Capítulo 16: A teologia do Evangelho de São João

I

O Evangelho de São João não era unicamente uma narrativa e uma história; era a exposição de uma teologia inspirada. Primeiro, a geração eterna do Verbo, Sua operação no mundo e nos espíritos, Sua encarnação realizada e perpetuada; depois, como explicação e razão destas maravilhas, o amor de Deus, um amor eterno, infinito, dando por si só a chave de todos os mistérios: tal é o assunto e o fundo dessa teologia, a mais admirável que se possa ler.

Assim como a Bíblia começava pelo Gênesis, que é a criação do mundo; o Evangelho de São João começa pela geração do Verbo, que é o gênesis do Filho de Deus. São Boaventura faz a seguinte observação:

«Moisés disse os princípios da sabedoria divina, João proclamou sua consumação» – Moysés dívinae sapientiae inchoator Joannes divinae sapientiae terminator

Este nome de Verbo, Jesus Cristo não se servira dele para designar-se a Si mesmo; também João nunca o põe em seus lábios divinos no correr do Evangelho. E ele, João, e só ele, que, para adaptar-se à linguagem de alguns de seus contemporâneos, faz uso desta palavra, a fim de fazê-los compreender, e melhor do que o faziam eles, como e por quem Deus se exprime no mundo.

De um lado, os filósofos, como Platão em seus diálogos, Filão em seus tratados, os gnósticos em suas escolas; de outro lado, os rabinos judeus, no seio de suas sinagogas, falavam do Verbo como expressão de Deus manifestado aos homens. Mas, uns tinham uma ideia errônea, outros possuíam apenas uma noção incompleta. Também, não somente, apesar do que se tem escrito, São João nada lhes deve, mas neste ponto lhes é completamente oposto. E se quisermos saber com quem o Evangelista aprendeu esta filosofia, onde leu este grande nome, ele próprio no-lo mostra quando nos diz em seu Apocalipse:

“Um dia eu vi o céu aberto, e no céu um cavalo branco. Aquele que o montava chamava-se o Fiel e o Verdadeiro, Aquele que combate e que julga com justiça. Seus olhos lançavam chamas; tinha na cabeça muitos diademas, e trazia escrito um nome que ninguém mais conhecia. Seu nome é o VERBO DE DEUS

Com efeito, eis como, em alguns voos, a águia começa por abater a frágil arquitetura das concepções humanas sobre o Verbo divino.

Ao Verbo dos gnósticos, espírito de segunda ordem, criado nascido naquele tempo, o Evangelista opõe a eternidade do Verbo: No princípio era o Verbo.

Ao Verbo de Platão e da Academia, concepção abstrata e puramente ideal do entendimento humano, o Evangelista opõe a personalidade do Verbo: e o Verbo era Deus.

Ao Verbo de Filão, simples instrumento de Deus na ação criadora, o Evangelista opõe o Verbo autor e causa de toda criação: Por Ele tudo foi feito.

Ao sistema dualista que admite dois princípios dos seres em concorrência, o Evangelista opõe o Verbo, único princípio de tudo o que foi criado: Tudo foi feito por Ele, e nada do que foi feito, o foi sem Ele.

São João nos revela primeiro a natureza do Verbo e sua geração. Sabedoria de Deus, o Verbo era no princípio, e antes do princípio de qualquer coisa criada.

“Ó Pai, dizia o Cristo, dai-me esta glória que eu tinha em vosso seio antes da criação do mundo!”

É o mesmo Jesus Cristo que no Apocalipse pronuncia estas palavras:

“Eu sou o alfa e o Ômega, o princípio e o fim, disse o senhor Deus, que é, que era, e que será”

O Verbo é, portanto, Aquele que é da mesma natureza que o Pai, do mesmo ser, da mesma idade: a eternidade.

