Capítulo 6. Ideia exata da Santidade Cristã - Bálsamo Espiritual

I

Todos os Santos concordam que a Santidade cristã consiste na caridade, isto é na prática da vontade divina, a alma que a executa é santa, que melhor lhe obedece mais santa é. Não se pode duvidar da verdade desta doutrina, e nenhum autor espiritual dela duvidou. Alma devota, vede em que estado e condição estais, se procurais cumprir a vontade de Deus sois santa, e quanto melhor a executardes com perfeição mais santa sereis.

II
Explica-se o que é necessário para a execução da vontade de Deus

O que se requer e exige para a prática da vontade de Deus? Respondo que nada mais nem menos do que a observância dos mandamentos da Lei de Deus e da Igreja, impostos pela autoridade divina; se os executardes bem, obedeceis à santa vontade de Deus, por isso sois santa, tal é a doutrina do Doutor Angélico Santo Tomás (2-2-9-184 a 3).

III
Distinguem-se duas espécies de Santidade

Devem distinguir-se dois gêneros de santidade, a primeira é a simples que consiste na posse da graça santificante, a qual tem todas as almas limpas de culpa mortal. A segunda é a santidade aperfeiçoada, que se baseia na perfeita união da nossa vontade com a de Deus, e faz que a alma aborreça não só o pecado mortal, mas também o venial feito com advertência, e esteja a alma disposta a praticar o que conhecer claramente que é do gosto do Senhor, até em coisas que não estão ordenadas (Santo Tomás 2-2-h. 184 o 2).

IV
Mostra-se que é verdadeiramente santa a alma isenta de culpa mortal

Em primeiro lugar é verdadeira a santidade da alma livre do pecado mortal, ainda que esteja manchada com veniais, isto é verdade de fé, pois neste estado a alma tem a graça santificante, que assim se denomina porque santifica, e é dom de Deus inerente à alma que a faz amiga e filha de Deus, irmã de Jesus Cristo, herdeira do Paraíso, por isso verdadeiramente santa. Cumpre observar que por meio desta graça são santos os eleitos no Céu, até a grande Mãe de Deus, Maria Santíssima, caso perdessem a graça santificante (o que é impossível) não seriam mais Santos no Céu, Santo Tomás ensina que esta
graça é em nós o princípio da glória que teremos no Céu, onde a alma vê claramente a Deus, e se opera assim o complemento da graça santificante.

A alma que não faz culpas mortais contra os mandamentos de Deus e da Igreja, ou se as fez, já alcançou perdão por meio do necessário arrependimento, tem a verdadeira santidade, embora tenha defeitos e pecados veniais, que a não privam da graça santificante. Por consequência é evidente que se enganam aqueles que só avaliam justas e santas as almas que apresentam indícios de singular perfeição, e as que não fazem pecados mortais, mas frequentemente reincidem em defeitos e faltas, não reputam santas nem boas.

Não se pense que convém fazer pouco caso das culpas veniais, que diremos adiante tem muita importância, mas tenho o fito de manifestar melhor a preciosidade da graça santificante, que por si só constitui o homem em felicíssimo estado, como é gozar da verdadeira amizade de Deus, e ainda que seja surpreendido pela morte, é impossível que perca o Paraíso.

Quanto é para desejar que os cristãos conheçam a alta valia deste dom de Deus! Haviam de apreciá-lo extremamente, e não o quereriam perder com leviandades, como às vezes o perde. Oh! Que inestimável ouro é a graça santificante, embora exista em uma alma com a escória de muitas imperfeições e defeitos! Oh! Que pérola apesar de não estar ainda bem limpa e polida. Pouco se preza e guarda um tesouro, mesmo riquíssimo se não se lhe conhece a valia, e com facilidade se deixa roubar pelos ladrões: porém sendo conhecido e estimado guarda-se e defende-se cuidadosamente, e não há força nem astúcia capaz de arrancá-lo a quem o possui. Desejara que todos os Pregadores, Confessores e autores de livros espirituais, tivessem sumo empenho em manifestar aos cristãos a preciosidade da graça santificante.

