São sete as epistolas ditas “católicas” ou “universais”: Tg, 1/2Pd, 1/2/3Jo, Jd. A designação de “católicas” é antiga, pois data do século IV; deve-se ao fato de que tais cartas têm destinação mais universal do que as cartas paulinas: Tg (1,1) se dirige às doze tribos da dispersão; 1 Pd (1,1) se dirige aos fiéis do Ponto, da Galácia, da Capadócia, da Ásia e da Bitínia; 2Pd, 1 Jo e Jd são destinadas aos fiéis da Ásia Menor e a outros cristãos. As 2/3Jo fazem exceção (2Jo 1, à Sra. Eleita; 3Jo 1, a Gaio). Estas duas últimas foram colocadas após 1Jo por causa da identidade do autor.

A ordem de tais epístolas no Cânon data do século IV. É a ordem de prestígio dos Apóstolos no Oriente antigo; Tiago, Céfas e João (cf. Gl 2,9); Jd ficou por último, porque o autor era menos conhecido.

Trataremos destas epístolas em dois Módulos: um abordará Tg, 1/2/3 Jo; o outro, 1Pd, 2Pd e Jd.

Lição 1: A epístola de Tiago

1.1. O autor de Tg

a) É certamente um judeu, que fala como um sábio ou um profeta do Antigo Testamento; veja-se o estilo das sentenças em Tg 3,13-18; 4,13-17; 5,1-6.

Em Tg 2,21, Abraão é chamado “nosso pai”.

Em 1,27; 3,9 Deus é dito “Nosso Pai”, sem que haja menção do Filho; é Pai dos homens, à semelhança das concepções do Antigo Testamento.

Conhece bem as Escrituras do AT, das quais tira os modelos inspiradores da virtude: Abraão (2,21), Raab (2,25), Jó (5,11), Elias (5,17s).

Também conhece a vegetação da Palestina e o regime de chuvas desta: 3,12; 5,7.

b) O autor é certamente um cristão. Chama Jesus Senhor (Kyrios); cf. 1,1; 2,1. O fato de pouco falar das verdades do Cristianismo se explica por dirigir-se a judeu-cristãos.

Em 5,7-9, o autor professa aguardar a segunda vinda de Cristo ressuscitado.

Em 1,18 fala da regeneração pela palavra da verdade (Batismo).

Em 1,25; 2,12 menciona a lei perfeita da uberdade.

Em 5,14 refere-se aos presbíteros da Igreja.

c) O autor deve ser identificado com Tiago, bispo de Jerusalém; cf. 1,1. No Novo Testamento ocorrem três homens apostólicos de nome “Tiago”:

– Tiago, irmão de João, filho de Zebedeu. É dito “Tiago Maior”; está fora de cogitação, pois morreu em 44 (cf. At 12,2) e a epistola é posterior a esta data.

-Tiago, filho de Alfeu: Mc 3,18; Mt10,3; Lc 6,15; At 1,13. É o Tiago Menor de Mc 15,40.

-Tiago, irmão do Senhor: Mc 6,3; Mt 13,55. É muito provável que este se identifique com Tiago, irmão do Senhor, encontrado por Paulo em Jerusalém, conforme Gl 1,19; era personagem de autoridade (cf. 2,9.12). O Tiago, irmão do Senhor, deve ser também o Tiago que gozava de grande consideração na Cidade Santa (cf. At 12,17; 15,13; 21,18; 1Cor 15,7), e que se tornou bispo em Jerusalém, conforme a tradição antiga. Foi martirizado depois da morte do procurador Festo (f 62).

Identificamos, pois, o autor de Tg com Tiago, filho de Alfeu, irmão do Senhor e bispo de Jerusalém, fiel observante das tradições judaicas.

A tradição confirma esta tese. Objeta-se porém, contra a mesma o fato de que a epístola de Tiago é escrita em linguagem e estilo gregos muito polidos. – A isto respondem os estudiosos, lembrando que Tiago, filho de Alfeu, muito dedicado às tradições judaicas, pode ter recorrido a um redator, de cultura helenista; além do que, deve-se notar que o próprio Tiago pode ter adquirido a cultura helenista, muito disseminada por todo o Império Romano; cf. At 6,1 -3.

