Capítulo 8. Expõem-se as objeções que se costumam apresentar contra esta doutrina - Bálsamo Espiritual

I
A prática dos Conselhos Evangélicos não é necessária para a Perfeição Cristã

Não obstante o que se disse alma devota, talvez penseis que para possuir a perfeição, a santidade perfeita, se exige muito mais; primeiro que tudo perguntais que valia dou aos Conselhos Evangélicos, que não mencionei, e que hão de ter o primeiro lugar quando se trata da perfeição. Se os julgais indispensáveis, estais enganada. Primeiro, como diz Santo Tomás, só é preciso para a santidade à obediência aos mandamentos (ver Sum. Teol. 2-2 que. 184 a. 3) tão grande autoridade deveria bastar-vos, porém quero convencer-vos com razões evidentes. Os Conselhos Evangélicos são três, Pobreza, Obediência, Castidade perfeita. Porém se fosse verdade que a prática destes conselhos fosse necessária para se obter a santidade, talvez que só os frades e freiras pudessem aspirar a tal glória. Dela seriam excluídos os casados e todos que não sujeitam a mãos alheias a vontade própria, nem vivem de esmolas. Neste caso não seria verdade que Deus quer que todos sejam Santos, como em vários lugares afirma a Sagrada Escritura, pois não quer que todos os homens pratiquem os Conselhos. A ordem de sua Providência quer que uns observem a continência, outros se casem, sejam ricos, pobres, não desaprova o Senhor que algumas pessoas se governem a si, aprecia, porém os que se submetem à obediência sacrificando a vontade própria. No entanto, quer que todos se tornem Santos. É, pois, um erro verdadeiro pensar que os Conselhos Evangélicos são necessários para a santidade.

II
Para a perfeição cristã não se requerem dons e graças extraordinárias

Os que têm o hábito de ler vidas de Santos, ficarão surpreendidos que eu reduza a santidade a coisas tão simples como seja evitar o pecado venial completamente deliberado, e procurar nas coisas indiferentes, não ordenadas nem proibidas, o maior gosto do Senhor, costumando a santidade estar unida a dons e graça extraordinárias que surpreendem e admiram. Lembram-se eles dos êxtases, profecias, discernimento dos espíritos, ciência infusa, penitencias singulares, etc., e pensam talvez que eu me esqueci de tudo isto. Pensais que tais dons são necessários para se conseguir a santidade? É novo erro: estas graças se encontram na vida dos Santos, mas não constituem a santidade. Entre as almas privadas destas graças extraordinárias há bastantes, muito mais perfeitas e merecedoras de maior glória no Paraíso do que as primeiras. Por isso Santa Tereza afirma que as encontraremos no Céu elevadas acima das que tiveram na vida o privilégio de admiráveis dons. Convém observar que às vezes até os maus tiveram algumas destas mercês singulares, como o ímpio Balaão que teve o espírito de profecia; ensina São João da Cruz “que as revelações e visões, os êxtases, o discernimento dos espíritos, e todas as graças que se chamam gratis datae, não poucas vezes se ajuntam com o pecado mortal“; de tais dons foram privados os maiores Santos, como São João Batista, que não fez milagres em toda a sua vida: Joanne quidem signum fecit nulum (Jo 10, 41). Não se sabe que o grande Arcebispo São Carlos Borromeu tivesse êxtases em suas fervorosas orações; os mestres espirituais concordam que não se devem pedir a Deus tais dons, pois desejá-los é ordinariamente sinal de soberba.

Se pensais que para ser santa é preciso ter êxtases, passar noites inteiras orando, trazer cilicio, dormir pouco no chão duro, passar dias inteiros sem comer, e fazer outros atos singulares, estais em grande erro. Para ser Santo deve ter-se o espírito de oração, mas não é preciso empregar nela noites inteiras; fazei a oração que o Diretor espiritual vos ordena, e bastará, embora não seja mui longa, nem importa se a fazendo em vez de gozar raptos e êxtases estiverdes amofinada com tentações e contínuas distrações. Para ser Santo é mister ter-se o espírito da mortificação, praticai as penitências ordenadas, ou permitidas pelo Diretor, ou aquelas que pela sua simplicidade se podem executar sem licença, como abster-se de comer uma fruta, ou outra iguaria saborosa, de olhar para um objeto curioso, de ouvir música, mortificações que não podem ter nenhuma consequência má, e ficai tranquila sem aspirar a mais, persuadida que se fizerdes outras por capricho, em vez de ajudarem a santificar-vos, vos farão soberba, e vos prejudicarão espiritual e corporalmente.

III
Deus quer que a maior parte dos homens sejam Santos para si e alguns o sejam também para os outros

Talvez achais ainda dificuldade em persuadir-vos desta doutrina, não entendeis como o Senhor quer que sejais santa, faltando-vos, porém os dons extraordinários que realçaram a vida dos Santos. Mas observai que Deus quer que todos sejam Santos porque deseja que todos os homens entrem no Paraíso, e sabe-se que lá só se admitem aqueles que o são, há criaturas que o Senhor quer que se santifiquem para si, outras as destina a serem Santas para seu bem e dos próximos. Vou explicar-me: quer o Senhor que algumas almas adquiram a perfeição para que tenham muita glória no Paraíso, e delas só exige o desempenho de seus deveres, e o bom exemplo que cada pessoa é obrigada a dar ao próximo, por isso quer que a sua santidade resplandeça a seus divinos olhos, e não aos do mundo; e vede que o número destas é maior, embora seja pouco conhecido, pois não se distinguem com aparências admiráveis e extraordinárias. Quantas há (nós que dirigimos as consciências o sabemos, e louvamos o Senhor) quantas há não só entre os religiosos, mas entre os casados, ricos, pobres, sábios e simples que mais facilmente vivem muito humildes! Almas piedosas que vos afligis vendo no mundo os maus tão numerosos, que insultam e desprezam o bom Deus, consolai-vos, pois, ainda há muitos cristãos mui bons em todas as classes, que fielmente servem o Senhor buscando a perfeição, e são mui santos a seus divinos olhos, apesar de não brilharem aos dos homens. Ah! Quantos destes vereis elevadíssimos no Céu, que pouco se distinguem na terra! Consolai-vos, e procurai fazer parte deles.

