Bálsamo Espiritual

Consolação de Pusilânimes
pelo Venerável Luis Blósio e

Conforto da Alma Devota
pelo Pe. Frassinetti

Salve Maria!

O livro Bálsamo Espiritual é uma obra composta por dois opúsculos: Consolação de Pusilânimes, do Veneráel Luis Blósio, O.S.B. e Conforto da Alma Devota, do Pe. José Frassinetti. Ambos livros versam acerca da infinita Misericórdia de Deus e como o fiel católico deve se apoiar com profunda confiança nas mãos da Divina Providência, nas mais diversas circunstâncias de sua vida. É, portanto, um livro repleto de consolações e reconforto para os nossos dias. Espero que lhe seja de grande utilidade para seu crescimento pessoal e espiritual.


Índice
O Editor, a quem ler

Consolação de Pusilânimes
Prólogo
Diálogo entre a Sabedoria Eterna e um de seus servos
Consolação para o homem que no fim da vida sinceramente se emenda
Não se há de temer demasiadamente a morte
Excelentes sentenças sobre a misericórdia de Deus para conforto dos pusilânimes
Colóquio espiritual, com que Jesus Cristo conforta a alma pecadora, que deseja emendar-se
Oração final de confiança em Deus

O Conforto da Alma Devota
Prefácio
Capítulo 1. Ideia exata da Santidade Cristã
Capítulo 2. Não é mui difícil obter-se a perfeição cristã
Capítulo 3. Expõem-se as objeções que se costumam apresentar contra esta doutrina
Capítulo 4. Beleza e utilidade da Perfeição Cristã
Capítulo 5. Meios a empregar para atingirdes a desejada Perfeição
Conclusão
Apêndice. O Santo temor de Deus que deve procurar a alma devota

Notas
Moderação no modo de se exporem as máximas de terror
Facilidade de se fazerem atos de perfeito amor de Deus
Zelo pela salvação das almas nas pessoas seculares
Conforto consolador acerca das ocasiões e frutos das tribulações
Os males da terra são penhores de Predestinação

O Editor, a quem ler

O Autor do primeiro Opúsculo, desta nossa Obrinha, Luiz Blosio, ou de Blois, um dos vultos proeminentes de seu século, na República das Letras, filho da nobre e antiga Casa de Blois e de Chatilon, nasceu no Castelo de Donstienne, perto de Beaumont, no Hainaut, em 1506. O primeiro ano de sua vida passou-os na Côrte de Carlos V, e foi pajem deste grande Imperador. De idade de 14 anos, deixou o mundo, renunciando ao glorioso futuro que podia pretender. Entrou nos Beneditinos da Abadia de Liesses, onde tanta admiração causou por sua madureza o acrisolada virtude, que foi eleito abade em 1530, tendo só 24 anos de idade. Estabeleceu a reforma em seu mosteiro, em que logo florescerão as ciências e todas as virtudes cristãs e religiosas. Ali morreu em cheiro de santidade no ano de 1566.

Prólogo do livro Consolação de Pusilânimes

Esta consolação se escolheu e escreveu para as pessoas que seguem o caminho da virtude, ainda que em tempos passados gravemente tivessem ofendido a Deus, e por fraqueza humana ainda pecam diariamente; mas ajudados com a divina Graça firmemente determinam emendar-se, buscam aperfeiçoar-se com boa e santa vida, mortificando diligente o desordenado amor às criaturas. Porém aquelas que têm o coração mundano e pervertido, e por sua vontade perseveram nos vícios, e negligentes se deixam dominar pelo amor das criaturas, não podem achar conforto algum neste pequeno livro, ainda que se abstenham de pecados mortais, com deliberação cometem os veniais, que hão de expiar com longo Purgatório, se não fizerem a devida penitência neste mundo. Os hereges também não tiram aqui recurso consolador que só lhes servirá, deixando a herética abominação, e sujeitando-se humildemente à Igreja Católica. Não desanimem os homens que seguem o caminho da virtude, permanecem na Fé Católica, apartam-se de todos os pecados, e procuram viver espiritualmente para agradarem a Deus, não temam tais homens, antes confiem jubilosos, por mais fracos e imperfeitos que sejam; pois sem dúvida a eles se refere São Paulo, quando diz: Não receiem serem condenados os que estão unidos a Jesus Cristo, e não vivem conforme a concupiscência, se perseverarem até o fim, chegarão ao mui resplandecente e excelso Reino do Céu; onde sempre hão de contemplar e amar a Deus perfeitamente, e unidos a sua divina Majestade gozarão eterna bem-aventurança.

Aviso-te que fujas quanto puderes de fazer confissões circunstanciadas e extensas, pois perturbam a paz do coração, e produzem escrúpulos e erros. Se usares de muitas palavras desnecessárias, referindo pecados veniais leves, confiando mais na tua diligência do que em Deus para evitar semelhantes faltas, não receberás as divinas lições; confundirás os pecados grandes com os menores, e os defeitos graves com aqueles que o não são, e quando não confessares alguma das coisas que costumas, embora não fosse dever declará-las; então ficarás triste, angustiada como se não te tivesses confessado bem, tendo-o feito convenientemente.

