Capítulo 13: São João em Éfeso. As Igrejas da Ásia

I

Quando Maria foi arrebatada aos céus, quando todos os irmãos partiram, e a Judeia, perturbada pelas discórdias, profanado pelo paganismo dos costumes, rebaixada em sua fé pelos Idumeus, e em sua liberdade pelos procuradores Felix, Festus, Albinus e mais tarde Gessius Florus, pareceu-lhe tender para essas desolações preditas pelo Mestre, João resolveu deixar também Jerusalém e procurar outro campo para a santa semente.

Vamos encontrá-lo na Ásia proconsular. Não viera só. Acompanhavam-no os anciãos da Igreja de Jerusalém que não tinham fugido além do Jordão. Papias de Hierápolis menciona um enorme cortejo de chefes que se reuniram a João. Eram íntimos dos grandes apóstolos e, tendo-os visto e ouvido, podiam repetir «o que haviam dito André, Pedro, Felipe, Tomé, Tiago, Mateus e os outros discípulos do Senhor» (1).

Não se pode fixar com exatidão a data de sua chegada à Éfeso. Calcula-se que seja posterior ao ano 54 de Jesus Cristo, porque naquela época os Atos falando na pregação de São Pedro nessa cidade, não fazem menção alguma de São João. Muitos presumem até que só veio depois da ruína de Jerusalém.

Dessa formosa Yonia, rica pelo comércio, pelas tradições e pelas artes, a cidade de Éfeso era a rainha. Era a Atenas do Oriente. Sucessivamente arruinada por terremotos e incêndios, reconstruída à custa de toda a Grécia, favorecida por Alexandre, liberta por Augusto, orgulhosa da plêiade de poetas, sábios, retores, pintores e jurisconsultos de que era o berço, como Hiponax, Artemidoro, Parrhasius, Apeles, merecia bem ser chamada por Plínio, «o archote da Ásia» (2).

Quinhentas cidades semeadas por essa praia afortunada, brilhavam em torno dela, conta Philostratus. Eram as cidades lídia’s de Sardes, Thyatira, Tralles, Magnésia, inteiramente gregas pelos costumes e pela linguagem (3). Mais acima, na Mysia, Cyzico reunia em sua encantadora praia todos os Romanos abastados, sequiosos de sol, de elegâncias e prazeres. Ali, erguiam-se também Alexandria de Troada, para onde Cesar pensara transferir a sede de seu império; Pérgamo, outrora celebre não só pelo tesouro das letras como pela opulência proverbial de seus reis; um pouco abaixo na Caria, Alabanda, pátria dos palhaços e das cantoras, rebaixada a tal ponto pela luxúria, que foi a primeira cidade que consagrou um templo à divindade opressiva de Roma (4). Halicarnasso erguera-se da ruína que lhe infligira a cólera de Alexandre. Cindo estendia então, sob um céu admirável, seus monumentos de mármore, cujos destroços ainda causam admiração aos viajantes. Enfim, mais perto de Éfeso, e como satélites, viam-se reluzir num raio de cinquenta a sessenta milhas apenas, Priené, Mileto, Heraclea, Smyrna, Phocéa, Colophon, Clazomena, a ilha de Samos, toda essa praia heroica que os gregos chamavam seu Pan lonicon, e que a história e a epopeia tornaram imortais com Heródoto e Homero.

A posição de Éfeso era grandiosa. Da colina de Pirone cujo solo fértil foi exaltado por Pausanias, descia em degraus até a beira do mar Egeu, seguindo as margens frescas do Caistro, cujo leito se alargava perto de Éfeso, e levantava ilhas de verdura. No recinto da cidade, o pequeno lago de Pegaso, o curso do Phryrites, a fonte de Callipio, entretinham durante o estio daquele clima ardente, uma temperatura relativamente agradável (5). Philostratus fala também do Xisto onde costumava haver corridas e donde se iam ver as lutas de morte dos gladiadores (6). Enfim, por cima da cidade, as colinas Cilbianas, inundadas de luz; em baixo, os dois promontórios do golfo de Colophon; o porto coberto de velas, e o mar cheio de ilhas, davam a este quadro a única moldura condigna: o infinito das montanhas, do mar e do céu.

Não foi por certo nenhuma dessas magnificências que atraiu São João a Éfeso. Como Roma, como Atenas, Antioquia e Alexandria, Éfeso — grande centro de negócios, e foco de doutrinas sempre incandescentes, — era além disso uma cloaca de superstição e de perversão: era o baluarte do politeísmo na Yonia.

O paganismo muito desacreditado em sua mitologia, possuía no entanto, ainda dois elementos que, com povos semelhantes, deviam assegurar-lhe uma longa vida: a beleza do culto, a facilidade da moral. A religião de Éfeso possuía ambas essas duas seduções. Diana Artêmide era uma das mais antigas divindades pelágicas. Era a plácida Ástrea das religiões da Ásia que, como se sabe, faziam da natureza um deus, da luxúria um culto. Denominada na Thracia Artemide Tauropolo; na margem dos pântanos, Diana Limnátis; perto dos rios. Potannia ou Alpheonia; nas montanhas Acria ou Coryphéa, recebia em todos esses lugares homenagens variadas, e não raro sanguinárias. Mas, em parte alguma era soberana como no templo aonde afluía a Grécia atraída a Éfeso pela religião das artes, ainda mais do que pela dos deuses (7).

Pausânias declara que o Artémiseon excedia em esplendor todos os templos dos outros povos (8). No centro do edifício, queimado por Erostato, e reconstruído depois no mais belo estilo iônico, perto dos altares talhados por Praxiteles e Tharson, por cima de estatuas de deusas que faziam parecer esse santuário um Olimpo, a grande Diana Ephesia era representada por um bloco de madeira negra grosseiramente aparado, e envolta em tiras como as múmias do Egito (9). Dizia-se que a estátua tinha descido do céu. O seu altar era dia e noite rodeado de padres chamados Megalobysos, enquanto jovens noviços chamados Meliéres, entretinham a fogueira onde lançavam incessantemente animais vivos.

