Lição 1: Exame do texto de Gn 6-9

Logo após a linhagem dos setitas, o texto sagrado apresenta o dilúvio bíblico. Tal episódio se reveste de grande importância no contexto de Gn 1-11: ocupa quatro capítulos (6-9) e significa mais uma expressão do pecado, que, iniciado pelos primeiros pais, se vai alastrando cada vez mais.

O episódio do dilúvio tem-se prestado a comentários por vezes fantasistas, que destoam da mensagem do texto sagrado. Por isto começamos o estudo desse trecho bíblico examinando atentamente os seus dizeres.

Quem observa a seção de Gn 6-9 verifica que nela há repetições. Assim, por exemplo,

1) por duas vezes é indicada a corrupção moral dos homens como causa da catástrofe: Gn 6,5-7 e 11-13;

2) segundo Gn 7,7-12, Noé entra na arca com os seus e logo começa a grande inundação. Mas, a seguir, são relatados de novo o ingresso na arca e a subseqüente inundação (7,13-20), como se nada fora dito anteriormente;

3) por duas vezes, e quase com as mesmas palavras, está dito que Noé executou tudo o que o Senhor lhe ordenara: 6,22 e 7,5;

4) há duas maneiras de explicar a enchente: ora é a chuva que desaba sobre a superfície da terra (7,4.12; 8,2b); ora as águas jorram dos reservatórios postos acima do firmamento no alto e debaixo da terra (7,11; 8,2a);

5) há diversas enumerações de animais que entram na arca: em 6,19s; 7,15s, trata-se de um casal de cada espécie, ao passo que em 7,2 aparece a distinção entre animais puros e impuros (sete casais daqueles, um casal destes). Tal distinção é anacrônica nos tempos de Noé; foi promulgada muito mais tarde pela Lei de Moisés (cf. Lv 11; Dt 14,3-20);

6) todos os seres vivos morrem duas vezes: 7,21 e 22s;

7) em 8,5 já aparecem os cimos das montanhas, ao passo que em 8,9 as águas ainda recobrem toda a face da terra;

8) há duas cronologias do dilúvio:

a) conforme 7,4.12.17, as águas duram 40 dias e 40 noites. Ao cabo de 40 dias, Noé soltou um corvo e, depois, por três vezes consecutivas, uma pomba, a fim de verificar o estado da terra (8,6-12); julga-se que entre esses quatro lançamentos de aves houve, de cada vez, um intervalo de sete dias; cf. 8, 10.12. Em conseqüência, registra-se um total de 21 dias para a descida das águas após as chuvas. O dilúvio, então, terá durado 40 t 21 = 61 dias;

b) conforme 7,11, porém, a enchente começou no 17° dia do segundo mês do ano 600 da vida de Noé e durou 150 dias (7,24; 8,2s); depois destes as águas começaram a baixar, de modo que no 1° dia do 10° mês apareceram os cumes das montanhas (8,5), no 1° dia do 1°mês do ano 601 a terra estava toda visível (8,13) e no 27° dia do 2° mês de 601 o continente estava seco (8,14). Em conseqüência, o dilúvio terá durado de 17/2/600 a 27/2/601. Ora, sabendo-se que os israelitas contavam meses lunares, isto quer dizer: a catástrofe durou um ano lunar de 354 dias, mais 11 dias, ou seja, precisamente um ano solar de 365 dias!

Ponderados todos estes indícios, os exegetas com razão concluem que a narração do dilúvio bíblico consta de dois documentos fundidos entre si, conservando cada qual seus pormenores próprios.
Quais seriam esses documentos? – Não é difícil responder: trata-se do documento sacerdotal (P) e do javista (J). Com efeito, encontramos em Gn 6-9 muitas das expressões que caracterizam o hexaémeron (relato sacerdotal da criação):

a) “eis a história de…” (6,9); cf. Gn 2,4a; 5,1;

b) “conforme a sua espécie” (6,20; 7,14); cf. Gn 1,11 s. 21.24s. “Macho e fêmea” aparece em 6, 19; 7,9.16 e em Gn 1,27;

c) as águas que jorram das comportas do céu e dos reservatórios subterrâneos, lembram a cosmologia de Gn 1,6-10;

d) a segunda cronologia do dilúvio, mais desenvolvida, parece estar no estilo de Gn 1,1 -2,4a;

e) após o dilúvio segue-se a bênção de Noé e de seus filhos, com termos quase idênticos aos da bênção dada aos primeiros homens no paraíso; cf. 9,1s.7 e 1,28. Deus fez aliança com Noé (9,8-17), restaurando a amizade que estabelecera com Adão (1,26-31);

f) em 9,6, como em 1,27, é inculcada a dignidade do homem, feito à imagem e semelhança de Deus;

g) em todas as passagens atrás assinaladas, Deus é designado como Eloím e não como Javé, em paralelo ao que ocorre em Gn 1,1 -2,4a.

