2º Domingo do Advento - II. A Divindade da Religião

II. Sermão para o 2º Domingo do Advento

Nota: Ms. t. XI, p. 164. – Déforis, IV, 200. – Lachat, VIII, 177. — Este magnífico sermão deve ser estudado de muito perto sob todos os pontos de vista; haveria grande proveito em o comparar com os Pensamentos de Pascal; é, por assim dizer, o resumo eloquentíssimo dessa Apologia do cristianismo. O discurso da Divindade da Religião seria talvez, se o discurso da Unidade da Igreja não existisse, a obra prima de Bossuet, como autor de Sermões

Pregado no Louvre no dia 6 de dezembro de 1665.

SUMÁRIO

Exordio. — O Salvador passou, fazendo bem e curando todas as enfermidades. Os milagres eram os sinais sagrados dos prodígios sobrenaturais que a sua religião devia realizar.

Proposição e divisão. — Jesus Cristo quis na fé «que as verdades fossem sublimes; na regra dos costumes que o caminho fosse estreito; na remissão dos pecados que o meio fosse fácil».

1.º Ponto.«A doutrina do Salvador estabeleceu-se no mundo e mantem-se nele como uma rainha no seu império; ora a sublimidade das verdades cristãs» leva-nos a sublevar-nos «contra a autoridade de Jesus Cristo».

2.º Ponto. — A moral do Salvador disciplinou maravilhosamente o indivíduo, a família, as amizades e a sociedade; ora, a exatidão da regra cristã leva-nos a queixar-nos do rigor da Igreja.

3.º Ponto. — As portas da penitência estão sempre abertas, o que nos arrasta a abusar da paciência da Igreja.

Peroração. — Nós devemos viver de tal maneira que as instituições da clemência divina não venham a ser para nós uma causa de condenação.

Caeci vident, claudi ambulant, leprosi mundantur, etc., e quase em seguida: Beatus qui non fuerit scandalizatus in me!
Os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, e bem-aventurado é aquele que em mim se não escandalizar! (Mt 11, 5 e 6).

Jesus Cristo, interrogado no nosso evangelho pelos discípulos de São João Batista se Ele é o Messias que se esperava e o Deus que devia vir pessoalmente para salvar a natureza humana: Tu es qui venturas es? «Sois aquele que deveis vir?» respondeu-lhes unicamente que faz bens infinitos no mundo, e que não não obstante o mundo se subleva unanimemente contra Ele. Conta-lhes em seguida os benefícios que espalha e as contradições que sofre, depois os milagres que faz e os escândalos que causa a um povo ingrato; isto é, que dá aos homens, como sinal de divindade em Sua pessoa sagrada, em primeiro lugar os Seus benefícios, em segundo lugar a ingratidão deles.

Com efeito, é certo que Deus nunca deixou de ser benfazejo, e que os homens, pela sua parte, nunca deixaram de ser ingratos, a tal ponto, que poderia parecer, tal é o cúmulo da nossa ingratidão, que é como que um apanagio da natureza divina q ser infinitamente liberal para os homens, e não encontrar todavia no gênero humano senão uma perpétua oposição às Suas vontades e um desprezo injurioso por todas as Suas graças.

São Pedro igualou (Latinismo puro: aequavit honores) em duas palavras os elogios dos mais famosos panegíricos, quando disse do salvador «que ele passava, fazendo bem e curando todos os oprimidos» – Pertransiit benefaciendo et sanando omnes oppressos. (At 10, 38). E, na verdade, nada há mais magnífico e mais digno de um Deus do que deixar por toda a parte onde passa efeitos da Sua bondade; assinalar todos os seus passos com benefícios; e percorrer as províncias, não pelas suas vitórias, como se diz dos conquistadores, porque isso é devastar e destruir tudo, mas pelas suas liberalidades.

Deste modo, Jesus Cristo mostrou aos homens a Sua divindade como ela costuma manifestar-se, que foi pelas Suas graças e pelos Seus cuidados paternais; e os homens trataram-no do mesmo modo que tratam a divindade, quando lhe pagaram, segundo o seu costume, com impiedade e ingratidão – Et beatus est qui non fuerit scandalizatus in me! (1)

Eis, em poucas palavras, o que nos é proposto no nosso evangelho; mas, para tirar daqui os ensinamentos, é preciso um discurso mais longo, no qual eu não posso entrar senão depois de ter implorado o socorro do céu. Ave-Maria.

Já não é dando luz aos cegos, nem fazendo andar os aleijados, nem purificando os leprosos, nem ressuscitando os mortos, que Jesus Cristo autoriza (Autoriza, isto é, dá autoridade á) a Sua missão e dá a conhecer aos homens a Sua divindade. Estas coisas foram feitas durante os dias da Sua vida mortal, e continuadas na Sua santa Igreja, enquanto foi necessário para estabelecer os fundamentos da nova fé. Mas estes milagres sensíveis, que foram operados pelo Filho de Deus em pessoas particulares e durante um tempo limitado, eram os sinais sagrados de outros milagres espirituais que não têm limites semelhantes, visto que dizem respeito igualmente a todos os homens e a todos os séculos.

Com efeito, não são apenas particulares, cegos, aleijados e leprosos que pedem ao Filho de Deus o auxílio da Sua mão poderosa; mas, para melhor dizer, todo o gênero humano, se o soubermos compreender, consiste nesse surdo e nesse cego que perdeu a ideia de Deus e já não pode ouvir a Sua voz. O gênero humano é esse coxo que, não tendo regra alguma dos costumes, já não pode andar direito nem ter-se de pé. Enfim, o gênero humano é ao mesmo tempo esse leproso e esse morto que, por não ter encontrado alguém que o afaste do pecado, não pode purificar-se das suas culpas, nem evitar a sua corrupção. Jesus Cristo restituiu o ouvido a esse surdo e a vista a esse cego, quando estabeleceu a fé; Jesus Cristo endireitou esse coxo, quando regulou os costumes; Jesus Cristo limpou esse leproso e ressuscitou esse morto, quando estabeleceu na Sua santa Igreja a remissão dos pecados. São estes os três grandes milagres pelos quais Jesus Cristo nos mostra a Sua divindade, e é este o meio que emprega.