A expressão “irmão(s) do Senhor Jesus” requer explicação: não se trata de filhos de José e Maria nascidos após Jesus, nem de filhos de São José nascidos de um primeiro matrimônio. A linguagem semita era pobre, e por isto utilizava a mesma palavra ah para designar Irmão e outros familiares. Na verdade, os “irmãos de Jesus” (Mc 6,3; Mt 13,55) eram primos do Senhor, como se depreende do seguinte: comparando Mt 27,56 com Jo 19,25, observamos que “Maria, Mãe de Tiago e José” parece ser a mesma que “Maria, esposa de Cleopas”; Cleopas, por sua vez, é o mesmo que Alfeu (Cleopas é a forma grega do nome aramaico Chalphai); ora Cleopas era irmão de São José, conforme o antigo historiador Hegesipo. Donde se segue que os filhos de Cleopas e Maria, entre os quais Tiago, eram primos de Jesus. Pode-se completar este quadro mediante a seguinte suposição: São José deve ter morrido cedo, e Jesus aos trinta anos deixou a casa para se entregar ao seu ministério. Maria, tendo ficado só, foi amparada pelos seus sobrinhos (= os primos de Jesus); é o que explica que no Evangelho Maria aparece freqüentemente “com os irmãos de Jesus” (nunca se diz: Maria com seus filhos); cf. Mt 12,46; Mc 3,31; Lc 8,19.

1.2 Os Destinatários de Tg

A carta é dirigida “As doze tribos da dispersão” (1,1). Esta expressão sugere as doze tribos de Israel encontradas na dispersão ou fora da terra de Israel. – Deve-se, porém, afastar a hipótese de que eram judeus: trata-se de destinatários cristãos. Como entender isto? Há duas sentenças:

1) Seriam judeu-cristãos residentes na Palestina, pois na carta não há advertência, sobre idolatria ou luxúria ou outras práticas pagãs. Mais: na comunidade há pessoas abastadas (1,1 Os; 2,1-13; 4,13-16; 5,1-5) – o que era mais comum nas comunidades recrutadas do judaísmo. Entre os pagãos, só tardiamente as classes abastadas se voltaram para o cristianismo.

2) Outra sentença julga que Tiago se dirige ao conjunto dos cristãos de determinada região designados como “as doze tribos”, à semelhança de Pedro (cf. 1 Pd 1,1; 2,11).

Os destinatários estavam em tribulação: 1,2-4.12. Sofriam não só por causa da fé, mas especialmente por causa do comportamento dos ricos que pertenciam à comunidade e ostentavam fausto (2,2-4) e arrogância (2,5-7; 5,1-6). Os mais tímidos caiam na adulação (2,1-9), outros se entregavam a cólera (1,19s), às contendas (3,14s; 4,1-3), à maledicência (4,11) e à murmuração (5,9).

Quanto à data de origem, há quem indique, com boas razões, os anos anteriores ao Concílio de Jerusalém (49) – o que faria de Tg a primeira página do N.T. Lugar de origem: Jerusalém.

1.3 Mensagem de Tiago

A carta de Tg tem o aspecto de um escrito sapiencial (portador de sabedoria): exorta a praticar a verdadeira sabedoria, harmonizando pensamento e ação, fé e obras.

A insistência de São Tiago sobre a necessidade das boas obras tem sido considerada como contrária à doutrina de São Paulo, que recomenda a justificação mediante a fé e não as obras. – Respondemos que não há oposição entre Tiago e Paulo. Este tem em vista a entrada na amizade com Deus ou o início da justificação e afirma que ninguém “compra” a amizade de Deus, mas que todos a recebem gratuitamente numa atitude de fé. Ninguém pode dizer que, por suas obras anteriores, mereceu a amizade de Deus. – Ao contrário, São Tiago tem em mira a perseverança na amizade com Deus, e afirma que ninguém conserva a graça recebida se não a faz frutificar em boas obras; a fé inerte ou sem obras morre. Aliás, a recomendação das boas obras faz eco ao Evangelho ou, mais precisamente, ao sermão da montanha (Mt 5-7).

