Capítulo 8: Os desposórios de Maria Santíssima
Conveniência de Maria Santíssima ter um esposo

Transportemo-nos hoje em espírito ao templo de Jerusalém para presenciarmos um espetáculo em que a Virgem Maria não se mostra menos admirável, nem nos oferece instruções menos úteis, do que na sua Apresentação. Entrava nos desígnios de Deus que esta Virgem incomparável, escolhida desde toda a eternidade para ser Mãe do divino Redentor dos homens, mostrasse em sua pessoa o modelo completo de todas as virtudes nas diferentes condições da vida. Foi, portanto, sábia disposições da Providência que Maria, havendo de conceber milagrosamente e dar à luz, sem quebra de sua integridade, o Verbo Encarnado, tivesse uma testemunha e guarda, fiel de sua pureza, e fosse ao mesmo tempo o pai putativo e aio do Homem-Deus.

Admiremos os segredos da divina sabedoria! Quão perfeita e retamente ordenados são todos os seus planos! Como ela sabe dispor tudo com força e suavidade para o complemento dos Seus desígnios!

Sua prudência nesta circunstância

Maria Santíssima consultou o Senhor por muito tempo no silêncio da oração, e no retiro do Templo. Não deixou Ele de responder, porque uma alma entregue aos desígnios do Pai celeste nunca O invoca em vão. Certa da vontade divina, Maria aceita o esposo que o céu lhe dá, com a segurança de que o seu voto de virgindade será religiosamente guardado. Aprendamos do exemplo de Maria, e vendo-a fazer o sacrifício da sua querida solidão e liberdade para se sujeitar a um estado de vida, que na aparência se figurava menos perfeito do que o que tinha no Templo, entendamos que o estado que abraçamos por vontade de Deus não é obstáculo à perfeição, e que todos podemos e devemos santificar-nos no estado em que nos achamos, aplicando-nos a cumprir exatamente os deveres que ele nos impõe.

Excelências do Esposo de Maria Santíssima

Para a inestimável ventura, que o Patriarca São José teve de ser escolhido Esposo da Mãe de Deus, foram disposições concedidas pelo mesmo Deus, as suas raras virtudes e sólida santidade. Foi varão pientíssimo nas contrariedades, diligentíssimo no trabalho, estremado na pobreza, mansíssimo nas injúrias, obedientíssimo à vontade de Deus e de sua Esposa, profundo na humildade, zelosíssimo na pureza, morto à carne e ao sangue, e só vivo a Deus e aos bens eternos, os únicos que desejava. Veneremos e louvemos as raras prerrogativas e excelências de tão admirável santo, e aprendamos a conhecer que a verdadeira grandeza consiste na prática da virtude.

ORAÇÃO

Ó Virgem fiel, quanto é doce pensar que vos elevastes a tão alto grau de virtude e perfeição pela fidelidade em desempenhar os deveres do vosso estado, e de um estado tão comum e usual! Não se referem de vós no Evangelho ações pomposas e famigeradas; porque amáveis a vida oculta e retirada. Ah! Eu tenho há muito tempo seguido os enganosos atrativos do amor-próprio e da vaidade, muito tenho procurado a minha satisfação e glória com o especioso pretexto de praticar por Deus grandes coisas! É ocasião de tornar retos os caminhos do meu coração; quero abrir os olhos e ocupar-me com diligência e fidelidade em santificar-me nas circunstâncias da vida em que me acho, porque é esta a vontade de vosso Filho, e para a seguir, não me há de Ele recusar as graças necessárias e eficazes, mormente sendo por vós solicitadas. A vós pois recorro, e por mais miserável que seja, nada tenho que temer, se a vós me dirigir, pois que tendes quanto me é necessário; tendes poder e vontade de mé dar quanto vos pedir para glória de Deus e bem da minha alma. Virgem Santíssima, em vós, depois de Jesus, deposito toda a minha confiança.

Agora se faz o Ato após a Meditação

EXEMPLO

Uma só Ave-Maria de uma mulher ímpia e cruel

São Bernardo em um dos seus magníficos sermões chamou a Nossa Senhora:

“O aqueduto das águas da graça”

O aqueduto não é a fonte, mas é por ele, que nos vem as suas águas e, se o cortarmos ou fecharmos hermeticamente, então a fonte não as derramará sobre nós.

E tão pouco é preciso para abrir o aqueduto celeste!…

Na nefasta época da Revolução Francesa, vivia na cidade de Mirepoix uma mulher, criatura excepcional, para quem o crime era um prazer!