Todo aquele que mostra aos homens uma verdade soberana e omnipotente, uma retidão infalível e uma bondade ilimitada, mostra ao mesmo templo a divindade. Ora, o Filho de Deus mostra-nos em Si uma verdade soberana pelo estabelecimento da fé, uma equidade infalível pela direção dos costumes e uma bondade ilimitada pela remissão dos pecados; logo, mostra-nos a Sua divindade. Mas, se vos apraz, acrescentaremos, para acabar a explicação do nosso evangelho, que tudo o que prova a Sua divindade prova também a nossa ingratidão: Beatus qui non fuerit scandalizatus in me! Todos os seus milagres são para nós um escândalo; todas as Suas graças constituem para nós um obstáculo. Ele quis que, na fé, as verdades fossem sublimes; que, na remissão dos pecados, o meio fosse fácil. Tudo isto era operado para nossa salvação: essa sublimidade, para nos elevar; essa retidão, para nos guiar, e essa facilidade, para nos convidar à penitência. Mas nós somos tão depravados que tudo para nós se transforma em escândalo, visto como a sublimidade das verdades da fé faz com que nos sublevemos contra a autoridade de Jesus Cristo, com que a exatidão da regra que Ele nos dá nos leve a queixar-nos do seu rigor, e com que a facilidade do perdão seja para nós um motivo de abusar da Sua paciência.

PRIMEIRO PONTO

A verdade é uma rainha que habita em si mesma e na sua própria luz, a qual, por consequência, é o seu próprio trono, a sua própria grandeza e a sua própria felicidade! Todavia, para bem dos homens, quis ela reinar sobre eles, e Jesus Cristo veio ao mundo para estabelecer esse império pela fé que nos pregou. Eu prometi, senhores meus, mostrar-vos que a verdade dessa fé se estabeleceu como soberana e como soberana omnipotente; e o testemunho seguro que disto vos dou, é que, sem se supor obrigada a alegar qualquer razão, e sem nunca se ver forçada a pedir qualquer auxílio, pela Sua própria autoridade, pela Sua própria força fez ela o que quis e reinou no mundo. Se não me engano, isto é operar com verdadeira soberania; mas é necessário sustentar o que apresento (2).

Eu disse que a verdade cristã não procurou o seu apoio nos raciocínios humanos; mas que, confiada em si mesma, na sua autoridade suprema e na sua origem celeste, disse, e quis ser acreditada; pronunciou os seus oráculos, e exigiu a sujeição.

Pregou uma Trindade, mistério inacessível pela sua preeminência; anunciou um Deus, feito Homem, um Deus aniquilado até à cruz, abismo impenetrável pela sua baixeza. Como provou ela? Disse por única razão que é preciso que a razão se lhe submeta, visto que lhe está sujeita desde principio (3). É esta a sua linguagem:

Haec dixit Dominus – «O Senhor disse»

E noutro lugar: É assim, «porque eu preguei-a sua palavra» – quia verbum ego locutus sum, dixit Dominus (Jr 34, 6). E com efeito, cristãos, que pode aqui opor a razão humana? Deus tem o meio de se fazer ouvir; mas também tem o direito de se fazer acreditar. Pode, pela Sua luz infinita, e quando Lhe aprouver, mostrar-nos claramente a verdade; pode, pela Sua autoridade soberana, obrigar-nos a submetermo-nos a ela, sem disso nos dar a intuição. E é digno da grandeza, da dignidade, da majestade desse primeiro Ser, de reinar sobre todos os espíritos, quer cativando-os pela fé, quer contentando-os pela clarividência.

Jesus Cristo usou deste direito no estabelecimento do seu Evangelho; e, como a Sua santa doutrina se não fundou nos raciocínios humanos, para não degenerar de si própria, também desprezou o apoio da eloquência. É verdade que os santos Apóstolos (4), que foram os Seus pregadores, abateram aos pés de Jesus a majestade dos fasces romanos e fizeram tremer nos seus tribunais os juízes perante os quais eram citados; derrubaram os ídolos e converteram os povos.

«Enfim, diz Santo Agostinho, tendo consolidado a sua salutar doutrina, deixaram aos seus sucessores a terra iluminada por uma luz celeste» – Confirmata saluberrima disciplina, illuminatas terras posteris reliquerunt (St. Agost. De vera relig., n.° 4)

Mas não foi pela disposição das palavras e por figuras artificiais que eles operaram todos estes grandes efeitos. Tudo se faz por uma secreta virtude que persuade contra as regras, ou, pelo contrário que não persuade em quanto ela cativa os entendimentos; virtude que, vindo do céu, sabe conservar-se integralmente na baixeza das suas expressões e na simplicidade dum estilo vulgar, tal como se vê uma rápida torrente que retem, derivando na planície, essa força violenta e impetuosa que adquiriu nas montanhas donde procede.

Concluamos, pois, cristãos, que Jesus Cristo fundou o seu sagrado Evangelho duma maneira soberana e digna dum Deus; e acrescentemos, se vos apraz, que era a mais conveniente para as necessidades da nossa natureza. Nós precisamos, no meio dos nossos erros, não dum filósofo que discuta (5), mas dum Deus que nos resolva a procurar a verdade. O caminho do raciocínio é demasiado lento e demasiado incerto; o que é necessário procurar está longínquo, e o que é preciso provar é indeciso. Trata-se, contudo, do próprio princípio e do fundamento da conduta, em que, primeiro, é preciso ter firmeza; e, portanto, é necessário que alguém creia nela. O cristão nada tem a procurar, porque tudo encontra na fé. O cristão nada tem a provar, porque a fé tudo lhe resolve, e Jesus Cristo expôs-lhe de tal maneira as verdades necessárias que se ele não é capaz de as compreender, não está menos disposto a acreditá-las: Talia populis persuaderet, credenda saltem, si percipere non valerent (6). Deste modo, foi Deus honrado pelo mesmo meio, porque se acreditou, como é justo, na Sua palavra; e o homem foi guiado por um caminho curto, porque, sem circuito algum de raciocínio, a autoridade da fé conduziu-o à certeza, logo ao primeiro passo que deu.

