Capítulo 19: O Apocalipse de São João

I

Foi no exílio que João teve a célebre visão do Apocalipse.

“João vosso irmão, escreve ele no princípio deste livro divino, eu, participante na tribulação, no reino e na paciência de Jesus Cristo, estive na ilha de Patmos por causa da palavra de Deus e testemunho de Jesus. – Ego Joannes frater vester, et particeps in tribulatione, et in regno et patientia in Christo Jesu, fui in insulá quae appellatur Patmos propter Verbum Dei et testimonium Jesu.

Um domingo fui arrebatado em espírito, e ouvi uma voz forte como de uma trombeta” – Fui in spiritu in dominicá die, et audivi post me vocem magnam tanquam tubae (Ap 1, 9-10)

Era a voz solene das revelações divinas; e chegamos agora ao ponto mais maravilhoso de nossa história.

A pequena distância do porto da Scala e da antiga cidade de Patmos galga-se a montanha de São João por uma rampa íngreme e mal calçada. Passando-se a escola helênica, construída há dois séculos sobre o rochedo, e onde professores afamados atraíam então numerosos estudantes da Grécia continental e das ilhas, chega-se à uma gruta que os insulares chamam a Gruta do Apocalipse. É uma grande cela formada pelas escavações naturais da montanha, coberta pela abobada fendida do rochedo, e onde se notam os vestígios de um riacho saindo da pedra, como se costuma representar a morada dos primeiros anacoretas. São Cristódulo, fundador do convento de Patmos, fez daí uma capela cujo pórtico está ornado de pinturas antigas representando cenas do Apocalipse.

Foi ali que, a dar-se crédito à narrativa de Nicetas, arcebispo de Tessalônica, no XII século, São João viu o mistério do reino dos céus. Preparou-se pelo jejum, o silêncio e a oração. Depois de dez dias de recolhimento, uma voz descendo do céu, Jesus Cristo apareceu a seu amigo, e João foi transportado no meio das potestades de Deus.

O Apocalipse de São João é bem da mesma mão e do mesmo autor do Evangelho. Sem dúvida difere e deve diferir na forma e no movimento, assim como a profecia é diferente da narrativa, a visão da ação histórica. Mas, por toda a parte é a doutrina e a linguagem de João. O fundo dogmático é a teologia de Jesus Cristo, Deus feito homem. Ele é homem: é o leão de Judá, é o descendente de Davi. É Deus, chama-se o Alfa e o Ômega, o primeiro e o último, o princípio e o fim: o Verbo de Deus é o nome que se dá a Si próprio. Como no Evangelho, Ele é o cordeiro de Deus que apaga o pecado, e a igreja é a esposa que O lava com o Seu sangue. Como no Evangelho, a graça se acha representada pela imagem da fonte, de onde jorra a água da vida. Os hebraísmos, misturados com as formas gregas, denotam igualmente o pescador da Galileia e o apóstolo da lonia. Enfim, como prova decisiva de sua autenticidade, o autor nomeia-se a si próprio e diz a data e o lugar exato de sua história. É, pois, com todo o direito que o apocalipse ocupa um lugar no número dos livros canônicos da Igreja.

Há páginas admiráveis de Bossuet sobre este livro, porém, apenas iguais à eloquência do assunto.

«Aqueles, escreve ele, que têm amor à piedade acham um atrativo especial nesta Revelação de São João. Só o nome de Jesus Cristo, com que ela se intitula, inspira uma santa alegria… É, pois, Jesus Cristo que se deve considerar aqui como o verdadeiro profeta; e, se alguma coisa se espera de grandioso, quando abrindo as antigas profecias se vê logo nos títulos: As visões de Isaías, filho de Amós; as palavras de Jeremias, filho de Helcias, e assim os outros; como não se deve ficar impressionado ao ler o nome desse livro: a Revelação de Jesus Cristo, Filho de Deus?

«Tudo corresponde a esse belo título. Apesar de tão profundo esse livro divino, sente-se, lendo-o, uma impressão tão suave e ao mesmo tempo tão grandiosa da majestade de Deus; aparecem ali ideias tão elevadas do mistério de Jesus Cristo, um reconhecimento tão grande do povo que resgatou com seu sangue; imagens tão nobres de suas vitórias e de seu reinado, com tão maravilhosos cânticos celebrando-lhe as grandezas, que há com que arrebatar o céu e a terra…

«Todas as belezas da Escritura estão esparsas nesse livro. Tudo que se encontra de mais tocante, de mais vivo, de mais majestoso na lei e nos profetas, ali recebe um novo brilho e passa diante de nossos olhos para nos encher com as graças e consolações de todos os séculos… Todos os homens inspirados por Deus parecem ter trazido tudo o que têm de mais rico, de maior, para compor o mais belo quadro que se possa imaginar da glória de Jesus Cristo; e dir-se-ia que, para escrever este livro admirável, João recebeu a inspiração de todos os profetas.