Este começo arrebatava o espírito de Santo Agostinho. Comparava este Evangelho a uma grande montanha, alta e serena, de onde a divindade se deixava contemplar:

«E que montanha esta, exclamava o grande doutor, que elevação a deste gênio! Vede, João ultrapassa todas as alturas terrestres, todos os espaços etéreos, em seguida os próprios coros celestes e as legiões de anjos. Por que lhe falais do que o céu e a terra contêm? Criaturas ainda. Que fazem aqui os próprios seres espirituais? Estes seres são a obra de Deus, não são o próprio Deus. Mas quereis atingir a Divindade? Subi às alturas onde habita o Evangelista, entrai em sua vida» (1)

«Ah!, exclamava Crisóstomo, falando ao povo de Antioquia, desejais penetrar o segredo dos palácios, conhecer os atos do imperador: vinde aprender as operações de vosso Deus. É o seu melhor amigo que vo-las ensinará; porque traz consigo a palavra de Deus. Se um anjo nos viesse comunicar a linguagem dos céus, com que ardor vos veríamos correr! Ora, aquele que vos fala, vem mesmo do céu. Nele reside o espírito diante do qual o futuro é como o presente, e que sabe as obras de Deus tão bem como nossa alma possui nossos segredos. Não elogia mais os pensamentos de Platão e Pitágoras. Eles procuram, João viu. Desde o princípio apodera-se de todo o nosso ser, eleva-o acima da terra, do mar e do céu, leva-o mais alto do que os anjos, além de toda criatura… Que perspectiva então se abre diante de nossos olhos! Ó horizonte recua sem fim, os limites se apagam! É o infinito que aparece, e João, o amigo de Deus, só descansa em Deus» (2)

Este princípio do Evangelho transportava até mesmo os filósofos. Santo Agostinho conta, na sua Cidade de Deus que um platônico queria que o gravassem com letras de ouro no frontispício dos templos (3).

II

Depois da natureza do Verbo, o mesmo prólogo nos mostra a sua operação no mundo material, no mundo intelectual e na humanidade cuja carne reveste. Este itinerário do Verbo, partindo do seio eterno da Divindade, descendo de esfera em esfera até as humilhações da encarnação, é de uma magnificência sobre-humana.

Assim, segundo São João:

“Tudo foi feito por ele, e nada é criado sem ele. — Tudo o que faz o pai, o Filho também o faz, dizia o próprio Jesus” (Jo 5, 19)

“Nele, explica São Paulo, foram criadas todas as coisas, nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis; ele era antes de tudo, e por ele tudo subsiste” (Col 1, 16.17)

Também como dizem os Padres e doutores, sua marca está por toda a parte: o operário assinou a sua obra, nela imprimindo a sua imagem. É o pensamento de São Próspero, é o de São Francisco de Sales quando diz:

«Qual é este testemunho, e esta amostra que o Verbo nos deu de si, senão a beleza indescritível do mundo que expôs aos nossos olhos? O céu, a terra e o mar são os mais belos caracteres dum livro onde está escrita a palavra de Deus.— O céu é um decálogo onde Deus se revelou, diz Clemente de Alexandria, e o mundo repetindo a bondade, a sabedoria, a beleza de seu autor, vai cantando por toda a parte as maravilhas do Verbo, no tom harmonioso que o sábio Pitágoras pensava ouvir nos céus» (4)

Eis depois, em São João, o segundo movimento do Verbo: deu mais um passo. Não é somente o arquiteto do mundo físico e da ordem material; Ele, Esplendor de Deus, penetra o mundo dos espíritos para lhes ser a luz, a inspiração, a vida, «Ele estava no mundo, nEle estava a vida e a vida era a luz dos homens. Ele era a verdadeira luz que ilumina a todo homem que vem ao mundo» (Jo 1).

Na ordem natural, o Verbo é a luz da razão; Ele é, como se exprime Fénelon, «aquele sol dos espíritos que nos dá ao mesmo tempo claridade e amor»; é, conforme diz Malebranche, «aquela palavra profunda, que se faz ouvir sem cessar no mais íntimo da consciência» (5). Esta palavra falou, esta luz brilhou, antes mesmo de Jesus Cristo; esclareceu os sábios antes de iluminar os santos; a verdadeira filosofia não lhe deve menos do que a verdadeira religião; e este sol das almas teve uma longa aurora, antes do belo dia que brilha sobre nossas cabeças.

Na ordem sobrenatural, o Verbo é a luz da revelação.

«Antes de nos falar por seu Filho, diz São Paulo, Deus nos falara de diversas maneiras por seus profetas»

Ora, o que era esta palavra senão o Verbo divino? Os homens a ouviram. Retumbou das alturas do Horebe às do Sinai; ecoou nos oráculos dos profetas; cantou, chorou, orou nas harpas santas; e as nações guardaram-lhe os ecos. Assim, desde antes da epifania terrestre, o Verbo estava no mundo e, tomado no sentido de religião do Verbo, o cristianismo é a religião eterna!