Muito importante também em Tg é a seção de 5,14s, que promulga o sacramento da Unção dos Enfermos.

Em toda a sua epístola, o Apóstolo aborda calorosamente o tema “riqueza e pobreza”’, cf. 1,9-11; 1,27-2,9; 4,18-5,6. Faz eco assim a uma tradição bíblica que começa com o profeta Jeremias e valoriza os humildes como criaturas abertas para Deus; as bem-aventuranças evangélicas retomam esta temática; cf. Ml 5,3; Sf 2,3.

Tenha-se em vista outrossim a exortação ao domínio da língua em 3,1-13.

Lição 2: As epístolas de João

As três epístolas de João estão intimamente relacionadas entre si.

2.1 A 1Jo

2.1.1. O autor

Uma longa série de autores, desde a metade do século II, atribui ao Apóstolo João um escrito chamado “primeira epístola de João”. Quem examina o respectivo texto, verifica grande afinidade de estilo e conteúdo entre 1Jo e Jo. Em ambos estes escritos se revela um autor contemplativo, capaz de perceber a verdade através das mais simples imagens da vida cotidiana: luz e trevas, verdade e mentira, vida e morte, amor e ódio… O vocabulário é simples, mas rico em significado. O autor contempla e volta a contemplar a verdade, repetindo a mesma coisa de diversas maneiras, até por meio de teses e antíteses; o pensamento vai para diante e para trás, à semelhança das ondas do mar; cf. 1 Jo 3,4.5.6.7.8.9… ; Jo 8,44.46-47.49.50.54…

Em seu conteúdo a 1Jo refere-se, não raro, a Jo. Assim, o autor diz explicitamente que é testemunha ocular do que narra, mas nunca diz o seu nome; cf. 1Jo 1,1-3; 4,14; Jo 1,14; 19,35. Em 1Jo 2,13s, o autor diz que escreve… e escreveu; isto não são fórmulas retóricas, mas o presente se refere a 1Jo, ao passo que o pretérito a Jo.

A finalidade de 1Jo e a de Jo é a mesma; cf. 1Jo 5,13; Jo 20,31. A mesma doutrina fundamental é transmitida pelos dois escritos: Jesus é o Messias, o Filho de Deus, enviado pelo Pai ao mundo para redimi-lo com o seu sangue; comparemos

1Jo 1,1scomJo 1,1-4
2,2com11,51 s
4,9com3,16s
5,6com19,34s
5,12com3,36
5,20com17,3

O mesmo grande mandamento do amor é incutido em 1Jo 2,8-11; 3,1 Os; 4,11 e Jo 13,34s; 1S,12.

Aliás, dados os vários títulos de afinidade entre 1Jo e Jo, bons exegetas julgam que a 1Jo foi escrita para apresentar aos leitores o Evangelho segundo João.

2.1.2. Os destinatários

Os destinatários parecem ser fiéis convertidos do paganismo (5,21). Não faltam indícios, porém, de que entre eles havia numerosos judeu-cristãos, como se deduz da menção de Caim (3,12), das alusões a falsos profetas (4,1), aos anticristos (anti-Messias) em 2,18.22… Esses cristãos já estavam convertidos, à fé desde muito (cf. 2,7.24; 3,11).

O autor sabe que tais leitores correm perigo por parte de falsos pregadores, que querem quebrar a unidade existente entre Cristo-Deus e Jesus- homem; cf. 1Jo 2,18-22.26; 4,1-3.14s; 5,1.5-13. Negavam que, por ocasião da Paixão, o Filho de Deus estivesse unido à humanidade de Jesus; em conseqüência, negavam que a Redenção tenha sido obtida mediante o sangue do Filho de Deus.

Tais hereges são os mesmos que o Evangelho segundo João combate. Eram inspirados por um certo Cerinto. Este ensinava que Jesus fora mero homem, filho de José e Maria; no Batismo uniu-se-lhe o Cristo (o Filho de Deus), de modo que Jesus em sua vida pública possuía uma ciência elevada e o poder de fazer milagres, mas antes da Paixão o Cristo deixou Jesus. É por causa destas idéias que a 1Jo tanto incute a realidade da Encarnação (1,1 -3), a identidade de Jesus-Cristo-Filho de Deus (4,14s; 5,1.5), a Redenção realizada mediante o sangue de Jesus (1,7).