Não vos deve admirar isto, pois é mais santo perante Deus, e merece mais glória no Céu, o que tem fé mais viva, esperança mais firme, maior e mais ardente caridade, e a fé, a esperança, a caridade, são virtudes internas da alma que podem ser mui grandes, apesar de pouco aparecerem exteriormente. Com efeito, sabemos que Santa Maria Madalena de Pazzi no êxtase em que viu a admirável gloria que São Luiz Gonzaga gozava no Céu, não a atribuía a seus rigorosos jejuns, horríveis disciplinas, nem a suas longas vigílias, mas a sua santidade interior.

“Oh! Que glória tem Luiz, filho de Inácio! Exclamava ela. Não o acreditaria se vós Jesus meu, não me tivesses mostrado, de certo modo, me parecia que não havia tanta glória no Céu, quanta vejo que tem Luiz. Ele é um grande Santo… possui tanta felicidade pelas suas virtudes interiores. Quem pode narrar sua valia, e o mérito dos sentimentos da alma? Não há comparação entre o interno e externo”

Deus quer que outras almas (que são poucas em comparação das mencionadas) sejam mui santas, não só para si mesmas, mas também para os outros, e resplandeçam como exemplo de admirável santidade, que atraindo a atenção do mundo manifestam as riquezas e energia da graça que as enobrece. A tais almas Deus faz mercês inauditas de sublime meditação, em que chegam a passar dias e noites em oração contínua, e êxtases e raptos espirituais, em que seus corpos, semelhantes a leves penas, se levantam da terra; de estupendas mortificações com que passam quaresmas inteiras sem nenhum alimento, ferem-se com duras disciplinas e cilícios, não dormindo quase, e o pouco repouso que dão a seus membros desfalecidos o tem na terra nua, nas tábuas e sobre pedras; a estes revela coisas ocultas e lhes faz predizer as futuras, concede-lhes o poder de sarar moléstias e até imperarem sobre a morte. Bendito seja o Senhor, que sempre exaltou a Igreja com admiráveis exemplos de santidade! Sempre os houve em todos os séculos, como refere à história, e sem dúvida ainda os há agora como se pode provar com fatos evidentes, que igualmente enriqueceram nosso século no futuro.

Nestes modelos de elevada santidade admiramos a grandeza da Onipotência divina, a extensão da misericórdia, a profundidade da sapiência de Deus. Vendo que esses filhos de Adão sujeitos a nossas misérias e fraquezas, chegaram a tal elevação por meio da graça divina, nos animamos nas dificuldades da vida atual tão infeliz, e confiamos que será possível vencer os obstáculos que surgirem na estrada do Céu, se praticamos algum bem é preciso que nos humilhemos profundamente em sua comparação, pois nossas boas obras quase nada valem comparadas com as dos Santos. Não podemos ter a pretensão que Deus nos coloque entre eles. Ouvi São Francisco de Sales (Serm. b. de Cinzas):

“Nesta vida são eleitos para terem vida celeste, que se deve considerar com reverência, não para lhes imitar os exemplos, mas para agradecer a Deus as graças que lhes tem feito”

Citando os exemplos de São Paulo eremita, e de São Simeão Estilita, disse que foram impelidos por especial inspiração do Senhor, e a todos apresentam «um espelho e prodígio de virtudes, para serem, admirados e não imitados».

IV
Demonstra-se que não podemos aspirar que Deus nos escolha para sublimes modelos de santidade

Não há motivo para pensarmos que Deus nos conceda as singulares mercês acima indicadas, que não são necessárias para nossa santificação, e que talvez conforme as adoráveis disposições da sua Providência não nos são destinadas. Seria verdadeira soberba não nos contentarmos com a santidade que faz as almas boas e santas aos olhos da Divina Majestade, querendo também as graças admiráveis que nos fizessem brilhar perante o mundo? Refleti que o desejo de sermos mui santos aos olhos de Deus procede da humildade, mas o de sobressair aos dos homens é soberba.

Pensais que os grandes Santos eleitos por Deus para fachos luminosos da Igreja, por isso enriquecidos com extraordinárias graças, as desejassem? Quanto vos enganais se pensais assim! Bastam estes dois exemplos que dispensam outros.

V
Exemplos de Santos que por humildade sentiram pena de terem dons extraordinários

Santa Maria Madalena de Pazzi foi favorecida por Deus com muitas graças singulares, além de outras, a de fazer extraordinária mortificação na comida, e nisto sobressaía às freiras suas companheiras; pensais que ela pedisse ao Senhor tais mercês? Sentia muito singularizar-se, desejava que o Senhor lhe permitisse comer o mesmo que a comunidade, porém esqueceu a este modo de viver extraordinário, quando em um êxtase soube que era vontade expressa de Deus, que ela fizesse tais jejuns, e que se tivesse recusado obedecer-lhe, o Senhor afastaria dela seus divinos olhos: Si hoc non facies retraham abs te oculos meos.