São João acrescenta que o Verbo-luz era a vida. Não se trata aqui da vida grosseira das plantas, como se exprime Bossuet:

«Crescer, dar flores, botões e frutos. Não é mais do que isto a vida animal e muda; ver, gozar, sentir, ir aqui e ali conforme se é levado. Chama-se a vida: ouvir, conhecer, conhecer-se a si mesmo, conhecer a Deus, amá-lO, querê-lO, contemplá-lO na esperança, possuí-lO enfim no pleno gozo: é a verdadeira vida, e sua fonte é o Verbo» (6)

Mas, o que fizemos nós?!

“Ah!, diz São João, a luz que é a vida brilhou nas trevas, e as trevas não a compreenderam. O verbo estava no mundo e o mundo não o conheceu”

Eis, em resumo, toda a história do homem em suas relações com Deus, durante quatro mil anos. Deus nos dera primeiro Sua imagem na obra de Suas mãos. E depois nos dera Sua palavra, na revelação, natural ou positiva. Nem o belo, nem o verdadeiro, nem a voz da razão, nem a da lei, tinham sido compreendidos. Não fará Deus mais um passo para nós, e depois da imagem e da palavra, não nos dará a Sua presença pessoal?

Chegamos ao terceiro grande passo do Verbo, a encarnação. Mas a razão humana a declarava impossível. Mormente nesta época da vinda de Jesus Cristo todas as escolas eruditas dos judeus e dos pagãos estavam de acordo em afirmar a impossibilidade de qualquer união de Deus, o ser incomunicável, com a criatura (7).

Por outro lado, o coração falava, chamava, implorava um Deus semelhante a nós e vivendo entre nós. Todo o antigo politeísmo, toda a idolatria, eram apenas aspiração cega, porém irresistível, para essa aproximação. O homem tinha sede de Deus, em que termos eloquentes o grande Orígenes nos exprime esse clamor da alma, noiva do Verbo, por seu divino Esposo!

«Fui cumulada de favores, recebi prendas e dons de meu divino consórcio. Durante o meu noivado com o Filho do Rei dos céus, com o primeiro Rei de todas as criaturas, os anjos me deram a lei como um presente de meu esposo. Além disso, os profetas, cheios do Espírito Santo, abrasaram o meu amor, despertando o desejo de vê-lO; pintaram-me Sua nobre beleza e Sua misericórdia. Também não posso suportar a espera de um tal amor… Mas, eis que se aproxima: eis os seus servos que sobem e descem a escada luminosa. Volto-me então a ti, Pai de meu Esposo, suplicando-te que tenhas piedade de mim, e que m’o mande, para que me não fale mais por intermédio de servos, mas que venha em pessoa, e que eu lhe escute os ensinamentos pela própria voz» (8)

Assim, enquanto o espírito repelia a ideia de uma união de Deus com a nossa natureza, como uma coisa inconciliável com sua grandeza, o coração a chamava com todas as forças do amor. Durante longos séculos, a humanidade se agita nesta antinomia. Quem a fará cessar? Quem conciliará estes temores com estes votos? Quem nos dará ao mesmo tempo um Deus inacessível e um Deus accessível; um Deus acima de todos os mundos é um Deus unido ao mundo; um Deus que não se ousa nomear e um Deus que se possa amar; um Deus diferente do homem e um Deus semelhante ao homem?

São João no-lo vai dizer; o voo sublime da águia através dos mundos e através dos séculos vem ter a Nazaré. Toda a magnificência termina neste mistério em que Deus se abaixa até o homem para elevar o homem até a si:

“E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória do Filho único do Pai e ele mostrou-se cheio de graça e de verdade”

Eis a Encarnação, eis o que Orígenes chamava o consórcio do Verbo com a humanidade. Assim, segundo as Atas do concílio de Éfeso, o Verbo ou a palavra invisível de Deus se exprimira para nós em caracteres tangíveis, e o Ser incorpóreo revestira um corpo pelo qual, tornando-se sensível, podia unir-se a nós (9).

A humanidade de Jesus não está menos demonstrada que a Sua divindade no Evangelho de São João; e o homem não é colocado ali sob uma luz menos brilhante do que o Deus.

