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São João em Éfeso. As Igrejas da Ásia

Capítulo 13: São João em Éfeso. As Igrejas da Ásia

I

Quando Maria foi arrebatada aos céus, quando todos os irmãos partiram, e a Judeia, perturbada pelas discórdias, profanado pelo paganismo dos costumes, rebaixada em sua fé pelos Idumeus, e em sua liberdade pelos procuradores Felix, Festus, Albinus e mais tarde Gessius Florus, pareceu-lhe tender para essas desolações preditas pelo Mestre, João resolveu deixar também Jerusalém e procurar outro campo para a santa semente.

Vamos encontrá-lo na Ásia proconsular. Não viera só. Acompanhavam-no os anciãos da Igreja de Jerusalém que não tinham fugido além do Jordão. Papias de Hierápolis menciona um enorme cortejo de chefes que se reuniram a João. Eram íntimos dos grandes apóstolos e, tendo-os visto e ouvido, podiam repetir «o que haviam dito André, Pedro, Felipe, Tomé, Tiago, Mateus e os outros discípulos do Senhor» (1).

Não se pode fixar com exatidão a data de sua chegada à Éfeso. Calcula-se que seja posterior ao ano 54 de Jesus Cristo, porque naquela época os Atos falando na pregação de São Pedro nessa cidade, não fazem menção alguma de São João. Muitos presumem até que só veio depois da ruína de Jerusalém. Continue reading

São João e Maria. A Assunção

Capítulo 12: São João e Maria. A Assunção

I

São João não se dirigiu imediatamente para a diocese da Ásia. Um dever sagrado e caro o prendia ainda à Judeia, demorando-se junto da mãe de Deus, que se tornara sua, pelo legado divino da Cruz. Assim, apesar do encanto elevado da lenda, que dá Maria como vivendo em Éfeso, a crítica tem de renunciar a esta suposição completamente incompatível com a tradição, a cronologia e a história. Tudo faz crer que Maria ficou em Jerusalém, e ali morreu.

Nessa hipótese, mais que verosímil, ela não se apartou dos lugares que lhe eram tão caros pelos passos de seu Filho. Ali, na cidade santa, pátria-mãe da fé, e ponto de encontro dos irmãos, fica ela com João até o seu derradeiro dia. Ali desce também ela ao túmulo que não devia guardar seus despojos; e assim compreende-se como, no tempo de São Jerônimo, o mausoléu da virgem era venerado no vale de Josafá, no mesmo lugar onde ainda o encontram os viajantes e os peregrinos.

Qual foi a vida de Maria e do apóstolo na pobre casa onde João a recolheu ao descerem do Calvário? Ninguém o contou; e não sei mesmo se alguma língua humana seria capaz de repetir dignamente aquela conversação «que já era dos céus». Bossuet não se anima:

«Dizer-vos, exclama ele, o que eram as ocupações e os discursos de Maria durante sua peregrinação, penso que não é cousa que os homens devam tentar. Quem poderia descrever a impetuosidade desse mútuo amor, para o qual concorria tudo o que a natureza tem de terno, tudo o que a graça tem de eficaz? É certo, cristãos, que podemos ter uma vaga ideia de todos estes milagres; mas imaginar qual era a veemência dessas correntes de chamas, nem mesmo os serafins, ardentes como o são, jamais poderão fazê-lo» (1)

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São João em Samaria. Martírio de seu irmão Tiago. O concílio. A dispersão

Capítulo 11: São João em Samaria. Martírio de seu irmão Tiago. O concílio. A dispersão

I

Entretanto a caridade começara seu reinado nessa bela comunidade da Igreja do cenáculo, que ia tornar-se o tipo ideal das Igrejas e cuja lembrança pura devia iluminar as últimas instruções de São João em Éfeso.

“Os discípulos perseveravam na doutrina dos apóstolos, na participação a fração do pão e na oração. Todos que acreditavam eram considerados iguais; seus bens estavam em comum. Iam orar juntos no templo, partindo o pão pelas casas com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus, agradavam ao povo, e cada dia via-se crescer o número daqueles que se haviam de salvar nesta união” (At 2, 42)

