Capítulo 12: São João e Maria. A Assunção

I

São João não se dirigiu imediatamente para a diocese da Ásia. Um dever sagrado e caro o prendia ainda à Judeia, demorando-se junto da mãe de Deus, que se tornara sua, pelo legado divino da Cruz. Assim, apesar do encanto elevado da lenda, que dá Maria como vivendo em Éfeso, a crítica tem de renunciar a esta suposição completamente incompatível com a tradição, a cronologia e a história. Tudo faz crer que Maria ficou em Jerusalém, e ali morreu.

Nessa hipótese, mais que verosímil, ela não se apartou dos lugares que lhe eram tão caros pelos passos de seu Filho. Ali, na cidade santa, pátria-mãe da fé, e ponto de encontro dos irmãos, fica ela com João até o seu derradeiro dia. Ali desce também ela ao túmulo que não devia guardar seus despojos; e assim compreende-se como, no tempo de São Jerônimo, o mausoléu da virgem era venerado no vale de Josafá, no mesmo lugar onde ainda o encontram os viajantes e os peregrinos.

Qual foi a vida de Maria e do apóstolo na pobre casa onde João a recolheu ao descerem do Calvário? Ninguém o contou; e não sei mesmo se alguma língua humana seria capaz de repetir dignamente aquela conversação «que já era dos céus». Bossuet não se anima:

«Dizer-vos, exclama ele, o que eram as ocupações e os discursos de Maria durante sua peregrinação, penso que não é cousa que os homens devam tentar. Quem poderia descrever a impetuosidade desse mútuo amor, para o qual concorria tudo o que a natureza tem de terno, tudo o que a graça tem de eficaz? É certo, cristãos, que podemos ter uma vaga ideia de todos estes milagres; mas imaginar qual era a veemência dessas correntes de chamas, nem mesmo os serafins, ardentes como o são, jamais poderão fazê-lo» (1)

Tal era a conversação da Mãe e do discípulo predileto de Jesus Cristo.

Agostinho em Ostia, sentado ao lado da mãe, e contemplando o céu, diante do mar Tirreno; São Bento e a irmã, passando uma noite de tempestade a falar das coisas da vida futura, ao pé de uma montanha, poderão dar uma ideia desses colóquios íntimos onde Jesus era tudo, e sobre os quais pairava a presença invisível d’Aquele que dissera:

«Quando estiverem reunidos dois de vós em meu nome, eu estarei convosco»

«Eles oravam, diz Fénélon, e transformavam assim em companhia de fé pura, a companhia visível que haviam perdido. Orações admiráveis, em que Maria consolava-se pela suave lembrança de tudo o que seu caro Filho fizera de terno para com ela; orações em que lhe falava, apesar de não poder mais vê-lO; orações em que lhe explicava, mais com lágrimas do que com palavras, seu amor, seu sofrimento, seus desejos de ver terminar uma ausência tão triste e tão penosa» (2)

Esta é a consolação das almas na aflição. Fica-se de súbito separado; com o coração solitário; e o lar vazio, sentamo-nos tristes junto de túmulos; e em lugar dos perfumes que se derramavam outrora sobre os pés adorados, só restam os tristes e lúgubres aromas da sepultura. Foi a melhor parte da vida, que se viu um dia subir para o mundo dos vivos, e fica-se só em baixo, o olhar fixo nessa cidade de esperança para onde foi tudo o que se amou, tudo o que merecia ser amado. Mas a comunhão dos santos é mais extensa que este mundo, pois que abrange todos os mundos. As almas não têm paragem, nem se separam. Por mais longe que as suponhamos, têm para se reunir duas asas sempre prontas a abrir-se: a saudade e a esperança. Além disso, há a oração, o altar, a comunhão, e não é o coração de nosso Deus uma grande pátria para todos nós?

Era ali que se encontravam João e Maria. Nossa religião representa-os palmilhando juntos os lugares que o Senhor assinalara com o seu sangue, inaugurando assim a admirável devoção de todas as almas piedosas, a da Via Sacra. Mas, há ainda uma imagem mais grandiosa de sua santa sociedade. Antes de nos deixar, e para não nos deixar completamente, Deus fizera o milagre de tornar-se eternamente presente na Eucaristia para aqueles que amara. Ele se devia mormente ao amor de sua mãe. Como João, como os apóstolos, «Maria perseverava na fração do pão»; nem é tudo ficção o representar-nos a Virgem ajoelhada junto do altar onde João lhe apresenta a Hóstia, repetindo-lhe a palavra que o Senhor lhe dirigira do alto da Cruz: «Mulher, eis aí teu filho!» (3).

