1º Domingo do Advento - III. O Juízo Final

III. Sermão para o 1º Domingo do Advento

Pregado em 1669.

SUMÁRIO

Exordio. — A alma é julgada depois de se ter separado do corpo, e quando da ressurreição geral; no juízo final é que os pecadores hão de ser confundidos e cobertos de opróbio.

Proposição, divisão. —No juízo final os pecadores que se esconderam serão descobertos, os que se disseram inocentes serão declarados criminosos, os que eram tão orgulhosos e tão insolentes ficarão humilhados e estarrecidos.

1.° Ponto — Há diversas categorias de ateus: os que negam a existência de Deus, os que desejariam que Ele não existisse e os que são indiferentes pela sua existência. Teme-se o olhar dos homens e não se teme o de Deus. A luz há de fazer-se e os hipócritas serão vergonhosamente punidos.

2.° Ponto — Ó pecador hipócrita é semelhante a um ouriço, e é como Adão que se esconde e se mostra inocente. Os pecadores serão confundidos na presença dos justos: quod fecerunt utique fieri posse docuerunt. Pensai nisto, cristão, em quanto vos for útil o Pensamento.

3.° Ponto — Deus e os santos hão de rir-se dos pecadores, sobretudo dos pecadores insolentes e escandalosos.

Peroração. —Evitemos esta vergonha eterna: notam ignominiae sempiternam. Não está longe a hora da morte em que o nosso estado há de ser definido. Real Senhor, vivei feliz, vitorioso, sempre temente a Deus e sempre disposto a dar-Lhe contas.

Tunc videbunt Filium hominis venientem in nube, cum potestale magna et majestate
Então eles verão o Filho do homem sobre uma nuvem, cheio de grande poder e de grande majestade. (Lc 20, 27)

Ainda que a nossa alma, no momento em que se separar do corpo, deva ser julgada em última instância, e o assunto da nossa salvação imutavelmente resolvido, aprouve porém a Deus que, além da sentença que há de ser dada, ainda tenhamos a recear outro exame e uma terrível revisão do nosso processo no juízo final e universal. Porque, assim como a alma pecou conjuntamente com o corpo, é justo que ela seja julgada e punida com o seu cúmplice, e que o Filho de Deus, que tomou inteiramente a natureza humana, submeta também o homem completamente à autoridade do seu tribunal. É por isso que, depois da ressurreição geral, somos todos emprazados a comparecer de novo perante este temível tribunal, a fim de que todos os pecadores, chamados e representados em corpo e alma, isto é, na integridade da sua natureza, recebam também o completo e extremo suplício. E é o que dá lugar a este juízo final que se acha proposto no nosso Evangelho.

Mas porque é este aparato tribunalício, porque é esta solene convocação e esta assembleia geral do gênero humano? Porque é, pensais vós, senhores, a não ser porque este dia final, que é chamado na sagrada Escritura «um dia de trevas e de borrasca, um dia de vento e de tempestade, um dia de calamidade e de angústia», também é chamado «um dia de confusão e de ignomínia?» (Sf 1, 15). Eis uma verdade eterna; é justo e muito justo que o que faz mal seja coberto de opróbrio; que todo o que usou de arrogância seja confundido; e que o pecador seja aviltado, não só pelos outros, mas por si próprio, isto é, pelo rubor da sua fronte, pela confusão do seu parecer e pela censura pública da sua consciência.

Todavia nós vemos que estes pecadores, que se tornaram tão dignos de ignomínia, encontram muitas vezes o meio de a evitar nesta vida. Porque, ou ocultam os seus crimes, ou se dizem inocentes, ou enfim, em vez de ficarem vexados, descobrem-nos escandalosamente à face do céu e da terra, e ainda se glorificam de os terem praticado. É assim que eles procuram evitar a humilhação, os primeiros pela obscuridade das suas ações, os segundos pelos artifícios da sua inocência, e finalmente os últimos pela sua protérvia. É por isso que Deus os chama à luz do seu julgamento, onde os que se esconderam serão descobertos, os que se disseram inocentes serão declarados criminosos, os que eram tão orgulhosos e tão insolentes nos seus crimes ficarão humilhados e estarrecidos; e assim pairá sobre todos estes pecadores, sobre os que enganam o mundo; sobre os que o escandalizam; assim, repito, cairá sobre a face de todo o gênero humano, dos homens e dos anjos, a eterna confusão que lhes é salutar e que é o natural apanágio de que eles se tornaram tão dignos.