Aquele que faz sentar Sua mãe a Seu lado nas bodas de Caná e que do alto da Cruz alega a Seu discípulo, é nosso irmão, é o homem; aquele que tem um Pai invisível de quem diz: «O Pai e eu somos um», é Deus.

— Aquele que o cansaço obriga a sentar-Se à beira do poço de Jacó, e pede água, é o homem; mas aquele que, penetrando a consciência da mulher culpada, lhe diz os segredos de sua vida e a sede do coração, é o Verbo, é Deus.

— Aquele que se comove de compaixão e misericórdia diante da mulher adúltera, é o homem; aquele que a vinga do desprezo, a absolve do crime, é o Senhor, é Deus.

— Aquele que se perturba e chora diante do sepulcro de Lázaro, é o amigo meigo, é o homem; aquele que chama seu Pai, e ordena a morte que deixe a sua preza, é Deus.

— Aquele a quem a traição entristece mortalmente no cenáculo, é o homem; aquele que se entrega declarando que Seu suplício tornar-se-á Sua glória, é o Todo-Poderoso, é Deus.

— Aquele que se queixa na cruz de ser abandonado pelo céu assim como pela terra, é o mortal, é o homem; aquele que com o olhar tranquilo, abrangendo o passado e o futuro, declara que «tudo está consumado», é verdadeiramente o Filho de Deus.

— Aquele que morre, pagando assim o terrível tributo de nossa condição, é o homem; aquele que prediz a Sua ressurreição e ressuscita no dia marcado, é Deus.

— Aquele que, vencedor da morte, come com Seus discípulos, e faz-Se tocar por eles, dizendo que é de carne e osso, é o homem; aquele que dá a Pedro o poder sobre-humano de apascentar Suas ovelhas, e diante de quem Tomé cai de joelhos, é Deus.

Eis aí o homem, dizia o juiz mostrando-O ao povo. — Sois meu Senhor e meu Deus, diz o apóstolo vencido e prosternado diante dEle. Estas duas palavras do fim da narrativa de São João correspondem a do princípio: E o verbo se fez carne!

João acrescenta que não somente o Verbo se fez carne como nós, mas que Ele está conosco, e que habita no meio de nós.

Mas João ainda diz mais. Não é conosco, mas em nós que o Verbo habita: Et habitavit in nobis. É «em nós que o verbo habita», como escrevia depois a seus discípulos. Ele ali habita pela graça e pela verdade, plenum gratiae et veritatis. Até então o mundo só tinha da verdade uma centelha fugitiva, eis aqui o foco. Até então os homens só se saciavam na torrente da graça, eis a plenitude: De plenitudine ejus omnes accepimus.

Enfim, a Eucaristia termina e completa o sentido desta palavra; pois é aí que, na verdade, o Verbo feito carne habita literalmente em nós, segundo a expressão de São João. É aí que Sua presença é uma realidade; é aí que a encarnação do Verbo se perpetua, se estende, se faz imensa e imortal como Deus, fazendo-Se ao mesmo tempo individual para o homem, a fim de ficar e agir em cada uma de nossas almas. Santa Teresa disse:

«A graça da Eucaristia foi maior do que a da Encarnação, Jesus divinizou unicamente a Sua alma e Sua santíssima humanidade. Mas na Eucaristia exaltou todos os homens»

Tal era o fim do prólogo de São João.

«Primeiro viu o Verbo no seio do Pai; viu-O criando todas as coisas, porque a vida está nEle; reconheceu que o Verbo é a luz dos homens, que esta luz ilumina a todos quando vêm ao mundo, que ela está no mundo com eles, mas que alumia nas trevas, porque o mundo não sabe de onde vem nem quem é ela; e enfim, que o Verbo se fez carne para manifestar o laço que a une a nós desde a nossa origem, e consumar assim, por uma comunicação mais perfeita da graça e da verdade, o mistério de nossa predestinação à própria vida de Deus. Esta página tão curta é o olhar da águia no infinito. Colocou São João na altura daqueles que viram as coisas divinas; e é impossível, salvo no dia da última visão, aprender melhor do que ali, o que somos e o que Jesus Cristo é para nós» (10)

III

Agora, que razão dava João do mistério da Encarnação? Que motivos incompreensíveis tinham podido precipitar um Deus nessas humilhações da eternidade ao tempo, do céu à terra, do presépio à cruz, da cruz ao altar? Como pôde o espírito fazer assim aliança com a matéria, e o Ser bem-aventurado descer no meio de nossa enfermidade? Era um escândalo para os Judeus e uma loucura aos olhos dos Gregos que acabavam de declarar uma incompatibilidade irremediável, entre estes extremos (11).