Era ali que, segundo refere Dionísio de Halicarnasso, a confederação yonia toda inteira vinha prestar adoração.

«Em certos dias, diz ele, homens, mulheres e crianças ali se encontravam por causa dos negócios e da religião. Faziam-se corridas de cavalos, concursos de exercícios ginásticos e de música, conferindo-se prêmios aos vencedores. As cidades também ofereciam aos deuses ricos presentes. Em seguida, uma vez terminados os espetáculos e os negócios, acabadas as festas e os divertimentos, se uma cidade tinha alguma contenda com outra, achavam-se ali magistrados que julgavam o processo» (10)

Quais eram os costumes que se amoldavam à religião de Artêmide-Astartéa? Os historiadores pagãos traçaram-nos um quadro de Éfeso que pode dar uma ideia dos horrores que ali se passavam nessa época.

«Via-se, conta Philostratus, toda ela mergulhada na arrogância e na ociosidade. Cheia de violinos e outros instrumentos semelhantes, agentes de depravação e delícias. Só se via nas ruas gente lasciva, dissoluta e efeminada; e à noite só se ouvia alvoradas, serenatas e música» (11)

Enfim, conheceremos o que a grande Artêmide fizera dessas almas, quando nos lembrarmos a palavra dos Efésios expulsando de suas terras o sábio Hermodor:

«Não queremos que haja homens de bem em nosso meio. Se existem, que vivam em outros lugares, e com outros povos»

Tal era a cidade onde o apóstolo virgem vinha levantar o altar da penitência, da dedicação e da castidade.

«E porque era este lugar uma praça formidável entregue aos demônios, por isso João ali veio estabelecer, diz São João Crisóstomo. Seu valor devia brilhar tanto mais quanto maior era o número dos inimigos» (12)

Em vão procurar-se-ia achar hoje alguma coisa da grande metrópole de Yonia no meio dos pântanos onde existia a antiga Éfeso. Éfeso é uma cidade morta. Um riacho escuro, chamado Kara-sou, banha uma aldeia infecta chamada Ayasalouk, onde vivem umas cinquenta famílias turcas esfarrapadas. Um pouco abaixo, mais perto do mar, um grande monte de escombros, telhas, muralhas caídas e blocos estendidos, indica o local de um grande edifício. Dizem que é o lugar do templo da grande Diana. No centro da aldeia eleva-se sobre a colina, uma construção antiga, da qual os muçulmanos fizeram uma mesquita. Era antigamente a igreja do apóstolo São João, única lembrança que o Anjo de Éfeso deixara de sua passagem naquelas paragens (13).

II

Entrando o apóstolo no grande porto de Éfeso, protegido contra as marés por um enorme molhe, não podia ignorar que essa cidade não era completamente estranha aos de sua raça e de sua religião. Os Judeus ali estavam estabelecidos em grande número. Tinham seu culto, suas coletas, suas sinagogas, e, excetuando Alexandria, poucas cidades viam-se onde se reunissem eles em tamanha multidão.

No entanto não era porque ali vivessem felizes. Conta-nos Josepho que eram a preza dos concussionários de Roma, estorvados em seu culto, insultados em suas crenças, despojados de seus bens, obrigados a trabalhos pesados, sobrecarregados de impostos opressivos. Havia meio século, que o primeiro Herodes, passando por ali com o amigo e patrão Agripa, ministro de Augusto, aquela multidão lançara clamor de desespero tão forte que o príncipe viu-se forçado a fazer-lhes justiça. Um retor cortesão e historiador de Herodes, Nicolau de Damásio, por muito tempo lhes advogara à causa perante ele. Agripa restituiu-lhes parte dos bens, a pedido de Herodes, a quem abraçou publicamente em sinal de amizade para com toda a nação. Mas, quando partiu, fácil é adivinhar o fim que levaram as promessas dos magistrados e os direitos dessa raça, que começava a sentir dolorosamente o peso da maldição dos homens e de Deus (14).

Uma consolação ao menos ali esperava o apóstolo. A cruz havia sido plantada na Yonia, e, em pisando essa terra pagã, pôde encontrar discípulos de Jesus.

O primeiro a ensinar-lhes o nome de Cristo foi talvez o próprio Pedro, durante a viagem que fez às cidades orientais, depois do primeiro concílio de Jerusalém (15).

Um outro discípulo do Senhor também ali estivera, com menos doutrina e menos autoridade, porém com eloquência e encanto de dição de molde a agradar a esse povo de artistas e retores. Chamava-se Apollos. Era um Alexandrino, «muito erudito, dizem os Atos, e grande conhecedor das Escrituras» (16). Todavia, este eloquente arauto do Evangelho não era batizado. «Ele só conhecia o batismo de João». Dois cristãos de Éfeso, vindos de Roma a Corinto e de Corinto a esta cidade, Aquilas e Prescilia, simples trabalhadores, tomaram-no de parte, conta a Escritura, e fizeram-no entrar «no caminho do Senhor» (17). Recomendaram-no em seguida aos fiéis da Achaia onde ia para o mesmo fim. Dois operários em fé, transformando-se mestres de um sábio que, com sua arte de bem falar, acabara de maravilhar a Grécia; e este, fazendo-se humildemente seu discípulo numa ciência que a escola não lhe havia dado, eis uma novidade à qual Deus começava a acostumar o mundo.

