Apêndice. O Santo temor de Deus que deve procurar a alma devota - Bálsamo Espiritual
«Suplico-vos, cara filha, para honra de Deus não O temais, pois nenhum mal vos quer fazer, amai-O bastante para que vos queira fazer muito bem», falava assim São Francisco de Sales a uma alma devota (em suas cartas espirituais). Palavras que se não fossem ditas por um Santo, poderiam escandalizar muito, principalmente aos devotos. Eles diriam: este Santo desaprova pois o temor de Deus, que é o princípio da sapiência, e dom do Espírito Santo? Pode ser Santo quem exorta e pede a uma alma devota que não tema a Deus? Todavia são palavras dignas de um Santo e tão célebre na ciência espiritual como é São Francisco de Sales, permita, pois que vo-las repita. Não penseis que ele desaprova o temor de Deus, que é o princípio da sabedoria, e dom do Espírito Santo, e sim o temor que nasce da desconfiança, produz inquietação, e em vez de honrar a Deus, O desonra, eis o que quero expulsar da vossa consciência, não vos faria bem nenhum, e poderia fazer-vos muito mal.

O temor de Deus é o fundamento e base da perfeição cristã por isso é essencial até ás almas mais devotas e santas, e justamente são condenados os falsos místicos que ensinam que o temor de Deus se opõem á perfeição da caridade, isto é, ao amor de Deus, por isso desejo que sempre vos acompanhe para vos livrar do pecado, mas convém ter dele justa ideia para vos ajudar a obter a perfeição, de outro modo sereis pusilânime, desconfiada, medrosa, privada da paz do coração, refleti como deve ser o temor reto.

I
O temor de Deus deve ser tranquilo

Distingue-se em servil e filial, temos o temor servil quando tememos ofender a Deus pelo castigo com que pune o pecado; receias fazer ou ter feito qualquer pecado mortal, por que está exposto a cair no inferno, perder o Céu, eis o temor servil que embora não seja perfeito, nem um dos sete dons do Espírito Santo, é bom e saudável, como define o Concilio de Trento, é um impulso do divino Espírito. Temos o temor filial, quando receamos ofender a Deus, pelo desgosto que ele causa, temendo ofender a suprema Bondade que merece infinito amor, este temor é verdadeiramente perfeito, e um dos sete dons do Espírito Santo (Santo Tomás). Ou seja, servil ou filial, o temor de Deus emana do Espírito do Senhor, mas é paz, ordem, tranquilidade, não pode ser espírito de desordem, confusão, desalento, quando vedes que o susto da morte, do juízo divino e do inferno vos agita e confunde e vos priva da paz, deveis julgar que não é temor bom, inspirado por Deus; esta regra é aprovada por todos os mestres de espírito, especialmente por Santo Inácio de Loyola e São Francisco de Sales.

II
Quando o temor não é tranquilo impede o bem, e pode fazer muito mal

Refleti atentamente como fica vosso espírito quando esta agitada de alguns terrores desordenados, não é certo que então vossa meditação é árida e distraída e não sentis consolação sólida, e não recebeis a energia de resolução e de propósitos bons que alcançais quando tendes o espírito sereno? Não sente que vos falta a confiança de alcançardes as graças que pedis? E tanto mais vos falta se as graças são grandes e importantes? Que miséria lamentável é a vossa recebendo os Sacramentos! Tendes contínuo susto de não vos terdes preparado bem nem estardes bem disposta, por isso divagais em pensamentos inúteis e exames, que abatem vosso espírito, e o privam da consolação e fortaleza que acompanham o fervor de uma contrição sossegada e pacífica, até recebendo o augusto Sacramento, o cruel pensamento de estardes manchada com pecados mortais ocultos, vos angustia, e julgais desagradar ao Senhor que acolheis em vosso coração; este estado vos impede a devoção e esfria os afetos santos, não é verdade? Não é possível que vos desvieis da vida devota, não achando nesta senão inquietação e amargura, e vos esqueçais da oração e vos afasteis dos Sacramentos, como tantas pessoas já têm feito depois de se deixarem dominar pelo temor demasiado e tormentosa inquietação? Fugi de tal perigo permanecendo com o coração tranquilo.

III
Meios para conservar a tranquilidade do coração

Se pertenceis ao número das almas que demasiadamente se amedrontam encarando a Deus sob o aspecto de Sua infinita justiça, antes do que pelo de Sua imensa bondade. Falando em geral convêm considerar o Senhor sob os dois aspectos; quer ser temido e amado, por isso devemos meditar a severidade de Suas sentenças e a amabilidade de Sua misericórdia. No amor de Deus não podemos ter demasia, não se Lhe pode designar medida, como disse São Bernardo: Modus deligendi Deum est diligere sine modo, porém no temor de Deus pode haver excesso e ultrapassarmos a moderação que requer o temor filial e esperançoso; por isso quando uma alma já teme bastante a Deus, mas este temor a priva da paz do coração e serenidade do espírito, não deve esforçar-se por aumentá-lo com meditações sobre a justiça divina, seus castigos, antes convém empenhar-se em moderá-lo, e aumentar a confiança que inspira o amor divino, considerando a bondade de Deus, e Sua misericórdia. Sejam, pois, assuntos da vossa oração mental, a Paixão, o Santíssimo Sacramento, a misericórdia divina, o Céu, e os benefícios já recebidos de Deus e pensamentos semelhantes que enchem o coração de confiança e amor; pelo contrário, as meditações do inferno, do juízo final, e outras que se lhe assemelhem, reservem-as para o tempo em que houverdes readquirido a tranquilidade do coração, e não busqueis sermões sobre tais assuntos, nem livros que destes tratem.

Dirá talvez, o Espírito Santo nos exorta a considerar os novíssimos, em que entram o Juízo e o inferno, e eu hei de abster-me destas considerações? Respondo que vos deveis abster, pois o Espírito Santo fazendo tal exortação em geral a todos os cristãos tem, todavia exceções, e vós sois uma pela vossa fraqueza espiritual que vos impele a temor, e susto demasiado destas verdades. Porém o Espírito Santo em vários lugares da Escritura ensina que o vinho aviva e fortalece, verdade esta de que não se pode duvidar, é regra geral: se o derdes à maior parte dos doentes em vez de fortificá-los lhes será danoso, eis a exceção particular. Talvez acheis minha doutrina esquisita? Lede o colóquio VII n. 4 do Tratado dos Espinhos de São João da Cruz e achareis que este exímio mestre espiritual não hesita em ensinar que algumas almas não são chamadas por Deus para a meditação dos novíssimos, debalde quebram a cabeça se as guiam pelo temor, que só podem marchar por meio do amor, querendo-o assim a vontade divina. Lede também São Francisco de Sales.

