Capítulo 12: A Visitação da Santíssima Virgem
Maria faz brilhar neste mistério

Fervor admirável

Apenas a bem-aventurada Virgem concebeu o Verbo Eterno, abrasada toda no fogo sagrado que Ele veio trazer à terra, parte apressadamente para o país das montanhas, onde morava sua prima Santa Isabel. Vede com que docilidade e ardor esta Virgem admirável obedece às inspirações da graça, às impressões do divino amor que transporta seu coração! A distância dos lugares, a fadiga da jornada, a certeza dos perigos, nada a suspende: as dificuldades não fazem mais do que animar o seu fervor e coragem. Logo que conhece a vontade de Deus, põe-se a caminho; não cuida senão em obedecer à voz d’Aquele que a chama, e em cumprir um dever de caridade para com a mãe do Santo Precursor. Eis aqui a imagem de uma alma fervorosa no serviço de Deus, de uma alma em que habita o Espírito Santo. Dócil às inspirações da graça, serve ao Senhor com santa alegria, caminha com empenho pelas veredas da justiça; enquanto a alma tíbia, não faz mais do que arrastar-se pelo caminho do céu, não se presta ao que é do serviço de Deus, senão com deplorável negligência. Examinemos em que estado nos achamos diante de Deus, e tremamos, se em nós sentirmos os tristes sinais da tibieza. Nada há mais perigoso para a salvação.

Humildade profunda

Maria Santíssima, sendo pela qualidade de Mãe de Deus rainha do universo, tinha direito a exigir o respeito e acatamento, não só de Santa Isabel, mas de todos os homens e dos mesmos anjos; com tudo antecipa-se a sua parenta, saúda-a em primeiro lugar e oferece-lhe os seus serviços com admirável humildade. Parece que Maria só veio a ser superior a todas as mulheres, para se abater abaixo de todas as criaturas. Que diferença entre o seu procedimento e o nosso! Quanto a sua humildade não condena a nossa soberba e melindre em pontos de honra! Ainda que cheia dos mais excelentes dons e elevada ao mais alto grau a que pode chegar uma criatura, ela só tem de si humildes sentimentos, só busca abater-se aos olhos dos homens; e nós, a quem não coube por herança senão a miséria e o pecado, somos cheios de soberba, só buscamos a estimação dos outros, queremos sempre aparecer com vantagem!

Caridade sem limites

Quem poderá exprimir as virtudes que Maria praticou nesta santa casa e os cuidados que tomou de sua cara prima? Imaginemos tudo o que pode inspirar a caridade mais terna, mais perseverante e cuidadosa; assistir a Isabel com zelo, servi-la com empenho, prevenir seus desejos, tal foi a ocupação contínua da Rainha do céu, durante os três meses que esteve com ela. À imitação de Maria, tenhamos para com o próximo uma caridade sincera que se interesse nas necessidades dos outros; caridade universal que a ninguém excetue; caridade eficaz que, não se contentando com palavras, se mostre pelos efeitos; caridade pura e desinteressada que, esquecendo-se de si mesma, não veja no próximo senão a imagem de Deus; enfim caridade constante que nunca se desminta e que persevere até ao fim.

ORAÇÃO

Virgem Santíssima, quando visitastes Santa Isabel, exclamou esta, em vivíssimo transporte de alegria: Que o som da vossa voz lhe fizera saltar de júbilo o filho no ventre. Ó minha terna Mãe, eu espero ouvir no céu essa voz tão doce e maternal: mas enquanto aguardo esta ventura, o meu coração se reanima e exulta de prazer já neste lugar de desterro, quando pronuncio o poderoso e amável nome de Maria. Ó nome de Maria, sede sempre no meu coração e nos meus lábios; sede a minha consolação, a minha força e alegria. Ó Maria, ó nome debaixo de cuja proteção ninguém deve nunca desesperar!

Agora se faz o Ato após a Meditação

EXEMPLO

Maravilhosa conversão

Havia em X… uma família composta de marido, mulher e três filhos, que viviam na maior miséria e, para cúmulo de desgraça, o marido estava tisico.

