Capítulo 7. Não é mui difícil obter-se a perfeição cristã - Bálsamo Espiritual

Se para a posse desta somente se requer a união completa com a vontade divina, e para havê-la é preciso evitar até as culpas veniais, e buscar nas coisas que não são ordenadas nem proibidas, o maior gosto de Deus; para vos convencer que não é mui difícil adquirir a perfeição cristã, união perfeita da nossa vontade com a de Deus, convém dizer que não custa muito evitar o pecado venial, e buscar em todas as coisas o maior gosto de Deus. Acerca destes vou fazer importante distinção.

I
Distinguem-se duas espécies de pecados veniais

Observai que uma coisa são os que se fazem com plena advertência, os que se cometem, como ordinariamente se diz, com os olhos abertos, conhecendo claramente que se faz mal; por exemplo, advirto que estou dizendo uma falsidade para desculpar uma ação menos reta que fiz, entretanto digo-a conhecendo a malícia do artifício; também considero que a narrativa que estou fazendo, levemente sim, mas ofende a reputação do próximo, e sabendo eu como é má a murmuração não me abstenho; são diferentes destes os pecados veniais que não se percebem fazendo-os e se cometem, mais por fragilidade que por malícia, como são algumas distrações na oração, palavras inúteis, movimentos de impaciência, e coisas semelhantes, em que se cai sem atenta reflexão.

II
As faltas de todo irrefletidas não são pecados

Eu disse em que se cai sem bastante reflexão, por que não havendo conhecimento nenhum, não há malícia voluntária, nem se podem classificar como culpas veniais, são imperfeição e fraqueza da natureza humana, da qual não podemos fugir de modo algum, nem podemos arrepender-nos, visto que na opinião de Santo Agostinho, onde não existe malícia voluntária, não pode haver pecado. Permitam-me uma diversão que me parece importante.

Esta verdade quisera que meditassem as devotas que se acusam, como de pecados, de sua fragilidade natural, e se arrependem e confessam disto julgando-se em mau estado perante Deus, e omitem as Comunhões ordenadas pelo Diretor, achando-se por demais indignas. Como se enganam! As próprias crianças não sabem que onde não há malícia não pode haver pecado? Tais devotas acham pecado onde não há sombra dele, mas antes mérito. Se lhes sobrevém um movimento de impaciência, de inveja, de sensualidade, etc., logo pensam que pecaram, embora tivessem reprimido tais impulsos, apenas se advertem deles. Nisto não há culpa, pois é impossível não terem estas tentações, mas tem merecimento, porque apenas as conhecem combatem-nas. Pensava São João da Cruz: (Tratado dos Espinhos coll. 5 — n. 7). Se não houver teu consentimento antes desprazer e aborrecimento dos maus pensamentos, e com paciência os sofres, purificam, como o fogo faz ao ouro, a tua vontade. “Tais fraquezas e misérias são consequências necessárias do pecado original, como as moléstias, e os outros males temporais a que estão sujeitos todos os filhos de Adão, dos quais nenhum está isento sem especial privilégio que Deus não concede”.

Eis a doutrina católica ensinada pelo Concílio de Trento contra os erros dos protestantes, que pretendiam que os assaltos involuntários da concupiscência, isto é, do apetite sensitivo, eram pecados.

Alguém há de retorquir que os mestres espirituais exortam as almas que aspiram à perfeição a manifestar ao seu Direito suas más inclinações, e as tentações que padecem; isto é louvável, porque as revelando ao Diretor, aprendemos o modo mais próprio e eficaz de vencê-las; e eu também vos exorto a esta espiritual expansão, caso não vos tenha dado ordem de não lhas referir, mas não as mencioneis como culpas, porque nãos os são, nem matéria de confissão; por caridade, não vos amedronteis com tais misérias, que podem existir com a mais perfeita santidade, a maior que possa haver na terra. Não me podeis dizer que os Santos  não as tinham, pois vos responderei que nunca houve Teólogo que acreditasse ter havido Santos que não sentissem em si más inclinações, à exceção de sua Rainha, Maria Santíssima. Se houve algum Santo que não sentiu repugnância contra alguma das virtudes foi privilégio extraordinário, que não é preciso para a santidade; São Luiz Gonzaga nunca sentiu tentações contra a castidade, haveis por isso de colocá-lo acima do Apóstolo São Paulo que as sofria mui graves?