São José de Cupertino foi também um dos Santos que receberam do Senhor as maiores graças. Profetizava os sucessos futuros, conhecia o fundo dos corações, gozava suaves êxtases e estupendos raptos, de seu castíssimo corpo rescendia prodigiosa fragrância, e fazia curas milagrosas, todos o veneravam como Santo, e apesar de ser um humilde frade, o honravam até os príncipes; talvez que São José tivesse desejado tais dons, ou anelava pela sua permanência? Pelo contrário, implorava fervorosamente o Senhor que se dignasse privá-lo destas graças singulares desejando ter vida comum sem se distinguir dos outros. Esta alma elevada à sublime grau de santidade poderia sentir desgosto sendo favorecida por Deus com tais graças, se as achassem úteis para ter o perfeito amor de Deus? Não estaria antes contentíssimo, o continuamente pediria ao Senhor que lhe concedesse cada vez maiores dons deste gênero, pois seu único voto era que seu coração se abrasasse cada vez mais nesta divina chama, e crescesse em perfeição. Ouvi Santa Tereza:

“Quem recebe muitas graças e dons sobrenaturais não merece por este maior glória, mas fica mais obrigada a servir a Deus”

VI
Conclusão da resposta às objeções

Vede, pois, que vos iludis supondo que eu pretenda fazer-vos alcançar a santidade por caminho diverso do que seguiram os Santos.

Persuadi-vos que eles não chegaram a alto grau de perfeição perante Deus por meio de dons extraordinários e milagres, sim pelo exercício das virtudes cristãs e completa uniformidade com a vontade divina. Mostrai-me que Deus vos quer meter no número dos poucos que se dignou escolher para brilhantes faróis do mundo, por isso os exalta com santidade que resplandece à vista dos homens, trilhando a estrada extraordinária dos Santos, cujas vidas lemos. Se pertencer à classe dos simples cristãos, chamados por Deus para a santidade que aparece a seus divinos olhos, e não há de manifestar-se aos do mundo senão no dia de juízo, contentai-vos seguindo o caminho ordinário, não aspireis à coisas mais altas, se não quereis ser soberba em vez de santa. Se a galinha quisesse voar como a águia sobre as nuvens, não zombareis da sua presunção? É preciso ter as asas da segunda para voar como ela.

Enfim, para sermos santos, até grandes Santos perante Deus, não é preciso fazer nada extraordinário, desta forma se facilita muito a estrada da perfeição.

VII
Desvanece-se o obstáculo da fraqueza humana, impedindo chegar-se à Perfeição

Embora não se exijam dotes maravilhosos para se conseguir a perfeição, e baste abster-nos do pecado completamente deliberado, grave ou leve, e procurar até nas coisas indiferentes o maior beneplácito do Senhor, talvez penseis que é gravíssima dificuldade para a fragilidade e fraqueza humana, que torna mui difícil à exata e plena execução da Lei divina. Não temais, cobrai ânimo, pois tal dificuldade é mais aparente do que real. Dizei-me se considerais nossa fraqueza abandonada a si mesma, ou fortalecida e animada pelo auxílio Onipotente da graça de Deus? Se falais da fragilidade humana entregue a si, tende razão, eu creio firmemente que não só é mui dificultoso, mas até impossível a prática de todos os preceitos da Lei de Deus, porém, se considerar tal miséria fortalecida e amparada com a graça Onipotente de Deus, errais muito, achando difícil demais a prática do toda a Lei divina. É mui árduo, quase impossível, que um menino levante da terra um grande peso, mas com o auxílio de um homem robusto facilmente o levanta. É artigo de fé que a força da graça de Deus ajuda nossa fraqueza, fortifica nossa fragilidade, para podermos cumprir todos os mandamentos. Atendei a consoladora doutrina do Concílio de Trento:

«Deus não manda coisas impossíveis, ordena-te que faças o que podes, e peças o que não podes, auxilia-te para poderes. Seus mandamentos não são onerosos, seu jugo é suave e seu peso leve»

Consoladora doutrina, revelada pelo Espírito Santo, e infalível. Também é artigo de fé que Deus não permite que sejamos tentados além de nossas forças, fortalecidas com sua graça. Ouvi também as tranquilizadoras palavras ditadas pelo Espírito Santo a São Paulo:

“Deus, é fiel, e não consentirá que sejais tentados acima das vossas forças, antes vos aperfeiçoará com a tentação” (1 Cor 10)

Isto significa que Deus prometeu confortar nossa fraqueza, há de refrear o furor de nossos inimigos, para que seus assaltos não nos vençam, e com Sua graça nos favorece para sairmos da tentação mais fortes e vigorosos do que éramos como o soldado que chegando vitorioso da batalha adquire maior valor para as outras. Santa Tereza dizia:

“Não me dão cuidado as perturbações de uma alma quando a vejo em grandes tentações, pois se tem temor e amor a Deus, há de tirar delas muito proveito”

O que quer dizer que somos fracos e débeis? Significa que se a graça de Deus nos abandonasse ficaríamos impossibilitados da completa observância da Lei de Deus, mas não que esta seja difícil demais, auxiliados com a graça celeste. Considerai também que Deus quando quer conceder a uma alma qualquer virtude em grau eminente ordinariamente permite que haja mais fortes tentações contra esta, como fez com São Paulo, nam virtus in infirmitate perficitur, por isso se tendes violentas tentações contra a fé, é porque o Senhor vo-la quer dar mui viva, o mesmo costuma suceder acerca da castidade, se vo-la destina mui perfeita.

Mui refletidamente se deve meditar isto, pois bastantes devotos desanimam de alcançar a perfeição, por que avaliam suas forças e não as da graça de Deus. Compreendamos bem esta grande verdade, nós nada somos nem podemos, porém com a graça do Senhor tudo nos é possível.