«A tantas maravilhas, acrescentemos a que excede as demais: quero dizer, a ventura de ouvir e ver agir Jesus Cristo ressuscitado. O Apocalipse é o Evangelho de Jesus Cristo ressuscitado, começando a exercer a onipotência que lhe deu seu Pai no céu e sobre a terra» (1)

Esta alegria de ver e ouvir a seu Mestre glorioso, foi para São João o gozo antecipado do céu. Havia mais de quarenta anos que vivia unicamente dEle, mas vivia longe dEle. O Senhor dissera:

«Quero que este fique até que eu venha!»

João ficava sempre, João esperava sempre: o amigo não chegava.

«Que suplício! Exclama ainda Bossuet em outro lugar. Oh! Divino Salvador, Vosso amor é muito severo para com ele! Não é cruel que aquele que mais Vos ama espere mais do que os outros para ter a ventura de Vos ver face a face, tal qual Sois?»

Jesus consolou-o. Paulo já tivera a ventura de ver o Mestre reinando gloriosamente no terceiro céu. Este céu abria-se para João: ali reconheceu Jesus! Dominus est! É o Cristo! Mas agora, que glória! Que harmonia! Que alegria! Ele contempla-O; não é mais o supliciado, é o príncipe; tem a coroa. É também o soberano pontífice: está vestido com a vestimenta flutuante e o cinto de ouro. É o Verbo: sua palavra é afiada como a espada e forte como o bronze. Enfim, é o Eterno: os cabelos são brancos como a neve, mas ao mesmo tempo a face cintila como o brilho do sol ao meio dia; beleza sempre antiga e sempre nova, alfa e ômega, princípio e último fim: só a morte seria capaz de nos dar uma ideia do que foi para São João esta manifestação do único que foi amado, do único digno de ser amado. E, se é verdade ser necessário admiração e adoração no amor, que chama não acendeu nesse coração imaculado a aparição desejada d’Aquele à quem vira morrer numa cruz, e que achava agora triunfante em seu reino dos céus: Ego Joannes socius in tribulatione, in regno Christi! Por estas últimas palavras São João parece indicar que a antiga súplica de sua mãe fora atendida, e que ele obtivera aquele lugar glorioso à direita do Rei dos céus, que Salomé outrora pedira para Ele no Evangelho.

Mas, só João pode dizer estas coisas. Paulo as viu, nota São Carlos Borromeu, mas declara que o homem não saberia repeti-las. João as vê e as descreve (1):

“Virei-me e vi, no meio dos sete candelabros de ouro, alguém semelhante ao Filho do homem, vestido de uma cumprida túnica e cingido até à altura dos mamilos com um cinto de ouro.

Sua cabeça e cabelos eram brancos como a lã branca e como a neve, e seus olhos como a chama do fogo.

Seus pés eram firmes e luminosos como o bronze que sai da fornalha e sua voz como o rumor de muitas águas.

Tinha na sua destra sete estrelas e da boca saía-lhe afiado gládio de dois gumes (imagem de sua palavra) e o seu rosto era como o sol a brilhar em sua força.

Assim que o vi, caí a seus pés como morto. Mas ele pôs a mão direita sobre mim, dizendo: Não temas, eu sou o Primeiro e o Último.

Eu sou aquele que vive. Estive morto, mas estou vivo para os séculos dos séculos.

Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, o que é, que era e que há de vir, o Todo-Poderoso.

Escreve, portanto, o que viste, não só as coisas que são, mas as que devem suceder depois destas” (3)

Até agora, observa Bossuet, São João apenas abriu o teatro, e preparou os espíritos para o que se tem de ver. Entramos agora no assunto mesmo do livro. Compõe-se ele de três partes: primeiro as advertências, depois as predições, enfim as perspectivas e as promessas celestes: são como os três atos desse drama universal, onde Deus representa o primeiro papel, onde todos os destinos deste mundo e do outro agitam-se em suas mãos, e cuja ação começando numa ilha obscura, segue através de toda a criação e se desenvolve no céu.

II

Nas primeiras cenas trata-se apenas da Igreja terrestre. Para São João, o mais grave inconveniente do exílio, era o seu afastamento das novas colônias que fundara na fé em Jesus.

«Eu voltarei, repetia-lhes, eu voltarei, ficai firmes até a minha volta! Veniam tibi citó, tenete donec veniam!»

Enquanto ele espera, passa-lhe diante dos olhos cada uma dessas Igrejas; e, em suas fraquezas, em seus combates e virtudes, Jesus Cristo mostra a João as virtudes, os combates e as tristezas de toda a Igreja futura.

A imagem que João nos apresenta das cristandades da Ásia, é a de uma sociedade em perigo, no meio de uma grande revolução de costumes e doutrinas. Desde então, a Igreja entrava nessa existência perpetuamente moribunda, porém, imortal, que é o traço mais divino de sua história. Em Esmirna, os Judeus o inquietam, em Pérgamo as escolas se revoltam contra a fé; em Tiatira, uma mulher que se diz profetisa, uma nova Jezabel, prega com a voz e com o exemplo, a moral sempre moderna da existência livre; enfim, na Filadélfia, a sinagoga de Satanás ergue-se acima da Igreja de Jesus.