Com efeito, o Evangelho não era mais o pequenino grão de mostarda da parábola; a árvore saia da terra. A verdade não se levantara ainda para os povos sentados à sombra da morte; mas uma cidade, uma província até então cismática, entreabria os olhos a claridade celeste; e, coisa extraordinária! Era esta mesma Samaria, outrora inóspita e sobre a qual João pedira a Jesus que fizesse descer o fogo do céu. Convertidos por Felipe, um dos sete novos diáconos, e batizados por ele, os Samaritanos esperavam que a mão dos apóstolos, únicos investidos do poder, lhes conferisse o Espírito Santo. Pedro foi designado para essa missão. João não podia separar se dele, partiram, pois juntos (1). Convinha que aquele que outrora chamara o fogo vingador sobre os Samaritanos, sabendo enfim agora de que Espírito era fizesse cair sobre suas cabeças mais propícia chama. Continue reading

Primeiro testemunho de São João perante os Judeus

Capítulo 10: Primeiro testemunho de São João perante os Judeus. Conversão no Sanhedrin (Sinédrio)

Conversão no Sanhedrin (Sinédrio)

I

Os três anos passados na intimidade de Jesus Cristo, tinham feito de João a testemunha do Evangelho, e as relações familiares com o Filho de Deus são suficientes para explicar o seu conhecimento e garantir-lhe a sinceridade. Mas, quem nos explicará a nova energia, que vai fazer do discípulo predileto um apóstolo e um mártir, e essa transformação súbita e inefável, que do pescador de homem, fará hoje o mais sublime dos Evangelistas? Este espírito precisava ainda de um último raio de luz; era mister uma chama a este coração para fundir-se e tornar-se de bronze a alma fiel e terna.

O Espírito Santo fez o milagre, o milagre necessário, sem o qual nada se explica, milagre que Jesus Cristo profetizara no Evangelho de São João. Foi unicamente em São João que a teologia referente ao Espírito Santo recebeu as revelações e os desenvolvimentos que formam um conjunto doutrinário completo.

Conta-nos o discípulo que, na última entrevista de Jesus, na véspera de sua morte, os apóstolos ouvindo-O falar em partida, ficaram enternecidos; mas o Senhor lhes dissera:

“Não se inquiete o vosso coração, porque meu Pai vos dará outro Consolador que ficará eternamente convosco”

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São João na Ressurreição

Capítulo 9: São João na Ressurreição

I

As memórias de João nos transportam em seguida a três dias mais tarde. O discípulo retirara-se para uma casa em Jerusalém, talvez sua própria casa, como o insinua São Lucas, na qual hospedara a mãe de Deus, e que Nicéforo e outros historiadores dizem estar situada na colina de Sion. Pedro ali se achava com ele, acabrunhado pelos remorsos (1).

Foi ali que chegou à João a primeira notícia de um fato maravilhoso. No domingo pela manhã, entra precipitadamente uma mulher. Era Maria Madalena que corre e diz:

“Levaram o Senhor do sepulcro e não sei onde o puseram” – Cucurrit ergo Maria Magdalene, et venit ad Simonem Petrum et ad alium discipulum quem amabat Jesus, et dicit illis: Tulerunt Dominum de monumento, et nescimus ubi pouerunt eum (Jo 20, 2)

Que foi? Que veio esta mulher contar? E o que tinha visto?

Pela manhã algumas mulheres da Galileia, entre as quais o Evangelho cita Maria, mãe de Tiago o Menor ou o Justo; Salomé, mãe de João; Joanna, mulher de Chusa, da casa de Herodes, muito cedo se haviam dirigido ao sepulcro de Jesus. Era o sepulcro situado no centro de um jardim sobre a encosta da montanha do Calvário, e cavado no rochedo como se veem ainda os túmulos das Patriarcas e dos Reis de Judá. Essa gruta sepulcral e esse jardim eram de um Judeu distinto, José de Arimateia, que, auxiliado por Nicodemos, ali depositara o corpo do divino Mestre, depois de tê-lO perfumado e envolvido em tiras, como era costume no Oriente. Mas esse embalsamamento rápido, preparado às pressas na véspera de um sábado, era insuficiente. A fim, pois, de concluir o trabalho de piedade suprema, as santas mulheres para lá se dirigiam antes mesmo do amanhecer, levando consigo vasos cheios de aromas, inquietas, porém, perguntando-se entre si, quem levantaria a pedra que fechava o sepulcro. Continue reading

São João na Paixão de Jesus Cristo

Capítulo 8: São João na Paixão de Jesus Cristo

I

Depois do hino de ação de graças, Jesus Cristo, tendo dado o sinal para deixar o cenáculo, encaminhou-Se para o monte das Oliveiras, onde costumava orar durante a noite.