Doutro lado, em Gn 6-9, notam- se antropomorfismos, que, por sua vez, lembram o estilo da segunda narrativa da criação (Gn 2,4b-3,24): o Senhor se aflige em seu coração e arrepende-se de ter criado o homem (6,6s); fecha a porta da arca depois que Noé nela entrou (7,16); após o dilúvio, sente o suave odor do sacrifício e resolve não repetir o castigo (8,20-22). Em todos esses textos, Deus é chamado Javé como em Gn 2,4b-3,24.

Atendendo a estas particularidades, dizemos que em Gn 6-9 foram fundidos os documentos P e J, sem que o autor sagrado tivesse a preocupação de harmonizá-los entre si ou de eliminar as aparentes contradições dos mesmos.

O fato de que o compilador¹ das duas tradições não cuidou de as harmonizar entre si, é altamente significativo: quer dizer que não dava importância aos pormenores geográficos e cronísticos do episódio, mas atribuía a este um sentido mais profundo do que o sentido cronístico. Com outros termos: entendia a história do dilúvio, como quer que ela fosse relatada, como um ensinamento de história religiosa, portador de profunda mensagem teológica. Impõe-se agora outra questão:

Lição 2: A origem de Gn 6-9

Dissemos que havia em Israel duas narrações do dilúvio (a sacerdotal e a javista), não iguais entre si, que finalmente foram fundidas numa só peça literária. Pergunta-se: donde vêm essas duas narrações? Que há por detrás delas?

Eis a resposta:

Existem, nas tradições dos povos antigos, várias narrações de dilúvio ou de catástrofe ocorrida em tempos imemoriais; há estudiosos que contam 268 histórias antigas de dilúvio! Todas essas narrações tem uma trama comum: dá-se uma grande catástrofe, às vezes provocada por uma ofensa dos homens contra a Divindade; essa catástrofe devasta a terra e mata os seres vivos; o elemento destruidor pode ser água, fogo, neve, granizo, seca, epidemias, terremotos… Na Babilônia existem quatro versões do dilúvio, muito semelhantes entre si; são, dentre os relatos não bíblicos, os que mais afinidade têm com o texto de Gn 6-9.

Essa multiplicidade de narrações de dilúvio nos povos de diversos continentes não quer dizer que tenha havido uma só grande catástrofe que haja afetado a terra inteira (veremos que isto é despropositado, aos olhos da ciência). Mas significa que muitos povos guardaram a lembrança de uma grande desgraça ocorrida em seu território numa época muito recuada; com muito carinho transmitiram aos pósteros a notícia desse fato, porque atribuíram a este um valor didático e religioso.

Ora na Babilônia deve ter ocorrido, em época muito distante, uma tremenda inundação; o povo daqueles tempos entendeu que era uma intervenção dos deuses, que puniam as prevaricações dos homens. Em conseqüência, a tradição babilônica foi pondo em relevo o significado religioso daquele episódio, sem fazer muito caso dos pormenores históricos e geográficos do mesmo. Em conseqüência, formularam-se aos poucos na Babilônia quatro relatos do dilúvio, muito semelhantes, mas não iguais, entre si. – Ora Abraão era originário da Mesopotâmia: ao emigrar de lá para a terra de Canaã, que Deus lhe mostrava, deve ter levado consigo as tradições babilónicas do dilúvio; estas foram sendo transmitidas aos descendentes do Patriarca, depuradas, porém, do seu teor politeísta e grosseiro, para poder servir de ensinamento religioso ao povo de Abraão, que tinha fé monoteísta. Em conseqüência, formaram-se dois relatos do dilúvio na tradição de Israel: o javista, mais antigo e antropomórfico (séc. X a.C.), e o sacerdotal (séc. V a.C.). Quando os escribas de Israel deram a mão definitiva à Torá e às suas tradições no séc. V (sob Esdras), os dois relatos foram entrelaçados de maneira a se formar um só; neste, os traços históricos e geográficos não têm importância capital; o que realmente pesa, é o ensinamento religioso e moral que se depreende do episódio (ver Lição 3, a seguir).

De quanto foi dito, percebe-se que o dilúvio bíblico não pode ser confundido com os dilúvios ou os degelos que a geologia aponta em épocas pré- históricas; estas foram catástrofes universais, ao passo que o dilúvio bíblico não foi universal, nem do ponto de vista geográfico (não recobriu a terra inteira), nem do ponto de vista antropológico (não extinguiu a espécie humana toda).