PRIMEIRO PONTO

«O insensato diz firmemente: Deus não existe» – Dixit insipiens in corde suo: Non est Deus (Sl 52, 1)

Os santos Padres ensinam-nos que, com este juízo desacertado e insano, podemos ser criminosos de varias maneiras. Há, em primeiro lugar, os ateus e os libertinos, que dizem abertamente que as coisas se dão ao acaso, sem ordem, sem governo, sem direção superior. Insensatos, que no império de Deus, no meio das Suas obras e dos Seus benefícios, se atrevem a negar a existência dAquele a quem se deve toda a natureza! Há poucos monstros desta índole; o número deles é pequeno entre os homens, ainda que, infelizmente, possamos dizer com horror que os há sempre no mundo em excesso. Há outros, diz o douto Teodoreto, (In Psal., LII, tomo I, p. 603), que não chegam ao ponto de negar a Divindade; mas que, instados e incomodados nas suas paixões indômitas pelas leis de Deus que os constrangem, pelas Suas ameaças que os assombram e pelo receio dos Seus juízos que os perturbam, desejariam que Deus não existisse, e quereriam ter espírito para acreditar que Deus não é mais que um nome vão; e é assim que dizem firmemente, não por convicção, mas por vontade própria:

«Deus não existe»

«Insensatos, diz Santo Agostinho (Tract. CX in Joan, n. 3) que, pelo fato de serem desordenados, querem destruir a ordem e desejam que não haja lei nem justiça, só porque eles não são justos»

Também lanço estes à margem, e quero crer que dos meus ouvintes nenhum há que seja tão depravado e tão corrupto. Vou entrar num terceiro modo e dizer que Deus não existe, e do qual haveis de confessar que a maior parte dos que me ouvem não podem alegar motivos de inculpabilidade. Quero referir-me àqueles que, reconhecendo a existência de Deus, o tem ainda assim em tão pouco preço que imaginam verdadeiramente nada terem a recear, enquanto só o tiverem a Ele por testemunha. Esses, que manifestamente têm Deus em menos preço, dizem então firmemente:

«Deus não existe»

Ah! Quem de entre nós é que não pertence a este número? Quem de entre nós se não deteve numa ação ímproba ao dar com um homem que não é sabedor da nossa cabala? E, todavia, com que imprudência sabemos sustentar o olhar de Deus! Não chamemos para aqui o exemplo dos que meditam nalgum tenebroso plano: pois tudo o que encontram os perturba, a luz do dia e a sua própria sombra os atemoriza. Até lhes custa suportar o horror do seu funesto segredo, e vivem contudo numa soberana tranquilidade à vista de Deus. Mas deixemos estes trágicos atentados, e digamos o que se vê todos os dias. Quando secretamente difamais o que lisonjeais em público; quando o ofendeis incessantemente com a vossa língua perversa; quando artificiosamente confundis a verdade com a mentira para dar verosimilhança às vossas histórias maliciosas; quando violais o sagrado depósito do segredo que um amigo muito ingênuo guardou inteiramente no vosso coração, e que sacrificais aos vossos interesses a sua confiança que vos obrigava a cuidar dos seus, quantas precauções tomais para isto se não divulgar? Quantas vezes olhais para a direita e para a esquerda? E se não vedes testemunha que vos possa censurar a vossa covardia para com a sociedade, se estendeis os vossos laços tão sutilmente que sejam imperceptíveis aos olhos dos mortais, dizeis:

«Ninguém nos viu» – Narraverunt ut absconderent laqueos, dixerunt: Quis videbit eos (Sl, 63, 6)

Eles cogitaram nos meios de encobrir as ciladas, e disseram:

«Quem poderá descobri-las?»