Se não te acautelares desta demasia de palavrosa confessando-te, sentirás temores e apreensões em vez de achares tua consciência fortalecida e adornada com a Fé, Esperança e Caridade, e o amor-próprio a dominará.
As culpas que se chamam cotidianas e comuns, de que ninguém se livra, se narram em breves palavras, não te ocupes muito destas; forma em geral o propósito decidido de proceder sempre bem, e de fugir delas tanto mortais como veniais.

A pureza de consciência é o fundamento de toda a santidade, para obtê-la, farás resenha de toda a tua vida, e se achares culpa mortal, logo na presença do Confessor, ou de Deus, verdade eterna, te purificarás pela contrição, confissão, satisfação ou penitência; feito isto, concebe esperança e firme confiança na misericórdia de Deus, que teus pecados estão perdoados, mas ainda que tenhas alcançado o perdão há de perseverar sempre diante da sua clemência, e com amoroso coração dirás:

Ó Deus tende misericórdia de mim, misero pecador!

As culpas veniais se referem sem minuciosidades, como ordena a Igreja, há, porém necessidade de confessar os mortais, e se temos dúvida que o sejam algumas; quanto aos veniais de muitos modos se perdoa, pela contrição, rezando-se o Pai Nosso, ajoelhando, tomando água benta, etc. Se alguém sente falta de contrição, tenha pesar de a não ter, pois também isto é arrependimento, se não sente amor a Deus, deseje muito tê-lo.

Declarados suficientemente na confissão os pecados mortais, cumprida a penitência, humildemente confiemos no Senhor; os remorsos ou escrúpulos que sobrevierem, deve-se sofrer com paciência e humilde resignação à divina vontade.

Deve-se acreditar no poder e autoridade dos Confessores, como o Senhor nos ensina dizendo:

«Os pecados que perdoardes será perdoado, tudo que absolverdes na terra, será também absolvido no Céu»

Em verdade vos digo, amados irmãos, que se alguém se confessou com inteireza, e boa vontade, e ainda assim padecer remorsos fará bem confiando em Deus, e na virtude da Confissão, e não indo de novo repetir os mesmos pecados, porque muito convém confiar nas promessas de Deus, acreditando na eficácia da absolvição.

Muitas vezes, o demônio suscita ao varão justo inumeráveis pensamentos ilícitos e abomináveis, então os inexperientes desanimam e clamam: Ah! miserável de mim! Rogo-te, alma pia, que tenhas ânimo, sendo perseguida por maus pensamentos, busca desviá-los, pois não impedirão tua eterna salvação, sem te perturbar recorre a Deus com eficácia. Não fixes a atenção em tais ideias, não as discutas, arreda-as somente.

O demônio também intenta submergir o homem espiritual no abismo da desesperação, insinuando-lhe que de nada serve o que ele faz, pois todas as suas obras desagradam a Deus, e está condenado ao inferno; o que fará então aquele que pensa isto? Entregará a Deus seu cuidado, como São Pedro aconselha, buscará no clemente Senhor sua âncora com esperançosa e firme confiança na sua infinita misericórdia; como aqueles que estão no mar em perigo de se afogarem, largam os remos e cordas, pegam na âncora e a deitam na água e assim escapam à morte; quem padece tão penosas tentações dos demônios, tenha perfeita esperança e confiança em Deus.

O verdadeiro pecado consiste na vontade deliberada, e anuência da razão com que o homem apartando-se de Deus pratica ou reincide na maldade. Mas ser alguém acometido de horríveis pensamentos, que a custo se concebem semelhantes, nem a linguagem os exprime, de qualquer gênero que sejam, embora permaneçam bastantes anos, contanto que se sinta desgostoso e se não acolham com deliberada vontade, antes se resista ao mal; neste caso não se faz culpa mortal, com certeza, como afirma a Sagrada Escritura e a doutrina da Igreja, pela qual o Espírito Santo nos ensina.

Comprazer-se o homem em si próprio, o pode fazer mais feio e repulsivo perante Deus, do que mil pensamentos destes, que o demônio suscita, ainda que sejam muito maus. Nestas tentações há um dissabor especial e sutil, consiste em ter o homem algum pensamento culpado e talvez deleite, atende-o esquecido de si próprio, não o afasta com velocidade; pensa então que o acolheu com deliberada vontade, e que por negligência pecou mortalmente; mas não se deve crer isto, porque é sentença e opinião comum dos Santos, que muitas vezes estas importunas ideias, mesmo o deleite, costumam prevenir a razão, e por largo espaço, antes que a vontade se aperceba claramente, se chega a ver o mal e o acolhe, poderá ser culpa.

Sendo assim as pessoas espirituais de modo algum devem temer o pecado mortal nestas coisas, dando-se crédito à verdadeira doutrina católica; diz Santo Agostinho que de tal sorte o pecado há de ser voluntário, que se o não for não será pecado.

Alguns abatidos por desordenada tristeza pensam: para que nasci, antes não vivesse, se me fosse lícito morrer! E, assim ofendem a Deus mais do que com as culpas que fazem. Quem deseja ter verdadeira contrição busque adquirir humildade, ódio ao pecado e firme esperança em Deus. A Sabedoria eterna diz: Filho, na tua enfermidade não desespere do remédio, invoca a Deus, que te trate sarar. Sem dúvida louco seria quem faltando-lhe um olho, quisesse tirar o outro.

