Lição 1: O paraíso terrestre

O documento javista, além de apresentar o casal humano e sua dignidade no mundo, aborda a difícil questão da origem do mal ou o tema do pecado original. Este assunto tem sido muito controvertido nos últimos decênios; não é de alcance das ciências naturais nem da filosofia, mas pertence ao plano da fé. Por isto só poderá ser devidamente considerado se levarmos em conta as declarações do magistério da Igreja atinentes à temática do pecado originai. É o que vamos fazer: estudaremos o texto bíblico em seus aspectos lingüísticos e humanos e procuraremos ouvir o que a respeito tem dito a Santa Igreja no decorrer dos séculos. O primeiro ponto a encarar é o do paraíso terrestre (Gn 2,8-15). A Bíblia nos fala de um jardim ameno, irrigado por quatro rios: o Fison, o Geon, o Tigre e o Eufrates. Os estudiosos têm procurado localizar esse paraíso: o Tigre e o Eufrates são rios da Mesopotâmia muito conhecidos, mas o Geon e o Fison não podem mais ser identificados. Foram propostas, no decurso dos tempos, cerca de oitenta sentenças para situar o paraíso terrestre. Hoje em dia, porém, os estudiosos julgam que esse “jardim bíblico” não significa um lugar determinado, mas tão somente o estado de harmonia e felicidade a que o homem foi levado logo depois de criado.

Com efeito, o rio é, para os antigos, símbolo de vida e fecundidade; quatro é o número que designa a totalidade das coisas deste mundo; por conseguinte, quatro rios significam o bem-estar interior e exterior de que gozavam os primeiros pais logo após a criação. Na verdade, quem lê atentamente o texto bíblico, verifica que os primeiros homens gozavam de dons especiais constitutivos da “justiça original”¹; esta compreendia:

1) A filiação divina ou a graça santificante ou a elevação do homem à condição de filho de Deus, chamado a participar da vida e da felicidade do próprio Deus. É o que se deduz do texto sagrado, o qual indica claramente que Adão vivia na amizade com o Criador. Este dom é dito “sobrenatural”, isto é, ultrapassa todas as exigências de qualquer criatura.

2) Os dons preternaturais, isto é, que ampliavam as perfeições da natureza:

a) a imortalidade, pois em Gn 2,17; 3,3s.19 a morte é apresentada como conseqüência do pecado; isto significa que, antes do pecado, o homem não morreria dolorosa e tragicamente como hoje morre;

b) a impassibilidade ou ausência de sofrimentos, pois estes decorrem da sentença condenatória de Gn 3,16;

c) a integridade ou a imunidade de concupiscência desregrada, visto que os primeiros pais, antes do pecado, não se envergonhavam da sua nudez (cf. Gn 2,25; 3,7-11); os seus instintos ou afetos estavam em consonância com a razão e a fé; não havia neles tendências contraditórias;

d) a ciência moral infusa, que os tornava aptos a assumir as suas responsabilidades diante de Deus. Os dons da justiça original não implicam que os primeiros homens fossem formosos; terão sido dons meramente interiores, compatíveis com a configuração rude e primitiva que as ciências naturais atribuem aos primeiros seres humanos.

A Bíblia menciona no paraíso duas árvores: a da ciência do bem e do mal e a da vida (Gn 2,9). Hoje em dia, sabe-se pelo estudo das literaturas antigas que a árvore era um símbolo religioso assaz freqüente; é, pois, em sentido simbólico que entendemos as árvores de Gn 2. A árvore da ciência do bem e do mal designa um preceito ou um modelo de vida que daria ao homem a ciência ou a experiência concreta do que são o bem e o mal. Era justo que Deus indicasse ao homem um modelo de vida, pois o homem, elevado à filiação divina, não se deveria reger apenas por critérios racionais ou naturais, mas deveria seguir uma norma de vida incutida pelo próprio Deus. Devemos renunciar a pedir pormenores desse modelo de vida. -Quanto à árvore da vida, pode-se crer que ela dava ao homem o fruto da vida perpétua ou o sacramento da imortalidade; o homem saberia assim que a imortalidade é um dom de Deus.

Lição 2: O pecado dos primeiros pais

1. Em Gn 3,1 entra em cena a serpente como “o mais astuto de todos os animais do campo”. Tal serpente é imagem do demônio tentador. O livro da Sabedoria (2,23) diz que “Deus não fez a morte, mas esta entrou no mundo por inveja do demônio”; e Jesus, aludindo a Gn 3, chama o Maligno “homicida desde o início, mentiroso e pai da mentira” (Jo 8,44). O demônio é um anjo, que Deus criou bom, mas que se rebelou contra o Criador por soberba (vê-se que desde as suas primeiras páginas a Escritura supõe e afirma a existência dos anjos, especialmente a dos anjos maus), O autor sagrado quis simbolizar o Maligno mediante a figura da serpente, porque esta freqüentemente na S. Escritura representa o homem malvado e fraudulento (Gn 49,17; Is 59,5; Mq 7,17; Jó 20,14-16; SI 140 [1411,4). Mais: é de observar que a serpente era, para os cananeus (antigos habitantes da Terra de Israel), uma divindade associada à fecundidade e à vida; ora, precisamente para condenar essa figura, o autor sagrado talvez tenha apresentado o tentador sob forma de serpente; assim a descrição da serpente paradisíaca assumia, para o israelita, o valor de admoestação contra a sedução dos cultos idólatras que cercavam a verdadeira religião.