Uma piedosa Filha de Maria, tendo conhecimento deste infortúnio, profundamente comovida, resolveu pedir algumas esmolas com que pudesse melhorar as precárias circunstâncias destes infelizes. Assim o fez, e passados dias apresentou-se nessa miserável habitação, aonde reinava a doença e a miséria, distribuindo a todos vestidos mais confortáveis, e meios suficientes para convenientemente se alimentar o pobre enfermo, a quem a morte devia brevemente ferir! A bondosa senhora que continuou visitando amiudadas vezes esta pobre gente, vendo que o enfermo, prestes a comparecer na eternidade, continuamente blasfemava da Divina providência, resolveu intentar a sua conversão, com o auxílio de Maria Santíssima.

Ele, porém, suspeitou destas santas intenções, e num dia em que, como de costume, esta caridosa dama o visitava disse-lhe desabridamente:

“Que agradecia as suas esmolas, mas que não tinha pedido coisa alguma e resolvera não aceitar mais nada.

Além disso que, se o motivo das suas visitas era falar-lhe em confissão, perdia o tempo, e então não tivesse mais o incômodo de lhe vir oferecer serviços, que os não aceitaria”

A virtuosa senhora, longe de desanimar, continuou a sua missão, fortificada pela graça da divina Mãe a quem fervorosamente recorria, e oferecendo amiudadas vezes a sagrada comunhão pela conversão deste pobre pecador!

Um dia em que, como de costume, foi ver e socorrer os seus protegidos, encontrou o enfermo muito pior, e vendo que a hora fatal se aproximava, ousou arriscar algumas palavras sobre as supremas consolações que a nossa religião proporciona aos que sofrem. O doente escutou-a atentamente e por fim murmurou com certa timidez:

“Eu não digo que não, mas também não direi que sim!…”

Animada pelo tom com que estas palavras foram ditas, a piedosa Senhora pediu-lhe que a escutasse apenas alguns momentos mais, e continuou a falar-lhe numa linguagem tão simples, mas tão persuasiva, que o pobre homem, comovido com tanta bondade, deixando-se vencer, confessou-lhe que não era casado, que os filhos não tinham sido batizados, e que por isso não era possível o que ela desejava. Com muita benevolência e extrema delicadeza, a digna Filha de Maria conseguiu tirá-lo do erro, dizendo-lhe que ele não era tão mau como se julgava, e que, alem disso, a misericórdia de Deus era infinita para com os pecadores sinceramente arrependidos.

Por fim conseguiu comover esse pobre coração, e prometeu-lhe mandar quanto antes batizar as crianças e celebrar o casamento religioso. Sem perda de tempo, chamou um sacerdote que prodigalizou ao moribundo todos os socorros da religião. Confessou-se, recebeu a Extrema-Unção, e, celebrado o casamento in extremis, as crianças foram batizadas. O moribundo louco de satisfação beijava os novos cristãos e, aceitando alegremente um tercinho que lhe deram, pediu à sua bondosa protetora um crucifixo, levou-o respeitosamente aos lábios, e nunca mais o largou das mãos. No dia seguinte, um sábado, expirou tranquilamente, da maneira mais edificante!

Glória à Santíssima Virgem, glória a Nossa Senhora das Vitórias que acolhe sempre benigna a prece que lhe dirigem a favor dos pobres pecadores.

Que belo e edificante exemplo para despertar o zelo de tantas filhas de Maria, que só tratam de si, podendo aliás proporcionar tanto bem a muitas famílias infelizes que carecem das consolações cristãs, e conquistarem tantas almas para Deus e para o céu!

OUTRO EXEMPLO

Um servo de Maria prefere a morte a um pecado venial

Um santo religioso Carmelita chamado Padre Firmino distinguiu-se desde os primeiros anos por sua grande piedade e principalmente por uma terna devoção para com a Rainha dos Anjos.

Natural de Amiens e filho de pais virtuosos, mas pouco favorecidos da fortuna, desde a mais tenra infância que a oração fazia as suas delícias e quereria consagrar-lhe todo o tempo, se a necessidade de prover à sua substância e da família, não obstasse à realização de tão santos desejos.