Mas continuemos a admirar a augusta soberania da verdade cristã. Ela veio à terra como uma coisa ignorada, e, não obstante, odiada e perseguida por inimigos preconceitos. Todavia, no meio destes furores do mundo inteiro, conspirado contra ela, não mendigou socorro algum humano. Conseguiu defensores intrépidos e dignos da sua grandeza, que, na paixão que tinham pelos seus interesses, e, não tendo outro desejo que não fosse proclamá-la e morrer por ela, acudiram à morte com tal violência que amedrontaram os seus perseguidores, os quais, finalmente, pela sua paciência, foram um objeto de opróbrios para as leis que os condenavam ao último suplício, e obrigaram os príncipes a revogá-las.

Orando, patiendo, cum pia securitate moriendo, leges quibus damnabatur christiana religio erubescere compulerunt, mutarique fecerunt, diz eloquentemente Santo Agostinho. (De civit. Dei, liv. VIII, cap. XX)

Era, pois, por conselho de Deus e pelo destino da verdade, se assim me posso exprimir, que ela seria inteiramente estabelecida, a despeito dos reis da terra, e que, na série dos tempos, os teria primeiramente por discípulos, e depois por defensores.

Et nunc reges (intelligite: erudimini qui judicatis terram) – E agora (ó reis, aprendei, instrui-vos, juízes da terra)

Ele não os chamou quando edificou a Sua Igreja. Quando fundou imutavelmente e elevou até final esse grande edifício, aprouve-lhe então chamá-los. Chamou-os, pois, não por necessidade, senão por mercê. O estabelecimento, portanto, da verdade não depende do auxílio deles, nem o império da verdade depende do seu cetro; e, se Jesus Cristo os instituiu defensores do seu Evangelho, fê-lo por deferência (7) e não por necessidade; foi para honrar a autoridade deles e para consagrar o poder. Todavia a Sua santíssima verdade continua a manter-se e conserva a sua independência. Assim, quando os príncipes defendem a fé, é pelo contrário, a fé que os defende; quando eles protegem a religião, é a religião, pelo contrário, que os protege e que lhes serve de apoio ao trono.

Por onde vedes claramente que a verdade se serve dos homens, mas que não depende deles; e é o que se nos manifesta em todo o curso da sua história. Eu chamo a isto a história da Igreja; é a história do reino da verdade. O mundo oscilou, e a verdade ficou de pé; usou de rodeios sutis e de lisonjas, e a verdade conservou-se firme. Os hereges semearam a discórdia, e a verdade conservou-se pura. Os cismas dilaceraram o corpo da Igreja, e a verdade conservou-se inteira.

Muitos foram seduzidos, os fracos ficaram perturbados, e até os fortes ficaram comovidos; um Osio, um Orígenes, um Tertuliano (8), tantos outros que pareciam ser o sustentáculo da Igreja caíram com grande escândalo; e a verdade conservou-se sempre imutável. Que coisa haverá que seja mais soberana e mais independente do que a verdade, que persiste sempre imutável, a despeito das ameaças e dos afagos, a despeito dos dons e das proscrições, a despeito das tentações e dos escândalos, no meio da defecção dos seus filhos infiéis e até na queda funesta dos que pareciam ser as suas colunas?

Depois disto, cristãos, qual é o espírito que não cede a uma autoridade tão bem estabelecida? E quão grande é o meu pasmo quando ouço homens profanos a elevarem-se abertamente contra o Evangelho, na nação mais florescente da cristandade (9)! Haverei sempre de os ouvir e terei sempre de encontrá-los no mundo, a esses libertinos declarados, escravos das suas paixões e temerários censores dos conselhos de Deus, que, por muito engolfados que se vejam nas coisas inferiores, se entremetem a decidir ousadamente das mais elevadas? Profanos e corruptos, os quais, como diz, São Judas, «blasfemam o que ignoram, e se corrompem no que conhecem» – Quaecumque quidem ignorant, blasphemant, quaecumque autem naturaliter tanquam muta animantia norunt, in his corrumpuntur (Jd 10 e 12). Homens duas vezes mortos, diz o mesmo apóstolo; em primeiro lugar, mortos porque perderam a caridade, em segundo lugar, mortos porque até roubaram a fé: Arbores infructuosae, eradicatae, bis mortuae: «Árvores infrutíferas e ermas de raízes que já se não prendem à Igreja por laço algum» (10). Ó Deus! haverei sempre de vê-los triunfar nas reuniões e envenenar os espíritos com os seus motejos sacrílegos (11)?

Mas, homens doutos e curiosos, se quiserdes discutir a religião, trazei aqui, pelo menos, a gravidade e o peso que a matéria exige. Não ridicularizeis, despropositadamente coisas tão sérias e tão veneráveis. Estas importantes questões não se resolvem pelas vossas meias palavras e pelos vossos tresvarios, por esses finos motejos que ostentais, e por esse desdenhoso sorriso. Por amor de Deus! Como dizia esse pobre Jó (Jó 12, 4), não imagineis que sois os únicos homens, e que toda a sabedoria está no vosso espírito, cuja delicadeza nos elogiais. Vós, que quereis penetrar nos segredos de Deus, eia! Aparecei, apresentai-vos, e desenvolvei-nos os enigmas da natureza; escolhei o que está afastado ou o que está próximo, o que está a vossos pés ou o que está suspenso por cima das vossas cabeças! E que vedes? Em toda a parte a vossa razão vacila! Em toda a parte é falível, ou se perturba, ou sucumbe! E, não obstante, não quereis que a fé vos prescreva o que é preciso crer. Cegos infelizes e abjetos, que não quereis que vos norteiem e que vos deem a mão. Pobre romeiro extraviado e presumido, que nos recusais o leme, que quereis que vos façam? Dizei, quereis que vos deixem vaguear? Mas é que podeis introduzir-vos nalgum caminho errado, e cairdes nalgum precipício (12).

Quereis que vos digam claramente todas as verdades divinas? Mas considerai onde estais e para que baixa região do mundo fostes desterrado (13). Vede esta noite profunda, estas trevas espessas que vos envolvem, a fraqueza, a imbecilidade, e a ignorância da vossa razão.

Lembrai-vos de que não é aqui a região da inteligência. Porque não quereis enquanto Deus claramente se apresenta tal qual é, que a fé venha socorrer-vos e ensinar-vos o que é preciso crer?