O passatempo, ou antes a felicidade desta desgraçada consistia em acompanhar à guilhotina os condenados à morte pelo tribunal revolucionário, insultando as pobres vitimas até aos degraus do cadafalso.

Os padres tinham principalmente o privilegio de exaltar o seu furor de uma maneira incrível, atraindo sobre eles os mais injuriosos insultos. Procurava ela assim exasperar a tranquila resignação desses mártires que, sem demonstrar que ouviam seus gritos e invectivas, caminhavam silenciosamente para a morte.

A 8 de fevereiro de 1795, o Sr. Baclot, sacerdote muito conhecido pela santidade da sua vida, foi, como tantos outros, condenado à morte pela sua inalterável fidelidade ao serviço de Deus.

No momento em que o conduziam para o cadafalso, não deixou esta mulher ferina de correr ao seu encontro exclamando:

— Ora vamos a ver se este me responde ou não!

E com os punhos cerrados, a boca escumante, principiou a fúria a desenrolar o seu vocabulário injurioso. Foi então que o Sr. Baclot se voltou para ela e com inexprimível doçura lhe disse:

— Minha Senhora, peço-lhe que ore por mim.

— Que é que tu dizes? Quem… eu?… É à mim que tu dizes que ore por ti?!…

— Sim, minha Senhora; peço-lhe que reze uma Ave-Maria pela minha alma que vai comparecer na presença de Deus.

Provavelmente o santo sacerdote implorava nesse momento a divina proteção de Maria para a sua perseguidora. O certo é que as suas palavras produziram na desgraçada o efeito de um tremendo golpe.

Parou repentinamente e, mudando de cor, parecia perguntar a si própria se era verdade o que ouvia. A sua fisionomia completamente transtornada revelava às claras a luta de opostos sentimentos que se lhe travara no coração.

Por fim recuperando a palavra murmurou timidamente:

— Sim, Sr. Cura, vou rezar a Ave-Maria que me pede.

Efetivamente principiou a rezá-la em voz alta e, apenas acabada, continuou a soluçar e gemer todo o caminho até junto do cadafalso, aonde se ajoelhou de mãos erguidas.

As pessoas que a rodeavam olhavam estupefatas, sem saber a que atribuir tão repentina mudança.

Terminada a execução, voltou para casa chorando silenciosamente e, daí por diante, ninguém mais a viu na rua senão em caso de extrema necessidade. Quando os tambores da república, acompanhando os fúnebres cortejos destinados ao carrasco, lhe passavam em frente da casa, ouviam-se no interior gritos dilacerantes. Como Marianna outrora tão faladora e descarada, não dirigia a palavra a ninguém, e apenas respondia ao que lhe perguntavam, sem se atrever a levantar os olhos, principiaram todos a julgar que estava doida, dizendo-se em voz baixa que tinha sido útil castigo miraculoso.

Porém não havia mais que o milagre da sua inteira conversão, o que provou claramente quando, restabelecido o culto católico, lhe foi permitido ser cristã.

Maria procurou então pela sua conduta exemplar, pelas abundantes esmolas que distribuía e pela austeridade da sua penitência, reparar os escândalos que tinha dado. Todos os anos ia em peregrinação a Nossa Senhora dos Ermitas, e, apesar da sua avançada idade e dos seus meios de fortuna que lhe permitiam viajar comodamente, ia a pé, mendigando o pão de porta em porta.

Por fim morreu, manifestando o mais sincero arrependimento dos seus pecados e edificando os atuais habitantes de Mirepoix tanto quanto tinha escandalizado seus pais na juventude.

Procuremos, pois, obter que as pessoas da nossa amizade e mesmo os nossos inimigos, se tanto for possível, recitem ao menos cada dia uma Ave-Maria que assim se obterá a conversão de muitos deles.

OUTRO EXEMPLO

Pecador convertido

Um dos mais célebres pregadores do último século, foi uma noite chamado para confessar um jovem muito conhecido pela sua vida licenciosa, o qual acabava de ser atacado duma apoplexia. O sacerdote dirigiu-se apressadamente a casa do enfermo, mas encontrou-o sem sentidos e, como até pela manhã os não recuperasse, saiu para ir dizer Missa a Nossa Senhora por sua intenção. Apenas havia terminado o santo sacrifício, vieram novamente chamá-lo, porque o enfermo recuperara os sentidos.

