Lição 1: Caim e Abel

Logo após a descrição da queda original, o autor sagrado apresenta o morticínio de Caim, que matas eu irmão Abel. Cf. Gn 4,1-16.

Quem observa este episódio, verifica que supõe um estado adiantado da cultura humana, ou seja, o período neolítico: os homens já domesticavam os animais, de modo que Abel é pastor, e já cultivavam industriosamente a terra, de modo que Caim é agricultor (4,2); Caim funda uma cidade (4,17), tem medo de se encontrar com outros homens (4,14), sabe que haverá um clã pronto para defendê-lo… Diante destes traços literários, os autores propõem duas maneiras de entender o episódio:

1) Fato histórico antigo descrito com roupagem da época posterior. O autor sagrado estaria relatando um fratricídio realmente ocorrido nos inícios da pré-história bíblica, mas teria usado linguagem da época neolítica para tornar-se mais compreendido pelos leitores: os atores da cena terão sido apresentados como se fossem homens contemporâneos do escritor sagrado. Esta interpretação é aceitável, mas não parece ser a melhor. É preferível a seguinte:

2) Fato meta-histórico ou trans-histórico¹. Observemos que houve uma tribo dos quenitas ou quineus ou cineus na época de Moisés (séc. XIII a. C.); tinham por Patriarca fundador um certo Caim. Leiamos, por exemplo, Nm 24,21: “Balaão viu os quenitas e pronunciou o seu poema. Disse: ’A tua morada está segura, Caim, e o teu ninho firme sobre o rochedo’”; os quenitas eram nômades (1 Cr 2,55); tinham relações estreitas com Madiã (Nm 10,29; Jz 1,16); ver também 1Sm 15,4-6; Jz4,11.17; 5,24. Ora pode-se crer que esse patriarca Caim tenha sido um fratricida famoso; o crime de Caim ocorrido nos tempos de Moisés ou pouco antes terá sido tomado como um fato típico da maldade humana. Por isto o autor sagrado haverá colocado esse fato logo no início da pré-história bíblica, querendo assim significar, de maneira muito concreta, que, quando o homem diz Não a Deus, passa a dizer Não também ao seu irmão; a fidelidade a Deus e a fidelidade ao próximo são inseparáveis uma da outra; por isto também o Senhor Jesus quis resumir toda a Lei em dois preceitos: o do amor a Deus e o do amor ao próximo (cf. Mt 22,40).

Neste caso não se pode dizer que Caim e Abel foram filhos diretos dos primeiros pais. Nem era a intenção do autor sagrado dizê-lo. Nos onze primeiros capítulos do Gênesis, a Bíblia propõe fatos históricos, sim, dispostos, porém, de maneira a nos fazer compreender o porquê da vocação de Abraão; ela quer mostrar que o primeiro Não dito a Deus desencadeou uma série de outras negações, das quais a primeira é o Não dito ao homem. Segundo tal interpretação, o fratricídio cometido por Caim contra seu irmão Abel é fato histórico, mas um fato que não ocorreu apenas uma vez no século XIII a.C.; ocorre em todas as épocas, a partir da primeira fase da história da humanidade; até hoje há muitos Caíns que matam seus irmãos, como houve também um no início da história sagrada.

Quem aceita tal interpretação, já não formula a pergunta tão freqüentemente colocada por leitores da Bíblia: com quem se casou Caim, se Adão e Eva só tiveram dois filhos e Caim matou Abel? Se o episódio de Caim e Abel é datado do século XIII a.C., vê-se que não há por que formular a questão: a população humana já se alastrava sobre a terra. – De passagem, digamos: se alguém não aceita a interpretação proposta, pode-se-lhe responder apontando o texto de Gn 5,4, onde está dito que Adão e Eva tiveram filhos e filhas; Caim tinha, pois, com quem se casar; o fato de se tratar de uma irmã de sangue, filha de Adão, não era empecilho, porque não havia, naquela primeira geração, acúmulo de taras hereditárias.

Continuando a ler o texto sagrado, defrontamo-nos com duas listas genealógicas: a dos cainitas e a dos setitas. Examinemos cada qual de per si.

Lição 2: Os cainitas (Gn 4,17-24)

Nessa tabela ocorrem sete gerações: Caim, Henoque, Irad, Maviael, Matusael, Lameque e seus filhos. Isto quer dizer que o autor sagrado quis propor um todo definido (sete é símbolo de totalidade). Observemos as características dessa lista genealógica:

1) não há menção de um só número de anos (ao contrário do que ocorre na lista dos setitas, toda marcada por números);

2) os cainitas são todos promotores da civilização e da cultura: fundam uma cidade (4,17), são pastores de gado (4,20), trabalham em metalurgia (4,22), tocam harpa e flauta (4,21);

3) são cada vez mais marcados pela vingança e sangüinolência: Caim será vingado sete vezes, mas Lameque, seu descendente, setenta e sete vezes (cf. 4,24);

4) a devassidão dos costumes se alastra nessa linhagem, de modo que Lameque tem duas esposas, Ada e Sila, em oposição à imagem do casamento monogâmico proposto em Gn 1-3:

“Deixará o homem pai e mãe, e aderirá à sua esposa, e serão dois numa só carne” (Gn 2,24).