VIII
O verdadeiro humilde não desanima por causa da própria fraqueza

Se fôssemos verdadeiramente humildes, não nos havia de amedrontar qualquer dificuldade que achássemos no serviço de Deus, estaríamos intimamente persuadidos, não só de podermos fazer pouco bem, mas até nenhum. O que pode o homem  fazer com os recursos próprios? Absolutamente nada, acerca das coisas naturais como das sobrenaturais, sem a coadjuvação natural de Deus, não pode mover um braço, e sem a sobrenatural, não pode sequer invocar o nome de Jesus. Se estivéssemos bem convencidos desta verdade, não nos desanimariam as grandes dificuldades. Julga isto um paradoxo? Pois é a simples verdade. O homem certo que não tem em si capacidade para fazer nada bom, conhece que só de Deus a pode esperar e receber, tanto para as coisas pequenas como para as grandes e admiráveis. Ele vê claramente que as coisas umas são pequenas, outras grandes no nosso entender, mas perante Deus todas são nada, pois Lhe são fáceis de operar. Para o Senhor é o mesmo fazer cair uma folha ou uma árvore, ou criar um mundo. Então o homem não confiando em si, mas somente em Deus, igualmente se julga capaz de fazer pouco ou muito, e não se desvia do serviço divino. Nosso mal provém de que não sabemos distinguir umas coisas das outras, umas maiores outras menores.

Não aquilatamos nossa incapacidade absoluta para todo o bem, esperamos de nós bom êxito; não refletindo sobre a força do auxílio divino com o qual poderemos tudo, desconfiamos da sua fortaleza. Em verdade não foram os santos que empreenderam e completaram as maiores obras e as mais difíceis, começaram-nas desprovidos de todos os recursos que pareciam indispensáveis? Foram temerários, imprudentes? Não, sabiam que Deus exigia deles aquelas obras para seu serviço, isto lhes bastava, e sabendo que iam trabalhar com Deus, a quem nada é difícil, tinham confiança de desempenhar igualmente as coisas grandes assim como as pequenas.

São Cipriano e Santo Agostinho antes da sua conversão, considerando somente a fraqueza própria, não pensavam poder abster-se do pecado mortal, parecia-lhes quase impossível a obediência à lei de Deus, mas depois de convertidos, viram praticamente que por meio da graça divina, chegaram a evitar o pecado mortal e até o venial, experimentaram que com tal auxílio, não custa muito ser Santo e até grande Santo. São Paulo disse: Posso tudo com a fortaleza que Deus me infunde… Não se limitou a dizer posso fazer algum bem, mas sim tudo. Eles que pensaram livrar-se somente da culpa mortal, para se salvarem a custo, acharam depois fácil evitar as veniais para conseguirem a sublime glória que tem no Céu os que na terra aspiram à santidade perfeita.

IX
O mau caráter não impede que se alcance a Perfeição

Semelhante ao impedimento da fraqueza humana é o do caráter mau, com que bastantes pessoas se desculpam de não trabalhar para chegar à perfeição. Talvez que vós, leitor, no vosso achareis forte obstáculo a superar. Aquilatemos seus defeitos. É talvez caráter colérico, que se irrita com qualquer coisa que o contraria e lhe é desagradável? Os desdéns e injúrias vos acendem no fogo da cólera? Se assim é, vos há de parecer mui árdua a prática da mansidão e humildade, que são virtudes fundamentais da perfeição. Todavia considerai com Santo Tomás (2-2, pág. 158) que nem toda a ira é pecaminosa, alguma é boa. Não acrediteis, diz o Santo, que a ira seja paixão que se compare com a soberba, com a inveja e outros vícios que sempre são em si abomináveis. A ira, é paixão necessária ao homem, diz São João Crisóstomo. A ira, é instrumento da virtude, assegura também São Gregório: o mal da ira consiste em irarmo-nos sem motivo suficiente, ou em demasia. Quem se ira por causa justa e com moderação faz bem. Se alguém tivesse escrúpulo de alguma agitação que por efeito natural nos causa à ira, visto que é impossível irar-nos conservando inalterável a paz interior, observa Santo Tomás, que sendo a ira boa e regulada pelo juízo, a perturbação não é culpa. Esta paixão foi perfeitíssima no divino Cordeiro, Senhor nosso. Tão santa doutrina do Doutor Angélico quis eu expô-la circunstanciadamente, pois há livros ascéticos que por excessivo escrúpulo que se ofenda a mansidão, não permite nunca que os fiéis se encolerizem, não se lembram de que mais de uma vez o próprio Cristo se irou, principalmente contra os Fariseus para quem olhou com ira: Circumspeciens eos cum ira (Mc 3, 5), se fosse a ira sempre culpada, seria imperfeição ensinada pelo divino Mestre.

Segue-se que a ira é paixão que se pode comparar ao amor, que não é mau senão sendo desordenado. Não tem valia a razão que apresentam os que adotam tal doutrina. Que especulativamente a ira pode ser boa, mas na prática é tanto o perigo de exceder-nos e cometer faltas, de forma que é melhor não consentir nela nunca. Um raciocínio destes nos faria tirar a conclusão que no mundo seria sempre melhor não fazer nada do que trabalhar em qualquer coisa. Com efeito, que poderemos fazer sem risco de cairmos em defeitos, e muitas vezes? A ira é uma paixão como o amor, que sendo reto e disciplinado é bom, se é ilícito ou desordenado, é mau. Visto que tanto na ira como no amor se podem cometer e se cometem faltas, seria doutrina reta ensinar que se deve suprimir todo o sentimento de amor pelo receio dos defeitos em que se pode resvalar.

Os pais podem cair em defeitos, e, com efeito, caem amando os filhos, os casados também se amando reciprocamente, havemos de ensinar que os pais não devem ter amor a seus filhos, nem o marido e mulher se amarem?