Mas, senhores meus, já combati suficientemente esses espíritos profanos e temerariamente curiosos. Não é este o vício mais comum, que outro infortúnio muito, mais universal vejo eu que existe na côrte; não é esse ardor inconsiderado de querer avançar demais, é uma extrema negligência por todos os mistérios. Se existem ou não, é isso indiferente para os homens demasiado abjetos, que nem neles querem pensar; não sabem se creem se não creem dispostos como estão a confessar-vos o que vos aprouver, contanto que os deixeis obrar à vontade e passar a vida a seu bel-prazer:

«Cristãos frívolos, diz Tertuliano, e fiéis, se o quiserdes» – Plerosque in ventum, et si placuerit, christianos (Lib. Scorp,, n. 1)

Por isso eu prevejo que os libertinos e os incrédulos poderão perder a reputação, não por qualquer horror dos seus sentimentos, mas porque ficarão indiferentes por tudo, exceto pelos prazeres e pelas ocupações. Vejamos se poderei acordar os homens desse profundo adormecimento, representando-lhes no meu segundo ponto a beleza incorruptível da moral cristã.

SEGUNDO PONTO

Graças à misericórdia divina, os que disputam todos os dias temerariamente sobre a verdade da fé não contestam no Cristianismo a regra dos costumes, e ficam de harmonia sobre a pureza e a perfeição da nossa moral. Mas estas duas graças são certamente inseparáveis. Basta que a religião tenha dois sóis como a natureza (14); e todo aquele que nos é enviado para nos orientar nos costumes, esse mesmo nos dará o conhecimento certo das coisas divinas, que são o fundamento necessário da vida honesta. Digamos, portanto, que o Filho de Deus nos mostra muito melhor a Sua divindade, dirigindo sem erro a vida humana, do que endireitando os coxos e fazendo andar os aleijados. Aquele que, no meio de tantos costumes e de tantos erros, de tantas paixões complicadas e de tantos caprichos extravagantes, soube distinguir ao certo e fixar precisamente a regra dos costumes, deve ser mais que homem (15). Reformar assim o gênero humano, é dar ao homem a vida racional; é uma segunda criação, mais nobre, em certo modo, do que a primeira. Todo aquele que for o chefe desta reforma salutar do gênero humano deve ter para seu auxílio a mesma sabedoria que formou o homem pela primeira vez. Enfim, é uma obra tão sublime que se Deus a não tivesse feito, Ele próprio invejaria o seu autor.

Por isso, em vão o tem tentado a filosofia. Eu sei que ela conservou belos preceitos e salvou belos vestígios das ruínas dos conhecimentos humanos; mas eu perderia um tempo infinito se quisesse contar todos os seus erros. Vamos, pois, prestar as nossas homenagens a essa equidade infalível que nos guia no Evangelho. Eu para lá corro, segui-me irmãos; e, para que vos possa apresentar o objeto duma adoração tão legítima permiti que vos dê uma ideia da moral cristã.

Começa pelo principio. Ela remonta a Deus, a quem liga integralmente o homem, por um amor casto, na sua raiz, nos seus ramos e nos seus frutos; isto é, na sua natureza, nas suas faculdades e em todas as suas operações. E, como ela sabe que o nome de Deus é um nome de pai, pede-nos o amor; mas, para se ajustar com a nossa fraqueza, dispõe-nos a ele pelo recebo. Tendo, pois, assim resolvido ligar-nos a Deus por todos os caminhos possíveis, ensina-nos que devemos em todo o tempo e em todas as coisas reverenciar a Sua autoridade, crer na Sua palavra, depender do Seu poder, confiar na Sua bondade, temer a Sua justiça, entregar-nos à Sua sabedoria e ter esperança na Sua eternidade.

Para Lhe prestar o culto conveniente, que Lhe devemos, diz-nos, cristãos, que nós próprios é que somos as Suas vítimas; e é por isso que nos obriga a dominar as nossas paixões arrebatadas e a modificar os nossos sentidos, sutilíssimos sedutores da nossa razão. A este respeito tem ela precauções inauditas. Vai apagar até ao imo do coração a centelha da cólera que poderia causar um incêndio. Não deixa penetrar no coração o menor ciume despertado pela vista. Não espera por tirar a espada à criança, depois dela ter dado um golpe mortal; arranca-lh’a das mãos logo à primeira picada (16). Enfim, nada esquece para submeter o corpo ao espírito e o espírito inteiramente a Deus; e nisto consiste, senhores, o nosso sacrifício.

Nós temos de considerar sob quem vivemos e com quem vivemos. Vivemos sob o império de Deus e em sociedade com os homens. E depois desta primeira obrigação de amar a Deus como nosso soberano, mais do que a nós mesmos, segue-se o segundo dever de amar o homem, que é o nosso próximo, em espírito de sociedade, como a nós próprios. Assim se vê muito santamente estabelecida, sob o proteção divina, a caridade fraternal, sempre sagrada e inviolável, apesar das injúrias e dos interesses; assim, a esmola, tesouro de graças; assim, o perdão das injúrias, que nos alcança o de Deus; assim, finalmente, a misericórdia preferida ao sacrifício, e a reconciliação fraternal, preparação necessária para o caminho da religião. Assim, numa santa distribuição dos ofícios da caridade, aprende-se a quem se deve o respeito, a quem a obediência, a quem o favor, a quem a proteção, a quem o auxílio, a quem a condescendência, a quem caritativos conselhos; e vê-se que se deve a justiça a todos, e que se não deve injuriar alguém, do mesmo modo que alguém se não injuria a si mesmo.

Quereis que passemos ao que Jesus Cristo instituiu para ordenar as famílias? Ele não se contentou com sustentar no casamento a sua primeira honra; fez Ele um Sacramento da religião e um rival místico da Sua casta e imutável união com a Sua Igreja. Desta maneira, consagrou a origem do nosso nascimento. Suprimiu a poligamia, que havia permitido numa época, para favorecer o aumento do Seu povo. Já não permite que o amor se corrompa na multidão; restituiu-o ao seu estado normal, fazendo-o reinar em dois corações unidos, para, dessa união, fazer derivar uma concórdia inviolável das famílias e entre os irmãos. Depois de ter reduzido as coisas ao primeiro estado, quis doravante que a mais santa aliança do gênero humano fosse também a mais perdurável e a mais firme, e que o laço conjugal fosse indissolúvel, tanto pela primeira força da fé consagrada como pela obrigação natural de educar os filhos comuns, penhores preciosos duma eterna correlação. Por isso, deu ao casamento uma forma augusta e venerável, que honra a natureza, que suporta a fraqueza, que preserva da temperança e que sofreia a sensualidade.