“Não vos ocupeis a ver livros na parte em que falam da morte, do juízo, do inferno, pois pela graça de Deus, tendo firmemente decidido viverdes cristãmente, não precisais ser ensinada por meio do terror”

Vedes que não me afasto da doutrina dos Santos: ouçamos também algumas razões teológicas. Não basta o amor de Deus para fazer santos? Sem dúvida basta, e sem este nada serve para nos santificar, este amor separado de outras coisas, supre-as. Digo eu, que a consideração da vida, Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, e dos imensos e inumeráveis benefícios que nos tem feito, da glória que nos destina, não chegará para abrasar-nos no mais perfeito amor a Deus? E tendo-o, o que nos faltará para sermos santos? Não desejo que alguém ache pouco própria à meditação dos benefícios divinos para infundir no coração grande amor a Deus, pensando que assim podem nascer sentimentos do amor que a teologia chama de concupiscência ou de esperança, considerando quanto Deus é benfazejo para as criaturas, melhor se conhece quanto é bom em si; então ao amor de esperança com que amamos a Deus como bom para nós, se une o perfeito amor chamado amizade, com que amamos ao Senhor como infinitamente bom em si mesmo, que constitui a caridade perfeita. Isto é doutrina de Santo Tomás. Santo Inácio no livro de seus Exercícios, na consideração que apresenta para excitar nas almas o perfeito amor de Deus, serve-se da lembrança dos benefícios divinos como do meio mais eficaz de acender em nossos corações profunda caridade.

Por isso será bom deter-vos nesta consideração de preferência a todas. Esta encerra a ideia da criação, conservação vocação á fé, da Paixão e Morte do nosso Salvador, da instituição dos Sacramentos etc., etc., recordação em si mesma própria para despertar o reconhecimento, a esperança, a consolação, a mais perfeita caridade.

Dirá talvez que o temor de Deus é princípio da sapiência, isto é da perfeição, concordo, e não contestarei a doutrina divina. Porém vos não tendes o temor de Deus até um pouco exagerado, que vos causa inquietações? Se já o tendes, não é preciso que procureis o que possuis; pensareis que o podereis perder deixando de ocupar-vos dos pensamentos que o conservam. Sossegai, enquanto tiverdes o amor divino não vos faltará o temor reto, pois quem ama a Deus, necessariamente teme ofendê-lO, também teme o inferno, completa separação de Deus, em que há a maior das misérias, que consiste em odiar a Deus. Refleti nesta verdade, seu temor pode existir sem seu amor, como sucede aos que se arrependem das culpas só com atrição, mas o amor de Deus não pode estar separado de seu temor. Não vos ensino com certeza que deveis para sempre esquecer as verdades da fé que servem para excitar no coração o temor de Deus. Somente digo, em vista da vossa enfermidade espiritual, que agora vos assusta excessivamente e faz perder a paz, que vos convêm à abstenção destes pensamentos assustadores até vos radicardes na confiança no Senhor, para só O temer tranquilamente, como quer ser temido pelos filhos tão bom Pai.

IV
Não se deve perder a paz do coração, pelos defeitos e até pecados que se cometem.

Poderia dar muitas razões para vos convencer que não é virtude confundir-se e atarantar-se quando se cometeu qualquer pecado ou defeito, pois isto é resultado de secreta soberba, como pensam todos os mestres espirituais, mas somente vos pergunto se lestes, ou ouvistes dizer que a confusão, o ataranto, ou pavor, apagam os pecados da alma? Ouvistes ou lestes semelhante coisa? Certamente não; os erros se perdoam por meio da nossa dor e arrependimento. Segue-se que se resvala em alguma falta, ainda que seja mui grave (de que Deus vos livre, e vos há de livrar, se desejais amá-lO sempre) humilhai-vos, arrependei-vos com paz e sossego, pois é o verdadeiro modo de obter misericórdia, e de assegurar a emenda.

Que compaixão inspiram as almas que pela menor coisa se alteram, se confundem! Basta terem resvalado em uma imperfeição para correrem ao Confessor espavoridas e trêmulas, sem este achar meio de pacificá-las! Que bem se pode esperar de tal pavor?

V
Não se deve perder a tranquilidade pela incerteza de se estar na graça de Deus

Apesar de já termos nos antecedentes capítulos mostrado que podemos ter verdadeira certeza de estarmos na graça de Deus, quando não nos lembramos de ter feito culpa mortal, ou tendo-as cometido, fizemos o que nos foi possível para obter o perdão, não obstante ser este ponto pouco ou nada elucidado em muitos livros espirituais é de suma importância para a paz da alma, e de muitas compreendido sinistramente; acho necessário tratar de novo desta matéria, expondo a doutrina certa e segura que a regula.

Como se pode ler nas obras do Cardeal Belarmino, que trata extensamente desta controvérsia contra os hereges, o Concílio de Trento definiu que não podemos ter certeza infalível de fé, de estarmos na graça de Deus, isto é, certíssimo, visto a autoridade infalível do Concílio, é também evidente conforme a teologia, pois nenhuma verdade é artigo de fé não sendo revelada, e Deus não revelou à Igreja Católica o estado particular das almas, isto é, se esta ou aquela está ou não em estado de graça. Por outro lado dizendo que não podemos ter certeza de fé de estarmos na graça de Deus, não significa que estejamos incertos, duvidando sempre se somos ou não amigos de Deus. Nós, Genoveses, sabemos com certeza que há Gênova, mas temos disto a infalível certeza da fé? Não, pois Deus não revelou a existência da cidade de Gênova, sabemo-la com certeza física, pois a vemos e habitamos dentro de seus muros.