O Senhor é sofredor, misericordioso com aqueles a quem já perdoou, e suporta paciente os que ainda não obtiveram perdão, não condenando, mas esperando, e com a delonga dando vozes: Convertei-vos a mim, que eu me converterei para vós, e com extremosa longanimidade diz: Não quero a morte do pecador, sim que se converta e viva.

Para que dizes que é pecador; emenda-te e Deus te perdoará todas as culpas. Para o Médico Onipotente não há moléstia que não tenha cura. Não digas, amanhã me converterei, agradarei a Deus, e serão perdoados meus pecados. Dizes a verdade, pois se te emendar o Senhor prometeu perdoar-te, mas se te dilatar não te assegurou o dia de amanhã.

Se perturbado com a gravidade de tuas culpas, confuso pela torpeza da tua consciência, amedrontado com o temor do juízo final, principiares a submergir-te em profunda tristeza e no abismo da desesperação, chama por Maria Santíssima, nos perigos, angústias, incertezas invoca Maria. Não te saia da boca, do coração, e para que alcances seu patrocínio não deixes de imitar sua vida. Se a seguires não te há de se transviar, se há súplicas, não desesperes, se meditas suas virtudes não há de errar, se a Senhora te amparar não desfalecerás, nada tens a temer escolhendo-a para guia, se te favorecer alcançarás o desejado fim. O que pode temer a miséria humana recorrendo à poderosíssima Senhora, que é toda mansidão e suavidade; não investiga os merecimentos passados, com todos é piedosa, clemente e compassiva de nossas necessidades.

Quando o pecador deixando inteiramente os vícios, se determina a servir sempre a Deus e a consagrar-Lhe sua vida, a divina e eterna bondade, mostra-se benigna e amorosa com ele, como se nunca tivera pecado; pois completamente lhe perdoa as culpas, sem de novo o arguir por estas, embora fossem tantas quantas cometeram no passado todos os homens do mundo, porém no caso do pecador se arrepender deveras, somente para glória de Deus, e que especialmente lhe desagradem os pecados porque ofende tão bom Senhor.

O abrasado amor de que procede este doloroso sentimento, aniquila todos os pecados. Por pequeno que seja o ato de contrição que se faz só por Deus, é mais aceito do que todos que fizeram os homens com mescla de amor-próprio.
A este pecador Deus pode mostrar-lhe familiaridade, revelar-lhe seus segredos, pois se está bem disposto, o Senhor esquece seus passados erros; olha para o que é atualmente e não para o que foi.

Com boa vontade Deus suportou os agravos e desacatos que ele outrora Lhe fez, para que enfim conhecendo a malícia destes, e a eterna caridade de Deus, se lhe aumente na alma o amor, reconhecimento e respeito pelo seu Criador; bastante vezes estes sentimentos nascem no homem pelo conhecimento de seus pecados; por isso Deus sofre nos eleitos as injúrias e afrontas dos pecados, para no futuro os elevar à vida espiritual perfeita. Nosso Senhor não foi amigo íntimo dos Apóstolos? Que todavia quase todos cometerão culpas, ainda que um mais gravemente do que todos.

No velho e novo Testamento muitas vezes o Senhor sofreu semelhantes erros dos mesmos, que foram depois seus maiores amigos. É raro que faça grandes mercês às almas sem que primeiro tenham pecado; por isso conhecendo que fizestes algum, volta-te amorosamente para Deus com todas as tuas forças, com profundo descontentamento de ti mesmo, e afastando-te deveras dos pecados, busca doer-te mais da falta, ainda que seja leve, que fizestes contra a vontade e glória de Deus, do que de toda a confusão, dano e pena que por ele merecestes; renova o firme e perpétuo propósito de nunca mais ofender teu bom Senhor, cuja fidelidade jamais desampara quem confia em sua misericórdia. A penitência consiste em desprezo e aborrecimento de nós mesmos com verdadeiro e sólido propósito de amorosa conversão e confiança firme, basearem sua afrontosa Paixão e inefável caridade.

Onipotente e misericordioso Pai, eu miserável e vil pecador, com a possível humildade, e inteira confiança na Vossa imensa bondade, prostrado a Vossos pés confesso os grandes pecados com que até agora Vos tenho ofendido. Não temi os agravos que Vosso amado Filho expiou com tantos tormentos e opróbrios! Pai clementíssimo, também Vos confesso minha ingratidão, não retribuindo o amor benigno e fiel que me tendes mostrado; pois com tanta paciência persistindo eu longos anos na malícia da culpa, me perdoastes minha desobediência e revolta, e tendes esperado que eu faça penitência, para conquistardes meu coração, enchendo-o de Vosso amor. Ah! Quantas vezes, Senhor meu, me atraístes com Vossas inspirações, me enchestes de benefícios e consolações; chamastes-me com tribulações, e sempre Vos voltei às costas, e todo piedoso suportastes!

