Capítulo 34: Do terceiro fruto da sétima palavra
O terceiro fruto consiste em aprendermos que na proximidade da morte não se deve confiar muito nas esmolas, jejuns e orações dos parentes e amigos, são muitos os que passaram a vida esquecidos da sua alma, não tratando de mais nada senão de deixarem ricos, quanto possa ser os filhos ou netos; e, quando estão para morrer, começam então a importar-se dela; e porque repartiram a sua casa por aqueles seus descendentes, lhes recomendam a sua alma, para que eles a sufraguem com esmolas, orações, missas, e outras, boas obras. Não nos deu Cristo este exemplo, pois não encomendou o seu espírito a seus parentes, mas a seu Pai, nem é isto o que nos ensina São Pedro, que nos diz, encomendemos as nossas almas por meio de boas obras ao nosso fiel Criador (1Pd 4).

Não repreendo os que determinam, pedem, ou desejam, que, por suas almas se deem esmolas, ou digam missas, repreendo, porém em primeiro lugar os que confiam demasiadamente nos sufrágios dos filhos ou dos netos, quando a prática está mostrando que eles facilmente se esquecem dos seus maiores, depois que estes são falecidos.

Repreendo em segundo lugar os que em objeto de tanta ponderação não olham por si mesmos, e não fazem por suas próprias mãos muitas esmolas, para com elas ganharem muitos amigos, pelos quais, conforme o Evangelho (Lc 16), sejam recebidos nos tabernáculos eternos.

Além destes repreendo fortissimamente os que não obedecem ao Príncipe dos Apóstolos, que manda (1Pd 4) que encomendemos as nossas almas ao fiel Criador, mas que as encomendemos não só por palavras, mas também por boas obras, pois são estas, que elevadas antecipadamente à presença de Deus, a Deus encomendam eficaz e verdadeiramente os cristãos de piedade. Ouçamos o que do Céu veio aos ouvidos de João Evangelista:

“Então ouvi eu uma voz do Céu que me dizia: — Escreve: Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor: de hoje em diante diz o Espírito, que descansem dos seus trabalhos, porque as abras deles os seguem” (Ap 14)

São, pois as boas obras que fizermos, e não as que deixarmos encarregadas a filhos ou netos, as que sem dúvida nos acompanham, principalmente, se elas são não só de sua natureza boa, mas, além disso, devidamente feitas, como não sem mistério declarou São Pedro:

“Por meio de boas obras, e bem feitas, encomendem as suas almas ao fiel Criador”

Há muitos que podem enumerar muito boas obras, por eles praticadas; muitos sermões, missas quotidianas, reza das horas por muitos anos, jejuns de muitas quaresmas, e bastantes esmolas; mas quando tudo isto for julgado por Deus, e miudamente apurado, se foi bem feito, com boa intenção, com a atenção devida, em tempo e lugar competente, e com o sentimento de gratidão para com Deus, oh! Como muitas destas obras, que pareciam lucro, serão tidas como prejuízo (1Cor 3). Oh! Como muitas que pareciam pelo juízo humano ouro, prata, e pedras preciosas, edificadas sobre a base da fé, serão achadas lenha, feno e palhas, que o fogo consumirá imediatamente! Esta consideração me causa não pequeno susto, quanto mais me aproximo do fim da minha vida, pois como diz o Apóstolo:

“O que se dá por antiquado, e envelhece, perto está de perecer” (Hb 8)

E tanto mais claramente vejo que tenho necessidade de seguir o conselho de São João Crisóstomo (1), que nos diz que não cogitemos muito das nossas obras, porque essas, se algumas temos feito que se possam dizer verdadeiramente boas, isto é, feitas como se devem fazer, estão por Deus escritas no Livro das contas, e nenhum perigo há de que fiquem sem o devido prêmio, mas que cogitemos continuamente a respeito das más, e que nos desvelemos em aniquilá-las com contrição do coração, com sincero, arrependimento, com muitas lágrimas e com a devida penitência, pois os que assim fizerem, poderão com firme esperança dizer no fim da sua vida:

“Nas vossas mãos, Senhor, entrego o meu espírito, fostes vós, Senhor Deus de verdade, que me remistes”


Referências:

(1) Hom. 38. ad. pop. Antioch.

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(BELARMINO, Cardeal São Roberto. As Sete Palavras de Cristo na Cruz. Antiga Livraria Chadron, Porto, 1886, p. 269-273)