Voltou, pois, o ministro de Deus para junto dele e qual não foi a sua admiração ao encontrá-lo todo compungido e penetrado do mais vivo arrependimento, oferecendo generosamente a vida em expiação dos enormes pecados que durante toda ela cometeu! Nestas santas disposições fez a sua confissão e recebeu os últimos Sacramentos com o maior recolhimento e fervor. Não sabia o piedoso sacerdote a que atribuir semelhante prodígio da misericórdia divina em favor de um homem cujos excessos escandalosos lhe eram desde há muito conhecidos; e interrogando-o sobre este ponto, o enfermo lhe respondeu com voz entrecortada de soluços:

— Eu lhe conto, meu caro padre, só posso atribuir este rasgo da infinita misericórdia do meu Deus, às vossas orações e às de minha falecida mãe, que prestes a exalar o último suspiro me chamou junto do seu leito, e manifestando-me os seus justos receios pelos perigos a que me via exposto, me disse: Meu querido filho, a minha grande consolação é deixar-te sob a proteção de Maria. Uma coisa te vou pedir, meu filho, e como prova do amor que me dedicas, hás de prometer cumpri-la. Pouco te custará e do seu cumprimento dependerá por certo a tua salvação eterna. Prometes-me que hás de recitar todos os dias o terço em honra de Nossa Senhora?

— Eu prometi e prometi deveras, continuou o enfermo, e durante dez anos nem um só dia faltei à minha promessa. Confesso também que é este o único ato de religião que tenho praticado.

Em vista desta declaração o confessor não teve a menor dúvida de que fora a especial proteção da Augusta Mãe de Deus, que atraíra sobre o seu penitente a misericórdia do Senhor, e assistindo-lhe até aos derradeiros momentos, que foram animados dos mesmos sentimentos de contrição e penitencia, formou para si o propósito de nunca mais deixar passar, nem um só dia sem recitar o terço, o que cumpriu exatamente até aos últimos dias da sua vida.

Que venturosos seremos se tomarmos semelhante resolução e formos pontuais em a cumprir.

M. Clement.

LIÇÃO
Sobre a escolha do estado de vida

Muitas pessoas estão descontentes no seu estado, nele padecem muito, e não raro fazem com que os outros padeçam, por que tomaram um estado, para que Deus as não destinava.

Delas se entendem estas palavras de Deus, pelo Profeta Isaías: Ai de vós filhos desertores da minha providência, que armastes os vossos desígnios sem me consultar.

A graça da vocação é uma graça muito importante que compreende outras muitas: deixando de ser fiei a esta graça, não devemos esperar as que a acompanham.

O que se desvia da ordem da providência especial, que dispõe graças de escolha ao que está disposto a conformar-se com a vontade de Deus, cai na ordem da providência cominam, que só acode com as graças ordinárias suficientes para a salvação, mas com as quais dificultosamente se salvará.

Consultai, pois, e orai ao Senhor, vós, os que tomais deliberação acerca da escolha de estado; dizei como o Profeta:

Senhor, dai-me a conhecer o caminho que quereis que eu siga

Vivei ao mesmo tempo de modo que o Senhor veja em vós um objeto digno do Seu cuidado.

Consultai também os que fazem as vezes de Deus na terra, estes vos instruirão acerca do que deveis fazer.

Consultai de algum modo a morte, isto é, tomai a resolução que houvereis de escolher na última hora da vida.

Se infelizmente já abraçaste um estado para que não éreis chamado, e agora o não podeis abandonar, fazei da necessidade virtude e, pois que o inimigo trabalhou por vos fazer tomar esse estado para vossa perdição, servi-vos dele para vos santificar com grande desprazer do mesmo inimigo.

Aplacai a Deus com lágrimas e penitência, e pedi-lhe que vos dê por misericórdia os auxílios, que por justiça vos não deve.

Máxima Espiritual

“A verdadeira devoção longe de deslustrar qualquer estado e ocupação, antes o adorna e aformoseia” – (São Francisco de Sales)

Jaculatória

Mater amabilis, Mater admirabilis, ora pro nobis

Mãe amável, Mãe admirável, rogai por nós.

Agora se faz as Encomendações e outras Orações


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(SILVA, Pe. Martinho António Pereira da. Flores a Maria ou Mês de Maio consagrado à Santíssima Virgem Mãe de Deus. Tipografia Lusitana, Braga, 1895, 7.ª ed., p. 109-120)