Nós lhes aconselhamos que se acautelem dos defeitos em que possam resvalar, e em que, tão facilmente resvalam acerca de seu amor, no entanto o aprovaremos e louvaremos como conveniente e obrigatório.

Convém, pois, discernir a ira má da boa. A má se desperta em nós quando ferem nosso desordenado amor-próprio, porém, é justo irar-nos quando há justa causa, sem excedermos os limites de sensata moderação.

A ira lícita se acende em nosso coração quando vemos ofender a Deus, transgredir deveres, menoscabar a virtude. Assim é mister que se encolerizem os superiores para corrigirem as faltas de seus subordinados, e as pessoas inclinadas a pecar, contra os agressores da sua honestidade, e todas as almas amantes de Deus contra a desordem dos pecadores. Elucidada esta matéria, que parece um pouco confusa a algumas pessoas, voltemos ao nosso assunto.

Tendes o caráter mui iracundo? Segue-se, pois que sendo conveniente podeis irar-vos sem custo. Temos muitos exemplos de ira nos Santos do Testamento antigo, quando tiveram causa justa. Foram fáceis em irar-se Noé, Moisés, apesar de serem varões mansíssimos acima de todos os mansos da terra; o homem mais manso que jamais houve foi Davi, também o foram Elias, Eliseu e tantos outros. De ira santa temos bastantes exemplos nos Santos mais célebres da Igreja. Quando se encolerizavam contra os perseguidores que blasfemavam, e queriam obrigar os cristãos a fazerem atos indignos! E também com os hereges, e com facilidade contra os malvados cristãos, ainda mais se eram corruptores dos bons costumes. Quanta indignação revelam as obras de São João Crisóstomo, São Jerônimo e São Bernardo tão melífluo!

Direis que se iraram sem pecar: é o que também deveis fazer com a graça do Senhor. Quando a ira vos surpreende, por alguma desgraça, por qualquer dano, ou afronta, reprimi-a logo que a vedes, não vos irriteis por estas coisas que Deus permite para nosso bem, permanecei desapegadas do mundo, confiando somente no Senhor, e acima de tudo humilhai-vos. Digo que quando percebeis o assalto da cólera, cumpre sufocá-la, pois se não dais fé dela, embora seja má não é pecado. Quando esta paixão vos surpreende, porque vedes que Deus é ofendido, o dever transgredido, e a virtude vilipendiada pelos vossos subordinados, limitar-vos a enfreá-la para que não exceda os limites justos e convenientes, mas não penseis que a deveis extinguir, como fogo que tudo reduz a cinzas; a ira boa é fogo necessário para incutir calor e vida ao zelo da glória de Deus e da salvação do próximo. Portanto, se vosso gênio é iracundo, enfreai-o conforme as regras da razão e da fé, mas consolai-vos porque está mais propensa a acolher as mais vivas inspirações do amor de Deus.

Não penseis que é preciso mudar vosso caráter em sentido inverso, o que não convém pedir a Deus, suplicai-Lhe antes a graça de encaminhá-lo bem, buscando desde já, não vos irar sem motivo justo, e que vossa ira, mesmo justa, não transgrida o dever, acreditai que vossa índole iracunda há de cooperar bastante para a vossa santificação. Se lerdes que algum Santo mudou seu caráter fogoso em outro manso, estas palavras só significam que ele moderou com a virtude da mansidão, os excessos do apetite irascível, o que vós também deveis fazer.

Se me replicardes que cometereis faltas, respondo que de qualquer modo as fareis, seja qual for vossa índole, desvelai-vos em que não sejam deliberadas, e resignai-vos, pois, Deus se contenta com isto.

Não podeis fazer ideia quanta glória gozareis no Céu por meio das lutas com o vosso gênio, para discipliná-lo. Montar um cavalo manso honra pouco o cavaleiro hábil, mas se refreia um fogoso brilha mais, e o último em breve tempo transpõe muito espaço.

Se vosso caráter for extremamente frio, cumpre estimulá-lo quando convier, para que repreensível indolência, falsa mansidão, não vos faça faltar ao dever, especialmente se governais pessoas que deveis vigiar e corrigir. É certo que alguns devotos com o pretexto de mal entendida mansidão e com fraqueza covarde, que apelidam paciência, deixam livremente crescer a desordem, e podendo impedir consentem em ofensas a Deus, mas vós, implorando a graça divina, que é fogo que afervora os enregelados, vigiai atenta no desempenho dos vossos deveres, e não caireis em tal falta, por outro lado podeis consolar-vos, pois estais mais disposta ao exercício da verdadeira mansidão e paciência, virtudes mui necessárias para a perfeição cristã.

Talvez que vosso coração seja mui terno, sensível demais, e com facilidade se afeiçoai com demasia às criaturas, um olhar, uma palavra, ateia o incêndio de grande paixão, que vos faz razoavelmente pensar que não podereis adquirir a pureza de espírito, que não pode separar-se da perfeição. Se for certo que vosso coração seja demasiadamente terno e sensível a qualquer assalto da paixão mais para temer no mísero mundo, não há dúvida que o deveis vigiar com grande cautela, defendê-lo, fortalecê-lo, para que não receba feridas, às vezes incuráveis? Evitai conversações inúteis com pessoas de outro sexo, vigiai vossos olhos, bastei-vos de passatempos e leituras perigosas, fareis assim o que devem fazer todos os bons cristãos embora não sejam sensíveis como vós. Pensais que os devotos menos ternos não devem usar iguais cautelas? Talvez que este às vezes levianamente persuadidos que nada tem que temer na vereda que para todos é lodosa e escorregadiça, com mais frequência tenham que chorar suas quedas. Se aninhardes no coração o santo temor de Deus, a sensibilidade, que vos parece demasiada e perigosa, pelo contrário, vos servirá de defesa e segurança talvez, por que vos conservará prudente e atenta, desconfiando de vós, e solicita em implorar o auxílio divino, em que se funda a isenção da culpa, não na frieza da índole. Por isso se encontram mais corações puríssimos entre os mais sensíveis, como vemos na direção das consciências.