De outro lado, a religião vê abalar-se os seus mais altos sustentáculos. Aos primeiros entusiasmos de toda obra que começa, vê-se logo suceder este período de abatimento ou de tibieza que ameaçaria pôr tudo a perder, se a Igreja não possuísse consigo o princípio do rejuvenescimento perpétuo. A coragem dos Anjos das Igrejas, como João chama os bispos, fraquejou. O próprio anjo de Éfeso sentiu esfriar-se-lhe a caridade primitiva. O anjo de Tiatira não teve força bastante para resistir as oposições de uma mulher, suscitada para a ruína de seu povo; o anjo de Sardas só tem de vivo o nome. O de Laodiceia enfraqueceu exatamente na hora mais renhida dos combates. É tempo para que Deus desça em pessoa à arena e defenda sua Esposa com a espada da palavra, como o declara. É esse o assunto de toda a primeira parte que Bossuet chama a das Advertências.

Mas, a palavra de Deus é uma espada que cura as feridas que produz; no meio do fogo consumidor da santa ira, sente-se correr aquela doce unção de Jesus Cristo, cujo coração parece passar todo inteiro pelos lábios do apóstolo do amor:

“És pobre, diz ele ao bispo de Laodiceia, és pobre, miserável, cego, despido; mas, tenho ouro a prova de fogo por uma chama pura; eu te venderei, se quiseres, e ficarás rico. Tenho vestes alvas, e poderás vesti-las e cobrir o teu opróbrio. Lava com colírio os teus olhos para que vejas. Porque eu repreendo e castigo aqueles a quem amo. Tem coragem. Arrepende-te. Eu estou à porta, e bato. Se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, eu entrarei em sua casa, cearei com ele, e ele comigo; aquele que vencer, eu a farei sentar-se comigo em meu trono; assim como eu venci e sentei-me com o meu Pai em seu trono” (4)

No entanto, não eram por certos homens de pouca fé os que o profeta aqui designava. Conhecemos alguns deles, e aqui ainda a história atribui à Revelação uma grande luz.

Este anjo da Igreja de Éfeso, um momento abatido, era, provavelmente aquele valente Timóteo, cuja caridade irá em breve até ao martírio.

No anjo da Igreja de Esmirna, reconhece-se o ilustre e santo Policarpo, cujo longo apostolado leremos mais adiante; e estes Judeus que João nos mostra empenhados em perdê-lo, veremos mais tarde ateando a fogueira onde subirá um dia o santo ancião.

São João fala em Antipas, «a testemunha fiel de Jesus, na cidade de Pérgamo, capital de Satanás», como a designa. Sabemos, com efeito, como ele provou esse testemunho fiel. Estando este grande cristão a pregar o nome de Jesus, a multidão de estudantes achou divertido fazer-lhe passar pelo suplício do tirano siciliano Phalaris, metendo-o dentro de um touro de bronze, debaixo do qual atearam fogo.

Enfim, o anjo terrestre da Igreja de Filadélfia, que, «apesar de fraco, conservara a palavra de Deus diante dos tiranos, e tornara-se uma coluna do templo», é facilmente reconhecido por estes sinais. É, pelas aparências, o mesmo de quem dizia Santo Inácio mais tarde em sua carta aos Filadelfos:

«Vendo o vosso bispo, compreendi que, se foi promovido ao ministério da comunhão cristã, não foi pela ação dos homens, nem por vanglória, mas pela dileção de Jesus Cristo e de Deus Pai na determinação de uma bondade que me faz tremer por mim mesmo. Ele segue os mandamentos do Senhor, e a justiça regula-lhe os movimentos da alma como as cordas de uma harpa. O pai Zacarias não foi outrora mais irrepreensível do que ele»

Havia pois, coragens heroicas e santas virtudes; mas os tempos eram maus. Ora, o que João queria ensinar aos homens do futuro, era que, nos combates que se sustentam pela Igreja, é mister não se deixar abater; que não estamos sós, que Deus nos alenta, e que acima desse ruído de batalha e de tempestade, é preciso atender à voz que nos grita: Não temas, fica fiel, fica firme até a morte, e eu te darei a coroa da vida.

III

Depois de ter ouvido as advertências do Senhor aos anjos das Igrejas, João viu o horizonte celeste alargar-se diante dele. As leis divinas da providência geral do governo dos povos descobriram-se a seus olhos, e o profeta penetrou a política de Deus.

Nada há de mais elevado que os princípios que ela estabelece, e nada mais claro que a aplicação exata por ela feita à revoluções anunciadas ao mundo.