III
Explicam-se quais são as culpas veniais que impedem a perfeita união com a vontade divina

As culpas deste gênero que estorvam a união completa com a vontade de Deus, e assim impedem a perfeição cristã, são as completamente feitas com reflexão, que assim como dissemos, fazem-se com os olhos abertos; as outras culpas veniais que não se conhecem claramente não impedem a aquisição da perfeição cristã, e estas formam uma espécie de tibieza que Santo Afonso chama inevitável, e de que a alma não se pode eximir sem especial privilégio de Deus, como ensina o Concílio de Trento, e não se sabe que nenhum Santo tenha tido esta prerrogativa, à exceção de Nossa Senhora. Já que ninguém pretenderá que a retidão da sua consciência iguale a da excelsa Mãe de Deus, ninguém, pois pode ensinar que para se obter a perfeição cristã há de se viver isenta até dos pecados veniais que não são completamente advertidos, por isso não vos falo destes.

IV
Demonstra-se que não custa muito evitar as culpas veniais

Esta verdade se evidencia com a seguinte razão. Deus não só ordena formalmente que evitemos o pecado mortal, mas também proíbe os veniais; Deus proíbe que blasfememos o seu Santo Nome e também que O mencionemos com leviandade. Proíbe o juramento falso, e as mentiras jocosas, poderemos pensar que a bondade divina faça a suas criaturas proibições severas e árduas em demasia, que imponha preceitos mui difíceis de executar? Os tiranos às vezes fizeram aos súditos imposições demasiadamente severas, mas os monarcas bons não às fazem, muito menos os bons pais a seus filhos, e nós que confessamos ser Deus nosso Rei e Pai excelente das suas criaturas, poderemos sem grande agravo, feito a sua misericórdia, supor que manda coisas mui difíceis de executar? Convém reconhecer que não é mui difícil evitar o pecado venial, pois é dever abster- nos dele.

V
Prova-se que é mais fácil não fazer culpas veniais, plenamente consentidas, do que as mortais

Sem o auxílio da graça divina não poderemos abster-nos do pecado venial deliberado, quanto mais do mortal? Se pudermos vencer as tentações do mortal que são as mais violentas e fortes, acharemos maior dificuldade em triunfar das outras, mais fracas e leves? Poderemos sobrepujar o ímpeto de certas paixões que fazem tremer os maiores Santos, e não poderemos repelir uma bagatela, reprimir pequena murmuração? A Sagrada Escritura refere que Sansão tinha recebido de Deus prodigiosa força, que sufocava com as mãos tremendos bois e os fazia em pedaços como se fossem cordeirinhos; podereis acreditar-me, se vos dissesse que não tinha bastante força para sufocar uma raposinha? Quando lutamos com as tentações fortes, às quais cedendo faríamos pecado mortal, então combatemos contra medonho leão; quando nos assaltam as do pecado venial, lutamos com pequenas raposas. Portanto com a graça divina, é igualmente fácil evitar a culpa venial como a mortal até digo que menos custoso é fugir da primeira do que da segunda.