Foi durante esse trajeto que fez a seus discípulos uma parte do discurso que nos transmitiu São João, e do qual precisa bem o lugar e as circunstâncias. Caminhavam juntos lentamente, por uma noite triste e suavemente iluminada pelo luar da Páscoa. E, ao atravessar as vinhas que, naquele lugar cresciam como grandes arbustos, Jesus, segundo o costume, tomava da natureza que se lhe antolhava, imagens capazes de melhor fazer compreender a sua doutrina.

“Eu sou, dizia ele, a verdadeira vida, e meu Pai é o agricultor. Eu sou a videira, e vós as varas. O que permanece em mim, e eu nele esse dará muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” – Ego sum vitis vera, et Pater meus agrícola est… Ego sum vitis, vos palmite. Qui manet in me et ego in eo, hic fert fructum multum: quia sine me nihil potetis, facere (Jo 15, 1, 5).

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São João durante a Ceia

Capítulo 7: São João durante a Ceia

I

Havia três anos que João não deixava seu Mestre. Gravara no espírito suas palavras, fixara-lhe os traços na alma. Tinha igualmente participado de seus sofrimentos. Também, em parte alguma se veem os ultrajes dos Judeus, o ódio dos fariseus, a inveja dos sacerdotes contra o Filho de Deus, em uma história mais seguida e mais comovedora, como no Evangelho de São João.

Mas, nestes últimos tempos, o apóstolo verificava que a cólera a princípio em surdina, prorrompia dia a dia em ameaças mais sinistras. Chegavam já às primeiras violências (1). Um dia os fariseus mandaram gente para prender a Jesus (2). Outra vez quiseram apedrejá-lO (3). João sabia que, em um conselho, haviam decretado que o Justo devia morrer (4). Ele o vira escapar-se de suas mãos deicidas (5). Enfim, os discípulos, conforme ele nos conta, tinham sido obrigados a seguirem o Mestre para uma espécie de exílio, na cidade de Efrem, ao lado do deserto, e ali viver escondidos para se furtarem aos males extremos a cair sobre essa cabeça sagrada (6).

A festa da Páscoa, porém, tendo o feito voltar à cidade, o entusiasmo popular rompeu à sua entrada, com tal impulso de gratidão, que os inimigos do Salvador resolveram acabar com Ele, e João previu tristes acontecimentos.

Muitas vezes Jesus dissera:

“Ainda não é chegada a minha hora” – Meum tempus nundum impletum est (Jo 8, 8)

O Discípulo ouvia-o dizer agora:

“É chegada a hora em que o Filho de Deus será glorificado. Em verdade vos digo, é necessário que o grão de trigo seja enterrado para que dê seu fruto.

O que ama a sua vida, perdê-la-á; e o que aborrece a sua vida neste mundo, guarda-a para a vida eterna” – Jesus autem despondit eis, dicens: Venit hora ut clarificetur Filius hominis. Amen, amen dico vobis: Nisi granum frumenti cadens in terram mortuum fuerit, ipsum solum manet; si autem mortuum fuerit, multum fructum affert.

Qui amat animam suam perdet eam; et qui odit animan suam in hoc mundo, in vitam aeternam inveniet eam (Jo 12, 23)

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A promessa e a doutrina da Eucaristia no Evangelho de São João

Capítulo 6: A promessa e a doutrina da Eucaristia no Evangelho de São João

I

Se a Pessoa divina, que João nos mostra em seu Evangelho, só tivesse aparecido na terra durante alguns anos, para ir depois extinguir-Se irrevogavelmente pela morte, não deixando senão a lembrança histórica de uma beleza incomparável, porém para sempre desaparecida, teria sido para os homens o objeto de uma admiração religiosa, porém inconsolável. Teríamos considerado especialmente feliz e privilegiada a geração a que fosse dado o espetáculo da visita de um Deus; mas nosso amor ciumento perguntar-se-ia a si mesmo, porque nesta universal e imortal família de Jesus Cristo, só os homens de uma pequena cidade e de uma época longínqua tiveram a honra de Seu convívio divino. Parece mesmo que não teria sido conforme os conselhos e o amor d’Aquele que, segundo a expressão de Bossuet «não se arrepende de seus dons», e que, tendo nos dado seu Filho, se obrigava a no-lo dar de maneira permanente e digna.