Junto deles vivia Tiago o Menor, que foi bispo de Jerusalém durante trinta anos. Era mesmo no seio dessa Igreja primitiva tão perfeitamente bela, uma santidade de excepção tão elevada e tão pura, que parecia feita de propósito para a companhia de Maria e de São João. As predileções da história sacra são para esse filho de Cléofas, cujos laços de parentesco, atestados pelo Evangelho, o uniam a José e a mãe de Deus. Era sobrinho de Maria (4). Há mesmo alguns Padres da Igreja oriental, Epifânio e Gregório de Nissa, que nos contam como Tiago, ainda criança tinha sido educado pelos cuidados da Virgem, ao lado de Jesus (5). O que é certo, porém, é que Jesus Cristo o amava particularmente. Não foi ele ingrato para com o augusto parente a quem estimava como irmão e adorava como Deus. Quando O viu morrer mostrou-se publicamente tão certo de tornar a vê-lo no dia profetizado, que fez, diz São Jerônimo, voto de nada comer enquanto não fosse testemunha da ressurreição. Também Jesus glorioso, honrou-o logo com uma de suas primeiras visitas, que São Paulo menciona (Gl 1, 19). Veio ter com ele, acrescenta São Jerônimo, sentou-se à mesa, e tomando o pão, benzeu-o dizendo-lhe:

«Comei, caro irmão, porque o Filho do Homem ressurgiu dentre os mortos» (6)

São Jerônimo conta-nos mais que o Senhor concedeu então a esse amigo o dom de uma ciência eminente, que o tornou uma das luzes da nascente Igreja. Mas, era sobretudo a sua pureza e sua caridade que o tornava mais semelhante à João e à Maria. O historiador mais antigo de todos, Hegesippo, citado por São Jerônimo e Eusébio, pretende que ele era virgem, consagrado ao Senhor desde o seio de sua mãe, completamente desapegado deste mundo, e só vivendo para o outro (7). Tinham-no sempre visto desde a mais tenra infância, rigoroso observador da regra dos Nazarenos, abstendo-se de carne, só bebendo água, e praticando, no seio da família de Jesus, a penitência que João Batista pregava no deserto. Ele era, como São João, o apóstolo da caridade:

«Meus irmãos, escrevia, não vos façais mal uns aos outros. Aquele que fala mal de seu irmão, transgride e julga a Lei que o julgará um dia. A religião pura e sem mácula, diante de nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se imune da contaminação deste século» (Tg 1, 27)

Também este nome de Justo que lhe dá o Evangelho, lhe tinha sido conferido por unanimidade dos Judeus como dos cristãos. Testemunhas de suas virtudes, os Judeus lhe atribuíam a salvação da cidade e diz-se que até o chamavam «o baluarte do povo». Num ano de seca, conta Santo Epifânio, apenas o santo levantara as mãos ao céu, e logo a chuva veio refrescar a terra (8).

Enfim, Josepho fala dele com uma espécie de respeito religioso, atribuindo ao assassínio desse homem todos os males que caíram sobre o seu país. Saía dele uma virtude, e não sei que reflexo da fisionomia do Justo por excelência imprimiu-se nesse justo, pontífice e pastor da Igreja do cenáculo, tão perfeitamente digno de participar com São João, do parentesco e da companhia da Mãe de Deus.

No entanto, estava reservado à Maria ter também parte no testemunho da verdade. O Espírito Santo inspirou nesse tempo aos discípulos substituir a narrativa escrita de sua história às lembranças pessoais que podiam apagar-se ou alterar-se na memória das testemunhas da vida de Jesus. Foram então redigidos os três primeiros Evangelhos, e a eles Maria não foi estranha. Além de ter sido a testemunha mais constante duma existência a quem nada podia escapar, havia fatos na vida de Jesus cujo conhecimento era pessoal à sua mãe, e dos quais, portanto, a narrativa no Evangelho, acusa o seu testemunho necessário e manifesto.