Enfim o próprio São Paulo viera a Éfeso pouco tempo depois de Apollos, e sua pregação não fora vã. Durante perto de três anos viram-no ensinar, prender à sua palavra a multidão ardorosa nas coisas espirituais; libertar os possessos e curar os enfermos; levar, enfim, tão longe as conquistas da fé que o culto novamente instituído foi perturbado em seus progressos, e, depois de uma sedição pregada em nome da grande Diana Ephesia, o apóstolo perseguido, teve de fazer-se ao mar, levando porém, consigo alguns discípulos de escol. Mas, antes de partir, reunira ainda uma vez em Mileto os sacerdotes da Igreja de Éfeso, para recomendar-lhes o rebanho, do qual constituíra bispos e pastores.

À frente deste, ficava Timóteo, seu discípulo predileto que ele próprio chamava «o bom soldado de Cristo». Era um grego de Lycaonia, homem ainda na flor da idade, de saúde delicada e vida austera, mas de alma intrépida, e que, para salvar seu povo, não recuaria mesmo diante do martírio. Espírito formado nas santas Escrituras por sua mãe piedosa Eunice e sua avó Lois, convertido por São Paulo na cidade de Listres, depois consagrado pela imposição das mãos, tinham-no visto por toda a parte, na Ásia, na Macedônia, em Atenas, em Tessalônica, em Corinto, em Jerusalém e em Roma, partilhar das heroicas fadigas do seu Mestre, quando este, vendo as grandes esperanças de fé em Éfeso, a ninguém achou mais digno de tomar o governo dessa cristandade a não ser o jovem missionário formado em sua escola (18).

Paulo começara a obra, João organizou-a.

«Foi ele, disse São Jerônimo, quem fundou e dirigiu as Igrejas da Ásia» (19)

Assim, enquanto Timóteo se fixa em Éfeso, João estende as conquistas até os confins da Ásia Superior. «A Ásia parecia ser-lhe propriedade», disse São João Crisóstomo. Quanto às longínquas missões do apóstolo entre os Parthos, é um fato que não tem outro fundamento a não ser uma versão falsa do título de sua segunda Epístola, como o veremos (20).

A tarefa de São João foi de designar à cada um de seus enviados o posto onde devia estabelecer-se e governar em nome de Jesus Cristo.

Pois a ordem expressa que o Senhor dera aos discípulos enviados a pregar, fora de estabelecerem e fundarem Igrejas.

«Por toda a parte onde fordes, permanecei e não saiais»

Ou ainda:

«Em qualquer cidade ou aldeia onde fordes recebidos, ficai até serdes obrigados a partir»

É a mesma prescrição positiva de um estabelecimento em posto fixo, que nos mesmos termos recordam São Mateus, São Marcos e São Lucas. Um bispo para cada igreja. Mas em cada uma os apóstolos guardavam autoridade supereminente, que abrangerá um campo de ação do qual o seu zelo será o único limite (21).

Primeiro, no ponto mais elevado do litoral, ao Norte, Alexandria de Troada levantava-se entre as ruínas, nos campos onde se erguia a cidade de Troia, São João para ali mandou Carpus, o hóspede de São Paulo (22). Um trecho da segunda Epístola a Timóteo no-lo mostra ali estabelecido antes da morte do apóstolo que ele recebera quando por ali passou.

Mais abaixo estava Pérgamo, menos rica do que sob o governo dos Attalidas. Mas, com razão ainda orgulhosa de sua biblioteca, de suas sábias escolas, e, dominando do alto da montanha cônica, o curso e o fértil vale do Caico. Foi nesse lugar que, pelas Constituições apostólicas, João instalou mais tarde, Gaio, o homem de bem, a quem é dirigida sua terceira Epístola (23).

Esmirna não ficava longe. Destruída pelos Lídios, reconstruída por Antigono e Lysimaco, era cidade nova, construída em anfiteatro sobre a encosta da montanha, prolongando até o mar belas ruas bem alinhadas, praças, templos de mármore, cheios de gloriosas lembranças (24). Como podia uma cidade onde eram venerados o santuário e os mistérios da boa Deusa, e que levantara um templo a Tibério, ao lado do de seu poeta Homero (25), trocar os costumes e poesia por crenças severas e uma moral santa pregada por bárbaros? São João para lá mandou um de seus melhores discípulos, chamado Ariston; mas as Constituições apostólicas mencionam-lhe apenas o nome (26).

Ao oriente de Éfeso, mais para o centro, e quase na mesma linha que Sardes, encontrava-se primeiramente Philadelphia, também despovoada pelos recentes abalos desse solo inquieto (27), Laodiceia, uma das maiores cidades da Frígia e Colosso, que devia alguns anos mais tarde também sucumbir à violência de perturbações semelhantes (28).

Segundo São Paulo, o bispo de Colosso foi seu querido Epaphras, «que se mostrou, diz ele, o fiel ministro de Jesus Cristo» (Col 1, 7). Quanto á Laodiceia, parece que Archippus se encarregou de governá-la (Col 4, 17). É ele que as Constituições designam antes de Epaphras e de Nymphas, e em sua casa se reunia a Igreja nascente (Col 4, 15). Enfim, mais perto de Éfeso, Trallas e Colofão, apesar de menos importantes, tiveram igual parte na caridade de São João. Foi por seu intermédio que veio à Colofão Sosthenes, também um dos primeiros companheiros de São Paulo (29). Após ele, Tychico descerá à cidade dos antigos oráculos, traz-lhe-á revelações mais certas do que as do célebre Apollo de Claro (30).

O primeiro bispo de Trallas é ainda mais conhecido. Na opinião de Basílio o Porfirogeneta e o Menologium, foi o apóstolo Felipe o seu pastor, antes de levar a fé às índias. Segundo Eusébio, morreu em Hierápolis, perto de Laodiceia, onde veremos mais tarde duas de suas filhas dedicarem-se, até o último suspiro, ao serviço de Jesus Cristo, enquanto a irmã mais moça, virgem, como as outras, se refugiava junto a São João, em Éfeso, onde levou bela vida e teve santa morte (31).