A presença de Jesus, pão de vida, na comunhão, ia resolver essas questões e satisfazer a essa necessidade de Deus e do homem. João no-lo ensinou, com os comentários colhidos dos lábios desse próprio Deus vivo e presente no meio de nós até o fim dos tempos. Os três outros historiadores das ações de Jesus nos contaram igualmente a instituição desse augusto Sacramento, mas somente no Evangelho de São João se lê sua promessa, natureza e maravilhosa virtude. Continue reading

A pessoa divina de Jesus Cristo segundo São João

Capítulo 5: A pessoa divina de Jesus Cristo segundo São João:

I

A principal conclusão a tirar do espetáculo dos milagres de Jesus era a divindade d’Aquele que dizia:

“Se não acreditais nas palavras que digo, acreditai nas obras que faço”

O próprio Jesus tirava essa conclusão em sublimes discursos apologéticos que fazia regularmente depois de cada prodígio, e que ocupam lugar preponderante na memória de seu fiel auditor. Evidentemente para São João, Jesus é, antes de tudo, o Verbo, isto é, a palavra substancial que ele via espalhar-se «cheia de graça e de verdade» sobre os espíritos rebeldes ou sobre a multidão entusiasmada.

Mas não bastava a Jesus proclamar-se o Filho de Deus, era preciso que todo o seu ser o afirmasse também. Ora, no Evangelho de São João, é Jesus Cristo verdadeiramente Deus? Mostra-se Ele como Deus em toda sua pessoa, em suas ações, em sua vida? Sustentou Ele esse título, simples, constante e naturalmente? E não é a sua fisionomia reproduzida do natural pelo seu discípulo predileto, «uma aparição», e não aparece ela como uma visão terrestre da divindade?

Convém determo-nos e meditarmos sobre tudo isto. É preciso contemplar em Jesus a inteligência, a coragem, o amor. É preciso considerar, como, sendo cada uma de suas faculdades absolutamente perfeita e infinita, São João teve que concluir no infinito da perfeição de Deus.

Primeiro, a inteligência de Jesus, segundo São João, tem uma soberania que excede a qualquer limite, e desafia qualquer comparação com o espírito do homem.

Nós, homens, só possuímos a inteligência contingente, e João ouvia o Mestre chamar-se a si próprio a inteligência substancial e por essência:

“Eu sou a verdade” – Ego sum veritas (Jo 14, 6)

“Eu sou a luz do mundo” – Ego sum lux mundi (Jo 8, 12)

“Eu sou o princípio” – Principium qui et loquor vobis (Jo 8, 25)

Ao passo que, em nós, o exercício da inteligência procede em grande parte da educação humana, Jesus proclama no Evangelho de São João, que sua inteligência era do céu e que a recebera de Deus:

“Eu falo nas coisas celestes porque é do céu que venho. Não falo por mim mesmo, mas segundo o que ouço… Minha doutrina não é minha, mas d’Aquele que me enviou. O Pai ama o Filho e mostra-lhe tudo o que faz. Não digo ao mundo senão o que aprendi de Deus. Não faço nada por mim mesmo, mas como meu Pai me ensinou, assim falo” (Jo 3, 12-13.31)

Enfim, enquanto em nós, toda a ciência, mesmo a que vem da Revelação divina, é uma ciência reflexa e transmitida, ela é, em Jesus, pessoal e direta. Nós temos o raio de luz, Jesus possui o foco luminoso; nós bebemos no regato, Jesus é a fonte:

“Meus juízos são verdadeiros, porque não estou só, mas sou eu e o Pai que me enviou. Eu estou no Pai, e o Pai em mim” (1)

É a ciência constante, perpétua, intuitiva:

“Aquele que me enviou habita em mim. Quem me vê, vê aquele que me enviou. Eu e meu Pai somos apenas um!” (2)

Com efeito, escutai como fala Jesus Cristo! Sua eloquência é sublime porque vem das alturas supra-terrestres. É a expansão do Verbo de Deus. Por isto não se acha na palavra de Jesus aquela excitação viva que inspirava aos profetas ímpetos ardentes e imagens audaciosas, quando o Espírito divino, tomando-os em suas asas, transportava-os ao seio das visões sobre-humanas. Em Jesus nada denota a exaltação momentânea de um instante excepcional: o Espírito de Deus o arrebata, mas habita nEle: não é possuído, subjugado por nada, mas possui-se a si próprio. O raio não o fulmina, porque Ele é a luz. Sem esforço atinge às alturas, porque é ali o lugar da sua alma, e está no próprio seio do mistério que revela.

Eis porque essa palavra é sempre tão simples quão natural e elevada.