Acreditamos também que existe Londres, Paris, Nápoles, Milão, etc. Sabemos que existem sem as ter visto, por uma certeza moral e humana, pois tanta gente nos tem afirmado que tais cidades existem. Um amigo está certo que é amado pelo seu amigo, sua certeza não é conjectural, pois tem muitas provas e seguranças do afeto daquele amigo. Ainda que estejamos certos de muitas coisas, não as podemos crer com a fé divina e infalível, com que acreditamos as verdades que Deus revelou; de modo igual com a certeza de fé humana, moral, conjectural, podemos estar certos de vivermos na graça de Deus. São estes os termos exatos que emprega o Cardeal Belarmino: certitudo conjecturalis, certitudo humana et moralis, non fidei.

Por isso podemos ter verdadeira certeza de estarmos na graça de Deus, porque a humana, moral e conjectural é certeza exata. Quando lermos que o homem não está certo de possuir a graça de Deus, havemos de entender que se fala na certeza da fé infalível que é só a revelada, entretanto, humanamente falando, podemos sempre estar seguros que somos amigos de Deus, porque não sabemos haver feito culpa mortal, ou se á fizemos logo nos arrependemos. Alma devota, penso que entrais no número das que não sabem que ofenderam gravemente o Senhor, e que tendes já detestado vossos pecados graves. Podeis, pois, estar certa de gozar da amizade divina e evitar a incerteza que vos pri-varia da paz do coração.

VI
Não se deve perder a paz espiritual pela possibilidade de se ter algum pecado mortal oculto

Talvez me apresente à objeção que podeis ter algum pecado mortal oculto, e estardes fora da graça de Deus sem o saber. Respondo que este temor dos pecados mortais ocultos para as almas que desejam, e procuram amar a Deus, é vão espantalho. Certamente aquelas que vivem separadas de Deus, ignorando o estado da própria consciência, esquecidas da eternidade, facilmente fazem pecados ocultos mesmo mortais.

Porém as almas pias fazem às vezes pecados veniais, e devem dizer como Davi: ab occultis meis munda me Domine. As primeiras fazem pecados ocultos, mesmo mortais, porque desdenham a oração, a palavra de Deus, transgridam gravemente os deveres de seu estado, por culpa da cegueira e ignorância; as segundas almas tenham pecados veniais ocultos, e por fraqueza humana e deficiência, cometem bastantes faltas, mas não de todo deliberadas, de quem diz a Escritura: septies enim cadet justus. Mas as almas que desejam amar a Deus, oram, frequentam os Sacramentos e a palavra divina, é possível que tenham pecados mortais ocultos? Raciocinemos teologicamente: o pecado não pode ser mortal não sendo plenamente advertido em si ou na sua causa, que pode ser ignorância mui culpada, e desta forma também deliberada. Sendo assim não pode ser oculto; como é possível se eu como carne em sexta-feira, sabendo que faço uma coisa proibida, não saber que peco? É possível que não conheça a minha culpa? Podem havê-las mortais procedidas de ignorância mui culpada que tem os que transgridam os preceitos da Lei de Deus ou da Igreja, porque não os quiseram aprender, mas não a tendes, pois frequentais as prédicas e o catecismo, por isso conheceis vossos deveres. Se por acaso ficastes ignorante em algum ponto, ou o transgredistes, para vós seria inocente tal ignorância, por não ser voluntária, e esta falta não constituiria culpa mortal. Arredai da mente o fantasma do pecado mortal oculto. São Francisco de Sales, Santa Teresa, Santo Afonso Maria de Ligório e todos os bons mestres de espírito, ensinam que o pecado mortal é monstro horrível que não pode entrar em uma alma que teme a Deus sem claramente o perceber.

Quero, porém, supor que tendes algum pecado mortal oculto, que não conheceis, e por isso não vos arrependeis nem confessais dele. Por quanto tempo vos há de oprimir? Respondeis que sempre; se não o conhecer, e me arrepender e confessar. Dizeis seriamente tal despropósito? Raciocinemos de novo com a teologia na mão. É doutrina da Igreja que a caridade perfeita não pode permanecer com o pecado mortal, a ideia oposta é condenada entre as blasfêmias de Bajo; como ensinam todos os teólogos católicos que um ato de amor de Deus, que se faz quando se ama o Senhor sobre todas as coisas, porque é o Bem supremo, perdoa qualquer pecado mortal, ainda que fosse reservado ao Papa; perdoa-o, porque um ato de puro amor de Deus encerra a contrição do pecado, e também o desejo do Sacramento da Confissão. Portanto, se tendes pecado mortal oculto, tão grande que só o Papa o pudesse absolver, sossegai, pois fazendo um ato de amor de Deus, rezando do íntimo do coração o ato de caridade, será ainda melhor o de contrição, todos vos serão perdoados, e imediatamente recuperais a graça de Deus (está claro que ficais com a obrigação de confessar os pecados que pelo tempo adiante conhecerdes); ainda que tenhais um pecado mortal, não vos julgueis inimiga de Deus até o tempo em que o conhecerdes, arrependerdes expressamente dele e o confessardes, mas somente o sereis até que na oração façais o ato de caridade ou de contrição devotamente. Se não fizerdes atos de caridade e contrição, pelo menos sereis perdoada na primeira confissão, pois ensina a sã teologia, que nesta não só se perdoam os pecados que se confessam, embora então a dor seja universal, por exemplo, por ter merecido o inferno, mas também todos os outros que não se conhecem, e que se omitem por ignorância e não por malícia.

Vedes que não tem importância a apreensão acerca dos pecados mortais ocultos, com que o demônio vos amedronta para vos roubar a paz da alma.

VII
Não se deve perder a paz pelo temor de não estarmos bem arrependidos das culpas, da vida passada

Parece-me que ainda não estais satisfeita nem disposta a tranquilizar-vos, e me direis: receio muito não me ter arrependido bem dos pecados da minha vida passada, por isso não tenho segurança que Deus os tenha perdoado. Que motivo tende para duvidar que não vos arrependesse bem? Se refletirdes sobre vós, vereis que tendes razão para julgar que vosso arrependimento foi verdadeiro e sincero. Não é verdade que se no passado fizestes culpas mortais, vos emendastes e não reincidis nelas? Vossa vida atual não é diversa da de então? Fizestes nesse tempo estas faltas mortais para não sofrer a mortificação das vossas paixões, e agora não as quereis repetir ainda que tivésseis que sofrer a morte? Isto significa que tendes toda a segurança que o Senhor vos deu a graça do verdadeiro arrependimento, e que vossa vontade, de antes aferrada ao pecado, agora lhe é estranha. Sem a graça da verdadeira contrição, e mudança da vossa vontade, como vos poderíeis ter emendado deles? Como é possível que atualmente esteja decidida a sofrer qualquer mal, antes do que ofender a Deus? Semelhante apreensão também é vã. Arrependei-vos sempre das culpas da vida passada, pois assim fica mais segura de não recair, mas permanecei tranquilas, pensando que as manchas antigas estão perdoadas, e vossa alma completamente se purificou no sangue do Redentor.