Não é necessário admitir que a mulher tenha visto uma serpente diante de si, mas pode-se dizer que o diálogo entre o tentador e a mulher foi meramente interno, como acontece geralmente nas tentações do pecado.

2. Em Gn 3,6s está dito que os primeiros pais comeram da fruta proibida. Isto quer dizer que desobedeceram a Deus ou não aceitaram o modelo de vida que o Senhor lhes havia apontado.
A raiz desse pecado foi a soberba. Notemos que a serpente, ao tentar os primeiros pais, disse explicitamente:

“No dia em que comerdes…, os vossos olhos se abrirão e sereis como Deus, versados no bem e no mal” (Gn 3,5).

Precisamente o homem quis ser como Deus, capaz de definir o que é bem e o que é mal, sem ter que pedir normas ao Senhor. A soberba é o pecado do espírito, o único que os primeiros homens, portadores da harmonia original, podiam cometer. A soberba se exteriorizou em determinado ato, que não podemos identificar.

Há quem diga que o primeiro pecado foi de ordem sexual. Argumentam afirmando que:

1) ciência ou conhecimento na Bíblia significa por vezes o relacionamento sexual (cf. Gn 4,1.17.25);

2) os primeiros pais estavam nus, e não se envergonhavam um do outro (2,25), mas após o pecado se recobriram (3,7);

3) a mulher foi punida pelas dores do parto (3,16).

A propósito observamos:

1) quando se trata do relacionamento sexual, o texto sagrado diz “conhecer sua esposa” (cf. Gn 4,1.17.25), ao passo que em Gn 2,17; 3,5 se lê “conhecer o bem e o mal”;

2) o aparecimento da concupiscência sexual e a vergonha se seguem à culpa e não a precedem, como seria lógico no caso de um pecado sexual;

3) a mulher, punida pelas dores do parto, foi atingida em sua função especifica de mãe, como o homem, condenado a ganhar o pão ao suor da sua fronte (3,19), foi atingido em sua função típica de trabalhador; não há, pois, necessidade de recorrer a pecado sexual para explicar o tipo de punição da mulher.

Vejamos agora!

Lição 3: As conseqüências do pecado

Enumeremos as conseqüências do pecado: 1) em relação aos primeiros pais e 2) em relação aos seus descendentes.

1. Em relação aos primeiros pais, o pecado acarretou a perda da justiça original, ou seja, da filiação divina e dos dons que a acompanhavam. O texto sagrado (Gn 3,7) diz que, após o pecado, “abriram-se-lhes os olhos e reconheceram que estavam nus”. Essa nudez é, antes do mais, o despojamento interior ou a perda dos dons originais; a concupiscência ou a desordem das paixões se manifestou; por isto sentiram a necessidade de se vestir a fim de encobrir a sua natureza desregrada. Não há dúvida, a diversidade de tendências dentro do homem é algo decorrente da própria natureza humana (sensível e espiritual, ao mesmo tempo); todavia ela estaria superada se o homem não tivesse pecado em suas origens; ela hoje existe como conseqüência do pecado. Da mesma forma, os homens perderam o dom da imortalidade (ou o poder não morrer dolorosamente); sem dúvida, a morte é um fenômeno natural, inerente à criatura, mas a sua realidade hoje é conseqüência do primeiro pecado, conforme a S. Escritura (cf. Rm 5,12.19). O mesmo se diga em relação ao sofrimento; é um dos precursores da morte.

O pecado acarretou também a desarmonia no mundo irracional que cerca o homem; este já não é o ponto de convergência das criaturas inferiores; ao contrário, estas muitas vezes prejudicam o homem e lhe negam a sua serventia; tendo-se rebelado contra Deus, o homem sente contra si a rebelião das criaturas inferiores.

Depois da queda, o Senhor Deus quis interrogar os primeiros homens (Gn 3,8-13). As respostas são bem características de quem é culpado: o homem, antes de confessar, acusa, com certa covardia, a esposa como causa da sua desgraça (3,12); da mesma forma, a mulher acusa a outrem, a serpente (3,13). Ambos silenciam o verdadeiro motivo da sua desobediência: a soberba ou o desejo de serem iguais a Deus, arbitrando entre o bem e o mal ou definindo a sua própria regra de vida. Na verdade, o pecado acovarda o homem e separa-o do seu semelhante e mesmo mais íntimo amigo.

