que Jesus lhe apresentava era o pão prometido, «o pão vivo, o pão do céu que dá a vida o mundo»; era, «esta carne, este sangue que nos faz ficar em Deus e Deus em nós». A promessa era fiel, a profecia cumpria-se, a vida do Cristo perpetuara-se, estava a encarnação continuada, e o mistério do Cordeiro de Deus definitivamente revelado a São João.

«Convém notar, diz um santo religioso, que os apóstolos, no Cenáculo não sentiam mais aquele horror que se havia apossado deles quando Nosso Senhor lhes anunciou pela primeira vez, que ia dar-lhes Sua carne a comer e Seu sangue a beber. Sente-se uma delicadeza tão grande nesse meio escolhido de ocultar Seu corpo e Seu sangue sob as espécies do pão e do vinho! É somente o pasmo, o pasmo do reconhecimento extasiado diante de graça tão grande! Está assim satisfeito para sempre a necessidade mais profunda do coração humano! Necessidade da verdade e do amor, do amor tornado sensível, da verdade tornada palpável, da vida em nós, da união à vida que é o próprio Deus. E quando o sacerdote tiver que distribuir aos homens a verdade e a vida, só terá, por assim dizer, que tomá-la em si mesmo e inoculá-la, porque a palavra viva, o amor vivo desceram nele e ali fazem a sua morada» (Pe. Olivaint, Retraite 1866, p. 53)

A intimidade do Mestre e do discípulo concentrava-se ao mesmo tempo, numa união tão profunda que o pensamento do homem não ousaria concebê-la. Apenas consagrado o cálice com o divino sangue, era entregue a João: e de suas mãos passava ele às de seus irmãos. Passou em seguida do cenáculo às catacumbas, das catacumbas às basílicas, dos países civilizados às regiões bárbaras, das nações que começam aos povos que se extinguem. Veio até nós; e irá da mesma forma até o fim do mundo; não deverá parar antes de chegar à consumação dos séculos. E as maravilhas de pureza, de coragem e de caridade que Ele produzia nesse dia na alma de São João, ainda serão repetidas, e não cessarão de manifestar-se em todo o coração que, cansado de ter bebido no cálice do mundo, terá coragem de vir beber no cálice de Deus!

Estava, com efeito, instituído o sacerdócio para perpetuar o mistério:

«Fazei isso em memória de mim!»

João tinha comungado, João estava ordenado. Jesus o tinha verdadeiramente «amado até o fim».

III

No entanto Jesus sofria. Estava Judas perto dEle, não longe de João, pois que o traidor podia pôr a mão no mesmo prato que o Mestre. O Senhor sabia o seu projeto; via sua desgraça: era isso que O entristecia.

Parece que a crença na presença real do Filho de Deus na hóstia, tinha já sido para aquele desgraçado um primeiro motivo de pecado. Quando Jesus Cristo prometeu o pão divino aos Judeus de Cafarnaum, Judas tinha sido um daqueles para quem esse discurso parecera duro, pois seu Mestre incontinente havia dito aos seus:

“Não vos escolhi eu em número de doze? Mas um de vós é um demônio” – Nonne ego vos duodecim elegi? Et ex vobis unus diabolus est (Jo 6, 71)

É o privilégio da Eucaristia de fazer demônios quando não faz anjos.

A Ceia viu cumprir-se a profecia sinistra. As práticas sobre a caridade misturavam-se na conversa palavras de queixa que revelavam a mágoa profunda de Jesus. É de São João e dos outros que dizia: “Vós sois puros”. É, porém, de Judas que acrescentava: “Mas não todos” (14). À mesa, dizia Ele de João e dos outros: “Não me queixo de todos, pois sei os que tenho escolhido e que estimo”. Era a Judas que dirigia estas palavras: “É necessário que se cumpra o que diz a Escritura: O que come o pão comigo levantará contra mim o seu calcanhar” (15).