Qual outro senão Maria, e além disso, quem melhor que ela conheceu e fez conhecer o mistério da Encarnação, da Anunciação, as promessas do Anjo, a visita à Isabel, o hino do Magnificat que Deus lhe inspirou nesse dia, o nascimento em Belém, a adoração dos anjos, dos pastores e dos magos, a apresentação no templo, o cântico de Simeão, a fuga para o Egito, o menino Jesus achado entre os doutores, coisas estas cujo segredo só Maria possuía. Ela as conservara, recordando-as em seu coração, observa o Evangelista que as conta, como se, por esta frase, quisesse indicar por que modo lhe foi o conhecimento delas direta e fielmente transmitido.

Esta observação é de São Lucas (9); é ele sobretudo, quase exclusivamente ele, que se fez o historiador desta suave aurora da vida de Jesus. Ora, dos três escritores chamados sinóticos, é ele, com efeito, o que parece ter mais relações pessoais com a mãe de Deus. Haverá, por exemplo, alguma coisa de mais simbólica significação do que a tradição que representa São Lucas, pintor e evangelista, reproduzindo os traços augustos de Maria? Além disso, ele mesmo conta nos Atos dos Apóstolos que, tendo vindo a Jerusalém com Paulo, foi ter com Tiago, pondo-se assim em relação direta com a santa família (10). Ora, ali quem lhe podia melhor informar do que Maria? Ele não dá o seu nome, mas São Irineu, Eusébio, e mais tarde São Jerônimo, no-lo mostram recebendo suas inspirações das primeiras testemunhas da vida do Senhor (11). De sorte que, se, como tudo o faz crer, Maria era desse número, e a primeira dos que tomaram parte na história de Jesus Cristo, é com razão que a Igreja chama-a rainha dos Evangelistas. Encontra-se no livro santo uma palavra, um traço que só podem vir dela; e um sentimento mais terno se mistura à adoração quando, lendo essas páginas sagradas, pensamos que foram inspiradas por tal coração, e que uma mãe divina ditará essas memórias sobre a infância de seu Filho.

Agora, seria possível que a companhia de Maria não tivesse influência sobre o Evangelho de São João? Dentre os Evangelistas, aquele que mais privou com ela, poderia deixar sentir o benefício de sua companhia? Esta penetração dos mistérios da fé, estas profundas intuições da alma do Mestre que se admiram no apóstolo, não deviam achar-se primeiro em Maria? A palavra eterna de São João: «Deus amou tanto o mundo!» não devia estar sempre nas conversas da Mãe e do discípulo de Jesus, antes de encher todas as páginas do Evangelho? Orígenes o insinua claramente, quando diz:

“Este Evangelho é por tal forma íntimo, que só podia aperceber-lhe o sentido, aquele que repousou sobre o peito de Jesus, e a quem Jesus dera sua mãe” (13)

Que aqueles que sabem ler até o fundo nas Leituras de Deus, entendam estas coisas. Poderão compreender que, se este Evangelho é o foco de tais energias e tais resplendores é que sobre ele convergiram os raios do que Deus fez de mais admirável há ordem espiritual: o gênio inspirado de um amigo, e o coração de uma mãe.

II

No entanto a vida de Maria não era na terra. Conservava-se na primitiva Igreja, a lembrança da fisionomia da mãe de Deus nessa época de sua vida. Já era como uma aparição do céu descida à terra.

«Em tudo, diz o historiador Nicéforo, segundo São Epifânio, Maria mostrava a seriedade, a dignidade, a honra, falando pouco, e só quando necessário, preferindo ouvir os outros, humilde, meiga e afável, prestando a cada um o respeito que lhe convinha. Não conhecia o riso, a agitação, a cólera: o mal causava-lhe horror. Seus olhos eram vivos, porém cavados pelas lágrimas, suas mãos transparentes e brancas, todas as feições dilatadas pelo sofrimento» (13)

Era um novo gênero de beleza imaterial, misto de força e doçura, de resignação e de esperança, a qual não é senão a forma da alma, e que ia tornar-se a fisionomia particular dos santos.

Como observa Bossuet, «numa tristeza semelhante, era um verdadeiro milagre que Maria pudesse viver separada de seu Filho querido. Seu amor era tão ardente, tão forte e abrasador que um de seus suspiros deveria romper todas as fibras do corpo. Nem um sentimento formava que não devesse perturbar-lhe toda a harmonia, nem um desejo subia ao céu que não fosse para atrair a alma de Maria».

Um dia partiu esta alma.