O amor! Um amor imenso, incansável, infinito, de Deus para a criatura, eis na opinião de São João a única, porém, grandiosa explicação de todas as obras divinas. Deus tanto amou o mundo! Esta palavra que repete sem cessar, é a última palavra de tudo, do dogma como da moral, da fé como da lei.

Deus ama, Deus é amor, Deus charitas est; eis a verdade primordial para ele. Em seguida o amor de Deus é um amor todo-poderoso, podendo tudo o que quer, querendo tudo o que pode: estes dois princípios estabelecidos, todos os milagres de bondade são apenas a consequência e simples emanação.

«É muito verosímil, dizia a princesa Anna de Gonzaga, de quem fez Bossuet o panegírico, é muito verosímil que Deus amando infinitamente, dê provas proporcionais à infinidade de Seu amor e à infinidade de Seu poder: e o que é próprio à onipotência de um Deus fica muito além da capacidade de nossa fraca inteligência. — Também, acrescenta ela, desde que prouve a Deus me convencer que Seu amor é a causa de tudo o que acreditamos, essa resposta me persuade melhor do que todos os livros»

Com efeito, partamos desta verdade principal que Deus amou o homem com um amor atencioso, prior dilexit me, e eis que os grandes atos da criação, da revelação, da Encarnação e da Eucaristia são apenas a evolução progressiva, lógica, desse amor que se dá; que se dá em Sua obra, em Sua palavra, em Sua presença, em Sua substância; pois o que é o amor senão o dom de si? Em segundo lugar admitíamos que Deus ama infinitamente, pois que é o infinito; e eis a explicação que São João chama o último limite do amor: In finem dilexit. Eis a obediência até a morte sobre a cruz; eis o derramamento do sangue até a última gota. Deus não quer que se possa dizer que alguém ama ainda mais do que Ele:

“Não há, diz Ele, maior prova de amor, do que dar a própria vida por aqueles a quem se ama!”

Assim o Evangelho é a manifestação da caridade de Deus: In hoc apparuit charitas in nobis. O coração de Jesus Cristo, o coração sobre o qual o Evangelista repousou uma noite, lhe diz tudo. É daí, é dessa altura que a águia mergulhou o olhar até o fundo dos mistérios sagrados. O como destes mistérios, ninguém sabe aqui na terra; mas o porquê ali está: Deus ama; tudo se pode quando se é Deus e quando se ama.

Esta bela argumentação tinha além de tudo o poder de atingir as heresias até as raízes. Por que enfim, o que negava Cerinto? E por que o negava ele? E desde então, o que foi que todos os cismas, todas as heresias, todas as separações recusavam compreender? Não era, certamente, o poder de Deus nem Sua sabedoria. Mas, coisa incompreensível como incontestável! É só a Sua bondade, o mistério de Sua bondade que encontra incrédulos; e o homem, amado por Deus, teima em não querer acreditar nesse amor. Porque Cerinto, por exemplo, não queria admitir que o Deus infinito fosse o Deus criador? É que seu egoísmo não podia aceitar que o infinitamente grande pudesse amar bastante os seres a ponto de formá-los de Suas mãos lançando sobre eles um reflexo da própria beleza. Por que lhe repugnava admitir que o Cristo, Filho de Deus, fosse ao mesmo tempo Jesus, filho da Virgem Maria? É que nesse coração pequeno, não podia entrar a ideia que Deus pudesse amar a ponto de se tornar semelhante à criatura amada. Enfim, por que imaginava este homem que a divindade se retirava de Jesus na hora do sofrimento; por que era a paixão um escândalo para este judeu, uma loucura para este filósofo? É que ele não compreendia que o amor pudesse chegar a tal extremidade, de sacrificar a própria vida no suplício e na morte. Assim, o grande mistério sob o qual sucumbia o orgulho desse sofista, era, no fundo, o mistério da caridade de Deus.