Qual não foi a agitação no cenáculo ao ouvir-se esta denúncia geral, que, apesar de não nomear pessoa alguma, fazia cair a suspeita sobre todos! João bem se lembra! Colocado ao lado do Mestre, ouvira os primeiros queixumes, que os outros, mais afastados, não perceberam, como se vê pelo seguimento. E não teria sido mesmo para abrir-se com ele que Jesus o tinha querido tão perto do seu coração? João recolhia as confidências e adorava essas antecipações misericordiosas; notava uma a uma as solicitações pacientes; admirava-se como é que o homem pode resistir e trazer consigo a triste liberdade de vencer, de desprezar e perturbar um Deus.

Com efeito o Homem-Deus perturbou-Se conforme afirma São João, tal qual uma mãe que vê os remédios ineficazes e que vai perder seu filho. Era preciso acabar com isso; e, dirigindo-se a todos, o Senhor resignou-Se a denunciar em voz alta o grande crime de um deles:

“Em verdade, em verdade, vos digo, um de vós me há de entregar” – Jesus turbatus est spiritu, et protestatus est et dixit: Amen, amen dico vobis, quia unus ex vobis tradet me (Jo 13, 21)

Qual era o traidor? Os discípulos olham-se, hesitam, interrogam-se, uns aos outros. Mais agitado ainda que os outros, João atira-se receoso ao seio do Mestre como para desviar o golpe ou fechar, se possível, a ferida feita ao amor. Mas só ele pode contar aquele instante triste e terno (16).

“Estava, pois, diz ele, um dos discípulos de Jesus recostado sobre o seu seio, e era o discípulo que Jesus amava.

Simão Pedro, fazendo sinal a este discípulo para interrogar a Jesus, perguntou-lhe: De quem fala Ele?

João ouviu, inclinou-se, deixou cair a cabeça sobre o peito de Jesus e disse-Lhe: Quem é Senhor? Jesus então, — confidencialmente, sem ainda nomear ninguém, — É aquele, disse Ele, a quem eu oferecer o pão molhado. E, tendo molhado o pão, deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes.

Logo que Judas recebeu o pão, o demônio tomou posse desse homem. — O que tens de fazer, faze-o depressa, recomenda-lhe o Mestre misericordioso, como para mostrar-lhe que conhecia seus projetos.

Judas saiu logo. Era já noite.

Nenhum dos que estavam à mesa com Jesus percebeu a que propósito falara Ele a Judas.

Mas João que o conta, podia ignorar? Deus abrira-se com ele de sua maior dor.

«Um anjo, diz um piedoso bispo, o tinha animado no jardim das Oliveiras, outro anjo o consola inclinando-se sobre ele na mesa da Ceia» (17)

Dir-se-ia, fato estranho! Que o Amigo divino carece do amigo mortal e que Aquele que tomou toda a nossa humanidade não escapa à lei que, na hora do sofrimento, faz vergar a criatura, por mais forte, por maior que seja, para outra, muitas vezes mais fraca, que nada sabe, nada pode, mas que pode ao menos amar, compreender e aliviar o nosso peso, tomar a si uma parte, enfim, aplicar a nossos males o bálsamo da compaixão, bálsamo soberano e tão benfazejo que um homem aqui se torna capaz de consolar um Deus.

IV

Assim que Judas saiu, o Senhor rompeu num discurso sublime (18). Nada mais podia conter o impulso da alma que se queria dar de todo, antes oprimida pela presença dolorosa do malvado.

São João consagra quatro capítulos inteiros ao discurso da Ceia. É a parte mais admirável do Evangelho. Nem ordem nem arte humana alguma preside a essas palavras que só um Deus podia dizer; mas sente-se transbordar por completo a alma que acaba de se entregar no amor, e que amanhã vai sacrificar-se na morte. São João as recolhia todas, pois estava então reclinado sobre a fonte mesmo da Divindade; e ao tom sobre-humano que elas conservam em seu livro, vê-se que o discípulo colocou a cabeça perto do coração adorável do qual se faz eco, e que ele está cheio de Deus.