Com justiça me podíeis despencar no abismo do inferno, porém Vossa clemência me perdoou; considerando tantas mercês não compreendo que não me estale o coração com a veemência da dor! O próprio inferno não tem penas que igualem o castigo merecido pela minha tenaz malícia. Não mereço ser chamado criatura Vossa, nem que a terra me sustente; era justo que os elementos e os homens vingassem em mim Vossa injúria! Piedade… fitai clementes olhos neste mísero pecador. Abri-me as entranhas da Vossa benignidade, concedendo-me Vossa graça, apesar de ter dilatado tanto tempo minha conversão. Abandonei tão amabilíssimo Pai, neguei-Vos o coração que tínheis escolhido para Vosso templo e Vosso gozo, enchi-o de iniquidades, filo covil de demônios. Senhor sou o mais vicioso pecador do mundo, mas ainda assim confio na Vossa bondade, pois se não tem número meus pecados também não tem Vossas misericórdias. Amantíssimo Pai, podeis purificar-me, sarar-me; lembrai-Vos do que dissestes por intermédio de um Profeta: «Tens andado enredado em muitas culpas, mas vem a mim que te acolherei». Muito confio nestas misericordiosas palavras, e a Vos me dedico como se só a mim fossem dirigidas; pois sou o filho inútil e infiel que desgraçadamente abandonei o Pai da verdadeira luz, de quem emanam todos os bens, e como ovelha desgarrada me apartei de Vós, desprezando os abundantíssimos dons com que me tínheis enriquecido; deixei a fonte de água viva, buscando consolações mundanas, cavei afanosamente cisternas lodosas e rotas, pois o deleite temporal e caduco desaparece velozmente como o fumo.

Também vos fugi, Pão de vida, para me alimentar com a comida dos porcos, seguindo o apetite dos sentidos, escravizando-me a minhas paixões, troquei-Vos, Bem Sumo e perfeito, pelos bens terrenos e transitórios; por isso estou nu, pobre, imundo, e como bruto me tenho enlameado no esterco de meus vícios.

Meu dulcíssimo Jesus, a quem recorrerei senão a Vós, cheio de misericórdias, carregado e opresso com inumeráveis pecados? No abismo de Vossa graça e clemência e nas sacratíssimas e ensanguentadas chagas que para minha salvação recebestes, lanço meus pecados, minha ingratidão, sensualidade, ira, desobediência, leviandade, cobiça.

Lavai-me, Deus meu, em Vosso puro e precioso sangue, e esquecei para sempre tudo. Amado Jesus, minha única esperança, chego à Vossa presença com afeto e vivo desejo de Vos amar, com ardente fervor protesto fugir de todas as coisas que me podem afastar de Vosso divino amor, para unir-me a Vós completamente.

Sois meu refugio e consolação, se meus pecados me perturbam e afligem Vossa bondade e os méritos da Vossa Santa Paixão me vivifica e anima; se são grandes meus erros, muito os excede Vossa misericórdia, não me condenareis, pois me criastes à Vossa imagem e semelhança, não me desampareis, pois tomastes a natureza humana e por tão alto preço me remistes…

Pai amantíssimo, o que valem os homens que assim amais? São vilíssimos pecadores, que sempre Vos ofenderam e afrontaram, todavia por eles sacrificastes Vosso obediente Filho Jesus Cristo? Amais-nos, pois mais do que a Ele? Morreu para que nós vivêssemos, entristeceu-Se o benigno Redentor para nos alegrarmos, cobriu-Se de chagas para nos sarar, derramou Seu precioso sangue para nos purificar. O que achastes nos homens para tão extremosamente os amardes? O melhor e mais precioso tesouro de Vosso paterno coração destes para remi-los, o Vosso único e amado Filho Jesus Cristo. Por este amor e pelas devotas suplicas de Vosso Filho, perdoai minhas iniquidades.

Acolhei o altíssimo sacrifício do Vosso Unigênito Filho, e relevai os erros deste mal servo, que satisfez mais do que deve; pois postas em uma balança minha malícia e culpas, com os tormentos de sua angustiada Paixão, estes sem dúvida pesarão mais, do que meus desatinos. Que maldade tão grande pode haver que não expie sua tristeza e aflição, obediência, humildade, invicta paciência, e inefável amor? Que pecado, embora abominável, não se lavará com seu suor de sangue e a efusão deste? Pai Eterno ofereço-Vos meu Redentor Jesus Cristo com devoto agradecimento, em união do amor com que o enviastes à terra tomar minha natureza para me livrar da morte eterna. Ofereço-Vos a mortal tristeza e incompreensíveis angústias que o Senhor padeceu, e cuja extensão só Vós conheceis, por todos os meus pecados, e para suprir a deficiência da minha contrição; ofereço-Vos seu suor de sangue, pelas lágrimas que me faltam, por causa da grande dureza de meu coração; também Vos apresento suas abrasadas orações, pela negligência e tibieza das minhas. Finalmente Vos ofereço o complexo de seus trabalhos, dores, virtudes, vida rigorosa, tudo que sofreu na sua Paixão, unido aos louvores dos Espíritos angélicos, aos méritos dos Santos, como digno sacrifício para vossa eterna glória, em satisfação das minhas culpas, pela falta das virtudes que não pratiquei, pelo mau desempenho dos deveres de meu estado, também por meus próximos vivos e defuntos, especialmente por aqueles por quem devo orar, para que por amor de Vosso amado Filho lhes concedeis o que lhes convém para Vos servirem devotamente no estado em que os colocastes.