Firmino escolhera para lugar das suas devoções particulares a igreja dos carmelitas, e estes religiosos, observando com admiração durante muitos anos a sua conduta exemplar e fervor edificante, desejaram enriquecer a sua ordem com um tesouro tão precioso, facilitando-lhe a entrada no convento e proporcionando-lhe meios para seguir os estudos, nos quais fez rápidos progressos, sem contudo afrouxar no fervor, antes aumentando cada vez mais a sua confiança e amor para com a Santíssima Virgem, que na ordem do Carmo é venerada com um culto especial. Entretanto principiaram os furores e escândalos da revolução, abrindo a impiedade de par em par as portas da clausura. Alguns apóstatas, consideraram-se felizes por esta liberdade, mas o Padre Firmino, só com a mais viva dor e saudade se arrancou a esse asilo de paz, sendo o último a despir o habito da sua ordem. Saindo do convento foi Amiens o primeiro teatro dos seus trabalhos apostólicos; mas, como o exercício do seu ministério se tornava dia a dia mais difícil, principiou percorrendo as aldeias, consagrando as noites às sublimes e santas funções do apostolado. Por toda a parte onde o digno sacerdote se demorava, piedosa multidão de fiéis o seguia, aos quais consolava confessando-os, e fortificava distribuindo-lhes o Pão da vida, seguindo depois a continuar infatigavelmente as mesmas obras de zelo e caridade.

Havia perto dum ano que o Padre Firmino levava esta vida, tão digna dum apóstolo de Jesus Cristo, quando foi preso a pouca distância de Amiens e conduzido à cadeia desta cidade. Ali foi encontrar alguns sacerdotes, como ele confessores da fé, aos quais disse abraçando-os:

“Irmãos queridos, até agora temos imolado a Sagrada Vítima sobre o altar; agora coube-nos a vez de sermos também imolados! Bendito seja Deus que nos concede a graça de morrermos confessando a nossa fé!”

Pouco depois comparecia ante os juízes que não sendo desses homens sanguinários de que a França se achava repleta, quiseram salvá-lo, mas não se atreveram a propôr-lhe o juramento exigido pela lei, porque estavam certos da sua resposta negativa. Então o presidente disse-lhe em segredo que declarasse ignorar os decretos publicados contra os padres conjurados, porque a sua vida errante pelas aldeias lhe não permitira ter conhecimento deles.

Tratando-se de um assunto tão importante como a salvação da própria vida, o Padre Firmino podia evitar o suplício a que ia ser condenado, usando do subterfúgio que lhe apresentavam, mas nem mesmo a custo de uma ligeira mentira quis conservar a vida, respondendo sem hesitar que podia morrer, mas nunca trair a verdade.

Em vista disto, foi pronunciada a sentença que o condenou à morte, e o fiel servo de Deus, foi receber no céu a recompensa que a sua fé merecia.

LIÇÃO
Sobre as Visitas Cristãs

As pessoas virtuosas, nas mesmas visitas que fazem e que o mundo avalia como obrigações sociais, praticam atos de virtude.

A piedade não se opõe ao cumprimento dos deveres da vida civil, mas faz com que os santifiquemos, cumprindo-os com intenção cristã.

Como trabalha por aproveitar todos os momentos, evita, quanto possível, o trato escusado, as visitas de mera recreação.

As pessoas virtuosas folgam com as visitas em que acham com que se edificar a si e edificar os outros.

Os santos encaminham à glória de Deus, à edificação do próximo e à sua própria perfeição as ações, que parecem mais indiferentes.

Se, imitando o seu exemplo, as visitas se fizessem reciprocamente com o mesmo espírito, quantos frutos se acolheriam deste comércio civil, que constitui uma parte das obrigações da sociedade?

As pessoas do século gozariam mil consolações, que não desfrutam, e mutuamente se alentariam à virtude.

Sairiam delas não com aquele vazio que as impertinentes visitas do mundo deixam no coração, mas com o santo contentamento, que é próprio das pessoas virtuosas.

Almas cristãs, tende sempre diante dos olhos o exemplo de Maria Santíssima na sua Visitação; procurai dar glória a Deus e bom exemplo ao próximo; fazei com que vos seja proveitoso o comércio que por obrigação conservais com os homens.

Máxima Espiritual

“As ações mais ordinárias, quando se fazem por agradar a Deus, tornam-se atos de amor divino” – Santo Afonso Maria de Ligório

Jaculatória

Virgo potens, ora pro nobis

Virgem poderosa, rogai por nós

Agora se faz as Encomendações e outras Orações


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(SILVA, Pe. Martinho António Pereira da. Flores a Maria ou Mês de Maio consagrado à Santíssima Virgem Mãe de Deus. Tipografia Lusitana, Braga, 1895, 7.ª ed., p. 154-163)