A primeira verdade que viu São João foi a ação divina soberana na história. Quer a discussão se trave com os estoicos e com os coríntios, como no tempo de São João; quer se ateie como hoje, entre o espiritualismo e o materialismo, a eterna questão é de saber se o futuro supremo, definitivo, pertence aos fortes e aos hábeis; se, para ser grande basta ser feliz; se a última palavra está no sucesso; se, enfim, o direito e o dever são apenas ficções, ou se estas duas grandes palavras são também grandes coisas, cuja sanção final está nas mãos de Deus.

O profeta recebeu uma solução para esses problemas. A política humana, fraca ou falsa, o Apocalipse opõe a política divina, poderosa, porém paciente, certa de seu fim, vendo o homem que se agita enquanto Deus o conduz, sacudindo os tronos dos reis que se escondem amedrontados, e tendo suspensa a taça de seus flagelos sobre a cabeça dos impérios cegos de domínio, de glória e de luxúria.

«Quando acontecerem as coisas preditas há tantos séculos, diz o grande Newton, o gênero humano terá a prova mais completa de que seus destinos são governados por uma Providência soberana» (5)

É a primeira resposta do livro inspirado: há ainda outra que completa esta: é que Deus tudo faz aqui na terra pensando em sua Igreja. Ele só tem um interesse, o das almas; só há um combate, o do bem contra o mal, simbolizado pelo daquela mulher, bela como a luz, calcando a lua com os pés e coroada de estrelas, que é a Religião, lutando contra o dragão, cuja cólera cerca sem cessar os filhos que dá à luz essa mãe imortal. Que os espíritos curiosos de alta filosofia estudem o Apocalipse debaixo desse ponto de vista: não há outro mais certo e mais belo do que esse.

A visão de São João mostrou-lhe esta sabedoria aplicada aos grandes acontecimentos do futuro da Igreja e do mundo.

Quais são estes acontecimentos? Quando se realizaram ou se realizarão? — Aqui certamente a sombra se mistura à luz; o Apocalipse é ainda, em muitos lugares, o livro fechado com sete selos; contém tantos mistérios quantas palavras, escreve São Jerônimo: Tot verba quot sacramenta; e por muito tempo ainda estes mistérios serão motivo de discussão entre os doutores e os místicos.

«O erro dos intérpretes, diz ainda Newton, é de fixar a época em que as profecias se deverão cumprir. Deus inspirou as revelações de João, não para satisfazer a vã curiosidade humana, mas para justificar a previsão divina depois do cumprimento. A segunda aparição de Jesus Cristo explicará o Apocalipse, e assim os olhos de toda a terra volver-se-ão para a verdade para não mais desconhecê-la» (6)

«Nada me perguntem sobre o futuro, acrescenta Bossuet. Acha-se sempre o futuro muito diferente do que pensamos, e as coisas mesmo que Deus revelou, acontecem de maneira como nunca prevíramos. Mas, quanto ao sentido imediato, que considero como acontecido, não há dúvida que é útil procurá-lo» (7)

Assim a obscuridade de certas profecias não é uma razão para se desprezarem as outras. Algumas ficaram claras com o acontecimento, e é assim que se vê brilhar dois fatos importantes, dos quais foi João o profeta, e de que somos as testemunhas.

O primeiro acontecimento é a reprovação e a queda final do império romano. E, no entanto, era no momento em que o astro de Roma parecia lançar o seu maior brilho: nenhum olhar mortal podia avistar Alarico e seus bárbaros; João os vê. Que singular aparição dos séculos, e como o profeta deixa longe, atrás de si, os dois historiadores romanos, dos quais um acabava de se extinguir e o outro se elevava à uma reputação sem igual! Tito-Lívio contara o passado de sua pátria celebrando-lhe as glórias; Tácito pintava o século presente desvendando-lhe os vícios. Maior do que ambos, este exilado era o historiador do futuro; e de seu rochedo solitário de Patmos, lançando contra a Roma de Domiciano sentenças incontestáveis, ele anunciava o fim da cidade eterna. «Esta moderna Babilônia, esta cidade que ergue suas sete colinas ilustres, como sete cabeças soberbas, esta mãe cheia de impurezas e de luxúria, revestida de púrpura como convém às rainhas, trazendo escrito na fronte um nome misterioso, rica pelo ouro do mundo, coberta de pedrarias, segurando a taça da orgia, embriagada com o sangue dos mártires e dos santos, enfim, a grande cidade que possui o império dos reis da terra» (Ap 18, 3ss), não há dúvida possível, é mesmo Roma; é a história lamentável de sua queda que ditava o anjo de Patmos, quando, três séculos antes, bradava com força:

“Caiu, caiu, a grande Babilônia. Saí de seu recinto, ó meu povo, para não serdes participantes de seus delitos e não serdes compreendidos em seus flagelos.

Num mesmo dia cairão sobre ela a morte, o pranto e a fome; o fogo a abrasará e os reis que viveram com ela nas delícias chorarão quando virem o fumo de seu incêndio.