Em breve espaço o homem que tem puro e verdadeiro amor a Deus, desagrado e desprezo de si mesmo, com reta intenção, expulsando de si os pecados com esforço, arrependendo-se deles, será perdoado de forma tal que se morresse embora tivesse cometido todos que se fizeram no mundo iria logo gozar de Deus sem nenhum impedimento; bastante vezes sucede que temos perdão de pequena parte das penas devidas, quando somos absolvidos das culpas, porque nossa contrição e bom propósito são tíbios, e nosso amor a Deus não emana do íntimo da alma, não abrange bem à vontade e entendimento, como ordena o Senhor; pois o tesouro precioso com que podemos comprar e facilmente obter tudo que desejamos, e mais ainda, é o verdadeiro amor e firme confiança em Deus, unida ao próprio desprezo.

Ainda que as mães às vezes se esqueçam dos filhos, o Senhor disse que nunca se podia esquecer-se de nós; porque sua misericórdia é tão grande que se em uma fogueira mui acesa se lançasse alguma estopa, não se queimaria tão depressa como o Senhor perdoa os pecados de quem deveras se arrepende.

Não medeia estorvo ou demora entre Deus e o pecador penitente; estabelece-se logo fiel correspondência como se o convertido nunca pecará, e nosso Deus é tão bom, que jamais arguirá os erros que perdoou, havendo perseverança na boa vida começada.

O benigno Deus é um poço sem fundo de infinita misericórdia e natural bondade; nunca mãe alguma, por mais extremosa que seja pelo filho que asilou no seio, vendo-o cair em um incêndio, lhe dará a mão para livrá-lo com tanto empenho, como Deus acode ao homem contrito, embora tivesse perpetrado milhares de vezes todos os pecados do mundo.

Porque sois amado, Senhor, com tanta abnegação, que gozos infindos encontrão as almas em Vós, por ventura pode-se atribuir isto a sua inocência? Quando consideram suas culpas estas almas favorecidas, e o muito que incorrerão na Vossa indignação, e que não precisais dos nossos bens, sente tal doçura, vendo que tão fácil Vos é perdoar um, como mil talentos, um só pecado venial como inumeráveis mortais; avaliam esta grandeza sobre toda a grandeza, e dão-Vos agradecidas ações de graças do fundo de suas almas. Certamente estes penitentes são mais estimados pelo Senhor, como diz a Sagrada Escritura, do que se nunca tivessem caído em culpa, mas não o amassem tanto, pois diz São Bernardo; Vós não olhais tanto para o que o homem foi como para o que é, e deseja vivamente ser; por isso, clemente Senhor, quem negar que perdoais tantos pecados como instantes encerra o tempo, sem dúvida busca privar-Vos de grande honra.

Caminhemos enquanto temos luz, antes que chegue a noite; caminhar é aperfeiçoar-nos espiritualmente; grande risco corre aquele a quem chegar à noite da morte, estando ocioso; os tíbios não trabalhão; para os fervorosos a antecipação da morte é repouso. Minhas imperfeições Vos são patentes, Senhor, mas o desejo da emenda que tenho Vos é aceito. Talvez digas como posso adiantar-me espiritualmente, pois tenho inveja de meu irmão que me excede? Se sentes tê-la, e não dás consentimento a tal tentação, há de extinguir-se; não te detenhas analisando a culpa voluntariamente; quero dizer que não suponhas má intenção ou não amesquinhes as boas obras de teu próximo, pois querendo tu medrar mais, embora faças obras excelentes que excedam as dele, te há de prejudicar esta paixão que nutres.

Não tem que temer a condenação quem não emprega os membros de seu corpo em armas do pecado, nem a língua em murmurar, etc. antes se vexa de ter sido mal inclinado, e trabalha por arrancar de si o vício nele radicado, confessando-o, chorando-o, orando, e busca ser manso com todos e humilde em si. Quem há de exprobrar o que aprendeu com o Senhor a ser manso e humilde de coração? Não se perde quem imita seu Salvador.

Quase sempre permite Deus que seus diletos amigos tenham alguns defeitos, de ordinário são fáceis de enfadar-se, agastar-se, para que se conheçam a si e se façam conhecer aos outros; assim fica escondida a graça que lhes deu, e se conserva como o fogo debaixo da cinza. Para que eles completamente conheçam que não são nada, permite Deus que se encolerizem quando ouvem palavras ásperas e ofensivas; disto procede que pouco se estima, o mesmo fazem os que ouvem ou sabem tais coisas; desta forma se submergem no próprio nada; não se atemorizem, pois os servos de Cristo, pois por meio da humildade se podem emendar de seus defeitos, sendo para o futuro mais acautelado.

Quando estamos fora do perigo, convém exercitar alguns atos de verdadeira confiança em Deus, para a acharmos nas ocasiões necessárias; como seja a da morte, pois morrem tranquilos os que se habituaram aos atos de confiança em Deus.

Nenhuma tristeza, embora grande, angústias, multidão de defeitos, gravidade de culpas te conduza à desesperação ou demasiada pusilanimidade; por mais que, tenhas pecado, lembra-te que a misericórdia de Deus infinitamente excede tuas maldades; por mais fraco que sejas sempre sua bondade está disposta a ajudar tua fraqueza. Deus quer e pode curar-te, livrar-te, se deveras te converteres e com humilde confiança o implorares.

Ah! Quão saudável é para o homem, quanto agrada a Deus, a esperança e confiança que nasce do amor que se Lhe tributa, e da humildade que excita o homem, não à negligência e descuido de se emendar, mas a combater a culpa com fortaleza!