Sem dúvida, é mister confessar, só se veem nomes ali. Quase todos os pormenores faltam nesta história, onde só se pode perceber o tema principal. Mas que revolução moral faz ela supor! Que bela mocidade naquela geração que parece caída do céu! Que súbito desabrochar de coragem, de doutrina, de costumes e de linguagem! Que homens esses cristãos, pobres, mas tão intrépidos quão simples, convictos, e que felicidade seria poder seguir-se todos os seus movimentos nesta terra da Ásia, pisada por todos os exércitos antigos, mas que nunca vira conquistadores de semelhante espécie!

Era a princípio simples sociedade de operários e gente sem nobreza, como o atesta São Paulo. Os próprios apóstolos trabalhavam para se manterem. Paulo dá-lhes o exemplo e a isso exorta os irmãos. Inácio, o mártir, o prescreve aos sacerdotes, assim como São Clemente. Por que razão o filho de Zebedeu, chegando à Éfeso, procederia de outra maneira? Ilustrando assim o trabalho manual, estes homens preparavam uma das maiores reformas operadas pelo Evangelho. Erguiam-no da abjeção onde o haviam colocado as sociedades antigas, que o consideravam castigo do vencido e do escravo, honrando-o e dando-lhe o valor de um sacrifício, que ofereciam eles mesmos todos os dias aquele de quem disse o Senhor no Evangelho de São João:

«Meu pai trabalha sempre»

Se, em vez de fazerem eles essas coisas grandiosas e de morrerem por elas, esses sacerdotes tivessem tido tempo de contá-las, quantas revelações não nos faria sua história! Não eram vistos sentados à sombra dos pórticos públicos, tendo camarotes nos circos, nos teatros ou nos anfiteatros, arrastando a clâmide do patrício ou o manto do filósofo, nos degraus de mármore dos palácios ou dos templos. Mas ver-se-ia um homem, vestido com simples túnica, descer até o porto, conversar familiarmente com os marinheiros sobre a pobre profissão deles, que também era a sua, falar-lhes primeiro do vento e da tempestade, para em seguida nomear Aquele a quem os ventos e tempestades obedecem; tornar- se, enfim, com eles pescador de peixes, para ser pescador de almas: esse homem era São João. Nós o viramos entrar numa loja escura, onde um casal se ocupa em orar a Jesus Cristo enquanto fabrica tendas; é a casa dos santos Aquila e Prescilia. Haveríamos de encontrá-lo sentado e discutindo após horas de labor, com um operário que trabalhava em bronze, desencaminhado pelo orgulho em todas as fantasias do livre pensamento: esse operário era Alexandre, que resistira ao apostolo São Paulo. Algumas vezes escutavam-no pregar o Verbo de vida e dar testemunho do que vira e tocara, na escola de um neófito que o hospedava: era a de Tyranno, professor de Éfeso que já havia recebido São Paulo (At 9, 19).

Mais de uma vez seria encontrado na casa de um discípulo onde afluíam os pobres e os estrangeiros socorridos por fraternal caridade: era a casa de Gaio, que João «estimava na verdade de Jesus» (32). Sem dúvida seria também visto instruindo, dirigindo e abençoando os filhos de uma grande cristã repetindo-lhes sem cessar o novo mandamento: «Amai-vos uns aos outros»; era essa, com efeito, a exortação aos filhos de Electa, querida por todos os discípulos da fé (33). Mas o mais comum seria vê-lo pregar no Ergástulo dos escravos, a caridade de Jesus, feito escravo por nós. Assim foi o primeiro apostolado desses homens.

«Aquele que crê em mim, disse o Senhor, rios de vida correrão de seu seio»

A vida divina, outrora manifestada em Jesus, começava a transbordar em borbotões do seio de São João (34).

III

Era, com efeito, a vida, a vida sobrenatural, fonte de todas as outras, que São João pregava em Éfeso, quando dizia:

“Eu vos previno a todos, que tereis a vida se crerdes no Filho de Deus. Aquele que tem consigo o Filho possui a vida. Viemos assegurar-vos que Deus nos deu a vida. Ora, é em seu Filho que reside essa vida”

Aqueles, portanto, que queriam viver dessa vida superior, vinham ao Filho de Deus.

Havia primeiramente as almas oprimidas. E, quando a miséria dos tempos, a tirania dos imperadores, a licença brutal e desenfreada dos soldados, as exações dos pretores, as devastações do inimigo, a anarquia das províncias conspiravam para pôr tudo a perder, inúmeros desgraçados inclinavam os ouvidos à voz suave que pregava a liberdade, a fraternidade das almas e a justiça eterna.

Havia as almas grandes, impacientes da terra, sofrendo ainda mais de sua triste infelicidade do que dos males, sequiosas de infinito, sem mesmo o perceberem, e que compreendiam São João quando falava dessa água única que pode acalmar as grandes sedes do coração para a vida eterna.

Mas havia sobretudo e em grande número as almas cândidas, nas quais ainda não se apagara completamente a honestidade, e que reconheciam o verdadeiro Deus no milagre contínuo da vida dos cristãos é de sua caridade.

«O mundo, disse Bossuet, viu santos, e acreditou na santidade»

Estes recrutas da santidade tinham seus grupos escolhidos, a cuja frente devemos colocar as viúvas, das quais São Paulo fala demoradamente em sua carta à Igreja de Éfeso. Quando se pensa o que era a mulher naquele tempo, que facilidade lhe dava o divórcio, com que leviandade contraía novas núpcias contando os maridos, por consulado (35), segundo o dito de um ancião, calcula-se que grande e difícil serviço ia à Igreja prestar à sociedade, honrando a viuvez quase tanto como a própria virgindade. Além disso, era a inclinação e o espírito da religião, dirigir-se aos aflitos, e não havia corações mais espedaçados do que esses. Aquelas mulheres que ficaram sós, vazias de tudo, como dizia seu novo e triste nome, sem amor nem amparo, colhia-as a religião nas portas do desespero, abria-lhes as almas a uma aliança divina que não conheceria nem a separação nem a morte.