“Os filhos de rei, diz Bossuet, nascidos no meio das grandezas, falam sem ênfase alguma em cetros e corôas”

Jesus não discute, não replica, não declama. Nem mesmo procura provar, pois, para a sua demonstração, que tem a luz de fazer senão mostrar-se? «É ou não é» eis todo o discurso, tal qual o queria Jesus. Em verdade, em verdade; é essa a única argumentação de Jesus Cristo no Evangelho de São João. A palavra é por Ele semeada como os grãos nos campos, profusamente, porque os têm em quantidade; serenamente porque é o Senhor; com simplicidade, porque pode humilhar-se sem nada perder de sua grandeza; enfim, com confiança, porque sabe o dia e a hora da colheita. Ele mesmo definira a eloquência: o escoadouro do coração: Ex abundantiâ cordis os loquitor. E não era aqui uma profunda emanação da própria alma de Deus?

Além disso, a nossa inteligência é limitada, e João mostra em Jesus Cristo a inteligência infinita.

Ele tem a ciência profunda que lê no fundo das almas:

“Sabe o que está no homem sem precisar que ninguém lh’O diga” – Opus ei non erat ut quis testimonium perhibiret de homine. Ipse enim sciebat quid esset in homino (Jo 2, 25)

E a samaritana não se cansa de admirar como o seu olhar divino penetrou-lhe os tristes segredos da vida.

Tem a ciência imensa. — Ela conhece o passado:

“Aquele que vier a mim, eu lhe revelarei o que estava oculto desde a criação do mundo” (Mt 13, 35)

Ela antecipa o futuro:

“Agora é o juízo do mundo, agora o príncipe deste mundo será lançado fora” – (Jo 12, 31)

Dizia ainda:

“Levantai os olhos e vede esses campos que já estão alvejando para a ceifa!”

Ouvia soar a hora da ressurreição geral dos povos. Via levantar-se toda a espécie de mortos para vir à luz. Via erguer-se ao longe um novo culto em espírito e em verdade. Sendo Ele mesmo profeta, via-se morrer e tombar no sepulcro como o grão na terra, mas para emergir como a espiga. Dizia que seu sangue seria seu batismo, e sua paixão sua glória, que seu cadafalso seria a alavanca que levantaria o mundo; que tudo enfim seria consumado na unidade e não haveria mais do que um só rebanho e um só pastor. Tudo o que temos visto de mais milagroso há mil e oitocentos anos, todas as luzes e direções que a humanidade há de receber do Evangelho até o fim dos tempos, Jesus o predisse, e seu discípulo podia dar-lhe este testemunho:

“Ó Mestre, sabeis tudo, e não é necessário que vos interroguem, cremos que viestes de Deus” – Nunc scimus quia scis omnia, et non est opus ut quis te interroget. In hoc credimus quia à Deo existi (Jo 16, 30)

Outra enfermidade da inteligência do homem, é hesitar e ceder; um terceiro poder da inteligência de Jesus é não conhecer a dúvida, permanecer certa e senhora de si mesma. Esta dupla protestação de Jesus, «Em verdade, vos digo» forma particular ao Evangelho de São João, é a afirmação da verdade íntegra que se possui com calma, e que diz o que vê.

Esta certeza serena jamais abandona o Mestre. Repelem sua palavra, apela para seus atos. Querem surpreender seu segredo:

“Até quando terás o nosso espírito indeciso? Se és o Cristo, dizei claramente” – Quousque animan nostram tollis? Si tu es Cristus, die nobis palàm (Jo 10, 24)

Mas a palavra íntima não faz diferença da palavra pública: Deus não pode desdizer-se de sua divindade. Discutem-na, Ele a sustenta; negam-na, Ele a confirma. Ousam objetar-lhe que Ele não conhece as letras; responde que é a Sabedoria de Deus em pessoa. Não querem ver nEle senão o filho de José, o operário cuja família conhecem em Nazaré; Ele assegura tranquilamente que o próprio Deus é seu Pai e que veio de Deus. Não se comove se seu discurso surpreende; se sua linguagem escandaliza, não a corrige; se sua palavra parece severa, não a modifica. Se os incrédulos O abandonam por causa de sua doutrina, compadece se dos dissidentes, mas deixa-os partir; a deserção dos seus não muda o que está, e a cada movimento de espanto por suas asserções, o Verbo de vida responde por uma afirmação ainda mais positiva.

Se, como o definiram, a eloquência é o som de uma grande alma, a eloquência de Jesus é o som de uma alma divina. Fénelon disse:

“Enquanto a palavra do homem significa o que ele fez, a palavra de Deus faz o que ela diz”

É a palavra criadora por quem tudo foi feito, a palavra de vida por quem somente tudo subsiste. Ela participa de todos os atributos divinos: o poder, a bondade, a fecundidade, a simplicidade, enfim, a imortalidade; e ver-se-á passar o céu e a terra, antes que passe ou pereça uma só sílaba caída dos lábios de Jesus.

