Capítulo 2. Consolação para o homem que no fim da vida sinceramente-se emenda - Bálsamo Espiritual
Tu que na velhice ou no fim da vida começastes a seguir o caminho da virtude, deixando as torpezas dos vícios e culpas, e que já é homem de vontade reta, para que te assustas e te domina a tristeza, como se não tivesses esperança de salvação?

Recorda-te de teu misericordioso e dulcíssimo Redentor, que veio ao mundo salvar pecadores; por eles encarnou, trabalhou, padeceu terrível Paixão, derramou Seu sangue, morreu!

Se pela multidão, antiguidade, excesso de tuas culpas, desesperares da divina misericórdia, embora sejas velho e perto do fim da vida, se tiveres começado a emendar-te, e só viveres um ano, ou um mês, até um só dia, não deves inquietar-te, nem pusilânime arredar-te do bom caminho; no que farias grande ofensa a Deus, pois tens motivo para te confortar e alegrar considerando a clemência que o Senhor usa contigo; pois antes de morrer-te acudiu e converteu. São Bernardo diz: que Deus não olha para o que o homem fez no passado, senão para o que agora quer ser; se te angustia a perda do tempo, desperdiçado em vaidades e pecados podes te consolar com piedosa e firme confiança na parábola do Evangelho que diz terem sido chamados para trabalhar na vinha do Pai de famílias alguns jornaleiros na undécima hora, isto é na velhice, e começaram a viver modesta, devota e retamente, apesar de terem trabalhado só uma hora, tiveram salário igual aos que se cansaram todo o dia, ou tinham servido a Deus desde a infância ou mocidade; em outro lugar o Salvador chama bem-aventurados aos que estão prontos para recebê-lO na primeira ou segunda vigília, mas também aos que vierem na terceira. Não te assustes em demasia com a falta de merecimentos próprios; pois estando unido a Cristo pela boa vontade e Sua divina graça, como membro vivo, participarás de Seus merecimentos e dos de Seus escolhidos, receberás a herança celeste, pois entras no número dos filhos de Deus. És daqueles de quem fala o Apóstolo dizendo: Não temam a condenação os que estão unidos a Cristo, e não vivem sensualmente; com esperançoso contentamento podem e devem esperar a Bem-aventurança. À vinda do Salvador à terra, que se entregou a morte para nos salvar do pecado, e escolheu para povo Seu, confirme nossa confiança também estas palavras do mesmo Apóstolo, o Senhor ressuscitou para nossa justificação. Se acabada a vida temes o Purgatório, diminui este demasiado temor, se totalmente te entregas nas mãos de Deus, como amas Sua misericórdia, há também de amar Sua justiça.

É Pai piedoso que assim castiga os filhos, que já se tem desviado dos pecados, e procurado converter-se; nesta vida ou no Purgatório, pune com paterno amor; não duvides de Sua clemência, procurando deveras agradar-Lhe, e sentindo tê-lO ofendido, quando saíres do mundo, Deus te há de acolher sem rigor no seio da Sua misericórdia, ainda que vá para o Purgatório lá mesmo terás refrigério, certo da tua salvação, esta jubilosa certeza te alegrará mais do que viver no mundo, onde há tantas ocasiões de ofender a Deus; lemos que um santo varão disse: Se eu tivera a certeza de ir para o Purgatório, estaria pronto a entregar meu peito ao cutelo para assegurar minha salvação, mas há pessoas descuidadas, negligentes, que não querem sinceramente emendar sua vida, e dizem: que lhes basta irem para o Purgatório, mas não para o Inferno; não sabem o que dizem alimentando tal ideia, pois continuando em seus vícios e tibieza, terão cruel e dilatado Purgatório, embora não vão para o Inferno, porém os homens de boa vontade que aborrecem o pecado e desejam viver para Deus e servi-lO, deixem o temor demasiado, pois se tiverem culpas a expiar, entrarão depois gloriosamente na celeste pátria; porque está escrito: Bem-aventurados os que morrem no Senhor. Quem devotamente meditar o suave acolhimento que o Pai fez ao filho pródigo, que refere o Evangelho, não pode desesperar. Com frequência a Sagrada Escritura anima os penitentes; Isaías diz:

“Deixe o pecador os vícios, são maus seus pecados, recorra ao Senhor, e alcançará misericórdia”

Por Ezequiel Deus diz:

“Quando o pecador se arrepender e observar minha lei, recobrará a vida de sua alma, esquecerei as culpas passadas, lembrar-me-ei das boas obras que fizer, pois não quero a morte do pecador, mas sim que se converta e viva”

Diz Tobias:

“Quem anda em trevas e lhe falta luz, espere em Deus”

Na Sagrada Escritura se acham muitos trechos que confirmam a confiança dos convertidos.

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(Blósio, Venerável Luis; FRASSINETTI, Padre José. Bálsamo Espiritual. B. L. Garnier, Rio de Janeiro, 1888, p. 64-68)