Que direi das leis sagradas que tornam os filhos obedientes e os pais caritativos, poderosos instigadores da virtude, amáveis censores dos vícios, que reprimem a licença «sem fazer perder o animo?» Ut non pusillo animo fiant (Col 3, 21). Que direi dessas belas instituições pelas quais os anos são equitativos e os servos afeiçoados, encarregando-se o próprio Deus, que é bom porque é pai, de os recompensar dos seus serviços.

«Vós, senhores, tendes um Senhor no céu. Servos, servi como a Deus, porque a vossa recompensa está certa. Domini, quod justum est et aequum, servis praestate, scientes quod et vos Dominum habetis in caelo. — Servi, obedite, per omnia dominis carnalibus… scientes quod a Domino accipietis retributionem haereditatis. (Col 4, 1; 3, 22 e 24)

Quem melhor do que Jesus Cristo estabeleceu a autoridade dos príncipes e dos poderes legítimos? Ele faz um dever de religião da obediência que lhes é devida. Eles reinam sobre os corpos pela força, e, quando muito, sobre os corações pela afeição. Ele erige-lhes um trono nas consciências, e protege-lhes a autoridade e a personalidade sagrada. É por isso que Tertuliano dizia outrora aos ministros dos imperadores: A vossa função expõe-vos a muito ódio e a muita inveja; «agora tendes menos inimigos por causa do grande número dos cristãos» – Nunc enim pauciores hostes habetis prae multitudine christianom (Apol., n.° 37). Reciprocamente ensina aos príncipes que lhes é dado o gládio para ser aplicado aos maus, que devem ter as mãos pesadas unicamente para eles, e que a sua autoridade deve ser o alívio do fardo dos outros.

É este, senhores, o quadro que vos prometi; e esta a imortal beleza da moral cristã, representada fielmente e como que em síntese. Não me surpreende o ser uma beleza severa, com tanto que seja pura. E é preciso que seja fiel, porque é religiosa. Mas, afinal, qual é a moral mais santa? Qual mais econômica e bela! A qual política a mais justa? É inimigo do gênero humano aquele que contradiz tão santas leis. Mas quem contradiz, a não ser homens apaixonados, que preferem corromper a lei a dignificarem a sua consciência; e, como diz Salviano, «que preferem vociferar contra o preceito a fazerem guerra ao vício?» – Mavult quilibet improbus exsecrari legem, quam emendare mentem, mavult praecepta odisse quam vitia (Salv. liv, IV. Advers. Avar., p. 312).

Pela minha parte, entrego-me de todo o meu coração a estas sagradas instituições (17). Só os costumes me fariam receber a fé. Em tudo creio nAquele que tão bem me ensinou a viver. A fé prova-me os costumes, e os costumes provam-me a fé. As verdades da fé e a doutrina dos costumes são coisas de tal modo conexas e tão santamente aliadas, que não há meio de as separar. Jesus Cristo fundou os costumes na fé; e depois de ter elevado tão nobremente esse admirável edifício, terei eu audácia bastante para dizer a um tão sábio arquiteto que lançou mal o fundamento oculto? Pelo contrário, não avaliarei, pela beleza manifesta do que Ele me mostra, que a mesma sabedoria dispôs o que Ele me oculta? E vós, que direis, ó pecadores! Em que estais ofendidos, e que parte quereis suprimir dessa moral? Vós tendes grandes dificuldades: é a razão que as dita, ou a paixão que as sugere? Ah! Eu bem compreendo os vossos pensamentos; bem vejo para que lado se inclina o vosso coração. Pedis a liberdade. — Oh! Não acabeis, demais vos compreendo. Essa liberdade que pedis é um miserável cativeiro. Permiti que vos libertem e que entreguem o vosso coração a um Deus a quem ele pertence, e que tão instantemente o reclama. Não é justo, irmãos, que se prejudique a lei em benefício das vossas paixões, mas, pelo contrário, que se suprima das vossas paixões o que é contrario à lei. Aliás, que sucederia? Cada um violaria o preceito: Lacerata est lex? (Hc 1, 4). Não há homem tão corrupto a quem não desagrade um pecado. Aquele é naturalmente liberal? Protestai, insurgi-vos, quanto quiserdes, contra as rapinas, porque ele aprovará a vossa doutrina. Mas se é altivo e ambicioso, é preciso deixa-lo vingar essa injuria e envolver os seus inimigos e os seus rivais nessa intriga perigosa. Deste modo, toda a lei será mutilada; e nós veremos, como dizia o grande Santo Hilário num outro assunto, «uma tão grande variedade na doutrina como vemos nos costumes, e tantas espécies de fé como de inclinações diferentes há» – Tot nunc fides exsistere quot voluntates, et tot nobis doctrinas esse quot mores (18).

Deixai-vos, pois, guiar por essas leis tão sagradas, e tomai-as como norma vossa. E não me digais que ela é perfeita demais e que se não pode seguir. Isto dizem os covardes e os preguiçosos. Encontram obstáculo em tudo, tudo lhes parece impossível; e quando nada há que temer, deixam-se inspirar por inúteis receios e por terrores imaginários.