II

A Coragem de Jesus, sua força indomável, sua grandeza de alma, mostram os característicos divinos com brilho ainda maior. Alguém jamais O viu recuar na defesa de sua fé e da verdade? Quando os Judeus se riem dEle e que com seu desdém fazem voltar à sua província de Galileia, este profeta do campo, João no-lo mostra do alto dos pórticos do templo, em presença da multidão, anunciando que é o Cristo (3). Tratam-no de blasfemador, João ouve-O responder:

“Glorifico a meu Pai, e não tem meu Pai glória alguma mais elevada do que esta”

Acusam-no de desprezar a lei do sábado; responde que faz o que vê fazer seu Pai, o criador incansável, do qual é enviado. Insinuam-lhe uma sentença contra uma mulher culpada; Ele escreve na areia a sentença misteriosa dos denunciadores.

Se lhe pedirem ao menos para atenuar suas censuras, para ter condescendências com as pessoas altamente colocadas, e compromissos de doutrinas para com os orgulhosos; Ele poupa os humildes, perdoa aos pecadores, porém desmascara os hipócritas, confunde os soberbos, porque Ele é a verdade e eles são a mentira. São João faz a seguinte observação: eram cegos voluntários, eram corações insensíveis, eram covardes a quem os fariseus amedrontavam, e que preferiam a glória do homem à glória de Deus (4).

Mas Jesus só se preocupa com a glória de Deus, e a protegerá contra a violência, assim como a defendeu contra a oposição.

Atentam contra sua vida, Ele não o ignora:

“Procurais matar-me, porque não compreendeis as minhas palavras” – Quaeritis me interficere quia sermo meus non capit in vobis (Jo 8, 37)

Por acaso alguém poderá matar a verdade?

Mandam servos para prendê-lo: Ele se compadece dessa pobre gente, e lhes diz que bem sabe qual o fim que os traz; mas, em vez de se retratar, anuncia que breve subirá à um lugar onde o não poderão prender (5). Ficam empolgados e de perseguidores tornam-se discípulos.

Tramam sua morte: Jesus vai a ela. Mestre, dizem João e os discípulos assustados, ainda agora queriam os Judeus apedrejar-vos, e ides outra vez para lá? (6). Ele repete que é a luz do mundo e que o esclarecerá até que venha a noite.

Essa noite não o assusta; porque a verdade terá uma alvorada ainda mais bela.

“Quando tiverdes elevado o Filho do homem acima da terra, sabereis quem sou” – Quum exaltaveritis Filium hominis, tunc cognoscetis quia ego sum (Jo 9, 28)

São João O viu viver para a verdade, é para a verdade que Ele irá morrer: Eu vim ao mundo, dizia ao Procurador romano, o divino réu, nasci a fim de dar testemunho a verdade (7).

Enfim, na cruz, guando não Lhe restava mais que um sopro de vida, quis ainda, com um tranquilo e derradeiro olhar, certificar-se de que toda a verdade se havia cumprido. E tudo está consumado, disse Ele ao expirar.

Eis o que São João viu e que devia repetir. Tal força de caráter, tal magnanimidade seria unicamente humana? E, «se a vida e a morte de Sócrates são a de um homem, não serão de um Deus a vida e a morte de Jesus?».

III

Enfim, o amor, a bondade de Jesus, tem no Evangelho de São João tais profundezas que por toda a parte se revela o infinito divino.

Era o amor imenso, e, enquanto o nosso amor, limitado a seu objeto, abrange um pequeno círculo, o amor de Jesus Cristo transborda em «todo o mundo».

“Pai, dizia Ele, eu não rogo somente por estes, mas rogo também por aqueles que, dóceis à palavra, hão de crer em mim; para que todos sejam unidos, como vós, ó Pai, sois em mim, e eu em vós; a fim de que eles sejam em nós uma mesma unidade” (8)

Era o amor absoluto, entregando-se por completo, sem excetuar pessoa alguma. Enquanto em nós, o coração só quer um objeto nobre para a sua predileção, a predileção de Jesus é para os pequenos, os pobres, os descaídos, os miseráveis, deixando o rebanho para buscar a ovelha ferida que carrega nos ombros e traz para o redil. Passou na terra afastado dos príncipes e dos grandes. Chamou a si os ignorantes e os pecadores. Amou aos humildes a ponto de ajoelhar-se e lavar-lhes os pés. Havia na Samaria uma mulher que sofria sob o peso do pecado: Jesus Cristo cansou-se a fim de ir buscá-la no meio do seu povo. Havia na Judeia uma pecadora que se tornara o escárnio de todos: Jesus tendo lhe perdoado, conduziu a junto à sua cruz, onde ela tanto chorou, que os céus mesmo admiraram-lhe a dor. Enfim, confiou sua Igreja a um pescador vulgar, e, quando quis conferir-lhe esse poder, não lhe perguntou o que tinha nem o que sabia, mas certificou-se de que este homem sabia amar, e que saberia morrer.