«Como foi, pergunta ainda o grande Bispo, que o amor lhe vibrou o golpe final? Foi, quando Ele, aumentando sempre, chegou a tal perfeição, que a terra não era mais capaz de contê-lO. Vai, meu filho, dizia aquele rei grego, estende bem ao longe as tuas conquistas: meu reino é muito pequeno para te conter. — Oh! Amor da Santíssima Virgem, tua perfeição é excelsa demais para permanecer num corpo mortal; teu afeto arremessa chamas muito vivas para poder ser coberto por estas cinzas. Vai brilhar na eternidade, vai arder diante da face de Deus; vai perder-te em seu seio imenso, único capaz de conter-te» (14)

A bem-aventurada morte da Mãe de Deus ocorreu alguns anos depois da dispersão dos apóstolos (15).

Entre a variedade de narrativas que chegaram até nós sobre essa morte gloriosa, a de Nicéforo é a que nos parece ter maiores garantias de autenticidade, se é verdade que a deve a antigos documentos emanados dos próprios lugares, testemunhos da morte de Maria.

Ora, eis o que ele diz:

«Naquele tempo, um anjo foi enviado a Maria por seu filho, a fim de prevenir-lhe que chegará o momento de ir ter com ele, assim como outrora o anjo a advertira que Deus desceria a ela.

«Tendo sabido que estava próximo o dia, encheu-se-lhe o coração de alegria, e tendo anunciado aos amigos e parentes, preparou-se para esta última viagem. Pouco depois foi para a cama, na casa onde morava no monte Sião.

«Ali se achava São João, que a recolhera, e com ele tudo o que Jerusalém possuía de cristãos ilustres, ligados à Maria pelo parentesco, veneração ou amizade.

«Maria então ordenou ao discípulo virgem e aos outros assistentes que distribuíssem suas duas túnicas às viúvas da vizinhança que a haviam cerceado de um amor piedoso.

«Ouvindo-a assim falar, todos derramavam abundantes lágrimas, pensando na solidão em que ia deixar-lhes a partida de Maria.

«Em seguida seu divino Filho desceu dos céus com a multidão sem conta de santos anjos, para receber aquela alma celestial.

«Os apóstolos igualmente, tinham vindo de todos os lados, e Maria, vendo-os em roda de si com tochas acesas despedia-se deles com grande alegria, dando graças a seu Filho.

«Depois deixou-se cair moribunda sobre o leito, levantando as mãos grave e religiosamente, e, dispondo seu corpo venerável e mais puro que o sol: «Faça-se ainda a vossa vontade», disse, e no mesmo instante pareceu adormecer.

«Foi assim que no meio daqueles que lhe eram mais caros, ela entregou a alma bem-aventurada.

«No entanto os apóstolos e todos que lá estavam, rodeavam o corpo da bem-aventurada que beijavam religiosamente.

«Os cegos ali recobravam a vista, os surdos o ouvido, os paralíticos admiravam-se de andar, e pelo contato, os doentes ficavam curados.

«Foram celebradas exéquias. Seguravam tochas diante dela, queimavam-se perfumes, jogavam se flores; os anjos do céu precediam ou seguiam o féretro.

«Os Padres e os apóstolos recitavam hinos maravilhosos, e, carregada pelas próprias mãos dos discípulos, esta arca de aliança espiritual encaminhava-se de Sião a Getsemani.

«Chegando a Getsemani, ali foi, como seu Filho, colocada no sepulcro. Mas este Filho tirou-a para transportá-la ao paraíso, onde está plantada a árvore de vida, e onde ainda permanece para fins só conhecidos do Deus que assim o fez»

III

Maria não ficou, portanto, no túmulo. Sua Assunção não é, sem dúvida, um dogma que a Igreja imponha a nossa fé (16); mas é uma crença saída do coração e que tem sua razão teológica, indiscutível, no duplo privilegio da Imaculada Conceição e da maternidade divina da Virgem.

«Ela foi incorruptível porque era pura, assim explica o Bispo de Meaux. Deus veio até essa carne, encantado pela sua pureza; amou-a a ponto de nela encerrar-se durante nove meses, com ela incorporar-se, nela criar raiz, como diz Tertuliano. Ele não deixará, portanto, no túmulo esta carne que tanto amou: mas a transportará ao céu, ornada de glória imortal» (17)

Mas se nada há de mais bem fundado como a crença na Assunção do corpo de Maria ao céu, nada há de mais variado como os textos que no-la contam. Continuemos a seguir Nicéforo, cuja composição bem se faz conhecer.