Todavia o Senhor não quis apenas condenar os pecadores. Ao mesmo tempo, propôs-lhes a esperança da reconciliação, que é chamada, no caso, “o proto-evangelho” (ou o primeiro Evangelho). Ler Gn 3,14s… A sentença sobre a serpente não recai sobre o animal irracional, mas sobre o tentador: “rastejar e comer a poeira da terra” são imagens que significam derrota (os vencedores, na antiguidade, colocavam os adversários derrotados no chão, debaixo de seus pés); o texto sagrado quer assim dizer que o demônio é um lutador já vencido; poderá maltratar os fiéis de Deus no decorrer da história, mas pode estar certo de sua derrota final. Para corroborar esta afirmação, o Senhor promete colocar inimizade entre a serpente (o tentador) e a mulher, entre a descendência da serpente (os homens maus) e a descendência da mulher (os homens bons) – o que significa: promete reconciliar a mulher e os seus descendentes com Deus. A mulher, no contexto, só pode ser Eva; a sua descendência são os homens bons, que não seguem as sugestões do tentador; todavia o papel da mulher e o de sua descendência só se tornaram plenos e perfeitos em Maria e em seu Filho Jesus Cristo; por isto o proto-evangelho alude indiretamente a Maria e a Jesus Cristo, prometendo a vitória do Senhor Jesus sobre o Maligno através da Cruz e da Ressurreição.

2. Em relação aos descendentes dos primeiros pais, o pecado original tornou-se algo de hereditário. Dizemos que todos os homens nascem com a culpa original. Todavia é preciso entender que não se traía de culpa pessoal ou de pecado voluntário nos descendentes de Adão e Eva. Nestes o pecado original consiste na ausência dos dons originais (graça santificante, dons preternaturais), que os primeiros pais deviam ter guardado e transmitido, mas não puderam transmitir porque pecaram. A criança que hoje nasce, devia nascer com a graça santificante, mas isto não acontece; ela nasce destoando do exemplar ou do modelo que o Senhor lhe tinha assinalado; essa dissonância (que implica a concupiscência desordenada e a morte) é que se chama, por analogia, “pecado original originado” nos pequeninos, ao passo que nos primeiros pais há o “pecado original originante”.

Por que Deus quis que a culpa dos primeiros pais assim repercutisse nos seus descendentes? Seria Deus vingativo? A criança, que não pediu a eventualidade de nascer, muito menos pediu nascer com pecado!

Em resposta, diremos: toda criança que vem ao mundo, nasce dentro de um contexto social, geográfico, do qual é solidária; assim há crianças que nascem no Brasil, outras na China, outras em Biafra, outras na Europa; há crianças que nascem no século XX, outras nasceram no século II a.C., outras no século X d.C…. Cada uma traz a herança da família, do lugar e da época em que nasce. Essa solidariedade é palpável também no seguinte caso: imaginemos um pai de família que numa noite perde todos os seus bens numa jogatina de cassino; os filhos desse homem não têm culpa, mas hão de carregar as conseqüências (miséria, fome…) decorrentes do desatino de seu pai. Ora a solidariedade mais fundamental que cada um de nós traz, é a solidariedade com os primeiros pais; se estes perderam os dons originais, nós, sem culpa nossa, somos afetados por essa perda – o que é muito lógico. Vê-se, pois, que a transmissão do pecado original não se deve a intenção vingativa de Deus, mas é conseqüência da índole mesma da natureza humana.

Há, porém, quem julgue que o ato de gerar é pecaminoso se por ele se transmite o pecado dos primeiros pais. – Respondemos que o ato biológico de gerar foi instituído pelo próprio Criador; em si ele nada tem de pecaminoso; transmite a natureza como se acha nos genitores; tal ato não é a causa do pecado original ou do estado desregrado em que nascem as crianças, nem pode exercer influxo sobre tal estado. O ato biológico de gerar poderia transmitir também a graça santificante se os primeiros pais a tivessem conservado. – O que a geração não dá, isto é, a graça santificante, a regeneração ou o Batismo o deve dar. Por isto, é que não se deve protrair o Batismo das crianças. O segundo Adão, Jesus Cristo, readquiriu a filiação divina para o gênero humano e a comunica mediante o Batismo.

A doutrina do pecado original pertence estritamente ao patrimônio da fé. Não é lícito reduzir o conceito de pecado original ao de “pecado do mundo”, como se não fosse mais do que o acúmulo de falias pessoais que se cometeram desde o início da história, fazendo que todo homem seja, desde os seus primeiros anos, seduzido ao mal.

Os povos primitivos antigos e contemporâneos têm a noção de que os males existentes no mundo não são originais nem devidos ao Criador, mas provém de uma culpa dos primeiros homens ou de um pecado original; tal crença, tão generalizada como é, pode ser entendida como valioso argumento em favor da doutrina católica.


Referências:

(1) Justiça no caso, significa “santidade original”.

Para ulterior aprofundamento, veja:
BALLARINÍ, T., Introdução à Bíblia H/1. E d. Vozes, Petrópolis, 1975. GRELOT, P., Reflexões sobre o problema do pecado original. Ed. Paulinas, 1969.
PAULO VI, Credo do Povo de Deus, 1967.

Perguntas sobre a Queda Original

1) Podemos dizer onde ficava o paraíso terrestre?
2) Em que consistia a “justiça original”?
3) Que significa o preceito de não comer do fruto da arvore da ciência do bem e do mal?
4) Em que consistiu o pecado dos primeiros pais?
5) Quais as conseqüências desse pecado?