Destas notas se depreende o seguinte: o autor sagrado quis mostrar o progresso do pecado na linhagem do homicida Caim: luxúria e morticínio aí se instalaram. Além do que, associa entre si o pecado e as obras da civilização (cidades, domesticação de animais, metalurgia, cultivo da música…). Com isto o texto bíblico não quer condenar os produtos do engenho humano (estes podem servir à glorificação do Criador), mas quer mostrar como facilmente as conquistas da civilização estão associadas ao pecado e levam ao pecado; elas provocam a ganância do homem, são idolatradas, suscitam rixas e guerras… Era precisamente este o quadro que o autor sagrado podia contemplar quando considerava os grandes impérios da Mesopotâmia (Assíria e Babilônia) e do Egito, que cercavam o povo de Israel: eram impérios de elevada civilização, mas alheios ao verdadeiro Deus, imersos na idolatria e na demanda insaciável do poder.

A ausência de números na linhagem dos cainítas é precisamente o sinal de que tais homens careciam de harmonia; não estavam inscritos no “livro da vida” (o número é símbolo de ordem e sabedoria, segundo a Bíblia)².

Lição 3: Os setitas (Gn 5,1-32)

Na linhagem dos setitas, contam-se dez nomes, desde Adão até Noé. De novo temos uma peça que pretende transmitir uma mensagem definida (dez é também um símbolo de totalidade). Observemos que nessa tabela

1) os números são muito freqüentes: o autor diz com que idade cada Patriarca gerou o primeiro filho; quantos anos viveu depois disto, e com que idade morreu;

2) os anos de vida de cada Patriarca são muito elevados, variando entre oitocentos e novecentos; .

3) não se menciona uma obra da civilização realizada pelos setitas. Qual o significado destes traços?

O autor sagrado quis propor a linhagem dos bons; estes têm números, isto é, gozam de ordem e harmonia e estão inscritos no “livro da vida”. Diz o livro da Sabedoria que “o Senhor tudo dispõe conforme número, peso e medida” (Sb 11,20). Não se atribui aos setitas nenhuma obra civilizatória, pois tais obras estavam associadas, na mente do autor, aos impérios pagãos da vizinhança de Israel.

A grande longevidade assinalada a cada Patriarca setita não quer dizer que, na verdade, viviam séculos; mesmo que entendamos os 930 anos de Adão, os 912 de Sete… como anos lunares (um pouco mais breves do que o ano solar), não estaremos atinando com a mensagem do autor sagrado. Para os antigos, a longevidade era sinal de venerabilidade e respeitabilidade; por conseguinte quando atribuíam a alguém longa duração de vida, queriam apenas dizer que tal pessoa era merecedora de toda estima e consideração, Este modo de falar está documentado, por exemplo, na tabela dos reis pré-diluvianos que o sacerdote Berosso, da Babilônia, nos deixou:

Aloro reinou 36.000 anos; Alaparo 10.800 anos; Almelon 46.800 anos; Amenon 43.200 anos; Amegalaro 64.800 anos; Amenfsino 36.000 anos; Otiartes 28.800 anos; Daono 36.000 anos; Edoranco 64.800 anos; Xisutro 64.800 anos.

Temos nesta lista dez nomes de reis de elevada longevidade. Também no Egito se encontrou a lista de dez reis que governam o povo nos seus primórdios; os persas conheciam seus dez Patriarcas; os hindus enumeravam nove descendentes de Brama, com os quais Brama completava uma série de dez gerações pré-diluvianas.

É à luz destes documentos que se deve entender Gn 5,1 -32. Os dez nomes significam os homens que transmitiram a fé e a fidelidade aos seus descendentes; visto que a vida é o bem fundamental, uma longa vida, para os antigos hebreus, era símbolo de bênção divina e honrabilidade; a indicação de que cada Patriarca viveu elevado número de anos após gerar o seu sucessor na lista, significa que esses pais do gênero humano tiveram a possibilidade de manter pura na sua família a revelação primitiva; donde se concluía que a religião que por tal via chegara a Israel, era a religião verdadeira, conservada através de uma série de gerações providencialmente favorecidas por Deus.