«No entanto, escreve ele, os apóstolos iam voltar, quando um deles, Tomé, só tendo vindo três dias depois da sepultura, fez abrir o túmulo, a fim de contemplar o corpo sagrado da Virgem.

«Logo que abriram, não acharam o corpo. A mortalha estava só e posta a um canto, como se vira outrora no túmulo de Jesus. Um perfume delicioso evolava-se do sepulcro, que os discípulos beijaram e fecharam de novo com respeito»

Nada mais havia de Maria sobre a terra. É nas alturas do céu que é coroado o mistério; ele se esconde a nossos olhos; mas para ali penetrar, o gênio da eloquência e o da arte, inspirados pelo amor, nos vão emprestar suas asas.

Com olhar de águia, Bossuet atravessa a nuvem; segue aquele longo cortejo de profetas repetindo à Virgem triunfante, os oráculos agora realizados com ela:

«Quanto a mim, exclama ele no fim de seu discurso, se me é permitido misturar minhas concepções a segredos tão augustos, eu imagino que Moisés, vendo esta rainha, não pôde deixar de repetir a bela profecia que nos deixara em seus livros:

“Saíra uma estrela de Jacó, e um galho de Israel”

Isaías inebriado com o espírito de Deus, cantou num enlevo incompreensível:

“Eis aí! Aquela Virgem que devia conceber e dar à luz um filho”

Ezequias reconheceu a porta fechada por onde ninguém jamais entrou nem saiu, porque foi por ela que o Senhor das batalhas fez sua entrada. E no meio deles, Davi, o profeta real, animou uma lira celeste com este cântico admirável:

“Vejo à vossa direita o meu Príncipe; uma rainha com uma vestimenta de ouro realçada por uma variedade maravilhosa. A glória toda desta filha de rei é interior; no entanto está ornada com um bordado todo divino. As virgens depois dela, se apresentarão a meu Rei; serão levadas a seu templo com santa alegria”

«No entanto a própria Virgem mantinha os espíritos bem-aventurados em respeitoso silêncio tirando ainda do fundo do coração estas palavras maravilhosas:

“A minha alma glorifica ao Senhor, e o meu espírito se regozijou em Deus meu Salvador, porque pôs os olhos na baixeza de sua serva, e eis que todas as gerações me chamarão bem-aventurada”

«Eis ali como é a entrada da Santíssima Virgem. A cerimônia está concluída; toda aquela pompa sagrada está acabada. Maria sobe a seu trono, entre os braços de seu filho, na luz eterna a qual se refere São Bernardo» (18)

Só há um quadro superior a este, é o do irmão Angélico de Fiesole, quando, no dia seguinte de um êxtase místico, representou a coroação da Virgem pela santíssima Trindade. O céu abriu-se, Maria chegou ao auge da glória; anjos dos mais jovens, de longas vestes, com a fronte aureolada de chamas agitam em redor dela suas brilhantes asas de púrpura; a família dos santos da tribo dominicana mais abaixo saúda-a nas serenas alturas onde foi reinar. Ela, porém, não triunfa, recolhe-se ao contrário na admiração de santa ventura. De sua alma não sai, como o supõe Bossuet, o hino do Magnificat, antes parece perguntar-se a si mesma com outrora, no dia da Anunciação:

«Como pode isso ser?»

Em resposta, seu Filho coloca-lhe a coroa sobre a fronte. E eis que Ele lhe estende os braços, e nunca mais se irão de separar.

Num dos textos antigos que mencionamos, fala-se que Maria, no momento de morrer, chamou uma das companheiras e deu-lhe seu cinto. O cinto de Maria era muito venerado no Oriente. Era o emblema das pudicas virtudes cuja herança ela deixava à terra. Essa vestimenta de penitência, de castidade e de honra que a Virgem Imaculada deixa cair em terra ao subir para o céu, milhares de outras virgens tomarão para se ornarem com grande alegria, e sentir-se-ão felizes em usá-la. Ela dará beleza à sua vida, perpetuará sua mocidade, e dela ver-se-á irradiar a graça no tempo, na glória, na eternidade.


Referências:

(1) Bossuet, ler Sermon pour la fête de l’Assomption, prem, partie

(2) Fénélon, Sermon sur l’Assomption de la sainte Vierge

(3) Suarez, no seu comentário sobre os quesitos que Santo Tomás consagra à Santíssima Virgem diz expressamente que Maria, depois da Ascensão recebeu o Sacramento do altar das mãos dos apóstolos.