Ah! A vida deste mundo é bem infeliz. Os que vivem em pecado mortal meses e anos sem pensarem em reconciliar-se com Deus, nada temem, pelo contrário, os que O amam sinceramente, e por isso deveriam estar tranquilos, muitas vezes se deixam dominar por aflitiva ansiedade! Inspiram bastante compaixão algumas almas bem dispostas que sacrificariam tudo antes do que cometer um pecado mortal, e mesmo venial com plena advertência, todavia vivem angustiadas, e quase não tem um momento de paz pelo susto de haver incorrido no desagrado de Deus.

Como é possível terdes em casa corvos e gaviões, se está atenta a afugentar as moscas?

Se não sabeis com certeza haver feito pecados mortais de que ainda não vos arrependestes repeli este escrúpulo, desprezai-o para sempre como suscitado polo demônio que busca agitar vosso coração. Digo pecados mortais certos, pois os duvidosos, para vós que temeis o Senhor, são apenas escrúpulos, como mais de uma vez vos disse vosso Diretor, a quem deveis obedecer e confiar nele como já vos disse no último capítulo.

Desculpa alguma prolixidade, não posso deixar de tê-la tratando do ponto importantíssimo de persuadir às almas escrupulosas que devem viver tranquilamente, seguras de terem a amizade de Deus, e absterem-se das dúvidas malignas e inquietadoras de estarem de qualquer forma manchadas por culpas mortais. Tais escrúpulos impedem os voos da caridade, entibiam na prática das boas obras, enfraquecem o desejo do Céu, e se aferram à vida presente. Com efeito, é possível que meu coração voe para Deus com vivos e ardentes afetos de amor, intimamente ferido pelos escrúpulos que me diriam: tu te desvelas com empenho em tais atos de amor, mas talvez sejam falsos; em vez de reinar a caridade no teu coração, talvez estejas em pecado mortal? Não sentirás assim férrea mão oprimir-te o coração, e não sucumbirá à consternação? Ocupando-te em obras religiosas, de zelo, caridade, quanto serás tíbia e desanimada com a reflexão de que tua alma, privada da graça santificante, todas as tuas boas obras nada vale perante Deus, e não te alcançaram méritos para entrar no Céu? Poderás desejar o fim desta vida de misérias e pecados pelo anelo da Bem-aventurança eterna? Ah! Dirás nesta situação apesar de não saber que fiz graves culpas que me privem de salvação, talvez eu esteja manchada com estas, e morrendo, julgando ir unir-me a Deus meu único Bem, cairei nas mãos de Satanás, meu eterno inimigo! É melhor viver do que morrendo expor-me a tão enorme perigo! Alma timorata odeia a culpa acima de todos os males, merece ódio eterno, infinito; mas não queiras com inquietadora incerteza sufocar a voz que emana do Espírito do Senhor que pela sua misericórdia habita em teu coração, e te assegura que és filha de Deus: Ipse Spiritus testimonium redditur Spiritui nostro quod sumus filii (São Paulo). Pela firme confiança que infunde esta voz verás que íntimo gozo, o do Senhor, constitui tua verdadeira fortaleza. Alguns querem manter as almas em perpétua ansiedade, é na mais opressora incerteza com o pretexto de conservá-las humildes, achamos tais mestres ignorantes e enganados, pois não sabem distinguir o que encaminha para a verdadeira humildade ou para a desconfiança e às vezes desesperação. De ora em diante alenta-te com a segura esperança de possuirdes a amizade divina repelindo as sugestões contrarias.

VIII
Não se deve perder a paz com receio de consentir em maus pensamentos

As almas escrupulosas tem tal aborrecimento ao pecado, que quando são tentadas, só a possibilidade de cometê-lo as submerge às vezes em tão viva agitação, e receio de terem caído nele, que muito se assustam, e se não tem provas palpáveis de terem resistido à tentação, não tem paz. Por um lado, são felizes estas almas que tem semelhante ternura de amor por Deus! Se apenas a possibilidade do pecado as faz tremer, estão livres de reincidir nele. Sob outro aspecto, seu temor é desarrazoado, e não agrada a Deus, e pode de vários modos atrasar seu aperfeiçoamento espiritual. Querendo estas almas escrupulosas provas evidentes de não terem consentido nas tentações, facilmente sossegam acerca dos pecados externos, pois não terem feito à obra má, que pediam fazer, lhes assegura sua resistência ao tentador; mas sobre pecados internos, sem terem provas iguais, submergem-se em irremediáveis angústias. A alma espavorida pela tentação dos maus pensamentos, apenas os percebe, começa a temer que não o combate como deva, logo pensa que consentiu neles, e labora na cruel dúvida se fez culpa mortal perdida assim a graça de Deus. Ela principia então a discutir com a consciência com sutis indagações, ora lhe parece que opôs resistência, ora sente a cruel dúvida de haver consentido; quanto mais tempo duram as pesquisas mais ela se embaraça, e a pobrezinha não tem paz. Entretanto se aprofundam na imaginação a espécie e a impressão da tentação, que facilmente se reproduz, com novas dúvidas e angústias; e vê-se a alma mais tentada, e se supõem culpada, mais propensa ao pecado, e julga impossível que sendo atacada de tantas tentações, a algumas não tenha sucumbido. Nem a autoridade do Confessor a persuade que não pecou. Se ele lhe ordena que se tranquilize, e lhe assegura que não vê culpa, pensa que não a entendeu bem, aumenta a penosa agitação.