Conhece-se, pois, que as inclinações naturais, exceto as menos retas e viciosas, prudentemente se amoldam à graça, expandi vossa sensibilidade na caridade fraterna espiritual e corporal, mostrando-vos mui compadecida do mal das almas, que é o pecado e das necessidades temporais de vossos irmãos em Cristo, conforme a regra do Evangelho. Desabafai vosso afeto na lembrança de sua dolorosíssima Paixão, no amoroso penhor que temos desta na recepção do Santíssimo Sacramento, nas devotas visitas ao Senhor, encerrado no sacrário, na devoção a Nossa Senhora. Um coração extremoso não poderá assim tornar-se santo?

Se pelo contrário, tendes o caráter duro, insensível, e por isso pouco próprio para as ternas delicadezas da caridade e devoção, não penseis que por isso não vos podeis santificar, visto que o Senhor não exige de vós sensibilidade e ternura, sim amor enérgico, amor sólido que emane da vontade, como já dissemos a uniformidade da nossa com a Sua divina, a qual pode existir perfeita sem meiga ternura. Quando Deus a quer conceder a alguma pessoa não é preciso que tenha índole predisposta. Um coração naturalmente insensível e duro como pedra, por meio de uma amorosa visita de Sua graça, desfaz-se em terníssimos afetos de devoção, como a cera se derrete no fogo, porém, se Deus não quiser favorecer-vos assim, e vos deixar na vossa natural insensibilidade, não vos assusteis. Servindo-o constantemente sem tais doçuras e regalos, sem satisfação sensível, tereis maior mérito, e depois glória imensa. Concluamos as reflexões sobre os diversos caráteres dos filhos de Adão espalhados no universo, que são defeituosos e inclinados para o mal. A graça de Deus tem fortaleza para corrigir e emendar as piores índoles, confiai nela, vigiai vossa consciência, e com o caráter que tendes vos tornareis santa.

X
Prova-se que a abnegação necessária para obter-se a Perfeição, não constitui demasiada dificuldade de a conseguir

Talvez me apresenteis uma objeção que vos parecerá mais grave do que as anteriores. Dir-me-eis que enumerando eu as coisas que se requerem para a aquisição da perfeição omitem a que é seu fundamento, a abnegação de nós mesmos, cuja necessidade tão claramente ensina o Evangelho, e todos os mestres espirituais recomenda com tanto ardor. Direis: poderei ser santa sem contrariar minhas inclinações e vontade? Todavia é mister oprimir todos os meus gostos e vontades, não acharei nesta renúncia gravíssima dificuldade? Pensa que eu pretenda excluir dos meios necessários para santidade à abnegação própria? Só imaginando isto me agravais. Não só acredito que a renúncia de nós mesmos é essencial para a santificação (e já o disse), para não cairmos em culpa mortal, e permanecermos simplesmente na graça de Deus, sem tal abnegação ninguém pode ser bom sequaz de Cristo, que disse: Quem me quer, seguir renuncie a si mesmo. Convém entenderdes exatamente em que consiste esta abnegação essencial. Significa contrariarmos todas as nossas inclinações de qualquer forma desregradas. Isto consiste primeiramente em mortificar as tendências que atraem para o pecado mortal, como a propensão para grande vingança, para a desonestidade; em segundo lugar contrariar o que encaminha para o pecado venial, por exemplo, as mentiras oficiosas, pequenos furtos, etc, e também as coisas que nos impediriam de fazer o que sabemos que mais agrada a Deus, como a inclinação de não ceder alguns pequenos direitos, que podemos manter pelas regras de rigorosa justiça, e dos quais conviria prescindir o bem da caridade fraterna; nestas coisas consiste a abnegação necessária para se conquistar a perfeição.

Direis: deverei mortificar todas as minhas inclinações e desejos, enganais-vos discorrendo assim, tendes desejo de comer, é preciso satisfazê-lo; sentes o de dormir, é preciso dormir; sentis o impulso de ter modesta recreação depois de longas e servias ocupações, é necessário tê-la; só haveis de contrariar as inclinações e vontades que sejam de algum modo desregradas como as que vos indiquei. Se refletirdes bem, tendo-vos eu já ensinado que deveis fugir não só da culpa mortal, mas também da venial, quanto acerca das coisas nem ordenadas nem proibidas, deveis escolher as que sabeis que agradam mais a Deus, já vos ensinei a necessidade da abnegação, mostrando-vos que nestas três coisas não há grande dificuldade, resta-me demonstrar-vos que também não custa muito a renúncia própria. Observai que nestes três atos consiste a abnegação que todos os Santos praticaram, porque apesar de mais insignes na mortificação, não contrariaram de outra forma suas inclinações e vontade, senão nisto que era conveniente para evitar o pecado, e exercitarem os atos de mortificação que sabiam ser do gosto do Senhor, mais ou menos como reclamavam deles as inspirações ordinárias ou extraordinárias, reguladas pelos conselhos de seu Diretor espiritual.

A palavra abnegação entendida em seu rígido e material sentido amedronta a muitos, porque julgam que requer contínua mortificação desprovida de prudência, e que não poderão aguentar muito tempo o esforço da própria renúncia, mas entendida em sua verdadeira significação, conforme o espírito do Evangelho que a ensinou, não para desanimar nem assustar ninguém, pois é a prática da lei divina que é jugo suave e peso leve.