Não contais, portanto, no número dos videntes o que habita nos céus? E não obstante ouvi o mesmo Salmista:

«Como assim! O que formou os ouvidos não ouve? E o que fez os olhos é cego?» – Qui plantavit aurem non audiet? aut qui finxit oculum, non considerat? (Sl 33, 9)

Pelo contrário, não sabeis que todo Ele é vista, todo ouvidos, todo inteligência; que os vossos pensamentos Lhe falam, que o vosso coração tudo Lhe descobre, que a vossa consciência é a Sua espiã e a Sua testemunha de acusação? E todavia a estes olhos tão vivos, a estes olhares tão penetrantes, gozais placidamente do prazer de estardes escondido. Não é tê-lo em menos preço dizer com firmeza insensata:

«Deus não existe»? – Dixit insipiens in corde suo; Non est Deus

Não é justo, meus senhores, que os pecadores, favorecidos pelas trevas, se livrem sempre de opróbrios que merecem. Há mulheres infiéis e homens corruptos que se acobertam, sempre que podem, com todas as sombras da noite e envolvem as suas ações desonestas na obscuridade duma intriga impenetrável; mas Deus há de descobri-los um dia e há de confundi-los da forma que eles merecerem. Foi por isso que destinou este dia final «que há de penetrar as trevas mais espessas e há de manifestar, como diz o Apóstolo, os conselhos mais ocultos» – Qui et illuminabit abscondita tenebrarum, et manifestabit consilia cordium (1 Cor 4, 5). Então qual será o estado dos grandes do mundo que sempre têm visto na terra os seus sentimentos aplaudidos e até os seus vícios adorados? Que acontecerá a esses homens escrupulosos, que não podem admitir que os seus erros se venham a saber, e que se incomodam, que ficam num manifesto enleio e vivamente ourados, quando se lhes descobre o fraco?

«Então, diz o profeta Isaías, os braços hão de cair-lhes de fraqueza», omnes manus dissolventur; «o coração angustiado há de desfalecer-lhes», omne cor hominis contabescet; «cada um ficará enleado ante o seu próximo», unusquisque stupebit aa proximum suum; «os próprios pecadores hão de vexar-se mutuamente, e hão de ficar enrubescidos », facies combustae vultus eorum (Is 13, 7-8); tal é o opróbrio que pesa sobre eles»

Ó trevas pouco duradouras! Ó intrigas mal urdidas! Ó olhar de Deus mais que penetrante e injustamente escarnecido! Ó vícios mal ocultos! Ó ignominia mal disfarçada!

Mas de todos os pecadores que se ocultam, nenhuns serão descobertos com mais ignominia do que os beatos-falsos e os hipócritas. São estes, senhores, que são os inimigos mais perniciosos de Deus e que lutam contra Ele à sombra dos seus pendões. Não há ninguém que mais avilte a honra da piedade do que o hipócrita, que a toma como disfarce e capa da sua malícia. Ninguém que viole a santa majestade de Deus, com mais sacrilégio do que o hipócrita, que se serve do seu nome augusto e o quer fazer compartilhar dos seus crimes e escolhe para protetor dos seus vícios quem asperamente os condena.

Ninguém, portanto, há de ver em Deus juiz mais severo do que o hipócrita que procura cumpliciá-lO em certo modo: Mas não falemos mais dos que remedam os religiosos. O mundo ainda tem outros hipócritas. Não há hipócritas da honra, hipócritas da amizade, hipócritas da probidade e da boa fé, que andam sempre com os preceitos sagrados na boca, com o fim exclusivo desarmar aos simples e aos inocentes; e tão tratáveis, tão condescendentes e tão arteiros, que até os mais avisados caem nos laços que eles lhes armam? Também estes hão de ficar humilhados. Vinde cá, provados embusteiros, sempre oprimidos, sempre dissimulados, covardes e miseráveis cativos dos que queríeis cativar; vinde cá, deixai erguer a máscara que haveis afivelado e tirar o ouropel com que vos disfarçastes; mas é melhor deixá-lo no vosso rosto turvado, para que pareçais duplamente horríveis, como uma mulher arrebicada e cada vez mais feia, na qual se não sabe o que mais desagrada, se a feialdade se os arrebiques. É assim que, na presença de Jesus Cristo, todos esses embusteiros inutilmente disfarçados hão de ficar confundidos não só pelo crime que ficou ignorado, mas também pela sua hostilidade aparente. E também ficarão confundidos por terem considerado a virtude como pretexto, como alarde e como vaidade; e não por a terem considerado como preceito: Ergo et tu confundere et porta ignominiam tuam (Ez 16, 52).