Dicit piger: Leo est in via et leaena in itineribus. Dixit piger: Leo est foris, in medio platearum occidendus sum – “O preguiçoso diz: Eu não posso partir, porque encontro um leão no caminho; e a leoa devorar-me-á nas estradas» (Pr 26, 13; 22, 13)

Encontra sempre dificuldades, e nunca se esforça por vencer nenhuma. Com efeito, vós, que nos objetais que a lei do Evangelho é perfeita demais e excede as forças humanas, já alguma vez diligenciastes praticá-la? Contai-nos os vossos esforços, mostrai-nos as tentativas que fizestes. Em vez de vos queixardes da vossa impotência, porque não começais a trabalhar em qualquer coisa? Não podeis dar o segundo passo, dizeis vós, mas se nunca destes o primeiro… Começai, pois, a caminhar, e avançai gradualmente. Vereis as coisas facilitarem-se, e o caminho aplanar-se manifestamente à vossa vista. Mas que, em vez de terdes tentado, nos digais que é tudo impossível; que vos acheis excessivamente cansado do caminho sem vos terdes movido do vosso lugar, e que fiqueis fatigado com um trabalho que ainda não empreendestes, é que é uma covardia não somente ridícula, senão insuportável. Além de quê, como se pode dizer que Jesus Cristo não tenha dado encargos superiores às nossas forças, se Ele tem tanto respeito pela nossa fraqueza, se nos oferece tanto auxílio, se nos proporciona tantos recursos; Ele, que, não satisfeito de nos suster no declive, com o preceito, ainda nos estende a mão no precipício com a remissão dos pecados que nos apresenta?

TERCEIRO PONTO

Confesso-vos, senhores, que a minha perturbação é extrema nesta terceira parte, e não é por ter dificuldade em provar o que prometi no princípio, isto é, a infinita bondade do Salvador. Qual é a eloquência bastantemente estéril que poderia carecer de palavras? E que há de mais fácil? Que há de mais infinito e de mais imenso, se assim me posso exprimir, do que essa divina bondade, que não só recebe os que a procuram e se entrega inteiramente aos que à desejam, mas também chama os que dela se afastam e abre sempre vias de regresso aos que a abandonam? Mas os homens bem o sabem, demais o sabem eles, por desfortuna sua. Não era preciso publicar tão altamente uma verdade, da qual tanta gente abusa. Bastava dizê-la em voz baixa aos pecadores contritos pelos seus crimes, às consciências humilhadas e aflitas. Bastava separar da multidão alguma alma angustiada, e dizer-lhe ao ouvido, secretamente:

«Deus! Deus perdoa eternamente e sem limites (e os seus perdões são inumeráveis (19))»

Mas apresentar à vista dos pecadores soberbos essa bondade que não tem limites é o mesmo que dar largas à licença; publicar esses perdões que são inumeráveis é o mesmo que multiplicar os crimes: Misericordiae ejus non est numerus. Orat Missae pro gratiar act.

E todavia, cristãos, não é justo que a dureza e a ingratidão dos homens roubem à bondade do Salvador os louvores que Lhe são devidos. Elevemos, pois, a nossa voz e declaremos bem alto que a Sua misericórdia é imensa. O homem devia morrer pelo seu crime; pois Jesus Cristo morreu no seu posto. Está escrito que o sangue do pecador deve cair sobre Ele; mas o sangue de Jesus Cristo cobre-o e protege-o. Ó homens, não procureis a expiação dos vossos crimes no sangue dos animais degolados. Embora tivésseis de imolar todos os vossos rebanhos, não podia a vida dos animais ser expiada pela vida dos homens.

Vede como Jesus Cristo se oferece, homem para os homens, homem inocente para os criminosos, Homem feito Deus para homens puros e para simples mortais (20). Pensadores, nunca percais a esperança. Jesus Cristo morreu uma vez, mas o fruto da Sua morte é eterno; Jesus Cristo morreu uma vez, mas «está sempre vivo para interceder por nós», como diz o divino Apóstolo: Semper vivens ad interpellandum pro nobis (Hb 7, 25).

Há, pois, para nós uma misericórdia infinita no céu mas, para nos ser aplicada na terra, acha-se inteiramente comunicada à Santa Igreja no Sacramento da Penitência.

«E, senão, escutai as palavras da instituição: «Tudo o que perdoardes será perdoado, tudo o que absolverdes será absolvido» – Quodcumpre ligaveris super terram erit ligatum et in caelis: et quodcumque solveris super terram erit solutum in caelis. (Mt 16, 19)

Nisto vedes uma bondade que não tem limites. Difere, porém, do batismo. «Não há senão um batismo», diz o santo Apóstolo, o qual se não repete mais: Unus Dominus, una fides, unum baptisma (Ef 4, 5). As portas da penitência estão sempre abertas. Vinde dez vezes, vinde cem vezes, vinde mil vezes, porque esta palavra será sempre verdadeira: Tudo o que perdoardes será perdoado – Quorum remiseritis peccata, remittuntur eis; et quorum retinueritis retenta sunt (Jo 20, 23). Eu não vejo aqui termo prescrito, um número fixo, nem medida determinada. É, pois, necessário reconhecer nisto uma bondade infinita (21).

Que direi neste passo, cristãos, e com que termos assaz poderosos deplorarei tantos sacrílegos que infectam as águas da penitência?

«Água do batismo, como és feliz, dizia outrora Tertuliano; como és feliz, água mística, que só purificas uma vez! E que não serves de joguete aos pecadores!» Felix aqua quae semel abluit, quae ludibrio peccatoribus non est!

É o banho da penitência sempre aberto aos pecadores, sempre pronto a receber os que se regeneram; é esse banho de misericórdia que está sujeito ao desprezo pela sua propriedade benéfica e cujas águas servem, contra a sua natureza, para manchar os homens, pois que o desejo de se purificarem faz com que eles não receiem macular a consciência. Quem não lamentaria, cristãos, ver essa água salutar tão estranhamente manchada, só porque é benéfica? Que hei de inventar, para onde me hei de voltar, a fim de suspender as profanações dos homens perversos que, infelizmente, vão fazer do porto o seu escolho?

Respondem-nos os pecadores que basta o arrependimento para se poderem aproximar dessa, fonte de graça. Em vão dizemos aos que confiam tão cegamente nesse arrependimento futuro: Não vedes que Deus prometeu o perdão do arrependimento, mas não prometeu dar tempo para esse sentimento indispensável? Esta razão convincente já não produz efeito, porque já é repetida demais. Mas vede, irmãos, que cegueira é a vossa: tornais a bondade divina cúmplice da vossa insensibilidade, e assim pecais contra o Espírito Santo e contra a graça da remissão dos pecados. Deus já nada tem a fazer para vos retirar do crime, porque vós exasperais a Sua misericórdia. Que mais pode Ele fazer do que chamar-vos, esperar por vós, estender-vos os braços e oferecer-vos o perdão? É isto que vos faz arrojados nas vossas empresas criminosas.