Jesus Cristo começa por dar graças ao Pai pelo trabalho maravilhoso que acabava de fazer; e assim como outrora Deus se havia louvado da bondade de sua obra depois da criação, o Cristo louva-Se da excelência ainda maior da obra da eucaristia e da Redenção:

“Agora o Filho do Homem é glorificado e Deus é glorificado nEle. Se Deus é glorificado nEle, também Deus O glorificará em Si mesmo, e glorificá-lO-á logo” – Nunc clarificatus est Filius hominis; et Deus clarificatus est in eo. Si Deus clarificatus est in eo, et Deus clarificabit eum in semetipso. Et continuo clarificabit eum (Jo 13, 31)

Depois da ação de graças começava a despedida. Mas que promessas divinas consolavam essa despedida! E que esperanças alçavam os olhos para o céu?

“Filhinhos, dizia ele, estou apenas convosco por pouco tempo. Buscar-me-eis mas aonde eu vou, não podereis vir. – Filioli, adhuc modicum vobiscum sum. Quaeritis me, et sicut dixi Judaeis. Quo ego vado, vos non potestis venire, et vobis dico modo (Jo 13, 33)

Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei… a fim de que onde eu estiver, também vós possais estar – Mandatum novum do vobis: ut diligatis invicem, sicut dilexi vos, ut et vos diligatis invicem (Jo 13, 34)

Em verdade, em verdade, vos digo, que aquele que crê em mim; esse fará as obras que eu faço; e fará outras ainda maiores por que devo voltar para o Pai – Amen, amen, dico vobis, qui credit in me, opera quae ego facio, et ipse faciet, et majora horum faciet, quia ego ad Patrem vado.

E tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, eu farei, para que o Pai seja glorificado no Filho – Et quodeumque petieritis Patrem in nomine meo, hoc faciam, ut glorificetur Pater in Filio

Rogarei ao Pai e ele vos dará outro Paráclito, um outro consolador, para que fique eternamente convosco – Et ego rogabo Patrem, et alium Paracletum dabit vobis, ut maneat vobiscum in aeternum

Não vos deixarei órfãos: eu hei de vir a vós e nesse dia conhecereis que eu estou em meu Pai e vós em mim, e eu em vós. – Non relinquam vos orphanos; veniam ad vos. Vos autem videtis me: quia vivo ego et vos vivetis. In illo die vos cognoscetis quia ego sum in Patre meo, et vos in me, et ego in vobis (Jo 14, 12, 13, 16, 18, 20)

Jamais palavras tão elevadas tinham sido pronunciadas. Felipe admirava-se, pensava que o céu ia abrir-se diante de si, e pedia para ver o Pai. Judas pensava que havia chegado a hora em que o Cristo ia enfim manifestar-Se a Israel. Tomé perguntava que caminho ia tomar o Messias, e queria segui-lO. Todos viam bem nesses adoráveis discursos o hino de sua glória futura mas não compreendiam por que preço ia essa glória ser adquirida, e como era esta ação de graças o testamento onde Deus moribundo deixava a última palavra de Sua doutrina, Suas supremas vontades, e a herança de Suas graças.

A última palavra sobre si, é que, ele é o Filho de Deus, absolutamente igual a seu Pai:

“Felipe, dizia ele, há tanto tempo estou convosco, e ainda não me conheceis? Quem me vê, vê meu Pai. Não credes que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim?” – Dicit ei (Philippo) Jesus: Tanto tempore vobiscum sum et non cognovistis me? Philippe, qui videt me, videt et Patrem. Quomodo tu dicis: Ostende nobis Patrem. Non creditis quia ego in Patre, et Pater in me est? (Jo 14, 9)

— Tomé, dizia ele ainda, eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim – Dicit ei jesus: Ego sum via, et veritas, et vita: Nemo venit ad Patrem nisi per me (Jo 14, 6)

Sua última vontade, perpetuamente repetida, era o mandamento do amor:

“Amai-me; se me amais, guardai meus mandamentos e meu Pai vos amará e nós viremos fazer nossa morada convosco. Amai-vos é esse o meu preceito, que vos ameis como vos amei. Esse é o sinal pelo qual conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” – Si diligitis me mandata mea servate.