Se todavia eles caminharem de cabeça erguida e gozarem aparentemente da liberdade duma boa consciência, se iludirem o mundo e se Deus dissimular, não imaginem por isto que tenham escapado às Suas mãos. Ele tem dia aprazado e hora marcada, que pacientemente aguarda. Poderei explicar-vos convenientemente tão grande mistério por meio de qualquer comparação tirada das coisas humanas? Assim como um rei, que vê o seu trono consolidado e o seu poder estabelecido, sabe que se urdem intrigas contra o seu governo (pois é difícil enganar um rei que tem os olhos abertos e que sabe vigiar), e que, podendo abafar logo esta cabala já descoberta, deseja, todavia, baseado na sua consciência e no seu próprio poder, ver até onde chegarão as temerárias conspirações dos seus vassalos infiéis, e não precipita a sua justa vingança até eles terem chegado ao termo fatal em que ele resolveu detê-los; assim também, e com mais forte razão, esse Deus omnipotente, soberano árbitro e distribuidor dos tempos, que, do centro da sua eternidade, desenrola toda a ordem dos séculos, e que, perante a origem das coisas, marcou o destino de todos os momentos segundo os desígnios da sua sabedoria, com mais forte razão, cristãos, nada tem a precipitar nem a antecipar. Os pecadores não lhe escapam da vista nem das mãos, porque Ele sabe o tempo que lhes deu para se arrependerem, e sabe a ocasião em que os há de humilhar.

No entretanto, podem fazer cabalas, podem usar de intrigas, podem chamar o céu e a terra para se acobertarem na confusão de todas as coisas, porque serão descobertos no dia aprazado; e a sua causa há de ser levada ao grande tribunal geral de Deus, onde a sua descoberta não poderá ser impedida por nenhuma astúcia, nem a sua criminalidade iludida por desculpa alguma. É este o tema da segunda parte, que eu, para abreviar, juntarei com a terceira na mesma ordem de raciocínio.

SEGUNDO PONTO

O grande papa São Gregório, na terceira parte da sua Pastoral, compara os pecadores com ouriços. Diz ele: Quando vos achais longe deste animal e que ele não receia ser apanhado, vedes-lhe a cabeça, os pés e todo o corpo; mas quando vos aproximais para o apanhar, apenas vedes uma massa esférica toda coberta de espinhos agudos; e o que de longe víeis por completo desaparece-vos de repente apenas lhe lançais as mãos. Intra tenentis manus totus simul amittitur, quod totum simul ante videbatur (S. Greg. Mag., Pastor., part. III, cap. XI). É a imagem do homem pecador, diz São Gregório, que se envolve nas suas razões e nas suas desculpas. Se lhe descobris todos os enredos e lhe reconheceis distintamente toda a ordem do crime, vedes-lhe os pés, o corpo e a cabeça. Assim que pensais em convencê-lo de culpabilidade, relatando-lhe as circunstâncias do crime, ele encolhe os pés, encobre todos os vestígios do seu malefício, esconde a cabeça, oculta profundamente as suas intenções e envolve o corpo, isto é, toda a série da sua intriga, na trama artificiosa duma história de pura invenção. O que imagináveis ter visto tão distintamente não é mais do que uma massa, informe e confusa, onde se não vê princípio nem fim; e essa verdade tão evidente despareceu para logo: Qui totum jam deprehendendo viderat tergiversatione pravae defensionis ilusus, totum pariter ignorat (S. Greg., Pastor, part. III, cap. XI).
Esse homem que imagináveis ter reconhecido o seu crime, quando afinal se tinha entrincheirado e envolvido nele próprio, só agora vos oferece espinhos; também se arma contra vós, e, se lhe tocais, ficais com as mãos ensanguentadas, quer dizer, a vossa honra ficará ofendida por mil recriminações feitas contra a vossa injuriosa credulidade e contra as vossas suspeitas temerárias.