A vida legendária de João cita muitas santas viúvas entre os primeiros discípulos do apóstolo na Yonia. Mas sem sair da história, não é a uma viúva, a generosa e caritativa Electra, a quem são dirigidos a segunda epístola e os elogios de São João? Isoladas ou reunidas no matroneum, como chamavam os Latinos ao gineceu, as viúvas da Igreja oravam, trabalhavam, cantavam salmos, cuidavam dos altares, de obras pias, dos livros santos, contentes com a pobreza, reconhecidas pelas esmolas que lhes davam os irmãos, elevando os corações a Deus em ação de graças (36).

Éfeso via também florescer o coro das virgens. São Paulo tinha dado o exemplo da virgindade. Mas era sobretudo a João, discípulo do Cordeiro, que estava reservado ser, nesse país o propagandista ardente e modelo perfeito da virgindade. Dever-se-á crer, como São Modesto, Phocio e Gregório de Tours, que Maria Madalena seguira o apóstolo a Éfeso, formando no serviço de Deus as jovens cristãs, cuja inocência ela invejava? (37). Entre nós prevalece a tradição contrária. Mas veremos breve as filhas de São Felipe virem receber das mãos de São João o véu virginal, que deviam honrar por grandes milagres e eminentes virtudes. «A Segunda Epístola de João é dirigida às virgens», disse formalmente Clemente de Alexandria (38). «Saúdo o colégio das virgens», devia escrever brevemente Santo Inácio às Igrejas da Ásia; e a velha sociedade, perdida pelo sensualismo, achava-se por toda a parte em presença do espetáculo da pureza angélica na carne perecível (39).

«Preferirem a pureza à felicidade conjugal, dizia mais tarde Tertuliano, serem belas só para Deus, não serem jovens senão para Deus, viverem sempre para Ele, entreterem-se com Ele noite e dia, trazerem-Lhe de dote o tesouro de orações; não é mais contraírem um casamento terrestre, já é entrarem na família dos anjos» (40)

Tudo isto era objeto de admiração para os Gregos.

Mas, em parte alguma e nunca, a admiração a semelhante espetáculo devia ser tão grande como na cidade de Éfeso, e no tempo de São João. Coincidência extraordinária, e que faz bem compreender o milagre da obra de Deus! Ao tempo em que São Paulo fazia da viúva fiel uma descrição dirigida à cristandade de Éfeso, um libertino de Roma, chamado Petrônio, pintava a viúva pagã numa obra infame, e sua Matrona de Éfeso servia de tema às licenciosas conversas dos jovens patrícios vacilantes, cambaleantes após as ceias do palácio proconsular. O conto era bem no tom da época. A virtude ali tinha fraquezas ridículas, a fidelidade fazia figura risível, e via-se até a religião dos túmulos profanada, ao mesmo tempo que a da lembrança, a fim de dar ao crime o sabor do sacrilégio. Chamava-se a isto ativismo, entre gente da corte; e entre os moralistas, era a última palavra sobre a virtude das mulheres. Petrônio era cônsul, São Paulo estava nas galés. Tácito consagra páginas inteiras ao elogio de Petrônio; não fala dos cristãos, os irmãos de São Paulo, senão para ultrajá-los com «o ódio de todo o gênero humano». Entre a prisão onde Paulo escrevia aquelas santas leis, e a Casa dourada, onde ó favorito de Nero ditava as torpezas de sua Matrona de Éfeso, não havia duas milhas romanas de distância; mas entre a viúva das Epístolas e a viúva do Satyricon, havia toda a distância que separa um mundo renascendo em honra mais que humana, e um mundo que terminava na degradação, na podridão, na vergonha.

A doutrina do Evangelho não era mais bem compreendida pelos intelectuais de então, do que a sua moral. O mundo não corria para ouvir os discursos do apóstolo; mas, em Antioquia em Atenas, em Alexandria e em Éfeso eram disputados os folhetos em voga, que publicava um libertino desse tempo sob o nome de Luciano de Samosate, mas que a crítica pretende ser anterior ao satírico. No Philopatris, trocadilhos mordazes sobre Chrestos (o Cristo) ajudavam a salgar os diálogos obscenos:

«—Vamos, dizia a um de seus camaradas um estudante da Ásia, que fazia o papel de discípulo de São Paulo e de São João, vamos, eu me encarrego de te ensinar o universo e o nome daquele que foi antes de tudo.

«—O que! Meu caro, desde quando ficaste tão sábio?

«—Desde que aqui veio um certo Galileu, aquele homem calvo, de nariz aquilino, que se elevou aos ares até o terceiro céu, e que de lá tirou o que se pode saber de belo e de excelente. Foi ele que, tendo me regenerado com água, fez-me andar nas pegadas dos bem-aventurados, que me resgatou enfim, do número dos ímpios. Vem, se me quiseres ouvir, farei de ti um homem» (41)

O outro exige um juramento.

«—Mas por quem jurarei?

«Pelo Deus que reina em cima, o grande Deus, o Deus do ar, o Eterno, o Filho do Pai, o Espírito que procede do Pai, um em três, três em um. Eis o verdadeiro Júpiter, eis o Deus em que se deve crer.

«—Mas é uma lição de cálculo que estás me dando. E este juramento é aritmética: um faz três, três fazem um… Não te compreendo» (42)

E continua no mesmo tom. Expõem-se a criação e a redenção, as leis da caridade e as regras da justiça. Não há, porém, nada de interessante em tudo isto. Mas o interlocutor, que se chama Critias, declara que chega de caçoadas «pois ele não pode mais se conter de riso». Não dizia São Paulo que a nova sabedoria era um escândalo para os Judeus, uma loucura para os Gregos?