Alma devota que ledes este livrinho sereis uma destas? Se o sois, sossegai um momento e ouvi-me. Pensais que sucumbis frequentemente em pecados de pensamento, ora contra a fé, centra a caridade do próximo, e talvez que mais vezes contra a castidade. Ai de vós se pecasse habitualmente contra esta preciosa virtude! Dizei-me se cais com frequência em culpas externas por palavras e obras contra esta virtude? Falais heresias? Caluniais o próximo? Fazeis atos desonestos. Responder-me-eis que pela graça de Deus não costumais cair em tais culpas externas; eu o acredito, pois se assim fosse não temereis tanto a ofensa divina. Pois bem, se pela graça de Deus não cais nestes pecados externos, deveis viver certa de não fazer também os internos que vos causam tanta apreensão. Se bastar o temor de Deus para refrear vossas paixões, de modo que não se satisfazem por obras, mais as refreareis para que não consintam em maus pensamentos. Será uma criatura excêntrica e maliciosa a ponto de pecardes sempre mentalmente, mas não também com as obras? É possível que uma pessoa pudesse comer carne nas sextas-feiras e sábados não a comesse, e, todavia continuamente se comprazer no desejo, e imaginação de comer nestes dias, em que é proibida?

Nossa malícia experimenta mais gosto no ato do que na imaginação! Abstendes-vos das obras más em que vossas paixões teriam seu alimento?

Este raciocínio é decisivo, mostra que não consentis nos maus pensamentos. Mas vosso excessivo temor produz tal confusão de idéias que não vos deixa discernir a tentação do consentimento, embora de uma ao outro exista a diferença que há entre ver-se um veneno em redoma, e tragá-lo. Entre estas coisas achais diferença? A mesma existe entre a tentação e o consentimento. A tentação em si nunca prejudicou nenhuma alma, assim como o veneno encerrado na redoma não prejudica nenhum corpo. Para se pecar é preciso dar consentimento à tentação, e para mortalmente pecar há de haver pleno consentimento deliberado em coisa que seja gravemente proibida pela Lei de Deus. Fica certa disto e sossega, se vos abstendes da obra má, com certeza não consentis nos pensamentos culpados ainda que vos nasçam na cabeça aos centos as dúvidas.

Direis que mais facilmente se peca com o pensamento e se gasta menos tempo do que praticando a obra má, e mais frequente são os pecados internos do que os externos. Quanto tempo gastareis a dizer que Deus não existe? Quanto tempo é preciso para se fazer um ato indigno? Mas vós não fazeis tais coisas. Se a vontade é tão perversa que renuncia às graças de Deus, e o agrava gravemente com deliberação, não se decidirá igualmente fazer um pecado de alguma duração assim como faz o que dura um momento? Um pecado momentâneo pouco satisfaz nossa malícia, o que dura, mais prolonga o gosto e o aumenta. Com efeito, vê-se que as pessoas escravizadas à iniquidade, fazem pecados de obra que dura algum espaço, mas quando consentem nos maus pensamentos de complacência ou desejo em vez de se ocuparem momentos como vos sucede, neles se detém horas inteiras até que sua imaginação se canse. Também a maior parte dos pecados internos, que vos afligem, é de complacência, portanto, não se deleitando a alma em tais pensamentos maliciosos não pode haver pecado, e vós razoavelmente podeis temer a complacência neles, que vos enojam, tanto temeis e aborreceis? Não vedes que há contradição no aprazimento e aborrecimento de um só objeto? Um amante de vinho, um bêbado, não o pode aborrecer, e se começa a enjoá-lo deixará de estimá-lo, já não será bêbado.

Acabemos, quando o vosso Diretor vos afirma que não deveis temer vossos pensamentos maus, que embora sejam muitos, não perdeis a graça de Deus, acreditai-o por caridade para convosco, e também para Deus.

Pelas chagas do Salvador vos peço isto, conhecendo a aflição que vos causam vossos sustos, e o impedimento que são para o vosso aperfeiçoamento espiritual.

Sabeis quando deveis escrupulizar, e acusar-vos de maus pensamentos? (Quando o Confessor vos ordenou de não vos deter neles). Quando tiverdes certeza de ter consentido no mal com plena deliberação, e poderdes afirmá-lo com juramento feito sobre o Evangelho e a Cruz de Cristo, se não estais certa de poder fazer este juramento, não deveis fazer caso de tais pensamentos; isto vos diz com mil teólogos Santo Afonso Maria de Ligório. Dizei-me se podeis decididamente jurar sobre o Evangelho e a Cruz de Cristo, terdes dado completo consentimento aos pensamentos que sempre vos inquietam, e vos roubam a paz? Vede se ousais jurar assim.

Mas se eu não tivesse explicado bem, e se o Confessor me não compreendesse…

Se ele vos não entendesse bem, (refleti que tal receio é estultícia, pois Deus prometeu iluminar os Confessores para que compreendam exatamente os penitentes), ainda que vos explicásseis mal (porque não usastes expressa impostura para enganar o Confessor), seja qual for à maneira porque vos expressastes, disse Santo Afonso de Ligório com os outros teólogos, que deveis obedecer calar e tranquilizar-vos, se não estais certa de poder fazer o juramento já mencionado.

Quereis saber mais do que mil teólogos, e do que a Igreja decidiu?

Santo Afonso de Ligório apoiado nas razões e autoridade dos outros teólogos, considerando que o vosso susto de consentir nos maus pensamentos os multiplica e prolonga, este grande Santo vos avisa que nem sois sequer obrigada a repelir positivamente estes maus pensamentos, e podeis deixá-los ir e vir como quiserem. Tende somente a cautela de não terdes voluntário comprazimento.

Podeis proceder assim sossegadamente apesar de tais pensamentos malignos vos ocasionarem misérias que vos atormentem e envergonhem. Humilhai-vos então, mas não as analiseis; se vos afligem, é sinal que não vos agradam, o que basta para certificar-vos que não pecastes.

De todo o modo vos deveis tranquilizar e crer que estais em graça, e gozais da amizade de Deus, e por isso conservar a paz da alma.

Mas o temor contínuo de ofender a Deus me faz recear o mal em tudo que penso e faço; dominada por tal susto, não tenho luz na consciência de proceder bem, e desta forma não pecarei? Eis uma das mais finas astúcias, com que o demônio agita as almas; a esta dificuldade responde de Santo Afonso Maria de Ligório, e avisa-vos que sois obrigada a desprezar este temor, e não deveis almejar pela certeza de praticar a virtude, mas haveis de pensar e proceder como se não tivésseis tal receio, pois convém desdenhá-lo, e não o confessar. Principalmente não penseis que vos haveis de tranquilizar à força de raciocínios, conseguireis paz por meio da obediência. Nenhum obediente se condenou, dizem os Santos, e não sereis a primeira.