V
Explica-se o que se exige para obter a Perfeição Cristã

A santidade acima mencionada é a simples, e tem bondade intrínseca, sem a perfeição que lhe convém, assim como o ouro extraído da terra é verdadeiro e precioso, mas está cheio de escória, e não tem o belo fulgor que depois adquire estando purificado. Por isso é diversa a santidade aperfeiçoada, comumente chamada perfeição cristã, que consiste não só na posse da graça santificante, mas também na perfeita união da vontade da alma com a de Deus. Esta santidade aperfeiçoada tem as que despojando-se de todo o aferro desordenado às criaturas estão decididas a não fazer coisa alguma que desagrade a Deus, e sempre vivem dispostas a praticar o que conhecem que é de seu gosto. Por isso, cuidadosas fogem das culpas veniais, e nas coisas que não são formalmente ordenadas ou proibidas pela lei de Deus ou da Igreja, escolhem o que lhes parece mais aceito ao Senhor. Diremos, quando claramente se conhece, porque em geral sabemos as coisas que agradam a Deus, principalmente em si mesmas, mas bastantes vezes não sabemos o que em particular deseja de nós. Por exemplo, sabe-se que agrada a Deus a perfeita pobreza, a renuncia a todos os bens da terra como fez São Francisco de Assis, que de tudo se despojou, não se sabe, porém se Deus quer este sacrifício de vós ou de outra pessoa em particular. Também sabemos que é agradável a Deus que os cristãos ouçam Missa todos os dias, mas não sabemos se quer que vós ou outra pessoa, a vamos ouvir, pois talvez por circunstâncias de família, trabalho, vos convém ouvi-la só nos dias festivos.

Eis o que deveis fazer se quereis ser santa e perfeita aos olhos de Deus, quanto é possível sê-lo nesta vida, é preciso não só evitar culpas mortais, mas também as veniais, vivendo com a resolução de não as repetir por interesse ou motivo algum, o que em tudo busqueis fazer o que mais agradar ao Senhor, conforme souberdes.

Procedendo assim estareis isenta de todo o afeto desordenado pelas criaturas, tereis a própria vontade completamente conforme à de Deus, enfim sereis santa e perfeita. Digo quanto o podeis ser nesta vida, pois como ensina Santo Agostinho, a completa perfeição está reservada para o Paraíso, a qual só teve no mundo a Bem-aventurada Virgem Maria. Diz São Bernardo que o empenho contínuo de atingir a perfeição, é a que se pode obter nesta vida. Observai que consistindo a perfeita santidade na união da nossa vontade com a de Deus, constitui o ilimitado amor a Nosso Senhor, pois duas pessoas se amam perfeitamente quando há completa e reciproca união de suas vontades, formando ambas quase que um só coração. Quando o nosso coração se sujeita a só querer o que Deus quer, unisse-lhe de tal modo que parece formar um coração único.

VI
Prova-se que todos devemos aspirar à Perfeição Cristã

Esta santidade perfeita sem dúvida Deus a exige de todos os cristãos. Quem ousará dizer que Deus nos permite fazer culpas veniais, e que se contente que prefiramos ao Seu o nosso gosto, deixando nós de fazer o que claramente sabemos que lhe apraz?

Um amo não quer tolerar de seu servo graves injúrias e faltas, todavia não fica satisfeito sofrendo as leves, exige que seu subordinado obedeça a todas as suas ordens, quisera também que sabendo um desejo seu, o executasse, considera como ótimo servo o que evita dar-lhe desgostos intencionalmente, embora pequenos, e que busca em tudo satisfazer seus desejos. Poderemos exigir que Deus sapientíssimo e justíssimo, nosso Soberano e Senhor, contente-se com menos? Se esta santidade o satisfaz e torna a alma perfeita, eu vos exorto a praticá-la, e pretendo mostrar-vos que não é mui difícil de conseguir.

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(Blósio, Venerável Luis; FRASSINETTI, Padre José. Bálsamo Espiritual. B. L. Garnier, Rio de Janeiro, 1888, p. 134-143)