No entanto, não era todos os dias que se ria em Éfeso. Viam-se nesta época terríveis calamidades caírem de todos os lados sobre esta cidade de dores assim como de prazeres. Éfeso era muitas vezes despertada no meio das festas por terremotos que lhe arruinavam casas, teatros, templos. Strabão traça-nos a enorme zona de cidades marítimas da Yonia, derrubadas naquele tempo (43). Também Tácito nos conta que pouco antes, quando Germânico visitou o país, achou-o arruinado pelos terríveis terremotos que haviam enchido a praia de escombros (44). Entre essas cidades, Éfeso é a primeira nomeada, e a caridade de João ali achava lúgubre e vasto campo de exercício. A lenda atribui-lhe a ressurreição de centenas de mortos soterrados sob os destroços. Eusébio, Sozomeno, e antes desses, Apolônio o teólogo, narram o milagre de um morto ressuscitado pela prece do apóstolo (45). Sem dúvida, cada uma dessas narrativas necessitava severa e minuciosa crítica para fazer prova. Mas não se pode, ao menos, achar nisso o eco da grande sensação que causavam no lugar os milagres de São João?

Sua palavra ali fazia-se ouvir.

«João profetizou, lemos em Santo Ambrósio, isto é, pregou primeiro o Evangelho que devia escrever mais tarde, dirigido aos povos e aos reis» (46)

E o que é mais raro; um escrito do segundo século menciona uma certa particularidade que no-lo mostra no exercício de suas funções sacerdotais, celebrando os santos mistérios. É uma carta de Polícrates, bispo de Éfeso, dirigida ao papa São Victor onde se lê, o seguinte:

«João, que repousa no seio do Senhor, foi sacerdote em Éfeso, e, durante a liturgia, trazia na fronte, a lâmina de ouro, seguindo nisso o exemplo do pontífice da antiga lei» (47)

Desta liturgia ou celebração dos mistérios, os pagãos eram cuidadosamente excluídos, por ordem de São João e de São Paulo. «Para longe os cínicos, foris canes!» exclamara o grande apóstolo.

Um dia, porém, nesse tempo e nesse mesmo país, um dos cínicos gabava-se de ter clandestinamente descoberto o segredo:

«Passava apressado pela rua, indo a umas compras, conta um personagem que o Philopatris põe em cena (48), quando vejo uma multidão conversando baixinho. Crato convida-me para entrar na casa dos cristãos, para penetrar neste respiradouro mais sombrio do que a noite. Gabava-se de possuir, por intermédio deles mesmos, a chave de seus mistérios. Fui andando. Passamos primeiro ‘as portas de ferro e a soleira de bronze. Tendo subido várias escadas, chegamos enfim a uma sala espaçosa, com o teto dourado, tal qual Homero descreve o palácio de Meneias; e eu, como Telêmaco, não me cansava de contemplar-lhe a beleza. Ah! não foi Helena que ali encontrei, mas uma pobre gente curvada, inclinando para o chão a face magra e pálida. Não me pareciam que faziam votos muito alegres; mas, aproximando-se uns dos outros, conversavam sem o mínimo ruído…» (49)

Que diziam eles? Critias explica-o ao amigo num tom mais cômico do que fiel, como acontece com os que escutam às portas. As orações dos cristãos, seus jejuns, suas esperanças, mesmo a sua caridade, tudo isto é deformado da maneira a mais ridícula. Abusando da semelhança de Chrestos, o nome de Cristo, com a palavra chrestos (homem de bem), que em grego se pronuncia da mesma forma; «Muitos cristos ou cristãos, e poucos homens de bem» dizia o satírico.

Um dos divertimentos era também chamar-lhes «homens no ar»; e ele mo o nega: é de Aristófanes em sua peça os Pássaros, que tira mordaz alusão aos costumes desses espiritualistas que só pensam num outro mundo, e que tem êxtases. Mas tudo isto enfada a Triephonio, seu camarada:

«Anda, meu caro Critias, chega de brincadeiras: Neque super nugas istas extenderis. Não te preocupes mais com essa gente. Começa o ‘Pai Nosso’ e acaba de uma vez com esse hino famoso» (50)

Com tal leviandade irônica é que o mundo tratava o culto de nossos antepassados. Mas esta ironia é luminosa para a história, e reconhece-se a face do Cristo mesmo sob os grosseiros escarros com que a cobre o cínico. Eis a Igreja, eis a primitiva câmara nobre que se acha aqui ornada como o cenáculo de Jerusalém. Eis enfim o Pater já tão familiar para o povo cristão, que os próprios pagãos, não o podem ignorar, celebre carmen (51).

Eles riam-se disso. Como seria possível que homens dessa ordem não escarnecessem de tal oração? Ouviam os cristãos falar de seu Pai dos céus, e esse Filho de um Pai Celeste, viam-no escravo, aviltado, mendigo, destinado a todo o desprezo como a todos os suplícios! Ouviam-no clamar pela vinda de seu reino, e era sob o reinado de Nero e Domiciano! Ouviam-no desejar que a divina vontade se fizesse sobre a terra, como se faz pelos anjos no céu, e era numa época onde só se obedecia «às vontades do sangue e da carne», como o denunciava São João.

Mas, por entre semelhantes escárnios a Igreja seguia o seu caminho. Ao passo que em Chipre, Rodes, Cós, Mileto, Pérgamo, por toda a parte nesse país, a alta sociedade ia aos templos, aos circos, às alegres vilas, às festas elegantes e às suas infâmias, se entretendo com as descrições lascivas de Ovídio, com o cinismo de Petrônio, com as lições de Catulo, uma geração pura, escondida no meio do povo, levantava-se, prosperava ao pé de um pobre altar que não fora esculpido por Praxiteles ou Thárso. João não lhes passava o cálice que fazia titubear os discípulos de Sócrates nos banquetes atenienses; mas fazia-os beber do Cálice que recebera da mão de Jesus, na ceia de despedida; e essa mocidade levantava-se da nova mesa, forte contra a luxúria, madura para o sacerdócio, preparada para o martírio. Por ela começava o novo mundo a voltar à uma pureza que lhe merecia os aplausos dos céus; e era desta vitória que João o felicitava quando lhe dirigia este solene elogio:

“Eu vos escrevo, jovens porque sois fortes, e a palavra de Deus permanece em vós, e vencestes o maligno” – Scribo vobis, juvenes, quoniam fortes estis, et Verbum Dei manet ia vobis, et vicistis malignum (1 Jo 2, 14)


Referências:

(1) Papias citado por Eusébio (Hist. Eccl., III, 39).