IX
Nem o perigo contínuo de poder cair em pecado mortal deve fazer-nos perder a paz da alma

Um grande temor que frequentemente aflige algumas almas devotas é poderem de um momento para o outro cair em culpa mortal, assaltadas por violentas tentações; e pensam que talvez possuam agora a graça de Deus, daqui a um momento a podem perder, como sucedeu até a grandes Santos; e podem de repente despenhar-se no inferno, que merecem fazendo um pecado mortal; e quanto é fácil sucumbir a esta desgraça, tão tentadas como somos! Esta ideia não deve privar-te da paz, alma devota. Pensais que se sucumba ao pecado mortal e logo se vá para o inferno rapidamente, como às vezes o viajante que caminha às escuras cai nas covas que há na estrada? Para cometer pecado mortal é necessário primeiro ter-se a perversa vontade de fazê-lo; até agora a não tendes, e visto que não a tendes não podeis pecar mortalmente.

Respondereis que de um momento para o outro podeis ter esta pecaminosa vontade, e pecar. É verdade, porém se não se pode duvidar que um só momento bastasse para que uma alma, mesmo temente a Deus consinta na tentação, e peque mortalmente, por isso haveis de tremer continuamente considerando este perigo?

Não é também certo que podeis em um instante perder o amor que tendes a vosso pai, e mudá-lo em ódio? E suceder o mesmo acerca do afeto que tendes a vossa irmã? Mas serem possíveis estas coisas não se segue que se realizem, e ninguém que ama uma pessoa jamais se queixa da possibilidade desta mudança do amor em ódio. Se me objetardes que vos sentis disposta a consentir na tentação, respondo-vos que a graça de Deus vos sustem para que a veemência da tentação não vos lance naquele abismo. Fortalece-vos com a graça, o Deus que é o grande amante das almas (Qui amas animas. Sb 11, 27); e o amor que lhe tendes, e vos decide a morrer antes do que ofendê-lO; também vos refreia o temor que justamente tendes do inferno, que merecereis pelo pecado mortal, e a brutalidade deste que sempre inspira horror à alma temente a Deus, sobretudo quando a tentação o mostra mais próximo; livra-vos também Maria Santíssima em cujo amparo confiais; e o Anjo Custódio que faz a vosso favor mais do que o demônio faz para vosso dano. Pensais que é empresa fácil para o demônio despojar da graça santificante uma alma que teme a Deus fazendo-a cair em culpa mortal, apesar de que um só momento de pleno e deliberado consentimento baste para a fazer culpada ? Torna-se até uma fortaleza em um instante, porque o inimigo entra pela porta quebrada, e pela brecha aberta, mas antes que chegue este momento às vezes passam semanas e muitos meses; e se está bem armada, provida e defendida, não se entrega, e o inimigo cansado e desanimado é obrigado a retirar-se.

Porém dizeis: até Santos tem sucumbido, não obstante terem tido todos estes auxílios, com quanta maior facilidade cairei eu! Respondo-vos que os verdadeiros Santos que caíram em culpa grave são em menor número do que talvez pensais. Sem falar nos grandes Santos, más só das almas decididas a evitar o pecado e que buscam dedicar-se completamente à Deus, os Diretores das consciências dizem que não costumam renovar a desgraça de se despencarem no pecado mortal; e vós também pertenceis ao número das almas que já não os fazem o que é consolador, outras em maior quantidade, que já os cometeram, depois de sua conversão há muitos anos  não os fazem. Não penseis que a decadência do mundo é geral! A graça do Salvador opera admiravelmente em bastantes almas, em todas as que lhe correspondem com humildade; grande número delas juntamente com os Santos que já estão no Céu, hão de formar a grande multidão que diz o Evangelista São João, que a viu, não se pode contar: turbam magnum quam dinumerare nemo poterat (Ap 7, 39).

Algumas pessoas no mundo opressas com a tristeza de tantos males que na verdade se fazem, vendo tanta gente que só parece viver para ofender o Senhor, sentem melancolia que os ilude exageradamente, como sucedeu um dia ao profeta Elias, quando pensou que era o único adorador de Deus que havia em Israel.

Não vos deixeis abater com semelhante tristeza, que só serve para vos oprimir o coração, e inspirar-vos inúteis queixas. No mundo é certo, há muitos maus, e são talvez mais numerosos do que os bons, mas é mui consolador a quantidade dos últimos, que constituem as delícias do Senhor, e o triunfo de sua vitoriosa graça, que já não fazem culpas mortais! Entre estas almas vós estais, e vossa solicitude o prova.

Confiai firmemente em Deus, e não vos desanimeis com as tentações violentas e frequentes que vos atormentam; está claro que o Senhor as permite para poder depois coroar-vos no Céu com distinta glória. Não se podem obter grandes vitorias sem árduos combates, e se alcançam assim gloriosas coroas, as almas mais tentadas eram mui estimadas pelos Santos, e esperavam delas grandes virtudes.

Pensareis ainda, uma vez ou outra, receio ser vencida. Confia firmemente que não sucumbireis, pois se o Senhor previsse vossa queda, vos enviaria antes a morte. Vê que a preferis à sua ofensa, e suspeitais que não vos conceda a graça de morrer antes do que ofendê-lO gravemente? Dizei assim ao Senhor:

“Não tenho no mundo outro temor senão o de ofender-Vos e tornar-me Vossa inimiga; se previrdes que este mal enorme me há de acontecer continuando eu a viver, mandai-me primeiro a morte; que é o mal mais aborrecido de todos os do mundo, será para mim o maior bem e mercê”

Depois descansai na bondade do Senhor, continuais a dizer que vos amedrontam os Santos que prevaricaram, entendo que isto não vos deve assustar muito, suas quedas devem aumentar vossa humildade, os que se despenharam no pecado, primeiro, como observa Santo Afonso Maria de Ligório, deixaram-se surpreender pela soberba, desvaneceram-se com o bem que julgavam ter como coisa própria, e assim miseravelmente caíram do mal; a lembrança de tais Santos vos firme melhor na humildade, mas não vos assuste, pois esta virtude serve para tudo, e o terror para nada. Humilhai-vos contínua e profundamente perante Deus, o que constituo segurança infalível. Não estranheis se fordes tentada, e com muitas tentações de soberba, pois se o demônio bate sempre à porta de vosso coração, significa que ainda não entrou. Orai, sossegai, e que Deus não o deixará entrar.