VI
Designa-se a causa por que mais facilmente se cai no pecado venial do que no mortal

Qual é, pois o motivo porque nós com o auxílio divino, vencemos o pecado mortal, passamos meses e anos que não o fazemos, e talvez que não se passa dia sem sucumbirmos à tentação do pecado venial? Eis a causa: o mortal se temos alguma fé, nos assusta; o inferno eterno que se abre debaixo de nossos pés nos faz tremer, e com o auxílio de Deus combatemos energicamente a tentação, e a vencemos, assim se sufoca o leão, se derruba; pelo contrário o pecado venial nos parece pequeno mal, e o Purgatório que há de acabar, nos impressiona como o calor de verão, pois sabemos que é seguido pelo fresco do outono, por isso pouco nos interessa cometer tais faltas, e sucumbimos com grande facilidade. Eis a verdadeira razão porque tantas almas se resguardam do mortal e não do venial. Ah! Se elas seriamente considerassem que o pecado mesmo venial, é gravíssimo dano, porque é ofensa da Suma Bondade de Deus, que é tão grande mal que não se pode comparar a nenhum dos da terra, que um só deles é muito pior do que uma peste que fizesse morrer toda a gente, pior do que um terremoto que derrubasse todas as cidades, pior do que o dilúvio que no tempo de Noé, excetuando sua família, afogou todos os homens, e do dilúvio de fogo que no juízo universal reduzirá a cinzas o mundo inteiro! Se meditassem bem que o Purgatório é terrível castigo de Deus, e tão doloroso, que seria melhor sofrer com anos todos os martírios, do que sofrê-lo um só dia! Então as almas cristãs formariam o firme propósito de fugir das culpas veniais como das mortais, e evidentemente conheceriam que com o auxílio divino, ambos se podem evitar. Persuadi-vos que a dificuldade não consiste na fragilidade humana, que se fortalece com a graça de Deus, mas sim na nossa vontade. Então nos convenceremos que se podemos evitar o mais enorme pecado, também podemos não sucumbir ao menor, refiro-me sempre aos que se cometem deliberadamente.

VII
Prova-se que não custa muito nas coisas indiferentes procurar o beneplácito maior de Deus

Um amo prudente, um Pai terno, não só se abstém de dar aos servos e filhos preceitos mui árduos e difíceis, mas nem desejam que estes o sirvam em coisas que lhes parecem austeras e pesadas demais.

Certamente Deus é Pai mais terno, e Senhor mais prudente com seus servos e filhos, podemos supor que goste de nos oprimir e angustiar com seu serviço! O maior gosto de Deus nas coisas indiferentes o achará pela medida da nossa dedicação. Amesquinharemos a inefável bondade de Deus, pensando que para Lhe agradar se precisão esforços, trabalhos, de algum modo superior a nossa possibilidade, fortificada com o auxílio de Sua graça!

Não vos iluda à falsa apreensão da grandeza e santidade de Deus: considerando que são infinitas, pensareis que seu maior gosto há de consistir em coisas altíssimas dignas dEle. Se assim fosse, só Lhe agradariam as obras de Nosso Senhor Jesus Cristo, que tem valor infinito, mas as de simples criaturas consideradas em si, ainda que fossem de Anjos e de Maria Santíssima, nada valem nem são dignas de Deus, se se comparam com a infinita perfeição da divina Majestade. Deus se apraz não na grandeza e santidade das obras em si, mas na uniformidade que tem com Sua santíssima vontade, que não é que as criaturas façam ações grandes e brilhantes, mas sim que executem as que seu amor exige; que assim são admiráveis, como quando reclama o sacrifício da nossa vida pelo martírio; são medíocres, quando ordena que reprimamos os apetites de nossas paixões perversas, são pequenas então, quando conforme as circunstâncias, quer de nós alguma boa aspiração ou jaculatória.

Por isso contentar muito o Senhor em coisas pequenas é facílimo para todos.

Demonstrei o que desejava não haver muita dificuldade em evitarmos até as culpas veniais, e em procurar nas coisas que não são ordenadas nem proibidas, o maior gosto de Deus. Vê-se que também não custa obter-se a perfeição.

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(Blósio, Venerável Luis; FRASSINETTI, Padre José. Bálsamo Espiritual. B. L. Garnier, Rio de Janeiro, 1888, p. 143-155)