(2) Lumen Asiœ (Plin. Hist, nutur. lib. V. 29, 31.)

Apude S. Chrysost., t. XI, p, 9, Argum in Joan.: «Plurimi ex philosophis qui in Asia floruerunt, illic erant; nam dicitur quidem et indé fuisse Pythagoras. Samos enim undé ortus erat, ionica est insula. Parmenidem quoque et Zenonem, et Democritum, et multos nunc adhuc illic inveneris philosophos.

(3) Philostrat. Vitos Sophist., p. 56.

(4) Tacit. Annal. Lib. IV, cap. LVI.

(5) Strab. Geograph. lib. XIV.

(6) Philostrat, Vita Apollon. Thyan, t. I. lib. IV, cap. I.

(7) V. sobre o templo de Éfeso, Pline l’ancien, Hist. nat. Lib. XXXVI, cap. XIV, lib. XVI, cap. XL.

(8) M. (Pausanias, p. 141).

(9) A estátua de Diana é conhecida por inúmeras reproduções. A mais celebre está no museu de Nápoles.

(10) Templa construxere impensis communibus Dianae Ephesiae. Quó convenientes cum conjugibus et liberis, statis temporibus, uná sacris dabant operam et mercimonilis. Ibi publico certamine cúm equis pernicibustúm viris viribus arteve musicá praecellentibus proponebantur poaemia victoriae, et diis civitates dicabant donaria. Peractis spectaculis ac negotiationibus, allisque festis et publicis hilaritaibus, si cui civitati simultas intercedebat cum altera, praesto erant judices qui litem componerent. (Dionys., apud Baron. Annal., t. I, p. 505.

(11) Philostrat. Vit. Apollen. Thaynan., trad., por B. de Vigenére, I, liv., IV, ch. I, p. 718. Paris, in 4º, 1611.

(12) Ideircó quia locus, daemonibus obnoxius et admodúm formidabilis… in médio inimicorum claruit Joannes (In prolog. Ev. Joan).

Item, M. Beulé – Fouilles et Decouvertes, 2º édition, t. II, Les Monuments d’Ephése, p. 324 et eq.

(13) Chaudier, Voyage em Asie Mineure, I, 259.

V. No fim do volume a descrição da Éfeso antiga e moderna por J. J. Ampére: Une course dans l’Asie Missure.

(14) Joseph. Antiq. Jud. lib. XVIIl, II, 4.
V. As explicações de Nicolas de Damas e toda essa cena descrita por M. de Saulcy, Hist. d’Herode, p. 243-255.

(15) Origen., ap. Euseb. Hist. eccl. III, 1,4.
Hieronym. De Vir ilust. c, I.
Epiphan. Hœres. XXVII, 6.
Assemani. Biblioth. Orient., t. III, c. II, p. 3 et sq.

(16) Judaeus autem quidem, Apollo nomine, Alexandrinus genere, vir eloquens, devenit Ephesum, potens in Scripturis.

Hic erat edoctus viam Domini, et fervens Spiritu loquebatur, et docebat diligenter ea quse sunt Jesu (At 18, 24)

(17) Hic erat… sciens tantum baptisma Joannis. Hic ergo coepit fiducialiter agere in synagogà. Quem cum audissent Priscilla et Aquila, assumpserunt eum, et diligentius exposuerunt ei viam Domini.

Cum autem vellet ire in Achaiam, exhortati fratres, scripserunt discipulis ut susciperent eum (At 18, 25-28)

(18) Rogavi te ut remaneres Ephesi, etc. (1 Tm 1, 3)
V. Leo Magn. in Actis II Concil. Chalced.
Euseb. Hist. Eccl. Lib, III, c. IV. P. 73.
Constitut. Apostolicae, apud Cottelier, t. I
V. sobre São Timóteo: Dissert. de Tillemont, t. I.

(19) Totas Asiæ fundavít, rexitque Ecclesias (São Jerônimo, de Scriptor. Eccl. in Joan)

Post ætatem senectam jubetur à Spiritu sancto in Asiam prædicare et reflectere errantes in via (Santo Epifânio. Hœr. LI.)

(20) V. contrariamente a Lenain de Tillemont, Lucke, Commentaire sur les Epitres de S. Jean, p. 28.

(21) Esta atribuição fixa de um bispo por Igreja é instituição, cuja honra recai muito exclusivamente sobre o apóstolo São João. Por este motivo, foi ela denominada por muitos alemães sistema Joanico. Por mais respeitável que seja esta origem, ela vem de mais longe, e se João, mais que qualquer outro, faz em seu apocalipse a aplicação às igrejas da Ásia, não pretende ele de forma alguma reivindicar a invenção. Vimos Tiago o Menor escolhido para tomar assento na igreja de Jerusalém. Mesmo Paulo, que uma vez chamado pelo Senhor, como se exprime São Jerônimo, corre todo o universo, quer, no entanto, que Tito, seu discípulo, fique em Creta e Timóteo em Éfeso: Rogavi te ut remeneres Ephesi.

“Os apóstolos, lemos na primeira epístola a São Clemente em Corinto, ordenaram que morrendo os bispos, outros lhes sucedessem” (Clem. I Epist. ad Corinth, XLIV).

(22) 2Tm 4, 13.
Lequien, Oriens christianus, t. I, p. 767.