Os pilotos, os comerciantes, os que navegam em suas águas e os que traficam no mar e ficaram de longe e, olhando o local do formidável incêndio, disseram: Que cidade foi jamais semelhante a esta?” (8)

Os Visigodos encarregam-se de cumprir à risca a profecia de São João (9). Conforme sua predição houve eleitos que, horrorizados com os pecados e temendo as desgraças desta Roma infiel, saíram de seu recinto e atiraram-se aos navios de onde puderam ver a chama que devorava as casas da cidade maldita. Uns fugiram para a África, e ali acharam Agostinho, que meditava sobre o livro a Cidade de Deus. Este livro não era senão a história do cumprimento do Apocalipse, e o desenvolvimento eloquente da política divina (10). Outros refugiaram-se junto de São Jerônimo que, escondido e chorando em sua gruta de Belém, lia então as lúgubres Visões de Ezequiel. Ouvindo-os contar os desastres da pátria, recordou-se das palavras do apostolo inspirado, e, deixando de lado seu profeta, exclamou como o anjo do Apocalipse:

«Factum est! Está feito! Babilônia caiu; tomaram Roma, saquearam-na, está destruída pelo fogo e tornou-se a sepultura de seus próprios filhos. A luz do universo apagou-se, a cabeça do império foi cortada; é o mundo inteiro que acaba com uma cidade» (11)

Mas, como foi dito, Deus só apaga para escrever de novo; e um segundo acontecimento menos importante, mais feliz, foi mostrado a São João.

«Não é a queda de Roma, observou Bossuet, nem do império idólatra e perseguidor, que Jesus Cristo quer principalmente descobrir ao profeta; é, na queda deste império, a da idolatria e, com a ruína do império de Satanás, o verdadeiro estabelecimento do reinado de Jesus Cristo e de sua Igreja.

«Jesus Cristo dissera: “O mundo vai agora ser julgado; o príncipe deste mundo vai agora ser expulso; e, logo que eu tiver sido elevado da terra, atrairei tudo a mim” (Jo 12, 31-32)»

O cumprimento desta palavra de Nosso Senhor, tão cuidadosamente notada por São João, é o assunto inteiro de seu Apocalipse. Vêm-se os combates do demônio e de seus anjos contra a Igreja recente. Seus esforços são inúteis, seus prestígios descobertos; o dragão acorrentado, o príncipe do mundo vencido; o demônio e a Besta, assim como o falso profeta, são lançados num tanque de enxofre e de fogo, para serem atormentados pelos séculos dos séculos (Ap 19, 20; 20, 9.10).

«Do outro lado, ao mesmo tempo, vê-se Jesus Cristo vencedor, e todos os reinos do mundo formando o seu. Assim, atrai a si todo o mundo; e seus mártires sentam-se a fim de julgar o mundo» (12)

O concílio de Niceia deu grande impressão deste triunfo do Cristo.

«Pela primeira vez, desde o tempo de Moisés, emancipador do homem, no meio das nações escravas da ignorância e da força, renovou-se a manifestação divina do Sinai. Como ao redor do campo dos Hebreus, os ídolos estavam de pé em torno do concílio de Niceia, quando os intérpretes da nova lei proclamaram a verdade suprema do mundo: a unidade de Deus e a divindade de Jesus. Arius foi condenado. A fábula dos sacerdotes que haviam escondido o princípio vivo, os mistérios em que os filósofos o tinham envolvido, desapareceram. O véu do santuário foi rasgado com a cruz do Cristo; o homem viu Deus face a face. Foi então composto aquele símbolo que os cristãos repetem ainda depois de quinze séculos em toda a superfície do globo» (13)

Ali, nesse dia, tomaram assento, como o viu São João, aqueles que haviam sofrido pelo testemunho de Jesus e foram julgados (14). Os Padres do concílio puderam entoar juntos o cântico que o apóstolo faz cantar aos vencedores da besta:

“Vossas obras são grandes e admiráveis, ó Senhor Deus, Todo-Poderoso! Oh! Rei dos séculos, vossos caminhos são justos e verdadeiros! Quem não vos temerá, Senhor, e quem não glorificará o vosso nome? Porque só vós sois misericordioso, pelo que todas as nações virão e se curvarão diante de vós, porque se manifestaram os vossos julgamentos” (15)

IV

Mas o triunfo supremo da Igreja não é deste mundo. Numa última parte do livro são desvendadas as glórias da eternidade depois das do tempo. Pela terceira vez abre-se o céu para São João: não é mais da Igreja da Ásia nem do império romano que se trata: o último ato do drama se desenrola no seio de Deus:

“Vi um novo céu e uma nova terra; pois o primeiro céu e a primeira terra tinham desaparecido, e o mar não existia mais. E eu, João, vi a cidade santa, a nova Jerusalém que descia do céu, vinda de Deus, preparada como esposa que se adorna para seu esposo.

Ouvi uma voz forte, partida do céu que dizia: Eis o tabernáculo de Deus com os homens, e habitará com eles. Eles serão seu povo, e Deus estará com eles como Deus deles.

Deus enxugará as lágrimas de seus olhos; e não haverá mais morte, quanto as coisas de outrora desapareceram.