Em síntese, não se deverá crer que os Patriarcas bíblicos viveram séculos. Ao contrário, sabe-se hoje com certeza que a duração da vida humana na pré-história era muito breve: oscilava entre os 20 e 40 anos, os homens não gozavam dos benefícios da medicina e da cirurgia para debelar seus males.

É difícil explicar o porque de cada uma das cifras atribuídas aos patriarcas setitas. Como quer que seja, em dois casos parece possível uma elucidação:

Henoque viveu 365 anos e, sem passar pela morte, foi arrebatado por Deus (Gn 5,21-24). A sua vida é a mais breve da lista setita; não obstante, o número que a acompanha, diz que atingiu a consumação devida; de fato, 365 é o número característico do ano solar; por isto, Henoque é apresentado como um sol que consumou sua trajetória sobre a terra, difundindo luz e calor. Por isto também é o sétimo patriarca da lista setíta (cf. Jd 14). Assim Henoque constitui o ponto culminante da tabela de Gn 5: em torno dele, o autor sagrado coloca os dois símbolos máximos de longevidade: seu pai Jared viveu 962, e seu filho Matusalém 969 anos; assim, diríamos, a bênção dada a Henoque se estendeu aos que lhe estão em comunhão. Ótimo comentário da figura de Henoque é a descrição do justo apresentada por Sb 4,7-15. – À luz do que acaba de ser dito, vê-se que não há motivo para afirmar que Henoque não morreu. Lameque representa, depois de Henoque, a vida menos longa da linhagem setita: 777 anos. Mas também esta vida é tida como perfeita ou consumada, vista a insistência no número 7. Além do que, Lameque, ao gerar Noé (5,28s), professa esperar deste filho alívio ou repouso, uma espécie de sábado (sétimo dial).

Lição 4: Os semitas (Gn 11,10-26)

Em Gn 11,10-26 outra tabela genealógica ocorre, também está marcada por números: é a descendência dos semitas, com dez gerações. Nesta os números hão de ser entendidos de acordo com a chave acima exposta: são símbolos de bênção divina e de venerabilidade. Esta proposição é confirmada de modo especial por um particular da vida de Sem, que mostra como o autor sagrado não dava importância matemática aos números: conforme 5,32, Noé gerou Sem aos 500 anos de idade; o dilúvio terminou no ano 601 da vida de Noé (cf. 8, 13s), ou seja, quando Sem devia ter 101 anos completos. Ora, dois anos apôs o dilúvio, Sem ainda tinha 100 anos (em vez de 103), conforme 11,10!

Note-se também que, com o tempo, vai diminuindo a longevidade atribuída pela Bíblia aos Patriarcas: na linhagem dos semitas, Sem, o primeiro, vive 600 anos (é o mais longevo), e Tare, o último, vive 205 anos.

Abraão viveu 175 anos, divididos em três períodos: chamado por Deus, deixou a terra de Harã aos 75 anos de idade (cf. Gn 12,4); gerou aos 100 anos (cf. 21,5) e morreu aos 175 anos (cf. 25,7). Ora esta distribuição em três períodos mais ou menos simétricos evidencia o artifício dos números…

José do Egito viveu 110 anos (cf. Gn 50,26). Moisés chegou a 120 (3 x 40) anos de idade (cf. Dt 34,7). Um salmo atribuído a Moisés reza:

“Setenta anos é o tempo da nossa vida; só os mais vigorosos chegam aos oitenta” (SI 89[90], 10).

O salmista já não utilizava linguagem simbolista, mas descrevia a realidade da duração humana em termos que até hoje correspondem à nossa experiência. Poderíamos dizer que, apresentando o decréscimo da longevidade através dos tempos, o autor sagrado queria significar que os homens se iam afastando, cada vez mais, da fonte da bênção largamente concedida às primeiras gerações.


Referências:

(1) Meta-histórico ou trans-histórico é o fato histórico que não pertence a um determinado período da história apenas, mas se reproduz em diversas fases da história. Este conceito se esclarecerá no decorrer da nossa explicação.

(2) “Livro da vida” é expressão figurada da Sagrada Escritura para significar a parte da humanidade que vive a verdadeira vida, a vida conforme o plano de Deus: cf. Ex 32,32; Sl 68(69), 29.

Para ulterior aprofundamento, ver o Módulo 39 deste Curso (bibliografia).

Perguntas sobre Caim e Abel, Cainitas, Setitas e Semitas

1) Pergunta-se freqüentemente: “Com quem se casou Caim?” Você saberia responder?
2) O assassínio de Abel por Caim foi fato histórico ou não?
3) Qual a lição transmitida pela genealogia dos cainitas?
4) Qual a lição transmitida pela linhagem dos setítas?
5) Que significam os muitos anos de vida atribuídos aos Patriarcas ?