(4) Sua mãe chamava-se Maria: «Erant autem mulieres inter quas Maria Jacobi Minoris» (Mc 15, 40, e 16, 1)

Esta Maria, segundo São Jerônimo (Ep. 150), é a mesma chamada por São João, Maria mulher de Cléofas, irmã da Santíssima Virgem (Jo 19, 25). Assim, Tiago seria, como o diz São Paulo (Gl 1, 19), irmão, isto é, primo do Senhor, e sobrinho de Nossa Senhora (Item Theodoret. in Galat., 1, 19, p. 268. S. Chrys. in Galat., p. 801)

Tiago o Menor é também chamado filho de Cléofas e filho de Alfeu, sendo estes dois nomes idênticos segundo Santo Agostinho e Beda (in Marc. lib. I, c. XVI oper. t. V, p. 113). Ora, segundo Hegesippo, este Cléofas era Irmão de São José. (Euseb, Hist. Eccl. II, IX, et IV, XXII). É outro laço de parentesco reconhecido por São Jerônimo e São João Crisóstomo.

V. M. de Valroger, Introd., t. II, p. 346 et sq.: et Tillemont, Mém. Pour P. Hist. Eccl., t. I.

(5) Origen. In Cels. Lib. I, p. 35.
Epiphan. Haer. LXXVIII, cp. XIII, p. 1045.
Greg. Nyss. De Resurrect. II, p. 413.

(6) Dominus ivit ad Jacobum et apparuit ei… Tulit panem et benedixit ac fregit, et dedit Jacobo justo, et dixit ei: Frater mi, comede panem tuum, quia resurrexit Filius hominis à mortuis (S. Hieronym. Lib. De Scriptor, eceles., in Jacobo, t. I. Juxtà Evangelium Secundum Hebreos)

(7) Apud Euseb. lib. II, c. I et VII, 19.
Apud Epiph. Heer LXXVIII. n.14.
Chrysost. in Acta apostol. tiomil. Y, n. 3, app. t. YII, p. 78.

Hic de utero matris sanctus fuit, vinum et ciceram non bibit, etc… Huic soli Iicitum erat ingred sancta sanctorum; siquidem vestibus laneis non utebatur, sed lineis; solusque ingrediebatur templum, et fixis genibus pro populo deprecabatur (Hegesip., apud. S. Hieronym. ex Catalogo scriptor. eccl.)

(8) Apud Baron, Annal. Eccl., ad na 63, S.

V. também Tillemont, Mém. T, I, p. 373.

O Talmude conta que o Judeu Eligazer foi curado da mordida de uma cobra pela oração de Tiago, e era nome de Jesus.

Na idade média acreditava-se que Santo Inácio, o futuro mártir, também fazia parte dessa sociedade santa.

V. S. Bernad, Serm. VII in Pasalm. IX.

Dionys Carthus, in Commentar, in Dionys, Areopogit de divinis nominibus. Baron. Annal-Eccl, na 109, 34.

Citava-se até cartas de Inácio, então em Antioquia, escritas à São João queixando-se de não ver mais a cidade de Jerusalém e a santa família.

A autenticidade dessas cartas é discutida em Cotellier, Patres aeyri post., t. I Tillemont, Mémoires t. II, p. 192.

São com razão consideradas apócrifas.

“Quem não estima, diz uma dessas cartas, ver e conversar com aquela que concebeu em seu seio o verdadeiro Deus?

“Quisera ver também o venerável Tiago, denominado o justo, tão parecido com Jesus, na vida, no modo e nos traços, que até se pensa ser gêmeo com o Senhor. Vendo-o, tenho a ilusão de ver o próprio Jesus Cristo.

“Enfim, desejo ver todos os santos e santas, o que me prende aqui? Bom Mestre, ordenai que eu vá ter convosco” (Epist. S. Igdat., Cotellier, p. 75)

(9) Et mater ejus conservabate, omnia verba haec in corde suo (Lc 2, 51)

(10) Et cum venissemus Jerosolymam, libenter exceperunt nos fratres.

Sequenti die introibat Paulus nobiscum ad Jacobum, omnesque collecti sunt seniores (At 21, 17.18)

(11) Euseb. Hist, Ectl. IIIr 4).
S. Iren, adv. Haex. III, x, p. 1.
S. Hieronym, dz Vità illustr. c- VII.
S. Chrysost in Matth. Horn. 1, n. 3.