Então o que estava sentado no trono disse: Eis que faço novas todas as coisas…

E disse-me ainda: Está feito! Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim. Aos que tem sede, da gratuitamente da água da vida.

O que vencer, possuirá estas coisas, serei seu Deus, e ele será meu filho” (Ap 21, 1ss)

A palingenesia universal do mundo toma todo o capítulo seguinte. A nova Jerusalém levanta-se do deserto, brilhante de claridade; o rio da vida ali corre, puro como o cristal; ao passo que aqui em baixo andamos na morte, a árvore da vida dá sombra à novas nações, que ele alimenta com sua vida que renasce sem cessar. Não há mais noites nem mais trevas: o próprio sol não tem o que fazer neste lugar de imortal esplendor, que Deus enche de luz, e do qual é ele o centro. É a beleza radiante, é a pureza sem mácula; nada manchado poderia entrar neste lugar, onde não há espaço para o mal. O tempo já não existe, e o reino dos predestinados não tem fim. O Espírito e a Esposa clamam um para o outro: Vinde! Porque, diz Santa Teresa, o que precedeu sobre a terra foi apenas o noivado. Aqui é o casamento da alma com Deus (16).

A visão de São João faz desaparecer tudo o que se dissera sobre a vida futura. Havia quatro mil anos que sonhávamos com o céu. Todos os olhares para lá subiam; mas não o podendo entrever, os homens formaram juízos incompletos, muitas vezes errôneos: «o olho não vira, o ouvido não ouvira, o coração não sentira, o que Deus preparava às almas que lhe eram caras». Homero criara os jogos e os combates; Platão, a sabedoria e a beleza; Pitágoras, as esferas harmoniosas; Cicero achava a glória e a pátria no seu famoso Sonho de Cipião; Virgílio acabava de introduzir a poesia e a virtude; mas, por mais belo que tudo isto fosse, assemelhava-se à terra; não era o céu, porque não era a presença, a visão, o gozo de Deus.

Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens; Ele habitará com eles! O primeiro que viu isto, viu a única beatitude digna de Deus e a única digna do homem; porque o infinito começa a aparecer-lhe. «O que desejei, Senhor, o que procurei no céu como na terra, senão á vós?» perguntava o Salmista. E nós mesmos, o que procuramos no que brilha e foge, senão o divino Bem que se furta a nossos amplexos? «Mas ficarei saciado, Senhor, quando vossa glória me tiver aparecido», dizia ainda o profeta. O Apocalipse revelou esta plenitude perfeita onde o homem e Deus se encontram numa sociedade indissolúvel e eterna.

Sociedade imensa, multidão numerosa composta de todas as tribos, raças, línguas! O Eliseu dos pagãos era a morada exclusiva dos heróis e dos reis, e quem mais, além destes, vedes errar nos campos elísios, nos campos de asfódelo? O verdadeiro céu, o céu de João, abre-se à maiores e a mais numerosos vencedores; porque ali as coroas são o prêmio da santidade. Até agora as paixões, as necessidades e, portanto, os sofrimentos da terra seguiam as almas pagãs em seu triste céu; aos corações, porém, que se desalteram nas fontes perenes do Cordeiro e de Deus nada entristece. Enfim, no Eliseu toda a felicidade acabava-se num esquecimento fatal. No paraíso de São João não passa o Lethes; lá não penetra nem a morte nem a separação, e as afeições que tem Deus por fim, durarão tanto quanto Ele.

Tal será a beleza, a unidade, a imensidade, a eternidade da morada viva que a Escritura chama a Jerusalém celeste. Ela brilha com a luz do Cordeiro, como diz ainda São João. Jesus é este Cordeiro imolado desde o princípio do mundo. Outrora era o cordeiro, vítima figurada, que os Judeus se repartiam no banquete da Páscoa. Hoje, sobre a terra, é o Cordeiro que João encontrou nas margens do Jordão e que ele come na Ceia: Ecce Agnus Dei! Amanhã, no céu, será o Cordeiro glorificado, triunfando no altar eterno onde o cantam todas as línguas: não há síntese mais completa do que esta (17).

Nesta vida deificada, todos os sonhos se realizam, todos os votos são satisfeitos; e, garantindo ele mesmo essas promessas, João o profeta acrescenta:

“Eu, João, vi estas coisas, as ouvi: e depois me ajoelhei aos pés do anjo que acabava de m’as mostrar, e adorei-o!”

Adorar! Não se é tentado de fazê-lo também quando se leem estas páginas? Bem-aventurado aquele que conserva a profecia deste livro, repete duas vezes o apóstolo. Bem-aventurado aquele que acredita que neste mundo Deus mesmo é nossa Providência. Feliz daquele que espera que lá em cima Deus mesmo será nossa recompensa.