É assim que fazem os pecadores: se podem, escondem-se como fez Adão; e se não podem esconder-se, como ele, não deixam ao menos de desculpar-se, a exemplo do que ele fez. Adão, que foi o primeiro de todos os pecadores, logo depois de ter cometido o pecado, entranha-se no mais denso da floresta, e desejava lá poder esconder o crime e esconder-se a ele. Quando se vê descoberto, recorre às desculpas. Os seus filhos, desventurosos herdeiros do seu crime, são-no também dos seus pretextos frívolos. Dizem tudo o que podem; e quando não têm que dizer, lançam as culpas sobre a fragilidade da natureza, sobre a violência da paixão e sobre a tirania do hábito. Desta maneira não há ter cuidados em procurar desculpas; porque o próprio pecado se encarrega de as dar, justificando-se pelo seu próprio excesso. Mas quando hei de acabar, se me deixar induzir por esta individuação infinita das desculpas particulares? Basta dizerem síntese: Todos se desculpam e todos se justificam; fazem-no em parte por temor, em parte também por orgulho e em parte por astúcia. Eles próprios enganam-se às vezes, e procuram depois enganar os outros. Algumas vezes, convencidos realmente da injustiça das suas ações, pretendem apenas divertir o mundo com razões dissimuladas; e depois, deixando-se levar pelas suas falsidades, vão-nas dizendo e gravando no espírito, e, em vez da verdade, adoram o inútil fantasma que imaginaram para enganar o mundo. Tal é o aviltamento do homem e da sua própria consciência: Adeo nostram quoque conscientiam ludimus, disse o grave Tertuliano (Ad Nat., lb. I, n. 16).

Deus é a luz, Deus é a verdade, Deus é a justiça. No império de Deus, nunca será com falsos pretextos, senão com um humilde reconhecimento dos pecados, que se evitará a vergonha eterna que é a sua justa recompensa. Tudo será manifestado perante o tribunal de Jesus Cristo. Uma voz muito intensa de justiça e de verdade há de sair do trono, e por ela hão de ver os pecadores que não há desculpa alguma aceitável que possa colorir-lhes a rebelião, senão que o cúmulo do crime consiste na audácia de o justificar e no orgulho de o dar por falso.

Porque é preciso, meus senhores, notar aqui uma doutrina importante: é que enquanto nesta vida a nossa razão vacilante obedece muitas vezes ao nosso coração depravado, nos desgraçados precitos haverá uma eterna contrariedade entre o espírito e o coração. O amor da verdade e da justiça deixará de existir para estes miseráveis, mas o seu conhecimento há de ficar-lhes indelevelmente gravado no espírito para vergonha deles. É por isso que Tertuliano lia estas palavras memoráveis no livro do Testemunho da alma: Merito omnis anima et rea et testis est (De Testim. anim, sub fin., n. 6): «Toda a alma pecadora, diz este grande homem, é ao mesmo tempo ré e testemunha»; ré pela corrupção da vontade, testemunha peja luz da razão; ré pelo ódio à justiça, testemunha pelo conhecimento provável das leis sagradas; ré porque sempre insistiu no mal, testemunha porque sempre condena a sua insistência. Terrível contrariedade e insuportável suplício! É, pois, este conhecimento da verdade que há de ser a imortal proveniência duma confusão infinita. E por isso o Profeta diz:

Alii evigilabunt in opprobrium ut videant semper (Dn 12, 2) – «Muitos, para vergonhá sua, hão- de despertar para ver sempre»