Qui habet mandata mea et servat ea, ille est qui diligit me. Qui autem diligit me, diligetur à Patre meo (Jo 14, 15-21)

Mandatum novum do vobis: ut diligatis invicem, sicut dilex vos.

In hoc cognoscente omnes quia discipuli mei estis, si dilectionem habueritis ad invicem (Jo 13, 34-35)

Sua suprema herança enfim, é o dom do Espírito Santo, Espírito de Verdade, que procede do Pai, e que devia ensinar todas as coisas futuras. Depois, como coroação soberana de todos os dons, uma paz sobre-humana, uma paz intrépida mesmo no seio da tempestade; uma paz universal nos indivíduos e nas nações quando souberem amar-se uns aos outros; uma paz divina, superior à que dá o mundo, uma paz final que ninguém nos poderá tirar e que deverá enfim eternizar-se no céu. Que discursos reuniu o discípulo nessa noite de lembrança indelével e que ondas de luz desciam subitamente sobre São João e sobre nós! (19).

A conferência terminou por uma bela oração. Jesus levantou os olhos, diz o Discípulo, olhou para o céu, e, dirigindo-se a Deus:

“Pai, disse ele, é chegada a hora, glorifica a teu Filho. Eu te glorifiquei sobre a terra, consumei a obra que me deste a fazer. E agora, Pai glorifica-me com aquela glória que tive em ti antes que houvesse mundo. Revelei o teu nome aos homens que me deste do mundo, e eles guardaram a tua palavra, Pai santo, guardai-os todos, que sejam um assim como nós. Eu estou neles como estais em mim. Que eles assim sejam consumados na unidade. Quero, ó Pai, que onde eu estiver, também eles estejam, a fim de que vejam a glória que me deste, pois que me amastes antes da criação do mundo” – Haec locutus est Jesus, et, sublevatis oculis in caelum, dixit: Pater venit hora, clarifica Filium tuum, ut Filius tuus clarificet te.

Ego te clarificavi super terram. Opus consummavi quod dedisti mihi ut faciam.

Et nunc clarifica me tu, Pater, apud temetipsum clarífícate quam habui priusquàm mundus esset apud te.

Manifestavi nomen tuum hominibus quos dedisti mihi de mundo. Tui erant, et mihi eos dedisti, et sermonem meum servaverunt.

Pater sancte, serva eos in nomine meo quos dedisti mihi, ut sint unum sicut et nos.

Pater quos disisti mihi, volo ut ubi sum ego, et illi sint mecum, ut videant claritatem meam quam dedisti mihi, quia dilexisti me ante constitutionem mundi (Jo 17, 1, 4, 11, 24)

Tendo dito isto, dispôs-se Senhor a morrer. Ele via aproximar-se o inimigo invisível:

“Vem o príncipe deste mundo, dizia Ele a seus apóstolos, vem o inimigo, mas em mim não tem poder algum. Porém, para que conheça o mundo que amo ao Pai assim como me ordenou o Pai assim faço” – Venit enim princeps mundi hujus, et in me non habet quidquam.

Sed ut cogniscat mundus quia diligo Patrem, et sicut mandatum dedit mihi Pater, sic facio. Surgit, eamus hinc (Jo 14, 30)

Estava terminada a despedida, a oblação voluntária da vítima santa precedia a imolação, todo o discurso do cenáculo terminava por este brado de sublime coragem:

“Levantai-vos e vamo-nos daqui!”