Que tem Ele, pois, a fazer? Estando exausta a Sua bondade e como que dominada pela vossa malícia, resta-Lhe outra coisa além de vos entregar à Sua vingança? Pois bem! Irritai a bondade divina; mostrai-vos constantes e intrépidos em perderdes a alma, ou antes loucos e insensíveis, audaciosos e temerários; fazei dum arrependimento duvidoso o motivo dum crime certo; mas não quereis compreender quão estranha, quão insensata, quão monstruosa é essa ideia de pecar para ter depois arrependimento? Obstupescite, caeli, super hoc (Jr 2, 12):

«Ó céus, ó terra, pasmai dum tão prodigioso desvario!»

Os cegos filhos de Adão não receiam pecar, porque esperam um dia arrepender-se! Tenho lido muitas vezes nas Escrituras que Deus envia aos pecadores o espírito de vertigem (22) e de alucinação; mas eu vejo-o claramente nos vossos excessos. Quereis converter-vos um dia, ou morrer miseravelmente na impenitência? Escolhei, tomai uma resolução. A última resolução que se toma é diabólica. Se vos resta, pois, qualquer sentimento pelo Cristianismo, qualquer cuidado pela vossa salvação, qualquer piedade por vós mesmo, tendes esperança em vos converterdes; e se imaginásseis que essa porta se vos fecharia, não iríeis para o crime com a indiferença em que vos vejo. Conversão é arrependimento. Quereis então satisfazer essa paixão porque tendes esperança em vos arrependerdes? Quem jamais ouviu falar dum prodígio semelhante? Sou eu que estou perturbado, ou é a vossa paixão que vos cativa? É o meu pensamento que se engana, ou é o vosso que está alucinado e confuso? Quando é que alguém se lembrou de fazer uma coisa, porque imagina arrepender-se dela um dia? À razão compete certamente abster-se de a fazer. Tenho ouvido dizer muitas vezes: Não façais isto, porque haveis de arrepender-vos. O arrependimento que se prevê não é naturalmente um freio para o desejo e um decreto para a vontade? Certamente. Mas que um homem diga consigo mesmo: Eu pratico esta ação, porque espero arrepender-me dela, e, se não fosse este pensamento não a praticava; que, deste modo o arrependimento previsto se mostre contrariamente às inclinações da sua natureza, ao objeto da nossa esperança e ao motivo da nossa escolha, é que é duma cegueira inaudita, é confundir o que se opõe, e alterar a essência das coisas. Oh! Não, o que imaginais nem é arrependimento nem é dor; apenas lhes ouvis o nome, tão afastados estais do objeto. Essa dor que se deseja, esse arrependimento que se espera ter um dia, não é mais que uma dor fingida e um arrependimento imaginado! Não vos enganeis, cristãos, que não é tão fácil a gente arrepender-se. Para produzir um arrependimento sincero, é necessário derruir o coração até aos alicerces, extirpar-lhe violentamente as inclinações, coordenar-lhe implacavelmente as fraquezas e purificar-se cada um completamente a si próprio. Se prevísseis um tal arrependimento, seria ele para vós um freio salutar. Mas o arrependimento que esperais não é mais que uma dissimulação, a dor, em que tendes esperança, uma ilusão e uma quimera; e razão tendes para recear que, por uma justa punição de haverdes tão estranhamente destruído a natureza da penitência, um Deus desprezado e vingador dos Seus Sacramentos profanados vos envie na Sua ira, não o peccavi dum Davi, não os lamentações dum São Pedro, não a dor amarga duma Madalena, mas o pesar artificioso dum Saul, mas a dor desesperada dum Judas, mas o arrependimento estéril dum Antíoco (23); assim como deveis ter receio de morrerdes infelizmente na vossa falsa contrição e na vossa penitência impenitente!

Vivamos, pois, irmãos, de maneira que a remissão dos pecados não seja para nós um escândalo. Restituamos as coisas ao seu estado normal. Que a penitência seja penitência, um remédio e não um veneno; que a esperança seja esperança, um recurso para a fraqueza e não um apoio para a audácia; que a dor seja uma dor; que o arrependimento seja um arrependimento, isto é, a expiação dos pecados passados e não o alicerce dos pecados futuros. E assim chegaremos pela penitencia ao lugar onde já não há arrependimento nem dor, mas uma calma perpétua e uma paz imutável.

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

(Autores a consultar no 2.º domingo do Advento: Fléchier, de Savigny, L. de Granade, Dubois, de Bainvile, etc.).

Referências:

(1) Ediç.: com ingratidão e impiedade. Depois de ter escrito impiedade, Bossuet riscou a palavra e substituiu-a por ingratidão. Depois aproveitou o primeiro pensamento e escreveu com ingratidão e impiedade; mas então julgou que a ingratidão é um vício muito maior ainda do que a impiedade; não repetiu a palavra impiedade antes da primeira, mas escreveu e ingratidão, o que bem mostra que queria observar a gradação. (Grazier).

(2) O orador acrescentava: «A prova disto, senhores, depende da maneira como se estabeleceu a religião cristã. Sabem-no muitos dos que se encontram neste auditório, outros talvez o não saibam; e poucos refletiram nisto suficientemente. Eu juntarei em poucas palavras o que me parecer mais concludente; concedei-me a vossa atenção, e crede que vos é útil meditar algumas vezes de que maneira foi fundada (Var.: estabelecida) a fé que professais». Esta passagem está riscada, mas talvez se julgue que valeria a pena conservá-la. Bossuet pensara em a aproveitar um pouco mais adiante, mas ainda desta vez mudou de opinião.

(3) Ancilla theologiae philosophia; Pascal não teria dúvida em subscrever esta declaração de Bossuet.

(4) É preciso aqui renunciar a estabelecer devidamente a continuação do discurso; Bossuet lançou à margem uma pequena indicação, de que só ele podia tirar proveito; relacionava-se, no seu espírito, com a série do desenvolvimento, mas falta-nos a ligação. A nota é esta: «Disputante illo de justitia, et castitate, et judicio futuro. Quem é o prisioneiro? Quem é o juiz? Tremefactus Felix respondit: Quod nunc attinet, vade; tempore opportuno accersam te (At 24, 25). Já não é o acusado que pede detença ao seu juiz, é o juiz atemorizado que a pede ao seu criminoso; Deste modo, os Santos Apóstolos, etc». Dadas as liberdades que se tomavam no seu tempo com os ms. Deforis relacionou sofrivelmente estas poucas palavras no coração do discurso. A crítica é mais reservada. (Grazier).