Ainda que sejamos pecadores endurecidos, ou mui imperfeitos, porque não recorremos a Deus com humilde e inteira confiança? Não é o pélago da misericórdia e bondade? Sem dúvida é mui justo que do íntimo do coração amemos nosso Salvador e Pai. Vemos que O ofendendo nós diariamente com pensamentos, palavras e obras, nos acolhe com gosto, e com boa vontade nos perdoa, se O procuramos deveras. Alto dom de Deus é firme humilde e amorosa confiança nEle, quem a tem sai felizmente desta vida.

Se verdadeiramente nos desagradam os pecados, e humilhando-nos desejamos emendar a vida, agradar a Deus, não será para nós Juiz severo, mas Pai misericordioso; pois Lhe apraz perdoar, remir, salvar; não procede conosco como merecem nossas culpas, não nos castiga pela medida das nossas maldades; tanto dista o Céu da terra, quanto Sua misericórdia se expande a favor dos que temem e reverenciam Sua justiça; como os pais compadecem-se dos filhos assim faz nosso bom Senhor. Nunca mãe alguma amou tanto seu único filho como o piedosíssimo Jesus Cristo, Salvador nosso, ardeu e sempre arde em veemente e incompreensível fogo de amor por Suas criaturas, a mínima faísca deste inundaria nossos corações; porém nós ingratos O ofendemos cada dia de muitos modos, e nem por isso o Senhor nos repele; antes se nos humilhamos, suave e benigno nos enriquece com inumeráveis benefícios. Apesar de às vezes consentindo em culpa mortal violentamente nos apartarmos do Senhor, todavia nos permite que o demônio nos arraste aos eternos tormentos, antes com admirável paciência espera que o pecador se converta.

Se considerássemos Bem a imensa piedade e misericórdia que Deus usa conosco, todos penetrados de amor nos esqueceriam de nós mesmos e das criaturas, não poderíamos amar mais nada senão o amantíssimo Redentor, que nos criou à Sua imagem; e sendo a Majestade suprema, por nos amar muito, se fez homem, e trinta e três anos trabalhou pela nossa salvação, enfim padeceu ignominiosa Paixão, derramou seu precioso Sangue, e morreu no patíbulo da Cruz; amemos, pois a quem nos amou e ama; se não podemos ainda amar o Senhor com extremo, desejemos amá-lO assim, e não cessemos de Lhe pedir esta graça.

Quando te falta a luz espiritual, a devoção sensível, e te vês pobre, tíbio, parece que desamparado por Deus; ou fatigado de alguma tribulação ou contrariedade, e te afliges com a nudez de tua alma, pensando que não podes perseverar nos pensamentos santos, não te persuadas que desagradas ao celeste Esposo; por que então lhe és fiel não buscando vãs consolações, e sofrendo aquelas trevas e secura espiritual com paciente humildade, e reprimindo a preguiça, ocupas utilmente o tempo, desta forma agradas ao Senhor; quando estiveres neste estado resigna-te à vontade divina, espera com segura confiança o conforto divino, dizendo com o Santo Jó; ainda que me atravessais a garganta com um cutelo em vós esperarei, nesta obscuridade são enfadonhos quaisquer exercícios espirituais, mas muito agradam a Deus, e aproveitarão a tua alma, cooperando teu esforço.

Amar-Vos-ei Senhor, ao nível da graça que me concederdes, e das minhas forças; se não Vos amar quanto devo, dai-me alentos vivificadores para meu amor crescer; aceitai, porém minha boa vontade.

Nunca o homem espiritual há de pensar que está longe de Deus, pelos defeitos que tem, por sua natural fraqueza, ou porque não pode praticar um método de vida mais austero, ou pela desigual disposição que tem no serviço divino, estando ora fervoroso ora tíbio no exercício das virtudes; busque sim com suma diligência desarraigar de si as culpas graves, os defeitos maiores, em caso algum consinta em transgressões dos mandamentos de Deus; enquanto perseverar neste propósito, não tema estar longe do Senhor.

Sucede a muitas pessoas que esmerando-se nos exercícios pios, e com boa vontade convertendo-se a Deus, sentem tal perturbação que não podem rezar o Pai Nosso e a Ave Maria sem que o demônio os inquiete, e deixam a oração pensando que não lhes aproveita sendo feita com tais defeitos e maus pensamentos. Erram nisto, obedecem a seus inimigos que só anseiam por desviá-los da devoção. Ignoram que orando com desassossego e afanosa tristeza, contentam a Deus; implorando-o entre lutas e desalentos, agrada aos olhos divinos, e movem o Senhor a favorecê-los. Então nenhuma obra boa se há de deixar, nem oração, e tudo será aceito pelo Senhor.

Acontece o mesmo do que ao mancebo com o indômito e bravo cavalo atado a uma corrente, quando fatigado de contínua luta sem achar meio de se escapar, perde o ânimo e começa a mostrar-se manso e dócil; semelhantemente os devotos que longo tempo resistem às adversidades e ainda não estão bem resignados à divina vontade para suportar quaisquer trabalhos, permanecem aflitos; mas convém-lhes sofrer até se radicarem na paciência que Deus exige, resignem-se, pois tais devotos ofereçam-se para padecer estas provações todo o tempo que aprouver a Deus, pedindo-Lhe humildemente auxílio e fortaleza.