Os que se tinham firmado em razões conciliáveis e em palavras lisonjeiras, imaginavam ter escapado ao opróbrio e haviam adormecido nos seus pecados ao abrigo das suas justificações inutilmente plausíveis, «hão de, para vergonha sua, despertar de improviso para ver sempre», evigilabunt ut videant semper. E que é que eles hão de ver sempre? Essa verdade que os confunde, essa verdade que os julga. Então hão de ficar humilhados por dois motivos, pelos crimes cometidos e pelas desculpas que apresentam. A força da verdade provada há de destruir-lhes as defesas insignificantes; e, cortando-lhes duma vez todos os inúteis pretextos com que tinham pensado velar os seus crimes, apenas lhes deixará o pecado e a ignomínia. Deus mostra-se triunfante com isto nestas palavras ditas pela boca de Jeremias: Discoopemi Esau; desarmei o pecador, dissipei as falsas aparências com que pretenderá encobrir os crimes, manifestei as suas más intenções tão sutilmente disfarçadas, e ele já não pode desculpar-se com pretexto algum: Discoopemi Esau, revelavi abscondita ejus, et celari non poterit (Jr 49, 10).

Mas estai mais atentos para ouvirdes o que mais há de servir para convencer e confundir os ímpios: são os justos que lhes hão de ser apresentados, as pessoas de bem que hão de ser comparadas com eles. Até aqui eram os pecados muito vulgares, cometiam-se muito facilmente e justificavam-se logo; pecados que perdiam tantas almas e que causavam no gênero humano tão tremendas ruínas; pecados que com tanta facilidade se perdoavam sempre, e que pareciam estar suficientemente justificados, quando se dizia que eram pecados de fragilidade; mas agora esses pecados já não terão defesa alguma, porque haverá a escolhida grei, pequena realmente em comparação dos ímpios, mas grande e numerosa em si, em que se hão de distinguir almas fiéis, que, com a mesma carne e as mesmas intenções, conservaram contudo imaculadas, aqueles a flor sagrada da pureza, e estes a honradez do leito nupcial. Outros vos serão também apresentados: aqueles que realmente caíram por fraqueza; mas que tendo-se levantado, nos hão de dar o testemunho fiel de que, apesar da fragilidade, triunfaram sempre tantas vezes quantas quiseram combater; e, como diz Julião Pómero:

«Hão de mostrar, pelo que fizeram, o que também podíeis fazer» – Cum fragilitate carnis in carne viventes, fragilitatem carnis in carne vincentes, quod fecerunt utique fieri posse decuerunt (De Vit. contempl., lib. III, cap. XII)

Pensai agora, cristãos, no que podereis responder; pensai nisto enquanto é tempo e enquanto o pensamento vos pode ser útil. Não alegueis fraquezas, não vos desculpeis com a vossa fragilidade. Se era frágil a natureza, era forte a graça. Se tínheis uma carne que dominava o espírito, também tínheis um espírito que dominava a carne. Se tínheis doenças, também tínheis remédios nos Sacramentos. Tim heis um tentador? Também tínheis um Salvador. As tentações eram frequentes? Não o eram menos as inspirações. Estavam sempre presentes os objetos? Também a graça estava sempre patente ao espírito; e podíeis evitar o que não conseguíeis vencer.

Enfim, para qualquer lado que vos volteis, já vos não resta pretexto algum, nem subterfúgio, nem meio de evasão, porque sois reconhecidos como criminosos. É por isso que o profeta Jeremias diz que os pecadores, neste dia, hão de ser comparados àqueles que são surpreendidos em flagrante delito: Quomodo confunditur fur, quando deprehenditur (Jr 2, 26). Ele não pode negar o fato nem justificá-lo; não pode defender-se com argumentos, nem escapar por meio da fuga.

«Então diz o santo Profeta, hão de ficar assombrados, confundidos e perturbados os ingratos filhos de Israel»; sic confusi sunt domus Israel

Ninguém escapara a este opróbrio. E senão escutai o Profeta: Todos, diz ele, hão de ser confundidos, «eles, com os seus reis e príncipes e sacerdotes e profetas» – ipsi et reges eorum, principes et sacerdotes et prophetae eorum (Ibid.). Os reis, porque hão de ver um rei mais alto e de superior majestade; os príncipes, porque hão de ocupar lugar nessa assembleia e hão de ser confundidos com o povo; os sacerdotes, porque o seu caráter sagrado e a sua santa unção há de condená-los; os profetas, os pregadores, os que pronunciaram os divinos oráculos, porque a palavra que eles anunciaram há de ser um testemunho de acusação.