Enfim deveis aspirar à confiança tão animosa com que São Paulo dizia:

“Estou certo que nem a morte, nem a vida, os Anjos e os Principados, potências (infernais), nem as coisas presentes nem as futuras, nem a violência, e tudo que há de mais sublime e profundo, nem todas as criaturas, poderão separar-me do amor de Deus em Jesus Cristo, Senhor Nosso” (Rm 8, 38-39)

Esperança tão inabalável, unicamente fundada em Deus, de quem emana todo o poder e suficiência, será meio eficaz para não se sucumbir, o que sucederá por dois motivos.

Primeiramente porque é grande o mérito da esperança, e quanto for mais firme e perfeita, tanto maior é o mérito, pois nos dispõem para receber a graça divina, que virá abundante ao nível da confiança. Em segundo lugar a confiança de alcançar um grande bem, o sumo bem (como é perseverar constantemente na graça de Deus) infunde muita fortaleza para se superar todas as dificuldades, e obstáculos que se oponham a sua posse, então meio algum, ainda que seja árduo e oneroso na prática, se omite, parecendo eficaz o bom êxito.

X
O temor de Deus nos deve inspirar grande confiança

Porque motivo o Senhor nos inspira os sentimentos do seu santo temor? Dizei-me porque nos faz esta graça, que temamos seus juízos e castigos? Já refletistes nisto? Facilmente se entende a causa, infunde-nos Seu temor para evitarmos o pecado, e nos arrependermos se o cometemos, para que não nos esmague o peso de Seu severo juízo, e estejamos isentos dos castigos do pecado, em resumo, o Senhor quer ser temido por nós, para que não precise castigar-nos. Incute-nos o sentimento do temor não para nos fazer experimentar os terríveis efeitos da Sua justiça, mas sim os atos amorosos de Sua misericórdia. Sendo assim com certeza, não é evidente que o temor de Deus nos há de inspirar grande confiança? Não só aos justos, mas até aos pecadores, embora estejam carregados de iniquidades? Os sentimentos deste santo temor são o penhor e a garantia da misericórdia que se digna usar conosco. Se por causa das nossas culpas o Senhor não quisesse ter piedade, não nos daria a graça de temê-lO, que é sempre encaminhada para o fim de obtermos o perdão. Quando sente na consciência este santo temor dos juízos divinos, de Seus castigos, tais sentimentos devem assegurar-vos que Deus vos reserva, não o rigor da justiça, mas as amorosas provas da Sua misericórdia.

Se em vez de ser devota fosseis uma pecadora réu de muitos delitos, sentindo o coração impressionado pelo temor da morte, do juízo, e do inferno, deveis expandir o coração com sentimentos de grande confiança, pois ela deve sempre superar o temor. Por acaso Deus já não é bom nem misericordioso porque nós somos maus? Enquanto a voz de nossos pecados clama vingança e castigo, a do sangue de Jesus Cristo não reclama com mais força, paz e perdão? Mais devemos confiar na benignidade do Senhor do que temer sua justiça, pois o que nos pode assustar é nossa malícia, que apesar de grande, não é infinita, pelo contrário, devem animar-nos os méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo que realmente são de infinita valia; por isso muito mais devemos exercitar-nos nos atos de esperança, do que nos de temor. Com efeito, se podeis meditar a Escritura leia-a de princípio ao fim; se puder lede também as orações públicas da Igreja, e vereis muitos sentimentos que incutem confiança na bondade divina, a custo achareis algumas que excitem o temor da sua justiça, o que é bom argumento para se conhecer que nos quer antes esperançosos do que temerosos.

Finalmente dizei-me: o que desejais na terra? Não é certo que é ser boa aos olhos de Deus, agradar-Lhe em tudo? Se um Anjo vos revelasse que Deus está satisfeito, e vos preza como uma de suas almas prediletas, não ficareis contente, achando-vos bem-aventurada e recompensada?

Sendo assim, não podeis negar que vosso grande desejo é agradar a Deus. Imaginai que sois uma filha, que tendes muitos defeitos que desgostam vosso Pai, porém desejais tornar-vos boa para Lhe agradar, supondo também que dependesse deste Pai mudar-vos o coração, e fazer-vos tão boa como Ele quisesse, e que vos apresentais na sua presença, ajoelhando a seus pés, falais-lhe assim:

“Meu caro Pai, vede que sou má, bastantes vezes Vos tenho desgostado, e deste modo amargurado Vosso coração; mais que tudo me aflige desagradar-Vos, e amargurar-Vos; podeis mudar-me o coração, dar-me vontade reta, e transformar-me em filha respeitosa, obediente, amorosa, que em tudo Vos contente, como agora desejo. Caro Pai, não Vos peço outras graças, só solicito esta, de mudar de tal modo meu coração e vontade, que de ora em diante fiqueis completamente satisfeito comigo. Se vedes que para minha conversão é preciso algum castigo, castigue-me como melhor Vos parecer; eu a tudo me submeto, para nunca mais Vos desgostar, e em tudo Vos contentar”

Figurai que tal filha falasse assim a seu pai, seria possível que ele resistisse a esta súplica, e não concedesse a graça implorada? Sabeis que isto seria impossível; o pai se enterneceria e a filha teria bom êxito. Não lhe ficaria a consolação de se tornar boa, e de agradar em tudo a seu pai. Mas na terra nenhum existe que possa mudar o coração aos filhos; só no Céu o temos. Alma devota, mas talvez mui temerosa e pusilânime, tal Pai tendes no Céu, repeti-lhe palavra por palavra a oração filial, que vem acima, e não acrediteis que o Senhor tenha o coração assaz duro para a recuar. Para assegurar mais o êxito, pedi a intercessão de vossa augusta Mãe que tendes no Céu, Maria Santíssima que tanto pode com o Pai celeste, e tanto amor lhe merece, mais do que todo o Céu; sossegada e tranquilamente, confiai.