Se lestes obras que falam da abnegação em sentido diverso, exigindo mais do que vos disse, pensai que não são exatas, ou que se expressam com exageração, e por isso deve haver sensatez lendo-as. Eu não temo errar conformando-me com a doutrina de Santo Tomás e de todos os Teólogos.

XI
Combatem-se os obstáculos que se apresentam acerca do desvelo de procurar em todas as coisas o que mais agrada a Deus

Talvez que a maior dificuldade imagina que é procurar em todas as coisas que não são proibidas nem ordenadas, o que seja mais do gosto do Senhor. Parece-vos que tal diligência vos há de ter em contínua solicitude e angústia. Será preciso, direis vós, que viva estudando em tudo o que mais agradará a Deus, esta indagação me causará contínua dúvida, perpétua incerteza que me privará da paz.

Eis outro engano bem grande, pois certamente não se pretende que nós em todas as coisas pesquisemos o que melhor há de agradar a Deus, por exemplo, seria: o Senhor prefere que agora eu vá ouvir Missa ou um sermão? Que eu reze o Rosário ou o ofício dos defuntos? Que esta manhã eu almoce, ou jejue? Que faça esta esmola a um pobre ou a dê para a Igreja? Etc., etc.

Deus me livre de aconselhar tais indagações, para descobrir o beneplácito de Deus; falando em geral seria o meio de submergir as almas em perpétua angústia e confusão. As escrupulosas atendam esta máxima de São Francisco de Sales:

«Não é costume pesar as moedas pequenas, mas só as grandes e pesadas, seria mui oneroso o comércio, e se desperdiçaria muito tempo, se devessem pesar os óbulos, e o dinheiro miúdo, também não se devem investigar todas as ações pequenas para se saber se uma vale mais do que a outra» (Trat. do Amor de Deus)

Em tudo se quer simplicidade e liberdade de espírito. A perfeição requer que façamos as coisas claramente conhecidas como mais agradáveis a Deus, pois segundo a doutrina de Santo Tomás, não podemos estar sujeitos a executar a vontade divina senão quando a manifesta, o que não causa escrúpulos nem aflição. Por exemplo, eu tenho tempo para ouvir Missa todos os dias apesar de não ter obrigação de ouvi-la nos dias da semana, vejo claramente que mais agrada a Deus esta devoção, do que não a fazer. Em certa circunstância vejo que eu poderia pretender que quem me ofendeu me cortejasse primeiro, conheço que por caridade convém que eu o corteje em primeiro lugar. Que ansiedade, escrúpulo poderá suscitar o cuidado de buscar deste modo o beneplácito do Senhor? Basta amá-lO muito e tudo se faz bem.

O filho extremoso por seu pai, não se cansa de contentá-lo em tudo que pode? A filha dedicada não faz o mesmo? E também o servo afetuoso?

Os filhos ou servos perturbam-se por este motivo? Pelo contrário, fazendo as coisas com amor e por amor, fazem tudo plácida e alegremente.

Adquiri vivo amor a Deus, e então conhecereis que em vez de sofrerdes aflição querendo fazer o que é mais do gosto do Senhor, sentireis grande paz unida a muita e doce satisfação. Isto ocorre espontaneamente quando se fez o propósito de nunca desgostardes a Deus, nem com pecado venial, executando sua santa vontade, em coisas grandes e pequenas, sereis inclinada sem esforço a fazê-la. Refleti que o amor vos dará luz para conhecer o beneplácito divino em muitas coisas, que para os tíbios seriam obscuras, pois o amor divino é fogo que encaminha para executarmos o bem com prontidão, pois é fato que ilumina para facilmente vermos o que convém fazer.

Ninguém entenderá estes raciocínios senão os pratica. Combina com esta exortação a sentença de São Francisco de Assis: Tantum scit homo quantum operatur, isto é, o nosso saber espiritual se nivela à prática que dele temos. Se fizerdes tudo que vos digo, compreendereis então a facilidade da execução. Em resumo, citamos Santa Tereza:

«A alma que deveras ama a Deus, conhecendo que uma coisa é de maior perfeição e serviço do Senhor, pelo contentamento que sente em lhe dar gosto, sem custo a faz, dando a divina Majestade ânimo e vigor a sua fraqueza»

XII
Desvanecesse a objeção que os perigos do mundo, e cuidados da família, etc., possam impedir nossa santificação

Se for uma destas almas demasiadamente tímidas e com pouca confiança na divina bondade, podereis ainda objetar-me: como chegarei a santificar-me no estado em que vivo? No meio do mundo, entre tantos perigos, com tantos cuidados na família, trabalhos, negócio como poderá atingir a perfeição? Ouvi Santo Afonso de Ligório na Prática do amor a Jesus Cristo:

«O religioso se deve santificar na sua comunidade, o leigo como leigo, o Sacerdote como Sacerdote, o casado como casado, o soldado como soldado»

Certamente se Deus quer que todos sejam santos há de darem-lhes as graças precisas, para que se santifiquem em qualquer estado que tenham. Tal variedade não existe no mundo por disposição da providência de Deus? Poderemos supor que determinou que houvessem alguns estados em que as pessoas não se pudessem santificar, quando o Senhor a todos destina a santidade? Nada temais, pois, com todas as ocupações da família e dos negócios, no meio dos perigos inevitáveis do mundo podereis, em relação ao vosso estado, chegar à perfeição; já dissemos que Deus concede graça ao nível das necessidades, é tão certo que em todos os estados podem ser santos os homens, que São Francisco de Sales desaprova aqueles, que estando em um estado, se entregam ao desejo, de seguir outro. Ouvi suas palavras:

“Não aprovo que uma pessoa ligada por obrigações ou vocação, alimente-o desejo de outro modo de vida diverso do próprio de seu ofício”

Os fatos confirmam esta verdade, pois entre os Santos que se veneram nos altares, existem de todas as classes e estados.