Muito contenta considerar-se quão suave e amorosamente dispõem e ordena todas as coisas a Sabedoria eterna; pois aqueles que sofrem desta forma, julgam que os atrasa espiritualmente a tribulação, mas o Senhor a permite para seu proveito; diminui-lhes as penas do Purgatório, e lhes alcança maior prêmio; embora pensem que fazem muitos pecados, diante de Deus são verdadeiros Mártires; pois ninguém duvida que esta aflição prolongada dói mais do que um cutelo que velozmente atravessa a garganta. Finalmente padecer trabalhos é indício de grande amor, o que prova a Sagrada Escritura, e também a abundância de graças, revelação de segredos, por conseguinte hão de sofrer-se não só com paciência, mas com boa vontade, pois é certo que esta amargura momentânea obtém a eterna glória.

Muitas vezes permite o Senhor que pessoas espirituais, pensam que não o é, acham-se fracas e miseráveis, do que lhes resulta proveito; se conhecessem seu estado se encheriam de gosto; mas como o ignoram, vivem com temor e humildade, até chegarem ao grau de virtude em que por coisa nenhuma do mundo quereriam ofender a Deus, e prefeririam a morte ao pecado.

Que futuro espera tais atribulados? Saindo deste vale de lágrimas, o Salvador os leva consigo para Seu reino, na ocasião da morte os regala e suavemente os consola e lhes dá os prelúdios dos eternos gozos, e morrem em paz.

Outros devotos se afligem pensando que não fazem bem o serviço de Deus, e assim inutilizam suas fatigas, por isso perdem a paz de espírito, ficam inquietos e melancólicos, tais ideias procedem às vezes de natural disposição ou do temperamento, e até dos artifícios do demônio, que busca perturbar os justos, convém que a mansidão, e lícitas diversões combatam a violência destes sentimentos desanimadores. Neste caso procedam como os homens quando há tempestade, ou chove pedras, que se recolhem debaixo do telhado, até que cesse; assim deve fazer quem sente tribulação, e só quer amar a Deus, sofra-a com tranquila resignação, despojando-se do próprio gosto e confiando no Senhor; embora dure um mês, muitos meses, um ano ou mais ainda.

Quem sabe o modo e caminho porque Deus quer conduzir o devoto e comunicar-lhe suas graças e dons? Permaneça o atribulado entregue à vontade divina, a que essência que mais lhe apraz do que a devoção sensível, e o oferecimento diário de virtudes, e a ilustração da luz divina; visto que na secura espiritual o devoto não pode praticar tanto bem como na abundância da consolação, a que frequentemente se aferra com demasia, o que o faz pecar.

Muitos destes atribulados me dizem: Padre padeço muito, não vou pelo caminho reto da salvação, respondo-lhes que vão bem e que Deus os favorece bastante. Não, penso que por minhas culpas sofro assim, eu lhes digo, ainda que assim seja, conformai-vos com o divino beneplácito, que aproveitais mais do que com o gozo da devoção sensível.

Neste penoso estado sente aumentar as tentações que estavam sujeitas, e quase vencidas; renovam-se com ímpeto, investem o fraco batel, como as ondas, e o molestam; mas peço-vos que não percais o ânimo, devoto, que assim fordes combatidos, lembrai-vos do que disse Jó: Depois das trevas espero a luz; cumpre recolher-vos espiritualmente, não divagar pelas coisas exteriores, sofrer as tentações até o fim, sem recorrer a distrações mundanas, que muito prejudicam.

As tribulações dos varões justos são variadas; algumas extraordinárias, tem tentações que nunca imaginaram, alenta-te porém, alma devota, pois entre milhares de corações, Cristo escolheu o teu, entra nele ocultamente, e quando convém, substitui à angústia nova e jamais experimentada suavidade, acolhe o atual sofrimento como se fosse teu inferno ou Purgatório; pois a alma purificada voa logo para o Paço do celeste Reino, onde mil anos são mais breves do que um dia.

Prefácio do livro O Conforto da Alma Devota

Refletindo eu que muitas almas tem o prejudicial erro de acreditar que a santidade e perfeição cristã são mui difíceis de adquirir, senti o impulso de escrever este opúsculo para desenganá-las.

É erro mui nocivo, porque amedronta e desvia de se procurar a própria santificação, além de não se tornarem santos, continuam a permanecer em seus defeitos e culpas os ânimos medrosos. Desejo que este livrinho seja adaptado ao entendimento de todos, pois Deus quer que todas as almas sejam santas, nas diversas condições e estados, penso que há algumas necessitadas de pios esclarecimentos, antes de certas advertências e reflexões acerca do modo de conseguirem a própria santificação, por isso busquei estilo singelo, próprio até para as pessoas ignorantes e pouco inteligentes, que não podem ler volumosos tratados, e não tem capacidade para compreenderem raciocínios subtis. Intitulei este opúsculo Conforto da alma devota, pois a estas se dirigem minhas palavras, e julgo ser o meio melhor para confortá-las no caminho da perfeição, persuadi-las que não é mui dificultosa de conseguir. Se alguém desconfiasse que eu não tivesse considerado bem a sentença do Salvador no Cap. 7, v. 14, de São Mateus: Quão estreita é a porta e apertado o caminho que conduz à vida eterna! Quam angusta porta et arcta est via quae ducit ad vitam! Bastante a meditei e vi que são os inimigos da Igreja que entendem estas palavras de Cristo como expressão de quanto é difícil e talvez impossível, entrar por aquela porta e seguir o caminho que conduz ao Céu. Eu a entendo no sentido católico, como São João Crisóstomo, que a porta e o caminho sejam estreitos, não para as almas devotas, sim para as pessoas mundanas o sensuais, que não querem enfrear suas paixões. Não se interpretando assim, se diria (o que seria blasfêmia) que esta sentença contradiz outra de Cristo: Jugum meum suave est, et onus meum leve.