Imaginais quanto é importante que o vosso temor de Deus tenha os predicados acima mencionados, e nunca esteja separado da paz, tranquilidade, e seja cheio de confiança? Bem-aventurada sereis se chegardes a compreendê-lo! Fareis no caminho da perfeição, grandes e seguros progressos, pois não vos enredareis nos laços que o demônio tece às almas piedosas. Este mestre de todas as astúcias e dolos vê no caminho da vida mortal divididas as almas para assim dizer, em duas fileiras, sob a bandeira do mundo faz os homens andarem ufanos e presunçosos de si mesmos, desprezarem os maiores perigos e correrem para o precipício pela lúbrica estrada que conduz a perdição, outros humildes e desconfiados, seguem a Cruz do Redentor, acautelados para não errarem o caminho da salvação. Os que se encaminham infelizmente e já estão próximos a cair no medonho abismo, conviria muito aterrá-los, para que mudem de estrada e não pereçam por sua negligência; aos outros que seguem a vereda reta, e percorrem a escabrosa, mas segura montanha da salvação, conviria animá-los e firmá-los para que não se cansassem de continuar o bom caminho. Pelo contrário, o maligno demônio aplaude, ajuda, excita os infelizes que correm e se arremessam sem reflexão no profundo báratro da morte eterna; amedronta e assusta, para que retrocedam aqueles que cautelosos caminham para a vida eterna! O maligno demônio forja tantas astúcias, que muitas vezes os seguidores das duas fileiras não se apercebem do seu engano! Aos que deviam temer muito e muito, por que são inimigos de Deus e obstinados na culpa, excita-lhes a presunção, os que só deviam esperar por que são amigos de Deus, e constantes na prática das virtudes cristãs, atrai para a desconfiança! É possível que um engano tão claro e manifesto seja desconhecido pelas almas? Conhecei-o vós, e baldai uma vez seus artifícios.

Se afastar da mente a demasiada solicitude, o temor ansioso que vos perturbam continuamente, e com todas as forças caminhardes pela vereda da perfeição, eis os bens de que gozareis.

1. Sentireis a doçura do serviço divino, e as consolações da graça, por isso sereis mais firme e constante, e acolhereis as inspirações de Deus com maior prontidão e facilidade.

“Senhor, dizia Davi, não só andei, mas corri pela estrada de vossos mandamentos depois que dilatastes meu coração”

2. Frequentareis com maior assiduidade os Sacramentos, principalmente o augustíssimo da Santíssima Eucaristia; e em vez de obrigardes o Diretor a dar-vos ordens para vencer o vosso temor, lhe pedireis a Comunhão frequente, o mais substancial alimento da alma, do qual às vezes não é mal abster-nos por humildade, mas é sempre melhor não nos abstermos por amor, (quando o Diretor assim aconselha).

3. Vivereis mais desapegada do mísero mundo, porque a segura esperança que o Céu será vosso, vos fará encarar a morte com olhos tranquilos, pois vos isenta de tantas infelicidades, para vos dar a posse da bem-aventurança sem fim.

4. Fareis a virtude mais amável ao próximo, e mais facilmente o atraireis a segui-la: vossas máximas não serão rigorosas e acerbas, porque as achareis nos Evangelhos tão suaves, que docemente atraem os corações, se não são falseadas; vendo os próximos à paz de vosso espírito, enquanto o seu, por causa de suas desordenadas paixões, é tempestade incessante, quererão fazer a experiência do vosso estado, renunciando a suas desordens. Ah! Quanto prejudica a devoção às almas piedosas, mas sempre agitadas com temores e opressas com angústias! Os mundanos as consideram infelizes por que o são, pensando que sem ansiosas inquietações e fadiga de espírito não há devoção verdadeira.

5. Tereis e cultivareis o zelo pela salvação das almas, em qualquer condição ou estado em que estejais, e conforme vossa capacidade, por que a alma livre de agitações e aflitivos temores voa livremente pelo caminho do Céu, não se contenta assegurando a própria salvação, empenha-se pela dos outros, sentindo inefável gozo quando conduz almas para Deus. As pessoas devotas dominadas por importunos escrúpulos, que lutam em incertezas, não têm tempo nem vontade de pensar no bem dos outros, permanecem em uma espécie de egoísmo espiritual, quase esquecidas das outras almas, avistando em tudo perigos e dificuldades pensam que não podem ocupar-se da salvação alheia, sem prejuízo da própria. Ah! Quantas almas, que teriam tempo e capacidade para cooperar para a obra divina, diviníssima, lhe chama São Dionísio, a da salvação das almas! Em que consomem o tempo e suas habilitações? Em se atormentarem com exames de consciência sem fim, em apreensões de culpas que não fizeram, em terror dos castigos que não mereceram e se em outro tempo se arriscaram a padecê-los, já não os podem temer, pela confiança certa de se terem se arrependido.

Não sejais do número destes, extirpai tais misérias, se jazeis nelas! Não vedes quanto bem se pode fazer às almas remidas com o mesmo sangue divino que vos remiu? Podeis corrigir pecadores, admoestar os transviados, dirigir e aconselhar os irresolutos podeis confortar os fracos, afervorar os tíbios; e se nada podeis e sabeis fazer, podeis rezar por todos. Sim rezar e oferecer Missas e Comunhões pela conversão dos pecadores, infiéis, para que todas as almas se convertam a Deus e nele achem vida e salvação. Mas como tereis zelo para tanto bem que podeis praticar se não tendes o coração pacífico, tranquilo, e cheio de confiança?  Que a paz de Deus, cuja preciosidade não se pode compreender, conserve vosso coração e mente unidos a Jesus Cristo (Fl 4, 7). A paz de Cristo aqui triunfe e exulte (Col 3, 15). Alegrai-vos continuamente no Senhor, repito-o, alegrai- vos (Fl 4, 4). Servi o Senhor com jubilo (Sl 99, 1). Que grandes bens achareis na paz e alegria espiritual de vosso coração! Não a podereis imaginar se a não experimentardes. Pedi-a Deus para vós e para todas as almas devotas, interpondo o patrocínio de Maria Santíssima, não vos canseis de repetir-lhes: Causa nostrae Iaetitiae, ora pro nobis.

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(Blósio, Venerável Luis; FRASSINETTI, Padre José. Bálsamo Espiritual. B. L. Garnier, Rio de Janeiro, 1888, p. 253-307)