Com efeito. Para recobrir a terra toda, as águas deveriam atingir o pico mais alto, o Everest, com 8.839 m de altitude. Ora uma camada de quase 9.000 m em torno de toda a terra implicaria um volume de águas de 4.600.000.000 m3, volume que toda a massa de águas hoje conhecida não chegaria a produzir. E, mesmo que o produzisse, o frio provocado seria tal que mataria todos os seres vivos, inclusive dentro da arca. – A universalidade antropológica também é excluída, visto que a narrativa bíblica supõe o grau de civilização do período neolítico, em que os homens já estavam espalhados por várias partes da terra. O próprio livro do Gênesis, aliás, a partir de 4,1, só narra os feitos dos setitas e caínitas; embora refira que Adão gerou filhos e filhas (5,4), o autor sagrado não descreve a descendência e a história desses outros seres humanos; é, pois, no quadro da história dos caínitas e setitas que o autor coloca o dilúvio, sem tencionar envolver os demais homens na catástrofe. – Por conseguinte, quando o texto bíblico fala de “terra inteira” e de “todos os homens” em Gn 6-9, não tem em vista o sentido geográfico e antropológico destas expressões, mas o sentido religioso: dado que queria escrever não simplesmente história, mas história religiosa, o gênero humano, para o autor sagrado, se reduzia aos indivíduos portadores dos valores religiosos da humanidade. De resto, os semitas usavam freqüentemente as locuções “todos os homens” e “a terra inteira” em sentido hiperbólico; cf. Gn 41,54.57; Dt 2,25; 1Rs 10,23; 2Cr 20,29; At 2,5.

Passemos agora ao nosso último ponto:

Lição 3: A mensagem de Gn 6-9

Após quanto foi dito até aqui, compreende-se que o episódio do dilúvio nos transmite uma mensagem de ordem catequética, cujos termos são os seguintes:

1) Deus é santo e puro.

2) Deus é justo; não pode deixar subsistir indefinidamente a iniqüidade, e fomenta a santidade dos homens.

3) Deus é clemente. Antes de exercer a sua justiça, incita os homens à penitência, dando-lhes a oportunidade de converter-se na última hora (cf. Gn 6,3). O texto de 1Pd 3,18-20 insinua que muitos pecadores se converteram já durante a catástrofe, na hora da morte.

4) O dilúvio é o desfecho de um período da história religiosa da humanidade e o início de nova era. Com efeito, o autor sagrado apresenta-o como segunda criação do mundo, fazendo ressoar em Gn 6-9 alguns traços característicos da história da criação (Gn 1-3). Notemos também que dez são as gerações que Gn 5 refere desde Adão até Noé, número que significa uma lista completa ou, no caso, um período de história terminado. Sobre este fundo, Noé aparece como novo pai do gênero humano, à semelhança de Adão; com Noé salvo das águas Deus faz uma aliança, como fez com o primeiro homem (cf. 9,8-17; 2,15-17).

5) Noé é um tipo de Cristo, que é o 2° Adão simplesmente dito (cf. Rm 5,14; 1Cor 15,45), tão universal quanto o primeiro. Noé salvou a linhagem humana mediante o lenho da arca; Cristo a salvaria pelo madeiro da cruz (cf. Sb 10,4).

6) A arca, fora da qual ninguém sobreviveu, é tipo da Igreja. Todos os homens que se salvam, salvam-se por Cristo e pela Igreja, mesmo que não o saibam ou mesmo que não pertençam visivelmente à Igreja de Cristo.

7) As águas do dilúvio, através das quais se salvaram os justos e em que pereceram os ímpios, são figura do Batismo, que pela água dá a vida aos fiéis e apaga os pecados. Cf. 1 Pd 3,20s.

8) O dilúvio, como nova criação, prenuncia, conforme 2Pd 3,5-7.10, os céus novos e a terra nova que no fim da história se constituirão.

Deixando de lado as indagações de ordem cientifica e adotando estes ensinamentos de valor religioso, o estudioso perceberá o sentido muito rico da história, aparentemente fabulosa, do dilúvio.


Referências:

(1) Para nós, é um anônimo; não se pode identificar com Moisés, mas é posterior a este. Ver Módulo l da 1ª Sub-etapa da 3ª Etapa.

Para ulterior aprofundamento, ver Módulo 39 deste Curso (bibliografia).

Perguntas sobre o Dilúvio Bíblico

1) Por que é tão longo o relato do dilúvio bíblico? Será uma narração simples?
2) O dilúvio bíblico foi fato histórico ou não? Explique.
3) O dilúvio bíblico foi universal?
4) Quais os ensinamentos religiosos de Gn 6-9?