(23) A Joanne Evangelistà primus Pergami Episcopus creatus est Gaius (Constit. apost. lib. VII. XLVI.)

(24) Strab. lib. XIV, p. 305.

(25) Tacit. Annal. IV, 55 e 56.

(26) Constit apostol. lib. VII, cap XLVII.

(27) Strab. lib. XIII, p. 253.

(28) Strab., lib. XII.

(29) I Cor. — V. item Synaxis ep Menelogo, graec

(30) Tit. III, 12. Cf. Oriens Chrisian., t. I, p. 713.

(31) (Ex Synaxario Basilii Porphyrog.)
Euseb. Hist. eccles. III, 31 et 39.
Polycrat. ad Victor pap,t ibid.

(32) Senior Gaio caríssimo quem ego diligo in veritate.
Carissime fideliter facis quidquid operaris in fratres et hoc in peregrinos (Jo 1-5)

(33) Senior Electae dominae et natis ejus, quos ego diligo in veritate, et non ego solus, sed et omnes qui cognoverunt veritatem.. etc. (2 Jo I)

(34) Eis a descrição que nos faz de São João em Éfeso um autor grego do IXº século, Niscetas David, da Paflagônia (Orationes Ecomiasticae), apud Biblioth, t. XXVII, 393 et sq): Ephesum veniens nos statim adventu suo civitatem turbavit. Non civium confestim animos magnifica Evangelii praedicatione perculit. Sed in sapientia cum externis ambulans, ae tempus, cum malum esset, redimens, benigniori indole modestoque gestu atque habitu et leni alloquio, cunctis ad se accessum facilem placidumque praebebat; vitae veró disciplina, variaque et exculta virtute, inaccessus pariter et venerabilis erat.

(35) Senec. de Benef. III, 6.

(36) São Jerônimo, ad Salvinam, de viduitate servanda. Santo Ambrósio, de Viduis.
Santo Agostinho, de Bono viduitatis, apud Thomassin, t. III, ch. L, p. 170 et sq.

(37) S. Modest, in Bibliothecá Photii. cap. CCLXXV, p. 1525.
S. Gregor. Turon. cap. XXX, p. 64.
Menolog. graec., ad XXII, p. 222.

(38) Secunda Joannis epistola quæ ad virgines scripta est.
(Clément. Alex. Adumbrat. in II Joan., t. II, p. 1011).

(39) Sur le vœu dè continence et de chasteté appelé par eux, V. Athenagor. Legatio, XXXIII; Clem. Alex. Strom. Ill, 12; Tatain. XXXIII; Theophyl. ad Autolyc. III, 15; Origen. C. Cels. VII, 48.

(40) Sanctitatem maritis anteponunt, malunt Deo nubere, Deo speciosæ, Deo sunt puellae, cum illo vivunt, cum illo sermocinantur, ilium diebus et noctibus tractant, orationes suas volut dotes Deo assignant… Jam in terris, non nubendo, de familia angelica (Tertull. ad Uxor. lih. I).

(41) Lucian. Philopatris édit. Bourdelot, in-fol., p. 1121; Paris, 1615.

Theodoro Marcielle em suas notas sobre este diálogo calcula que seja anterior a Luciano: Nono este hujusce Luciani, sed antiquioris alicujos. Multa id arguunt. Nam Syrus noster Lucianus pervexit ad anuum Christi 171. At hic nebulo se baptizatum significat à D. Paulo, qui martyrii palmam accepit anno XIII Neronis.

(42) «— Quemnam igitur tibi jurabo? —Jura Deum altè regnantem, magnum, æthereum atque æternum, Filium Patris, Spiritum ex Patre procedentem, unun ex tribus, et ex uno tria. Hæctu Jovem puta, hunc existima Deum. — Numerare me doces, et jusjurandum arithmetica tibi est. Neque enim intelligo quid dicas: unum tria, tria unum. Lucian. Philopatris, trad. Bourdelot, p. 1121).

(43) Strab.lib. XIV et lib. XIII, edit, in-40, p. 1121).

(44) Tacit. Annal.

(45) Euseb. lib. V, cap. XVII, in fine.
Sozomen. lib. VII, oap. XXVI.

A lenda menciona um grande número de Efésios que João fez voltar à vida. Uma vez foi um rapaz chamado Stacteus, filho de um personagem de Roma, Zotico, e duma pagã ilustre, Symphorosa, que ambos se converteram quando o apóstolo lhes ressuscitou o filho. Outra vez, foi o filho de um sacerdote da deusa, que morrera no banho e que trouxeram aos pés de João, o qual o ressuscitou na presença do próprio pai, Dioscoro,

(46) «Joannes prophetavit; id est, praedicavit evangelium suum quod posteà scripsit omnibus gentibus et linguis et regibus multis» (S. Ambros. in Apoc, Expo- sit, cap. X ; appendix ad oper.)

(47) Joannes qui in sinu Domini recubuit, qui etiam sacerdos fuit et laminam gestavit (Polycrat. In Epist. ad Victorem pap.

Cf. Euseb. lib. V, cap. XXIV, p. 191: I

(48) V. Philopatris, apud lucian. Edit. Bourdelof, Paris, 1615.
Este diálogo é do número das obras de Luciano; mas já disse mais longe a sua anterioridade, p. 230.

(49) Video viros in faciem inciinatos et pallescentes. Illi autem videbantur quam péssima optare. Capita autem inter se juncta tenentes consusurrabant. (Philopatris, apud Lucian., p. 1124).

(50) Tace, Critia, missos istos facito, precationem à Patre incipíens, et celebre illud carmen ad finem apponens (Philopatris, apud Lucian., p. 1128).

(51) Bingham garante o uso litúrgico da oração dominical no 1º século. (Origin, V, 125).

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(BAUNARD, Monsenhor L’abbé Loui. O Apóstolo São João. Rio de Janeiro, 1974, p. 210-237)