«Oh! Como a contemplação deste magnífico, imenso, admirável sistema de amor, que abrange tudo, eleva e engrandece nossa alma! exclama um sábio ilustre. Como se presta a alimentar o nosso reconhecimento por esta Bondade adorável que nos abriu, por seu Enviado divino, as portas desta bem-aventurada eternidade, o grande, o perpétuo objeto de nossos desejos! Já nos dá este reino que nos preparara desde o começo dos séculos. Já nos coloca sobre a cabeça a coroa incorruptível de glória! Já estamos sentados nos lugares celestes; a sepultura deixou sua preza, a morte está aniquilada para sempre; o incorruptível sucedeu ao corruptível; o espiritual ao animal, o glorioso ao abjeto. As mais extensas revoluções dos astros não podem medir a nossa duração. Não há mais tempo, a eternidade começa; e com ela uma ventura que não deve ter fim. Transportados de alegria, de gratidão e de admiração, prosternamo-nos ao pé do trono de nosso Benfeitor. E exclamamos: Nosso Pai, Pai nosso! Nós… Compreendei bem a vida eterna!» (18)

São João escrevera em seu Apocalipse:

“Declaro a todos os que ouvirem as palavras da profecia deste livro, que, se alguém acrescentar algo a estas coisas, Deus juntará sobre ele os flagelos escritos neste livro. E se alguém suprimir alguma palavra do livro desta profecia, Deus o riscará do livro da vida” (Ap 22, 18.19)

Apesar destes anátemas, o Apocalipse de João sofreu muitas falsificações e disfarces. Houve o Apocalipse atribuído a São Pedro que obteve certo crédito durante algum tempo. Houve o arrebatamento de São Paulo ao terceiro céu, que foi composto e exaltado pelos gnósticos. O próprio Cerinto fez um Apocalipse em oposição ao de São João. Viu-se, enfim, aparecer o Apocalipse apócrifo de São Tomé, e de Santo Estevão, ambos condenados pelo papa São Gelasio. Era principalmente o gênio vaporoso do Oriente, que se comprazia em alimentar-se com estes sonhos místicos; e não se pode bem calcular que perigo fez correr à fé o iluminismo desta primeira época. O anátema de São João tinha por fim defender a imaginação contra os seus próprios desvios, opondo-lhes a barreira sagrada de uma revelação verdadeira.

Depois desta visão, São João não se demorou muito na ilha de Patmos (19). Notícias vindas de Roma o informaram de que Domiciano acabava de expiar seus crimes à 15 de Setembro do ano de 96. Soube-se ao mesmo tempo da exaltação de Nerva, ido qual um dos primeiros atos foi chamar os banidos, condenados por causa de impiedade. Assim designava Dio-Cassio o cristianismo que não conhecia.

São João deixou Patmos. Apresentou-se à multidão dos insulares, desolados com esta partida, lançando-se aos pés do apóstolo, e dizendo-lhe chorando:

«Caro mestre, somos ainda muito fracos na fé, ficai conosco, não nos abandoneis, ou ao menos deixai-nos algum escrito que nos fortaleça na palavra de Deus»

São João deixou-lhes seu livro do Apocalipse. Disse-lhes depois adeus, e voltou por mar à Éfeso. Só estivera ausente dois anos.


Referências:

(1) Bossuet, sur l’Apocalypse, Préface

(2) Quae enim vidit Paulus explicare non valuit, inquiens Quae non licet homini loqui. Joanni veró quae vidit, non modo loqui sed etiam scribere licuit in admirabili illo revelationum libro (S. Car. Borr. Homil. In. Joan. Tit. III, p. 216)

(3) Conversus sum et vidi… in medio septem candelabrorum aureorum, similem Filio hominis, vestitum podere et praecinctum ad mamillas zona aurea. Caput autem ejus et capilli erant candit tanquam lana alba, et tanquam nix, et oculi ejus tanquam flamma ignis.

…Et cum vidissem eum, cedidi ad pedes ejus tanquam mortuus. Et posuit dexteram suam super me dicens: Noli timere, ego sum primos et novissimus.

Et vivus, et fui mostuus, et ecce sum vivens in saecula saeculorum; et habeo clavis mortis et inferni… (Ap 1, 12, 19 e 8)

(4) Nescis quia tu es miser, et miserabilis, et pauper, et caecus, et nudus.

Suadeo tibi emere à me aurum ignitum probatum ut locuples fias, et vestimentis albis induaris, et collyrio inunge oculos tuos ut videas.

Ego, quos amo, et arguo et castigo, etc. (Ap 3, 17-21)

(5, 6) Newton: Observat. Sur les Propheties, ch. II.

(7) Bossuet, Préface sur l’Apocalypse

(8) Ap 18, 1ss. Semelhante profecias, chegando nos momentos dos triunfos de Roma e caindo no meio das festas da Grécia inebriada, provocaram gargalhadas de cólera, cujo eco repercute na sátira daquele tempo: O Patriota ou o Catecúmeno que já citamos:

“«Como vai o mundo?» – perguntara um cristão.
«Vai tudo bem, e tudo irá bem» – respondia o pagão.

Os cristãos abanam a cabeça e franzem a testa: «Não, dizem eles, a pátria está ameaçada de grandes males!»