Pode-se crer que na 1Jo sejam também considerados os primeiros vestígios do gnosticismo do séc. II; em 2,27 há alusão à sublime gnose (conhecimento) que os hereges julgavam possuir.

2.1.3. A mensagem da 1 Jo

A 1Jo apresenta-se como uma carta encíclica ou circular destinada às comunidades da Ásia Menor ameaçadas por heresias.

O autor aí desenvolve principalmente o tema “comunhão (koinonia) com Deus”. Com efeito,

  • Em 1,1-4 é proposta a comunhão com Deus;
  • Em 1,5-2,28, Deus é apresentado como Luz (1,5-7); o homem une-se a Ele caminhando na luz (1,8-2,28).
  • Em 2,29-4,6, Deus é apresentado como o Justo por excelência (2,29); o homem une-se a Ele praticando a justiça, e vivendo a filiação divina (3,1-2). Quem é filho de Deus não peca (3,3-10), pratica a caridade fraterna (3,10-24), crê em Jesus, Filho de Deus encarnado (3,24-4,6).
  • Em 4,7-5,12 Deus é apresentado como Amor (ágape); cf. 4,8.16. O homem une-se a Ele vivendo de amor, que é eficiente (4,7-12) e crê (5,1-12).

2.2. As 2 e 3Jo

A tradição atribui estas duas cartas ao mesmo João evangelista. Esta noticia é confirmada pelo exame do texto sagrado:

O autor é chamado “o ancião (cf. 2Jo 1; 3Jo 1). Este apelativo indica a dignidade do escritor e lembra o titulo que os discípulos atribuíam a S. João em Éfeso na sua velhice

A temática é a de Jo e 1Jo. Incutem o mandamento do amor (2Jo 5; 3Jo, exortamos fiéis a não se deixar arrastar pelos anticristos, “que não confessam que Jesus Cristo veio na carne” (2Jo 7). Ocorrem as mesmas expressões: “amar na verdade’ (1Jo 3,18; 2Jo 1; 3Jo 1), “caminhar na verdade, nas trevas” (Jo 12,35; 1Jo 2,11; 2Jo 4; 3Jo 3), “dar testemunho” (Jo 21,24; 19,35; 3Jo 12), “ser de Deus” (Jo 8,47; 1Jo 3,10; 4,6; 3Jo 11). E a mesma a conclusão em 2Jo 12 e3Jo 13s.

A 2Jo parece ser um compêndio da 1Jo. Teria sido escrita a uma comunidade (Eleita), que não podemos identificar e que o Apóstolo espera visitar em breve (2Jo 12).

A 3Jo é dirigida a um certo Gaio, que também não podemos identificar. Louva a benevolência com que Gaio tratou os pregadores da fé, em oposição a Diotrefes, bispo da comunidade, homem ambicioso, que resistiu à autoridade do Apóstolo e não recebeu os irmãos enviados por João


Referências:

BARBAGLIO, FABRIS, MAGGIONI, As Cartas Católicas. Ed. Loyola. 1990.

Perguntas sobre as Epístolas Católicas de Tiago e João

  • Em Tg 2,23; Rm 4,3 e Gl 3,6 é citado o texto de Gn 15,6. Exponha o sentido que São Paulo e São Tiago dão a este texto. Como o interpretam?
  • São Tiago e São Paulo se opõem no tocante à fé e às obras? Cf. Tg2,24 e Ef 2,8-10.
  • Escolha em Tg dois trechos que muito lhe falam, e exponha o seu sentido.
  • Leia 1Jo 1,1-4 e compare com Jo 1,1-14. Aponte as semelhanças.
  • Conte quantas vezes ocorre a metáfora de luz e trevas em 1Jo. Indique os lugares.
  • Aponte os textos de 1Jo em que ocorrem os vocábulos mentira e verdade.
  • Escolha, da 2a ou da 3a epístola de São João, os versículos que mais o(a) impressionaram. E explique por quê.