«O homem há de aparecer, diz Tertuliano, perante o trono de Deus e não há de poder falar» – Et stabit ante aulas Dei nihil habens dicere (De Testimt., anim., n. 6)

Havemos de ficar tão perturbados e tão poderosamente convencidos do nosso crime, que nem mesmo havemos de ter a miserável consolação de nos podermos lastimar: Sic confusi erunt domus Israel ipsi et reges, etc.

TERCEIRO PONTO

Mas, senhores meus, ainda que eu me socorresse das expressões mais enérgicas e das figuras mais violentas da retórica, não poderia explicar-vos suficientemente a confusão daqueles, cujos crimes escandalosos profanaram o céu e a terra.

Como vedes, entrei já na terceira parte, que quero concluir em poucas palavras, mas com razões convincentes. Para estabelecer as bases em que ela há de assentar, farei notar, senhores, que o opróbrio que Deus reserva aos pecadores no dia do juízo é de diversos graus e acha-se diferentemente expresso na Escritura. Diz-nos ela vezes repetidas nas passagens por nós já citadas que há de confundir os seus inimigos e cobri-los de ignomínia. Isto seria comum a todos os pecadores. Mas nós também lemos nos santos Profetas que Deus e os seus servos hão de escarnecer deles e insultá-los com recriminações, de envolta com a irrisão e a zombaria, e que, não contente com tirar-lhes a máscara da hipocrisia e convencê-los dos crimes que praticaram, como já dissemos, há de imolá-los por entre o gargalhar de todo o universo.

Eu tenho para mim, senhores, que esta irrisão é o que mais convém e o que mais verdadeiramente cabe aos pecadores públicos e escandalosos. Visto que todos os pecadores transgridem a lei, também todos merecem ser confundidos; mas nem todos insultam publicamente a santidade da lei. Esses escarnecem dela, insultam-na, fazem gala dos seus crimes e ostentam-nos temerariamente à face do céu e da terra. A esses pecadores insolentes, se não se humilharem imediatamente pela penitência, está reservada para o dia do juízo essa irrisão, essa zombaria terrível e esse justo e inevitável insulto dum Deus ultrajado. Pois que há de mais indigno? Nós estamos a ver todos os dias no mundo esses, pecadores soberbos que, com ar protervo, se atrevem, não só a desculpar, mas a defender os seus crimes. Acham que a intemperança lhes não daria suficiente prazer, se dela não se vangloriassem publicamente, «se a não estadeassem, como diz Tertuliano, em plena luz do dia e com pleno testemunho do céu» – Delicta vestra et loco omni et luce omni et universa caeli conscientia fruuntur (Ad Nat., lib. I, n. 16). «Anunciam os pecados como Sodoma», dizia um profeta: peccatum suum sicut Sodoma praedicaverunt (Is 3, 9); e dão um ar de superioridade ao desenfreado desregramento. Ocorre-me dizer neste lugar estas belas palavras de Tácito, que, falando dos excessos de Domiciano depois de seu pai ter sido elevado a imperador, disse que «em vez de cuidar dos negócios públicos, apenas começou a mostrar que era filho do imperador pelos adultérios e devassidões a que se dava» -Nihil quidquam publici muneris attigerat sed stupris et adulteriis filium principis agebat (Tacit., Hist., lib. IV).