(5) V., no Sermão da lei de Deus, a maneira como Bossuet discute a filosofia. Tendo Deus dado ao homem a Razão, a Revelação e a Igreja para o guiar, estão, os que não quiseram recorrer a estes três meios, muito sujeitos a transviarem-se, como o prova a história dos protestantes, dos racionalistas e dos tradicionalistas.

(6) S. Agost., De vera relig., n, 3. Pascal disse a mesma coisa depois de Santo Agostinho e antes de Bossuet, que não podia conhecer os Pensamentos em 1665.

(7) As duas palavras por deferência estão sublinhadas, mas fomos obrigados a conservá-las. O texto definitivo era provavelmente este: Ele não o fez por necessidade, foi para honrar… As indicações do ms. não estão suficientemente completas para autorizarem uma alteração.

(8) Osio, bispo de Cordova (257-358). Fora muito enérgico contra os arianos, e na idade de 99 anos, depois de ter sido maltratado pelo imperador Constâncio, subscreveu uma profissão de fé herética. – Origenes (184-254), tornou-se notável por muito tempo pela sua intrepidez e pela pureza da sua fé. Diz-se que caíra na heresia; mas sábios ilustres, São Gregório Nazianzeno, São Basílio, São João Crisóstomo e ainda outros, afirmaram que os seus escritos haviam sido falsificados depois da sua morte. – Outro tanto se não pode dizer do admirável Tertuliano, como Bossuet se compraz em lhe chamar. Morreu pelo ano de 216, herege, e até chefe de seita.

(9) Como Pascal, Bossuet viu o ceticismo preparar as suas armas e urdir as suas conspirações no coração duma sociedade profundamente cristã e na serenidade duma época de fé.

(10) Bossuet aproveita as mesmas ideias, quase nos mesmos termos, no fim do Sermão da unidade da Igreja; e na Oração fúnebre da Princesa palatina ainda se declara contra os libertinos.

(11) Bossuet caracteriza e estigmatiza antecipadamente a obra de Voltaire.

(12) Nota marg.: infinitos meandros. Era talvez para completar a frase, atenuando a energia da palavra precipicio.

(13) V. Paseal; «Quem é o homem no infinito? etc.»

(14) Bossuet ignorava que os sóis se contam aos milhões; além disso, entende por natureza o sistema solar.

(15) Atribui-se a Napoleão uma palavra análoga: «Eu conheço que sou homem, disse ele em Santa Helena, mas Aquele não o é»

(16) Esta passagem é aqui muito diferente da passagem correspondente do sr. Lachat. Este escritor parece que nem sequer reparou no manuscrito; e limitou-se apenas a copiar Déforis, suprimindo uma variante, a que este último editor tinha atendido (Gazier).

(17) Seria talvez preciso registrar aqui as poucas palavras que Bossuet escreveu Pa margem: Quam (?) delector legi (sic) Dei! Quando (ou quanto?) me deleita a lei de Jesus Cristo!

(18) Santo Hilário, liv. II Ad Constant., n.º 4. O Santo Hilário a que Bossuet aqui se refere é o bispo de Poitiers, que morreu pelo ano de 367.

(19) No texto está etc. Bossuet, como o prova a citação fica a meditar manifestamente no fim da frase que se encontra riscada por ele algumas linhas mais abaixo. Teve uma certa dificuldade em exprimir o seu pensamento, porque todo este começo do terceiro ponto foi profundamente retocado.

(20) Os editores conservam aqui duas frases que Bossuet marcou com um traço à margem, para as condenar, e com razão, pois que não fortificam o pensamento. «Vedes, portanto, cristãos, não só a igualdade no prêmio, mas também a superabundância. O que é oferecido é infinito; e, para que Aquele que oferece fosse da mesma dignidade, Ele próprio, que é a vítima, quis também ser o pontífice».

(21) Os editores conservam aqui, injustamente, uma longa passagem que Bossuet, com pressa de acabar, condenou, marcando-a com um traço à margem: «A fonte do sagrado batismo chama-se nas Escrituras, segundo uma interpretação, «uma fonte selada», fons signatus (Ct 6, 12). Nela vos purificais uma vez; depois fecham-na e selam-na, e já se não torna a abrir para vós. Mas nós temos na Igreja uma outra fonte, da qual está escrito no profeta Zacarias: «Nesse dia, no dia do Salvador, nesse dia em que a bondade há de aparecer no mundo, haverá uma fonte aberta para a casa de Davi e para os habitantes de Jerusalém, a fim de se purificarem os pecadores» – In die illa erit fons patens domui Davit et habitantibus Jerusalem in ablutionem peccatoris (Zc 13, 1). Esta não é uma fonte selada que só se abre com reserva, que não é permitida a todos, porque exclui eternamente os que uma vez recebeu: fons signatus. Esta é uma fonte não somente pública, mas sempre aberta, erit fons patens; e aberta indiferentemente para todos os habitantes de Jerusalém e para todos os filhos da Igreja. Recebe sempre os pecadores; a toda a hora e a todos os momentos podem os leprosos vir purificar-se nessa fonte do Salvador, sempre benéfica e sempre franca. Mas aqui, cristãos, é que está a nossa infidelidade; aqui é que a indulgência multiplica os crimes, e que o manancial dos perdões se torna numa origem infinita de profanações sacrílegas».

(22) «O Egito, outrora tão prudente, caminha perturbado, espavorido e vacilante, porque o Senhor derramou o espírito de vertigem nos seus conselhos» (Hist. Univer., 3, 7)

(23) Antoco Epiphanio, rei da Síria, perseguidor dos judeus. Um historiador latino quisera que lhe chamassem Epimanio (duma palavra grega que significa doido furioso)

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(BOSSUET, Jacques-Bénigne. Sermões de Bossuet, Volume I. Tradução de Manuel de Mello. Casa Editora de Antonio Figueirinhas 1909 – Porto, 1909, Tomo I, p. 187-213)