Eis o que viu São João, eis o que ele repetiu (20). A santa humanidade prestes a quebrar-se, como um vaso de puro alabastro, deixava transparecer toda a chama interior da alma de Jesus. Era luz tal que os discípulos ficaram ofuscados. Dizia um deles:

“Eis ali que falais agora claramente. E vemos que conheceis tudo. Por isso acreditamos que saístes de Deus!” – Dicunt ei discipuli ejus: Ecce nunc palam loqueris et proverbium nullum dicis. Nunc scimus quia scis omnia et non opus est tibi ut quis te interroget: in hoc credimus quia a Deo existi (Jo 16, 29)

Poder-se-ia por acaso achar em outro lugar uma palavra onde a divindade se manifestasse em traços mais largos? E, ao mesmo tempo, não é principalmente ali que transbordam esses tesouros «de humanidade e de benignidade que, diz São Paulo, jorraram do seio do nosso Salvador?» Nada havia, no entanto, que denotasse a pompa de uma oração preparada, como o diálogo de Sócrates moribundo. A elevação e profundeza da doutrina temperavam-se mutuamente pela sua própria doçura, e são para a alma como o azul do céu. É a conversação sublime, porém, familiar e íntima de um pai com seus filhos, de um amigo com seus amigos, no silêncio de uma noite à sós, numa ceia religiosa. Pedro ali faz as suas promessas vivas e suntuosas, Tomé insinua suas dúvidas, Felipe expõe seus desejos, Judas suas esperanças; dir-se-ia um Catecismo. E no entanto, nada pode exprimir a impressão daquela palavra. Escuta-se, adora-se, ela vibra em todo o ser, como se acabasse de cair dos lábios do Senhor; mergulha-se nesse abismo, volta se ali sem cessar, como a essas cartas profundas, nas quais uma mão moribunda depositou para nós os seus últimos lampejos. Elas vos transportam a ponto de dizer como Bossuet:

«Não posso mais, Senhor, não posso mais!»

Elas só bastariam para povoar uma solidão e encher uma vida, pois que elas só foram suficientes para transformar o mundo. E admira-me que se possa ler, ouvir e gozar de outra coisa no fim de todas as ceias, ao pé de todos os calvários, em todas as ações de graças, em presença de todos os sacrifícios, quando tudo se apaga, e não mais se pode ouvir senão duas vozes imortais, a da alma que diz a Deus: Senhor, mostrai-me o caminho, e a de Deus que responde: Eu sou o caminho, a verdade e a vida!


Referências:

(1) Quærebant eum Judæi interficere (Jo 4, 18) Quærebant ergo eum apprehendere (Jo 7, 30)

Ab illo ergo die cogitaverunt ut interficerent eum (Jo 11, 53)

(2) Miserunt principes et Pharisæi ministros ut apprehenderent eum (Jo 7, 32)

(3) Tulerunt ergò lapides ut jacerent in eum (Jo 7, 59)

(4) Colligerunt ergo Pontifices et Pharisaei concilium, etc. (Jo 11, 47)

(5) Quidam ex ipsis volebant apprehendere eum; sed nemo misit super eum manus (Jo 8, 44)

Haec locutus est Jesus, et abiit, et abscondit se ab eis (Jo 12, 36)

(6) Jesus jàm non palam ambulabat apud Judaeos, sed abiit in regionem juxtà desertum, in civitatem quae decitur Ephrem, et ibi morabatur cum discipulis suis (Jo 12, 54)

(7) Hoc autem dicebat, significans quâ morte esset moriturus (Jo 12, 33)

(8) Adhuc modicum lumen in vobis est, etc. (Jo 12, 35)

