Capítulo X. Do segundo fruto da terceira palavra
O segundo fruto desta terceira palavra colhe-se do mistério das três mulheres, que estavam junto da Cruz do Senhor; pois Maria Madalena representa os penitentes e os que começam a sê-lo; Maria de Cléofas os proficientes; Maria, Mãe de Cristo e Virgem, os perfeitos; e com ela podemos também reunir São João, virgem, e que dentro em pouco tempo havia de ser perfeito, se ainda não o era. São aqueles os únicos que se acham junto da Cruz do Senhor; porque os que vivem em pecado e não tratam de fazer penitência, afastam-se da Cruz que é a escada do Céu. Além disto todos os que estão junto da Cruz, tem motivo para lá estarem; pois precisam do auxílio do Crucificado, os penitentes ou incipientes estão em guerra aberta com os vícios e apetites desordenados, e muito precisam do auxílio de Cristo, nosso General, para se animarem a combater, vendo-o a lutar contra o Dragão, e não querendo descer da Cruz, sem dele obter completo triunfo, assim o diz o Apóstolo na sua Epístola aos Colossenses:

“Despojou os Principados e Potestades, e os trouxe confiadamente publicamente deles em si mesmo, e pouco antes Encravando na Cruz a cédula do decreto, que havia contra nós” (Col 2)

Os proficientes, representados por Maria de Cleofas, casada e mãe de filhos, que eram tidos em conta de irmãos do Senhor, precisam também do auxílio da Cruz, para que os cuidados e inquietações deste Mundo, em que necessariamente se acham envolvidos, não lhes afoguem a boa semente, nem deixem de pescar, trabalhando toda a noite. Devem por isso fazer por aproveitar e pôr os olhos em Cristo crucificado, que não satisfeito com as boas obras, muitas e grandes, que já tinha praticado, quis por meio da Cruz avançar a mais e não descer dela senão depois de vencido e derrotado o inimigo; pois nada há que mais prejudique aos que querem aproveitar no caminho da virtude, do que cansarem nele e pararem; porque neste caminho não progredir é andar para traz, como bem diz São Bernardo (1), escrevendo a Garino, e pondo-lhe para exemplo a Escada de Jacó, na qual todos sobem ou descem e ninguém está parado.

Finalmente até os mesmos perfeitos, que vivem no estado de solteiros, e principalmente se são virgens, como eram a Virgem Mãe de Cristo e o discípulo São João, por este motivo mais amado que os outros, até estes, digo, muito, carecem da proteção do Crucificado, pois os que estão em posição mais elevada, muito receio devem ter do vento da soberba, se não estiverem bem arrimados e enraizados em profundíssima humildade. Cristo, não obstante ter-se apresentado sempre o Mestre da humildade, como quando disse:

“Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt 11)

E quando de outra vez disse:

“Toma o último lugar” (Lc 14; Mt 11)

E tantas vezes repetiu:

“Todo o que se exalta será humilhado, e todo o que se humilha será exaltado” (Lc 18)

Contudo nunca se mostrou maior Mestre da humildade do que na cadeira da Cruz, o que o Apóstolo declarou, dizendo:

“Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até à morte, e morte da Cruz” (Fl 2)

Que maior humildade, pois pode imaginar-se do que deixar-se prender e crucificar, quem é Onipotente; e consentir quem em si tem encerrados todos os tesouros da sabedoria e da ciência de Deus (Col 2); em ser reputado louco por Herodes e pelos seus soldados, e em ser zombado, vestido com uma vestidura branca, e permitir quem se senta acima dos Querubins (Sl 98) ser crucificado entre ladrões? Certamente não terá docilidade nenhuma, quem, depois de se ver com atenção no espelho da Cruz, não confessar que está ainda muito longe da verdadeira humildade, por muitos que sejam os progressos que nela tenha feito.


Referências:

(1) Ep. 253

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(BELARMINO, Cardeal São Roberto. As Sete Palavras de Cristo na Cruz. Antiga Livraria Chadron, Porto, 1886, p. 104-107)