E, logo, dizendo coisas deliciosas, falam em revoluções, em grandes barulhos, em terremotos prestes a cair sobre a cidade, em exércitos impotentes e inimigos vencedores”

À vista deste quadro, o Patriota, (é o nome que se dá ao pagão), declara que se não pode mais conter efusão de raiva:

«Oh! Homens miseráveis, exclama, basta de impertinências! Basta de afrontar estes homens de coração de ferro, que usam o capacete e a lança e cuja alma só respira a chama dos combates. Não temeis que as desgraças com que nos ameaçais voltem-se contra vós que ousais desprezar a pátria dessa forma?»

«Homens levianos, acrescenta ele, em que religiões sombrias vistes estas coisas? Se esta é a luz de vossas profecias, a vossa ignorância grosseira vos enganou por duas vezes! Invenções de mulher, contos para criança, tudo isso!

Podeis por acaso conhecer o futuro? Não, essas coisas não existem e nunca se darão. Sois vítimas de vossos sonhos, só estais bem com a maldade, sofreis com nossas venturas, tendes horror a elas; e que proveito tirais, desejando-nos tais males? Por favor, acabai com esses sonhos, com essas adivinhações e esses intentos perversos, ou senão cuidado que um deus vos faça pagar caro o crime dessas imprecações contra vossa pátria, e dessas palavras com que a desonrais»

No fim, como contraste, o panfleto faz aparecer um pobre homem sem fôlego anunciando pomposamente que os Persas estão vencidos, que Suza acaba de ser subjugada, que a Arábia inteira será levada em triunfo. Era a refutação das profecias cristãs, e só restava dar graças aos deuses e deixar os loucos falarem.

(9) Ver sobre a tomada de Roma por Alarico, Zozim. Hist. Lib. V. p. 105

São Jerônimo, Ad. Princ. Epitaph. Marc. Epistol. XVI, nunc XCVI.

(10) Santo Agostinho, de Civitate Dei, Iib. XX, integr.

(11) São Jerônimo, Procemium in lib. I et III Ezech.

(12) Bossuet, l’Apocalypse, ch. III, p. 130

(13) Chateubriand, Etud. Historiq., 2º Disc.

(14) Et vidi sedes, et sederunt super eas, et judicium datum est illis… qui non adoraverunt bestiam propter testimonium Jesu et propter Verbum Dei (Ap 20, 4)

(15) Vidi… eos qui vicerunt bestiam… habentes citharas Dei.

Et cantantes canticum Moysi servi Dei et canticum Agni, dicentes: Magna et mirabilia sunt opera tua, Domine Deus omnipotens; justae et verae sunt viae tuae, Rex saeculorum.

Quis non timebit te, Domine, et magnificabit nomen tuum? Quia solus pius es, quoniam omnes gentes venient et adorabunt in conspectu tuo, quoniam judicia tua manifesta sunt (Ap 15, 2, 3, 4).

(16) Sainte Thérèse Château de l’âme, VIIIe demeure; ch. I:

«A alma não sai mais deste centro, e nada perturba a sua paz. Agora é o casamento da alma com Deus; o que precedeu foi apenas o noivado. As visitas de Deus passavam depressa: agora esses favores duram sempre. A vida ferve sempre, e corre e espalha-se pelas moradas da alma. Esta morada central é o lugar do sol divino, onde habita o grande Deus… Deus sendo o divino sol que é e que habita sempre no centro da alma, fecundada por seu doce e vivificante calor»

(17) Aqueles que viram em S. Bavono, em Gand, a cena do Cordeiro místico no admirável quadro de Van Eyck, poderão disto formar uma vaga ideia. O Cordeiro está no altar, tendo no olhar uma chama sagrada, na atitude de vítima, mas de vítima divina. Não sofre mais, porém reina. Os anjos o adoram de joelhos, os velhos o incensam, as virgens cantam-lhe um hino: a alegria está em suas faces, o Aleluia ressoa nas harpas sagradas. A Jerusalém celeste mostra suas torres de diamante e suas muralhas de safira. Vê-se ali a cruz soberana como um cetro; o altar parece um trono. O sangue que corre do Cordeiro é um sangue glorioso: uma fonte jorra por sete repuxos cintilantes. Está escrito em baixo que é a fonte de vida. A vida é o próprio Cordeiro, como está escrito: Jesus vita. Ela transborda por todos os lados. Um monte de flores sai deste orvalho. Enche o paraíso de brilho e de mocidade. João, perto do altar, contempla o Cordeiro transfigurado; e no primeiro plano, dois grupos, o olhar deslumbrado em presença do mistério, representam nosso mundo; enquanto do alto, o Espírito Santo resplandece num céu sem limites.

(18) Charles Bonnet. Paliugénésie philosophique. Conclusion.

(19) Euseb. Hist. Eccl. Lib. III, cap. XV, XVII

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(BAUNARD, Monsenhor L’abbé Loui. O Apóstolo São João. Rio de Janeiro, 1974, p. 330-353)