Peço, porém que se observe meu intento, que não é escrever um tratado sobre a perfeição cristã (a pequenez do volume assaz o indica), sim desvanecer o engano das que lhe acham demasiada dificuldade. Quisera eu que extirpada tal ilusão, mais almas se decidissem a trilhar este caminho, exortando-os a conhecerem a beleza da perfeição cristã e os dois meios mais necessários para adquiri-la, e que julgo mais próprios para o meu fim, deixando o resto que falta para se suprir com a leitura dos excelentes livros que temos a este respeito, e para as pessoas que não leem, supriram as prudentes admoestações dos Diretores espirituais. Acho útil esta advertência para que se não considere deficiente meu trabalho e por isso seja desaprovado.

Escrevo no fim um apêndice sobre a tranquilidade e confiança que deve acompanhar o santo temor de Deus, porque, me parece harmonizar-se com o meu intento.

Oração final de confiança em Deus¹

Se considero o grave peso das enormes culpas que já cometi, e minha atual tibieza, com tantos motivos e estímulos para converter-me, e as graças que Deus me tem distribuído com divina generosidade, vendo também a estreita conta que darei a Cristo Juiz até de qualquer palavra ociosa tremo de pavor… E quase desespero de obter a salvação! Logo me recordo das dulcíssimas palavras de quem conhecia bem o Senhor, e melhor do que ninguém apreciara sua inefável bondade, o seu Discípulo amado, que diz: Filioli mei, haec scribo vobis, ut non peccetis; Sed et si quis peccaverit,advocatum habemus a pud Patrem Jesum Chris- tum justurn, et ipse propritiatio pro pecatis nostris. Eu não posso gozar completamente o fruto que o Apóstolo queria que se tirasse de suas palavras, sendo já réu de muitas e graves culpas, porém espero converter-me e salvar-me, pois a Vós recorro amabilíssimo e piedosíssimo Jesus, como a Deus Vos adoro, e também como Advogado dos pecadores. Apesar de ser grande pecador, sinto nascer em meu coração grande confiança de escapar à condenação eterna, e salvar-me, pois tanto fizestes e sofrestes por mim meu amado Redentor! Como se possível que o Pai Eterno me repila de si, e de Vossa beatíssima presença, se Vós lhe oferecestes por mim Vosso sangue e os méritos da Vossa vida? Isto me infunde ânimo e livra da desesperação. Bom Jesus, meu refúgio, Advogado, Protetor, eu recorro a Vós também para a hora da minha morte. Salvai-me, meu Salvador, livrai-me do inferno, meu Redentor, arrancai-me do fundo do abismo, meu Libertador. Peço-Vos isto com firme confiança de bom exito, pois Vossa doutrina é a base da minha esperança: Petite et datibur vobis, quaerite et invenietis, pulsate et aperietur vobis; omnis enim qui petit et qui queerit invenit, et pulsanti aperietur. Pedi, e recebereis, procurai e achareis, batei, e abrir-se-vos-ha; pois quem pede recebe, quem procura acha, e a quem bate se abre.

Senhor peço Vossa graça, procuro Vossa eterna glória, bato á porta da Vossa piedade, para obter o perdão de minhas culpas.

Imploro Vosso Eterno Pai pelo Vosso Santo Nome, oferecendo Vossos merecimentos, peço a minha salvação eterna, e as graças espirituais e temporais de que preciso, enfim peço tudo que quereis que eu Vos peça. Por Jesus Cristo, Nosso Senhor. Amém.

1. Oração adicionada pelo tradutor a obra de Luís Bloiso. Traduzida do Italiano

Conclusão do livro O Conforto da Alma Devota

Alma devota está finalizada a obrazinha que empreendi para vosso conforto, e vos animar, e em parte dirigir pelo caminho da perfeição. Espero ter-vos persuadido que Deus quer que seja santa, não com a simples santidade que consiste na isenção do pecado mortal, mas com a aperfeiçoada, que é a completa união com Sua divina vontade, sabeis agora que não é mui árdua de obter, e que não há coisa de maior beleza e utilidade na terra nem no Céu, e fica mais resolvida a empregar os meios com que se adquire! Se ainda não está bastante convencida, nem completamente decidida, relei este livrinho, suplicando ao Senhor que vos sugira no coração estes sentimentos, e ilumine vossa mente, o que eu não soube nem pude infundir-vos com as minhas diligências.

Pedi a Maria Santíssima que interceda por vós; como nestes sentimentos e luz consiste a verdadeira sapiência, repeti, até que vos atenda: Sedes Sapientae, ora pro nobis.

Fazei-me a esmola de recompensar a boa intenção com que escrevi este livrinho, rezando por mim uma Ave Maria.