(12) Cujus sensum percipere nemo potest nisi qui suprá pectus Jesu recubuerit; vel acceperit à Jesu Mariam (Origen. In Joan, op. t, II, p. 6, A)

(13) Nicephor. Callist. Hiss. Eccl. Lib. II, cap. – Ele escrevia no 14º século. O bispo Santo Epifânio a que se refere é do 4º, e tinha vivido na Palestina, etc.

(14) Bussuet, 1.er Sermon pour la fête de l’Assomption, prem, partie.

(15) Baron. Annal, Eccl., an, 48.

Tillemont, Mém, pour l’Hist, Ecbl. T. I, note XIV, sur la sainte Vierge.

Seria difícil dizer exatamente a época. Baronius a recua até o ano 48, o 6.° de Claudio, o 4.º do pontificado de Pedro, 14 anos depois da paixão, sob o consulado de Valério o asiático e de Valério Messala. Baseia-se numa passagem da Crônica de Eusébio suprimida por Scaliger e de cuja autenticidade Tillemont duvida. Nicéforo, monge grego do 14º século, é da mesma opinião.

Com efeito, garante que deve esta narrativa ao bispo Juvenalis, patriarca de Jerusalém que quatro séculos depois da Assunção fez um solene relatório a Pulcheria, mulher do imperador Marciano, quando ela procurava o corpo da Mãe de Deus, a fim de depositá-lo na Igreja que fizera construir em honra à Santíssima Virgem, no quarteirão de Blachernes.

(16) Porrò Dei Ecclesia, in eam partem propensior videtur ut unà cum carne sit in coelum assumpta… Quae quindem sentia cum plurimorum theologorum, tum etiam communi sensu fidelium recepta videtur (Baronius, Note on Martyrol. Rom., 15 Aout.)

Sobre a Assunção do corpo de Maria ao Céu, V. Felipe e François Strozzi, Jacques Gaudim, Nicol. Ladvocat; Biliard, Repetitae Vindiciae pro assumptione B. M. V.

(17) Bossuet, Sermon pour le jour de l’Assompticion.

Contribuition to the apogryphal literature of the New Testament.

London 1865. Obsequies of the holy Virgin.

Zoega, Catalogus codicum Copticoran musse Borgiani Romae. 1810. In-fol., n. CXX, p. 223. – M. Dulaurier traduziu este fragmento em francês, num folheto instituindo: Fragments des revelations apocryphes de S. Berthelemy. Paris 1835.

O primeiro que a isso se refere é um fragmento siríaco do museu britânico sobre o enterro da Santíssima Virgem, e que, com certeza deve datar do século V. Segundo esse livro, foi ao arcanjo São Miguel que Deus encarregou de transportar o corpo de Maria para o Paraíso terrestre, onde realizou-se o milagre da ressurreição

Num manuscrito cophte,  recentemente publicado e traduzido em francês, vê-se que maria pedira para não ser tocada pelo espectro da morte. Assim logo que o Anjo fúnebre penetrou e foi para atingi-la, ela se acolheu aos braços de seu Filho que levou a alma ao Céu e mandou depositar o corpo no vale de Josafá, onde devia ficar apenas alguns instantes.

Segundo o livro de Meliton, ou pelo menos atribuído ao Santo Bispo de Sardes, foram os apóstolos que rogaram ao Senhor que ressuscitasse sua Mãe, cujo o corpo os anjos levaram com efeito para o Céu.

C. Tisehendorf, Apocalypses apocryphar. Em seguida, a quatro apocalipses apócrifos, encontram-se três narrativas da morte da Santíssima Virgem, a primeira em grego é atribuída a São João Evangelista, as outras duas em latim, uma sob o nome de José de Arimateia, e a outra de Meliton de Sarda.

O livro com o nome de José de Arimateia contém mais detalhes: Tomé, denominado Dídimo, só chega depois da morte da Mãe de Deus: faz abrir o túmulo e achando-o vazio, conta que viu Maria elevando-se nos ares, carregada pelos anjos. Essa é também a tradição que segue Nicéforo.

(18) Bossuet, Sermon pour la fête de l’Assomption

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(BAUNARD, Monsenhor L’abbé Loui. O Apóstolo São João. Rio de Janeiro, 1974, p. 192-209)