É o amor generoso e desinteressado. Quando pensa Ele em si? Multiplica o pão para a multidão faminta, mas quanto a Ele, vive de esmolas e jejua no deserto. Nas bodas de Caná faz a água tornar-se vinho, mas pede um copo de água a uma estranha. Enquanto toda dedicação exige retribuição, o amor de Jesus Cristo não impõe condições e aquele que O traiu pode novamente vir a ser seu amigo, assim como o que O matou. Enfim, enquanto o homem ama com parcimônia e quer os melhores dons de si, são apenas meios dons, Jesus dá-se em pessoa e todo inteiro. É a sua Vida que Ele nos dá com abundância (9): não encontramos no Evangelho de São João expressão mais familiar a Jesus do que esta.

Era o amor perpétuo, perene, imortal. João assim o chamava: Como tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim, e este amor perde-se na própria eternidade, no seio da qual Jesus nos quer perto de si.

Ora, o amor é o traço mais característico da Divindade. Deus charitas est. A antiguidade o sabia. Quando gravava o nome de Deus no frontispício de seus templos, antepunha o nome da bondade antes do da grandeza: Ótimo, Máximo. Os próprios bárbaros não pensavam de outra forma, e, como dizia um Scytha a Alexandre, se ser Deus, é ser bom, quem porventura se mostrou mais Deus do que o boníssimo Jesus?

«Podereis imaginar, disse um escritor, a mais perfeita harmonia vital ao serviço de uma grande alma, do coração mais valoroso, da coragem mais vigorosa? Podereis imaginar, esta vida heroica e sagrada, sempre inspirada, sempre pronta para morrer, sempre recolhida e em paz, firme na certeza, na real serenidade, nesta alegria completa que dá a união com Deus, com todo o universo, e com todos os espíritos em Deus?… Podereis imaginar todas essas forças esplendidas, juntas, ordenadas; este resumo do universo, esta vida universal constantemente governada em Jesus pelo amor e pela bondade? Podereis imaginar Jesus diante de pobres homens abatidos pela dor, de criaturas magoadas, de corações despedaçados, e de pobres escravos, possessos, acorrentados?» (10)

Foi nessa perfeição e beleza soberana que João vira o Homem-Deus levantando os olhos ao céu, invocando seu Pai, pondo as mãos sagradas na cabeça do doente que o chama com fé, derramando abundantes lágrimas sobre o túmulo de um amigo; e fazendo jorrar a vida de sua alma e de suas mãos; fazendo correr a graça nos corpos e nas almas desses entes queridos. Ele o tinha visto com um ligeiro movimento ordenando a natureza, fazendo compreender sua palavra por um gesto verdadeiro, pela emoção dos lábios, pelo tom da voz, pela luz da face. Havia lido nesse olhar, do qual, diz o Evangelho, um só raio bastaria para conquistar um apóstolo, para transformar um homem, para arrebatar as almas para sempre. Este espetáculo por si só era outra eloquência, outra revelação da divindade. Sentia-se estar «na companhia do Pai e do filho». Estava-se com Deus tão realmente como se estará no céu.

Tal é o retrato que João pinta de seu Mestre. Nada cito que ele não tenha dito, ele nada escreveu que não tivesse visto. Pela irremediável enfermidade humana, toda grandeza perde seu prestígio vista de muito perto. Três anos passados na familiaridade da alma de Jesus tinham feito crescer aos olhos de seu discípulo o brilho de sua beleza moral.

Qual de vós me convencerá de pecado? dizia o Justo. Há mil e oitocentos anos que o Evangelho sustenta o mesmo desafio ao mundo. Desmentiu-o o mundo? Acharam os séculos uma única ambiguidade, uma só fraqueza, uma sombra nessa justiça? Eclipsou-a alguma beleza? Pretendeu alguma igualá-la? Cumpriu suas promessas o Evangelho do Verbo encarnado?