XIII
Prova-se que os negócios, fadigas, e afã pela família e todas as ocupações do estado, podem ajudar bastante a conquista da perfeição

Não me contento persuadindo-vos que os trabalhos do vosso estado não são impedimento que vos façam perder a esperança de conseguir a perfeição, quero ainda demonstrar-vos que tais deveres muito podem concorrer para obtê-la. Certamente estes são maus em si? Não, não penso que tenhais empregos pecaminosos; as vossas ocupações serão indiferentes, de negócio, estudo, ou de labor manual, ou se viveis de vossa renda, devereis tratar do bom cultivo das vossas terras, da prudente administração da casa, etc., trabalhos que em si não são espirituais nem maus. Pois não sabeis que as ocupações indiferentes quando exercem e suportam por amor de Deus dirigidas e dedicadas a sua glória, são todas santas e meritórias? Julgais perder o Céu negociando, litigando, ou sendo jornaleiro, ou zelando os bens da família, com efeito, podeis desperdiçar o tempo, fazendo estas coisas ou outras semelhantes por fins humanos, sem vos lembrar de tributar glória a Deus, porém, se de vez em quando lhe oferecêsseis vossos trabalhos (será excelente oferecê-los diariamente) pretendendo encaminhar tudo para a glória do Senhor, não seriam logo santificadas pela reta intenção, e mui úteis para vos afervorar no amor de Deus, e reunir méritos para o Céu? Deste modo não ajudarão a obter a perfeição? São Felipe Neri viu um dia alguns jornaleiros que muito suavam e se cansavam no seu laborioso trabalho: para que trabalhais com tal fadiga? Ah! Meu Padre, responderam-lhe eles, para ganhar pão. Não, meus caros, replicou o Santo, não digais que é só para ganhar pão, mas sim pão e o Paraíso.

Por isso todos os vossos trabalhos e as ocupações do vosso estado podem coadjuvar muito vosso aperfeiçoamento espiritual aumentando o amor que tendes a Deus. Ah! Se fizéssemos tudo pelo seu amor, e encaminhássemos para sua glória até as coisas que em si são lama e pedra, se transformariam em ouro, e joias para a vida eterna.

XIV
Combate-se a dificuldade proveniente de nossa indignidade para obter de Deus a graça de sermos santos

Poderá dizer-te o demônio: tens a ousadia de aspirar a grande mercê de ser santa? Não te deverias contentar com o último lugar do Céu? É insensata tal ideia, atendei Santo Agostinho: Ab Omnipotente petitis aliquid, magnum petite. Se pedir alguma coisa a Deus Onipotente, pede grandes mercês, pois custará mais a Deus conceder uma pequena do que grande? Se Deus quer que vos santifiques (de novo o repetimos), terá dúvida em dar-vos sua graça? Ouvi Santa Tereza no Caminho da Perfeição:

«Que mal faz pedirmos muito, visto que se pede ao Onipotente? Seria vergonha pedir a um Imperador poderoso cinco reis»

Para que vos quereis contentar com o último lugar do Céu? O que lá o tiver terá dado na terra menos glória a Deus, e menos lhe dará na Bem-aventurança; por acaso o Senhor não merece que façais por Ele todos os extremos possíveis? A alma que tiver lá o derradeiro lugar estará completamente satisfeita, pois no Céu ninguém pode sentir descontentamento, mas devemos anelar pelo mais elevado por meio da prática da perfeição, para tributar a Deus grande glória na vida temporal e na terna.

Porém tu mereces a graça da perfeição? E os muitos pecados da tua vida passada? E tuas ingratidões, infidelidades? Assim argumentará o demônio; eu também penso que não mereces a glória eterna. Haveis de esperar de Deus o que mereceis? Será a nossa esperança que Deus nos trate como merecemos?

O Senhor nos livre desta espécie de esperança, se for assim, todos estamos perdidos. Devemos esperar pela medida de nossas súplicas.

Dizei-me, alma devota, quereis fazer esta oração: Senhor trata-me conforme meus merecimentos? Tereis ânimo de fazer tal súplica?

Não seria, a mais horrível imprecação contra vós. Pedir ao Senhor que nos trate como merecemos, seria pedir-lhe que nos entregasse nos braços da nossa malícia, e depois lançar-nos no inferno, pois com justiça o merecemos. Havemos de esperar que Deus nos trate deste modo? Isto não seria esperança, sim desesperação. Até os maiores Santos do Céu, se o Senhor os tratasse ao nível de seus merecimentos, que destinos teriam? Onde estariam? Tratou-os conforme os infinitos de Jesus Cristo, que os remiu com seu precioso sangue, e assim chegaram a ser grandes Santos no Céu. Também nós devemos firmemente esperar que se digne tratar-nos conforme seus infinitos merecimentos, maiores do que todos os nossos pecados, ingratidões, infidelidades. Arrepende-te bastante, acautela-te para o futuro, e não impedirão que Deus te conceda a graça da desejada santidade, que te alcançou os infinitos merecimentos de seu Filho Encarnado e depois sacrificado na Cruz por ti. Quantos Santos admiráveis veneramos nos altares, que foram antes grandes pecadores? O que pode neles a imensa misericórdia de Deus não o poderá operar em nós? Enfim convençamo-nos que para ninguém, absolutamente ninguém, é difícil demais obter a perfeição espiritual, que como dissemos, consiste na perfeita união da nossa vontade com a de Deus.

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(Blósio, Venerável Luis; FRASSINETTI, Padre José. Bálsamo Espiritual. B. L. Garnier, Rio de Janeiro, 1888, p. 156-203)