Eis porque São João, olhando de cima todas as sutilezas desses homens sem coração, e indo diretamente ao centro da verdade, tomou por axioma que Deus era caridade, e que o princípio de toda a fé era de nela crer:

“E nós somos daqueles que cremos no amor que Deus teve por nós” — Et nos credidimus charitati! (12)

«O Evangelho de São João é o Sagrado coração de Jesus», escreveu um bispo (13). Jesus é o Coração eterno, inclinando-Se para nosso coração e comprazendo-Se em contentar todas as suas aspirações.

«Olha bem, dizia Ele a uma de suas esposas, achas em mim alguma coisa que não seja amor?» (14)

Assim concebida, a religião é invencível, porque se apoia sobre o coração, e esse é imortal.


Referências:

(1) Qualis iste mons erat, quám excelsus! Transcenderat omnia cacumina terrarum, transcenderat omnes campos aeris, transcenderat omnes altitudides siderum, transcenderat omnes choros e legiones angelorum. Quaeris de caelho et terra! Facta sunt. Quaeris de spiritualibus intelligere, levate oculos vostros in montem istum, id est, erigite vos ad evangelistam, eregite vos ad ejus sensum (Santo Agostinho, In Joan, c. I, pág. 291)

(2) São João Crisóstomo, In Joan Evangel. Homil, I: operit. VIII, p. 25-26

It. São Jerônimo, Epist. II, ad Paul. De studio scripturae

(3) Santo Agostinho, de Civitate Dei, lib. IX, p. 29

(4) São Francisco de Sales, de l’Amour de Dieu, livro II ch. IV sect.. III

(5) Fénelón, de l’Existence de Dieu, lère partie, ch. IV.

Malebranche, lle. Méditation, n. 16; et XIIIe. Méditation, et surtout la Prière

(6) Bossuet, Elévations sur les mystéres, XXº Semaine, IXª Elévation

(7) É bem visível, sobretudo nos Parapàrases de Onkelos em Filão

(8) Origen. In cantic., lib. I:

«A alma, acrescenta Orígenes, mesmo entre os pagãos, tem sede de unir-se ao Verbo. Ela também recebeu o penhor do divino casamento. Assim como a lei e profecia foram a garantia do futuro para Israel, assim também a lei da consciência, a inteligência e a liberdade foram para a alma humana, mesmo fora do judaísmo os presentes do noivado. Nenhuma doutrina filosófica pode contentar os seus desejos. Ela pede a luz e a visita do Verbo. Os homens nem os anjos lhe são mais suficientes, ela precisa do abraço do Verbo Divino»

(9) Acta Cone. Ephas. Pars. II, in Homil. de Nativitate Domini, ab Theodoto Ancyrano

(10) Le P. Lacordaire. Premiére lettre á um jeune homme

(11) Philon, de Sacrificio, c. XIII

Platon, Banquet, c. XXIII

(12) 1Jo 4. É o que exprime Bossuet em linguagem admirável:

«Se o homem, que não é senão fraqueza, tenta o impossível (para o que ama), Deus, para satisfazer o Seu amor, não fará nada de extraordinário? Digamos, pois, com razão em todos os mistérios: “Deus tanto amou o mundo!” É a doutrina do Mestre, e o discípulo querido bem o compreendeu. No seu tempo, um Cerinto, um heresiarca, não querendo crer que um Deus tivesse podido Se fazer homem e vítima dos pecadores; o que lhe respondeu este apóstolo virgem, este profeta do Novo Testamento, esta águia, este teólogo por excelência, este santo ancião que só tinha forças para pregar a verdade e para dizer: “Amai-vos uns aos outros em Nosso Senhor”? O que respondeu ele ao heresiarca? Que símbolo, que nova profissão de fé opôs ele a sua heresia recente? Escutai e admirai: “Cremos disse ele, e confessamos o amor que Deus tem por nós. Et nos credimus charitati quam habet Deus in nobis! É essa toda a fé dos cristãos; é a causa, é o resumo de todo o Símbolo» (Bossuet, Oraison funébre d’Anne de Gonzague, t, XII, 563)

(13) R. P. Newman, Sermons on various occasions, VII, 139.

(14) Sainte Angêle de Foligno, ch. XX. p. 48. Trad. d’Ernest Helio.

Voltar para o Índice da Biografia do Apóstolo São João, de Mons. Baunard

(BAUNARD, Monsenhor L’abbé Loui. O Apóstolo São João. Rio de Janeiro, 1974, p. 283-298)