Ora, ainda uma vez vos pergunto, a pena ou o pincel poderia criar, imaginar tal retrato, não existindo qualquer original que se aproximasse, que pudesse mesmo dar uma ideia e fornecer o modelo? Deus não se cria, não se inventa uma figura divina, porque «o inventor seria então maior que o herói». Se João pôde exprimir o ideal divino é que este ideal viveu debaixo de seus olhos, e que, como ele próprio o confessa, gozou durante três anos da visão, da palavra e do contato da divindade. Para nos dar então uma imagem verdadeiramente divina, só teve que recordar-se e descrever.

Que auditor tinha Jesus de sua palavra! Que contemplador de suas obras! Que discípulo de sua doutrina!

“Oh! Contemplador espiritual! Oh! Querubim alado, cantavam os velhos cristãos, vós vistes a face mesma de Deus!” – Speculator spiritalis, quasi cherubim sub alis. Dei videns faciem (Hymni latini medii aevi, t. II, apud F. J. Mone)


Referências:

(1) Ego ex-meipso non sum locutus, sed qui misit me Pater… Quae ego loquor, sicut dixit mihi Pater, sic loquo (Jo 12, 49)

Doctrina non est mea, sede jus qui misit me (Jo 7, 16)

Pater enim diligit Filium, et omnia demonstrat ei quae ipse facit (Jo 8, 28)

Ego quod vidi apud Patrem meum loquor (Jo 8, 38)

(2) Et si judico ego, judicium meum verum est, quia solus non sum, sed ego et qui misit me Pater… Non creditis quia ego in Patre, et Pater in me est? (Jo 8, 16)

Pater in me est, et ego in Patre (Jo 10, 38)

(3) Clamabat Jesus de templo docens, etc. (Jo 7, 28)

(4) Dilexerunt gloriam hominum magis quam gloriam Dei (Jo 12, 43). Quomodo vos protestis credere, qui gloriam ad invicem accipitis, et gloriam quae a solo Deo est non quaeritis? (Jo 12, 44)

(5) Quaeritis me, et non invenietis; et ubi sum ego, vos non potestis venire (Jo 7, 34)

Quo ego vado, vos non potestis venire (Jo 7, 21)

(6) Rabbi, nunc quaerebant te Judaei lapidare, et iterúm vadis illuc? (Jo 11, 8)

(7) Ego in hoc natus sum et ad hoc veni in mundum ut testimonium perhibeam veritati (Jo 18, 37)

(8) Non pro eis autem rogo tatúm, sed et pro eis qui credituri sunt per verbum corum in me

Ut omnes unum sint, sicut tu Pater, in me et ego in te, ut et ipsi in nobis unum sint

Ut sint unum sicut et nos unum sumus (Jo 18, 20)

(9) Ego veni ut vitam habeant, et abundantius habeant (Jo 10, 10)

(10) V. le P. Gratry, les Sophistes et in Critique, p. 362

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(BAUNARD, Monsenhor L’abbé Loui. O Apóstolo São João. Rio de Janeiro, 1974, p. 81-94)

São João testemunha fiel de Jesus

Capítulo 4: São João testemunha fiel de Jesus
I

Os três primeiros Evangelistas sobejamente nos mostraram nos acontecimentos que acabamos de expor, o lugar de São João e a prerrogativa com que foi honrado. É ele próprio que vamos agora ouvir. Falará de visu. Seu livro é um testemunho: tal é o nome que lhe confere com insistência, terminando-o (19, 36; 20, 25); além disso, sendo o discípulo amado do mestre, fala como testemunha íntima. Se recorda este título a cada instante, é porque esse privilégio lhe permitiu ver melhor, de mais perto e mais a fundo, até o recôndito da alma amante e amada! Se, pois, Justino o mártir pode dar aos quatro evangelhos a denominação comum de Memórias ou lembranças, quanto mais especialmente tal nome não se aplica ao Evangelho de São João!

Esta qualidade também se justifica pela própria leitura. É a demonstração interna de autenticidade e de veracidade da narrativa, convém notar. Mil particularidades de lugar, de tempo, de estilo, revelam a presença pessoal do narrador, ao passo que reflexões ardentes ou profundas atraem o coração do amigo particular do Mestre. O que vimos, o que ouvimos, o que tocamos do Verbo de vida, nós vo-lo anunciamos, deveria ele escrever um dia. A nós também seu livro faz ver, ouvir e tocar com ele esse Verbo verdadeiramente vivo em sua narrativa. Em toda a parte o discípulo aparece sob a égide do Evangelista; seguimo-lo, por assim dizer, graças à irradiação de sua alma e ao sulco de seus passos. Continue reading

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