Nós então vemos esses exaltados que se comprazem de fazer alarde do seu desregramento, que imaginam elevar-se muito acima das coisas humanas pelo desprezo das leis, e que consideram o poder como uma fraqueza indigna deles, só porque ele mostra na sua reserva qualquer coisa de temeroso; e desta maneira não fazem apenas um sensível ultraje, mas um insulto público à Igreja, ao Evangelho e à consciência dos homens. Tais pecadores escandalosos corrompem os bons costumes pelos seus perniciosos exemplos. Profanam a terra e, se assim me posso expressar, recriminam asperamente o céu que há muito tempo os tolera pacientemente. Mas Deus bem há de saber justificar-se duma maneira terrível, e talvez já nesta vida com uma punição exemplar. E se Deus durante esta vida os esperar com a penitência; se, por não escutarem a sua voz, eles merecerem que Deus os reserve para o juízo final, hão de nele tragar não só a beberagem da vergonha eterna, que está preparada para todos os pecadores, mas também, como diz Ezequiel, «hão de beber o cálice largo e profundo da irrisão e da zombaria, e hão de ser oprimidos com os insultos amaríssimos de todas as criaturas» – Calicem furoris tuae bibes profundum et latum; eris in derisum et in subsannationem quae est capacissima (Ez 23, 32). Tal será o justo suplicio da sua imprudência.

Evitemos, senhores, este opróbrio que não há de desaparecer nunca. Pois não imaginemos que havemos só de receber nesse tribunal uma confusão passageira; pelo contrário, devemos ficar sabendo, conforme diz São Gregório Nazianzeno, que, pela verdade imutável desse juízo final, Deus há de imprimir-nos na fronte «o eterno ferrete da ignomínia», notam ignominiae sempiternam (Orat., XV, tomo I, pag. 230). E São João Crisóstomo acrescenta que esse opróbrio há de ser mais terrível do que todos os outros suplícios. E o pecador há de indignar-se com o peso dos seus crimes e com a contínua perseguição da sua consciência; e, querendo procurar o nada, não o há de encontrar. Como o fel do opróbrio há de então ser inesgotável! E como é fácil agora purificarmo-nos dele para sempre! Vamos mostrar o nosso arrependimento, irmãos, ao tribunal da penitência. Não desejemos que lamentem sempre a nossa fraqueza, que a censurem, que a repreendam, que a condenem.

O tempo foge, disse o Apóstolo (1 Cor. 7, 29), e o momento aproxima-se. Não me quero referir ao dia de juízo, porque Deus não revelou esse segredo, mas refiro-me ao momento da morte, em que o nosso estado se há de determinar. Tal como morrermos, assim inevitavelmente havemos de aparecer no tribunal do Criador. Oh! Que confusão nesse dia! E quantos hão de descer de lugares elevados! Quantos hão de procurar os seus antigos pergaminhos, e em vão hão de lamentar a nobreza que perderam! E como lhes há de custar habituarem-se à baixeza! Oxalá que os muitos nobres que me estão ouvindo não percam a sua nobreza nesse dia! Praza a Deus que o augusto monarca nunca veja a coroa derribada: e que se lembre sempre de São Luiz, que o protege e lhe mostra o lugar que ocupa. Deus queira que este lugar não fique vago! E que aquele que neste mundo não desejar a sua glória e a não quiser proporcionar com todas as suas forças pelos seus fiéis serviços, seja odiado por Deus e pelos homens. A este respeito bem sabe Deus os votos do meu coração. Mas, Senhor, infiel sou a Vossa Majestade, se a vosso respeito limitar os meus votos nesta vida transitória. Vivei, portanto, feliz, afortunado, vitorioso dos vossos inimigos e pai dos vossos povos. Mas vivei sempre bom e sempre justo; vivei sempre humilde e sempre temente a Deus, sempre disposto a dar-lhe conta da nobre parte do gênero humano que vos cometeu. É assim que havemos de ver-vos sempre rei, sempre augusto, sempre coroado, assim na terra como no céu; e o que eu desejo a Vossa Majestade é a glória eterna, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

(Autores para consultar sobre a l.º domingo do Advento: Bourdaloue. – Fléchier. – Lacordaire, homilia. – L. de Granade. – Dubos. – Brunet. – De Brainville, etc.).

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(BOSSUET, Jacques-Bénigne. Sermões de Bossuet, Volume I. Tradução de Manuel de Mello. Casa Editora de Antonio Figueirinhas 1909 – Porto, 1909, Tomo I, p. 135-152)