(9) Bossuet, Médit, sur l’Evangile, XIX. jour, p. 496

(10) Fora da cidade de Jerusalém, a trezentos passos da porta de Sion e na encosta da montanha, havia um edifício isolado, de dois andares que depois se chamou o «Cenáculo do Senhor». No andar térreo, a primeira sala atapetada, segundo o costume do Oriente, servia de sala de jantar. Na segunda, menos espaçosa, Jesus Cristo lavou os pés dos apóstolos. No andar superior era a mesma disposição, e ali se reuniam os discípulos. Foi ali que o Senhor celebrou a última Páscoa e instituiu o Sacramento da Eucaristia; ali apareceu aos discípulos no dia da ressurreição; ali o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos… Enfim, o santo cenáculo tornou-se o primeiro templo cristão que viu o mundo e foi deste lugar que partiram os apóstolos pobres e miseráveis para subir a todos os tronos da terra. (V. M. de Chateaubriand, Itinir, de Paris à Jerusalém.

(11) Surgit à coenâ, et ponit vestimenta sua; et cúm accepisset linteum, praecinxit se.

Deindé mittit aquam in pelvim, et coepit lavare pedes discipulorum, et extegere linteo quo erat praeciocius. (Jo 13, 4ss)

(12) V. Mauduit, Analys. De l’ Evang., t. IV, dissertação XXXIV, p. 620.

(13) Existimo hoc symbolum denotare Joannem recubuisse in sinibus Verbi Dei, perindé ae ipsum Dei Verbum est in sinibus Patris, juxtà illud: Unigenitus qui est in sinu Patris (Orígenes, In Joan)

(14) Et vos mundi estis, sed non omnes (Jo 13, 10)

(15) Non de omnibus vobis dico. Ego seio quos elegerim; sed ut adimpleatur Scriptura: Qui manducat mecum panem levabit contra me calcaneum suum (Jo 13,18)

(16) Erat autem recumbens unus ex discipulis ejus in sinu Jesu quem diligebat Jesus.

Innuit ergo huic Simon Petrus, et dixit ei: Qui est, de quo dicit?

Itaque cum recubuisset file surprá peetus Jesu, dicit et: Domine, qui est?

Respondit Jesus: lhe est, cui ego intinctum panem porrexero. Et cum intiuxisset panem, dedit inde Judae Simonis Iscariotae.

Et post buccellam introivit in eum Satanas. Et dixit ei jesus: Quod facis, fac eitius.

Hoc autem nemo scivit discumbentium ad quid dixerit ei. (Jo13, 22ss)

(17) Alterum angelum, in sinu recumbentem habuit. Quem respiciens consolationem sensit (R. D. Fr. Joan Lopez. Epise. Croton, App. – Romae 1596, t. III, p. 32, col. I).

(18) Cum ergo exisset, dixit Jesus: Nunc clarificatus est Filius hominis… (Jo 13)

(19) «No meio de todos, vede São João chegando-se mais familiarmente a Jesus. Vede com que amor e atenção fixa seu mestre querido, e ouve com ansiedade todas as suas palavras: pois só ele foi capaz de nos transmitir tão fielmente a narrativa» (São Boaventura, Médit. de la vie de J.C., ch. LXXIII, p. 359)

(20) Em todo o Evangelho, São João atribui-se este papel confidencial, e por conseguinte assim o fazem os místicos que acrescentaram à história sacra suas piedosas lições: «Nossa Senhora disse então: “Desejaria bem saber o que fez e disse meu Filho durante essa ceia”. E Pedro fez sinal a João para contar. João começa a relatar tudo. Assim passam todo o dia falando nele! Oh! Com que atenção escutava Madalena, e como ainda mais atenta estava Nossa Senhora! Quantas vezes durante essa narração não disse ela: “Bendito seja meu fIlho Jesus!”» (São Boaventura, Médit. Sur la vie de J. C., ch. LXXXV).

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(BAUNARD, Monsenhor L’abbé Loui. O Apóstolo São João. Rio de Janeiro, 1974, p. 109-130)