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Do sexto fruto da sexta palavra

Capítulo 30: Do sexto fruto da sexta palavra
Resta o último fruto, que se deve colher com o maior proveito, da perseverança de Cristo na Cruz, pois daquela palavra: Tudo está consumado, entendemos que o Senhor concluiu a obra da sua Paixão do princípio ao fim, de sorte que nada Lhe pudesse faltar. «As obras de Deus são perfeitas» diz Moisés (Dt 33), e assim como o Pai no sexto dia concluiu a obra da Criação, e descansou no sétimo, assim também o Filho terminou no sexto a obra da Redenção, e no sétimo descansou. Debalde clamavam os judeus, em frente da Cruz:

“Se é Rei de Israel, desça da Cruz, e acreditamo-lo” (Mt 26)

Melhor diz São Bernardo (1):

«Antes, porque é Rei de Israel, não abdique o seu título»

E pouco abaixo:

«Não te dará ocasião de nos ser roubada a perseverança, a qual só é coroada. Não fará emudecer as línguas dos pregadores, que consolam os pusilânimes, e que a cada um estão dizendo: “Não abandones o teu lugar”, o que sem dúvida aconteceria, se eles lhes pudessem responder que Cristo abandonará o seu»

Cristo perseverou na Cruz até o fim da vida, para concluir a Sua obra tão perfeitamente, que nada faltasse-Lhe; e para nos deixar um exemplo verdadeiramente admirável de constância; porque nenhuma dificuldade tem a permanência em sítios amenos, e em atos que produzam prazer, porém a continuação num estado trabalhoso e de sofrimento é dificílima. Se conhecermos o que fez que Cristo perseverasse na Cruz, talvez aprenderemos a levar também a nossa com a constância, e a pendermos nela com perseverança até morrer, se tanto for preciso. Se alguém lançar os olhos só à Cruz, não poderia deixar de horrorizar-se à vista do funesto instrumento de morte, mas, se erguer os olhos não só os do corpo, mas também os da alma, Àquele que nos manda, que levemos a nossa cruz até o lugar aonde ela guia, e até o fruto que dela nasce, então não será difícil nem custoso, mas fácil e aprazível, levar a Cruz, ainda que ela seja pesada, ou perseverar, pendente dela.

Que foi o que fez que Cristo nela pendente tanta perseverança tivesse até à morte, sem Se queixar? A primeira causa foi amor a seu Pai:

“Não queres que eu beba o cálice que meu Pai me deu?” (Jo 18)

O amor de Cristo a seu Pai, é inteiramente indizível; e tal era também o do Pai a seu Filho; e vendo que aquele cálice Lhe era dado por um Pai, o melhor de todos, e amantíssimo, de sorte que não podia suspeitar de modo nenhum, que Ele Lhe era dado para um fim que não fosse ótimo, e gloriosíssimo para Si mesmo, que há que admirar tê-lo Ele bebido da melhor vontade até à última gota? Além disto, o Pai desposou seu Filho com a Igreja, esposa que não tinha asseio, e tinha rugas; mas que Ele querendo cuidadosamente lavá-la num banho quente do Seu sangue, facilmente tornaria gloriosa, sem mácula nem ruga (Ef 5). Amou Cristo a esposa, que seu Pai Lhe deu, e não Lhe foi custoso lavá-la no Seu sangue, para torná-la formosa e gloriosa, pois se Jacó pelo amor que tinha a Raquel, serviu sete anos Labão, pastoreando-lhe o seu gado, sofrendo calmos e frios, e fugindo-lhe o sono dos olhos; e aqueles anos, tantos, lho pareceram poucos dias pelo amor que ele tinha (Gn 29); se, torno a dizer, por uma Raquel, Jacó se não enfadou com sete anos de serviço, e ainda de outros sete, que admira que o Filho de Deus quisesse aturar na Cruz três horas por amor da Igreja, sua Esposa, que havia de ser Mãe de muitos mil santos, filhos de Deus? Finalmente, Cristo quando estava para beber o cálice da Paixão, não atendia só ao amor de seu Pai e da sua Esposa, atendia também aquela elevadíssima glória, e grande e interminável alegria, a que havia de subir pela escada do patíbulo da Cruz, pois diz o Apóstolo:

“Humilhou-Se Se fazendo obediente até à morte, e morte da Cruz; pelo que Deus não só O exaltou, mas Lhe deu um nome, como não há outro; pois ao nome de Jesus tudo dobra o joelho, no Céu, na Terça e no inferno” (Fl 2)

Acrescentamos ao exemplo de Cristo o exemplo dos Apóstolos. São Paulo, fazendo a enumeração, das suas cruzes, e das dos outros Apóstolos, na sua Epístola aos Romanos, diz:

“Quem nos separará, pois do amor de Cristo? A tribulação, ou a angustia, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a perseguição, ou a espada?” (Rm 8)

Assim como também esta escrito:

«Porque por amor de ti somos sempre mortificados, e tidos em conta das ovelhas destinadas ao matadouro, tudo isto, porém suportamos por amor daquele que nos amou» (Sl 43)

Para sofrerem os tormentos e perseverarem neles, não lhes davam atenção, prestando-a ao amor de Deus, que por nós deu seu Filho; ou também consideravam no mesmo Cristo que nos amou, e se sacrificou por nós. O mesmo Apóstolo, escrevendo aos Coríntios, lhes diz:

“Estou cheio de contentamento, exubero de gozo em toda a nossa tribulação” (2Cor 7)

De onde virá tamanho contentamento, tão grande consolação, que quase se não sintam as tribulações? Dí-lo, ele em outra parte:

“Porque o que aqui é para nós de uma tribulação momentânea, e ligeira, produz em nós de um modo todo maravilhoso no mais alto grau um eterno de glória” (2Cor 4)

Por isso a contemplação da glória sempiterna, que ele trazia antes os olhos da alma, era a causa, porque a tribulação lhe parecia momentânea e leve.

«Contemplações assim, que perseguição poderá perturba-las? Que tormentos poderão vencê-las?» Diz São Cipriano (1)

A estas pode acrescentar-se o exemplo de Santo André, que olhou não como tormento, mas como amiga, a Cruz, em que esteve pendente dois dias, e querendo o povo tirá-lo dela, de modo nenhum o consentiu, mas quis nela permanecer até à morte, e não era aquele santo um imprudente, pois era muito sábio e cheio de Espírito Santo.

Destes exemplos de Cristo e dos seus Apóstolos podem os cristãos aprender como devem orar, quando não possam descer da Cruz, isto é, livrarem-se da tribulação, sem por este fato pecarem. Neste caso estão principalmente todos os regulares, cuja vida, sujeita aos votos de pobreza, castidade, e obediência,
é reputada uma semelhança de martírio; os casados, quando por divina providência o marido tem uma esposa impertinente, desmazelada, colérica, e quase insuportável; ou a mulher um marido não menos custoso de aturar, como o de Santa Mônica, mãe de Santo Agostinho, conforme este Santo diz nas suas Confissões (2); os escravos que perderam a sua liberdade; os condenados a cárcere perpétuo; os sentenciados às galés; os doentes de moléstia incurável; finalmente, os que só furtando, ou roubando, podem enriquecer. Todos estes, e alguns mais que haja, se desejam ter perseverança, em levarem a sua cruz com gozo espiritual e grande merecimento, não ponham os olhos nela, mas nAquele que lh’a pôs aos ombros, pois foi sem dúvida Deus, que é nosso Pai amantíssimo, e sem cuja providência nada se faz neste Mundo. O que é do agrado de Deus é sem dúvida nenhuma o melhor que pode ser; e deve ser para nós do maior agrado possível, porque deve todos dizer com Cristo:

“Não queres que eu beba o cálice que meu Pai me deu?” (Jo 18)

E com o Apóstolo:

“Em todas estas coisas saímos vencedores por aquele que nos amou” (Rm 8)

Além disto, podem também e devem todos àqueles que só pecando possam abandonar a sua cruz, considerar não tanto o trabalho presente, quanto a futura recompensa, que sem dúvida nenhuma é superior a todas as penalidades e sofrimentos desta vida, como diz o Apóstolo:

“As penalidades desta vida não tem proporção com a glória vindoura que em nós se há de manifestar” (Rm 8)

E em outra parte falando de Moisés:

“Tendo por maiores riquezas o opróbrio de Cristo, de que os tesouros dos Egípcios; porque olhava a recompensa” (Hb 11)

Podemos finalmente acrescentar para consolação daqueles que são obrigados a levar por muito tempo uma pesada cruz, o exemplo de dois indivíduos, que perderam a constância com que levavam a sua, e por isto se sujeitaram a outra, sem comparação mais pesada.

Judas, o traidor, que entregou Cristo, caindo em si, e detestando o crime que cometera, e não podendo suportar a vergonha a que necessariamente se expunha, se quisesse aparecer diante dos Apóstolos ou dos outros discípulos, enforcou-se; mudou, porém, não evitou a cruz da vergonha a que queria fugir, pois maior vergonha será a sua no dia do Juízo, quando for à presença dos anjos e dos homens declarado não só traidor de Cristo, mas homicida de si mesmo. E quão grande não foi a sua cegueira, pretendendo evitar uma pequena vergonha na presença do pequenino e manso rebanho dos discípulos de Cristo, que todos o havia de animar a ter confiança na misericórdia do Salvador, e não ter cuidado nenhum em evitar a vergonha e infâmia, que há de sofrer no teatro de todos os homens e anjos da traição que fez a Cristo, e de se ter enforcado?

O outro exemplo pode tomar-se da oração de São Basílio sobre os quarenta Mártires, em suma é assim. Na perseguição do imperador Licínio quarenta soldados, que não quiseram deixar a lei de Cristo, foram condenados a passar uma noite inteira nus, expostos ao sereno, na quadra do inverno, e num lugar em que o frio era intensíssimo, para assim morrerem no cruelíssimo e prolongadíssimo martírio da congelação. Estava pronto próximo deles um banho morno, para nele entrarem os que quisessem renegar da fé. Trinta e nove, olhando com os olhos da alma não tanto para o tormento, presente da congelação, que brevemente havia de ter fim, como para a coroa da glória sempiterna, sem custo perseveraram na fé, e mereceram da mão do Senhor brilhantíssimas coroas. O que só prestava atenção ao tormento, considerando todo nele, não pôde perseverar, e saltou para o banho tépido, porém morreu imediatamente, esfacelando-se-lhe as carnes, já congeladas, e foi, por ter negado Cristo, sofrer no inferno os tormentos eternos. Assim, fugindo da morte, encontrou a morte, e trocou uma cruz leve e de pouca duração, por outra pesadíssima, e que nunca há de ter fim. Imitam estes infelizes todos aqueles que desertam da ordem religiosa; todos os que arremessam de si o jugo suave e a carne leve e, quando menos o pensam, acham-se amarrados ao jugo muito mais pesado de vários apetites, que nunca poderão satisfazer, e as cargas pesadíssimas de pecados, que nem os deixarão respirar. O mesmo é a respeito de todos os outros, que resistem a levar com Cristo a sua Cruz, e pelos pecados, que cometem, se vêem obrigados a carregar com a cruz do Diabo.


Referências:

(1) Lib. de exhort. Mart.
(2) Lib. 9, cap. 9

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(BELARMINO, Cardeal São Roberto. As Sete Palavras de Cristo na Cruz. Antiga Livraria Chadron, Porto, 1886, p. 242-252)